18 mil Km em dois fuscas dando carona pela América do Sul.
Dentro dos carros brasileiros, argentinos, chilenos, paraguaios e uruguaios expõem seus pontos de vista sobre o intercâmbio cultural que existe, ou não, entre os países, as rixas e os preconceitos, o domínio norte-americano e nossa educação.
Caroneiros é um projeto independente que acredita na discussão desses temas para a preservação da identidade latino-americana.
Documentário registra a distância que há entre os povos do Cone Sul.
Investigar e resgatar as identidades culturais remanescentes da América Latina era a proposta da diretora Martina Rupp e sua equipe quando, a bordo de dois fuscas - Mostarda e Azeitona -, percorreram 18 mil quilômetros de Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai. A viagem durou 72 dias, mais de 150 entrevistas e 160 horas de gravações.
O resultado desse trabalho pode ser apreciado no média-metragem Caroneiros (Brasil, 2006), distribuído em DVD pelo projeto Curta na Prateleira, da Cavídeo, e, melhor, "alugado" de graça nos videoclubes que participam da iniciativa.
Os entrevistados apresentados no vídeo foram selecionados ao acaso, na estrada. Logo no início, o chileno de fato e direito, mas também argentino, de papel, Hector Bahamonde resume o espírito da iniciativa ao declarar "que coisa mais engraçada seria esta: 'te levamos, mas vai ter que falar'.
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No filme, o resultado de toda essa falação foi dividido em nove blocos temáticos, separados por imagens da viagem. No primeiro, Rixas, descobrimos que, para o bem ou para o mal, ninguém se lembrou do Brasil. Um dos entrevistados, o argentino Guillermo Murphy, declarou mesmo que via os brasileiros como irmãos, mas na hora do futebol, claro, a coisa mudava.
Aliás, na maior parte do documentário, é como se o país quase não existisse. Nas poucas vezes em que é citado, isso acontece em razão de sua música ou de rivalidades no futebol.
Os leitores mais nacionalistas não devem ficar decepcionados com essa constatação. O que fica claro para quem assiste ao documentário é que os habitantes dos países do Cone Sul não conhecem uns aos outros. Como observou um dos entrevistados, é capaz de ele saber mais sobre o Império Romano que sobre a história dos países da região, e tudo o que conhece hoje sobre a América Latina teve que aprender por conta própria.
Depois, como comentaram outros entrevistados, filmes, livros e notícias produzidos nos países desenvolvidos chegam mais facilmente que os produzidos na região. O argentino Horácio Gimenez foi capaz de lembrar o nome de um filme uruguaio e dois brasileiros, nada mais. Por outro lado, como observou outro argentino, não há como não saber os filmes americanos que entram em cartaz.
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Ainda sobre esse desigual fluxo norte-sul, a uruguaia Florência Santagelo chamou a atenção para algo talvez ainda mais grave. Ela observou que os livros usados na educação são escritos por pessoas de fora da região, o que acaba servindo para formar intelectuais locais, mas com olhar estrangeiro.
Foi justamente revelar a forma como nos vemos uns aos outros um dos motivos que levou Martina Rupp a elaborar o projeto. Em conversas com seu amigo, o fotógrafo argentino Santiago Harte, e durante a elaboração da monografia de fim de curso - uma adaptação do livro Veias Abertas da América Latina para o cinema -, não necessariamente nessa ordem, Martina sentiu necessidade de fazer esse documentário.
Quem quiser pode, além de ver o filme, ler o blog, enquanto o livro não sai. Lá você fica sabendo de personagens e eventos que ficaram de fora do documentário, como o caroneiro que queria pedir ao Chávez um pedaço de terra para fundar seu próprio país ou como a equipe acabou sendo convidada para tomar um vinho com Carlos Paez Vilaró, autor da Casa Pueblo.
Em sala de aula, Caroneiros pode ser o ponto de partida para despertar o interesse pela cultura e pela história dos países vizinhos ao Brasil. Esse debate pode contar com a presença da diretora. Para isso, basta acessar o site do projeto e clicar em Contatos.
Por Léo Silva
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FICHA TÉCNICA DO FILME
Título: Caroneiros
Gênero: Documentário
País de Origem: Brasil
Ano de Produção: 2006
Áudio Original: Português
Direção: Martina Rupp
Duração: 52 minutos
Faixa Etária: a partir de 10 anos






Resumo