Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#1067864 por Vgn Vagner
14 Mar 2015, 17:42
Até que enfim havia chegado mais um final de semana em que eu estaria livre. Minha intenção era acampar selvagem em algum roteiro ainda inédito pra mim, mas meus companheiros, vários dos que contatei/convidei, se recusaram a tal coisa. E como eu não estava nem um pouco afim de pernoitar na mata sozinho, me contentei em montar um roteiro de bate/volta mesmo. Meti a cara na fente do notebook e me pus a buscar destinos "cachoeirísticos" próximos de São Paulo capital, me interessei por inúmeros lugares, claro, mas o escolhido desta vez foi Votorantim, cidade vizinha de Sorocaba, Alumínio, Mairinque, entres outras.
Ainda na web, encontrei dois relatos, um bem básico e outro mais complicado que me ajudaram ter um norte mediante ao intento. As imagens via satélite, crocks e tracklogs me deixaram mais a par da região, e foram meus instrumentos de direção, já que eu nunca havia caminhado por aquelas terras.
A previsão do tempo não era das melhores, e isso fez com que um ou outro amigo recuasse. Mas não nós: Léo Almeida, Tony Eduardo, Daniela e Vgn Vagner. Ficar em casa, assistindo Regina Casé, Faustão, Temperatura Máxima, não estava nos nossos planos de domingo. Mesmo que caísse chuva.

Relato

Antes mesmo do galo cantar, às 04:40 h da madruga, eu já estava acordando pra tomar o rumo que pretendia, e alcançar, se conseguíssemos, as três cachoeiras que estavam no pacote do dia: Cach do Chá, Cach de São Francisco (Light) e Cach da Escadaria.
Se algo não desse certo, a culpa cairia sobre meus ombros, pois o único que tinha pesquisado, estudado as rotas, pontos de acesso, era eu.
Justamente nesse dia, por acaso, decidi testar um aplicativo para Smartphone que promete reconhecer arquivos gpx. Testei ele na data anterior perto de casa, e o danado respondeu às expectativas. Pronto, seria ele com suas coordenadas, que nos levaria até as cachoeiras. Menos a do chá, que é de fácil acesso.

Era quase sete horas da manhã quando pegamos a Rodovia Raposo Tavares (SP-270), com trânsito livre de um sábado qualquer, sem a circulação rotineira de caminhões e carretas que quase param os dois sentidos, após um pedágio e quase duas horas de vigem, chegamos na cidade de Votorantim.
A primeira cachoeira, a do Chá, fica bem no centro da cidade, e sendo assim, é bem fácil de chegar até ela seguindo as placas que estão pelas ruas. Mas ao meu ver (acho que de meus amigos também), é um lugar que é bom passar longe. Dá desgosto de ver a situação daquele lugar, tanto é que, só paramos rapidamente para tirar umas fotos e poder tirar a conclusão do quê que é aquilo. Muito lixo espalhado pelo local, o capim alto, um cheio estranho dão aspectos de ser um esgoto a céu aberto. Fora que para se chegar até lá, se passa por uma quebrada bem feia (mais feia que a minha), e é fácil encontrar meliantes usando uma droguinha numa sombra de árvore às margens do rio. A ideia de que várias pessoas já morreram afogadas naquela bacia de águas escuras, traz uma sensação de repulsa, fica um clima pesado no ar. Saímos rápido dali.

Nossa próxima parada era na barragem da Represa Itupararanga, com seus 415 mts de comprimento e 38 mts de altura, construída no cânion do Rio Sorocaba, na Serra de São Francisco, alcançada pela estrada municipal a de uns 10 km’s da cidade.
Por ali, depois de atravessar a barragem, há uma Marina, que procuramos deixar o carro, mesmo que mediante a pagamento, mas só é possível para sócios do club. Deixar o carro na beira da estrada seria perigoso, como muitos dizem, mas foi essa alternativa que nos restou. Paramos o Bússola de Prata na frente da entrada da trilha (onde já havia um Palio parado), e seguimos o caminho que se apresentava a nós.
Não tem erro, é só seguir o caminho batido, que logo, e sem perceber, já começa a perder altitude indo de encontro ao que parecia ser o Rio Pirajibú Mirim. O coitado estava tão seco, mais tão seco, que nem dava pra chamar aquilo de rio. A galera até tirou um sarro da minha cara, dizendo que não iria ter cachoeira nenhuma onde estávamos indo (só um chuveirinho kkk). A salvação, é que nas proximidades da cachoeira da Hidro desce uma corredeira bem forte e volumosa fazendo confluência com o Pirajibú, e “o ruim”, é que antes de despencar de seus 30 e poucos metros, o rio é represado novamente. Dessa vez numa represa bem menor, ao lado da residência do Sr. Clemente.

Seguimos em um caminho largo, que na verdade, se trata de uma estrada por onde passam os carros/caminhões que fazem a manutenção das tubulações de captação de água. Lagartos (teiús) aparecem aos montes pelo caminho, grades de aço, formam uma cerca gigantesca , enormes (imagine o tamanho dos cachorros kkk), na intenção de impedir que rochas rolem morro abaixo em tempos de tempestades. Será que segura ???
A entrada de acesso ao vale fica bem escondida, tanto é que, passamos direto e chegamos a uma espécie de ponte que afunila a estrada sendo protegida por paredes em ambos os lados. Percebido o erro, voltamos a farejar esse tal acesso um pouco mais acima. Foi dali que tivemos a certeza de que em breve estaríamos na base da tão desejada cachoeira.
Uma piramba desgramada, sem vegetação próxima, apenas uma inclinação rochosa que não te dá qualquer apoio, degrau e/ou segurança. Mas se o caminho era aquele, então vamos, né!!?? (maaais ou menos, mais ou menos). Todo cuidado deve ser tomado nessa parte, pois qualquer vacilo resulta num róla nervoooso. Eu fui na frente, em seguida foi o Tony, e de terceiro o Léo com a notícia de que não iria prosseguir com a gente devido ao medo que a Daniela teve em ralação a descida. Ficou lá encima sem arredar o pé, mesmo sabendo que na metade da descida tinha um cordelete de uns 30 metros preso a uma árvore, onde seria seu auxílio. E como o Léo quem a convidou, achou melhor ficar fazendo companhia a ela. Também, deixá-la sozinha na mata não era o mais correto.
Já na trilha, cinco minutos rio acima, logo chegamos ao enorme piscinão que recebe as águas em queda dando forma a Cachoeira do São Francisco ou Cach da Light. Uma cena linda de se ver por todos os ângulos, o convite pra se banhar é imediato, tanto quanto a aceitação... hehehe.

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Barragem da Represa Itupararanga


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tubulação que capta água das represas.
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Cachoeira São Francisco (cach da Light)
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Depois de mergulhos e clicks, decidimos voltar logo, nossos amigos ainda nos aguardavam lá em cima, e também começava a cair uma chuvinha de leve. Subir a piramba rochosa, molhada, não era boa ideia. Eu sai com o sensação de que devo voltar lá.

Foi só pisar os pés na estrada novamente, que a chuva caiu de verdade (chuva forte). Nossa volta foi toda debaixo dágua, um banho que foi amenizado pelas capas de chuva e um próprio guarda chuva que o Tony tinha na mochila rsrs.
Uma hora e pouca de caminhada, e lá estávamos de encontro com o nosso fiel e guerreiro Fiesta, prestes a nos receber ensopados, fedidos e cansados. Não deu mais 10 minutos e a chuva parou kkk. Ela estava disposta a nos deixar conhecer outros atrativos. Procuramos pela rampa de voo livre, mas não achamos. Voltarmos ao centro da cidade para comprar água, pois as garrafinhas estavam secas, e nossa sede era de quem andava num deserto escaldante por 48 horas. Cada um comprou mais 1,5L. Alguns comes entraram na lista. hehehe.

Voltando na direção da represa, na terceira rua que antecede a mesma, entramos por estrada de terra, e a certeza era de que se não estivéssemos com o tracklog, não acertaríamos o caminho, nenhum dos quatro já estivera ali. O caminho se confunde em meio as estradas que rasgam a vegetação das fazendas, e não deixa o transeunte ter a noção e/ou visão de qual direção se tem o vale. Por hora, já não tendo como passar, as crateras no chão nos obrigou estacionar a uns 100 metros do início da trilha, e seguirmos a pé.
Novamente passaríamos direto, pois mata estava fechada de tal jeito, que não deixa qualquer vestígio de que por ali existe uma trilha, e que se mantem fechada mata a dentro enquanto o terreno está plano. Quando o desnível começa e a descida rumo ao vale se torna forte, se tem um maior campo de visão por que as árvores mais altas deixam de fazer parte do cenário. E foi numa dessas pequenas árvores que se escondia o perigo...

...entre a raiz da árvore e uma grande pedra a beira do caminho, no chão, estava uma casa de marimbondo. Eu ia na frente, passei sem perceber, mas o Tony, sem imaginar, se apoiou na pedra e na árvore pra poder passar. Foi aí que escutei:

- ai, ai, caralho, abelha.
E quando olhei para trás, vi o menino levando ferroadas, e um enxame vindo de ataque em nossa direção.

- corre, corre...

Descemos o morro correndo mais do que qualquer Queniano na São Silvestre. Olhando pra trás, vi meu cunhado levando um capote dos feios e rolando trilha abaixo kkkk. E mesmo assim, não teve jeito, meu aliado levou umas ferroadas.
Paramos um pouco mais a frente, e aos berros avisei o Léo sobre o enxame, e ele sem entender o que eu falava, só concordou. Em seguida só se ouvia os gritos da Daniela... ai, ai.
Surgiu um silêncio..., e logo vimos que os marimbondos colocaram a dupla pra correr também, só que trilha acima. Obviamente não daria pra eles descerem.
Tentamos uma comunicação aos gritos, mas a distância não deixava entender o que um falava ao outro. Aguardamos, aguardamos... e nada deles aparecerem. Então, Tony e Eu decidimos seguir rumo a cachoeira, não teria como passar de volta. Dez minutos depois já estávamos na dupla queda que forma a Cachoeira da Escadaria.



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pelo meio do caminho


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Cachoeira da Escadaria


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Tony e Vgn Vagner


Não poderíamos demorar muito, pois não sabíamos a situação de nossos amigos. Ficamos o tempo suficiente para tirar algumas fotos, admirar a beleza do lugar, e achar que a colmeia já teria baixado a guarda. Nem entramos na água.
Na volta, teríamos dois pontos fortes contra nós: uma subida infernal de tirar o fôlego e um enxame de Marimbondos Vermelhos (os mais agressivos) prestes a atacar de novo. Esses dois contratempos fizeram a gente subir na cautela, chegando perto do vespeiro, sorrateiros feito cobras dando bote em sua presa.
Parados a uns 4 metros de distância, observamos a calmaria deles, todos tranquilos a proteger o lar.

- como vamos fazer ? passar correndo ou devagar sem encostar na árvore e/ou pedra ? Juntos ou um de cada vez ?
- deixa eu ir na frente. Disse o Tony, com medo.

De repente, enquanto decidíamos o que fazer, de olhos fixos neles, vimos todos levantarem um voo sincronizado (lento como drones), e partirem ao ataque de novo. ::ahhhh::

- cooooorrrreeee.... ::sos::

E lá vai a gente, correndo a ladeira abaixo sem pensar em freios kkkk. Paramos bem mais a frente, e mesmo assim, teve um sentinela (filho da puta) que ficou sobrevoando nossas cabeças como se estivesse mandando sinal à torre.

- meidei, meidei... ainda tenho os alvos sob a mira. Aguardo permissão para disparar. Câmbio.
- sentinela, já atingimos a maioria deles. Ataque o de Azul, ele ainda se mantém ileso. Câmbio.
- ok base, ele se dispersa muito rápido, é difícil atingi-lo. Mas se o de amarelo vacilar, nós o atacamos novamente. Ele é mais lento. Câmbio (desligo).

Esperamos um pouco até a “poeira baixar.” E voltando ao campo de batalha, vimos que não haveria a menor possibilidade de avançar por trilha. O que fazer ? Mata fechada de um lado, e piramba do outro.
Se enfiar no mato morro acima foi a solução. Mas ali também corríamos o risco de se deparar com alguma cobra ou algum outro animal peçonhento camuflado nas armadilhas que o terreno esconde. Fora que o sentinela continuava sobrevoando perímetro. E se ele decidisse acionar a tropa da morte ? Os pequenos assassinos voadores. Ia foder com nós dois.
Seguimos varando mato (cabreiros), mas só seguimos até passar da reta da colmeia, e pisando novamente no caminho aberto, meu amigo... sebo nas canelas. Corremos pra valer na subida até um ponto em que achamos que era seguro, longe daqueles “caraio de asas.”
Com língua de fora, sem água pra beber, nosso retorno foi bem cansativo. Bom que o todo o trajeto não era tão extenso, e rapinho saímos da mata, chegando onde estavam o Léo e a Dani nos aguardando pra sabermos como foi o perrengue de cada dupla e contabilizar as ferroadas kkk.

Léo = 4 picadas
Tony = 3 picadas
Daniela = 1 picada
Vagner = 0 picadas

VÍDEO DESSA AVENTURA:
phpBB [video]



Dali pra frente era só alegria. Trocar as roupas sujas e molhadas, pegar a rodovia sentido SP e desfrutar do aconchego do lar mais uma vez.
Anexos
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Dani , Tony , Léo e Vagner
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Editado pela última vez por Vgn Vagner em 08 Nov 2015, 16:19, em um total de 1 vez.

#1068006 por GUILHERME TOSETTO
15 Mar 2015, 10:44
Véio, vou falar pro governador te mandar pro Cantareira e ficar lá uns 20 dias, vai encher a represa rapidinho, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. ::lol4:: ::lol4::
Chuva, de novo?? ::essa::

Como você não levou nenhuma picada, tô achando que acionou o sistema de ataque a Pearl Harbor, só pra dar mais emoção à aventura, rsrsrsrs... ::grr::
#1068076 por Rodrigo e Gí
15 Mar 2015, 15:13
Nossa tenho o maior cagasso de enxame ::lol4:: ::lol4::

Tem muita história que termina mal.

Um dia acordamos com umas 20 abelhas dentro da barraca, entre o sobre-teto e o vestíbulo.

O jeito foi esperar umas 2 horas até elas resolverem ir embora.

Agora levo a comida em saco estanque e penduro em uma árvore para não ter esse problema novamente.
#1068259 por Vgn Vagner
16 Mar 2015, 02:06
Oh Guilherme...

Esse projeto Cantareira até que pode dar certo, viu!!! Três rolês seguidos com chuva é osso. sauhsuahuahusa

Você já deve ter ouvido falar que rolê comigo, é rolê com emoção (perrengue), né!!?? O Edu quem costuma dizer isso. ::lol4::
#1068260 por Vgn Vagner
16 Mar 2015, 02:10
É complicado essa parada de enxames, Rodrigo. O bagulho aparece do nada, e de repente tá gritando e cheio de ferrões pelos corpo ::ahhhh:: ::lol4::

E é pior quando não tem pra onde correr. Como no seu caso (na barraca), ou no caso de quem escala e/ou faz rapel e se depara com um ataque desses. É fatal.

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