 O último coronel do sertão baiano
Texto: Silnei Laise
Além de locação ímpar, a região tem personagens que enriqueceriam qualquer roteiro cinematográfico. Em meados do século XX, em plena decadência da mineração, as lutas entre famílias se intensificam por toda a Chapada Diamantina. De Brotas de Macaúbas (Chapada Velha) e com milícia própria, entra em cena a figura mais controversa do sertão baiano: O Coronel Horácio de Mattos.
Filho de garimpeiro, Horácio se viu obrigado a assumir o comando da família, após a morte de seu tio, Clementino Mattos. Movido por seu sentimento progressista, uma exceção entre os coronéis do sertão, sonhava com o desarmamento e fez uma peregrinação para propor um acordo de paz, que foi "quebrado" pelo assassinato de um de seus 7 irmãos, por rivais.
Horácio tenta fazer com que os assassinos fossem presos e jugaldos de acordo com a lei, mas não obtem resultados e em 1915 sitia Campestre (atual Seabra) onde o coronel Manuel Fabrício de Oliveira protegia os assassinos de seu irmão. A partir daí, começa sua vida, dividida entre o desejo de paz e a guerra do sertão.
Em 1916 Mattos e seus homens marcham rumo ao reduto de mais um coronel, Militão Rodrigues Coelho, que estaria tomando de forma violenta, terras na região. Após cinco meses de intensas batalhas e 400 mortos, Horácio vence a guerra contra Militão.
O poderio do bravo coronel do sertão já é notado por outras áreas da Bahia, tanto que o então governador J.J. Seabra faz um acordo com Horácio de Mattos e transfere órgãos oficiais para a chapada a partir das escolhas do coronel. Paira pela Chapada um breve momento de paz.
Com o garimpo na Chapada Velha em decadência, há uma debandada rumo à Chapada Oriental, para os lados do que hoje é Lençóis (conhecida como Vila Rica da Bahia, na ocasião). A cidade era rica em carbonato (substância que ajuda na perfuração de túneis e na lapidação dos diamantes) e única produtora mundial deste material no período.
Horácio toma o poder em Lençóis através de um acordo com Aureliano Sá, que prefere não promover mais um derramamento de sangue. Lençóis, a capital das Lavras está sob comando de Horácio de Mattos. Era como se a Bahia tivesse dois governos, um na capital (J.J. Seabra) e outro no interior (Horácio de Mattos). A essa altura Horácio que acumulara tanto poder na região, recebe os títulos de Delegado Regional da Zona Centro-Oeste e Senador Estadual.
Góes Calmon, governador do Estado (depois do exercício de Seabra) rompe com Horácio por não suportar seu “poder paralelo”. Em 1925 Calmon manda seu exército “destronar” Horácio de Mattos. Pela primeira vez ele estava cercado; apesar de estar em vantagem por conhecer a Chapada a fundo, Horácio não contava com participação de um membro da família Sá (uma de suas rivais) que guiou o exército por locais estreitos, cujas mortes se davam homem a homem. Mesmo com grande perda, Mattos vence mais uma batalha.
Escreve uma carta ao governo informando sobre a morte do major de polícia, João da Mota Coelho que estava no comando das operações. Os feitos das famílias Sá e Mattos em Lençóis podem ser resumidos como: Sá “ergueu” a cidade e Mattos quis expandi-la para outras classes. Em 1926 a Coluna Prestes segue para a Chapada Diamantina. Neste momento o governo federal precisa de Horácio de Mattos. Ele e seus jagunços, além do coronel Franklin de Albuquerque perseguem a Coluna do coração da Bahia até a fronteira com a Bolívia!
Foi a primeira vez em que os bravos homens da Chapada são convocados à servir o país lutando contra os revoltosos (Coluna Prestes) a favor de Dutra (Eurico Gaspar Dutra, que também foi ministro da Guerra do governo Getúlio Vargas).
Horácio é recebido como herói e vira prefeito de Lençóis. Constrói então as primeiras escolas da região, estradas, calçamentos, rede elétrica e, para facilitar a circulação de dinheiro na região, chega a emitir papéis coloridos que viraram moeda corrente local. Movido por seu sonho de paz, Horácio faz uma peregrinação em todo sertão e desarma todos os coronéis da região a pedido do Governo Federal. Após o desarmamento é traído e preso. Chovem pedidos de soltura na mesa de Getúlio Vargas. Horácio é solto em 13 de maio de 1931, mas não pode sair de Salvador.
Dois dias depois de liberto, leva três tiros pelas costas a mando de parentes do major de polícia João da Mota Coelho, que tombara cinco anos antes, durante o cerco a Lençóis. A vida de Horácio é cercada de lendas e uma delas é que no leito de morte de seu tio, após fazê-lo prestar o juramento para assumir a chefia da família, o fez bater com a palmatória em todos familiares em sinal de submissão.
De acordo com Walfrido Moraes, biógrafo de Horácio, o código dos Mattos era:
“Não humilhar ninguém, nem se deixar humilhar. Não roubar nem permitir que quem roube fique impune. Não provocar, mas se ofendido, reagir pela honra”.
Após a morte de Horácio e com a economia destruída e sem liderança política, a Chapada Diamantina entra em um período de estagnação e grande parte de seus moradores vão embora trabalhar na lavoura ou em outras minas e sertões. |