Trilhas & Travessias - Relatos de Viagem - Caso não saiba onde postar seu relato da sua última trilha ou travessia abra seu tópico aqui.


#965635 por arturmp
31 Mai 2014, 17:55
Estive semana passada no Parna Caparaó. Após subir o Bandeira e o Cristal no ano passado, o objetivo era subir os picos adicionais entre os maiores do Brasil (Cruz do Negro, Pedra Roxa, Tesouro e Tesourinho).

Dia 1: Tronqueira -> Terreirão
Cheguei em Alto Caparaó na 3ª-feira, por volta de 13:00, almocei e parti direto para o parque. Na entrada, os funcionários só perguntaram se eu já conhecia o parque (não perguntaram o destino, então não precisei omitir nada). Paguei a entrada e escrevi meus dados em uma folhinha. Fui de carro até o acampamento Tronqueira, a estrada pode ser percorrida por carros de passeio sem dificuldade.
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O caminho entre os acampamentos de Tronqueira e Terreirão é percorrido à pé. A trilha é bem marcada e simples (H: 3710 m, A: 458 m, D: 27 m ) ao lado de um riacho. Uma Araucária marca a metade do caminho.

Cheguei no Terreirão (vazio!) um pouco antes das 16:00. Montei a barraca e fiquei tirando fotos por lá. A área é muito grande, deve ser engraçado nos finais de semana em que o lugar fica com mais de 50 barracas. A estrutura é boa: terra fofa e plana, banheiro e água. Fiquei passeando por perto até o por-do-sol, tentando me aproximar de um casal de aves e tirando fotos da região.
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Após comer alguma coisa, fiquei lendo na barraca e peguei rapidamente no sono. Era bom descansar o máximo, pois o dia seguinte seria o grande desafio...

Dia 2: Terreirão -> Tesouro -> Terreirão
Acordei cedo (5:30), com a barraca congelada pelo lado de fora ::Cold::. Com o frio, demorei pra tomar café, preparar a mochila de ataque, arrumar e trancar os equipamentos. Saí do Terreirão por volta de 6:30. Percebi depois que deveria ter saído mais cedo – a caminhada (ida e volta do Tesouro) é longa e exige todo o tempo disponível com luz do dia.

Primeiro destino: Morro da Cruz do Negro (12º do Brasil, 2658m).

A trilha começa pela trilha comum de acesso ao Pico de Bandeira. Após caminhar 20 min, a trilha chega em uma laje, onde se deve desviar para o norte, seguindo uma crista que começa na direção noroeste, depois norte. Em mais 35 minutos eu estava no cume da Cruz do Negro. O cume oferece uma vista muito legal, dos arredores, das montanhas ao sul (Bandeira, Pedra Roxa e Cristal) e do resto do caminho rumo ao Tesouro. Apesar do nome, o cume não tem uma cruz.
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A navegação até aqui foi tranquila. Mesmo sem trilha definida, há alguns totens, a trilha ocorre pela crista e o terreno não oferece obstáculos. Nenhum ponto de escalaminhada.

Segundo destino: Pico do Tesourinho (21º do Brasil, 2584m).

A trilha prossegue no sentido nor-noroeste. Após descer 90 m, sobe-se um pouco em um ombro da Cruz do Negro, onde finalmente se encontra uma cruz. A descida continua e a vegetação fica mais densa. Quando estava por volta de 2380 m, estava sem trilha definida, sem visão (nuvens atrapalhando a visão) e a vegetação densa prejudicava a evolução. Acabei me atrapalhando na hora de passar por uma cerca. O saldo foi um baita rasgo na calça e os dois pés dentro de uma poça ::grr:: . Pelo que percebi na volta, havia totens 40 metros à oeste de onde eu passei, em um caminho mais limpo. A partir da parte mais baixa, a trilha continua pro norte, subindo primeiro um ombro do tesourinho, depois o próprio pico. Cheguei no cume aproximadamente 2h depois do cume do morro da Cruz do Negro.
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A navegação entre a Cruz do Negro e o Tesourinho é mais complicada, principalmente no vão entre os dois picos. A falta de trilha bem definida fez com que eu errasse o caminho tanto na ida quanto na volta. Na ida, cruzei a cerca à leste do que deveria. Na volta, comecei a subir a Cruz do Negro à oeste do melhor caminho.
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Terceiro destino: Pico do Tesouro (14º do Brasil, 2620m).
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Desci o Tesourinho em direção a uma pequena elevação, sentido Nordeste. A partir dali, a trilha segue na direção Noroeste, contornando a parte íngreme de rocha pela esquerda. Apesar de não haver uma trilha bem demarcada, há totens no caminho (marquei 26 totens no GPS). De qualque modo, nem sempre há um totem visível a partir do próximo. Com isso, a navegação apresenta alguns problemas, principalmente na hora de subir o pico principal e na presença de nuvens (abundantes no dia).

Acabei tentando subir por um caminho muito íngreme e tive que voltar no meio, passando um baita aperto ::grr:: (nessa hora bateu um medo por estar sozinho em uma trilha raramente usada). Um ponto importante é que não há qualquer trecho de escalaminhada pesada em todo o percurso, se você estiver subindo/descendo algo muito íngreme, não está indo pelo caminho correto.

Após uma longa subida, chega-se ao primeiro cume. A caminhada termina em direção ao Norte, onde chega-se ao ponto mais alto (e existe uma placa de metal desgastada jogada num canto). A caminhada durou 2:30 a partir do Tesourinho, sendo que 20 minutos foram desperdiçados tentando subir no ponto errado e consertando a rota...

O almoço no cume do Tesouro foi um típico momento de “mixed feelings”. Por um lado, eu estava feliz em ter chegado até o pico de mais difícil acesso do parque, aproveitando o visual entre as nuvens. Por outro lado, estava preocupado com o desgaste causado pela bota molhada, pelo tempo que seria necessário p/ voltar antes do sol se por e com eventuais novas dificuldades de navegação. Pensei tb nos 30 minutos de luz do sol que perdi ao sair “tarde” do acampamento.
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A volta começou por volta de 12:40. No geral, tive menos dificuldade para achar o melhor caminho, apesar de estar bem cansado e de pior visibilidade. Acabei errando o caminho entre o Tesourinho e a Cruz do Negro. Achei alguns totens que havia deixado de ver na ida (bem na parte baixa, onde errei o caminho e molhei as botas). Os totens acabaram me levando a começar a subida (do ombro que precede o Morro da Cruz do Negro, não o principal) em um ponto ruim. Acabei tendo que corrigir indo para Leste.

Cheguei no cume do Morro da Cruz do Negro às 17:30, com o sol prestes a se por. O visual foi fantástico: o vento parou e a combinação de nuvens com as luzes criadas pelo por do sol foi mágica. Mesmo cansado, e preocupado pela navegação durante a noite, parei p/ apreciar a vista e tirar algumas fotos, que nem de perto retratam a beleza do momento.
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O resto da caminhada foi sem maiores problemas, mesmo no escuro. Fiz o mesmo caminho até o Terreirão (acho que dá pra ir por outra crista, sem passar pela trilha ao Bandeira). Cheguei no acampamento as 18:20, quase 12 horas depois de ter partido, completamente exausto.

Ir e voltar do Tesouro envolve um esforço grande para um dia (H: 14140m, A 1241m, D: 1241m). Uma boa comparação é com subir e descer o Pico Paraná em um dia. Mesmo com menos trechos de escalaminhada e distancias menores, a ida e volta ao Tesouro é mais desgastante. Em primeiro lugar, a trilha do Pico Paraná tem um começo fácil, com trilha bem marcada e pouca inclinação, o que não ocorre na ida ao Tesouro. Além disso, eventuais caminhadas por trechos sem trilha desgastam mais do que as partes “corrida de obstáculos” na trilha do PP.

Havia outros dois caras acampando solo no Terreirão e deu pra bater um papo, enquanto me preparava p/ dormir. Estava muito cansado e foi a melhor noite de sono que já tive em uma barraca.

Dia 3 – Terreirão -> Bandeira -> Terreirão -> Tronqueira
No dia seguinte, acordei com muitas dores nos pés (bolhas) e nos músculos. Pra piorar, o tempo estava completamente fechado. Apesar disso, fui em direção ao Pico da Bandeira, visando chegar até a Pedra Roxa. Não estava decidido entre tentar contornar o Bandeira por baixo ou avançar a partir da crista em seu cume.

Ao longo da trilha, tentei achar algum caminho lateral que fosse adequado, mas a falta de visibilidade prejudicou qualquer avaliação. Acabei subindo até o cume do Bandeira, que estava em condições hostis - sem visibilidade alguma e fortes ventos. Como não conseguia ver a Pedra Roxa, fiquei na dúvida se a crista disponível ao lado do “Cristo” era a que levava à sela entre as montanhas. Esperei uns 30 minutos abrigado do vento para que as condições melhorassem, mas o tempo continuava muito ruim. Com as rochas molhadas, desgastado e sem visibilidade acabei desistindo de ir até a Pedra Roxa. Ia ter que voltar ao Caparaó uma 3ª vez para completar os 6 picos (o Calçado não conta...).
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Aceitando o clima desfavorável, me arrastei até o Terreirão, e dali até o acampamento Tronqueira. O curioso é que o clima estava ótimo abaixo de 2400 m de altitude... quente, seco e sem vento. O problema só aparecia acima de 2600 m.

O saldo de subir/descer o Bandeira, incluindo algumas tentativas de achar uma trilha lateral, mais a volta ao Terreirão e a descida ao Tronqueira foi H: 11210m, A: 719m, D: 1151m. Teria sido um dia fácil não fosse o desgaste do dia anterior.

#966038 por Otávio Luiz
02 Jun 2014, 09:59
Show de bola Artur!!!!! ::otemo:: ::otemo:: ::otemo::
Parabéns pela conquista, espero em breve trilhar por estes caminhos também.
Seu relato será de grande ajuda, obrigado!!!
#966124 por rafael_santiago
02 Jun 2014, 13:25
Muito bom, Artur!
Também tenho esse projeto pessoal dos cumes do Caparaó prestes a ser colocado em prática a qualquer momento. E o seu relato será muito útil. Mas o desgaste do bate-volta é muito grande e tenciono levar equipo para pernoite em algum ponto do caminho, sem a obrigação (e o stress) de ter de voltar no mesmo dia ao Terreirão. O tempo pode mudar no caminho e aí a coisa fica difícil...
Bom saber que há trilhas e totens para os lados do Tesouro.
Obrigado por compartilhar conosco!
Abs
#966167 por arturmp
02 Jun 2014, 15:02
Rafael,

Acho que vale a pena acampar no caminho sem ter que ir e voltar no mesmo dia (apesar de ser proibido!).

Apesar de não ter visto qualquer fonte óbvia de água no caminho, acredito que existem fontes de água nos colos entre o Cruz do Negro e o Tesourinho. Talvez entre o Tesourinho e o Tesouro tb. O brejo em que molhei minhas botas deve ser alimentado por um rio, e acredito que a nascente do Rio Balaios seja por perto. Fora a água, existem diversos pontos adequados (mas proibidos) para acampamento no caminho, com terreno plano e proteção dos ventos.

Os totens foram uma boa ajuda no caminho, mas não resolvem 100% do problema. A trilha some em vários pontos e há partes sem totens. Entre tesourinho e tesouro foram 26 totens marcados no GPS.

Abs e boa sorte tb. É um lugar mto legal pra conhecer.


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