Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#1103317 por rafael_santiago
02 Jul 2015, 17:21
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Campos floridos no alto da Serra da Campina

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... ocaMGAbr15.

A Serra da Campina ocupa a porção oriental da recortada área do Parque Estadual da Serra do Papagaio e é o limite natural entre os municípios de Alagoa e Aiuruoca. Entre morros e vales de grande beleza, na cota média dos 1800m, algumas elevações são mais notáveis e ocupam justamente as bordas da serra, com destaque para o Pico da Campina, o mais alto, formado por dois cumes (2010m e 1996m), o Rincão (1953m) e o Morro da Cangalha (1924m). Vale mencionar que na carta topográfica do IBGE o Rincão aparece erroneamente com o nome de Morro da Cangalha.

Esse relato descreve um circuito que partindo da cidade de Alagoa sobe aos floridos campos da Serra da Campina, percorre seus três cumes de destaque e desce ao pequeno bairro da Campina, retornando por estrada a Alagoa (de carona, felizmente).

Apesar de ser área do parque estadual, não há nenhum tipo de aviso ou sinalização que indique isso e, pior, encontrei vacas e cavalos pastando onde só deveria haver vida silvestre.

1º DIA: DE ALAGOA AO MORRO DA CANGALHA

Às 6h17 em ponto deixei a cidade de Alagoa, ainda totalmente mergulhada na cerração matinal, tomando a direção do templo da Nhá Chica, aonde cheguei em 12 minutos. Depois dele, em 360m o calçamento de blocos sextavados termina. Na bifurcação peguei a direita descendo e cruzei um rio (Ribeirão dos Campos segundo a carta, cujas nascentes estão no alto da serra). Logo após um casarão de fazenda pego a estrada que sai para a direita e cruzo uma porteira de ferro. Aí começa uma subida que durará 3 horas. Na bifurcação seguinte às 7h15 vou para a esquerda, subindo mais, e passo outra porteira, esta de madeira com uma alavanca quebrada. Depois de uma grande pedra sobre a qual cresceu uma árvore (no alto do barranco à esquerda) a estradinha faz uma curva fechada para a esquerda subindo forte. Há como referência uma casinha de madeira do lado direito, parecendo uma latrina. A terra ali estava toda mexida e bastante escorregadia. Aí é o ponto de abandonar a estrada (que mais à frente tem outra porteira) para cruzar uma tronqueira à direita e entrar num pasto com vacas. No pasto subi pela trilha que inicialmente acompanha a cerca e a mata à esquerda, mas logo pego outra trilha que sobe cruzando o pasto na diagonal para a direita.

Às 8h16 tem fim a subida desse primeiro pasto mas ganho a visão de novos pastos à frente. A trilha me levou na direção de uma porteira e encontro uma nova estradinha ali no alto, para minha surpresa. Após a porteira desço a uma ponte com água aparentemente boa (um dos tantos afluentes do Ribeirão dos Campos) e enfrento mais uma subida pela estradinha precária, chegando a um casebre de madeira junto a um retiro (local onde se tira o leite). Percebi que havia gente e chamei para pedir licença para passar. Um rapaz apareceu e disse que eu podia passar por dentro dos currais cobertos, além de me mostrar a continuação do caminho. No último cercado onde as vacas ficam saí pela porteira da esquerda e peguei a trilha subindo a encosta. Ele também me alertou para um boi bravo que podia estar pastando por ali, mas por sorte não cruzei com ele. A trilha sobe bem marcada, depois parece sumir no alto, mas procurando na direção da mata ela reaparece. Nesse ponto alto avistam-se muitas serras e morros, como o Pico do Chorão a sudoeste. Entrando na mata, às 9h11 cruzei um riacho (a próxima água fácil só encontraria no final do dia) e logo em seguida uma porteira decrépita. Mais 9 minutos e encontro um antigo casebre desabado sendo engolido pelo mato. Quando passei ali pela primeira vez, em setembro de 2010, essa casa estava em pé e tinha plantas e frutas ao redor. A trilha continua para o norte, bem pisada, em direção à serra, porém uma espécie de arbusto está fechando o caminho e em alguns pontos chega à altura do peito. Aos poucos reentro na mata, mas logo uma janela se abre à direita, deixando ver as serras novamente. A trilha continua na mata bem aberta e pisada, até com variantes. Após uma tronqueira a subida finalmente estabiliza nos 1873m e bifurca imediatamente antes de sair da mata, às 9h58. Já estou nos campos do alto da serra. Se estivesse fazendo uma travessia para Aiuruoca seguiria para a esquerda, mas desta vez meu destino é para a direita. Assim, saio da mata e me deparo com os campos cobertos de flores brancas e rosadas, uma linda recepção após 3h40 de caminhada com muita subida.

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Serra do Ouro Fala e Mitra do Bispo vistas do cume leste do Pico da Campina

Como meu primeiro objetivo é subir o Pico da Campina fico atento pois se seguir essa trilha indefinidamente vou tomar o rumo nordeste e não vou passar por ele. Desse modo, após sair da mata acompanho por apenas 100m a trilha, que contorna um morrote à direita, e antes de entrar na mata seguinte a abandono para subir o morrote no sentido sudeste sem trilha. Após alguma procura encontro uma trilha que desvia do morro seguinte para a esquerda, mas é preciso subi-lo, então logo a abandono também e miro na cerca que sobe o morro. Alcançada a cerca às 11h14, a visão se amplia bastante e tenho noção da distância e dos possíveis caminhos para os morros da Cangalha e Rincão, a nordeste. O Cangalha, mais distante, está a cerca de 4km em linha reta. É uma bela visão dessa porção pouco conhecida do parque. Bem mais distante o onipresente Pico do Papagaio e também o Pico do Garrafão e o Pico do Muquém, este em Carvalhos.

Subi acompanhando a cerca na crista ascendente para a direita e atravessei-a numa tronqueira de arame enferrujado para atingir o topo desse morro. Continuei para leste e encontrei uma trilha na crista. Duas outras entroncaram nesta vindo da esquerda, sinal de que encontrei um caminho bem usado (mais pelas vacas...). Atravesso uma faixa de mata de 20m e subo ao primeiro cume do Pico da Campina, de 2010m. São 11h45 e paro para um lanche na sombra da mata, mas as formigas nervosas não me deixam ficar sentado muito tempo no mesmo lugar.

Às 12h33 retomo a caminhada ainda na direção leste para subir o segundo cume, bem ao lado. Desci em sua direção sem trilha mas encontrei uma bem marcada ao me aproximar da mata que recobre o selado entre eles. Fui para a direita entrando imediatamente na mata. Em apenas 3 minutos estou saindo dela, mas antes noto um cruzamento de trilhas. Para a direita a trilha parece descer a serra! Já ficou marcada para futuras explorações.

Seguindo em frente no citado cruzamento saio da mata. Sigo apenas 80m por essa trilha já que havia visualizado antes de entrar na mata que ela apenas bordeja o morro. Deixo a cargueira à beira da trilha e subo leve em 10 minutos ao segundo cume do Pico da Campina (12h55), que é um pouco mais baixo (1996m) mas tem uma visão bem interessante por estar na extremidade da serra. A cidade de Alagoa é vista por completo ao sul, além da Serra do Ouro Fala e da Mitra do Bispo a leste, e do Pico do Chorão e do Garrafão a sudoeste. Morro da Cangalha e Rincão, meus próximos objetivos, estão a nordeste.

Às 13h17 desci de volta pelo mesmo caminho, peguei a mochila e ao reentrar na mata peguei a trilha da direita no cruzamento. Em 2 minutos saí da mata e contornei o morro do primeiro cume do Pico da Campina para a esquerda. Quando a trilha sumiu, desci à direita na direção de uma outra trilha que podia ver abaixo indo para o norte e acompanhando uma faixa de mata. Quando essa mata terminou a trilha desapareceu, às 14h22. Avistei uma porteira abaixo à direita e resolvi ir na sua direção para reencontrar um caminho marcado (se tivesse seguido sempre pela primeira trilha que encontrei ao chegar ao alto da serra, teria chegado aqui).

Apenas 250m após a porteira a trilha bem marcada... desapareceu. Aqui há duas opções, uma à esquerda descendo ao Ribeirão da Água Preta, que abriga algumas cachoeiras, e a outra à direita, continuando pelas cristas. Como eu precisava de visão para uma boa navegação (e não precisava de água) preferi andar pelo alto, portanto não posso dizer das condições do caminho da esquerda.

Dessa forma, no desaparecimento da trilha contornei o morrote à frente pela direita e segui pela crista de olho sempre nos caminhos que deveria tomar mais à frente. Às 15h13 uma bifurcação em T é o ponto de convergência com o ramo da esquerda, aquele que passou pelo rio. Sigo para a direita nesse T, desço a uma clareira de descanso do gado onde há uma abertura na cerca e uma curiosa árvore solitária, e logo subo novamente. Ao atingir o alto, visualizo toda a trilha continuando para o leste mas não é esse caminho que devo seguir ainda. Esse será meu caminho alternativo de descida da serra em direção ao bairro da Campina (digo alternativo pois quase não é usado, como relatarei mais adiante). Portanto, nesse alto devo tomar as trilhas de gado que saem para a esquerda pois meu próximo objetivo é o pico mais distante, o Cangalha. Se fosse o Rincão poderia seguir em frente aqui e subir à esquerda após a mata. Também chegaria ao Cangalha se seguisse esse último percurso (passando pela base do Rincão) mas preferi fazer um caminho na ida e outro na volta, praticamente fechando um circuito.

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Pico do Papagaio

As trilhas de gado que saem para a esquerda correm pela encosta do morrote e não me dariam visão, por isso preferi subir ao seu topo e estudar o terreno à frente. Em seguida desci ao selado entre este morrote e o seguinte a nordeste e tomei à esquerda a trilha de gado que evitei minutos antes. Havia quatro cavalos pastando ali. A trilha contornou o morrote que eu havia subido e acompanhou a mata densa da direita para cruzar num ponto acima dela, onde a passagem é muito fácil por uma tronqueira aberta. A trilha ali se divide em três mas continuei em frente, em nível pela encosta. Logo a visão se abre e tenho uma espetacular panorâmica de toda a Serra do Papagaio à minha frente.

Às 16h05 chego a um cruzamento de trilhas. O caminho para o Morro da Cangalha é à direita porém vejo no gps que a trilha em frente pode me levar próximo ao alto da Cachoeira do Fundo, no final do Vale do Matutu. Resolvo dar uma conferida rápida nisso e sigo em frente, largando a cargueira. Mas não é assim tão simples, a trilha desvia para a esquerda e termina com abismos de todos os lados. Teria que descer uma encosta sem trilha e aparentemente com mata e não estava com tempo para isso. Retornei ao cruzamento, peguei a mochila e segui pela trilha da esquerda (direita quando passei na primeira vez). Desci pelo campo em diagonal, entrei na mata ciliar e cruzei saltando pedras um afluente do Ribeirão da Água Preta às 16h39. Mas antes de entrar na mata notei que vinha da direita a crista onde encontrei os quatro cavalos pastando 1h10 minutos antes, ou seja, esse seria um caminho viável e mais curto do que o que fiz. Coletei água para a noite e para o dia seguinte já que não cruzaria mais nenhum riacho no alto da serra.

Na mata da outra margem fui à esquerda na bifurcação e notei a vegetação recentemente roçada. Após 200m saí da mata e segui em nível pela encosta do Morro da Cangalha até encontrar as trilhas erodidas que o sobem às 17h05. Tomei uma delas para a direita e comecei a subida. São várias trilhas erodidas que vão aos poucos convergindo para uma só. Atravesso uma faixa de mata de 90m e no campo seguinte a trilha vai desaparecendo. Mas é só continuar em direção ao topo, aonde chego às 17h36.

A nova visão da borda da serra é espetacular. O Morro do Rincão bem ao lado (sul), Pico do Papagaio (norte), Pico do Muquém (leste), os dois cumes do Pico da Campina (sudoeste), Serra do Ouro Fala (sudeste), entre outras montanhas.

Altitude de 1924m.
Nesse dia caminhei 15,9km.

2º DIA: DO MORRO DA CANGALHA AO BAIRRO DA CAMPINA E DEPOIS ALAGOA

Para completar o circuito de cumes da Serra da Campina só faltava subir o Morro do Rincão. O restante do dia seria reservado para a descida da serra já que iria fazê-la por outra trilha, desconhecida e incerta, e deveria haver tempo suficiente para corrigir algum contratempo que surgisse.

Deixei o cume do Cangalha às 8h19 e voltei nos primeiros 300m pelo mesmo caminho, porém quando a mata à esquerda deu lugar a um campo procurei uma trilha na direção do Rincão, ao sul. Encontrei uma bem apagada que aos poucos foi se tornando bem marcada e até bifurcou, no que desci pela esquerda. À minha esquerda abre-se um grande vão entre as duas montanhas onde nasce o Córrego da Cangalha, despencando serra abaixo. Desço toda a encosta, atravesso 30m de mata e logo começo a subir a encosta oposta, já aos pés do Rincão. Mas a subida não foi direta ao cume, chegou a descer um pouco e contornar a montanha, e quando a trilha se aproximou da mata seguinte procurei uma outra à esquerda que subisse ao cume do Rincão. Não encontrando subi pelo capim baixo, às 9h14, levando 15 minutos até o cume. Altitude de 1953m. A visão é parecida com a do Cangalha, porém mais aberta para o sul. E dali se vê como é realmente extensa a crista do cume do Cangalha.

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Pico do Papagaio e Vale do Matutu à esquerda

Desci pelo mesmo caminho e às 10h08 estava de volta à trilha, entrei na mata à esquerda e saí dela em apenas 2 minutos. A trilha continua descendo suavemente pelas encostas e quando toma a direção noroeste percebo que devo abandoná-la e procurar outra que vá para o sul ou sudeste a fim de descer a serra. Nessas direções tenho a crista da encosta onde estou, e subo até ela sem trilha, virando para a vertente sul, onde encontro outra trilha (para a qual convergem mais algumas vindo da direita). Essa nova trilha bordeja o morro à esquerda e desce. Mas aqui é preciso atenção pois a trilha bem marcada quebra para a direita e entra na mata abaixo, porém esse caminho me levaria de volta ao percorrido no dia anterior. Quando a trilha quebra para a direita é preciso tomar a esquerda pelo capim baixo, praticamente sem trilha, apenas por um rastro que parece não levar a lugar algum. Sem levar muita fé, passei por baixo de uma cerca já bem arrebentada e entrei na mata às 11h02. Altitude de 1820m. Para minha surpresa surgiu uma trilha bem marcada aí. A descida teve trechos bastante inclinados e escorregadios, e notei mais abaixo partes roçadas, sinal de que alguém dava manutenção nela! Às 11h40, na altitude de 1453m, a trilha, já menos íngreme, dá uma guinada para a esquerda. Segundo o gps deveria haver uma trilha para a direita também, mas pode ter existido há muito tempo pois agora o mato já engoliu tudo. Parei para um descanso ali.

Retomei a caminhada às 12h08, com a chegada da chuva, e logo tive de tirar a cargueira de novo para cruzar um quebra-corpo bem apertado. Em mais 14 minutos encontro um rancho sem paredes à direita. A trilha continua para a esquerda e encontra um riacho, o Córrego da Olaria, que cruzo pelas pedras (primeira água do dia). À frente o portão dos fundos de um sítio. Procurei alguma forma de não passar por dentro da propriedade mas não encontrei. Passei pelo portão, com uma pequena casa vazia à esquerda, e me deparei com um grande conjunto de vasos de bonsais, das mais variadas espécies. Depois de uma pontezinha de madeira chego às casas principais do sítio, onde sou muito bem recebido pelas simpáticas proprietárias às 12h40. A surpresa delas foi tão grande quanto a minha e quiseram saber das minhas andanças lá pelo alto da serra. Permaneci algum tempo por lá, até almocei com eles todos, e depois uma mais que bem-vinda carona até Alagoa não poderia ter me caído melhor, já que seriam 2,1km até o bairro da Campina e depois mais 5,8km de estrada até a cidade. Mas para amenizar poderia pegar o ônibus que vem de Aiuruoca.

Altitude de 1369m no sítio.
Nesse dia caminhei 5,5km.
Total da caminhada: 21,4km.

Informações adicionais:

A linha São Paulo-Itanhandu é operada pela Cometa (http://www.viacaocometa.com.br).

O horário dos ônibus Itanhandu-Itamonte é:
. empresa Delfim: 6h45 (seg a sex), 9h, 10h30, 13h15, 14h45, 15h50 (seg a sáb), 17h (seg a sex), 17h20 (dom), 18h30
. empresa Cidade do Aço (http://www.cidadedoaco.com.br): 7h15, 11h30, 15h15, 17h45, 21h15, 22h10

O horário dos ônibus Itamonte-Itanhandu é:
. empresa Delfim: 6h (seg a sex), 7h35, 10h, 11h45, 13h50, 15h20 (seg a sáb), 16h20 (dom), 16h30 (seg a sex), 18h
. empresa Cidade do Aço (http://www.cidadedoaco.com.br): 5h50, 7h40, 9h10, 12h, 14h25, 16h20, 18h25, 22h10

O horário do ônibus de Alagoa é:
Itamonte-Alagoa: seg a sáb - 14h; dom - 14h30
Alagoa-Itamonte: seg a sáb - 6h; dom - 13h

Carta topográfica de Alagoa: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -A-I-2.jpg

Rafael Santiago
abril/2015
http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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Percurso na imagem do Google Earth - parte 1


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Percurso na imagem do Google Earth - parte 2


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Percurso na carta topográfica - parte 1


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Percurso na carta topográfica - parte 2


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