Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#361545 por divanei
15 Abr 2009, 16:02
A travessia da ponta da joatinga

Este roteiro ficou esquecido na minha gaveta durante vários anos.
Nós até tentamos faze – lo em um final de ano , a uns dois anos atrás , mas
por causa do mau tempo e da falta de vontade de um companheiro de trilha
acabámos nem viajando.

Diante do tédio e do marasmo que acomete todo bom aventureiro ávi-
do por trilha, sempre lia e relia o roteiro na esperança de um dia poder
por meus pés naquele que já foi considerado pelos maiores aventureiros
do país um dos lugares mais bonitos do mundo.

A ponta da joatinga é uma península, localizada no sul do estado do
rio de janeiro, divisa com ubatuba, no litoral norte de são paulo. Um litoral
todo recortado e pontilhado de pequenas ilhas . E relevo todo montan-
hoso, coberto de mata atlântica, e com altitudes que ultrapassam os mil
métros de altura . Também é característica da região as pequenas praias e
enseadas, com a água variando do verde para o azul e de transparência
única.

Previsão do tempo checada, mochilas arrumadas, saímos de campinas
no dia vinte sete de fevereiro, ás 17:30 da tarde, eu e um amigo do trabalho ,
o luis . Fomos para s. José dos campos, pois o ônibús que iria direto para
ubatuba, só partiria as 07:30 da noite, e não serviria a nosso propósito.
Imaginamos que seria mais fácil conseguir um ônibus para paratí-rj, na rodo
viária de s. José. Puro engano, pois todos já estavam lotados. O jeito foi fa-
zer uma conexão até caraguatatuba e de lá pegar um ônibus para Paratí.

O ônibus leva uma eternidade para chegar a paratí , no caminho deu
até para tirar um cochilo . Não sei como consegui acordar minutos antes
de avisar o motorista que iríamos descer. Na verdade nosso trajeto não
iria até a paratí, mas sim uns 15 quilometros antes. Então teríamos que des-
cer na rio-santos , pegar uma estradinha, e caminhar quase 10 quilômetros
até uma vila caiçara , chamada Paratí-mirim.

O ônibus chegou ao nosso destino a uma da madrugada, jogamos as
mochilas nas costas e nos pomos a caminhar, já que uma tempestade anunci
ava despencar sobre nossas cabeças. Caminhamos durante alguns minutos,
mas logo fomos obrigados a sacar nossas lanternas da mochila, pois a es-
curidão e a irregularidade da estradinha , teimavam em nos roubar preció-
sos minutos de caminhada. Ao nosso lado corria um grande rio, largo e ba-
rulhento, que dava ao local um ar de mistério. Vimos cruzando sobre o rio
várias pontes pênceis, denunciando ser um lugar pouco abitado e de difícil
locomoção. Foi muito legal nos balançarmos a noite naquelas pontes que
mais pareciam ter saido de um filme do indiana jones. Mas não podíamos fi-
carmos ali parados, pois os trovões e as centelhas dos relâmpagos come-
çavam a aparecer com mais intensidade. Antes que ficássemos todos molha-
dos tratamos logo de arrumar um lugar para acampar, já que parecia im-
possível chegarmos na praia antes da chuva . O primeiro bom local que en-
contramos foi a marquise de uma igreja evangélica . Claro que aquela ho-
ra da noite não havia ninguém para pedir autorização, mas mesmo assim abri-
mos a cerca e montamos nossa barraca, afinal tratava-se da casa de deus e
não acredito que o dono fosse se encomodar com nossa silênciosa pre-
sença . Já passavam das 3 horas da manhã, foi acabar de montar a barraca e
ver a tempestade desabar, para nossa sorte já estávamos envoltos em nos-
sos casulos de proteção . E então dormimos, tínhamos 3 dias duros e pra-
zeros pela frente, descançar agora era a palavra de ordem, nem que fos-
se por meras três horas de sono.

Acordamos pouco antes das sete da manhã, o tempo estava perfeito ,
não havia mais nem um sinal de chuva, aliás , como preveu a metereologia,
foram três dias de sol intenso, para nossa sorte. Desmontamos a barraca e
caminhamos mais uns vinte minutos até a praia .
Paratí-mirim é distrito de paratí, uma pequena vila de pescadores, que
moram surpreendentemente longe da praia . Na praia só uma igreja e algu-
mas ruinas. Eu imaginava o lugar cheio de pequenos comércios, alguns ba-
res, enfim um lugar turístico. Mas para minha surpresa encontrei um lugar
extremamente belo, cheio de paz e sossego , uma baia cheia de ilhas com
uma praia limpa, onde se podia avistar no horizonte toda a serra do mar,
com destaque para o imenso rochedo que parecia tocar o céu, a pedra do
frade, que claro nos agussou para uma possível escalada no futuro .

Tinhamos que conseguir uma canoa para atravessar o saco do maman-
guá, onde realmente começaria nossa caminhada. Tentamos conseguir uma
carona com um barco que estava carregando material de construção e que
ia para aquele destino, mas não obtivemos sucesso . Tentamos negociar a vi-
agem com outro caiçara, mas como ele queria nos explorar, mandamos tam-
bem ele a merda . Descobrimos conversando com outro caiçara que havia uma
trilha, de uma hora de caminhada que podia n0s levar a parte mais estreita do
canal onde a travessia era mais curta, e consequentemente mais barata .

Antes de pegar a tal trilha, aproveitamos para tomar um café . Foi ali na
praia que conhecemos nosso amigo scub . Não sei porque o luis colocou este
nome nele, pois o cachorro não se parecia em nada com o cão do famoso de-
senho, e ainda por cima era preto. O animal nos seguiu na trilha montanha aci-
ma, a trilha alias era de matar mula, com uma subida interminável, mas com
uma vegetação fantástica . Depois de uma hora chegamos a casa de um pesca-
dor, que por uma pequena quantia em dinheiro, se prontificou a fazer a tra-
vessia do saco do mamanguá.

O saco é o único fiorde do brasil, um grande canal com mais de 10 km de
comprimento e uns 2 km de largura . Um lugar muito piscoso e com algumas
casas de pescadores. Lá tem também pequenas prais de águas calmas e trans-
parentes.
A travessia não levou mais que quinze minutos , no barquinho a motor.
Infelismente nossa amigo scub teve que ficar para trás, nossas provisões só
davam para dois.
Desembarcamos na praia do engenho, uma pequena praia com uma gran-
de árvore no centro e uma pequena cachoeira no seu lado esquerdo. Quando
vimos a cor da água não resistimos, e tomamos um belo banho de mar, o primei-
ro , de uma série deles. Encontramos também uma bela estrela do mar. Para
tirar a o sal do corpo , apelamos para gélida cachoeira .

Já passava do meio dia quando começamos a caminhada para cruzar a
a ponta da cajaíba em direção a praia grande . Em meia hora de caminhada já
havíamos atingido uns 200 métros de altura, e dava para avistar o vai e vem de
alguns barquinhos no canal, mas foi realmente depois de mais de uma hora de
subida que o horizonte se descortinou na nossa frente, e pudemos avistar
uma imensidão de mar e céu, um cenário que nos fez esquecer o quanto foi
dura a subida . Em mais uns 15 minutos a subida acabou e pudemos avistar toda
a extenção da ponta da cajaíba . Passamos por uma queda de água, onde pude-
mos nos refrescar , antes da decida final até a praia .

Depois de mais de 2 horas de trilha, finalmente desembocamos na praia
grande da cajaíba.Antes mesmo de nossos pés tocarem a areia fomos surpre-
endidos com a presença de três boçais, que lembravam vagamente seres hu-
manos. Eram três emergúmenos bêbados e drogados, que assavam em um es-
peto um pobre gambá, e por cima ainda tiveram a petulância de nos convidar
para macabra refeição . Infelismente aconte de vez enquando de se cruzar
com algumas destas amébas no início das trilhas . Mas basta se distânciar da
civilização , e a paz volta a reinar soberana.

Deixamos estas escórias da humanidade para trás e começamos a camin-
har pela areia da praia . Grande e bela praia com quase um quilômetro de are-
ia . Semi selvagem, com umas quatro ou cinco casas de pescadores. Turistas
quase não há por aqui, talvez nos feriados prolongados apareça alguém por
aqui. O lugar é de difícil acesso , e como em toda a ponta da joatinga não há
estradas e nem enêrgia elétrica. Para se chegar até aqui só de barco ou a pé ,
por pesadas trilhas, como já descrevemos.
Como já estava tarde, resolvemos fazer nosso almoço aos pés de uma
cachoeira , que foi alcançada em meros 15 minutos de trilha, apartir do canto
esquedo da praia . A cachoeira em si não era muito grande, mas em compensa-
ção, tinha um gigantesco poço de águas cristalinas . E enquanto nosso almo-
ço cozinhava, aproveitamos o tempo para um refrescante mergulho.

Barriga cheia e corpo descançado voltamos a trilha , que nesta parte
é bem menos íngreme, pois corre quase rente ao mar. Levamos uma meia hora
para atingirmos a próxima praia, a pequena itaóca, com uma ilhota de mesmo
nome a frente. Praia semi-selvagem com algumas casinhas de pescadores, que
possivelmente estavam no mar pois não encontramos ninguém.

A próxima praia, calhéus ,até era bem habitada, de pescadores claro.Uma
grande pedra dava um charme todo especial a esta praia, excelente para um
bom mergulho livre, pena eu ter esquecido de trazer o meu snorkel..
Antes de se chegar a praia de ipanema, uma pequena cachoeira, com um
belo poço, é uma boa opção para outro banho . E o que dizer da praia de ipane-
ma ? Tem o nome igual a daquela famosa praia do rio de janeiro, com a diferen-
ça de ser praticamente selvagem, com apenas duas casas de caiçaras . Nós ví-
mos apenas duas crianças brincando na água e mais nada . A vontade era de fi-
car ali sentado durante horas, olhando para aquelas crianças e vendo como
a vida pode ser extremamente simples .

Nossa última praia do dia, ainda estava a uma hora de caminhada, talvez
menos, mas como já passava das 3 da tarde, não pudemos nos demorar muito
do alto avistávamos os pequenos barcos ancorados na pequena enseada da
praia do pouso, denunciando ser ali uma autêntica vila de pescadores. Alias
quando chegamos a praia pudemos constatar ser ali o lugar mais habitado
deste lado da joatinga. Existe na vila até uma pequena escola, e algumas ca-
sas contam com energia solar . Uma igrejinha e um pequeno campo de futebol
na areia da praia, fazem lembrar a nossa “civilização”, mas é só apenas isso,
vaga lembrança. Vale a pena lembrar que esta é uma região de difícil acesso ,
onde o mar é a única estrada e o barco o meio de locomoção.

Minha intenção era apartir daqui ,da praia do pouso, tentar atingir o
farol da joatinga . Pedimos informações para alguns caiçaras, que nos dis-
seram que levaríamos mais de três horas, caso não nos perdessemos na tri-
lha, para chegar até lá , e como já eram quase cinco horas da tarde, seria im-
possível chegarmos lá com sol.

Contrariando todos os avisos de “vocês não vào conseguir chegar lá”
e “ vocês vão se perder no escuro” , e mesmo contra vontade aparente do
meu conpanheiro de trilha, que já estava louco para acampar, seguimos en-
frente na trilha . Caminhávamos a uns 100 métros do nível do mar, enquanto o
sol já começava a se despedir do dia, indo se deitar a oeste. Andamos quase
uma hora seguindo a trilha com olhos de gato, buscando a trilha na escuri-
dão. E realmente estávamos tendo sucesso, quando derrepente a trilha, que
nós imaginávamos que seguiria sempre no rumo leste, virou-se para o norte,
nos empurrando para os penhascos do litoral. Como não tínhamos qualquer
informação deste desvio, resolvemos abortar a tentativa de chegar ao fa-
rol. A minha teimosia nos fez perder 3 horas de caminhada, que não nos levou
a lugar nenhum . Fiquei imaginando onde eu teria errado ? Em que lugar eu te-
ria perdido a trilha? Será que depois de tantos anos de caminhada, eu perde-
rá o faro de trilheiro? O certo é que tivemos que voltar na quase total es-
curidão, pois as pilhas das lanternas acabaram . Sem luz,perdemos temporari-
amente a trilha e tivemos que rasgar o mato no peito . Resumindo, só as nove
da noite é que chegamos a praia do pouso . Exaustos e com os músculos arre-
bentados, acampamos enfrente a igrejinha . O luis ficou tão cansado que co-
meçou a passar mau, vomitou muito e teve câimbras até na lingua . Já havia
acontecido isso uma vez com um outro amigo meu, quando escalamos o pico do corcovado de ubatuba. Na ocasião o indivíduo em questão foi obrigado a
desistir da escalada. Fiquei sabendo depois que isto se dá pelo ecesso de
algumas substâncias que o organismo acaba consumindo, sem termos tempo
de repó-las. Depois de tomar um providencial soro, ele melhorou e dormiu.
Acho realmente que exageramos neste primenro dia, mais de dez horas de
camiinhada , não é para qualquer um . Fui dormir antes que eu mesmo sucum-
bisse ao cansaço, já bastava um doente por hoje .

Acordamos no dia seguinte com a algazarra dos pescadores saindo ao
mar . Mais descansados e ainda doloridos, tratamos logo de fazer o café. Al-
gumas bolachas nos ajudaram a recompor as energias perdidas no dia ante-
rior . Conversando com um caiçara, descobri, que a trilha que nós pegamos
para o farol e desistimos por achar que ela estava seguindo na direção er-
rada, era realmente a trilha correta, e que depois que ela descesse até o
mar, voltaria na direção óbvia, o leste . Mas agora isso não importava mais,
definitivamente o nosso caminho agora seria para o sul, atravessaríamos pa-
ra o outro lado da joatinga , sem dúvida a parte mais selvagem e também a ma-
is bonita da travessia .
Com a barriga cheia , passamos por trás da igreja, cruzamos pela esco-
la e depois de atravessármos um riacho, sobre uma ponte rústica, pegamos
uma trilha que em pouco menos de uma hora de caminhada nos levou ao topo
da montanha . No caminho fizemos algumas paradas para apreciar pela última
vez, toda a baia da ilha grande . Adentrando agora na exuberante floresta ,
em meia hora de caminhada desembocamos na praia de martim de sá .

Com certeza, martim de sá é uma das mais belas praias do brasil, até su-
as ondas são de águas transparentes . Uns 500 métros de praia cercada pela
floresta praticamente intocada . A oste da praia o destaque fica por conta
do pico do cairuçu, uma imponente montanha com seu topo rochoso a 1070 mé-
tros de altura alias o pico empresta seu nome para a reserva, que é de pre-
servação ambiental . Uns 200 métros da praia moram apenas um velho caiçara
e sua esposa . Seu manoel nasceu aqui e erdou estas terras do seus pais e se-
us avós . Seu filhos moram em algumas praias e sacos, a algumas hora de ca-
minhada daqui . Aproveitamos para dar um belo mergulho, apesar de ainda ser
nove horas da manhã, o sol e o calor já eram intenso .Para tirar o sal do cor-
po, um rio de agua doce, que corre paralelo a praia é uma boa pedida .

Nos despedimos do seu manoel e seguimos viagem . Cruzamos mais um ria-
cho e adentramos novamente na mata , que aqui é bem úmida e gostosa de ca-
minhar . Não demoramos mais que meia hora para encontrar mais um riacho de
águas cristalinas e poços translúcidos . Não deu para resistir , jogamos as
mochilas no chão e “tbum” . Em mais trinta minutos descemos ao saco das
anchovas .
Aqui não há praia , apenas um pequeno porto feito com toras de madei-
ra por alguns pescadores que habitam este local selvagem e longe de tudo .
As poucas pessoas que moram aqui são filhos e netos de seu manoel , pessoas
simples e humildes, que ainda não se contaminaram com a civilização . O mar
calmo de águas verdes , transformaram esta pequena enseada cheia de pisci-
nas naturais , num paraiso para o mergulho . Nós , claro , não deixamos batido
e demos vários mergulhos . Peixes , ouriços do mar e alguns corais comple-
tão o espetáculo .
Depois de derretermos em mais uma grande subida, chegamos de novo
na trilha mestra , e em mais quarenta minutos atravessamos sobre uma pin-
guela, com dois troncos colocados entre duas grandes rochas . E então saí-
mos em uma roça de mandiocas, viramos a esquerda e descemos até encon-
trarmos algumas casas de pau-a-pique cobertas com sapê . Estávamos em mais
uma pequena praia , a praia do cairuçu . Para mim a mais fascinante de todas
as prais da travessia . A praia tem só uns 50 métros de areia, com grandes pe-
dras dentro e fora da água . No seu canto esquerdo uma bica de água doce ,
mata a sede e refresca o corpo. Mas o que mais impressiona são as piscinas
naturais que se forman no mar, a água é de um verde intenso . As rústicas ca-
noas parecem flutuar . Foi aqui que conhecemos mais um filho de seu manoel,
pescador nativo aqui da região . Moram aqui umas cinco famílias de caiçara,
que vivem da pesca de cerco . Montam a armadilha no mar e duas ou três ve-
zes por dia vão recolher os peixes .

Como já passava de uma hora da tarde, aproveitamos para preparar o
nosso almoço . Enquanto descançavamos, aproveitavamos para observar as
crianças brincando inocentemente no mar . Descobrimos que parte daquelas
crianças, não moravam ali . Vieram em uma canoa , da ponta da joatinga que fi-
cava a mais de cinco quilômetros do cairuçu . Imaginem vocês, crianças com
no máximo doze anos de idade navegando em uma embarcação rústica naquele
marzão, sem nem um adulto por perto . E nós da cidade não confiamos nem em
deixar nossos filhos irem à escola sozinhos .

Depois de um delicioso almoço e de um maravilhoso banho de mar, en-
quanto eu batia um papo com os caiçaras,o luis tentava tirar um merecido co-
chilo . E as três da tarde estávamos de volta a trilha .
Sem dúvida nenhuma esta é a parte mais selvagem da travessia . Monta-
has e florestas a perder de vista . A trila se afasta do litorar e começa a se-
guir no rumo sudoeste, aliás a informação que tínhamos era esta, nunca
abandonar o sudoeste . E foi o que nos fizemos durante quase uma hora ,
quando encontramos uma bifurcaçãona trilha . A trilha mais aberta e mais ba-
tida subtamente tomava o rumo oeste e a outra trilha, mais acanhada seguia
justamente para o sudoeste . Na dúvida resolvemos seguir a indicação que
tínhamos, metemos a cara para sudoeste, mesmo sendo a trilha menos batida .
Andamos por quase quarenta minutos, até descobrirmos que aquela era tão
somente uma trilha feita para retirar uma enorme árvore, que muito prová-
velmente havia sido tranformada em uma canoa . Frustrado e decepcionado
com o erro, resolvi não voltar a trás . Pensei ,se a trilha realmente é em dire-
ção ao sudoeste, muito provávelmente ela estaria correndo paralela a esta
trilha . Apontando minha bússola a oeste não teria como não localiza-la .

Nos enfiamos no meio da mata fechada, abrindo o mato no peito, ganhan-
do terreno aos poucos . A nossa preocupação era que a noite já se anunciava
e nós estávamos sem água, sem contar que não havia um metro de terreno plano no qual nós pudessemos armar nossa barraca . Enquando cruzávamos
mais outro vale, percebi no rosto do luis um ar de desespero, acho que ele ,
como eu , também não estava a fim de passar a noite sentado no meio da mata,
esperando o dia amanhecer . Pare se ter uma noção se continuássemos camin-
hando sempre naquela direção sem achar nemhuma trilha, provavelmente,
gastaríamos mais de uma semana para chegarmos na rio-santos, isto na hipó-
tese de conseguir atravessar os vales profundos e a região de mangue do
mamanguá . Depois de atravessar um morro com vegetação que teimava em
agarrar nas mochilas, encontrei de novo a trilha .

Sentado no meio da trilha, encostado em minha mochila , tive tempo de
ver o luis lutando bravamente para se livrar de alguns cipós . Sua cara real-
mente não era das melhores. Mais uma vez eu nos metera em outra enrrasca-
da , e pelo segundo dia consecutivo . Confesso, eu estava ficando bom nisso .

Depois de nos recompor, seguimos enfrente na trilha, o sol já estava
se pondo e a penumbra já estava quase nos atingindo, não podíamos nos demo-
rar , ou então teríamos que caminhar no escuro . Tratamos logo de achar
água, e realmente a encontramos depois de uns trinta e cinco minutos de ca-
minhada . Esta trilha é realmente muito pesada, não tem moleza, é só subida e
das brava . Nosso objetivo era simplesmente achar um local para acampar .
Tínhamos informações que no topo da serra haveria um gruta , no qual seria
possível montar algumas barracas . Mas quanto mais caminhávamos, mais o
terreno se tornava íngrime , estávamos andando em um grande panelão, cer-
cados de montanhas por todos os lados . Mas depois de passarmos por uma
bica e subirmos mais uma ladeira, lá estava ela , com sua enorme boca , a toca
da onça ou berta figueira , acabávamos de achar nosso hotel de selva . Tinha
um piso totalmente plano . Nem o mais otimista dos aventureiro pensaria em
encontrar um lugar tão maravilhoso para acampar quanto este . Jogamos as
mochilas no chão, e armamos logo nossa barraca. Em seguida fomos logo
preparar o nosso jantar . Um litro de água. Quatrocentos gramas de carne
seca que eu já havia tratado de dessalgar no almoço, batatas, pimentão e
dois pacotes de sopa instantânea , alguns minutos de cozimento e estava
pronta a nossa idrantante e energética refeição . Jantamos, apagamos as ve-
las e fomos dormir na mais completa escuridão .

Acordamos as seis e pouco da manhã com a algazarra dos macacos, que
pelo que parece são numerosos nesta regiào . Tomamos café, desmontamos
a barraca e partimos para nosso último dia de caminhada .
Em vinte minutos de trilha descobrimos que realmente estávamos no
topo da montanha, e apartir daí só descemos . Aliás a trilha é linda, cruzamos
com vários riachos e depois de cinquienta minutos saímos de vez da mata e co-
meçamos a andar em vegetação semelhante ao do cerrado e finalmente depo-
is de mais de uma hora e de cruzar mais um rio de águas cristalinas chegamos
a praia da ponta negra .

É aqui na ponta negra que chegam os barcos vindo do saco das ancho-
vas , que são alugados por alguns trilheiros meia boca , que não conseguem
vir pela trilha . Eles acham 4 horas montanha acima uma coisa do outro mun-
do . Azar deles que acabam perdendo a parte mais selvagem da travessia .
A praia da ponta negra é uma típica vila de pescadores . Conta com mais
ou menos uns trezentos metros de areia , com vários ranchos para guardar
suas pequenas embarcações .Andamos por toda a da praia e encontramos
uma pequena trilha ingrime, que em pouco mais de quinze minutos nos levou
ao topo da montanha , e então pudemos avistar lá de cima toda a beleza desta
praia de águas azuis e calmas . A trilha seguiu – se em nível , até avistarmos a
enseada da praia das galhetas , que de praia não tem nada . É apenas um amon-
toado de pedras de vários formatos .Sua maior atração maior é mesmo um
rio de águas transparentes que desce da serra e deságua no mar . . Atraves-
sando exatamente este rio, chegamos ao fim da praia e subimos outra encosta
e por mais meia hora descemos até a praia de antiguinhos . Esta sim pode ser
chamada de praia totalmente selvagem . Não tem casas , ranchos de pescas e
nem qualquer outra coisa que lembre civilização . Sobre sua areia fofa, cor-
re um riacho de água doce . Aproveitamos para nos refrescar no mar e no ria-
cho . Fiquei imaginando como seria maravilhoso acampar aqui neste pequeno
paraiso . Mas infelismente não será desta vez , depois de um breve lanche se-
guimos nosso caminho , e em mais quinze minutos já estávamos em outra
pérola deste litoral, a enorme e também selvagem praia de antigos . Mais uma
praia do sonhos de qualquer aventureiro . Depois de bater um papo com um
carioca que estava acampado nesta praia , voltamos a nossa trilha para em mais quarenta minutos avistarmos de cima de uma montanha .A mais bela vista
de toda a travessia da ponta da joatinga , a praia do sono .

Inacreditável , surpreendente , maguinífica , assim pode ser definida a vi-
são desta praia . São coisas assim que fazem valer qualquer caminhada . Uma
grande praia com dois quilômetros de extenção , de areias brancas que se
contrasta com o verde intenso das florestas que a cercam . Depois de ficar-
mos , merecidamente, por algum tempo contemplândo esta praia de cima , des-
cemos até sua areia . Tomamos nosso último banho da viagem no rio de águas
frias que desagua no seu canto esquerdo , e a atravessamos bem devagar , já
sabendo ser esta a derradeira praia da nossa travessia . A praia é bem habita-
da , com vários barzinhos e outros pequenos comércio . É impressionante a
quantidade de bichos grilo que vimos por aqui . Ainda não existem estradas
para chegar até aqui , mas por ser mais próximo da civilização, apenas 1 hora
e meia de trilha, acredito que nos finas de semana esta praia seja bem fre-
quentada, mas como passamos aqui em uma segunda-feira, não encontramos
ninguém, só os próprios moradores , os tais bichos grilos .

Confesso que não foi fácil enfrentar mais uma hora e meia até o final
da trilha , o sol estava de rachar côco , e convenhamos, andar sabendo que
não teremos mais nenhuma água no qual nos refrescarmos é meio desanima-
dor , mas assim mesmo seguimos nosso destino, até sairmos no bairro de la-
ranjeiras , onde um condôminio não deixa ninguem chegar até a praia . Se não
bastasse a exclusão social , agora tambem temos a exclusão de nossas
áreas naturais . Depois de tomarmos um merecido e bem gelado refrigeran-
te e de trocarmos de roupa , pegamos o ônibus até a cidade histórica de pa-
ratí .
Paratí, com seus históricos casarões de mais de trezentos anos, já foi
um importante porto , responsável principalmente pela saída de quase todo
o ouro , vindo principalmente das jazidas de minas gerais . Depois de uma bre-
ve visita, comemos alguma coisa na rodoviária , enquando um “simpático” sor-
veteiro insistia em gritar nos nossos ouvidos (pecolé..! Pecolé..! ) .

Como não havia nenhum ônibus para campinas ou mesmo para são paulo,
resolvemos pegar um até a divisa com ubatuba , que em quarenta minutos nos
deixou na cachoeira da escada, a três quilômetros da praia de camburi . Como
tinhamos algum tempo antes de pegarmos o próximo ônibus até a própria ci-
dade , aproveitamos para visitar a cachoeira , uma bela queda com uns 15 me-
tros de altura e uns 50 de largura . O ônibus que sai daqui da divisa dos dois
estados, percorre mais de 50 km até chegar a ubatuba . No caminho ainda deu
para observar os caiçaras que subiam e desciam do veículo , gente simples
que habitam este maravilhoso litoral , com suas praias e montanhas quase
intocadas , que com justiça foi escolhido um dos lugares mais bonitos do pla-
neta . Um lugar que não se revela para qualquer um , só para os ousados e
determinados que se dispuserem a abandonar este mundo de mesmice e ir ao
encontro de suas origens , do tempo em que o homem só podia contar com si-
go mesmo , do tempo em que o homem precisava apenas da natureza para ser
feliz ..................



Divanei Março de 2004 .

#371090 por bankrut
28 Mai 2009, 04:03
Muito bom o texto! Fui de Martins de Sa a praia do Sono em abril de 2008, e realmente a subida do pico do Cairuçu eh punk! e o engracado eh que eu e meus dois amigos acampamos na mesma gruta hahuahua soh um tinha isolante termico e fico numa boa, eu e o outro morremos de frio durante a noite, a pedra tava congelante!! huahuahauha meu amigo tirou uma foto do celular dele mas quase nao da pra ver nada.. Imagem

abraco!
#371536 por divanei
29 Mai 2009, 22:06
Tivemos muita sorte de pegar 3 lindos dias de sol . O mar estava muito calmo e transparente .Tirtei uma das melhores fotos de praia da minha vida . Geralmente o mar é sempre agitado por lá . Não é atoa que o litoral norte de SP e sul do Rio foi escolhido um dos lugares mais bonitos do mundo .
#409381 por Rafael Perafam
08 Out 2009, 16:15
Cris, estou a fim sim!!!! Agora minha duvida e se vou aguentar, kkkkkkk. Mas tem um tempo ainda para se preparar.
Legal vc ter se animado tbm. Bom que temos a Vivi para guiar a Trip.
Vamos nessa então.

Bjks
#409393 por piacitelli
08 Out 2009, 16:38
Olá.

Pra quem vai, se tiverem GPS, em
tracklogs-mapas-t26577.html#p349762

Disponibilizei o arquivo da travessia. Fiz no final de 2008. É realmente linda. Fantástica. Somente a subida do morro (se não me falha a memoria 560m de altitude) é que pega um pouco os menos preparados. Fora isso...só diversão...e mesmo assim a subida não é nada de matar.

Abraços
#409401 por Raffa
08 Out 2009, 16:48
Meu camarada ! parabens ! um dia vou ter paciencia de detalhar assim minhas trilhas rsrs

Eu ja conheço a Praia do Sono, principalmente a Ponta negra, uma das mais lindas que eu ja conheci.
Agora quero fazer essa travessia, estou programando para fazer no feriado de 2/11 ou até no feriado da consciencia negra, dia 20/11.

quem estiver indo nesses dias, dá um toque

abs
#409518 por Cacius
08 Out 2009, 23:40
Belo relato, Divanei. Tu anda cativando pela escrita. Leva a galera pra história. E cada vez que vejo tuas fotos no orkut, me dá uma inveja (mas inveja boa) que vou te contar! ::otemo::
#409660 por Vivi Mar
09 Out 2009, 15:25
E ae Rafael, topa ou não topa????
kkkkkkk
Vamos nessa???

Vamos fazer esta travessia ao contrário, começando em Laranjeiras, e finalizando em Pouso da Cajaiba. Depois em Paraty. São 3 dias de caminhada por praias. É show. E como bonus os Sem Limites ainda vão curtir o ultimo dia do Festival Internacional de Cinema lá em Paraty.
kkk. Topa???

Saimos de sampa amanhã bem cedinho, ou hoje na madruga. Eu, Cris, Fábio, e talvez também Katia, Well, e Rafael.
E Laranjeiras fica ali ao ladinho de Trindade, vc não teria dificuldade alguma em nos encontrar lá.

Bom, se resolver ir, tem nossos fones né. Só dar um alô.
PS: Prometo que dessa vez vc irá nos conhecer de verdade, kkk, pois vamos pra trilha ok, rs, bebemorar só no final "talvez"...kkkkk

Bjãooooooooo
Vivi´s
#409765 por Rafael Perafam
09 Out 2009, 21:43
Vivi SP escreveu:E ae Rafael, topa ou não topa????
kkkkkkk
Vamos nessa???

Vamos fazer esta travessia ao contrário, começando em Laranjeiras, e finalizando em Pouso da Cajaiba. Depois em Paraty. São 3 dias de caminhada por praias. É show. E como bonus os Sem Limites ainda vão curtir o ultimo dia do Festival Internacional de Cinema lá em Paraty.
kkk. Topa???

Saimos de sampa amanhã bem cedinho, ou hoje na madruga. Eu, Cris, Fábio, e talvez também Katia, Well, e Rafael.
E Laranjeiras fica ali ao ladinho de Trindade, vc não teria dificuldade alguma em nos encontrar lá.

Bom, se resolver ir, tem nossos fones né. Só dar um alô.
PS: Prometo que dessa vez vc irá nos conhecer de verdade, kkk, pois vamos pra trilha ok, rs, bebemorar só no final "talvez"...kkkkk

Bjãooooooooo
Vivi´s



Fala ai Vivi!!!!

Poxa, estava falando como fábio de tarde, estou amarradão para fazer esta travessia, mas infelizmente não vou topar neste fds, tenho umas coisas para resolver por aqui.
Mas estarei aqui torcendo para que São Pedro alivie e mande um Sol para que meus amigos possam curtir a travessia.

Bom passeio para vcs!!!!
Bjs

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