Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#564622 por Jorge Soto
15 Mar 2011, 10:22
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http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/169/169

LAPINHA – CAPIVARA: A TRAVESSIA DAS CACHUS GIGANTES
A Serra do Espinhaço é tão igualmente generosa qdo se trata da vastidão cênica de seus campos rupestres, matas de galeria e campos de cerrado qto as várias possibilidade de longas caminhadas através deles. Por sua vez, o vilarejo da Lapinha é referencia obrigatória à maioria destas travessias: à nordeste temos a tradicional pernada rumo Tabuleiro; ao norte temos jornadas até Fechados, Inhame e Congonhas do Norte; e o sul nos brinda com uma bela viagem até Serra do Cipó. Mas, e à sudeste? Pois bem, à sudeste temos a pauleira e desconhecida “Lapinha-Capivara” q, num trajeto com formato “de ponto de interrogação” e totalizando em torno de 100km feitos em quase uma semana, contempla as maiores cachus e cânions deste setor norte serrano bastante privilegiado de Minas Gerais. E fora dos limites do Parna Serra do Cipó.

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1º DIA: CHEGANDO NO CIPÓ
“Vamos, tá na hora de ir!!!”, disse um impaciente Toninho.. ops, Antonio, interrompendo minha animada botecada de inicio de tarde no centrão de Belo Horizonte em cia da Dani, uma gde amiga das antigas. Tb pudera, o hiato entre minha chegada na capital mineira e a saída do busão pro alto da serra fora a deixa necessária pra colocar a fofoca e principalmente as cervejas em dia. À contragosto, me despedi dela trançando as pernas e fomos pegar o latão da viação Serro com destino a Conceição do Mato Dentro, às 16hrs. A viagem, claro, foi td embalada no colinho acolhedor de Morpheus. Ah, sim. O plano mirabolante (e interessante) de travessia do Antonio pela região coincidiu com a minha falta-do-q-fazer durante os festejos momescos, o q pesou bastante pra este q vos escreve estar ali naquele instante uma semana antes dos mesmos naquela mega-pernada, q por razões logísticas teria o sentido inverso ao originalmente proposto.
“Vamos, tá na hora de descer!!!”, disse um impaciente Toninho.. ops, Antonio, agora interrompendo meu soninho gostoso na poltrona mal inclinada do latão. Ainda naquele estado letárgico q beirava o sono, a vigília e a ressaca pude reconhecer no trajeto o q deveria ser a bela subida de serra a partir do vilarejo beira de estrada conhecido como Serra do Cipó (ex-Cardeal Mota), até a figura alva e sorridente da estátua esculpida em calcário do Juquinha, q dizem ter sido erguida em homenagem a um antigo matuto errante da região.

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Saltamos no asfalto da MG-010 a exatas 18:30 um pouco antes da Faz. Alto Palácio, ainda sob os resquícios de luminosidade daquele fim de tarde dominical opaco e acizentado. Últimos acertos nas pesadas cargueiras aqui e ali e pronto, pusemo-nos a caminhar enqto o busão se perdia entre a morraria, à leste. Pulamos a cerca, literalmente falando, e acompanhamos um largo carreiro rumo norte q bordejava um abaulada colina, pela direita. Um tempo após cruzar uma lacônica placa indicando estarmos na “APA Cachoeira da Capivara – Interditada” o trilho aparentou desaparecer, mas logo o reencontramos mais adiante. A escuridão total daquele inicio de noite tomava conta da serra nos obrigando a prosseguir a pernada sob fachos de headlamps, prestando tanto atenção na continuidade da picada, cada vez menos obvia, como nos enormes buracos escondidos na campina daquela suave encosta. Preocupação mais q justificada, uma vez meu “avançado estado etílico” não havia sumido com o cochilo no bus tive q redobrar a atenção onde pisava, o q ainda assim isso não me livrou de uns capotes e tombos.
Após andar um tempo em nível pela encosta a picada alargou-se e começou a descer suavemente alternando-se de forma gradual numa enorme vala erodida, um carreiro cascalhado de quartzito e finalmente em largas e escorregadias lajotas de pedra. O rugido de uma gde cachu próxima indicava estarmos na direção certa, sempre indo pro norte, embora não enxergássemos a dita cuja em virtude do negrume q nos rodeava. Qdo julgamos ter andado o suficiente, algo de 3km apenas, buscamos um lugar plano rente à trilha e montamos acampamento as 20hrs, preocupados com o céu faiscando com ofuscantes clarões atrás da morraria. A ameaça de chuva não passara de ameaça mas mesmo assim nos entocamos pra desfalecer em nossas respectivas barracas, uma vez q o dia sgte é q a pernada começaria de fato. Ainda sentindo aquele gostinho de cabo-de-guarda-chuva na boca não tive mtas dificuldade em desabar no meu acolhedor saco-de-dormir, e a noite td transcorreu fresca e sem nenhuma intercedência, embalada pelo som relaxante e hipnótico de uma enorme cachu bem ao nosso lado.

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2º DIA: A CAPIVARA E A CRICIÚMA
A segunda-feira amanhece levemente fria e nublada, mas isso não nos impede de levantar logo após as 6hrs. À diferença da noite anterior, agora podíamos contemplar td a imponência e beleza da enorme queda dágua q se revelou ao abrirmos o zíper de entrada da barraca. Já havia estado ali num breve bate-volta a quase década atrás (numa saudosa e longa andança pela Estrada Real), mas nada se comparava à sensação de levantar pela manhã tendo uma vista deslumbrante daquelas logo cedo. A Cachu da Capivara é dividida em duas enormes quedas: a primeira de 40m e uma segunda de 70m, ambas com um enorme poço acobreado ao sopé das mesmas, por onde o Córrego Capivara segue direção rumo à Serra Morena, cavando um fundo e verdejante vale q vai dar próximo de um cânion q atende pelo pitoresco nome Rasgo de Égua, bem à oeste
Após um rápido desjejum e muitas fotos da magnífica queda, arrumamos nossas coisas e nos pusemos prontamente a caminhar, as 7:30. Como nosso rumo era sempre pro norte, bastou azimutar a bússola naquela direção e tocar adiante, avaliando permanentemente o terreno q se apresentava com a topografia mostrada na carta, q levávamos tb a tiracolo como apoio. GPS? Nem pensar. No Cipó a navegação é mesmo à moda antiga, tal como os antigos bandeirantes fizeram pra desbravar aquela região atrás de diamantes. Sendo assim, galgamos os afloramentos rochosos q num piscar de olhos nos levaram ao alto da cachu, onde éramos igualmente brindados com mais poços e pequenas quedas como belas e espetaculares vistas de td região do entorno.

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Saltando de pedra em pedra cruzamos à outra margem do Córrego Capivara e finalmente ganhamos a vastidão dos campos ondulados q se descortinavam à nossa frente, onde os únicos obstáculos q se apresentavam eram alguns focos de mata q eram facilmente contornados. Em pouco tempo e após acompanhar uma cerca, desembocamos às margens do Córrego Criciúma, onde tivemos nosso primeiro pit-stop ao sopé da Cachu do mesmo nome, cujas águas frias e escuras pareciam nos convidar prum refrescante banho. Ali tb parei pra checar o meu pé esquerdo q começou a doer um pouco por conta de uma pisada de mau jeito num buraco no pasto, mas felizmente não era nada grave.
A pernada prossegue no mesmo compasso atravessando as vastas campinas, onde a presença constante de flores decoram o caminho seguido pelas nossas botas. O tempo se mantém nublado e um negrume ameaça tomar conta do céu; começa com um leve chuvisco fustigando nossos rostos mas logo as gotas engrossam a pto de se tornarem indesejáveis, bem no exato momento em q interceptamos uma precária estrada de terra q segue no sentido desejado através de uma crista serrana, isto é, norte.
Nos refugiamos sob o telhado de um casebre abandonado as 11hrs, onde aproveitamos a deixa pra fazer uma rápida boquinha. Mas logo a chuva passa e a pernada então é retomada, cruzamos um córrego por uma bem-vinda e rústica pinguelinha e damos nos fundos de uma casa isolada naqueles cafundós, onde estridentes cães denunciam nossa presença. Aproveitamos, claro, pra coletar infos com a simpática e prestativa Dna Eloiza q nos diz estarmos na Faz. Capão (ou Capivarinha), já quase as margens do asfalto da MG-010. Asfalto, como assim? Ah, erro de percurso... havíamos desviado demasiado pra leste! Ou seja, haveria de retornar algo de 40min pra retomar a rota no rumo certo.

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Voltamos ate um trecho da estrada bem antes da casa q nos acolhera da chuva, e dali retomamos a andança pelas abauladas colinas de pasto ate ganhar nova crista ao norte, bem no exato momento em q o sol enfim dava às caras com força total! A luminosidade das 13:30 favorecia a beleza das onipresentes sempre-vivas q ornavam o caminho, dançando ao vento. Mas não demorou a desembocarmos novamente noutra precária estrada de chão q ia pro norte e da qual não desgrudamos por um bom tempo, uma vez q indo pela crista serrana nos brindava com vistas generosas do entorno, principalmente do maciço da Serra do Abreu, à noroeste. Nesse ínterim tive q afrouxar diversas vezes a barrigueira da minha mochila q, por algum motivo q ainda não descobri, machucava meu quadril e tava mais pra espartilho q a função q lhe foi originalmente designada.
A inipterrupta e entediante caminhada por estrada cascalhada parecia interminável, ate q a mesma nos levou a uma bifurcação q gerou dúvidas, as 16hrs. Pois bem, ai bastou avaliar a carta e prosseguir pelo ramo q fosse na direção desejada, isto é, pela direita rumo a beirada da serra; já q à esquerda a estrada prosseguia planalto adentro, sentido oeste. Atravessamos então uma florestinha e fomos descendo suavemente tendo à nossa esquerda a cia de um riacho q cavava um fundo cânion. Humm, seria aquele o Ribeirão do Campo? Mas logo a estrada afastou-se do rio, serpenteando a morraria sgte ate tornar-se uma picada q acompanhamos e desembocou na beirada da serra propriamente dita. Lá finalmente tivemos uma vista privilegiada do Ribeirão do Campo seguindo seu curso sinuoso através de um cânion ate culminar na parte alta de uma das maiores quedas do Brasil, a famosa Cachu do Tabuleiro. Como nossa intenção era pernoitar próximo da cachu o problema era como chegar até la, já q nos encontrávamos em cima de um paredão serrano quase vertical. Pois bem, pra não dar uma volta enorme resolvemos desescalaminhar em ziguezagues os varios degraus rochosos do tal paredão serrano, o q nos tomou um tempinho razoável, alguns ralados nos eventuais vara-matos e mtos trechos onde tivemos q descer sem as mochilas pra depois pegá-las com a ajuda do parceiro. O cansaço daquele dia era agravado pelo enorme calor e forte sol na cara daquele horário, mas ainda assim prosseguimos firmes e fortes.

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Uma vez nas lajotas às margens do Ribeirão do Campo, q atravessamos saltando de pedra em pedra, tivemos q escalar à outra margem em seu trecho menos íngreme ate dar nos descampados mais planos q bordejavam aquele sinuoso cânion cavado pelo rio. Andamos mais um pouco e jogamos as cargueiras numa das duas pequenas clareiras ao lado de uma placa q indicava estarmos no Parque Municipal Ribeirão do Campo, as 18hrs. Montamos acampamento e fomos tomar um bom banho nos vários remansos lajotados do rio q alem de removerem o mato e nhaca depositados pelo corpo conferiram-lhe o relaxo e massagem necessários pra poder descansar bem na noite q se aproximava.
Qdo o manto negro tomou conta do firmamento tivemos tempo apenas pra cozinhar nossa janta e desfalecer em nossos casulos de poliéster, desgastados por aquele dia extenuante. De madrugada fui acordado por um forte e súbito temporal q se abateu no planalto, mas felizmente minha barraca güentou forte o tranco, fosse nas violentas sacolejadas na armação promovidas pelo vendaval como pela água propriamente dita, q inundou apenas uma extremidade da mesma. Nada grave enfim. Apesar daquela noite evocar mais uma boate dançante de tanto relâmpago faiscando no céu, consegui dormir meu merecido sono dos justos naquelas condições pouco ortodoxas numa boa.

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3º DIA: TABULEIRO ALTO & BAIXO
As brumas reinavam plenamente naquele inicio de terça-feira qdo eu e o Antonio despertamos revigorados e bem-dispostos pro dia q recém-comecava. E não era pra menos, afinal aquela manhã estava reservada integralmente pra explorar a parte alta e baixa da Cachu do Tabuleiro, grandiosa queda dágua q so perde em tamanho pra Fumaça (na Bahia), e a do Pai Nosso (no Amazonas). Enqto engolíamos rapidamente nosso desjejum as mochilas devoravam nosso equipo sem deixar sobra alguma. Na sequência, as escondemos nos arbustos ao redor e saímos pra dar rolê no cânion e a parte alta da cachu, pontualmente as 8hrs.
A idéia inicial de avançar rio abaixo a partir do trecho onde nos banháramos o final de tarde anterior não foi mto prolífica, uma vez q o temporal da madrugada aumentara consideravelmente o volume das águas do rio a pto de cobrir tds as lajes q serviriam de passarela pra gente. Por conta desse imprevisto, avançamos um pouco na trilha sobre os paredões do cânion e em seguida começamos a varar-mato através das canelas-de-ema em seu trecho menos inclinado (e menos alto) até atingir o rio novamente, agora pelas pedras de um caminho dágua. Uma vez em sua margem bastou andar cautelosamente pelas pedras q, besuntadas de limo e umidade, estavam lisas feito sabão.

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Mas após avançar mais um pouco em meio a mtos poços e cachus menores, onde as mãos foram tão importantes qto os pés nos vários lances de escalada na rocha de encosta num trecho onde o cânion se afunilou ao pto de emparedar o rio, finalmente atingimos o topo da cachu, as 9hrs! A cerração matinal havia desaparecido por completo dando lugar a um sol radiante q iluminava td paisagem à nossa volta, e não há palavras pra descrever a sensação de estar ali. Afinal, estavamos no pto onde o Ribeirão do Campo despeja um majestuoso véu dágua de uma altura de aproximadamente 273m verticais, pra finalmente repousar numa generosa piscina natural. Do alto é possível avistar td o tortuoso curso do rio pelo quadrante nordeste serrano como tb a portaria do parque, as esbranquiçadas trilhas de quartzito pelo entorno e o pacato vilarejo de Tabuleiro, pequenino, logo atrás. Td isso abraçado pelos gigantescos paredões alaranjados de arenito q, dizem, conferem ao cânion um formato de coração qdo visto de frente. Será?
Após mta contemplação e vários cliques daquele mirante privilegiado retomamos o caminho de volta à nossas cargueiras, q nos aguardavam ansiosamente desta vez pra conhecer a parte baixa da cachu. Pois bem, de onde havíamos pernoitado bastou cruzar à outra margem do rio e acompanhar um evidente carreiro de cascalho q inicialmente galgou as suaves encostas do cânion pra depois tomar rumo sul por entre as colinas q se seguiram. Como tava claro pra gente q a tal trilha daria uma volta enorme ate a parte baixa da cachu, novamente resolvemos abreviar este longo trecho simplesmente desescalaminhando os paredões verticais na raça, tal qual havíamos feito o dia anterior. No entanto, esta ralação mostrou-se mais vagarosa e difícil q o previsto devido às altas fendas e pirambas q se interpunham a cada degrau conquistado, nos obrigando a varias idas e vindas pelas vários níveis do enorme e alto paredão, q lembrava muito um bolo folhado.
Com mto esforço, algum vara-mato e cautela na desescalaminhada, enfim vencemos o ultimo alto degrau q nos separava da trilha oficial, q interceptamos vindo do sul após enorme volta, conforme supúnhamos. Uma vez por caminho certo e com sol forte na cara, descemos os cocorutos restantes através de uma crista óbvia ate finalmente cair no rio, as 12:30, onde novamente escondemos as mochilas afim de fazer um rápido ataque à parte baixa da cachu.

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Mais leves, rápidos e ágeis avançamos rio acima inicialmente por lajes, depois por uma trilha q passou pra outra margem, acompanhando a íngreme encosta de um morro, pra enfim vencermos o ultimo trecho simplesmente saltando de pedra em pedra. Daqui já vemos a gigantesca queda dágua impondo sua presença à nossa frente. No caminho, muitos belos remansos, poços e pequenas cachus convidam prum banho gelado, mas este privilegio nos damos apenas ao atingir o enorme poção da cachu, pouco tempo depois. A força da cachu se traduz em rajadas de vento q borrifam mta agua a quem ali chega, refrescando nossos semblantes suados naquele inicio de tarde quente. Claro q tb não nos fazemos de rogados e nos brindamos com um rápido tchibum no enorme e acobreado poção de águas turbulentas.
Pois bem, após um breve descanso lagarteando ao sol, iniciamos a volta às nossas mochilas q nos aguardavam ainda prum rápido lanche, retorno este feito na metade do tempo de ida. Deixamos o Ribeirão do Campo e tomamos uma trilha óbvia q subia a íngreme encosta oposta á qual viéramos, ganhando altitude rapidamente. Dureza foi vencer o ultimo e penoso trecho de íngremes e intermináveis degraus erodidos com as pesadas cargueiras, q fizeram nossos rostos suar em bicas de forma continua. Mas uma vez no alto, alem de desfalecer no capinzal apreciamos pela ultima vez a bela visão do Cânion do Tabuleiro e sua ilustre cachu homônima. Visto daqui, não é q o gigantesco desfiladeiro tem formato de coração mesmo?!
Dando as costas à cachu e retomamos nossa jornada onde, ao invés de prosseguir a trilha cimentada rumo à portaria do Pque Municipal, um pouco antes desviamos pelo capinzal sentido oeste, como se estivéssemos tomando rumo à travessia pra Lapinha. Mas ao ganhar altitude fomos buscando algum carreiro q desta vez seguisse rumo noroeste, sentido o Cânion do Rio Preto, q seria nosso próximo destino. Contudo, como não encontramos vereda na direção desejada não nos restou opção senão caminhar através do vasto capinzal das colinas sgtes, desviando dos fundos vales e gdes grotas do caminho. De forma desimpedida perdemos altitude num piscar de olhos ate q finalmente desembocamos numa larga crista de pasto q bastou apenas acompanhar, pois dela já tínhamos uma bela vista do enorme paredão rochoso do cânion q visávamos.

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Mas a picada logo deixou a crista e nos levou mesmo às margens do Rio Preto, no vale homônimo logo ao lado. O horário avançado, o cansaço acumulado e o tempo novamente começando a se nublar nos obrigou a buscar urgentemente um bom local de pernoite, e o local escolhido não podia ser melhor. Um improvável e rústico campo de futebol escondido naqueles cafundós sem alma viva por perto não podia ter sido melhor opção pra estendermos nossas barracas, a exatas 16:30. E o melhor, estávamos situados bem ao lado de belos e enormes poções represados do Rio Preto, cujas águas escuras alem de fazer jus ao nome nos refrescaram de mais um dia extenuante de jornada, alem de lavar nossa roupa suja e mal-cheirosa.
Jantamos bem antes de escurecer e não pensei duas vezes em desmaiar no meu saco-de-dormir afim de levantar revigorado na manhã sgte. O Antonio ainda permaneceu acordado e decidiu jantar bem depois. Antes de fechar o zíper da barraca dei uma espiada lá fora e pude ver de relance o brilho difuso das luzes de Tabuleiro silhuetando a morraria q nos envolvia. Por sua vez, a noite transcorreu fresca e sem nenhuma intercedência apesar da chuva suave q caiu de madrugada. Um detalhe curioso foram os sons noturnos serem embalados tanto como o do marulhar do rio correndo como o da cacofonia radiofônica do som dum axé vindo de algum lugar na mata, sinal q havia a residência de algum caboclo curtindo o ziriguidum pelas proximidades.

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4º DIA: CACHU CONGONHAS, CÂNION RIO PRETO E CACHU RABO-DE-CAVALO
Como não deveria deixar de ser, o inicio daquela quarta-feira amanheceu tremendamente fresca e nublada, o q nos segurou nos sacos de dormir por mais um tempinho extra não previsto. Mas assim q elas começaram a se dispersar com o aumento gradual de temperatura matinal nos pusemos a arrumar as coisas, ate q fomos surpreendidos por uma breve pancada de chuva q deixou o Antonio puto da vida por não conseguir tomar seu desjejum de acordo. Eu ainda sentia latejando os ralados do dia anterior alem do corpo todo moído, e lamentei não ter levado uma cartela de Dorflex à tiracolo q certamente teria caído bem naquela ocasião. Dane-se. Macho q é macho guenta a dor de qq jeito.
Começamos a andar então um pouco depois das 7hrs, voltando um pouco pela picada q havíamos chegado ali e não tardou a encontrar o humilde e rústico casebre de onde provinham os sons do ziriguidum noturno. Euclides era o chefe familiar residente nele e, sendo velho matuto da região, foi quem nos deu as infos necessárias pro inicio da jornada daquele dia. Ou seja, nos muniu de dicas de como chegar na Cachu Congonhas e adentrar no cânion do Rio Preto, gdes atrativos locais, apenas pra constatar q nossas suposições de rota e direção estavam corretas.

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Retornamos ao campo de futebol q nos acolhera durante a noite e lá escondemos as cargueiras no matagal proximo. Mais leves e ágeis fomos então subindo o rio pela sua lajotada margem esquerda, q tb se alternava numa evidente picada q o acompanhava pela encosta de capim. Cruzamos muitos belos remansos no caminho, principalmente incríveis praias fluviais, enormes piscinões de coloração de iodo e pequenas cachus entre as corredeiras mais furiosas, embora em sua maioria o rio corresse manso e plácido.
Meia hora após começar a pernada nos deparamos com um enorme paredão vertical de pura rocha à nossa frente. Era uma fenda q cortava transversalmente este inicio de cânion, de onde vimos um enorme filete dagua escorrendo do alto, ao longe. Era a Cachu Congonhas! Adentramos na fenda inicialmente por uma trilha costeando a mata pela margem direita do ribeirão, mas q logo desembocou no leito pedregoso do mesmo nos obrigando a redobrar a cautela ao andar pelo mesmo, q estava liso feito sabão. E assim em menos de 10min alcançamos o enorme poção ao sopé da majestuosa Cachu Congonhas, cujas águas despencavam de uma altura de quase 80m!!! Pausa pra descanso e mtos cliques, claro! E eram apenas as 8hrs daquele inicio de dia.

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Voltamos ao cruzamento do ribeirão da cachu com o Rio Preto e demos continuidade à exploração do cânion, subindo o dito cujo. A trilha se manteve evidente pela margem esquerda ate um certo momento, mas depois desapareceu por completo nos obrigando a prosseguir varando mato ou escalaminhando com cautela o escorregadio leito pedregoso do rio. A medida q avançávamos ambas encostas aumentavam em declividade ate q chegamos num pto onde o rio cavava um fundo cânion emparedado por altos paredões rochosos. Se quiséssemos avançar daqui certamente haveria necessidade de trilha, uma vez q varar-mato ou ir pelo rio fatalmente nos levaria um dia inteiro, entre ida e volta. Bem q tentamos achar alguma vereda, principalmente pelo tempo escasso do nosso cronograma total, mas como não encontramos vestígios dela demos por encerrada ali nossa exploração do cânion, relativamente satisfeitos de nossa curta e breve jornada pelo Rio Preto.
As 9:30 estávamos de volta à nossas mochilas apenas pra constatar q as havíamos largado sobre um formigueiro, o q nos obrigou a deixa-las um tempo descansando de modo a se livrarem dos inconvenientes insetos assim como de enormes carrapatos q mais pareciam caranguejos de tão gde q eram. Fizemos uma rápida boquinha e pusemo-nos a andar na sequencia, cruzando o Rio Preto e dando novamente na casa do Euclides à procura de mais infos. Mas como ele tava trabalhando na roça quem nos ajudou mesmo foi sua esposa, a faladora e prestativa Dna Vanda, q nos indicou onde partia uma discreta trilha atrás de sua casa q subia a serra em direção à Serra do Intendente, nosso próximo destino.

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Dando às costas ao Vale do Rio Preto começamos então uma íngreme e interminável subida em meio a mata q imediatamente encharcou nossos rostos. O suor escorria pela ponta do nariz a medida q ganhávamos altitude, enqto isso algumas frestas na vegetação permitiam belos vislumbres tanto do Vale do Rio Preto qto do cânion homônimo. Mas as 10:30 finalmente desembocamos numa precária estrada de terra, onde descansamos um pouco afim de recuperar o fôlego alem de dar uma conferida na carta e na bussola. As brumas há mto haviam ido embora e um sol impar iluminava as montanhas ao redor, destacando seus contrafortes verdejantes e abruptos.
A pernada pela interminavel estrada de terra transcorreu sem gdes novidade, agora sentido noroeste, serpenteando as encostas das altas montanhas do caminho. Após uma breve parada num pé-de-goiaba repleto do fruto, um solitário tropeiro no caminho apenas confirma estarmos na direção certa e enfatiza, com inconfundível sotaque mineirês: “No primeiro cruzamento perto da casa abandonada, pega à esquerda; no segundo, à direita!”. Obedecer as dicas é fundamental desde q se saiba q língua se fala assim como o contexto em q se situa, e mesmo assim surgiram mais e mais bifurcações q geraram duvidas. Nessas horas sempre apelávamos pra bendita carta e pra bussola, onde tomávamos o ramo q fosse na direção desejada.
Um tempão depois a estrada desembocou no aberto e o horizonte se ampliou de tal modo q pudemos avistar os inconfundíveis e imponentes contrafortes da Serra do Intendente erguendo-se majestuosamente sobre pequenas colinas forradas de pasto, à noroeste. Daí bastou seguir a estrada de terra q fosse ao seu encontro, o q nos tomou mais um bom tempo dadas as enormes distancias percorridas naquela extenuante manhã. O calor era palpável e o sol esbofeteava sem dó meu rosto, mas isso seria por pouco tempo. As 12:30 um negrume tomou conta dos céus e nos obrigou a buscar refugio do forte temporal q se abateu num quiosque fechado, mas q durante fds e feriados deve ser bem movimentado. Aproveitamos a pausa forçada pra descansar e fazer um breve lanche, claro.

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Após o temporal veio a bonanza, claro. Retomamos a pernada 40min depois devidamente revigorados. A chuva dera uma refrescada no ambiente de tal modo q estávamos mto bem-dispostos a prosseguir a caminhada pela entediante estrada de terra. Numa bifurcação bem sinalizada tomamos o ramo da esquerda q num piscar de olhos nos levou á entrada da APA Serra do Intendente. Por incrível q pareça, aqui não há guarita nem nada, apenas um casebre abandonado repleto de placas proibindo isso e aquilo.
Cruzamos um largo riacho com agua ate o tornozelo e fomos de encontro um casebre q serve de referencia pra trilha rumo à Cachu Rabo de Cavalo. Antes, porem, escondemos as mochilas num bambuzal próximo de modo a fazer o ataque á cachu com mais rapidez e agilidade. Após o casebre uma trilha obvia e devidamente sinalizada de setas se enfia na mata pra emergir dela logo adiante. O paredão serrano vai se impondo á nossa frente, exibindo seus escarpados contrafortes repletos de fendas e muralhas verticais. De repente, um risco alvo é vislumbrando numa dessas fendas acompanhado do rugido típico de agua despencando. Era a Cachu Rabo de Cavalo q nos aguardava.
A partir daqui a picada se enfia novamente na mata e cruza varias pinguelinhas de madeira q transpõem buracos ou córregos menores. Mas logo é necessário atravessar o ferruginoso e largo Corrego Mata Cavalo na raça em duas ocasiões, nos obrigando a retirar as botas a contragosto pra depois cruzá-lo com água até a altura da coxa. Dali a vereda emerge uma ultima vez em campos abertos pra outra vez mergulhar na mata de uma encosta íngreme, onde as mãos desempenham papel similar aos pés ao se firmarem no arvoredo q nos auxilia na escalaminhada de um emaranhado de raízes.

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A chuva grossa tornou a cair no exato momento em q emergíamos enfim no enorme poção da Cachu Rabo de Cavalo, as 15hrs. O Córrego Mata Cavalo despencava de uma altura de mais de 80m divididos em dois patamares rochosos num espetáculo de água redobrado! Não bastasse a chuva, o vento borrifante da cachu se encarregava de ensopar o q restava de seco na gente. Refizemos td caminho de volta apenas pra constatar q o Corrego Mata Cavalo aumentara consideravelmente o volume de suas águas, durante a dupla travessia do mesmo. Isso cunhou de razão nossa decisão de ter ficado pouco tempo apreciando a cachu, pq senão quiça tivéssemos ficado ilhados la devido a chuva q continuava caindo sem dó, não dando mostras de parar tão cedo.
Pegamos as mochilas e demos continuidade à nossa jornada paralela à base da Serra do Intendente, uma vez q não voltaríamos áquela bifurcação emplacada kms atrás. Pra isso cortamos caminho através de uma picada q atravessava as colinas de pasto q acompanhavam a serra, sem gdes dificuldades. Mas logo desembocamos noutra estrada de terra e, na sequencia, novo e largo riacho se interpondo á nossa frente, q tivemos q cruzar cautelosamente carregando as mochilas na cabeça com àgua batendo quase na cintura.
Mais adiante a precária estrada finalmente deu na entrada da Reserva do Peixe Tolo, onde não se via “vivalma” no punhado de casas q figuram como guarita do lugar. Contudo, pra não dar bobeira passamos rápido pelo local de modo a ganhar as encostas e campinas das colinas sgtes, cada vez mais próximos da boca do Cânion do Peixe Tolo, q agora surgia como uma gigantesca fenda adentrando a Serra do Intendente sob a forma de um largo e escarpado desfiladeiro, guardado por duas torres rochosas servindo de portal q pareciam ser mais dois enormes sentinelas tomando conta daquele imponente desfiladeiro!!!

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Mas logo a pernada pela campina desembocou numa larga e ampla clareira bem na entrada do cânion, ao lado de uma florestinha banhada por um córrego próximo com sinais de acampamento. O local era perfeito demais e em virtude do horário avançado decidimos largar as mochilas ali mesmo e montar acampamento, aproveitando uma trégua da chuva com direito até a um tostão de sol, as 17hrs!! Cansados, o Antonio ainda foi tomar banho no rio, banho este q dispensei por já me sentir “banhado” e ensopado demais pela chuva. Preparamos nossa janta e meu arrozinho engrossado de carne de soja com shoyu nunca esteve tão delicioso como naquele final de tarde. A noite transcorreu sem maiores incidentes, a não ser uma fina chuva q tamborilou o sobreteto das barracas durante a madrugada td. Felizmente sem infiltrações ou acúmulo de agua no local de acampamento.

5º DIA: CÂNION PEIXE-TOLO E SERRA DA GURITA
A quinta-feira irrompeu imersa em brumas sob respingos de chuva fina, q nos seguraram um tempo a mais nas barracas mesmo tendo acordado cedo. Jogados naquele ócio mais q justificado, aproveitei o tempo pra tratar dos pés, q já apresentavam sinais de ralados, assaduras e pior.. bolhas iminentes. No entanto não podíamos ficar simplesmente o dia inteiro esperando a chuva dar uma trégua, e sendo assim por volta das 8hrs resolvemos dar uma explorada de ataque no Cânion Peixe Tolo naquelas condições nada favoráveis. Ou pelo menos tentar.
Tomando então a continuidade da picada atravessamos uma florestinha assim como chapinhamos o borbulhante córrego em seu interior. No aberto fomos indo de encontro à boca do cânion em meio aos arbustos, enxugando a mata no caminho. Conforme avançávamos parecia q éramos engolidos por aquela gigantesca fenda rochosa vertical parcialmente enevoada em seu topo, guardado por dois enormes sentinelas rochosos, e de onde despencavam inúmeras cachoeiras provisórias ao longo de seus escarpados paredões verticais! Não sei pq a cena me lembrou “O Senhor dos Aneis”... Um pequeno e rústico casebre no caminho indica a abandonada residência de um caboclo q poderia ter servido perfeitamente de pouso, caso a chuva apertasse á noite.

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Após serpentear a entrada do cânion em meio à vegetação arbustiva o trilho de quartzito nos levou enfim às margens do Ribeirão Peixe Tolo, onde a partir daqui o avanço seria através do leito pedregoso da margem oposta. Já de cara literalmente voei ao escorregar numa laje besuntada de limo, me estatelando cinematograficamente no chão. So não me machuquei por sorte, mas isso redobrou nossa atenção pois o trajeto seria basicamente através de pedras lisas feito sabão. E assim, vagarosamente, cruzamos o rio e fomos avançando cânion adentro tendo o rosto fustigado pela chuva fria e grossa q caia. Entretanto, não deu nem meia hora de lenta escalaminhada q paramos pra pensar se nossa exploração estava valendo a pena naquelas condições, emparedados por imponentes muralhas do mais puro arenito. Chegamos a triste conclusão q não: sem visual algum e com chuva engrossando cada vez mais, havia ainda a real possibilidade do rio aumentar o volume de suas águas de modo a impossibilitar nossa retorno em segurança. E se parar pra pensar, adentrar no cânion era programa prum dia inteiro, tempo q não dispúnhamos pelo nosso cronograma. Antonio não se conformava em chegarmos apenas ate ali, mas concordava q o melhor era retornar. Em contrapartida, eu já me dava satisfeito pelo simples fato de estar ali na boca daquele grandioso cânion.
Retornamos então ao acampamento cabisbaixos, prometendo uma próxima ocasião voltar pro cânion apenas pra explora-lo por completo em breve, de preferência em boas condições climáticas. Sem pressa, arrumamos nossas tralhas e engolimos nosso desjejum pra somente zarpar dali às 10hrs, no exato momento em q a chuva aparentou dar trégua em definitivo. Retornamos então um pouco pela trilha q havíamos vindo pra depois abandoná-la em favor das suaves encostas das colinas de pasto q se seguiram, sentido noroeste. Afinal tínhamos q acompanhar paralelamente o sopé da Serra do Intendente e estudar algum modo de ganhar seus campos altos, avaliando a presença de alguma trilha q subisse cristas sucessivas ate o planalto.

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Por sorte avistamos vários carreiros galgando cocorutos serranos ao alto e assim fomos de encontro a eles. Mas pra isso havia antes de cruzar o Vale do Córrego das Baroas, q vencemos após suado misto de escalaminhada com vara-mato, ao meio-dia. No outro lado emergimos na casa do simpático e hospitaleiro Seu Milton, q alem de nos oferecer um delicioso cafezinho nos deu informações preciosas de outro acesso ao alto da serra mto mais confiável q aquele q originalmente visávamos. Dicas estas q seguimos à risca agora q o tempo estabilizava quente e embalado apenas numa nebulosidade clara.
Cruzamos novamente o Córrego da Baroas ate ganhar uma estrada de terra, mas isso foi por pouco tempo, pois logo tocamos através do q parecia ser um trilho tropeiro q se enfiava na mata ganhando altitude num piscar de olhos, pra depois emergir no aberto no q parecia ser uma suave crista ascendente q bastava apenas acompanhar. Ufa, estávamos no caminho correto! Claro q aqui os horizontes se ampliaram de tal modo q de um lado vislumbravamos os altos contrafortes do Cânion do Peixe Tolo, agora sem as trocentas cachoeiras; e do outro se avistava o largo vale do Rio Capivarinha onde fica o vilarejo de Candeias, ao sopé da imponente Serra da Gurita q se espichava à noroeste dando lugar à Serra da Penha e, mais alem, a Serra de Ouro Fino.
E lá fomos nos, naquela subida de cocorutos consecutivos q pareceu não ter fim e nos consumiu algo de árduas duas horas. Foi ai, suando em bicas e arfando feito camelo, q senti algum conforto ao constatar q minhas corridinhas regulares na Usp haviam servido pra alguma coisa. Claro q houve varias paradas no caminho pra retomada de fôlego, mas a melhor foi quase no final, onde um córrego formava vários caldeirões de água acobreada no chão lajotado, q serviram de refrescantes banheiras à este q vos escreve!

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Após cruzar numa casa abandonada e galgar uma ultima piramba de pasto, eis q emergimos nos 1115m do alto da serra após vencer um desnível de aproximadamente 600m, as 14hrs. A partir daqui bastou acompanhar o único carreiro claro de pedras de quatzito q encontramos e serpentear a morraria restante, agora tendendo pra oeste. Mas logo o trilho se perdeu q começamos a andar meio q por instinto em meio àquele mundo de pura pedra, onde predominavam basicamente afloramentos rochosos lineares emergindo do leste. Ate q finalmente fomos dar literalmente no alto do platozão, na cota dos 1300m, segundo o altímetro do Antonio. Foi de lá q pudemos avistar novas referencias q direcionaram nossa rota naquele mundo de rocha e pasto: o Pico do Bréu e uma estrada de terra q rasga o planalto.
Cruzamos a estrada por volta das 16:15hrs, dando continuidade á pernada pelo platozão atrás do Rio das Pedras, nosso suposto local de pernoite. No entanto, nossa rota tendeu demasiado pro norte e acabamos dando numa chapada próxima do Ribeirão Soberbo. Cansados e com o dia se esvaindo rapidamente, as 17:30 jogamos as cargueiras no capim fofo q forrava um amplo chapadão em meio a pequenos rochosos. Aquele era o local mais exposto de td trip, razão pela qual reforçamos as proteções nas barracas com as pedras do entorno. Meus pés reclamavam copiosamente de tão esfolados q tavam; a umidade do mato e do próprio suor haviam assado regiões criticas, resultando nalgo no mínimo bem doloroso. Mas foi so entrar na barraca q mandei ver minha janta e desfaleci antes mesmo do manto negro da noite envolver o alto da serra. Como era de se supor, de madrugada ventou bastante mas felizmente não choveu.

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6º DIA: A BICAME E O SOBERBO
O último dia de pernada amanheceu com uma bruma envolvendo os altos campos do Espinhaço, q felizmente se dispersariam no decorrer daquela manhã. O último q precisávamos era ter de navegar às cegas em meio a um espesso nevoeiro, uma vez q somos trilheiros das antigas, nos valendo apenas de carta e bussola. Antes das mochilas engolirem nosso equipamento dei um trato geral nos pés aplicando um presente da minha irmã q nunca foi tão bem recebido: uma espécie de band-aid sueco chamado “Compeed” q protege qq ferimento de forma excepcional. Meus pés agradeceram e pareciam estar refeitos, prontos pra entrar novamente na bota úmida!
Comecamos a pernada daquela sexta-feira as 8hrs em pto, contornando as colinas à oeste de modo a ganhar o largo platozao de pasto ao sul. O som das maritacas e o chiado dos gaviões reclamando a invasão de seu habitat rompem o silencio q caracteriza estas altas chapadas de Minas. E dessa forma avançamos desimpedidamente pelas campinas ate dar nas margens de um largo rio, as 9hrs, q pensamos ser o Rio das Pedras e passamos a simplesmente acompanhar pela sua margem esquerda, uma vez q nossa intenção era dar na Cachu Bicame. Entretanto, o tal rio se embrenhou entre as montanhas à oeste de tal forma q qdo demos conta q estavamos no rio errado já havíamos sido emparedados por altos paredões do lado de um acidentado e escarpado cânion. Estávamos mesmo era no Cânion do Ribeirão Soberbo, tanto q passamos por uma bela cachu no caminho chamada de Sete Quedas.

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Pois bem, havia q retornar pro chapadão mas o Antonio bateu pé q queria transpor as montanhas p/ dar no outro lado. Mas como isso significava escalaminhada pauleira em terreno incerto, persuadi o incansável e afoito rapaz de q o melhor mesmo era retornar entre as canelas-de-ema pro chapadão pelo caminho q viéramos, mais plano e seguro. Venci a queda de braço, enfim. Retornamos um tanto até encontrar uma picada q serviu de atalho mais q bem-vindo, cruzando a morraria e afloramentos rochosos diagonalmente com pouca variação de altitude e nos poupou dar uma volta enorme. E com segurança, diga-se de passagem.
Do outro lado já pudemos avistar o verdadeiro Rio das Pedras, pro qual fomos de encontro através de algum vara matinho e escalaminhada fáceis, ate cair no alto da Cachu Bicame as 12hrs. Uma placa diz estarmos na RPPN Vargem do Rio das Pedras e após umas fotos do alto, descemos pro enorme poção da cachu, onde fizemos um merecido pit-stop pra lanche, tchibum e descanso. Já havia estado ali antes, no sopé daquela queda de aproximadamente 50m q despeja a agua do Rio das Pedras de forma esplendorosa, durante a travessia “Lapinha-Fechados” mas nunca me permiti um banho tão revigorante e em boa hora como aquele. Pois bem, decidimos q rumo tomar. O hiperativo Antonio sugeriu dar uma esticadinha pro Poço Soberbo ou pra Cachu Inhame, mas isso fatalmente nos consumiria mais um dia, dia este q não dispunha pq meu rango literalmente havia terminado. Sem falar na logística de retorno incerta. E francamente, eu não via a hora de mandar ver uma breja acompanhado de um bom prato de comida mineira. Sendo assim, resolvemos em comum acordo voltar pra Lapinha por uma trilha bem obvia e batida q saia do sopé da cachu.

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As 13hrs e com forte sol na cara, cruzamos o Rio das Pedras com água ate a coxa e tomamos a picada supracitada q ganhou um morro pra depois tocar pra sudeste indefinidamente. Dando às costas ao Rio das Pedras, q mais embaixo deságua no Vale do Soberbo, perfeitamente visível com seu cânion cavando um gigantesco “V” no paredão, serpenteamos a morraria sgte acompanhando os contrafortes da Serra do Abreu, sempre à nossa esquerda.
Rasgando a RPPN Ermos das Gerais acabamos dando na portaria da mesma, onde não tinha ninguém. Daqui bastou tomar uma picada q acompanhava uma precária estrada de terra, de onde já era possível avistar o enorme espelho dágua da Represa Coronel Americo Teixeira, q banha o vilarejo da Lapinha. Mas logo a trilha desembocou na estrada q bastou acompanhar um tempo q pareceu interminável. Esta estrada de chão faz parte da antiga trilha de bandeirantes q rasgou a Serra do Cipó outrora em busca de diamantes e esmeraldas, a famosa Estrada do Arraial do Tejuco.
Enfim, após andar um tempão chegamos na bifurcação q leva à Lapinha, as 16hrs. Qual nossa surpresa q mal chegamos na hora em q passou um busão comunitário levando gente pra Santana do Riacho, q não hesitamos em tomar uma vez q de lá havia mais opções de volta pra BH. Após chacoalhar outro tanto, as 17hrs saltávamos em Santana do Riacho, q recém se preparava pros festejos momescos, indo de encontro pro boteco na saída do vilarejo à cata de infos de bus ou carona. O mau tempo reduzira consideravelmente o numero de veículos q chegava (e saia), diluindo qq chance de carona. Em contrapartida, busao pra BH haveria somente na manha sgte, as 6hrs, o q fatalmente nos forçava a mais um pernoite no mato. Q seja então. Eu me regozijei de cervejas com salgados e o Antonio mandou ver um x-tudo com refri naquele final de tarde onde a chuva recomeçava a tornaria aquele inicio de Carnaval bem molhado. Foi aqui q um atrevido cachorro confundiu a mochila do Antonio com um poste e mandou ver agua do joelho nela!

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Na sequencia fomos de encontro com o Rio Riachinho, próximo dali, e montamos as barracas assim q escureceu e sob alguns respingos de chuva. Afastado, plano e bem seguro, o local não podia ter vindo de encontro as nossas necessidades de ultimo pernoite. Eu ate q tava animado em sair pra curtir as festividades momescas do pacato vilarejo, mas o cansaço acumulado falou mais alto e me prendeu ao aconchego da barraca, desmaiando num piscar de olhos. A noite fora embalada numa trilha sonora q misturava o rio ao nosso lado, a chuva tamborilando na barraca e o som de um axé (“tira o pé do chão! Aê, aê, aê!”) mal cantado vindo de algum lugar no vilarejo. Pensando melhor, ficar na barraca foi a decisão mais q acertada.

7º DIA: A VOLTA
Sob fachos de headlamps desmontamos acampamento por volta das 5hrs da manha de sábado. Santana do Riacho ainda dormia qdo ganhamos as ruas vazias do vilarejo, q festança os resultados da festança da noite anterior na forma de mto lixo, latas de cerveja e garrafas de pinga na rua. Ainda estava escuro e as padarias sequer haviam aberto qdo paramos na frente do guichê da Saritur, situado num boteco conhecido da vila. Éramos os únicos q deixava o lugar, e qual nossa sorte q antes de dar 6hrs um cara parou na frente da gente oferecendo carona pra capital mineira por modestos R$25?? Sem pestanejar embarcamos, pois assim chegaríamos mais rápido ao nosso destino.
A trip foi embalada em mta conversa furada, tanto do Antonio contando suas peripecias na Chapada como do motora contando das suas pelo Cipó, com direito ate uma quase colisão frontal com um motorista bebum dirigindo na contramão. Ufa! Enfim, chegamos em Belo Horizonte antes das 9hrs. Me despedi do meu colega de travessia prometendo voltar pra novos projetos em conjunto, afinal o Antonio é um dos caras q conhece o Cipó como ninguém, na minha opinião. E claro, pra retornar triunfalmente pro Cânion do Peixe Tolo.
Na rodoviária mandei ver mais brejas embaladas em deliciosas porções de tropeiro, pra embarcar rumo a “Terra da Garoa” as 10:30. O corpo doía por completo, ralados pelo corpo coçavam sem dar trégua, a nhaca e o cabelo ensebado estavam em níveis toleráveis e o pé voltava a latejar incessantemente. Bem, nada q comprimidos de Dramir não resolvessem pra dormir td a viagem.

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Incrivel reparar q este setor norte da Serra do Cipó, longe dos limites do Parna homônimo, seja tão pouco explorado e valorizado diante das tantas opções de caminhadas q oferece, alem de possuir as maiores quedas da região. Os vilarejos de Candeias, Extrema e Ouro Fino, à leste, já vislumbram circuitos regados a belas cachus em td o trajeto, isso pra não falar em Inhame, Fechados e Cemiterio do Peixe, q detêm travessias conhecidas apenas pelos locais. Sendo assim, esta terra de gigantes onde a harmonia entre o capim, pedras, flores, agua e pedras é tamanha q parece ser cuidadosamente planejada. E se antigamente as pedras preciosas e diamantes eram o atrativo dos bandeirantes q exploraram a região, hj são a beleza destes locais menos visados q atraem novos aventureiros. E a “Lapinha – Capivara” é certamente um deles.


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