Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#527483 por Jorge Soto
26 Nov 2010, 08:42
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http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/139

DE SÃO JOÃO BATISTA ATÉ DESEMBOQUE
São João Batista é um pequeno vilarejo encravado no meio do extremo norte dos limites do Parque Nacional da Serra da Canastra (MG), mais precisamente próximo da Portaria 2 do mesmo. Chamado antigamente apenas de arraial de Serra da Canastra (como alias ainda consta na carta homônima), é deste pacato e bucólico vilarejo q inicia uma belissima travessia de quase 40km q percorre o sopé do Chapadão da Zagaia até os arredores de Desemboque, já no município de Sacramento. No caminho, colinas de pasto e capões de mata pontilham o cerrado mineiro, assim como rios cristalinos rasgan desfiladeiros em contrafortes serranos q escondem imponentes cachoeiras, como a Boa Vista, Córrego Fundo e Parida. Uma pernada moderada de 3 dias cheios nesta região pouco visada do extremo norte de um parque criado justamente pra proteger a nascente do rio mais famoso do país, o São Francisco.

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CHEGANDO NA CANASTRA
“Cof! Cof! Cof!” O relógio marca 9hrs da manha de sábado qdo a Troller rasga a horizontalidade do Chapadão da Zagaia até logo toparmos com a Portaria 3 do PN Serra da Canastra. O silencio contemplativo e introspectivo do interior do veiculo só era rompido pela tosse seca vinda das profundezas abissais e catarrentas da minha garganta. A inconveniente gripe q me acometera no inicio da semana insistia em querer me acompanhar na trip do feriado prolongado do dia 15 e já tentara de tudo pra me livrar da maledita, sem sucesso: desde limão com mel, pastilhas de menta, vitaminas efervescentes, gotas de Tylenol-Paracetamol, sachês de Acetil Cisteina, três pulinhos em encruzilhada.. e nada! Dane-se, eu q não ia deixar de pernar por causa de uma mero “resfriadinho”.
O dia anterior havia sido exaustivo e quicá minhas defesas tivessem entregado os ptos diante das minhas inúteis tentativas de reverter o quadro clinico. Tb pudera, eu e o Angelo havíamos chegado sexta bem cedo em Ribeirão Preto pra so nos encontrar com nossos anfitriões (e carona) apenas pelo meio dia. Após um delicioso almoço na casa do meu gde amigo e fotografo de aventura André Dib, na cia de sua simpática consorte, Cassandra, imediatamente zarpamos em sua possante Troller rumo à Canastra. Após passar por Franca, Lages e tortuosas estradas de terra serpenteando a Represa Mascarenhas de Moraes, tomamos rumo final através do inicio da crista da Serra das Sete Voltas, já no final da tarde.

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As luzes de Delfinópolis faiscavam no espelho dágua formado pela Represa Peixoto, ao sul, qdo finalmente chegamos num dos ptos de apoio da trip, as 20:30, basicamente o pto final da travessia proposta, o Hotel-Fazenda Portal da Canastra, encimada no alto de um morro costeando o Chapadão da Zagaia, já nos limites de Desemboque (Mun. de Sacramento). O Dib estava resoluto e decidido em fazer a travessia, mesmo tendo o pé direito totalmente inchado e comprometido por conta de uma infecção bacteriana durante suas recentes andanças pela Amazônia. É bem verdade q a situação dele era bem mais seria q minha “tossinha”, mas ele so decidiria se de fato encararia a pernada no dia sgte, conforme seu pé mostrasse sinais de melhora. Ou não. E dá-lhe arnica nele! Comemos algo, conversamos com Seu Álvaro (o proprietario) e tomamos um vinho chileno pra então cair nos braços de Morpheus dentro de nossas barracas, cujo sobreteto tamborilavam com os trocentos besouros q aqui e ali chocavam sua carcaça seca.
No dia sgte levantamos cedo, tomamos um delicioso café-da-manha mineiro e na cia do Marcelo, residente de Araxá e conhecedor daquelas bandas como ninguém, zarpamos rumo São João Batista as 9hrs, rumo o local de inicio da pernada. Em tempo, pela logística proposta, deixamos a picape do Marcelo na pousada Portal da Canastra pra efetuar nosso resgate, no final da travessia. E lá estávamos nos, agora adentrando pela Portaria Sacramento nos domínios do PN Serra da Canastra, pra cair na horizontalidade de vastas campinas q é a paisagem recorrente do gigantesco Chapadão da Zagaia. No caminho, uma breve parada pra fotos daquela imensidão verde pipocada de enormes cupinzeiros e dos restos do q fora um tamanduá-bandeira, a beira da estrada. Enqto isso, tucanos e maritacas empolados na retorcida vegetação de cerrado nos davam as boas-vindas oficiais na Canastra!

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SÃO JOÃO BATISTA E INICIO DA PERNADA
Atravessado o parque, chegamos enfim na Portaria 2 do mesmo as 10:20, isto é, aquela q fica do lado de São Joao Batista da Canastra. Já na entrada do arraial temos o vislumbre da Cachu Lava-Pés e da Cachu do Fundão, esta ultima fazendo jus ao nome, pois era visível à leste, bem no fundo da serra. São João Batista é daqueles tipicos arraiais do interior de MG: pequeno, acolhedor, simples e limpo. Parado no tempo e situado bem no meio da divisa das bacias hidrográficas dos rios Paraná e São Francisco, vem sendo redescoberto como pólo ecoturistico aos poucos, uma vez q ainda permanece à sombra das badaladas Delfinopolis e São Roque de Minas.
Na proximidade da simpática Igreja São João Batista tivemos uma rápida parada no Bar do Vicente pra um dedo de prosa (e um delicioso gole de café) com o folclórico tiozinho apenas pra termos oficialmente nosso quinteto de trip reduzido à dupla: o pé do Dib não mostrara melhora e decidiu q o melhor era ficar por ali mesmo, se recuperando de modo a não complicar mais seu quadro clinico; Cassandra, claro, decidiu ficar com seu companheiro afim de cuidar dele; e o Marcelo tb resolveu permanecer por ali, tocando sua aconchegante pousada (a Retiro da Serra), mas não sem antes nos passar as infos necessárias pra travessia, complementadas pelo Ricardo, outro gde conhecedor da região e dono de uma agencia local pra esportes outdoor (Pousada da Serra).
O fato é q após alguns vai-e-vem atrás de infos acabamos finalmente dando início à pernada por volta das 12:30, com a Troller nos deixando no começo da trilha q por sua vez encontra-se no sopé da Cachu Gurita (ou Cachu do Jota), onde despencam as águas do Córrego Agua Santa. Nos despedimos de nossos amigos e combinamos deles nos encontrarem dentro de dois dias na Faz. do Álvaro. Pronto, comecava a aventura! Batemos algumas pics rapidamente da bela cachu, situada bem próximo do arraial, e galgamos o carreiro obvio q subia ao alto da mesma pela sua encosta direita e dali tomava rumo oeste. Num piscar de olhos estávamos no alto da serra, no abaulado Morro do Cruzeiro bordejando a cerca limítrofe do Parna de onde avistávamos a vastidão dos campos q forram o Chapadão da Zagaia. À nossa direita (norte) vislumbrávamos a extensa baixada pipocada de pequenos morrotes de onde destoava São João Batista, agora pequenino coroando um deles.

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A pernada então transcorreu desimpedida alternando suaves sobes-e-desces durante um bom tempo, sempre acompanhando a cerca à nossa esquerda. No caminho, as campinas varridas pelo vento alternavam campos rupestres e algumas valas erodidas, assim como alguns cupinzeiros e muretinhas de pedra insistiam em variar a bucólica paisagem q descortinava-se a nossa frente a medida q avançávamos. Mas qdo a cerca faz um angulo de 90 graus rumo noroeste um negrume ameaçador tomou conta do céu de forma súbita acompanhado de ruidosas trovoadas, o q nos forçou a apressar o passo pois uma tormenta logo viria e estávamos bem expostos no meio dos descampados. Mas bastou encostar na precária proteção de um pequeno e ralo foco de mata maior q caiu o mundo. E sob a forma de pesadas pedras de granizo q se chocavam violentamente na nossa cachola. Num piscar de olhos a trilha se transformara num rio e estava td alagado ao nosso redor. Enqto isso, agachados do lado de uma pequena arvore, aguardávamos a fúria de São Pedro dar uma trégua.
Mas como diz um velho ditado, depois da tempestade vem sempre a bonaza, pois qdo a pancada passou, poucos minutos depois, o tempo abriu acompanhado de um sol impar. Nem parecia q minutos antes o tempo havia despencado e nossa pernada teve continuidade no mesmo compasso anterior, sempre bordejando morros desnudos através de trilhos de vaca bem evidentes. Eventualmente descíamos a capões de mata onde sempre cruzávamos algum córrego ou riacho, com destaque pro maior e mais largo deles, o Córrego do Barbaro, logo depois dos casebres abandonados q assinalam a “Casa do Zé Tomás”, de acordo as infos. Ate la já eram 14:30 e o calor do sol nos abraçava de tal forma q da pta do nariz escorria nosso suor salgado em bicas.

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Mas no vale sgte a picada se perde em meio a um vasto brejo, nos obrigando a uma varada de mato básica de uma encosta de samambaias secas, afinal sabíamos q nosso rumo era sempre noroeste e assim ganharíamos a crista sgte. Desembocamos então numa larga trilha q por sua vez nos desovou numa estrada de terra, as 15:30. Ufa, estávamos no sentido certo! Um tiozinho local (“João Carrinho”) passou num carro caindo aos pedaços oferecendo carona, mas como nossa intenção não era andar de carro (e mto menos estrada) nos limitamos somente a coletar infos necessárias.
Assim, abandonamos a tal estrada de terra após quase andar uns 20min nela, mais precisamente após um mata-burro, onde partia uma trilhona obvia pela esquerda q finalmente descortinava o visual recorrente dos demais dias: vales e descampados abaulados ao sopé do Chapadão da Zagaia, q aqui se apresentava como uma imponente e interminável muralha rumo noroeste! Descemos então o vale sgte apenas pra assustar um tatu q descansava placidamente no meio da trilha e pra desgosto do Angelo, q não teve tempo suficiente de pedir ao bichinho um tostão de seu tempo pra ser clicado.
Atravessado um pequeno córrego cristalino vem uma nova subida, e assim sucessivamente. No entanto, em virtude do horário avançado e de um negrume outra vez surgir anunciando nova chuva, decidimos estacionar num descampado próximo da trilha, ao sopé da serra e próximo de água em abundância, as 17hrs. Decisão esta cunhada de razão pois a chuva veio assim q estavamos no conforto de nossas barracas. Ainda assim, durante o quase-diluvio tive disposição pra ir tomar um banho no riacho. É, se fui naquelas cirscunstâncias era pq realmente tava precisando de higiene. E alem do mais, era sábado! Mas nem mesmo sendo o sexto dia o Angelo enfurnou-se na barraca pra não sair mais dela pois não tive mais sinal dele.

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Qdo retornei á minha humilde choupana a chuva ainda caia, porem em menos intensidade. Com luz suficiente ainda tive q passar o tempo naquele ócio mais q justificado ate q finalmente peguei no sono assim q comi o q chamei de janta: um lanche mais encorpado com algumas jabuticabas coletadas no Álvaro, complementado de goles relaxantes de pinga (curtida) com mel q a Cassandra deixara comigo! Qdo a noite abraçou aquele cantinho privilegiado de MG trouxe consigo um leve friozinho acompanhado dos sons hipnóticos noturnos, traduzidos na forma do trinado de cigarras ou do marulhar de algum riacho próximo. Isso qdo crises de tosse não resolviam bater á porta da minha barraca em mais de uma ocasião.

CACHU BOA VISTA E CÓRREGO FUNDO
O domingo amanhece com uma fina garoa permeando um céu envolto em brumas incertas, q se dissipariam somente mais tarde. Preguiçosamente levantamos de nossas moradas de poliester, tomamos um rápido desjejum e só zarpamos bem alem do programado por conta do meu desengonçado colega de trip. Pois é, o manto do “Zé Atrasildo” já não pertence mais ao Guguinha e agora repousa sob novos ombros..Enqto isso, o chiado estridente de um gavião, provavelmente reclamando de nossa intromissão, marcava nossa saída a exatas 8:45.
Retomamos a trilha costeando o pé-da-serra mas por pouco tempo, já q logo desembocou numa estradinha q bastou acompanhar sem maior dificuldade. De longe, já avistávamos a tal Faz. Boa Vista (ou Faz do João), onde o caseiro, um tal de Arthur, nos daria as infos pra alcançar a primeira gde cachu da travessia. Uma vez na tal propriedades pedimos permissão pra adentrar ao dito cujo q foi bastante solicito conosco e nos deu algumas dicas do trajeto, principalmente de distancias e tempos ao q nos aguardava nos dias sgtes. Cruzamos algumas porteiras e uma cerca pra em seguida dar continuidade à pernada pela encosta desnuda e ingreme dos morrotes sgtes, sob o olhar circunspecto de alguns cavalinhos q ali pastavam tranquilamente. Alem do mais já não éramos mais uma dupla e sim um trio, se considerarmos o elétrico pulguento q resolveu nos acompanhar da fazenda.

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Costeado um ou dois morrotes, adentramos então num vale um pouco maior onde o rugido de muita agua caindo de algum lugar no contraforte serrano. Mais adiante logo pudemos avistar a dita cuja sob a forma de um enorme véu alvo despencando do alto de quase uns 60m de altura de pura rocha e quartzito. De onde estávamos a base da mesma era ocultada pela verdejante mata ao pé da cachu, mas a direção a tomar era obvia, bastando seguir alguns rastros de vaca e logo uma corda amarrada no refereido arvoredo. Uma vez no interior da mata, a media q nos aproximávamos o som de agua em abundancia ia se tornando quase ensurdecedor, ate q emergimos da floresta pra sermos recebidos, as 9:30, pela maravilhosa visão da majestuosa Cachu Boa Vista despencando com fúria em dois enormes mega-piscinoes em sua base. Jogamos as cargueiras nas pedras ornando a base da cachu enqto nossos semblantes encantavam-se com aquele lugar ermo, paradisíaco e isolado, enqto a cachu se encarregava de borrifar nossos corpos suados com respingos de refrescante agua! Pausa pra relax, fotos e pura contemplação.
Colocamos pé-na–trilha hora e pouco depois, descansados e refeitos, primeiro voltando o trecho de floresta pra depois novamente ganhar os pastados dos morrotes sgtes, q novamente nos lançaram noutra estrada de terra q aparentemente acompanhava o sopé da serra ao longe. Pra não ir por enfadonhas estradas resolvemos aqui ganhar o alto da crista da forma menos cansativa, e logo encontramos um trilho q adentrava na vegetação retorcida e queimada do cerrado ate um primeiro cocoruto serrano. De onde estávamos pudemos avistar um trilho maior q ia no sentido desejado e logo caímos nele após um breve vara-mato sussa. Pra nossa surpresa era um trilho tropeiro dadas as suas características: largo e calçado de pedras e cascalho, tomou rumo alto da serra em largos ziguezagues. Porem, antes de atingir o cume o abandonamos (pois aparentemente retornava à fazenda do Boa Vista por cima) pra então ganhar as encostas de pasto dos morrotes sgtes, agora salpicadas de vistosas canelas-de-ema!

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Uma vez no alto não teve mais segredo já q era só acompanhar a beirada da serra, numa boa. Enqto andávamos desimpedidamente pela vasta campina dançando enqto a brisa soprava nossos rostos, o calor tomou conta do ambiente embora estivesse aquele clima tipicamente nublado claro, com o sol ameaçando aparecer a qq hora! Mas com uma caminhada agradável dessas o tempo era apenas um mero detalhe. O detalhe aqui é a bela flora e vegetação em geral q abraça os campos rupestres aflorando solo afora destes campos altos da Canastra, assim como uma elétrica cobra q topamos ao cruzar mais uma cerca.
Mas eis q as 13hrs esbarramos com som de água em profusão se interpondo em nosso caminho! Haviamos enfim chegado às cabeceiras e nascentes do Córrego Fundo, q corria borbulhante em meio aos rochedos pro norte. Bem, daqui bastou apenas acompanhar o rio ora atravessando de uma margem à outra saltitando pedras, ora escalaminhando blocos rochosos bloqueando o caminho. Mas durante td este breve percurso os piscinões represados pelo belo ribeirão eram incontáveis e extremamente convidativos pra banho, sem exceção! Contudo, a breve descida de rio não deu nem meia hora q culminou nos rochedos e muralhas onde não havia mais onde continuar, pois daquele belo e privilegiado mirante rochoso o ribeirão despencava verticalmente numa gigantesca queda dágua, a Cachu Córrego Fundo! Nos debruçando cuidadosamente na beirada da serra pudemos apreciar a majestuosa cachu despejando furiosamente suas águas d alto de aproximadamente 100m divididos em dois patamares rochosos! Um espetáculo da natureza q pudemos apreciar embasbacados e empoleirados no nosso cocoruto rochoso particular, assim como o bela paisagem q se descortinava serra abaixo, onde o mar de morros estendia-se ate onde a vista alcançava! Do alto avistamos tb o casebre do tal Eurípedes, q em tese seria o proprietário daquelas terras, mas do qual não vimos sinal algum.

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Após este breve tempo de contemplação buscamos a melhor maneira de alcançar a base da cachu, e avaliando ambas e íngremes encostas decidimos q a da margem direita era aparentemente a mais segura. Mas não q fosse trabalhoso, pois primeiro tivemos q varar um matinho de cerrado chucro acompanhando a crista da serra pra somente depois começar a perder altitude através de uma sequencia de rochas desmoronadas, na base da desescalaminhada sussa. E dessa forma atingimos a base da grandiosa cachu, às 14hrs, onde um mega piscinao nos aguardava. Não pensamos duas vezes e jogamos as mochilas no chão pra dar um merecido tchibum naquelas águas refrescantes! Donos absolutos do lugar, aproveitamos a deixa tb pra forrar o estômago, q já vinha reclamando por comida já a um tempo.
Revigorados e descansados, retomamos nossa jornada dando adeus aquela maravilhosa cachu uma hora após aportar ali. Sair daqui foi meio confuso pois uma florestinha impedia navegar visualmente, mas bastou seguir a margem direita do riacho q encontramos vários trilhos de vaca convergindo sentido a tal casa do Euripedes. Mas não tardou pra termos q desviar naturalmente pra noroeste, cruzar o tal riacho e emergir novamente na morraria ao pé-da-serra. Dando as costas à cachu retomamos o mesmo compasso do dia anterior, sem maiores dificuldades e sem intercedência alguma, indo de encontro a uma sequencia de eucaliptos solitarios perfilados à oeste.

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Após subir e descer morros interminavelmente e cruzar pequenos vales com focos de vegetação no meio deles, as 17:45 decidimos montar acampamento às pressas do lado de um capão de mata pois um negrume ameaçador tomara conta do céu! Uma chuva brava iminente estava a caminho e queríamos q ela viesse qdo estivéssemos no conforto e segurança de nossas barracas. Infelizmente o local escolhido pra isto não era dos melhores mas não tínhamos opção; levemente inclinado, próximo de cupinzeiros e repleto de terra q logo se tornaria lama era o q melhor se apresentou pra gente. Dane-se.
Dito e feito, mal montamos nossas tendas o mundo desabou com força total! Chovia torrencialmente acompanhado de violentas rajadas de vento q sacudiam td a armação da minha barraca, tanto q tive dúvidas se ela guentaria tanto sacolejo. Mas o pior e previsível nestas horas ainda estava por vir. Enqto beliscava um lanche logo percebi infiltrações aqui e ali, q remediei enxugando com uma toalha. Mas como a chuva não parava logo formaram-se enormes poças dentro da barraca q simplesmente deixei pra lá, bastava me acomodar onde estivesse seco de modo a proteger principalmente a integridade do saco-de-dormir. Mas enqto tentava pegar no sono não demorou pra perceber q estava deitado num “colchão dágua” e um rio enorme corria por baixo da barraca e q as infiltrações tendiam a apenas aumentar em breve. Solução: saquei um enorme plástico e vedei apenas embaixo do isolante (q ate então tava encharcado) de modo apenas a passar a noite seco. E assim, ilhado dentro da minha própria barraca q estava alagada por tds os lados, consegui pegar no sono ignorando a enchente ao meu redor. É, São Pedro, é preciso bem mais q um dilúvio pra prejudicar meu soninho gostoso...
De madrugada levantei pra “regar a moita” pra constatar q a chuva havia dado apenas a uma fina garoa, mas o melhor foi perceber q as poças internas haviam sido drenadas naturalmente, embora permecesse úmido. Independente desse perrengue pude observar uma leve luminiscência corrompendo o breu noturno, silhuetando as serras ao norte. “Seriam as luzes de Tapira?”, pensei. Deixando de longe essas indagações, belisquei alguma coisa e tornei a dormir profundamente em meu aconchegante saco-de-dormir apenas pra sentir q a região dos pés não havia escapado incolume de se encharcar numa poça interna. Pois é, o cansaço acumulado no corpo dos mais de 20km percorridos ate então era o melhor sonífero q alguém pode ter nestas horas.

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O CÂNION , A CACHU DA PARIDA E A VOLTA
A segunda-feira de feriado dia 15 amanhecera nublada e ligeiramente fria, mas isso não impediu q permanecêssemos presos a nossas barracas. Pelo contrario, estávamos fora de nosso cronograma e devíamos apressar o paso. Ao desmontar nosso acampamento pudemos ver o estrago do temporal do dia anterior na forma de muita lama acumulada no fundo das barracas. O Angelo teve mais sorte do q eu durante o dilúvio; sua super barraca importada impediu q tivesse q se contorcer feito artista chinês quinem eu pra fugir das infiltrações. Mas pensando bem, o q é uma trip sem um perrengue pra contar e rir depois, ne?
Tomamos um farto café-da-manhã e arrumamos as coisas rapidamente, sem tempo ate de secar barraca ou roupa molhada, o q deixou nossas cargueiras relativamente pesadas, pra nos lançar na trilha por volta das 8hrs. A pernada teve continuidade naquele mesmo ritmo do dia anterior, envolta em suaves sobe-e-desce ao sopé da serra sem gdes dificuldades e com o mesmo visual recorrente do inicio da travessia.
Com o surgimento de porteiras e cercas no trajeto deduzimos de estar na proximidade de alguma fazenda. Dito e feito, num piscar de olhos e após cruzar o belo Ribeirão da Parida q serpenteava mansamente as colinas ao pé-da-serra, as 9:15hrs chegamos na propriedade do folclórico Mané Perez. No caminho topamos com um turista carioca q andarilhava no sentido contrario e nos informou da existência de pinturas rupestres numa gruta e q havíamos passado batido, provavelmente bem próximo de onde havíamos pernoitado. A informação encheu os olhinhos do Angelo q estava disposto a retornar pra clicar esta raridade arqueológica. No entanto, apesar de tb incentiva-lo a isso logo a ficha de q estávamos atrasados caiu e decidimos q retornar estava mesmo fora de cogitação. Havia somente q avançar, decisão cunhada de razão do contrario teríamos ambos perdido nosso resgate, no final.

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Em meio à porcos, vacas e cavalos encontramos o Seu Mané Perez q nos convidou pra tomar um cafezinho e um agradável dedo de prosa. Nos contou q sua rústica fazendinha, limitada a uma simples casinha, acolhe tanto turistas qto tropeiros em viagem. “10 pessoas na casa e mais de 40 barracas no quintal!”, disse ele com seu tradicional sotaque mineiro. Dono das terras da Fazenda Nova Suecia, contou q seu bisavô encontrou as tais famosas pinturas rupestres da região no inicio do século passado, e q cobra uma taxa de R$5 pra visitação da tb famosa Cachu da Parida. Desconfiado q nem ele só, nos deu as indicações de acesso á trilha da dita cuja enqto verificava se nossas notas não eram falsas. Francamente, esses foram os R$5 mais bem investidos num atrativo natureba q revelou-se a maior surpresa de toda travessia.
Partimos do casebre através de uma trilha obvia indo de encontro às cabeceiras do Ribeirao da Parida, q aqui corre mansamente nascendo das entranhas do paredão rochoso, q aumenta conforme nos aproximamos. Mas logo um enorme poção impede nosso avanço, já q íngremes paredões verticais emparedam o rio acima, num vertiginoso canion. Pois é, aqui temos q deixar as cargueiras e levar apenas o necessário, devidamente lacrado num saco-estanque. Adentramos no poção com agua acima da cintura ate mergulhar por completo, nadando até a outra margem e alcancar as pedras dos íngremes paredões, q a partir daqui serviriam de escadas naturais a serem escaladas cuidadosamente ate dar um patamar mais seguro e menos inclinado, rio acima. Daqui não tem mais erro, pois basta adentrar no sinuoso desfiladeiro pela margem esquerda do rio, ora andando pelas pedras ora escalaminhando cuidadosamente paredões verticais de modo a evitar dar de cara com fundos piscinões e pirambas ingremes do trajeto.

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Dessa forma aventuresca fomos avançamos lentamente cânion adentro onde cada curva revelava uma nova surpresa, seja na forma dos rasantes das trocentas andorinhas q habitavam o desfiladeiro, seja na forma dos poções e cachoeiras menores onipresentes durante td trajeto. Ate q por volta das 10:50 finalmente chegamos ao final daquele imponente canion, onde uma majestuosa queda dágua, a Cachu Parida, coroava a pernada com seus quase 40m de abundante agua despencando ruidosamente naquele vão rochoso totalmente fechado. Apesar de ser a menor cachu de td travessia era indiscutivelmente a mais bonita e impressionante de tds justamente pelo contexto no qual estava inserida! O borrifo dágua aqui é forte e constante e não tarda a nos ensopar num piscar de olhos, ali naquele local privilegiado situado na vertente oeste das entranhas dos paredoes da Serra da Canastra!
Retornamos satisfeitos a nossas mochilas por volta do meio-dia, no exato momento em q o sol surgia com força total acima de nossas cacholas! Saboreamos um lanche seguido de um breve descanso e colocamos novamente as cargueiras nas costas. O sol estava de fritar miolos mas não tinha jeito, havia q apressar o paso. E dessa forma demos prosseguimento a nossa inalterada caminhada ao pé-da-serra, subindo e descendo suaves morros forrados de pasto através de trilhos de vaca e varando os eventuais capões de mata no caminho. Felizmente agua boa, cristalina e abundante esta presente em td percurso pra molhar nossa goela, já q aquele começo de tarde anunciava-se extremamente quente.

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Andamos nesse compasso o q pareceu ser uma eternidade, ate q finalmente atingimos o q parecia ser o final do paredão q acompanhávamos, as 15hrs, uma vez q pra noroeste apresentava-se apenas uma extensa baixada forrada de pequenos morros, onde pipocava uma ou outra fazenda, nenhuma delas reconhecível. Como nossas indicações davam conta de q por aqui estaria nossa destino final, resolvemos galgar ao alto da serra pra ter um vislumbre privilegiado e a partir dali traçar o rumo visualmente.
Desgastados pelo calor e forte sol, subir a montanha foi um sufoco q nos tomou um tempo razoável, mas uma vez no alto da Serra da Chapada finalmente pudemos avistar a Fazenda do Alvaro, nosso destino final, coroando o alto das montanhas uns 6km ao sul!! Pode parecer pouca distancia, mas o trajeto visualizado era bem acidentado, com direito a um fundo vale seguido de uma longa sequencia de morros! “Putaqueopariu, não vamos chegar a tempo!”, pensei preocupado, “Vamos ter q nos apressar!”. Minha preocupação tinha seus motivos, pois havíamos marcado de nos resgatarem às 17hrs e tínhamos menos de 2hrs pra chegar no horário combinado à fazenda. Chegar atrasado não seria apenas de bom-tom como tb uma desconsideração s/ tamanho se levarmos em conta o tempo de sobra q tivéramos durante td travessia. Alem do mais, não poderíamos comprometer qq eventual compromisso q o Dib & Cassandra pudessem ter depois em virtude do nosso atraso, q podia ter sido evitado. Com essa preocupação em mente para com nossos anfitriões, eu pelo menos apressei o paso buscando chegar no horário combinado a qq custo, o q me separou do Angelo q por sua vez seguiu outro ritmo acompanhando uma plotagem incerta (e desnecessaria) no GPS.

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Pois bem, sendo assim azimutei bem nosso destino e toquei bala! Eu tava sem minha bussola mas não teve gde problema de orientacao uma vez q minha “bussola interna” nunca me deixou na mão, e alem do mais os descampados permitiam avaliar qual direção era mais segura e rápida a seguir. Se bem q neste trecho senti falta da copia da carta topográfica q acabei esquecendo em casa e q teria ajudado horrores! Bem, a corrida contra o relógio de inicio me fez então descer a Serra da Chapada em meio à vegetação chamuscada ate uma baixada de capim ralo, onde cruzei o Córrego da Cana com agua ate o joelho e dali prosseguir pela encosta oposta, ganhando altitude afim de avaliar o terreno sgte. Contornei um morrote ate descer então ao fundo do vale do Córrego Mata-Cavalo, um largo fundo rio repleto de remansos e cachus onde tive q avaliar bem onde seria melhor cruzá-lo. Felizmente onde estava havia uns afloramentos rochosos próximos da margem adentrando no rio, mas isso não impediu q cruzasse o mesmo com agua ate a cintura, mas q foi feita pelo menos com td segurança possível.
Uma vez na outra margem subi ao alto da serra sgte pra dali prosseguir num trilho de quartzito através de uma crista salpicada de cane-las-de-ema, sempre seguindo pro sul. Desviei de fundos vales mas não tive como escapar de vales menores, o q me obrigou a um continuo sobe-e-desce punk, continuo e desgastante. Entretanto, as vistas proporcionadas deste trecho foram as mais interessantes, selvagemente falando. Mas eis q finalmente alcanço uma precária estrada de terra q agora so tende a subir indefinidamente e q foi o trecho em q quase entreguei os ptos. Mas como diz o pintor-de-rodapé Van Damme, “Retroceder Nunca, Render-se Jamais”, continuei firme e forte, cada vez mais próximo da fazenda avistada, onde vi dois pontinhos me encarando. Eram o Dib e a Cassandra á nossa espera.

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Cheguei, enfim, ao meu destino um pouco antes do horário combinado, as 16:50, ofegante e com as pernas cambaleando! Estava mto feliz não apenas por ter concluído a travessia proposta mas principalmente por ter cumprido chegar no horário oficialmente combinado. Do Angelo nem sinal, o q preocupou o Dib e a Cassandra. Bem, vamos esperá-lo né? Fazero quê.. Mas tb havia prazo pra isso, e o tempo limite estipulado pelo Dib foi ate as 19hrs, pois tinha compromisso familiar inadiável ainda naquela noite. Na pior das hipoteses, o Angelo teria de pernoitar na fazenda, pegar carona c/ o caminhão do leiteiro e ter a via-sacra de um dia apenas pra chegar a Ribeirão Preto. Sendo assim, ficamos aguardando nosso colega no refeitório da fazenda, onde molhei a goela com 4 cervejas geladas q nunca desceram tão redondo qto naquela ocasião, sob o olhar curioso do Brad, o simpatico caozinho da fazenda. Assim como beliscamos petiscos deliciosos de queijo canastra legitimo! O Dib por sua vez fez mto bem em ter pernanecido de molho naqueles dias pois o pe dele ainda tava se recuperando, mas invejou sadiamente a pernada q perdeu.
Qdo nosso colega atrasildo finalmente chegou, algo de hora e pouco depois, imediatamente zarpamos na possante Troller rumo Ribeirão Preto, onde chegamos por volta das 22hrs, extremamente cansados. Nos despedimos dos nossos anfitriões prometendo breve retorno pra novas aventuras e garantimos passagens pra Sampa somente pra uma da madruga, tempo de espera q pareceu interminável. O resto é resto, mas o melhor era q a maledita gripe enfim dava sinais de ter tirado ferias permanentes la pela Canastra e ficado por la mesmo, ainda bem.

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Inegavelmente a Serra da Canastra tem muito mais q oferecer q os atrativos limitados pelas cercas do Parque nacional homônimo. A travessia realizada confirma q a região abre perspectivas de maior aproveitamento turístico e cultural para o entorno de São João Batista, Desemboque e Sacramento. Seja pela sua riqueza biológica, cênica, arqueológica e historica, os descampados e escarpas da Canastra tem muito mais o q desvendar. Existe ainda a “Travessia do Paredão Norte” completa, saindo de São Roque e terminando em Desemboque, q pelas estimativas de quilometragem deve consumir facilmente de seis dias a uma semana de árdua pernada. Mas claro, esse é um assunto pra outra mega-pernada pela regiao, alem de mais um bom motivo pra retornar a este q é o entorno pouco ou nada conhecido de um dos maiores parques brasileiros.


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