por DuduLessa » 28 Set 2011, 12:08
Deixamos um dia livre a mais para algum imprevisto ou fazer algum passeio que não estava no nosso roteiro. O último dia no Atacama merecia algo grandioso. Por isso decidimos 2 dias antes que tentaríamos subir o Vulcão Lascar a 5500m, único ativo na região. Lickan Antay não faz esse passeio. Não faça esse passeio com qualquer agência, precisa ser uma especializada. Fechamos com Desert Adventure e eles mesmo falaram pra não fazer em qualquer lugar e deram 3 opções além deles caso quiséssemos. Isso nos deixou tranquilos quanto a contratá-los. Confesso que estávamos todos receosos, mas a possibilidade do desafio foi mais forte. Esse dia mereceria um relato a parte, mas vou tentar fazê-lo aqui. Na noite anterior há uma reunião. Por que uma reunião pra fazer um passeio?, pensei.
CHL 80000
São 3 h de carro, até a base do vulcão, nada fáceis. Num 4x4 andamos entre montanhas, pistas congeladas que as vezes os guias precisavam descer com picaretas pra limpar o caminho. Paramos em frente uma laguna lidíssima pra tomar café quando o sol nasceu. Sensacional! Fazia -2ºC. Ao chegar a base nos preparamos com o equipamento adicional fornecido pela empresa. Mas você precisa ir devidamente preparado pro frio com as 3 camadas, bota de trekking, gorro, luva, balaclava ou turtle neck, etc. Nos forneram luva adicional pra alta montanha e bastões.
Começamos a subida a 4700m. Nunca havia estado tão alto e logo de cara vi que não seria fácil. Acima de 5000m cada passo parece uma maratona. E a subida não alivia nenhum segundo. Subia, subia e cadê o ar? A 4900, quando já parecia uma eternidade, minha namorada desistiu e resolveu descer. Estava eu, ela e um guia. É bizarro, pois não existe oxigênio pra suprir a demanda muscular necessária pra te impulsionar morro acima. Daniel subiu na frente com mais 2 guias e as vezes não conseguia vê-los. O guia desceu com minha namorada até o carro estar no campo de visão dela. E me disse pra continuar. EU fui, lento, mas sem parar. Após um tempo havia uma base de gelo que separava dois caminhos. Não sabia por onde ir. Adivinha? Escolhi o errado, mais longo com areia mais fofa e onde tinha que cruzar uma parte pelo gelo. Fiquei esgotado. Só quando o guia subiu de volta é que corrigiu meu caminho. Tive que voltar um pouco e atravessar sobre o gelo pra pegar a rota certa. Continuamos, lentamente, cada vez mais lento. Eu não percebia, mas meu raciocínio também ficava mais lento. Quando cheguei a mais ou menos 5200m estava a ponto de desligar. O guia percebeu que não tinha mais condição de prosseguir. Ele construiu uma barricada com pedras e me sentou ali, de frente pra imensidão lá embaixo. Ele disse: vou subir e buscar os outros e volto em meia hora. Meia hora?? Isso não é muito tempo pra ficar sentado aqui sem força? Não havia outro jeito. Ele me disse que não saísse dali em hipótese alguma. Como se eu pudesse...
O topo ali tão perto, dava pra ver a fumaça...que vontade de ver a cratera.
Montanha, neve e o céu. Uma visão do paraíso. Eu contemplava apenas, pois sentado nem me movia, não tinha força. Apenas pra tentar beber água, mas o meu camel bag congelou. Uma sensação de paz começou a se apoderar de mim. Mas quando me dei conta estava quase apagando. Muito sono. Já não sentia frio, nem nada. Comecei a lutar contra o sono, pois tinha medo de dormir e não acordar mais. Pensei na possibilidade da morte. Cheguei a entregar minha alma a Deus, mas confiava que sairia dali. Na verdade eu não sabia qual a gravidade da situação, pois meu raciocínio estava lento. Talvez nem tivesse risco algum, mas sozinho ali pensava em tudo e todos.
Meia hora depois quando estava quase dormindo, ouvi vozes. Me emocionei. Um dos guias passou correndo por mim como se estivesse na praia. Estava me procurando, mas não me viu. Não tive forças pra gritar. Ele olhou pra trás e só levantei a mão. Ele veio e me ajudou a levantar, beber água e me orientou sobre a descida. Pouco depois os outros chegaram. Foi aí que descobri que o meu amigo, Daniel, também tinha sucumbido e apagou a 5300m. Ele estava dormindo em pé.
A descida demorou muito. O guia ia me segurando, pois parecia que estava bêbado. Caí umas 4x. Após algumas horas chegamos no carro. Nesse momento desabei em choro. Foi uma experiência muito forte. Nunca passei algo parecido. Já estive na Patagônia fazendo trilhas intermináveis em montanhas totalmente sozinho, mas nada como aquilo. Os guias nos parabenizaram pelo alcance. Disseram que muitos não conseguem, especialmente os brasileiros. Mesmo que seja mentira, fiquei feliz.
Ao voltar pra San Pedro tive um soroche animal (puna, no Chile) que ainda não tinha tido. Uma dor de cabeça absurda que passou com uma hora de descanso e dipirona.
O segredo é ir aumentando a altitude dos passeios gradativamente, mas acima de 5000m não existe segredo, não há o que fazer pra evitar puna. Até os guias sentem dor de cabeça.
O Vulcão Lascar nos venceu, me venceu, ele é poderoso, mas eu venci meus próprios limites. Cada um de nós venceu. Uma experiência pra toda vida.
O Deserto do Atacama é um lugar divino! Lá você pode ter um encontro com Deus ou pelo menos com você mesmo.
Lagunas Altiplânicas- 5 estrelas
Salar de Tara- 5 estrelas
Vulcão Lascar- 5 estrelas
Vale de la Luna e adjacências- 4 estrelas
Geiser del Tatio- 4 estrelas
Lagunas Cejas/Ojos del Salar- 4 estrelas
Salar do Atacama- 3 estrelas