Relatos de Viagens por 2 ou mais países da América do Sul


#1186745 por Diego Minatel
10 Mai 2016, 12:03
Para mim é algo realmente complicado traduzir em palavras os momentos vividos nos dias da minha viagem. Viagem esta que não se traduz num simples mochilão ou turismo de longa duração. Foi o encontro de uma pessoa comum com seu sonho de andar por terras que tanto o inspiraram, terras mãe da esperança, terras de homens e mulheres feitos de histórias e de coração, corações gigantescos. O sentimento que fica depois de quase seis meses na estrada é o de gratidão, do agradecimento as infinitas pessoas que ajudaram esse pobre viajante das mil e uma maneiras possíveis, para vocês meu muito obrigado.

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Não importa o caminho, o importante é caminhar.
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Tinha uma vida igual a tantas outras, era bem razoável por sinal, mas a vontade de caminhar e estar frente a frente com o novo me atormentava todos os dias. Queria conhecer com meus olhos as diferenças, os sotaques, as comidas, as belezas. Desejava não ter pressa, fazer tudo no seu tempo necessário, não estar preso a rotina dos dias e principalmente aprender. Sim, aprender, não com fórmulas prontas e nem sentado dentro de uma sala de aula. Queria aprender com experiências. Queria conhecer pessoas. De alguma forma queria fugir da minha vida cotidiana, não por ela ser ruim, mas pelo desejo de se conhecer e assim, quem sabe, voltar uma pessoa melhor. Quando esse sentimento passou a ser insuportável decidi que tinha que partir.

Por um ano ajuntei algum dinheiro, queria ficar seis meses na estrada. A grana não era o suficiente, mas suficiente era a minha vontade. Dei um ponto final no trabalho. Abri o mapa e não tinha ideia por onde começar. Decidi não ter um roteiro, apesar de ter muitos lugares em que eu queria estar.

Assim começa a minha história (poderia ser de qualquer um). O relato está dividido da seguinte forma:


O período da viagem é de 01/10/2015 a 20/03/2016. De resto não ficarei apegado nas datas exatas em que ocorreram os relatos que irão vir a seguir, tampouco preocupado em valorar tudo. Espero contribuir com a comunidade que tanto me ajudou e sanar algumas dúvidas dos novos/velhos mochileiros.
Editado pela última vez por Diego Minatel em 27 Jan 2017, 03:06, em um total de 13 vezes.

#1187213 por Diego Minatel
12 Mai 2016, 00:35
Parte 1: de Rio Claro ao Vale do Itajaí

Enrolei alguns dias em casa, era para já estar viajando, na verdade eu tinha medo de começar. Acho que o mais difícil é começar, depois você já vai ter feito a merda mesmo e tudo fica mais fácil. Após pensar muito decidi que o meu primeiro destino seria Curitiba. Lá reencontraria o Boletão, parceiro do meu primeiro mochilão e amigo de longa data.

Inspiração 1.1: Como diria o grande Amyr Klink no seu relato/livro Paratii: Entre dois pólos: "Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir."

Acho que era uma terça-feira. Fiz as malas horas antes de partir, minha irmã e mãe me acompanharam na rodoviária, elas tentaram me fazer desistir. Subi no busão e já não tinha certeza de nada. Apesar de o trajeto ser noturno eu não dormi. Pensava milhões de coisas e ao mesmo tempo não pensava em nada.

Das coisas que levei comigo:
    1 mochila Curtlo Mountaineer 75 + 15 lts
    1 barraca Quechua QuickHiker II
    1 saco de dormir Trilhas e Rumos Super Pluma Inverno
    1 tênis de trilha Timberland
    2 calças jeans
    2 calças de trekking
    3 shorts
    10 camisetas
    10 cuecas
    5 meias
    1 anorak
    1 segundo pele
    1 touca
    1 toalha
    Produtos de higiene pessoal
    Alguns livros
Em média a mochila pesava uns treze quilos.


Chegar a Curitiba, reencontrar o Boletão, parecia mais um final de semana de folga. Apesar de ter ficado quase uma semana por lá. Andei por todos os cantos de Curitiba, conheci o que nunca tive oportunidade de conhecer. Já tinha ido algumas vezes antes à cidade, mas sempre de passagem. Dessa vez, com todo tempo do mundo, conheci tudo com a calma que cada lugar merecia. O museu do olho do genial Niemeyer é algo realmente belo e tive sorte de estar na cidade na época da bienal. O jardim botânico merece toda a fama de cartão postal da cidade, é um parque agradável demais, todos os outros parques da cidade são de igual sentimento. Vale destacar a qualidade do transporte público na cidade o melhor que conheci no Brasil.

Informação 1.1: Curitiba é considerada a capital ecológica do Brasil. Existem mais de 26 parques para visitação e também é a cidade onde a mata Atlântica é mais preservada.

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Na época da graduação, eu e o Boletão éramos os únicos da sala com viés social. Saber que está em Curitiba trabalhando com algo em que acreditávamos enquanto estudantes era realmente gratificante. Fazia mais de ano que não o via, depois do nosso mochilão cada um foi trabalhar em um canto. Nesses dias pudemos conversar sobre a nossa viagem, sobre a sua viagem pelo sul da África, futebol, a vida e claro, sobre a minha viagem que se iniciava. As conversas foram boas e os dias agradáveis. Nesse momento parecia estar em casa e havia uma sensação que a viagem não tinha começado. Era hora de prosseguir. Fiquei dias definindo qual seria meu próximo destino até decidir por Pomerode, cidade do Vale do Itajaí.

Informação 1.2: Pomerode é uma cidade catarinense próxima de Blumenau conhecida por ser a cidade mais alemã do Brasil.

Curiosidade 1.1: Em plena crise o vale do Itajaí era o oposto do resto do país, criando vagas ao invés de diminuir. O vale corresponde o nordeste do estado de Santa Catarina, região que tem como principal cidade Joinville.

Tentei couchsurfing na cidade, não consegui. Procurei nas cidades vizinhas até conseguir em Timbó. Meu primeiro host da viagem e seria o primeiro surfer delas. Cheguei pelo fim da noite na cidade. A minha espera estava a Dani, Bruna e família. Não poderia ter melhor recepção.

“A vontade de visitar Pomerode vem do simples fato de sempre saber que era a cidade mais alemã do Brasil, apesar de ser um termo vago, carregava essa vontade de estar lá. Estava tão perto, por que não ir? Não conhecia nada da região, muito menos sabia que Timbó existia. Como a viagem não tinha nada de planejado seria uma descoberta.” Notas de diário

No segundo dia seguimos para o morro Azul. Pico mais alto da cidade, o morro abriga uma bela vista, além de ser um ponto de camping da cidade. Do seu topo pode-se ver Timbó e Pomerode. Lá de cima na companhia da Bruna e da Daniela, finalmente, tive a certeza que a viagem havia começado de verdade. Agora sabia que tinha tomado a decisão certa. Depois fomos numa festa, no estilo Oktoberfest. Foi um bom dia, cheio de paz e de ótima companhia.

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Dias depois, finalmente, fui conhecer Pomerode. A cidade é toda charmosa, cheia de casas de arquitetura enxaimel. Tudo é organizado lá e em muitos cantos se houve falar alemão. O que há de melhor, sem dúvida, é a culinária, muitos restaurantes típicos e padarias com doces que parecem ter saído do cinema. Comi uma torta de frutas vermelhas (em uma padoca) maravilhosamente boa.

Informação 1.3: O Enxaimel é uma antiga técnica construtiva, na qual uma estrutura de madeiras encaixadas tem seus vãos preenchidos com tijolos ou taipa. Conjunto de estacas e caibros que sustenta as divisões da estrutura da casa, podendo ou não ficar aparente na fachada.

Culinária 1.1: No vale do Itajaí vende-se o refrigerante Laranjinha da Água da Serra, o melhor de todos. Não tem muito gás e é realmente bom.

Fiz um trekking de 16 km pela rota enxaimel. O caminho é recheado por construções do tipo enxaimel (aquelas casinhas típica alemã) e cercado pela natureza. Muito fácil conhecer pessoas no caminho e aprender um pouco da cultura alemã que sobrevive na região. Recomendo demais o trekking.
Apesar de muito ouvir que as pessoas da cidade não são receptivas e muitas vezes preconceituosas com turistas, não senti nenhuma indiferença por parte das pessoas que tive contato. Pelo contrário, fui bem recebido e tratado com enorme educação.

Curiosidade 1.2: Pomerode, apesar de ter menos de 30 mil habitantes, tem grandes empresas como: Bosch , Hering entre outras.

Curiosidade 1.3: Apesar de toda fama de Pomerode, o melhor lugar para se visitar arquitetura enxaimel é a vila alemã em Blumenau.

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Nos outros dias caminhei por Timbó, se tivesse que escolher uma cidade para viver essa cidade seria Timbó. Calma, bonita, clima agradável, cheia de oportunidades, muito verde, muitos rios e mulheres bonitas. Não existem muitos pontos turísticos, mas existe muita beleza por todos os cantos. Apesar de a vizinha Pomerode ter a fama, Timbó tem muito de cultura e arquitetura alemã, de uma forma mais desapegada o que para mim é melhor.

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Passei bons momentos na companhia da família Nasato e quero um dia poder voltar para lá e receber aqueles abraços calorosos iguais da despedida. Família que tão bem me recebeu, iria ficar dois dias a principio, acabei ficando quase uma semana. A Dani e a Bruna transbordam amor e logo seguiriam para um mochilão de longa data. Lembro que dava dicas para elas de como viajar, hoje acompanhando a viagem delas era eu que merecia umas longas aulas, que orgulho e que saudades. Falando em saudades, esse é o sentimento que fica. Saudades das conversas com o Pini e a Rose, depois chegou a Grazi que abrilhantou ainda mais a pacata Timbó. Nunca me esquecerei desses dias e sempre serei grato a Dani e Bruna por dar a possibilidade de conhecer suas famílias, cidade e região. Meus eternos agradecimentos. Muito obrigado.

Depois fui para Blumenau em plena Oktoberfest, passei uma tarde na vila alemã e segui viagem. Dormi de noite na rodoviária da fria Criciúma. O próximo destino seria a região dos cânions.
Editado pela última vez por Diego Minatel em 24 Jun 2016, 13:47, em um total de 2 vezes.
#1187485 por Diego Minatel
13 Mai 2016, 16:36
Parte 2: Cânions do Sul

Depois de ter desistido, por hora, de conhecer a serra catarinense e a bela serra do rio rastro, decidi conhecer os badalados cânions do sul. Estava empolgado, anos antes tive a oportunidade de conhecer o cânion mais profundo do mundo, o "cañon del colca" próximo a cidade peruana de Arequipa, lugar que também se localiza a nascente do rio amazonas. Essa experiência foi demais. Estar frente a frente com o vazio infinito e presenciar o vôo dos condores sempre me trás boas sensações e lembranças. Agora era a vez de conhecer uma região fértil em cânions.

Curiosidade 2.1: O "cañon del colca" chega a ter mais de 3500 metros de profundidade.

A região dos cânions situa-se na Serra Geral divisa natural entre os estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Essa região corresponde a diversas cidades entre os dois estados, tendo maior destaque Cambará do Sul (RS) e Praia Grande (SC) por suas proximidades dos cânions mais visitados da serra. Cambará do sul é uma cidade da serra gaúcha, muito próxima de Gramado, que tem uma altitude de mais de mil metros, portanto, fica no topo dos cânions. Praia Grande apesar do nome não é uma cidade litorânea e fica no nível do mar, o que faz dela ser cercada pelos paredões dos cânions. As duas cidades são separadas pela serra do faxinal, que por sinal é muito ruim e fica intransitável em épocas de chuva.

Informação 2.1: Existem 36 cânions na região.

Informação 2.2: Praia Grande fica distante 40km do litoral.

Dica 2.1: Cambará do Sul está 120 km de distância de Gramado. Caso planeje uma viagem para a serra gaúcha, não deixe de visitar Cambará do Sul e seus cânions.

Dica 2.2: De Gramado existem passeios "bate e volta" para o cânion do Itaimbezinho pelo preço de R$150.

Dica 2.3:
Caso queira visitar os cânions com maior comodidade, fique na cidade de Cambará do Sul que tem maiores estruturas para o turismo.


Após Criciúma, entre um ônibus e uma carona cheguei a Praia Grande. Minha escolha foi baseada nos custos, Cambará é mais badalada e por conseqüência mais cara. Nos meus dias na cidade fiquei todo tempo acampado num sítio na comunidade de Vila Rosa, que é cercada pelo cânion de mesmo nome.

Informação 2.3: Existe ônibus direto entre Criciúma e Praia Grande, mas os horários são bem restritos. Por isso minha opção de pegar um ônibus até uma cidade um pouco mais próxima e depois por sorte eu consegui uma carona.

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“Conheci uma húngara hoje. Ela estava indo embora. Fazia quatro dias que estava em Praia Grande. Seu sonho era conhecer os cânions Itaimbezinho e Fortaleza. Em todos os dias ela chegou ao topo do Itaimbezinho e em nenhuma das subidas ela teve sorte. A neblina tomou conta dos cânions naqueles dias, por mais que chegasse muito próximo ao desfiladeiro não era possível ver nada. Com lágrimas nos olhos ela se despediu, dizendo que iria voltar.” Notas de Diário

No dia seguinte caminhei até o cânion Vila Rosa. Sua localização fica na própria serra do faxinal. A entrada da trilha para o acesso ao cânion não tem sinalização, o melhor é se informar com os nativos antes de partir. A boa noticia é que ele é praticamente deserto, no dia que estive lá fui à única pessoa desfrutando, daquele, que para mim é o cânion mais bonito da região. Fiz todo o trajeto a pé, subi a serra do faxinal e depois caminhei na pequena trilha que leva ao cânion. Tive todo o tempo necessário para sentir o lugar e ter aquela sensação de vazio que os cânions proporcionam.

Dica 2.4: Caso tenha tempo na região e esteja em Praia Grande faça todo o trajeto a pé. No meio do percurso existem diversos mirantes dos cânions.

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Gosto de estar sozinho em lugares como este. Onde a natureza foi caprichosa. Muitas coisas passam pela cabeça, mas o que mais martela nos pensamentos é que existe muita beleza no mundo. Ao dormir nesse dia, só conseguia agradecer aos céus por ter tido a oportunidade de conhecer aquele lugar.

Nos outros dias tinha a missão de visitar os cânions Itaimbezinho e Fortaleza, mas esses eram muito distantes impossibilitando ir caminhando. Consegui diversas caronas para conseguir visitá-los.

Dica 2.5: Existem muitos turistas na região e a maioria aluga carro, então, é muito comum conhecer pessoas que tem lugares vagos no carro e também é tranqüilo ir até a serra do faxinal para pedir caronas.

Informação 2.4: O cânion Itaimbezinho fica 25km de distância de Praia Grande.

Informação 2.5: O cânion Fortaleza fica 60km de distância de Praia Grande.

Informação 2.6: Os taxistas da cidade de Praia Grande fazem o trajeto (com até 4 pessoas) aos cânions. Para o cânion Itaimbezinho é cobrado R$200 e para o cânion Fortaleza R$300.


O cânion Fortaleza está localizado no Parque Nacional da Serra Geral e a entrada no parque é gratuita. Difícil chegar até ele, acredito que em dia de chuva seja impossível atravessar uma parte daquela estrada, ainda mais com carro comum. Por outro lado, o trecho asfaltado da pista é lindo demais, cheio de flores coloridas por todos os lados. Fui deixado na entrada do parque e depois segui andando. No meio do caminho entrei na trilha da pedra do segredo. A pedra do segredo é uma pedra de cinco metros que está equilibrada numa base de cinqüenta centímetros. Todo o percurso vale à pena, mas a pedra em si, não me encantou muito.

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Segui rumo ao Fortaleza. Quanto mais se aproxima do cânion mais encantador ele fica. Chegando ao topo e tendo aquela paisagem como companhia, não se consegue pensar muito. O momento é destinado ao sentir.

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Não há estrutura no parque (com exceção de um estacionamento) o que possibilita você estar na borda do cânion. Eu prefiro que seja assim, mas isso afasta muito dos visitantes além de, ser relativamente longe (com estrada ruim). O lugar por não ser entupido de turistas faz da visita uma experiência agradável para todos os visitantes. Eu que gosto de admirar cada canto com calma pude me sentar (sem ser incomodado) por diversas vezes na borda do cânion e ficar ali parado, contemplando.

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O cânion Itaimbezinho, cartão postal da região, está localizado no Parque Nacional de Aparados da Serra e a entrada custa oito reais para brasileiros. Aqui se gravou várias reportagens, novelas e nos últimos meses com imensa divulgação da televisão fez aumentar demais o turismo no parque. Diferente dos outros cânions que eu já havia visitado, este era completamente diferente. Primeiro pelo seu estilo, com as fendas muito próximas. Segundo por ter muita gente e terceiro por ter uma estrutura de turismo. Aqui você não consegue se aproximar muito do cânion, existem parapeitos por toda a borda. As trilhas são bem marcadas e tem um salão de apresentação, onde é contada toda a história de formação dos cânions da região.

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O lugar é muito bonito, vale à pena visitar. Por conseguir atrair o turismo de massa o Itaimbezinho perde um pouco do charme, mas nada que tire o seu sorriso ao estar diante daquele lugar tão peculiar.

Curiosidade 2.2: Depois que a globo exibiu uma reportagem sobre o Itaimbezinho e também teve uma novela gravada, o turismo no Itaimbezinho aumentou drasticamente. O problema é que a galera acha que é o único cânion da região, deixando de conhecer os, igualmente, belos Fortaleza, Vila Rosa, entre outros.

Tinha planejado fazer a trilha do rio do boi, que nada mais é que caminhar debaixo das fendas do Itaimbeizinho. Como o nível do rio estava muito alto e começava a chover na cidade, talvez a trilha só fosse liberada (pelo ICMBio) daqui algumas semanas. Resolvi não esperar.

Curiosidade 2.3: A maioria das pessoas locais que conheci, nos meus dias na cidade, nunca haviam visitado nenhum cânion da região.

Em cenários como os de cânions é preciso ter sorte. Afinal, existe um clima particular entre as fendas, onde, do nada, pode-se instaurar uma cortina de neblina e impedir toda a visualização do lugar. Então, o melhor é ficar uns dias na região para evitar qualquer frustração.

Aqui foi meu primeiro camping do mochilão. Aqui pela primeira vez estive frente a frente com a imensidão da natureza (nessa viagem). Aqui ouvi meu primeiro "Bah, mas isso é muito longe para ir andando" de muitos que ouviria por todo o sul. Aqui fiz alguns amigos e estes diziam que eu deveria conhecer Torres. Depois de muita propaganda, desfiz acampamento, arrumei a mochila e comecei a caminhar. O próximo destino seria Torres, litoral do Rio Grande do Sul.
#1187916 por Diego Minatel
16 Mai 2016, 00:06
Parte 3: de Torres a Chuí

Fui caminhando até uma estrada vicinal na divisa entre os estados (SC e RS) e de lá peguei uma carona até Torres. As duas cidades são bem próximas e a viagem não durou mais que uma hora. O trajeto é cheia de plantações de arroz e a estrada é de terra batida, o que é comum por aqueles cantos. Achei muito bonito o caminho.

Informação 3.1: Apesar de serem vizinhas (Praia Grande - SC e Torres – RS) não existem ônibus (diretamente) que ligam as duas cidades, é necessário ir até a rodovia para conseguir pegar algum ônibus em trânsito ou esperar um bus que sai uma vez ao dia num ponto depois da ponte que divide os dois estados.

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Torres foi a primeira cidade praiana da minha viagem. Confesso que não tinha muita expectativa sobre o lugar e como sempre fui surpreendido. A praia da guarita foi dos lugares que mais me encantou em todo mochilão. As falésias da praia lembram a baía dos porcos em Fernando de Noronha, um lugar maravilhoso. Pena que nos dias que estive na cidade fazia muito frio e ventava forte, assim, não cheguei ter o prazer de mergulhar no mar. A região onde fica situada a praia é um parque (Parque Estadual da Guarita) de proteção ambiental e tudo é muito bem organizado e todo parque é muito bonito. É possível ter acesso ao topo das falésias através de caminhadas curtas, mas intensas. Com certeza, o topo da guarita é o ponto alto da visita.

Curiosidade 3.1: Os gaúchos costumam dizer que Torres é a única praia do Rio Grande do Sul, apesar de terem um litoral extenso, eles também dizem que o resto do litoral gaúcho é só areia, água e vento.

Informação 3.2: A entrada para pedestres no Parque Estadual da Guarita é gratuito, caso esteja com veículo é necessário pagar entrada e o preço varia de acordo com o veículo.


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Não fiquei muito em Torres. Dormi apenas uma noite na cidade e aproveitei dois dias na praia da guarita, gostei tanto que não quis conhecer outras praias. Depois segui para Porto Alegre de ônibus, mas não queria ficar. Já conhecia um pouco da cidade e queria evitar metrópoles. Cheguei pela noite na rodoviária e por lá fiquei toda madrugada definindo qual seria meu próximo destino.

Sempre tive grande curiosidade em conhecer Gramado e Canela. Estava tão perto, por que não ir? Pela manhã, depois de uma noite que quase não dormi, comprei a passagem com destino a Gramado. Antes tentei couchsurfing e não consegui. Ao menos fiquei sabendo da existência de camping e hostel pela região. Entrei no ônibus e dormi.

Gramado é uma cidade tranquila, segura e feita para o turismo. Basicamente se encontra hotéis, restaurantes e parques temáticos. A arquitetura chama a atenção também, com belas igrejas por toda a cidade. A parte mais bonita, que eu achei, é o lago negro que é todo envolto com árvores vindas da própria floresta negra na Alemanha. Os pedalinhos no formato de cisne dão um charme a mais para o lugar. No geral, Gramado é um lugar muito agradável de se estar e principalmente de caminhar. Existem diversos parques e como vive do turismo é fácil encontrar um evento musical ou teatral em algum lugar. Nos dias que estive na cidade fiquei no hostel Gramado, lugar bem tranqüilo.

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Canela fica distante, apenas, três quilômetros de Gramado. Aqui existe vida sem o turismo, uma cidade com mais cara de cidade. A população de Canela, em sua grande maioria, trabalha nos hotéis e restaurantes de Gramado. As opções de restaurante e de todas as outras coisas são mais baratas na cidade. Tudo que encontrar em Gramado achará igual em Canela só que mais barato. Contudo, é um lugar para se visitar por sua beleza e a cereja do bolo é a catedral de pedra.

Culinária 3.1: Experimentar o chocolate branco com banana da Florybal pelo preço de R$1.

Informação 3.3: Existem dois hostels em Gramado: Hostel Gramado (R$45) e o Hostel Britânico (R$55). Também tem a opção de camping na cidade de Canela por volta de trinta reais.

Informação 3.4: Gramado e Canela ficam distantes apenas 3km, a opção mais barata para transitar entre as cidades é o circular que passa a todo instante a preço de 3 reais. O bus tour é a opção de quase todo mundo, no preço de cinqüenta reais. Não vejo muita vantagem nele, sendo que os pontos turísticos que estão nas cidades são muito próximos. Vale a pena caminhar. E os pontos distantes como o Parque do Caracol, vale a pena usar o transporte público.


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O principal ponto turístico da região é o Parque do Caracol. Não tem como não visitar este lugar é lindo demais. Logo ao entrar já se consegue avistar a grandiosa cachoeira do Caracol, cartão postal de Canela. Existe um mirante onde se tem a melhor vista da cachoeira. No mirante é possível admirar também todo o entorno recheado de mata atlântica. Próximo ao mirante é possível seguir pela escadaria da Perna Bamba e observar a cachoeira do Caracol debaixo e muito próximo à queda d’água. A escadaria é bem longa. Vi algumas pessoas desistindo da descida no meio do caminho. O esforço é recompensado com a vista e com a fina camada de água que é lançada pela cachoeira na escadaria. Depois caminhei por todas as outras trilhas que existem no parque. Tem muitas coisas além da cachoeira do Caracol. Essas trilhas são pouco utilizadas, não é raro estar sozinho nas inúmeras corredeiras do parque. O ideal é reservar um dia todo para caminhar com calma, tem muita coisa para visitar. O parque possui restaurantes, observatório ecológico, lojas, estação sonho vivo, centro histórico ambiental, além da bela natureza.

Informação 3.5: A entrada do parque do Caracol é de R$18,00.

Informação 3.6: O parque do Caracol fica 7km de distância de Canela.

Informação 3.7: Escada da Perna Bamba tem 751 degraus.

Dica 3.1: Ao contrário do que se pensa é possível viajar barato pela região. Existem opções de hostel, camping, além do couchsurfing. O transporte público funciona bem, os fast food invadiram a cidade, assim existem opções baratas de alimentação. Os parques de diversões (Mini mundo, Snowland), sim, esses são caros, no meu caso não visitei nenhum deles e mesmo assim fiquei muito satisfeito com o que conheci.


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Depois segui para a cidade de Três Coroas. Tinha intenção de ser voluntário numa fazenda para fazer colheitas de frutas. Por azar do destino o proprietário do lugar teve que viajar as pressas e meu plano foi por água abaixo. Na cidade tem o belíssimo templo budista Khadro Ling, principal chamariz de turistas e de pessoas desejosas de conhecer um pouco do budismo. Fiquei o dia na praça da cidade definindo qual seria meus próximos passos. Ofereceram-me carona para Porto Alegre e aceitei.

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Como dito antes, não queria ficar em Porto Alegre, cheguei e já queria partir. Decidi ir conhecer Tavares. Sempre quis conhecer a lagoa do peixe (que fica em Tavares), abrigo de pássaros que fazem a migração do hemisfério norte para a Patagônia e vice-versa. São infinitos pássaros, dos quais se destacam os flamingos. Realmente é um espetáculo natural. Por sorte ou azar, conheci um funcionário do Parque da Lagoa do Peixe na rodoviária e ele me disse que chovia há dias na cidade e que não pararia tão cedo. Disse-me também que naqueles dias não havia concentração dos pássaros e me desencorajou estar na cidade naquela época. E assim, com um aperto no coração, resolvi mudar os planos e segui para o extremo sul do Brasil.

“Primeiro foi à negativa na fazenda. Depois tive que abrir mão de Tavares. Não deveria ter ouvido o funcionário. Deveria seguir meus instintos e desejos. Agora é tarde, estou dentro de um ônibus indo para Chuí. Tenho que esquecer isso e seguir.” Notas de diário

De Porto Alegre a Chuí peguei um ônibus noturno. No desembarque conheci as manauaras Penelope e Rhenata que estavam no primeiro mochilão com destino ao Uruguai. Fizemos amizade e decidimos ir para Barra do Chui juntos. Diferentemente do que eu pensava a cidade de Chuí não é litorânea, a porção litorânea que faz divisa com Chuí na parte brasileira é a cidade de Santa Vitória do Palmar e nesta cidade é onde fica o balneário de Barra do Chuí. A praia é toda similar até chegar-se à foz do arroio do Chuí, na divisa natural entre Brasil e Uruguai, a praia neste momento ganha um charme a mais com a presença do arroio e das muitas gaivotas.

Curiosidade 3.2: No Rio Grande do Sul quando vai fazer uma viagem dentro do estado (de ônibus) compra-se a passagem em um guichê único, ou seja, todos os guichês vendem as passagens de todas as empresas de ônibus.

Curiosidade 3.3: O trajeto de Porto Alegre a Chuí tem 515 km e de ônibus o tempo de viagem é de aproximadamente 8 horas.

Curiosidade 3.4: O Arroio do Chuí é o ponto extremo sul do Brasil.


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“Estar no ponto extremo sul do país era uma conquista pessoal. Conhecer a simbólica cidade de Chuí que tanto ouvia nas aulas de Geografia era voltar no passado. Apesar de ser só mais uma fronteira, ali tinha algo de especial. Não saberia dizer o que é, só sei dizer que existe.” Notas de diário

Voltando para Chuí, caminhamos um pouco e começamos a nos acostumar com o espanhol. A cidade tem um comércio forte e em menor escala lembra Ciudad del Este no Paraguai. Depois seguimos para Chuy no Uruguai, atravessamos a avenida e chegamos ao Uruguai.

Curiosidade 3.5: A avenida que divide as cidades de Chuí (Brasil) e Chuy (Uruguai) se chama Avenida Uruguai para os brasileiros. Para os uruguaios ela se chama Avenida Brasil. Achei interessante.

Ahora es el momento de Uruguay.
#1188241 por Diego Minatel
17 Mai 2016, 00:04
Parte 4: Uruguai

Depois de atravessar a Avenida Brasil estávamos no Uruguai, logo em seguida trocamos o dinheiro. A cotação na época estava 1 para 7, ou seja, para cada real trocado era recebido sete pesos uruguaios. Compramos as passagens de ônibus, eu seguiria para Punto del Diablo e as meninas seguiriam direto para Montevideo. Esperamos em uma praça, viajaríamos no mesmo ônibus.

Dica 4.1: Já li várias matérias do tipo "Viagem barata: Conheça os lugares onde o real vale mais". Onde a única análise é a proporção do valor do real contra as outras moedas. Se fosse assim o Uruguai seria um país extremamente barato para nós brasileiros, pois para cada real temos sete pesos uruguaios, ledo engano, o mais importante em analisar nessas situações é o poder de compra da moeda. Por exemplo, tente fazer comparações do tipo: com quinze reais no Brasil consigo almoçar e com esse mesmo valor convertido eu consigo comer no Uruguai? Assim faça com estadia, transporte e tudo mais, assim, você vai comparar o poder de compra de uma moeda em relação à outra. Para nós, neste momento, o Uruguai é um país mais caro que o Brasil.

Dica 4.2: Ao pegar um ônibus rodoviário no Uruguai (chegando por Chuí) é necessário pedir ao motorista parar na aduana e, assim, dar entrada no país.

Curiosidade 4.1: O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes, mas sua população bovina é quatro vezes maior. Todos os animais são identificados e rastreados.


Depois de uma hora e meia de viagem (e de sono) o ônibus chegou ao "pueblo" de Punta del Diablo.

Curiosidade 4.2: O nome Punta del Diablo é por causa que a orla do povoado tem um formato de um tridente. Igual ao usado pelo diabo.

Que grata surpresa chegar a Punta del Diablo, povoado litorâneo dominado por pescadores. Aqui tudo é muito simples e as pessoas são bem receptivas. Fiquei num camping no centro. Conheci muitos nativos que me ensinaram coisas sobre: maré, lua e peixes. Por falar em peixes, foi aqui que comi o melhor peixe da minha vida, preparado num boteco a beira mar.

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A orla é extensa possibilitando caminhar por horas na areia e até chegar às cidades vizinhas. Meus dias se resumiam em andar durante todo o dia pelas areias, sem fim, da região. Num desses dias, caminhei até a cidade de Santa Teresa que é muito bonita e cheia de verde. Pela noite, geralmente, ficava num bar de uma família que conheci. Sempre tinha boa música.

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Nas andanças pela orla sempre estava acompanhando de uma gaivota e de um bando de cachorros, aliás, tem muito cachorro por lá. Como dizia a tiazinha do bar: "esses cachorros gostam de turistas". Todos eles dormiam em volta da minha barraca e quando eu saia para a caminhada matutina, eles saiam todos atrás de mim.

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“Estranho a companhia da gaivota. Enquanto eu andava, ela sobrevoava sobre mim. No inicio achei que ela queria proteger sua prole ou ovos, por causa dos cachorros. Depois de andar por horas essa idéia não fazia sentido. Passei acreditar que aquilo era um presente da natureza.” Notas de diário

Se fosse escolher um lugar para morar no Uruguai, com toda certeza, esse lugar seria Punta del Diablo. Não consigo traduzir em palavras a paz daqueles dias. Fui embora querendo ficar.

O próximo destino seria Cabo Polônio, o principal motivo de eu estar no Uruguai. Antes de ir ao cabo parei numa cidade chamada Castillo. Uma cidadezinha charmosa, típica cidade de interior. Ao chegar estava tendo uma apresentação de artes na praça. Resolvi ficar e conferir. No outro dia bem cedo, peguei o ônibus para o Cabo Polônio.

Cabo Polônio é uma reserva ambiental, cercado por dunas (que lembram os pequenos lençóis maranhenses), por ser uma área importante de reprodução dos leões marinhos. Está localizado muito próximo de três ilhas que servem de morada para os mesmos. A entrada aqui é controlada e é necessário comprar as passagens (ida e volta) dos caminhões que levam para a comunidade.

Informação 4.1: Pode-se ir andando até a comunidade, porém é razoavelmente distante (trinta minutos de caminhão) da entrada, além de ter que caminhar por imensas dunas. Vale à pena, apesar dos pesares.

A comunidade que vive no Cabo Polônio não usufrui de eletricidade (exceto alguns restaurantes que utilizam energia solar) e se parece com um reduto hippie. Em resumo as pessoas que lá vivem são: pescadores, artesões y otras personas más. Fiquei hospedado em uma casinha a dois passos do mar. Era casa de uma família que morava há tempos no vilarejo.

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Lembro de quando eu era criança e viajava para o litoral. Achar uma concha na praia era uma conquista. Caminhando pela orla do cabo se encontra trechos que é totalmente coberto por conchas e afins. Se eu voltasse para a infância e visse aquilo, provavelmente iria achar que estava no paraíso. Não tem como não sorrir estando ali.

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Os leões marinhos são uma atração a parte. São centenas espalhados por todos os cantos. Sentar e observá-los é demais.

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O charme do povoado é pela noite, não se vê quase nada, caminhando sem rumo com a lanterna em mãos e deixando-se perder na companhia do céu estrelado. A maior parte dos visitantes fica apenas durante o dia. Não faça isso. É quase obrigação passar uma noite naquele lugar mágico.

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Confesso que em certos momentos achei o povoado meio forçado, mesma sensação que tive quando estive em San Pedro de Atacama. Todos tentavam passar a imagem de "super loucos" e em alguns momentos achei meio pré-fabricado o lugar. Prefiro povoados como em Punta del Diablo cheio de pessoas de verdade, que não tentam te impressionar e sim te acolher. Entretanto, gostei muito dos dias que passei por lá. Voltaria com toda a certeza.

Vídeo 4.1: Este clipe da banda Vanguart foi gravado em Cabo Polônio, pelo vídeo dá pra ter uma boa noção do lugar, além da boa música.

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Parti para Montevideo. Queria evitar metrópoles, mas essa eu tinha que visitar. Sempre gostei muito de literatura e dois dos meus autores favoritos nasceram e viveram aqui. Um deles tinha acabado de falecer. Eduardo Galeano e Mario Benedetti que prazer estar em suas terras.

Curiosidade 4.3: Eduardo Galeano é um escritor que gosta de contar histórias, de preferência histórias de pessoas comuns. Sua linha de raciocínio é admirável, é um pensador livre, e não poupa nada e nem ninguém. Apesar de ser sempre lembrado pelo audacioso "As veias abertas da America Latina" tem uma obra vasta que fala desde futebol até a história da humanidade. O livro dos abraços, em especial, é “especial”.

Chegando ao terminal Tres Cruces não fazia idéia para onde iria. Acabei indo para o Ukelele Hostel e lá recebi um presente do destino. Reencontrei a Penelope e a Rhenata que também estavam hospedadas no hostel. Elas já partiriam no outro dia para Porto Alegre. Foi bom reencontrá-las e tive a oportunidade de me despedir, coisa que não foi feita quando desci em Punta del Diablo as pressas.

Montevideo parece uma cidade do interior de tamanho grande. Lá tem tudo o que uma grande cidade pode oferecer, além de certa paz que as cidades menores oferecem. O rio da Prata acompanha toda a extensão da cidade com belas praias. A praia de Pocitos e o parque Rodo foram os lugares que mais gostei. Cheguei a visitar o museu de futebol no estádio Centenário, não tem o mesmo glamour do museu do futebol no estádio do Pacaembu, mas ver a taça da Copa de 1950 é uma sensação estranha e só isso vale a pena da visita. A parte antiga, o centro, é toda encantadora também.

Culinária 4.1: Café Brasileiro, lugar favorito do Eduardo Galeano, é sensacional, o cuidado que eles têm ao tirar o café é coisa de cinema, ao todo demoram uns dez minutos. Tomava café da manhã todos os dias ai, primeiro pelo Galeano e depois por ser bom de verdade. Não deixe de visitar o Café Brasileiro.

Curiosidade 4.4: O Uruguai tem uma população aproximada de três milhões de habitantes e cerca de 60% vive no conurbado de Montevideo.

Curiosidade 4.5: O rio da Prata, divisa natural entre Uruguai e Argentina, não passa de um estuário formado pelas fozes dos rios Uruguai e Paraná antes do encontro com o mar. Um estuário nada mais é que o ambiente aquático de transição entre o rio e o mar. Estando lá, se parece mais com o mar, pela sua imensidão.

Curiosidade 4.6: Os uruguaios são extremamente apaixonados por futebol. Em todo canto tinha um grupo jogando bola. Em todo canto mesmo.

Curiosidade 4.7: O valor que os uruguaios dão a “boa comida” é demais, em nenhum lugar comi nada “mais ou menos”.


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“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. — O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.” Livro dos Abraços, Eduardo Galeano

Colonia del Sacramento, reduto português em território espanhol, foi à última grande parada no Uruguai. A parte histórica, onde se encontra o famoso forte da cidade, é toda muito pequena e muito bonita. Para se conhecer a parte histórica de cabo a rabo não é preciso mais do que meio dia. Pra mim o charme da cidade é a sua orla. Aconselho passar mais que um dia na cidade. A orla com boas praias, futebol por todos os lados e muita música boa, além de uma noite com bares cheios. Aqui o rio da Prata não é imenso, tornando possível ver as luzes, ao fundo, da capital argentina. A proximidade com Buenos Aires faz de Colonia del Sacramento uma extensão do turismo de quem visita o outro lado do rio da Prata.

Informação 4.2: Colonia del Sacramento pertenceu a Portugal até o ano de 1750.

Curiosidade 4.8: Em Colonia del Sacramento é aceito Pesos Argentinos, Pesos Uruguaios (obviamente) e Real.

Curiosidade 4.9: O que mais me chamou a atenção no Uruguai foi à forma de como é feita a educação no país. Grande parte das aulas é ministrada em praças e existe uma preocupação em envolver toda a cidade no ensino. Presenciei muitas vezes os alunos, principalmente dos mais novos, na rua tendo aulas do tipo: como atravessar a rua com segurança, como ajudar os mais velhos atravessarem as ruas, a importância de preservar a história da cidade. Numa dessas aulas fui abordado por um grupinho de crianças de sete anos, a aula era encontrar pessoas de outras cidades/países e saber um pouquinho mais desses lugares, me perguntaram qual era minha cidade, meu país, o que eu mais gostava, meu time de futebol e outras coisas mais, foi muito legal essa experiência. Sempre achei que a educação é o principal motor da mudança, e o que eu vi nos dias no Uruguai, em todas as cidades (sem exceção) é o mais parecido com o que eu acho certo.


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Quando sai de casa, tinha a intenção de chegar ao extremo sul do continente, a imponente terra do fogo e sua simbólica Ushuaia. Caso seguisse com essa ideia, pegaria um barco em Colonia del Sacramento e cruzaria o rio da Prata até Buenos Aires. Fiquei dois dias em Colonia pensando se iria ou não, a grana era curta e decidi trocar a gelada Patagônia pela quente Amazônia.

“Outra vez tenho que abrir mão da Patagônia. Escolher sempre é difícil. Acho que na Amazônia irei aprender mais sobre a vida. Fica aqui a promessa que num futuro próximo irei ver a Patagônia com meus olhos.” Notas de Diário

O Uruguai é, em teoria, um país bem tranqüilo em se conseguir carona e tive que pegar muitas até sair do país. Agora me despedia do Uruguai sem não antes ter cruzado dezenas de cidades que não perguntei o nome, mas que suas belezas ficarão em meus olhos. Obrigado Uruguai, mas agora era hora de voltar para o Brasil. Terra do plural.
Editado pela última vez por Diego Minatel em 17 Jun 2016, 00:24, em um total de 1 vez.
#1188540 por Diego Minatel
17 Mai 2016, 23:19
Parte 5: da região das Missões a Chapecó

Uma vez vi uma foto de uma igreja em ruínas, apesar de não saber sua localização (e nem ser religioso) tive a certeza que um dia colocaria meus pés naquele lugar. Anos depois fui descobrir que a tal igreja ficava em São Miguel das Missões, noroeste do Rio Grande do Sul. Agora era o tempo de conhecer a igreja da foto.

São Miguel é uma pequenina cidade com menos de 10 mil habitantes. A cidade base da região se chama Santo Ângelo e foi para lá que segui viagem. Consegui hospedagem através do couchsurfing, seria de novo o primeiro hospedado pela família, mas o interessante dessa vez que o meu contato, Talita, não estava na cidade e assim sobrou para o resto de sua família me aturar. A Talita mesmo morando em outra cidade foi super atenciosa, conseguiu convencer a família a hospedar um estranho, sem mesmo estes nunca ter ouvido falar em couchsurfing.

Informação 5.1: Santo Ângelo é o berço da coluna Prestes.

Cheguei pela noite, o Emilton e a Tânia (pais da Talita) estavam me esperando. Ganhei fortes abraços de recepção, desde o inicio sabia que seria feliz ali. Passar aquela noite ouvindo histórias de superação em família, uma em cima da outra, me fez sentir muitas saudades de casa e também fez eu ter a certeza que estava no lugar certo.

Já ouvi muitas histórias de amor, mas com toda certeza a história do Emilton e Tânia é a minha favorita. Num tempo distante, se conheceram em uma viagem no litoral, ele de muito longe e ela de Santo Ângelo, a viagem se acabou e o amor ficou. Um dia ele resolveu seguir a estrada atrás de continuar essa história interrompida. Sem saber se haveria um final feliz ele foi. Hoje, depois de mais de 20 anos eles continuam juntos e felizes e agora na companhia da Talita e da Karen.

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São Miguel das Missões fica cerca de 60 km de Santo Ângelo. Parti na companhia do Emilton para conhecer as ruínas. No meio do caminho paramos para conhecer a vinícola Fin. Fomos muito bem recebidos pelos proprietários. Confesso que não gostei dos vinhos que estavam na degustação, mas em compensação o suco de uva era fenomenal. Carregamos a mala de suco e seguimos viagem.

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Antes de chegar às ruínas, eu achava que seria apenas um lugar bonito de se visitar. Engano total. Ao entrar nas ruínas pela primeira vez, tive uma sensação parecida de quando estive em Machu Picchu. Fiquei totalmente paralisado diante de tanta beleza.

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A ruína na verdade é o sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (patrimônio mundial da UNESCO), na época das missões jesuítas foram instauradas várias "comunidades" onde viviam os evangelizadores (jesuítas) com os ameríndios, que nesse caso foram os Guaranis, com propósito de impor a crença cristã e os costumes de vida do europeu. Vale a pena dizer que nessa época esse território era espanhol, e depois de dezenas de anos vivendo em "harmonia" (jesuitas e guaranis), os espanhóis queriam restaurar o domínio de Colônia do Sacramento e assim "trocaram" a região das missões por Colônia com os portugueses, assim as comunidades teriam que ser esvaziadas. Os guaranis não aceitaram sair de onde, agora, eram suas terras. Guerra-pós-guerra os portugueses dizimaram os guaranis da região e reassumiram a "ordem", mas não sem antes criar um herói entre os guaranis, Sepé Tiaraju, líder da resistência guarani. As guerras também foram às responsáveis por deixar em ruína o lugar.

Passamos a tarde toda dentro do sítio. O Emilton já havia estado algumas vezes no local e me passava, com toda atenção, seus conhecimentos sobre a história do lugar. Existe na entrada um museu com bastante informação.

Informação 5.2: A entrada do Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo custa R$5.

Informação 5.3: O museu foi projetado por Lúcio Costa, o mesmo que projetou Brasília em parceria com Oscar Niemeyer.


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Toda noite no sítio tem o espetáculo Som e Luz, em que é contada toda a história das missões na região. Caminhamos por São Miguel das Missões até o horário da apresentação. O espetáculo ocorre todos os dias às oito horas da noite. Certamente, essa foi à maior expressão de arte que já presenciei.
Sentado no extenso gramado. Na companhia do céu estrelado e do frio. A voz da Fernanda Montenegro em conjunto de canhões de luzes (em direção as ruínas da igreja) vão contando, de forma mais que fantástica, a história das missões jesuítas e do herói Sepé. Todos uma vez na vida deveriam ver aquilo, é incrível. Pena que o sítio é pouco visitado.

Informação 5.4: O Espetáculo Som e Luz custa R$5.

Informação 5.5: Existe um hostel/pousada na frente do sitio arqueológico, em São Miguel das Missões. O preço do quarto compartilhado é R$60.

Dica 5.1: Como o espetáculo ocorre no mesmo lugar das ruínas o ideal é ir à tarde para visitar o sitio arqueológico. Depois esperar até o inicio do Som e Luz, que tem duração de 45 minutos.

Vídeo 5.1: Um vídeo que mostra um pouquinho de como é o Som e Luz.


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“Que coisa linda. Como pode ser tão bonito? A beleza do lugar complementando a arte foi simplesmente sensacional” Notas de Diário

Fiquei mais outros dias na casa da família Ferrão. Conheci quase todos os familiares. Participei do Brique da Praça, onde a família expõe seus produtos culinários (feitos artesanalmente). Os melhores temperos, geléias, sucos e chocolates são o da família Ferrão. O Brique é uma feira de coisas “feita à mão”, todo domingo acontece na praça da cidade e quase todas as pessoas de Santo Ângelo comparece no evento. Achei muito interessante. Cada dia na cidade fazia aumentar os laços com a família, a Tânia já parecia minha mãe, além de companheira de chimarrão. Foram dias especiais.

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Depois de me despedir na rodoviária. Dentro do ônibus, olhava o Emilton, Tânia e a Karen e uma tristeza já apertava. Comecei sentir saudades mesmo antes de partir.

Ir embora de Santo Ângelo foi algo difícil, mas tinha que seguir viagem. O próximo destino seria Chapecó.

Chapecó é uma cidade muito especial para mim, já estive aqui antes, e tinha muitas pessoas que eu queria rever. Cheguei numa segunda de madrugada. A minha espera estava a Tânia, que saudades eu estava.

Anos antes, participei do projeto Rondon e uma parte da equipe era de Chapecó, este projeto foi das coisas mais importantes que aconteceram em minha vida.

Vídeo 5.2: Para quem quiser conhecer o Projeto Rondon esse é o vídeo que fiz quando participei.

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Os dias na casa da Tânia junto com ela e a Amanda foram tranqüilos. Foi muito bom estar ali, matar uma saudade que me sufocava. Pude conhecer ainda mais elas e aprender mais sobre a vida. Considero-as a minha segunda família. Não conheci nada que já não conhecia na cidade, mas não importava. Nos outros dias vi boa parte do pessoal do projeto: Mauricy, Paola, Samara e a Paula. Bebemos, conversamos e o tempo parecia não ter passado. Chapecó no meu dicionário significa saudade.

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Fui embora. Agora era hora de rumar sentido norte. Ainda não fazia idéia qual seria o próximo destino. A única certeza que eu tinha, era que teria que voltar pra casa e deixar minhas roupas de frio. Assim, mataria as saudades da minha família.
#1188836 por Cristiana Correa
18 Mai 2016, 19:27
Acompanhando aqui e viajando também.
Curto esse jeito poético de ver os lugares, as pessoas...
Parabéns!!
#1189424 por Diego Minatel
20 Mai 2016, 22:22
Cristiana Correa escreveu:Acompanhando aqui e viajando também.
Curto esse jeito poético de ver os lugares, as pessoas...
Parabéns!!


Valeu Cristina. Ainda tem muita estrada para contar =].
#1189430 por Diego Minatel
20 Mai 2016, 23:41
Parte 6: Brasília e Chapada dos Veadeiros

Depois de voltar para casa e ficar mais tempo que o previsto. Voltei para a estrada. Primeiro passei em São Carlos para rever alguns amigos. Na seqüência fui para Ribeirão Preto conhecer o filho do Gabriel, um grande amigo que conheci na graduação. Estava agora na rodoviária e depois de quatro horas de atraso, pela madrugada, chegava o ônibus que me levaria para a capital do país.

“O Brasil estréia nova capital. Nasce Brasília, súbita, no centro de uma grande cruz traçada sobre o pó vermelho do deserto, distante do litoral; longe de tudo, lá no fim do mundo ou em seu principio. Foi construída num ritmo alucinante. Durante três anos este foi um formigueiro onde os operários e os técnicos trabalharam ombro a ombro noite e dia, dividindo a tarefa, o prato e o teto. Mas quando Brasília fica pronta, termina a fugaz ilusão de fraternidade. Fecham-se de repente as portas: a cidade não serve aos serventes. Brasília deixa de fora quem ergueu com suas mãos.” O Século do Vento, Eduardo Galeano

Brasília lugar tão presente em nossas vidas, mesmo que seja tão distante para a maioria de nós. Aqui é onde fica o controle do videogame e os falastrões engravatados jogam o jogo Brasil sem medo de morrer, afinal, conseguiram vidas infinitas. Nossa capital, tão mal freqüentada por figurões, consegue mostrar muita beleza e simpatia.

Victoria me aguardava em sua agradável casa. Entrei em contato pelo couchsurfing. Sempre atenciosa, deu todas as dicas para me locomover na confusa Brasília. Cheguei a sua casa e logo já me levou para um tour por toda cidade. Ela tentou me explicar às nomenclaturas utilizadas nos nomes das ruas e eu, como péssimo aluno, nada aprendi. Passamos por muitos lugares. Terminamos o dia a beira do lago Paranoá admirando o pôr do sol.

Informação 6.1: A parte inicial de Brasília projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer chama-se plano piloto e tem o formato de um avião. Lógico que a cidade cresceu e não se limita mais ao avião, as cidades criadas em volta de Brasília (que pertencem ao Distrito Federal) se chamam cidades satélites.

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Vic é uma guria especial, seu filho Romeo também. Cheia das habilidades artísticas: cantora, professora de dança, toca vários instrumentos musicais e futura pedagoga. Dona de uma voz belíssima. Eu não me cansava em pedir que ela cantasse mais e mais.

No outro dia sai caminhar pela Esplanada e conhecer todos os detalhes do plano piloto. Surpreendi-me muito com a cidade e gostei de cada canto. A igreja, que não se parece igreja, é bem legal. A vista que se tem da esplanada subindo ao topo da torre de TV é a melhor. Fiz uma visita ao Congresso Nacional e pude ver alguns hipócritas frente a frente. Voltei para a casa da Vic, pela noite, e estava tendo um forró dos mais animados. Como bom mal dançarino fiquei só olhando e já começava a pensar no meu próximo destino.

Informação 6.2: É possível visitar o Congresso Nacional numa visita guiada a cada trinta minutos em horário comercial, de segunda a segunda. A visita da mais ênfase nas obras de arte que existem no Congresso no que na verdadeira importância do mesmo, mas vale a visita.

Informação 6.3: A cidade foi projetada para a utilização de carro. Então, para nós que utilizamos transportes públicos à vida é difícil. Existem algumas vans (creio que sejam clandestinas) que ajudam e muito.

Dica 6.1: A cidade é toda bonita, por ser pré-fabricada sua arquitetura se destaca, mas o que há de mais bonito na cidade é obra da natureza: O lago Paranoá.

Inspiração 6.1: Como diria a música do Natiruts: "Eu vou surfar no céu azul de nuvens doidas. Da capital do meu país". Aquele pedaço de céu é doido mesmo.


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Numa manhã segui para a Chapada dos Veadeiros. O ônibus seguia para a "capital" da chapada, Alto Paraíso. Logo observei que tinha vários mochileiros no busão. Fui sorteado a sentar ao lado duma nativa, foi massa, ela me contou algumas coisas sobre a vida no cerrado. Vivia numa cidade no sul do Tocantins. Eu tinha a intenção de ficar na vila de São Jorge, onde se encontra o parque da Chapada dos Veadeiros. Estando lá conseguiria fazer mais coisas caminhando.

Curiosidade 6.1: A Chapada dos Veadeiros fica no mesmo paralelo de Machu Picchu.

De todos os mochileiros que estavam no ônibus todos ficariam em Alto Paraíso, com exceção de mim, Gita e Marie que seguiríamos para a vila de São Jorge. Conheci-as quando tentava negociar algum transporte para São Jorge e assim nos juntamos. Dois taxistas quase saíram no tapa para nos levar a São Jorge, bom pra nós que pagamos oito reais por cabeça. Chegando a São Jorge, Gita disse que tinha um hostel (Casa do Sucupira) para ficar, Marie e eu fomos com ela e assim nasceu a família da chapada.

Curiosidade 6.2: O trecho de pista que liga Alto Paraíso e a vila de São Jorge é o trecho rodoviário mais bonito que vi no Brasil.

Gita é uma inglesa de vinte e poucos anos, que teve sua educação toda em casa. Só quando foi fazer faculdade de fotografia que se iniciou num ambiente escolar. Ela é diferente de todos nós, ela consegue se surpreender com toda forma de vida, apesar dos anos a criança nela não se partiu, que inveja. Mochileira de primeira viagem e queria conhecer sozinha a América do Sul que tanto a encantava por histórias.

Marie é belga e é recém balzaquiana, agrônoma de profissão, mas forrozeira de coração. Ela tem a profissão mais incrível que já ouvi falar, trabalha com agronomia em regiões de conflito de guerra. Conhece o mundo inteiro e viveu anos na África, no Brasil já tinha estado antes. Ela estava de férias e seu tempo era limitado no país, queria conhecer a chapada e fazer infinitas aulas de forró, sua verdadeira paixão. A pessoa de sorriso mais fácil que já conheci.

Fomos para a casa do Sucupira e logo depois estávamos metidos numa trilha rumo ao rio da lua. Conhecemos uma tribo indígena no caminho e logo depois mergulhávamos, pela primeira vez, nas águas geladas da chapada. Nesse primeiro dia andamos demais e cada passo servia para nos aproximar mais.

“Acho que os dias na Chapada dos Veadeiros serão os melhores. Hoje enquanto recolhíamos frutas na aldeia, pelas nossas conversas acho que criamos uma grande empatia.” Notas de Diário

O segundo dia em São Jorge foi o dia de “todas as ajudas”. Decidimos que conheceríamos o Vale da Lua e a Raizama. Acordamos cedo e fomos para a trilha do Vale da Lua, como tinha chovido muito dias antes, chegamos num trecho intransponível, assim tivemos que voltar para a rodovia. Depois de duas caronas, enfim, chegávamos ao diferente Vale da Lua. O vale é propriedade privada, o valor de entrada é de vinte reais (como quase tudo na chapada). Aqui é lindo demais e não poderia ter outro nome que não fosse Vale da Lua. Não tem como ir para a chapada e não ir para o vale. Ficamos um bom tempo nadando e escalando o infinito de pedras até que o mundo caiu em forma de chuva, os poucos visitantes do dia foram se abrigar no mesmo lugar. Sai à procura de carona para voltar a São Jorge, antes conheci a Talita e o Reginaldo (casal de Sampa) e combinamos de no outro dia fazer as trilhas do parque da chapada juntos. A carona consegui com outro casal que também partia para São Jorge.

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No meio do trajeto o casal (que não consigo lembrar o nome) nos convidou para seguirmos com eles até as águas termais e ainda disseram que depois nos deixariam na Raizama (nosso destino pensado). Claro que nós aceitamos, a parte boa de não ter planos fixos é aceitar qualquer boa proposta no caminho. Eles tinham uma marmita turbinada e deu para nós cinco almoçarmos tranquilamente, com direito até cerveja. Depois do role gourmet nas termais fomos deixados na Raizama. A entrada é toda estilosa, um palco com as imagens de Hendrix, Raúl Seixas e John Lennon. A natureza do lugar não deve em nada, com uma trilha de uma hora, prainha e muita manga para comer. Agora tínhamos que voltar para São Jorge e uma longa distância nos separavam. Depois de caminhar uma boa parte o mundo caiu em forma de chuva, novamente. Eu já tinha desistido de pegar caronas, pois estávamos todos molhados e cheios de barro (o caminho virou um lamaçal), até que um anjo em forma de fusca parou e salvou nossas vidas. O tiozinho nos deixou na frente do hostel, molhamos e sujamos todo o carro dele e ele ainda nos deu o golpe baixo de simplicidade ao se despedir com a seguinte frase: "Obrigado por estarem aqui". Não sou de chorar, mas quis chorar ali e só pude agradecer de um jeito cretino falando: "Mano, eu que agradeço. Você salvou nossas vidas", deveria ter-lo convidado para jantar junto conosco, mas não fiz. Fomos jantar num bom restaurante em São Jorge. Tomamos pinga de um bode que despeja pinga pelo rabo e seguimos para um botequinho que estava tendo boa música.

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Aqui acontece a maior coincidência da minha vida, neste boteco tinha umas dez pessoas no máximo, contando com nós três. Fui pegar umas cervejas e olhei um maluco que me era muito conhecido, sabia que o conhecia só não sabia de onde. Até que ele percebeu minha presença e juntos falamos "Salkantay". Salkantay é o nome de uma montanha no Peru que também dá nome a uma trilha alternativa a Machu Picchu. Há dois anos exatos (sem brincadeira, exatamente dois anos), Jonathan (o cara que encontrei no bar), eu e mais sete pessoas iniciava essa trilha juntos. Nunca mais tinha falado com ele, ele não tinha facebook na época. Sabia que ele morava no Tocantins. Encontrar ele numa vila que tem 500 habitantes, num boteco com dez pessoas foi estranho demais. Ele se juntou a nós e ficamos o resto da noite conversando. Voltamos ao Sucupira e tínhamos poucas horas para dormir, o próximo dia seria intenso, pois faríamos todas as trilhas do parque da Chapada com a Talita e o Reginaldo.

Acordamos cedo, preparamos nosso lanche do dia, e partimos a pé para o parque. Esperamos o casal. Até então eles não sabiam da nossa intenção de percorrer todo o parque em um dia, afinal, seriam quase 25 km. Falei da nossa intenção para eles que aceitaram sem pestanejar. Decidimos começar pela trilha dos Saltos e fomos sem guia. Depois de uma longa caminhada, podemos banhar no salto dois, aqui o rio é forte, mas vale o sacrifício para chegar ao pé da cachoeira que tem 80 metros. Caminhamos e caminhamos, paramos muitas vezes para nos banhar, tomamos chuva, nos conhecemos melhor e nesse dia ouvi pela primeira vez a frase que depois a Gita falava a cada cinco minutos: "Sem medo, tem liberdade" (depois na Argentina ela tatuou "Sem medo"). Na metade do caminho não tínhamos mais água o que fez a volta da trilha dos Cânions um sacrifício. No final do dia, Talita e Reginaldo nos deu carona até o hostel e combinamos de nos encontrar no outro dia em Alto Paraíso. Nesse dia meu único tênis (uma botina Caterpillar) não aguentou e se desfez. Passei a noite fazendo gambiarras para a botina agüentar até meu regresso a Brasília.

Informação 6.4: Não é necessário guia para entrada no parque que é gratuito. Apesar disso, existem guias que ficam no parque e cobram uma diária de cento e cinquenta reais por grupo. Em minha opinião não é necessário guias para o parque, todas as trilhas são bem sinalizadas.

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No outro dia conseguimos uma carona e fomos para Alto Paraíso. Reencontramos o Reginaldo e a Talita que estavam indo para as cachoeiras de Anjos e Arcanjos e nos convidaram para seguirmos juntos. Deixamos nossas coisas no Anna Hostel (a parte boa de estar em três é o poder de barganha, conseguimos quartos por vinte e cinco reais) e seguimos viagem com o casal que mais se parecia nossos anjos. Anjos e Arcanjos fica cerca de uma hora e meia de carro e foi o melhor lugar da chapada para nós cinco. Como quase todos os lugares, este também é uma propriedade privada, deixa-se dez reais de caixinha aqui. O dono do lugar é um francês todo gente boa. Aqui a água é totalmente negra e muito gelada. Tinha apenas o nosso e outro grupinho nessas cachoeiras. O que deixou o lugar mais especial ainda. Ali tem bons lugares para saltar no rio, picos com mais de dez metros de altura. Ficamos todo o dia ali, em plena paz. Nadando e caminhando. Caminhando e nadando. Não queria nunca que esse dia acabasse. De volta a Alto Paraíso, convidamos o casal a jantar conosco. Fomos à praça principal comer, onde estava tendo apresentações culturais. Comemos, bebemos bastante e fomos dormir. No próximo dia pegaríamos carona com eles, novamente, agora para Cavalcante.

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Acordamos cedo e seguimos para Cavalcante. Iríamos de encontro à cachoeira mais bonita do Brasil (talvez do mundo), Santa Bárbara. Depois de duas horas de carro chegamos numa comunidade quilombola que toma conta da área onde se localiza Santa Bárbara (acho que pagamos quarenta reais) e seguimos parte dentro da caçamba de um carro (dos quilombolas, utilizado para o transporte até o inicio da trilha) e fizemos a outra parte a pé. Santa Bárbara brilha no meio do verde da vegetação. A vontade ao ver o brilho é seguir correndo e não perder um segundo daquele lugar. Santa Bárbara é a beleza no seu sentido mais puro. Covardia aquele lugar. O lugar é todo fechado pela vegetação e não bate quase sol, tornando a água quase congelante, mas nada que impeça você ficar a todo o momento dentro da água. A beleza vence. Estávamos no paraíso e sabíamos disso. Tentamos aproveitar o máximo, foram bons momentos num cenário incrível. Tivemos sorte de ter poucas pessoas visitando a cachoeira, assim, podemos ter Santa Bárbara só para nós em alguns momentos. Depois fomos para a Cachoeira da Capivara. Marie tinha que partir no outro dia e não fazia sentido ficar mais na chapada com a família desfalcada. Gita e eu decidimos partir também, então essa seria a nossa última cachoeira juntos. A despedida já dava seu tom. Num ritmo mais lento e com um ar de tristeza se aproximando, curtimos a bela cachoeira da Capivara. No fim da tarde, retornamos para a cidade. À noite fomos (os cinco) jantar juntos. No fim nos despedimos de Talita e Reginaldo que continuariam por mais alguns dias na Chapada. A família começava a se desfazer.

Dica 6.2: Numa época sem chuva é possível/tranqüilo chegar até a comunidade onde fica Santa Bárbara com um carro comum. Agora em época de chuva eu não aconselho.

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“No Portal da Chapada
tristeza não há
que resista à poesia
contidas nas matas
da beira do rio
-
Vão-se as mágoas
nas águas correntes
a se despencarem
em cachoeiras
-
E eu que não creio,
me rendo aos encantos
desse lugar
e sinto que a fé
preenche meu ar” Altas Histórias do Paraíso, Geraldina Lombardi


Consegui uma carona até a rodoviária de Brasília. O motorista era um cara gente boa que morava em Alto Paraíso. As duas capotaram atrás do carro e fui conversando com ele na viagem. O cara deixou a vida de radialista no nordeste para encontrar a paz espiritual na chapada, trabalhando como guia. Foi uma boa viagem. Chegando a rodoviária a Marie logo seguiria para Goiânia. Foi difícil demais deixa - lá para trás. Despedimos-nos com um abraço triplo. Que falta a alegria dela faz.
Gita tinha voo marcado para Foz do Iguaçu no final da tarde. Aproveitei para mostrar o pouco que conhecia de Brasília para ela. Caminhamos bastante por toda esplanada. Gita experimentou pela primeira vez caldo de cana e depois fomos para o aeroporto. Chegando lá descobrimos que ela tinha comprado errado a passagem e o vôo era só para o próximo dia. Não havia mais vôos para Foz nesse dia, enfim ela teria que esperar. Não iria deixá-la sozinha na cidade. Conversei com a Vic (meu couchsurfing em Brasília) e seguimos para a casa dela.

Dica 6.3: O grupo no facebook "Conexão Chapada-BSB" é um grupo de carona entre a chapada e Brasília. Funciona muito bem.

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Agora é o retorno do anjo Vic. Mesmo hospedando uma australiana, quando expliquei a ela o ocorrido ela abriu os braços e não pensou duas vezes e nos ajudou. Que gratidão. Nunca terei palavras para agradecer a Vic por esse dia. Por fim, passamos uma ótima noite. Vic com seu violão e o vinho deram o ritmo da noite. No fim das contas, foi mais que bom a Gita ter perdido o voo. No outro dia cedo nos despedimos e fomos para um shopping, comprei um novo tênis, almoçamos e seguimos para o aeroporto. Despedir-me da Gita foi à tarefa mais difícil da viagem, já tinha me acostumado com sua presença, nos entendíamos sem precisar de palavras. Agora tomávamos direções opostas. Ela iria para o sul e eu para o norte. O último abraço foi dado e fui para a rodoviária.

Chapada dos Veadeiros é toda espiritual, não tem como negar que existe uma energia boa naquele lugar. Todos que a conhecem, nunca se esquecem. As pessoas que lá vivem fazem da chapada um lugar mais especial ainda. Existem infinitas cachoeiras e trilhas, você não conseguirá conhecer tudo, então fique tranqüilo. Conheça o que der, porque cada palmo da chapada vale muito à pena. Ali, passei os melhores dias dos meus seis meses de viagem e me despedir de todos foi muito difícil. A sintonia daqueles dias é o que procuro para o restante da minha vida. Se existe um lugar para conhecer antes de morrer, esse lugar é Chapada dos Veadeiros. Claro que isso é uma opinião minha, mas nunca disse que seria imparcial. Então, pegue a mochila e vá para Veadeiros.

“Tudo mudara subitamente - o tom, o clima moral; não sabias o que penar; a quem ouvir. Como se em toda a tua vida tivesses sido conduzido pela mão como uma criança pequena e de repente tivesses de ficar por tua própria conta, tinhas de aprender a andar sozinho. Não havia ninguém por perto, nem família nem pessoas cujo julgamento respeitasses. Em tal momento, sentias a necessidade de dedicar-te a algo absoluto - vida, verdade, beleza -, de ser regido por isso, em lugar das regras feitas pelos homens que tinham sido descartadas. Precisavas render-te a um tal objetivo último de modo mais pleno, mais sem reservas do que jamais fizeras nos velhos dias familiares e tranquilos, na velha vida que estava agora abolida e abandonada para sempre.” Doutor Jivago, Boris Pasternak

Cheguei à rodoviária, tinha ônibus direto para Cuiabá (meu próximo destino seria a Chapada dos Guimarães que é próximo a Cuiabá), mas quis passar antes em Rondonópolis, não sei por que, nunca tinha pesquisado a cidade. Achei curioso o nome e apenas fui.
#1189611 por Diego Minatel
21 Mai 2016, 23:56
Parte 7: Chapada dos Guimarães

Sempre para mim, ao se falar de Chapada, logo pensava na Chapada dos Guimarães, se existia uma chapada que sonhava em conhecer essa era a dos Guimarães.

Sai de Brasília com destino a Rondonópolis no Mato Grosso, viajei pela madrugada, nada de muito especial aconteceu no trajeto. O que me chamou a atenção na cidade de Rondonópolis foi que em alguns lugares na rodoviária e na cidade existem tradução para o esperanto. Achei interessante. Ninguém soube me explicar o porquê disso. Sempre achei que o esperanto era caviar, só ouvia dizer que existia.

Informação 7.1: Esperanto é uma língua criada para ser o idioma universal (pegando propriedades de todas as línguas para facilitar o aprendizado de todos) e claro, não vingou.

Depois de pegar outro ônibus segui para Cuiabá. No meio do caminho a policia invadiu o ônibus e foi direto em direção a um cara que estava sentado na minha frente. Devia ter uns oito policiais, todos apontaram suas metralhadoras em direção do rapaz que mais parecia um viajante normal. Revistaram a sua bolsa e acharam uns dez quilos de cocaína. Logo, levaram-no preso. Assim, todos e tudo no ônibus foram revistados. Não encontraram mais nada. Fiquei pensando muito depois disso. Se ele coloca um pouco de droga na minha mochila seria o fim da viagem. Como explicaria para policia que aquilo não era meu? Um fato curioso é o trajeto da apreensão, geralmente, a rota do tráfico é Cuiabá-Brasília, pelo simples fato de Cuiabá estar muito próximo com a divisa da Bolívia, o contrário é no mínimo esquisito. No resto da viagem o assunto no ônibus foi à má sorte do sujeito. Nunca tinha presenciado nada parecido e por alguns dias tive cuidado em excesso com minhas coisas. Isso até a memória começar deixar de lado essa história.

Cheguei a Cuiabá e logo parti para a cidade Chapada dos Guimarães (sim, esse é o nome da cidade). Chapada dos Guimarães fica distante 40km de Cuiabá, ao contrário de Cuiabá e apesar da proximidade, a cidade tem um clima muito agradável, isso pelo fato de estar mais de 600 metros acima de sua vizinha. A cidade é toda charmosa. No seu centro tem uma bela igreja e muita tranqüilidade. Nos primeiros dias fiquei na casa do gentil Gentil, tio da Tânia de Chapecó. Gentil e sua esposa são a gentileza (como seu nome já diz) em pessoas, ele era conhecedor de toda a Amazônia, seu trabalho com hidrelétricas lhe deu a oportunidade de conhecer e assim, tinha infinitas histórias que aproveitei para escutar atentamente. Afinal, iria depois seguir para a maior floresta do mundo. Além de poder conhecer um pouco mais da Tânia, através de histórias contadas pelos dois. Estava longe da Tânia, mas parecia que a presença dela estava ali. Depois de alguns belos dias na casa deles segui para um hostel no centro da cidade.

Curiosidade 7.1: Na cidade encontra-se a empresa Águas Lebrinha que extrai água da fonte bica das moças (muito boa por sinal), o legal é que é possível encher uma quantidade per capita de graça no lugar.

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Um fato interessante da Chapada é que o centro geodésico da América do Sul situa-se na cidade. Apesar de Cuiabá também dizer que o centro geodésico se encontra lá. Não sei qual está certo. Prefiro acreditar que seja o da Chapada dos Guimarães. O local está interditado (como quase todos os pontos turísticos da Chapada) pelo ICMBio por causa das erosões, mas não existe fiscalização e todos visitam o lugar mesmo assim. O centro geodésico é um lugar sem muito charme, você saberá que está no centro por causa de um suporte de uma placa. A placa é feita de bronze e foi roubada, então só sobrou o apoio dela. O interessante de estar ali é o entorno. Muito próximo encontra-se um desfiladeiro. De onde é possível avistar Cuiabá e o inicio do Pantanal norte. O ponto alto é caminhar no dedo de deus e nos seus similares. Foi a primeira vez que estava diante de um desfiladeiro em cima de uma pontinha de terra. Estar ali, vendo o Pantanal que se mostrava tão verde e tão belo, me trazia muitas saudades de estar de novo na maior planície alagada do mundo. O tempo era outro, era tempo de Chapada dos Guimarães. De ver o novo. De conhecer a novidade. De andar por terras novas.

Informação 7.2: O Pantanal é uma extensão territorial ou bioma dividido entre Brasil, Paraguai e Bolívia. No Paraguai e Bolívia a região é conhecida com Chaco ou Gran Chaco.

Curiosidade 7.2: Nos últimos anos ocorreram algumas mortes de pessoas tirando selfies/fotos no dedo de deus. O que fez a cidade não aconselhar mais a visita no local.


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O legal da Chapada dos Guimarães é que existem muitas trilhas próximas a cidade. Recheadas de cachoeiras. Para eu que curto demais caminhar é mais do que bom. Cria-se uma boa autonomia. Tem lugares que alugam bikes para fazer essas trilhas. Achei legal, apesar de preferir ir caminhando com calma e lentamente, apreciando cada novidade que ia se anunciando no caminho. As trilhas são bem marcadas e é muito fácil se achar nos arredores da cidade. Diferentemente, da Chapada dos Veadeiros, onde a vegetação é mais rasteira, na Chapada dos Guimarães a vegetação é mais densa e alta, dificultando a caminhada e também a deixando mais emocionante. Na época em que estive lá, não eram muitos os visitantes e isso fazia do lugar mais especial, conseguia aproveitar cada lugar de todas as formas sem a preocupação de ser incomodado pelo turismo de massa. Não era incomum eu ter uma cachoeira somente para mim. Quando havia pessoas, em sua maioria, eram como eu, estavam sozinhos ou em grupos pequenos, assim, facilitava a aproximação. Foram inúmeras pessoas que conheci nessas trilhas, apesar de não criar vínculos foram bons momentos nos arredores da cidade.

Para me locomover para os outros lugares mais distantes, peguei muitas caronas e numa delas eu conheci o Roberto e a Wanderléia, casal com a mesma simpatia dos xarás famosos. Num dos dias, meu intuito era seguir para uma trilha que estava bloqueada pelo ICMBio. Os nativos me disseram que era a melhor vista da Chapada. Ouvi nessas palavras “Lá é o Hors Concours da Chapada”. Depois dessa propaganda teria que conhecer a tal vista. Contei minha intenção para o casal. Estes seguiriam para o Parque da Chapada dos Guimarães, me convidaram para ir com eles no passeio e que depois me deixavam no inicio da trilha. Conhecemos a famosa cachoeira Véu de Noiva e as igualmente belas cachoeiras dos Namorados e Cachoeirinha. Foi um role muito massa. O Roberto, técnico de telecomunicações do exército, cheio de histórias não deixava o silêncio reinar em momento algum. O que achei mais legal foi que apesar de anos juntos eles pareciam um recém casal, curtindo a nova paixão. Banquei o fotografo pelo caminho, o amor estava no ar. Eu sorria a todo o momento ao vê-los e ao repetir dezenas de vezes à mesma foto, afinal, o Roberto é do exército e o chapéu tinha que sair alinhado.

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Foto 7.11 - Cachoeira dos Namorados - Chapada dos Guimarães.jpg
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Foto 7.12 - Borboletas - Chapada dos Guimarães.jpg
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“O véu de noiva de água virgem
Me elevou, envolveu
A sua ducha me deu vertigem
Arrepio, rodopio, em mim
Seu jorro não tem mais fim
E nesse êxtase me deixo
Não sei quem sou
Estou no meio do arco-íris
E saboreio elixires de amaralis
Na cachoeira enxurrada
O véu da chuva desceu
No vento nuvem
No céu desaba
Chapinhante
Espumante
Champagne
Chapada dos Guimarães” Na Chapada, música de Tetê Espindola


Apesar de me sentir o “estraga o romance” a harmonia de nós três foi legal demais. Terminamos o Parque da Chapada dos Guimarães e como prometido eles me levaram a entrada da trilha que eu queria fazer. Ao chegar ao meu destino, para minha surpresa, os dois resolveram seguir comigo numa caminhada de quatro horas. O local da trilha é propriedade privada, então cobra-se a entrada, vinte reais por pessoa. O Roberto depois de muita conversa conseguiu um belo desconto e entramos na trilha. A trilha em algumas partes é bem fechada e em outras um pouco confusa. A beleza do caminho é indescritível, cheio de platôs gigantes de pedra. O parque dos dinossauros no meio do caminho é belíssimo, além da companhia das infinitas borboletas. Estava meio receoso do casal ter mudado o roteiro para andar e andar, queria que eles curtissem o momento, andando por duas horas e vendo a cara de exaustão dos dois, me sentia culpado. Logo ao chegar no desfiladeiro e ver aquele cenário, olhei para o rosto dos dois e ver a felicidade em seus rostos, fiquei aliviado. Foi dos momentos mais felizes da viagem, nós três e mais ninguém em companhia do fim da tarde e daquele visual lindíssimo. Enfim, tinha a imagem em minha retina do que para mim era a chapada. A cena mais legal foi quando a Wanderléia ligou (sim, tinha sinal) para sua mãe emocionada de estar ali, naquele lugar, naquele momento. Ficamos um bom tempo, lá em cima. O esforço tinha valido a pena e a beleza do lugar tinha vencido novamente. Ninguém queria ir embora. Depois de muito tempo resolvemos voltar. A volta da trilha foi tranquila, a leveza do dever cumprido fez o cansaço desaparecer e seguimos realmente felizes. Parecíamos três crianças com seus presentes de Natal em mãos.

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“Ao ver o sorriso deles lá em cima. Tive a certeza que a divida pela carona estava paga. Muito feliz em levar um pouco de felicidade para eles. Realmente muito feliz.” Notas de Diário

A Chapada dos Guimarães se difere das outras chapadas brasileiras por ter paredões contínuos, infinitos no olhar. Lugar único. O mais interessante é observar a transição de vegetação, ponto de encontro do Cerrado, Pantanal e Amazônia. Aqui o turismo é mais familiar, não atrai tantos mochileiros como as chapadas dos Veadeiros e Diamantina, mas isso não impede do local ser encantador igualmente, mas claro, de uma forma diferente. Aqui se encontra o centro geodésico da América do Sul. De forma surrealistica é possível sentir toda a magia do nosso continente. Escutar os ecos de todos os nossos povos, como: da terra do fogo, incas, aimarás, guaranis, mapuches, cablocos, mestiços, homens da floresta e todos mais. Aqui já seria um lugar especial só pela localização geográfica, mas ai a natureza inventou a Chapada dos Guimarães, a cereja do bolo.

“Mais um sonho realizado. Chapada dos Guimarães e seus paredões, enfim, conheci-os. Muitas coisas boas acontecendo por esses dias. Não poderia imaginar tanta coisa boa em tão pouco tempo. Obrigado quem quer que seja o senhor do tempo. Jesus, Alá, Buda, Krishna, Jah, Oxum, Pachamama, pra quem seja, meu muito obrigado.” Notas de Diário

Voltei para Cuiabá numa manhã e tinha todo o dia para conhecer um pouco da cidade (o ônibus para Porto Velho sairia por volta das 10 horas da noite). Caminhei dois quarteirões e voltei para a rodoviária, foi a única vez que o sol me venceu na viagem. Nunca tinha provado um dia de sol tão quente, era impossível caminhar naquele dia, sentei e esperei. Agora é hora de estar de frente com a Amazônia. Depois de anos de espera, enfim, adentraria o maior dos meus sonhos. Enfim, era hora de buscá-lo, quem? Meu sonho.

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. Mar sem fim, Amyr Klink

Agora estou dentro de um ônibus, o Natal está cada vez mais próximo. Atravesso a fronteira, estou em Rondônia. Ansioso para chegar a Porto Velho.
#1190152 por Diego Minatel
23 Mai 2016, 22:32
Parte 8: Rondônia

Quando trabalhava em São Paulo, morei numa república e lá conheci o Pedro, rondoniense e aspirante a cineasta. Mesmo sem planejar essa viagem, sempre dizia a ele que um dia bateria em sua porta em Rondônia. Ele estranhava um paulista querer conhecer Rondônia e eu achava estranho ele se mudar do paraíso amazônico para morar no caos paulista, a selva de pedra. Mas ele tinha um bom motivo, o cinema.

O trajeto Cuiabá até Porto Velho foi o mais longo que fiz dentro de um ônibus nessa viagem. Foram quase trinta horas de belas paisagens. Passamos por dezenas de cidades, das que paramos Vilhena foi a que mais gostei, por seu clima agradável e muito verde ao redor. Lembro de ver uma casa suspensa, ela se erguia no meio da mata sobreposta em algo que me parecia um poste, fiquei perplexo. Pena não dar tempo de tirar foto. Dentro do ônibus, quase todo mundo virou amigo. Muitas pessoas que tentam a vida em outros estados ou regiões estavam voltando para passar o final de ano com a família. Muitos presentes de natal viajaram conosco. Eram tantas pessoas voltando para Porto Velho que só existiam passagens saindo de Cuiabá para depois de quatro dias da minha saída. O clima e as conversas eram em tom nostálgico. Muita ansiedade por parte de todos. Muitas histórias de saudades. O ônibus parou na rodoviária de Porto Velho. Creio que naquele momento o tempo parou. A distância e o tempo não importava mais. No meio de tantas pessoas se abraçando eu tentava pegar minha mochila. Depois de receber alguns abraços de despedidas eu caminhei a procura do Hugo.

“Quando abandonava a cidade ainda silenciosa, à luz da incipiente madrugada, caminhando devagar, com as pernas enrijecidas, avistou nas proximidades da última cabana um vulto que ali estava acocorado. Era Govinda. Ergueu-se e foi com Sidarta, o peregrino.
– Vieste mesmo – disse Sidarta, sorrindo.
– Vim – confirmou Govinda.” Sidarta, Hermann Hesse


Nesse dia o Pedro não estava na cidade. Estava terminando o intercâmbio nos Estados Unidos. Sobrou para seu irmão Hugo ir ao meu encontro na rodoviária. Hugo é um cara gente boa demais. Futuro médico e pai do Miguel. Ele desde o inicio me fez sentir em casa. Logo depois já fomos para um churrasco da família. Lá pude conhecer os pais do Pedro e do Hugo, a Zilma e o Renato. O interessante nesse dia foi conhecer o Cartaxo, dos melhores amigos deles, que estuda na USP São Carlos mesmo lugar em que fiz minha graduação. Foi bom conversar sobre a universidade e matar um pouco das saudades dos dias de estudante.

“Existem poucas coisas que me arrependo na vida, uma delas é ter deixado a ONG Napra. Com ela teria vindo antes conhecer as populações ribeirinhas do rio Madeira e de alguma forma iria aprender e ensinar. Depois de anos com isso na cabeça, por fim, pago essa divida que tinha comigo mesmo.” Notas de Diário

No outro dia, fomos buscar o Pedro no aeroporto. Mal conseguia vê-lo, estava no meio de tantas malas. Foi bom reencontrar o Pedrão. Nesse mesmo dia conheci o Bruno, outro cara bem gente boa. Ele sonha em fazer um mochilão pela América do Sul. Um dia depois fomos jogar bola. Foi muito legal, marcaram um jogo dos amigos do Pedro contra outro time. O Brunão assegurou nossa vitória agarrando tudo no gol. Já começava a me sentir em casa em Porto Velho.

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O pôr-do-sol em Porto Velho é lindo e fica muito mais bonito a beira do rio Madeira. Acompanhar toda a descida do sol até ele se esconder para depois do rio, é algo que realmente vale à pena. Todos os fins de tarde existem uma boa platéia (a beira rio) para acompanhar os últimos momentos do sol no dia. De resto, Porto Velho parece-se com um aglomerado de bairros. Não tem cara de capital do estado. A cidade de Ji-Paraná tem mais cara de capital. No entanto, as pessoas do lugar é o que faz de Porto Velho um lugar especial.

Culinária 8.1: O açaí de Porto Velho é muito bom.

Culinária 8.2: O melhor suco de cupuaçu fica no bar flutuante no rio madeira.


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Aqui tive uma vida bem familiar. Peguei emprestado a Zilma como mãe. Ela é advogada, psicóloga e principalmente batalhadora. Conhece muito sobre a vida. Tive muitas boas conversas com ela. Contava sobre a confusão que é a minha cabeça, minhas intenções sobre a viagem e sobre as banalidades da vida. Ela tinha bons conselhos e sempre me fazia pensar com seus questionamentos. Na verdade eu ainda penso sobre esses dias. Enfim, a Zilma é uma pessoa que todos deveriam conhecer. O Renato é médico e trabalhou bastante tempo com as populações ribeirinhas da Amazônia. Conhece muito de doenças tropicais e aproveitei para pegar o máximo de informação para minha proteção na floresta. Na maioria do tempo estava na companhia do Pedro e do Hugo. Tive o prazer de passar o Natal na companhia do Pedro, Hugo, Zilma e Renato e o restante de suas famílias. Foi muito bom.

Informação 8.1: A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles. Os horários de maior risco são no amanhecer e ao entardecer. Então, se tiver pela Amazônia é bom ter uma atenção especial nesses dois períodos.

Fomos acampar em um dia de sol. A idéia era fazer algumas trilhas na floresta que margeia a cidade. Fomos eu, Pedro, Hugão, Bruno e o Cartaxo. Ao chegar arrumamos o acampamento e começamos preparar a comida do almoço. Depois dos afazeres saímos para caminhar no meio da mata. O Hugão conhece bem o lugar. Ele tinha dito que a trilha seria feita andando pelo rio. Achei que era brincadeira, ao menos torcia para ser. Começamos a trilha e logo ela era interrompida por um rio, que mais se parecia como o rio do filme da Anaconda. Eu era o último da fila. Chegando ao rio o Hugo não pestanejou e pulou e assim, foi um a um se jogando dentro d’água. Na minha vez, eu quis voltar, mas segui em frente. No inicio daquele rio acinzentado, imaginava um monte de coisas, mas logo a preocupação foi embora e comecei a curtir a trilha aquática que estávamos fazendo. Alternávamos trechos por terra e por água. Depois de um bom tempo de trilha o Cartaxo não se sentia muito confortável em caminhar pelo rio. Em comum acordo, decidimos voltar. Só que tínhamos que voltar por terra. Isso era um problema. O Hugo analisou o terreno e indicou uma direção e fomos. Com dois facões abríamos caminho pela mata que em momentos era bem fechada. Por mais que caminhávamos não havia sinal que estávamos na direção certa. Eu estava tranqüilo até que o Bruno erra uma facãozada e acerta sua canela. Nesse momento certo desespero bateu em todos. Sangrava demais. Depois do susto e com o sangue estancado voltamos a caminhar. Caminhamos um pouco mais e saímos da mata fechada, avistando uma pista no horizonte. Caminhamos por um longo tempo e voltamos para o acampamento. No resto do dia, nadamos e conversamos bastante. Foram boas as conversas e as risadas. Melhores foram às companhias. Prazer imenso de ter conhecido-os. Pedro, Hugo, Bruno e Cartaxo valeu demais. No outro dia partimos em direção a cidade.

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“Hoje pela primeira vez entrei na floresta amazônica. Apesar de estar próxima a cidade, era a Amazônia e isso me deixa feliz. Depois de anos imaginando como seria, enfim tinha acontecido.“ Notas de Diário

Os dias aqui foram realmente bons, principalmente, por causa da família Pereira/Watanabe que me acolheu como um filho e irmão. Meu eternos agradecimentos por esses dias. Muito Obrigado.

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Agora daria uma pausa em Rondônia e seguiria para o Acre, era hora de conhecer as terras de Chico Mendes. Peguei algumas poucas coisas e segui viagem.
#1191808 por Diego Minatel
30 Mai 2016, 22:03
Parte 9: Pelas terras de Chico Mendes, Acre

De Porto Velho segui para Rio Branco, enfim saberia se o Acre existe ou não. Neste dia o Pedro, Bruno e Daniel me acompanharam até a rodoviária. Antes tomamos o melhor açaí da viagem, até então. A estrada para Rio Branco é muito ruim (parte rondoniense) até chegar à divisa natural com o Acre, o rio Madeira. Depois de cruzar o rio na balsa, a viagem seguiu teoricamente tranquila, apesar de o ar condicionado estar congelante.

Informação 9.1: No norte do país tem-se o melhor serviço rodoviário, em minha opinião, do Brasil. Todo motorista explica o percurso, todas as cidades, todas as paradas, a importância do cinto de segurança e algumas companhias distribuem lanches durante a viagem.

Cheguei a Rio Branco na madrugada, depois de dormir algumas horas na rodoviária segui para Xapuri, terra do grande Chico Mendes. Seriam de cinco a seis horas de viagem num trecho que não chega a duzentos quilômetros.

"Peguei um ônibus "pinga-pinga" para Xapuri. Certo momento, contei cento e vinte pessoas dentro do ônibus que iria percorrer quase duzentos quilômetros. Crianças se aglomeravam nos vãos das poltronas. Idosos se amontoavam no corredor e parecia que todas as gestantes do Acre queriam ir para Xapuri neste dia. No inicio achei interessante não deixar ninguém para trás, mas logo essa idéia desapareceu, já tinha perdido a conta de pessoas no ônibus. Seriam quase cinco horas de viagem (com sorte), tempo demais para o caos instaurado dentro do ferro ambulante. O cobrador do ônibus era um tanto quanto curioso, parecia um ditador rodoviário e todos pareciam ter medo do sujeito. Ele sempre via mais espaço e não parava de deixar entrar pessoas. Pessoas entravam, nenhuma saía. A cada 500 metros o bus parava e encaixotava as pessoas, ninguém descia. Diante de sua poltrona confortável, único lugar cômodo do bus, pois até o motorista estava rodeado de pessoas, o cobrador indicava para mais pessoas entrarem. Até que um momento uma grávida indicava do lado de fora para entrar, neste momento, o cobrador teve que sair para pegar uma encomenda na porta de um sítio. Todos com cara de prazer indicaram, enquanto a mulher grávida subia os degraus, para se sentar na poltrona do cobrador. O cobrador de fora ainda tentou evitar, de nada adiantou, teve que subir junto com no mínimo duzentas pessoas de pé no ônibus. Não recuperou seu lugar, mas depois desse momento ele não deixou mais ninguém subir no ônibus." Notas de Diário

Depois de uma viagem em que ônibus parava a todo momento, finalmente, chegava a Xapuri. Meu destino exato seria o seringal Cachoeira, principal empate de Chico Mendes.

Para quem não conhece Chico Mendes, farei uma breve apresentação. Chico Mendes é um homem nascido no Acre, cria da floresta amazônica que teve a sorte de encontrar um refugiado da coluna Prestes e ter uma educação diferenciada por conta deste mesmo refugiado. Seringueiro desde sempre, viu na década de 70 com o apoio da ditadura militar, latifundiários vindos do sul, desmatar o nosso Acre (roubado/comprado da Bolívia) para a criação de gado. Apesar do êxodo da borracha no final do século dezenove e sua decadência no século posterior, o extrativismo ainda representava setenta por cento da economia do Acre, enquanto o latifúndio representava cinco por cento. O latifúndio começou a mudar a vida do homem da floresta, pois desmatando a floresta não tinha mais a seringa e a castanha, principais produtos do extrativismo local. Chico virou líder do movimento seringueiro e com sua metodologia de empates, baseado nas teorias de Gandhi, combateu o desmatamento de sua região. O empate era um boicote no desmatamento, junto com os seringueiros e suas famílias iam até a zona que seria devastada e ficavam ali parados na frente dos tratores, como barreiras humanas. Também saqueavam as motosserras. Chico chamou a atenção mundial e recebeu diversos prêmios pela luta pela Amazônia. Ele é considerado o primeiro militante ambiental em âmbito mundial. No Brasil, ao contrário, fez muitos inimigos por conta dos boicotes ao latifúndio e assim foi jurado de morte, mas antes de ser assassinado ele fez um dossiê (entregue nos quatros cantos do Brasil) de quem o mataria: latifundiários, políticos e empresários, mas de nada serviu, esses mesmos foram os responsáveis pela sua morte em 22 de dezembro de 1988. Apesar de ter criado uma metodologia de educação nos moldes de Paulo Freire e alfabetizar toda a comunidade, não surgiu outro Chico e o movimento com o tempo está sendo calado. No entanto, sua luta não foi em vão, conseguiu transformar muitas áreas que seriam devastadas em áreas de proteção. Para uma delas que eu seguia agora, Seringal Cachoeira.

Vídeo 9.1: Música em homenagem ao Chico Mendes da banda mexicana Maná.

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"Canto do mundo esquecido, condenado a dias iguais. Onde vozes não são ouvidas e direitos são violados. Um dia, como outro qualquer, perdido no passado e remetido pelos sem vozes. Naquele dia em que a voz enterrada venceu o silêncio. O mundo se curvou ao ninguém, filho do nada. Seu grito sacudiu o planeta e uma bala foi disparada. O homem caiu e sua voz ecoa pela eternidade. Chico Mendes Vive!" Notas de Diário

O seringal fica uns 30 km da cidade. O caminho, por uma estrada de terra batida, parece não ter fim. Aqui a natureza é selvagem. A estrada corta a floresta e a comunidade do seringal mora em harmonia com a natureza. Pelo caminho é possível ver árvores gigantescas, algumas lagoas e muito verde. Cheguei ao seringal Cachoeira e logo conheci Nilson, o homem da floresta. Nilson é um senhor que viveu a vida toda em Xapuri, conhece a floresta com a palma da mão. A história passou por seus olhos e também participou dos empates. Dono de um coração enorme me acolheu junto a sua família como a um filho.

Curiosidade 9.1: Agora em casa, descobri que o Nilson é citado em dois livros sobre a vida de Chico Mendes, além de ter sido guia para a Globo, Discovery Channel, BBC, entre outros.

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A experiência dentro da floresta amazônica foi um misto de medo e de encantamento. Agora, por fim, estava no coração da floresta. Nilson era uma companhia perfeita, conhecia todas as plantas, animais e cantos do lugar. Tinha a paciência de me explicar tudo. Ele conhece centenas de remédios naturais, utilizando apenas as plantas da região. Queria lembrar todos os nomes das plantas, de todos os remédios naturais, mas não consigo. Neste dia, caminhamos por muitas horas. Tive a oportunidade de ver dezenas de seringueiras (árvores utilizadas na extração do látex). No meio do caminho o Nilson extraiu o palmito de uma palmeira que nos serviu de refeição durante a caminhada. Depois de um bom tempo e cheio de evidências de onça por perto, perguntei o nome de um pássaro com um som bem característico. Esse som nos acompanhava desde sempre. Nilson na maior tranqüilidade, disse que era o pássaro (que não me recordo o nome) que indica a proximidade de onça. Não fiquei muito feliz com a noticia. Passei a ter medo. Ele dizia que onças só são agressivas por dois motivos: comida e filhos. Disse que não fazíamos parte do cardápio. O problema seria encontrar os filhotes, assim, teríamos problemas de verdade. No fim não cruzamos com nenhuma. Às quatro horas da tarde no meio da selva quase não se enxerga mais e assim voltamos.

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"Caminhava tateando o ar, embora se movesse por entre as coisas com uma fluidez inexplicável, como se estivesse dotado de um instinto de orientação baseado em pressentimentos imediatos" Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez

Dentro da floresta densa pouco se vê. Sabe-se que existem centenas de animais a volta, mas o raio de visão é muito pequeno, além da camuflagem. Achava que estando ali. Onde as árvores são gigantes. Onde a floresta está intacta. Onde não existem trilhas. Teria a oportunidade de ver a vida selvagem das mais diversas formas. Pouco vi dos animais. Por azar ou sorte. A beleza que fica dessa experiência são as sensações. Os sons são muitos, não existe silêncio nunca. A harmonia dos sons de insetos, pássaros e macacos são assustadores, mas muito bonito de ouvir-se. A beleza de cada canto. Observar a vida no seu estado mais puro. Sentir que tudo o que é preciso para a vida está ali em extrema abundância. Sem frivolidades.

Curiosidade 9.2: Aqui foi a região da Amazônia em que vi as maiores árvores.

Nilson costuma dizer que ensinar sobre a importância da Amazônia era seu dever. Lembro de um fim de tarde, sentados no seu quintal floresta, ele me perguntou se eu já tinha visto um cateto. Cateto é um tipo de porco selvagem. Disse que não conhecia. Ele começou a gritar e fazer uns barulhos esquisitos. Depois de alguns minutos chegou um bando de catetos. Nilson disse que eram seus amigos. Eu acreditei. Os catetos são brigões entre eles. Depois da aparição e de algumas brigas eles logo correram para a proteção da floresta.

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Depois conheci Xapuri com mais calma. Visitei o museu Chico Mendes, a casa do Chico, o rio Acre e tudo mais. Do meu objetivo social da viagem, Xapuri foi sem dúvida o mais importante. Foram poucos dias, mas intensos. Conhecer outro estilo de vida. Acompanhar a vida de alguns seringueiros, ficar no seringal, adentrar algumas vezes na floresta e conhecer uma grande pessoa como o Nilson, faz desses dias talvez os mais especiais de todos.

Culinária 9.1: Um prato feito em Xapuri, custa por volta de dez reais. Geralmente, vem uma travessa de arroz que serviria facilmente umas cinco pessoas, um balde de feijão, uma travessa de salada e um peixe gigantesco, além de um litro de suco de cupuaçu.

Curiosidade 9.3: O nível educacional de Xapuri é alto, principalmente nos seringais, foi muitas pessoas que conheci com ensino superior, algumas com mais de uma graduação. Não que um diploma importa, mas são pessoas realmente articuladas.


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Segui para Rio Branco, onde fiquei um dia inteiro, caminhando sem rumo e observando cada palmo daquele lugar que logo me despediria. Gostei muito da cidade, o mercado velho é um lugar agradável para se estar.

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Depois retornei para Porto Velho, pois pegaria o barco com destino para Manaus.
#1193556 por Diego Minatel
06 Jun 2016, 22:26
Parte 10: Viajando pelo rio Madeira

Nunca antes tinha passado mais que cinco horas em um barco. Agora ficaria cinco dias viajando pelo rio Madeira, saindo de Porto Velho com destino a Manaus. Iria passar meu ano novo navegando pelo Madeirão, me sentia um Amyr Klink.

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver” Mar sem fim, Amyr Klink

Antes passei a manhã na casa do Pedro. Depois de muitos dias na companhia de sua família era hora de partir. Triste caminhar sozinho agora e deixar a família que mais foi minha família nessa viagem. Chegando ao barco, junto com o Pedrão e o Hugão, mal sabia armar a minha rede (presente da Zilma). Um cara da marinha mercante me ensinou a colocar a rede de uma forma segura. Ensinamento usado diversas vezes depois. Agora estava sentado na rede do barco e aguardava a autorização da marinha para o barco seguir viagem.

Informação 10.1: Paguei o preço de R$160 na passagem com alimentação inclusa. O valor da passagem é totalmente negociável. O preço inicial era de R$220, mas depois de conversar um pouco consegui baixar o preço. Conheci pessoas que pagaram na mesma viagem os R$220 iniciais e pessoas que pagaram R$150.

Informação 10.2: Diferente das viagens pelo rio Amazonas, nas viagens pelo rio Madeira a alimentação é inclusa na passagem.

Informação 10.3: Existem dois tipos de embarcações que fazem o trajeto. O modo mais rápido é o barco de passageiros que leva “apenas” três dias, no entanto, essa opção é abarrotada de pessoas, quase não há lugar para se colocar a rede. A outra opção é o barco cargueiro, que demora cinco dias, a diferença é que tem poucos passageiros, podendo caminhar pelo barco tranquilamente e tendo espaço de sobra para a rede. Eu acabei indo com o barco cargueiro, mas não sabia das opções, fiquei sabendo quando já estava viajando. As duas opções têm alimentação inclusa e o preço é o mesmo.

Informação 10.4: Lembrando que o sentido que fiz essa viagem, acompanha o sentido do rio. Assim a viagem é mais rápida. Caso faça o sentido contrário o tempo de viagem é dobrado.

Informação 10.5: O rio madeira é um dos vinte maiores rios do mundo. Tem mais de três mil quilômetros de extensão e é um dos principais afluentes do rio Amazonas.


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Quando caiu a noite ainda estávamos esperando a autorização da marinha. Logo cai no sono. No primeiro brilho do dia acordei animado para ver o barco em movimento. Ao acordar percebi que estávamos no mesmo lugar. O capitão do barco teve um mal súbito durante a noite. Ele foi levado para o hospital e nunca mais soube dele. Ficamos toda a manhã aguardando um novo capitão. Nesse tempo fiquei vendo o pessoal da cozinha atirar restos de comida no rio e um cardume infinito pulando fora da água por causa da comida. Isso é das coisas mais incríveis que já pude presenciar. Apesar de parado estava feliz. Depois de muita apreensão, por conta do capitão, seguíamos nosso rumo. O engraçado que enquanto a situação não se resolvia os passageiros quase não se conversavam, foi passar os primeiros metros da viagem e a conversa tomou o barco. Minha primeira experiência na navegação de cabotagem começava.

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O barco devia ter uns quarenta passageiros e oito tripulantes. Os barcos de passageiros saíram com mais de duzentas pessoas e eram bem menores. Apesar dos dias a mais de viagem, me senti com sorte de estar no barco que eu estava. O barco tinha três andares. Na parte mais baixa ficava toda a carga. Levava-se todo o tipo de carga, desde carro a cachos de bananas. No andar da proa fica a cozinha, a área comum e a área dos passageiros, além dos banheiros. No piso superior fica o bar, a cabine do capitão e a área dos tripulantes.

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A alimentação é pouco variada. Tendo carne bovina no almoço e frango no jantar. Sempre assim. Os acompanhamentos não mudam, sendo feijão, arroz, farinha e um pouco de salada. Existe um bar no piso superior que vende salgadinhos, refrigerantes, cervejas, salgados, água e tudo mais, mas os preços são abusivos. Também está incluso café da manhã. Os horários das refeições são fixos e inflexíveis. Perdeu a hora de comer, ficou sem comer. No entanto, a comida servida é mais que suficiente, pois os passageiros da embarcação quase não gastam energia durante a viagem. Quase o tempo todo estará deitado na rede.

Como a embarcação era grande, ela não parava nos portos dos vilarejos pelo caminho. Fazendo da viagem um pouco monótona. A vida no barco é como em uma cidade pequena. Todos acabam se conhecendo por força da situação. No terceiro dia todos já estão íntimos e todos conhecem a história de vida de todos. O que quebra a rotina dos dias são os botos. Em alguns momentos eles acompanham o barco. Fazendo a felicidade de todos. Outra coisa que quebra a rotina são os olhos incandescentes dos jacarés pela noite, principalmente nos trechos estreitos do rio. A paisagem pouco muda durante os dias da viagem. Ás vezes surge algumas comunidades ribeirinhas. Ás vezes aparece algumas ilhotas que embelezam o caminho. A mata ciliar pouco muda, as árvores são mais baixas do que eu imaginava. No entanto, o rio muda muitas vezes de cores e tem horas que parece estar navegando em um pântano, pela quantidade de barro na água.

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Antes de me despedir de Porto Velho a Zilma entregou-me chocolates e balas para entregar no ano novo para as crianças da embarcação. No dia da entrega, quando tirei o saco de chocolate da mala, quase fui pisoteado, talvez seja a maior expressão de alegria que vi nessa viagem. Muito das pessoas que lá estavam são pessoas sem posses que vivem em vilarejos e comem o que a floresta oferece. Fiquei espantando no poder de alguns doces, mas feliz por levar alguns segundos de felicidades para eles. Isso graças a Zilma.

“Hoje vieram me perguntar se eu era rico ou coisa do tipo. Dei risada. Deve ser por causa dos chocolates e balas. Disse que era presente de uma mulher com um coração enorme.” Notas de Diário

A maior surpresa navegando pelas as águas do rio Madeira foi conhecer o Paulo. Ele era um publicitário chileno e largou a vida de empresário bem sucedido no Chile para encontrar algum sentido na vida. Por coincidência do destino a viagem dele se iniciou no mesmo dia que a minha (primeiro de outubro). Toda viagem “sola” tem um sentido maior. No meu caso era algo mais social, já a dele era totalmente espiritual. Ele buscava a todo o momento o autoconhecimento. O mais interessante que ele é casado, sua mulher seguiu viagem para o sul da América do Sul e ele pelo norte da América do Sul. Os dois buscam a mesma coisa em lugares diferentes e se nada mudar dentro deles, no retorno ainda esperam ficar juntos.

"Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quadro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência." O mito de sísifo, Albert Camus

As minhas melhores conversas foram a bordo deste barco com o Paulo. Sem muita coisa a se fazer no barco, passávamos quase o dia todo contando histórias de viagem, da vida, família e tudo mais. Lembro-me quando ele me contou a história do dono da lua. Um chileno na década de 60, no auge das patentes, patenteou a lua como se fosse dele. O engraçado de tudo isso foi que o presidente americano Nixon antes da Apollo 11 pousar na lua, teve que pedir ao chileno “permissão” para o pouso. E claro, que o cara autorizou Neil Armstrong a pisar pela primeira vez na lua. Acho esse ato muito simbólico, o sistema sendo quebrado pelo sistema. Depois da morte do bravo chileno foi definido que ninguém poderia ser dono da lua. O humor do Paulo contando essa história é demais.

O Paulo é daqueles casos onde a repetição trás o talento. Ele dizia que não sabia nada sobre artesanato e artes. Seu sonho era viver das habilidades de suas mãos. A todo o momento ele estava aprendendo/tentando costurar ou a pintar ou a escrever. Depois de três meses de viagem já conseguia produzir muita coisa, apesar de ainda não conseguir subsistir viajando. Acredito que com sua insistência logo ele consiga.

Existem viagens de barco pela Amazônia que duram mais que trinta dias. Ouvi histórias de pessoas que entraram solteiras nessas viagens e saíram casadas. Foi mais de uma história. Isso da para se ter noção de como se vive uma vida dentro do barco. Na nossa viagem, pelo que eu sei não se formou nenhum casal.

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A parte negativa dessa viagem foi à falta de sintonia da tripulação com a natureza e principalmente com o rio. Todo tipo de lixo era lançado fora do barco. Tentei algumas vezes falar com a tripulação, de nada adiantava. A maioria dos passageiros, pelo contrário, guardavam seus lixos para estes não serem lançados pelos tripulantes na água.

O legal que as mulheres da embarcação fizeram do barco, no último dia, um salão de beleza. Todas cortaram o cabelo. Maquiaram-se. Trocaram roupas entre si. Todas queriam estar bonitas no primeiro dia do ano em terra.

Passar o ano novo sem percebê-lo, rodeado de novos amigos e como plano de fundo a imensidão do rio Madeira e da floresta, foi mais especial que eu poderia imaginar. Fez-me ter mais certeza na simplicidade da vida. Viver conforme a luz do dia é outra coisa que me surpreendeu. Acordar ao primeiro sinal de luz e dormir assim que a noite cair. Foram seis dias (um parado e os outros viajando) dentro de um barco, mas mais se pareceu com uma vida. Ter oportunidade de conhecer pessoas tão intima da natureza. Ouvir histórias de vidas que tanto se diferem da minha. Foi um aprendizado constante. Viver sem a pressa dos dias e apenas esperar. Confesso que no inicio tive medo da viagem, mas ao ver as luzes de Manaus se aproximando, a tristeza tomou conta de mim, não queria nunca que aquele barco atracasse.

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Chegamos num domingo cerca de 8 horas da noite em Manaus, como o barco iria ficar atracado no porto, eu, Paulo e uma família resolvemos dormir no barco para economizar uma estadia. Enquanto o Paulo foi procurar frutas para o jantar eu fiz uma bola de rede (que alguém esqueceu). Paulo chegou com duas melancias que comemos em segundos e depois jogamos futebol no barco. Todos os que restavam no barco jogaram. Foi um Fla-Fu dos mais disputados. Desde a senhorinha até o gurizinho. A partida mais democrática do futebol acabou sem um vencedor com o placar de 2 x 2.

Dica 10.1: Os portos são bons lugares para quem quiser economizar com estadia. Os barcos ficam atracados e geralmente é tranqüilo colocar a rede e passar a noite neles.

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No dia seguinte nos despedimos da família. Paulo e eu saímos do porto caminhando. Agora estávamos em terra firme e precisávamos arrumar algum lugar para ficar.
Editado pela última vez por Diego Minatel em 24 Jun 2016, 03:44, em um total de 2 vezes.


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