Era a minha primeira incursão nessa região da Mantiqueira e logo de cara resolvi fazer a travessia Marins-Itaguaré, mas no sentido inverso, entrando pelo Pico do Itaguaré e finalizando no Marins.
Como era uma semana de recesso na faculdade (por causa da Semana Santa) e algumas folgas que consegui no trabalho, tinha uma disponibilidade de alguns dias para fazer essa trilha (a gente nunca sabe quando pode acontecer algum imprevisto né!).
Quem também resolveu embarcar nessa comigo foi o Sérgio (amigo de faculdade).
Fotos dessa travessia com alguns croquis: http://agsts.multiply.com/photos/album/127
Para essa trilha só tava levando o relato do Sérgio Beck que iria ser nossa referência, mas na dúvida resolvi ligar para o Maeda do CEC de Campinas (fuçando na Internet achei o telefone dele - na verdade ele até possui uma pousada/camping na região, no lado norte do Pico do Marinzinho - Site da Pousada/Camping: clique aqui).
O Maeda para quem não conhece, foi o cara que abriu essa travessia a muitos anos atrás.
Aqui tem uma foto bem recente dele: clique aqui
Falei sobre como tava a trilha e a minha intenção de fazer a travessia e o que ele me disse já me deixou mais tranqüilo.
Nosso objetivo era chegar no topo do Itaguaré no primeiro dia e no dia seguinte realizar a travessia.
No dia combinado com o Sérgio, o encontrei na Rodoviária do Tietê por volta das 07:30 hrs e embarcamos em direção à Passa Quatro/MG no ônibus das 08:00 hrs (um pouco tarde, mas era a única opção).
Depois que o ônibus termina a subida da Serra da Mantiqueira, passamos ao lado de um Monumento que fica bem na divisa SP/MG, onde existe uma imagem de Nossa senhora Aparecida e daqui para frente a estrada ainda passa ao lado de um posto de gasolina e depois de uns 5 Km desde a divisa, descemos do ônibus.
Aqui existe uma estradinha que segue descendo à esquerda até um pequeno vale, em direção ao Bairro do Caxambú (pertencente à cidade de Passa Quatro).

Saltamos aqui por volta das 12:00 hrs e depois do pequeno trecho de descida cruzamos uma linha férrea e seguindo no plano até passar ao lado de uma igrejinha.
Depois do trecho no bairro de Caxambú acaba a alegria e iniciamos a longa subida íngreme que vai nos levando serra acima.
A todo o momento olhava para trás para ver como o Sérgio tava agüentando a subida e sempre ouvia dele as mesmas palavras: “tô animado.....tô animado.....” .
Depois de uns 40 minutos de subida fiz uma burrada que depois iria nos custar muito caro: recusei uma carona em uma picape. Disse para o motorista que a gente queria caminhar, já que era a primeira vez naquela região, imaginando que a subida não fosse tão forte assim (não deveria ter feito isso, mas já era tarde).
Expliquei ao Sérgio o que tinha feito e ele entendeu (naquele momento tudo bem, mas creio que até hoje ele se arrepende, como eu também).
A caminhada continua seguindo rumo acima tendo um rio à direita no fundo do vale e com belas vistas da Serra Fina atrás da gente. Ao longo da subida o Sol vai castigando porque são pastos à esquerda e à direita.
A água que tínhamos trazido era de são Paulo e estava acabando e segundo o relato do Beck, logo encontraríamos o precioso líquido quase no final da subida.
Conforme avançávamos, a estrada seguia para a esquerda, mas sempre rumo ascendente e pouco depois das 14:30 hrs chegamos a uma pequena bica de água do lado direito da estrada e aqui já seguíamos por mata fechada com o Sol dando uma aliviada.
Mais uns 10 minutos e terminamos a subida, marcada por um “mata-burro” e logo à frente chegamos na primeira bifurcação onde existe uma placa apontando uma Fazenda que produz mel para a direita, mas nossa direção é seguir na bifurcação para a esquerda. Um pouco à frente já quase se avista um grande lago à direita e a estrada vai seguindo próximo a ele, do lado esquerdo.
Mais duas bifurcações aparecem à esquerda, mas nosso caminho é seguir acompanhado o lago do lado direito.
A estrada segue agora por plantações de eucaliptos reflorestados à direita e à esquerda e cerca de 1 hora depois do final da subida chegamos em uma outra bifurcação para a direita que leva a algumas casas; ignoramos e continuamos seguindo em frente.
Alguns pequenos riachos cruzam com a estrada e logo chegamos em uma porteira que estava fechada a cadeado, mas um pequeno portão ao lado permite o acesso e junto dela existem outras casas do lado direito.
O trecho é todo no plano e com isso resolvemos apertar o passo, porque já era mais de 16:00 hrs e ainda tínhamos uma boa caminhada pela frente.

Mais uns 30 minutos e chegamos a outras casas e a uma outra porteira fechada a cadeado e daqui já é possível avistar o Pico do Itaguaré bem à esquerda e ao fundo o Pico do Marinzinho.
A estrada termina nessa porteira e cruzando ela, se chega a uma outra que vem da direita e segue para esquerda e foi por onde seguimos, ainda sempre no plano (aqui não tem erro, é sempre seguir na direção leste).
Logo cruzamos uma ponte sobre um rio e bem mais à frente aparece uma bifurcação à direita que nos confundiu e por isso paramos por um certo tempo para estudar a carta topográfica e o relato do Beck (no croqui ele desenhou essa bifurcação).
Aqui seguimos pela estrada principal (na bifurcação para esquerda), procurando o descampado à esquerda que o Beck relatava e por volta das 17:15 hrs chegamos.
Finalmente depois de pouco mais de 5 horas desde a Rodovia, vamos iniciar a subida pela trilha na mata fechada.
O descampado é um gramado perfeito para um acampamento, já que ele é todo no plano e com um pequeno riacho bem ao lado.
Só paramos aqui para pegar água porque ainda restava uma caminhada íngreme até o topo do Itaguaré.
A trilha segue para a esquerda seguindo o riacho, passando por uma canaleta e uns 5 minutos de trilha e já temos de cruzar o riacho para a direita e aqui resolvemos pegar água porque não tínhamos certeza se encontraríamos mais no Itaguaré.
Mais uns 40 minutos e passamos ao lado de uma enorme pedra do lado direito e a partir daqui a subida, propriamente dita, se inicia.
A trilha é bem fácil de visualizar já que ela está quase que totalmente erodida e só tínhamos um pequeno problema: o Sol já estava se pondo e logo chegaria a noite e talvez não conseguiríamos chegar no topo antes do anoitecer, por isso, mesmo que cansados começamos a subir mais rápido, passando ao lado de algumas pedras à direita que podem servir de bivaque ou até acampar, mas resolvemos continuar subindo.
Pouco depois das 18:00 hrs começou a escurecer e resolvi ligar a lanterna e torcendo para que terminássemos a subida e pouco antes das 19:00 hrs chegamos na base das primeiras lajes e aqui era até perigoso continuar subindo porque só tínhamos 1 lanterna (outra cagada minha).
Conversei com o Sérgio e pedi para ele ficar aqui na base das lajes e com as mochilas, enquanto eu ia subindo para procurar um local plano para montarmos a barraca.
Depois de uns 20 minutos voltei para avisar o Sérgio e pegar as mochilas, pois havia um local por entre a vegetação onde poderíamos acampar.

Não era um local perfeito, já que não era a base do Itaguaré (lá sim, existiam bons lugares para acampar), mas que serviria para dormirmos aquela noite.
Depois de montada a barraca e um jantar merecido a temperatura diminui bastante e nem saímos para apreciar a noite.

Por volta das 08:00 hrs do dia seguinte acordamos e pudemos presenciar ótimos visuais, já que ao redor do pico estava tudo encoberto pela neblina (na verdade estávamos acima dessa neblina) e olhando para sul e sudeste, só víamos um colchão de nuvens por sobre o Vale do Paraíba. Para o norte só víamos algumas nuvens que iam se dispersando.

Depois do café da manhã e desmontada a barraca, fomos seguir para a travessia até o Marins e conforme íamos subindo alguns totens orientavam a trilha e depois de uns 15 minutos (por volta das 09:30 hrs) chegamos na base do Pico do Itaguaré.
Aqui existem 3 topos (um ao sul, mas um pouco mais abaixo do Itaguaré, outro mais baixo ainda, pelo lado norte, próximo de onde tínhamos acampado e outro o próprio cume do Itaguaré a oeste) e com um pequeno riacho em um vale entre eles.
A água é de pouca quantidade e no inverno não é bom confiar, pois a nascente pode secar.

O Itaguaré é bem fácil de identificar, pois está bem a oeste, mas ainda existe uma longa subida e resolvemos seguir para o topo e procurar a continuação da trilha (se tivéssemos olhado o croqui e as anotações do Beck não teríamos cometido essa burrada).

Na subida existem alguns trechos perigosos, sendo que em um deles tivemos de pular de uma pedra para outra por um precipício, que só de olhar já dava medo.
Próximo ao topo tínhamos uma linda vista para o sul, oeste e ao leste, mas nada de trilha, então chegamos a conclusão que trilha aqui não existe.
Depois de checar as anotações do Beck vimos a cagada que tínhamos feito e descemos até a base, mas perdemos tempo precioso que nos atrasaria na travessia (já era por volta das 10:30 hrs).
Na descida do Itaguaré encontramos um grupo que tinha vindo pela mesma trilha que a gente e disseram que tinham deixado o carro lá no descampado, junto da estrada. Nos despedimos de todos e enquanto eles subiam, agora era procurar os totens que marcam a trilha em direção ao Pico do Marins.

Ela se inicia bem a direita da base do Itaguaré e os totens existentes podem orientar melhor por qual caminho seguir e foi o que fizemos (isso pouco depois das 11:00 hrs).
Nossa direção agora era seguir descendo por uns 15 minutos até chegarmos em um trecho onde as pedras dificultam muito a passagem e aqui foi preciso tirar as mochilas e içá-las para transpor as pedras e já na saída desse trecho os totens ajudam a se orientar seguindo descendo mais ainda e logo atravessamos um trecho de bambuzal.
Até aqui foi só descida e daqui para frente seguimos subindo se orientando por algumas fitas presas nos galhos até emergirmos por entre as lajes de pedras onde pode-se apreciar a vista do Pico do Itaguaré.
Nesse trecho ele aparece em todo o seu esplendor atrás e vale alguns minutos para contemplá-lo.
O pessoal que encontramos na descida do Itaguaré já tava no topo e que mereceu uma bela foto.

A trilha aqui é por entre a vegetação de arbustos baixa e não mais que 20 minutos começamos a descer de novo e por volta das 12:30 hrs chegamos numa área com lugares planos (alguns acampam aqui, porque encontramos alguns vestígios).
Outra pequena subidinha básica e mais um trecho de bambuzal, mas esses de troncos bem finos e se orientando por alguns totens que são vistos em cima das lajes de pedras.
Não chegamos ainda no topo da crista, mas vamos subindo para chegar lá e a trilha vai seguindo para esquerda evitando um vale muito grande à direita. Pelo menos a subida deu uma aliviada, mas havia uma outra que levava até a Pedra Redonda.
A trilha é um pouco confusa e vamos procurando pelas fitas brancas e amarelas e alguns totens que vão nos orientando e conforme vamos subindo já conseguimos ver a Pedra Redonda lá em cima à esquerda, mas antes passamos por um trecho de capim elefante bem alto, onde encontramos alguns descampados perfeitos para montar barracas.
O problema aqui é a falta de água. Quando passamos próximo a esses descampados cruzamos com um mochileiro que estava fazendo a travessia, vindo do Marins e que pretendia chegar no Itaguaré no final da tarde.

Desde o Itaguaré já passamos por vários vales e todos com subidas e descidas e por volta das 14:30 hrs estávamos subindo ao acesso final da Pedra Redonda localizada bem na crista e no topo do morro.
Aqui o visual é de 360º e para quem vê ao longe a Pedra Redonda tem a impressão que a mesma é redonda, mas não é.
Na verdade ela está rachada ao meio e fizemos uma parada para um lanche.
Embaixo da pedra encontramos uma caixa com um livro de anotações com várias mensagens de quem passou por aqui e deixamos nossas contribuições e pouco antes das 15:00 hrs seguimos em direção ao Marins que aparecia bem visível à sudeste e a oeste o Marinzinho dava a impressão de estar muito próximo.
A trilha agora vai descendo da crista, seguindo para a direita com vistas ao norte e passando ao lado de matacões com totens servindo de orientação.
A vegetação é sempre de arbustos e com vários trechos de bambuzal e uma coisa nos preocupava: o horário.
Só de olhar a íngreme subida do Pico do Marinzinho já sentíamos cansaço e o cair da noite poderia nos pegar antes de chegar no Marins.
A partir da Pedra Redonda a trilha já fica mais fácil, pois as subidas e descidas mais difíceis acabaram.
Por volta das 17:00 hrs começamos a descer pela trilha e aqui encontramos uma corda que ajuda na descida até o fundo do vale.
A água já tava acabando e tínhamos ainda uma longa subida da encosta à frente e como já estávamos bem cansados fomos parando em diversos momentos para retomar o fôlego.
Aqui na subida existe um trecho muito íngreme onde foi colocado uma corda que estava em perfeitas condições e logo que atravessamos esse trecho demos de cara com um cachorro, que provavelmente tinha chegado até ali, mas não conseguiu descer.

Tentamos por várias vezes fazer o bicho voltar para o topo, mas sem sucesso, por isso desistimos.
Começou a surgir um problema: a neblina já começava a tomar conta de todo o lado leste e ainda não tínhamos chegado no topo e depois de pouco mais de 1 hora, terminava a última subida.
Aqui existem alguns lugares planos e protegidos, mas sem o precioso líquido e sem ele era complicado acampar aqui, por isso continuamos a descer e não demorou nem uns 10 minutos o Rei Sol foi se embora.
Pensamos: agora f...., mas não tínhamos opção, pois era acampar aqui sem água ou descer até a base do Marins.
Escolhemos a segunda opção e com a ajuda da lanterna eu o Sérgio fomos descendo tomando o rumo da direita para evitar as lajes de pedra.
Por essa direção havia vegetação e logo chegamos em um trecho instransponível e aqui não tinha como passar, então voltamos um pouco e seguimos bordejando para a direita.
Pelo menos já conseguíamos ver algumas luzes de barracas que estavam junto ao riacho da base do Marins e fomos nos orientando por elas.
Na total escuridão, já que as pilhas da lanterna tinham se esgotado nem procurávamos a trilha e os totens; nossa direção era sempre seguir as luzes lá embaixo e assim fomos descendo tomando rumo um pouco para esquerda, mas as lajes ficavam cada vez mais inclinada e de vez em quando éramos obrigados a seguir para a direita.
Com as luzes das barracas bem próximas resolvemos descer em direção à nascente do riacho à esquerda e não foi fácil.
Já era pouco mais das 19:00 hrs e eu ainda tinha a pretensão de acampar no topo do Marins, mas o Sérgio só pensava em chegar nas barracas e em um trecho onde a encosta era bem íngreme ele escorregou e foi cair em um pequena piscina, onde se molhou até quase a cintura.
Pensei comigo: acho melhor acamparmos na base mesmo, porque depois dessa o Sérgio com certeza não queria pegar a trilha até o topo com a roupa toda encharcada.
Exaustos pelo cansaço e na total escuridão chegamos nas barracas, com sede e famintos, mas felizes.
Depois de conhecer a galera que ajudou a nos orientar na descida fomos montar a barraca e fazer o jantar.
Tínhamos levado quase 9 horas de caminhada desde o Itaguaré e aquele dia tinha servido de lição, pois tínhamos cometido várias cagadas e no final poderia ter acabado de uma forma até pior.
Combinei com o Sérgio que assim que acordasse seguiria para o topo do Marins e depois desceríamos em direção à Rodovia.

Logo pela manhã, tentei fazer com ele subisse comigo, mas em vão. A subida é super fácil e a trilha bem demarcada com totens (até desnecessários). Lá no topo o local estava cheio de barracas e seria até complicado encontrar uma vaga para a barraca na noite anterior. Voltei para a base e a galera que estava acampada ao lado nos ofereceu carona até a Rodovia, que aceitamos na hora. Eles tinham vindo de Kombi e deixaram-na um pouco abaixo do Morro do Careca.

Mochilas nas costas, seguimos descendo a trilha com a galera e íamos contornando o morro a noroeste com trechos bem íngremes. Bem demarcada, com totens e algumas setas pintadas nas pedras a trilha é tranqüila e logo chegamos no Morro do Careca e de Kombi seguimos para a Rodovia, onde chegamos por volta das 11:00 hrs e aqui só foi aguardar o ônibus que seguia direto para Sampa, vindo de Itajubá.
Ficou como lição essa travessia e depois dessa sempre carreguei 2 lanternas na mochila com pilhas extras e sempre de um ponto de água a outro carreguei mais que o necessário.
Depois dessa travessia voltei lá por mais duas vezes, sendo que a segunda eu fui sozinho (não dei muita sorte porque tive alguns problemas e na terceira eu estava fazendo as travessias Marins-Itaguaré, Serra Fina e Serra Negra de uma vez só.
O relato dessa travessia está aqui: http://www.mochileiros.com/travessias-marins-itaguare-serra-fina-e-serra-negra-juntas-em-uma-so-caminhada-t1100.html











Resumo