Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#287999 por Jorge Soto
14 Fev 2007, 20:23
TRILHOS & TRILHAS DA ANGRA-LIDICE
Proximo dos principais centros urbanos do pais, a Rio-Santos, revela bem + q
uma seqüência de praias badaladas. Antes da serra cair no mar e adentrando
na região montanhosa entre Angra dos Reis e Lidice, encontraremos trilhas
desconhecidas, rios cristalinos e cachus refrescantes em meio a exuberante
Mata Atlântica. Assim, percorremos esta região num circuitão de 4 dias,
subindo a serra pela linha do trem sentido Lidice, alcançar o alto da Pedra
Chata e retornar à Angra pelo Sertão do Sinfrônio. Emendando varias
caminhadas locais de uma vez só, esta puxada travessia desvenda uma Serra do
Mar menos conhecida, c/ cenários q não deixam em nada a desejar à sua
contrapartida litoranea mais ilustre e agitada.

30KM POR TRILHO DO TREM
Mesmo c/ o busao saindo atrasado - feriado do niver de SP - chegamos no
horario previsto à Angra dos Reis, as 6:30. Assim, eu, a Lu e os
recém-casados Guto & Márcia deixamos a rodô sentido a proxima Praia do Anil,
onde a linha do trem encosta na avenidona movimentada q beira a orla
litorânea. Tomamos o mirrado café numa padoca de bairro, e as 8:30 tomamos o
trilho, sentido serra, ou seja, p/ direita! Como estamos ainda dentro do
perímetro urbano, este trecho inicial não tem atrativo algum e se limita
caminhar entre casebres e cortiços. Alguns caramujos nos dormentes
escorregadios parecem lembrar a praga q infesta a região, fora os olhares
curiosos dos locais, q passeiam c/ suas indefectíveis gaiolas c/
passarinhos.
Logo q as casas começam a rarear, temos nosso 1º túnel a transpor. De apenas
82m de comprimento em meio a pura rocha, demoramos a atravessa-lo devido à
escuridão, à lama, cascalho solto e da disposição irregular dos dormentes,
mas serviu como preview dos outros 13 q se seguiriam. A chamada "luz do fim
do túnel" parece revelar tb jardins de trevos coloridos, capim e pequenas
cachus caindo da encosta, sinal q de estarmos ja nos limites da cidade,
mesmo ainda sendo audivel o som da batida "edificante" de um funk. A
sensação parece se firmar qdo passamos por uma ponte sobre a própria
Rio-Santos, a seguir. Porem, a civilização foi deixada p/ trás de fato qdo
bordejamos a morraria de pasto e mato impregnado de cheiro de jaca,
acompanhando as torres de alta tensão q seguiam rumo às imponentes montanhas
da Serra do Mar, deixando pra trás a bela enseada da baia de Angra. A esta
altura o sol começava a fritar os miolos, não corria brisa alguma e
agradecíamos aos ceus qdo havia um trecho sombreado neste começo de pernada
no aberto.
Mas a densa mata nativa não tardou em aparecer, assim como muitas
bananeiras, embaubas e inconvenientes carrapichos (ou picão) q grudavam na
gente nos trechos onde a mata insistia em crescer pelos trilhos. E assim
foi: ora andavamos metodicamente pelos dormentes c/ atencao, pq estavam
escorregadios nos trechos úmidos; ora andávamos rente os trilhos, nos breves
trechos onde aparecia um acostamento q permitisse isso. Pode parecer
entediante (e é!), mas nunca monotono, já q a paisagem descortinava uma nova
surpresa a cada curva ou penhasco transposto.
As 10hrs chegamos aos 2ºe 3º túneis, de 36m e 120m, respectivamente. Quase
juntos, eram separados apenas por uma extensa ponte c/ bela arquitetura,
sobre furioso rio q serpenteava serra abaixo. Apesar do visu fantastico,
cruzar a ponte foi nosso primeiro obstáculo real: havia q cruza-la
rapidamente (pq não sabíamos se o trem passaria), mas isto era impossível pq
havia q prestar atencao nos trilhos q pisávamos (olhando p/ baixo) pra não
despencar ou escorregar. A Lu q o diga! No final do 2º túnel, a recompensa
na forma de pequenas cachus jorrando suas águas sobre os trilhos do trem,
vieram perfeitas p/ molhar a goela e aliviar a tensão.
O 4º túnel (75m) veio às 11:30, assim como muitas goiabeiras recheadas.
Enqto isso, já estudávamos algum local c/ água p/ "almoçar", afinal, uma
placa indicava q já havíamos percorrido11km. Mas como este lugar não
chegava, as 12:30 sentamos no trilho p/ comer algo, mas quem comeu de fato
foram os pernilongos, q haviam aos montes. Alem disso, nuvens carregadas
escureceram o ceu e o som de trovoes nos obrigou a continuar a pernada,
apenas p/ logo depois atravessarmos mais uma ponte sobre um rio furioso q
descia a serra na forma de varias (e belas) cachus. Paramos p/ tomar um
breve banho num dos convidativos poços abaixo da ponte bem na hora q uma
pancada de chuva tomou conta do vale. Nessa hora, um pequeno trem apitou
anunciando sua passagem (sentido Angra) e quase me pega desprevenido no meio
da ponte.
O mormaço e umidade pós-chuva tomaram conta da serra, q ficou coberta por
uma nevoa quase espectral. Refeitos, tardamos em retomar a pernada pq
ficamos um tempo ajudando o Guto a buscar seu óculos, q ficou por la mesmo.
Os curtos 5º e 6º túneis (51m e 63m) tardaram em aparecer, mas o fizeram
quase seqüencialmente, ao mesmo tempo q nossa "sobremesa" se limitou a uma
banana-anã miúda c/ caroços enormes, q havia aos montes nos bananais rente
os trilhos. A nevoa deu lugar ao sol outra vez as 15:30, no momento em q
passamos pelas ruínas do q fora a Estação Jussaral, com bons locais p/
pernoite.
Passamos pelo 7º túnel (66m) e o vale se abriu logo depois, revelando o
litoral recortado da baia fluminense, ao longe; na direção oposta, o trilho
adentrava sinuosamente os desníveis da verdejante serra de forma
imperceptível. E veio o 8º túnel (89m), assim como o mesmo trenzinho
anterior, desta vez sentido contrario. Qdo as torres de alta tensão passaram
novamente a nos acompanhar o ceu foi tomado por uma nebulosidade ate o fim
do dia, porem ainda estava quente.
A tarde ainda não havia morrido mas como estavamos cansados, as 17hrs
largamos as mochilas num terreno arenoso bem amplo à direita dos trilhos,
aos pés de um barranco. O fato de ser o único local decente p/ varias
barracas (a Lu estrou a dela!) foi decisivo, opção reforçada pela
convidativa bica 50m antes dele, no meio da mata. Assim, montamos nossas
tendas, tomamos banho e fizemos a janta. Nessa hora passou o "trenzao", uma
composição enorme e repleta de vagões carregando chapas de aço q estremeceu
nosso modesto acampamento. Comemos, tomamos capuccino e nos entocamos em
definitivo assim q começou a garoar. A noite caiu e trouxe consigo uma chuva
mediana. No entanto, este detalhe passou desapercebido e não atrapalhou
nosso merecido sono diante do cansaço geral, afinal haviam sido quase 23km
ate entao.

DOS TRILHOS AO ALTO DA PEDRA CHATA
O dia irrompe preguiçoso, nublado claro, mas mesmo assim levantamos as 6hrs.
Tomamos café e arrumamos nossa coisas p/ colocar pe-no-trilho as 7:30. O
destaque matinal foi o Guto encontrar um filhote de cascavel nos dormentes
de madeira espalhados rente "nossa" bica. Se o filhote tava ai, a mãe
provavelmente tb.
Uma breve chuva nos surpreendeu ao transpor uma pequena ponte q atravessava
outra queda dagua, bem antes de passarmos pelo 9º túnel (62m), seguido de
uma ponte bem maior, encravada entre duas imponentes montanhas forradas de
exuberante mata. Pausa p/ clicks. Mais adiante adentramos - quase
emparedados - num pequeno cânion, pois os trilhos seguiram um tempão por
entre muralhas verticais de pura rocha! Felizmente o trem não passou naquela
hora pq não haveria espaço p/ escapar.. Veio o 10º túnel (54m) e o vale
novamente se abriu, bem antes do 11º túnel (113m), onde nos encontrávamos na
encosta oposta da serra q percorríamos, podendo observar bem nosso local de
pernoite. O 12º túnel, o maior de todos, exigiu o uso de lanternas p/ vencer
seus 172m. Na seqüência, muitos pés-de-goiaba e bananeiras complementaram
nosso café da manha, assim como uma enorme cachu despencando por lajotas de
pedra (a nossa direita) foi motivo de breve pausa pra fotos.
Qdo o sol teimou em aparecer de vez, foi ocluido por uma neblina q abraçou a
serra durante um tempão. No entanto, ela não ocultou as belezas do trajeto,
como enormes paredões reluzindo sua umidade e pipocados de enormes e
vistosas bromélias, onde tb pequenas cachus caiam formando verdadeiros
"chuveiros" sobre os trilhos, q nos refrescaram naquele calor abafado
matinal. Após o 13º túnel (124m) e ao meio-dia, paramos p/ breve descanso e
comer algo, ao mesmo tempo q voltávamos a ter as torres de alta tensao sobre
nossas cabeças, sinal q estávamos proximo de Lidice. Havia agora,
literalmente, uma luz no fim dos 14 tuneis...
Dito e feito, transposto o extenso 14º túnel (212m), chegamos no q restou da
velha estação Alto da Serra, as 12:30. Deixamos os trilhos e tomamos a
estrada de terra (q se alterna com calcamento de pedras) q desce suavemente
a serra p/ nordeste, passando por pequenas roças, fazendinhas e acompanha o
Rio Pirai. C/ o sol escaldante daquele horario, foi inevitável um mergulho
revigorante nas águas mansas do mesmo. Ainda pela estrada, numa bifurcacao
tomamos à direita, passando por uma ponte de cimento sobre o rio ate nova
bifurcacao. Tomamos à esquerda (sentido Lidice) pq a da direita seguia p/
Sertão do Sinfronio (q tomamos erroneamente e tivemos q voltar). As 13:30 e
apos cruzar uma escolinha, chegamos num bar do lado das corredeiras e cachus
do Rio das Pedras, um local bem bonito, porem muvucado. Aqui tb há nova
bifurcacao: esquerda desce p/ Lidice e direita vai p/ Casa do Bispo e p/
Pedra Chata, quase 8km serra acima. E aqui tb tivemos nossa 1ª baixa, já q a
Lu seguiu p/ Lidice devido a um imprevisto de ordem pessoal.
Com o quarteto reduzido a trio, seguimos pela estrada no vale do Rio das
Pedras - bordejando a encosta esquerda da serra - à mercê do sol
inclemente, inicialmente subindo suave mas q depois fica bem ingreme,
exigindo muitas paradas p/ retomada de fôlego, principalmente p/ Márcia.
Felizmente, antes da cachu do Suiço um jipe dá carona; infelizmente havia
lugar apenas p/ Márcia e pras nossa mochilas, mas ta valendo! Depois
soubemos q o motorista era o Bispo cuja casa tínhamos q alcançar. Sem peso
extra, eu e o Guto ganhamos altura rapidamente, passamos por uma igreja, uma
escolinha e mais adiante tomamos uma calcada cimentada q sai da estrada, à
esquerda. Pouco depois e totalmente suados, chegamos na Casa do Bispo, uma
casa do lado de uma capela de formato octogonal. La fomos convidados pelo
mesmo e pela jovem freira Iza a tomar um café, q não recusamos, obvio! O
bispo, ou melhor, Seu Vital - um senhor holandês q no alto dos seus 80 anos
esbanja vigor e simpatia - nos contou q é bispo aposentado q fez dali seu
retiro de final de semana, entre muitas outras coisas.
O papo tava bom, mas devíamos prosseguir, mesmo com a fina chuva q tornava a
cair la fora. Nos despedimos do gentil senhor e pusemos pé-na-trilha, as
16:30. Da casa bastou tomar um rabicho de trilha q sobe a encosta de pasto e
passar uma porteira, onde a trilha ta meio q coberta pelo mato rasteiro q
cresceu. Mais adiante entramos na mata ate esbarrar noutra porteira (antes
de um rio, q não cruzamos), onde toma-se uma picada q sobe o morro pela
esquerda, alguns metros antes. Após transpor novo riachinho e outra
porteira, saimos novamente no pasto, onde varios sulcos podem confundir, mas
basta tomar qq um pois todos sobem a encosta pro mesmo destino. Ao tomar
fôlego p/ continuar, se olharmos à nossas costas temos já uma bela vista do
vale percorrido ate entao.
Entramos novamente na mata, q descemos um pouco ate chegar num riacho.
Pulando de pedra em pedra, passamos pra outra margem, onde a trilha sobe à
esquerda, acompanhando o rio serra acima durante um bom tempo. Este trecho
ta com mato alto cobrindo boa parte da picada e repleto daquele bambuzinho
chato q insiste em se agarrar em qq saliência da mochila e q gruda como
velcro na pele e roupa. No entanto, a trilha ta la, bem marcada e obvia.
Chegamos, entao, num corrego q desce cruzando a trilha, q nos abastece do
precioso liquido pela ultima vez. Perto do riachinho há nova bifurcacao,
onde toma-se a direita, e subimos aos ziguezagues por quase uma hora,
eventualmente tendo q remover alguns bambus enormes secos q simplesmente
caem em função dos temporais de verão. A trilha é mais nitida, porem
íngreme, úmida e escorregadia, fazendo com q Guto e Márcia fiquem um pouco
atras.
Chego, enfim, na crista, mas não o cume. A trilha ainda desce um pouco em
mata fechada ate um selado de ligação, onde há uma água "parada" (da qual
bebi sem nenhum problema) p/ subir bem forte a seguir, em meio a um corredor
de enormes bromelias, as vezes nos valendo das raízes salientes como
degraus. Logo saimos num amplo capinzal q praticamente é o topo da estreita
crista, as 20hrs, onde montamos as barracas junto às poucas (e baixas)
arvores, proximas do q sobrou de um "refugio" de palmiteiros, e q servem de
eventual protecao, pois é bastante exposto. Mesmo escurecendo e
parcialemente encoberto, deu p/ reparar nas luzes da orla, cintilando ao
sul. Extremamente cansados, preparamos a janta e nos recolhemos em seguida.
Eu ainda fiquei cuidado de uns ralados e assaduras no pé provocados pela
areia dentro da bota, mas logo a seguir tb cai no sono, mesmo c/ corpo td
moído e dolorido.

VARANDO SERRA ATE O SINFRÔNIO E OS TIOZINHOS SINISTROS
Acordamos animados, as 7hrs, pela perspectiva de bom tempo naquela manha de
sábado. Aos poucos, o vento desfazia as nuves carregadas - q nos
presentearam c/ chuva fina de madrugada - descortinando um ceu azul
maravilhoso, as montanhas ao redor e um arrebatador visu do litoral do alto
daquels quase 1600m: os raios do sol sendo filtrados por nuvens no horizonte
conferiam à baia de Sapetiba, de Mangaratiba e à restinga de Marambaia um
aspecto de pintura impresionista; e revelou os picos próximos, tais como o
Pão de Açúcar e Pico do Papagaio locais, q o dia anterior estavam ocultos
por nuvens grossas, alem das demais verdejantes serras se esparramando tanto
pro litoral, como afunilando o Vale do Rio das Pedras, as nossas costas.
Lidice, por sua vez, estava td encoberta por um tapete de nuvens carregadas.
8:30 iniciamos a descida, ligeiramente + ágeis e rápidos q na subida, apenas
atentando ao chão escorregadio (e forrado de folhas úmidas) do trecho em
ziguezagues pelos bambus. Mesmo assim, derrapagens e tombos foram
inevitáveis. Chegando na bica tivemos breve pausa de lanche, p/ logo depois
bordejarmos o rio serra abaixo atraves da trilha onde agora o mato invadindo
a mesma estava todo umido, nos encharcando por completo. Cruzamos o rio,
saimos do mato, descemos o pasto, passamos pela porteira, etc... enfim, as
10:45 já estávamos na Casa do Bispo, onde novamente Seu Vital nos convidou a
descansar e comer algumas frutas frescas. Alem, claro, fez questão de dar a
bênçao ao Guto & Márcia, assim q soube q estavam recém-casados.
Meia hora depois nos despedimos, retornando pela mesma estrada q viéramos.
Havia muito q andar: devíamos retornar à bifurcacao do bar (uns 6/7km) p/
tomar o caminho p/ Vale do Sinfronio. Contudo, indagamos da possibilidade de
cortar caminho atraves das montanhas à nossa esquerda (oeste), pq isso nos
pouparia de descer ate o bar e subir td novamente!! Felizmente, mal pusemos
pé na estrada esbarramos c/ um local, Seu Adão, q nos disse q isso era
possível sim e nos levou ate o inicio deste atalho! Beleza! Assim, da
estrada adentramos por uma porteira (à esquerda), cruzamos o Rio das Pedras
por uma ponte pênsil, p depois seguir um trilho enlameado atraves de um
labirinto de bananeiras, esbarrando eventualmente c/ algum roçado ou
casinhas de pau-a-pique, subindo suavemente. Finalmente, seu Adão nos deixou
numa trilha ao pé do enorme morro, do lado de um córrego q o descia. Ouvimos
bem as recomendações dele pq agora seria por nossa conta.
Subindo a trilha aos ziguezagues, logo saimos do bananal p/ dar numa íngreme
encosta de pasto. Daqui em diante nos tomou um tempão não sometne pela
forte inclinação mas tb pelo sol bravo castigando nossa cachola, nos
obrigando a várias paradas p/ descanso e goles de água! Contudo, o caminho
era obvio e mesmo se dividindo em vários trilhos de vaca todos convergiam
mais adiante, sempre acompanhando um riachinho no meio de uma mata, à nossa
direita. Ganhando altura rapidamente, olhando pra trás ficamos pasmos com a
beleza do vale, visto agora da encosta oposta quase à mesma altura do trecho
inicial pelo qual descêramos pela manha.
1hr e meia subindo em ritmo de tartaruga-manca, a trilha logo vira p/
direita indo de encontro ao riachinho, em meio a mata. Descanso na sombra,
onde aproveito p/ me refrescar num pequeno poço formado entre as pedras. Um
stress toma conta do casal, mas nada q uma molhada de cabeça não resolva.
Ainda subindo a encosta de pasto damos num pequeno curral, de onde a trilha
continua, cruza o riachinho e passa a acompanhá-lo pela direita, pasto
acima. As 14:30 e após passar pela nascente do riachinho, chegamos à crista
da serra, onde há uma porteira trancada. Nova pausa p/ descanso, mas
retomamos a pernada assim q notamos, ao sul, nuvens carregadas e escuras se
avizinhando sobre Lidice vindo na nossa direcao.
Saltando a porteira, o trilho desce p/ outro lado da serra, bordejando
suavemente nova encosta de pasto pela esquerda e de onde já avistamos um
curralzinho vale abaixo. Galgando trilhos de vaca sucessivamente, alcançamos
o mesmo (sob olhar perplexo das vaquinhas) p/ depois acompanhar uma cerca (à
direita), agora cercados de mata. Imediatamente damos numa casinha, onde um
"tiozinho desdentado" nos indica o caminho. Mas nem precisava, pq bastava
seguir adiante q logo saimos do mato p/ cair numa bonita fazenda, onde havia
outro "tiozinho estranho", q parecia não falar mesmo qdo lhe dirigiamos a
palavra. Na verdade chegamos na Pousada do Zé Angu (sem sinal de vida) pelos
fundos, já no Sertão do Sinfronio, as 16hrs. Saltando pelas pedras o largo
Rio Papudo, q é o nome do Rio Pirai no alto da serra, e damos na estrada (ou
melhor, no final dela) q vem de Lidice, distante quase 10km. O local é de
uma beleza bucólica singular, com belo gramado, arvores frondosas e a Cachu
do Papudo, uma linda queda dágua c/ largo poço de águas cristalinas na qual
não fizemos ceremonia em cair. Dose foi ter como platéia cara-de-pau os
tiozinhos (o "desdentado" e o "estranho"), q pelo visto não viam mulher há
séculos, deixando a Márcia meio sem graça. Eu bem q soltei meu cabelo pra
atrair a atenção deles, porem, sem sucesso.. Por mim acampava ali mesmo, mas
a presença dos curiosos tiozinhos deixou o casal c/ certo receio (ou
neurose?). Ou seja, continuamos a pernada, mesmo sem saber se haveria no
trajeto lugar decente p/ estender a barraca. E o cansaço pegando..
Do gramado q marca o fim da estrada sai um trilho q sobe um morro p/
direita, passamos batido uma porteira (à esquerda), subindo suave por um
caminho q é cruzado por pequenos corregos e é ora enlameado ou pedregoso.
Saimos brevemente no aberto ate alcançar um barraco, e logo depois um
riacho. Entre os dois há uma picada escondida q cruza o rio, segue pelo
capinzal e sai numa encosta, mais acima. Adentramos outra vez na mata
fechada em definitivo, q serpenteamos sem gdes desníveis. A trilha é clara e
cortada por pequenos corregos, embora em alguns trechos matacoes de
bambuzinhos teimem em invadi-la, insistindo em se agarrar à gente por mera
afinidade; desvencilhar-se dos mesmos as vezes deixava braços e pernas
cortados e arranhados, alem de transformar minha bermuda numa tanga. Vez ou
outra alguma picada sai discretamente pela esquerda, mas deve-se seguir
sempre pela trilha principal, ou seja, pela direita e sentido sudoeste. E o
cansaço pegando..
O Guto insistia em chegar na Est. Jussaral (distante ainda umas 3hrs!), o q
seria mto puxado, principalmente p/ Márcia, q dava sinais de exaustão. Eu tb
já tava estressado, tendo chiliques e c/ saco na lua de andar, pois alem de
cansado meus pés esfolados reclamavam de dor. Assim sendo, eu e Marcia
"intimamos" seu teimoso e decidido maridão a pernoitarmos por ali mesmo,
assim nos poupávamos de desgaste desnecessários; compensaríamos o dia sgte,
levantando + cedo e + dispostos. Como atendendo nossa preces, numa suave
descida em meio à trilha havia um local plano o bastante p/ gente, proximo
de um brejo, repleto de cipós e bambus. Limpamos o dito cujo e montamos
acampamento as 18:30, já escurecendo e um pouco antes q começasse a chover!
Felizmente fora uma pancada breve, mas suficiente p/ deixar o local bastante
úmido e frio até. No entanto, o cansaço falou mais alto, e foi so preparar a
janta q na seqüência caí no sono, indiferente aos sons da mata, aos
vagalumes q cintilavam la fora e às muriçocas q pediam encarecidamente p/
jantar na minha barraca. Outra: como as propriedades da banana vao alem da
fonte de potassio - se estendendo ao acúmulo de gases - e eu havia me
entupido das mesmas, por pouco minha tenda nao infla e sai voando, tal qual
um balão piramidal..

DESCENDO A SERRA ATE ANGRA
A ideia era sair as 5hrs mas o fizemos às 7hrs, preocupados em chegar a
tempo de não perder nosso bus. Tomamos um rápido café (afinal, estávamos
quase zerados de comida) e deixamos as mochilas engolirem o equipo, p/
retomar a pernada pelo Sinfronio, q fora um antigo e ilustre morador ( "o
véio Sinfrônio", segundo Seu Vital) q emprestou seu nome ao local.
A trilha segue sinuosa por mata fechada e bordeja a encosta esquerda, e
10min após iniciada pernada chegamos no q pareceu ser o fim dela, diante de
um barranco enorme q dá vista ao litoral, ao longe, emoldurado pelas
onipresentes matacoes de bambus. No entanto, a trilha continua poucos metros
atrás (à esquerda), sobe brevemente um topo de serra, p/ depois descer
definitivamente, ingreme e forte os quase 700m restantes, em ziguezagues
intermináveis cercados de mata, pau-brasil e bambus, sem nenhum visual.
Eventualmente há pequenas janelas na floresta, mas q apenas permite apreciar
fragmentos de paisagem, bem diferente da fartura de visus do topo da Pda
Chata e ate do trecho feito na linha do trem. A trilha ta bem marcada e é
obvia, porem havia tempo ninguém a utilizava pq havia muita mata caída em
alguns trechos cobrindo a picada, alem de muita (muita mesmo) teia de aranha
q vinha de encontro direto no meu rosto, algo q particularmente me deixa
agoniado.
Após 1 hora de descida, a trilha parece seguir uma curta crista, mas logo
volta a descer em ziguezgues a encosta por mais um tempão, onde começam a
surgir os primeiros sinais de "civilização" na trilha, ou seja, lixo. As
9hrs chegamos numa bifurcacao: tomamos à da esquerda (em frente),
aparentemente + fechada; já a da direita, mais batida (e p/ trás)
provavelmente tb devia descer a algum bairro. A pernada parece nivelar, mas
logo volta a descer, porem suavemente em meio à mata fechada e algumas
voçorocas de bambus caídas sobre a trilha. Cruzamos o primeiro riachinho do
dia, onde abastecemos nossos cantis, e em seguida saimos da mata p/
acompanhar uma cerca ate sua porteira. Daqui basta ir p/ direita, por um
túnel de vegetação na encosta q parece encobrir a trilha na maior parte do
trajeto, sempre atentando pro calcamento escorregadio de pedras repletas de
limo, q nos presenteou com mtos capotes.
Após passar uma cx dagua enterrada no solo, já podemos avistar a linha do
trem logo abaixo ate descer, paralelamente à mesma. E assim, as 10hrs
estamos novamente na Estação Jussaral, pela qual passáramos 3 dias atrás!
Descansamos merecidamente nos trilhos enqto devoramos um cacho enorme de
bananas q o Guto encontrou no trajeto. Lanche mto bem-vindo pq nossas
mochilas já estavam vazias faz tempo! Dali, andamos um pouco pelos trilhos e
vemos a picada saindo pela esquerda, descendo o resto de serra atraves do q
logo se torna uma "quase estrada" em meio à mata, agora descendo
suavemenente. Ainda bem q o trecho td é sombreado, pq neste horario o sol
estava de rachar e o calor era insuportavelmente abafado!
As 11hrs chegamos numa bifurcacao, já no perímetro urbano: p/ esquerda e
1hrs de pernada dariamos no bairro da Banqueta, onde disseram haver umas
cachus q por pouco não nos seduziram. Mas optamos seguir p/ direita, pro
bairro do Belém, bem mais proximo e com fácil condução, onde chegamos em
menos de meia hora já largando as mochilas no primeiro bar q encontramos, do
lado do pto de bus, alem de tirar as botas p/ deixar os pés respirarem,
claro! Comemoramos o sucesso da empreitada com cerveja, refris, açaí e uns
improvisados sandubas de mortadela c/ salame q tavam uma delicia! Após
enrolar e descansar no bar, tomamos o bus p/ Angra as 13hrs, onde chegamos
30min depois. Guto & Márcia tomaram banho na toalette enqto eu o fiz na
mangueira do jardim, la fora. Ficamos bem a vontade, exibindo nossas marcas
de guerra como valiosos troféus, desde trocentos arranhões e ralados pelo
corpo todo até enormes bolhas negras no pé q mais pareciam tumores.. As
15hrs partiu nosso bus p/ Terra da Garoa, viagem tediosa de absurdas 8hrs,
primeiramente pela linda Rio-Santos e depois pela infernal e demorada
Tamoios. Não fosse o filminho do 007 q rolou ia ter um troço.. Chegamos em
SP por volta das 23:30, a tempo de não perder a ultima conducao p/ casa.

Assim, numa das regiões mais movimentadas da costa brasileira, este trecho
da Serra do Mar felizmente ainda se beneficia da própria geografia
possibilitando novas alternativas a andarilhos em busca de novidades. Desta
maneira, é possível sim ainda descobrir estes belos recantos isolados q
escapam do turismo de multidões estando bem do lado dos mesmos. Porém, é
esta mesma geografia, acidentada e recortada, q seleciona naturalmente esta
rara visitação a lugares q ninguém vai. Lugares onde a serra ainda é chamada
carinhosamente de sertão.

#291820 por peter tofte
27 Abr 2007, 03:14
Jorge:

Bela aventura, bela trilha (ou será trilho?).

Porém fiquei preocupado com a questão das pontes, túneis e outros pontos onde vcs teriam dificuldade de sair dos trilhos. Imagine no meio de uma ponte e um trem vindo a toda!! Vc tinha o horário dos trens de modo a evitar surpresas?? Era possível ouvir ou visualizar o trem com bastante antecedência?? Sorte que nossas ferrovias hj são pouco movimentadas.

Valeu pelo relato!!

Peter

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