Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#586659 por Jorge Soto
13 Mai 2011, 09:27
http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/153/153


CIPÓ - ITABIRA: RASGANDO O SUL DO ESPINHAÇO
O PN Serra do Cipó é enorme e seus atrativos vão além da proximidade restritiva que suas portarias impõem. O interior do parque estende suas vastas campinas à leste e pro sul, onde guarda paredões, serras, riachos e recantos q são totalmente desconhecidos pro turista convencional. Os acessos são poucos, as distancias são longas e trilhas em sua gde parte sequer existem. Mas pra quem tem tempo e disposição de sobra esses fatores são mero tempero, pois existe uma grandiosa caminhada, a “Cipó - Serra dos Alves”, q totaliza quase 70km feitos em 4 dias cheios. Iniciando em Cardeal Mota, passando pelo Travessão e tocando direto pro pacato vilarejo de Serra dos Alves, já no município de Itabira, esta pernada rasga td Serra do Cipó sentido sul descortinando novas rotas e atrativos deste parque q continua sendo uma pérola desconhecida do Espinhaço.

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O relógio marcava exatas 8hrs da matina assim q chegamos no Cipó, antiga Cardeal Mota. O dia anterior fora de cansativo pé-na-estrada na longa jornada proveniente de Sampa qdo eu, Mamute e Lu chegamos em Belo Horizonte, onde tivemos o providencial e bem-vindo pernoite no apê do Paulo, o quarto integrante da nossa trip. Apesar de estarmos refeitos e bem-dispostos o único porém era o tempo, q mantinha-se incerto entre um chuvisco e outro desde nossa saída da capital mineira. Dane-se. Quem ta na chuva é pra se molhar.
Mal chegamos imediatamente fomos tomar nosso desjejum numa tradicional padoca-beira-de-estrada, e na sequencia deixar o veículo na casa da gentil e hospitaleira Dna Maria José, nossa anfitriã de tantas outras aventuras pela região. Cargueiras nas costas, ajeita fivela aqui, arruma barrigueira ali e pronto, pusemo-nos a andar subindo a estrada de terra sentido o pé-da-serra, isto é, pro leste. Após deixar as ultimas casas pra trás e ladear a caixa dágua da Copasa, bastou tomar a entrada a esquerda numa bifurcação e por ela seguir ate o final.

RUMO O TRAVESSÃO
Após cruzar o portal da Pousada Faz. da Serra serpenteamos estrada abaixo durante um tempão ate q enfim topamos com uma das discretas guaritas do PN Serra do Cipó, um pouco antes das 9hrs. Lembro q da ultima vez q estive aqui (coisa de 2 anos atrás) ela sequer existia e ainda estava em construção. Após pagar a devida taxa e dar infos do nosso “destino” damos continuidade a nossa jornada pela mesma estrada, agora cascalhada, pela qual perambulamos.
A pernada se mantém no mesmo compasso durante um bom tempo, chapinhando por um chão arenoso q denuncia a chuva constante dos dias anteriores. Muitas mangas maduras no chão complementam nosso mirrado café, assim como abastecem nossas cargueiras pra futuros lanches com o delicioso fruto. Mas não tarda pra estrada cascalhenta dar lugar a um largo carreiro de quartzito claro q adentra mais e mais nas entranhas do parque, desviando dos últimos morrotes e cruzando pequenos córregos no caminho. Infelizmente o mau tempo não permite vislumbre do topo da serra ao nosso entorno, totalmente encoberto por brumas, ate q nossos rostos começam a ser fustigados por um chuvisco mais q previsível.
As 10hrs alcançamos um ponto onde a vista se amplia e nos brinda com o primeiro contato visual do Travessão, o gigantesco selado q é divisor de águas das bacias do Rio Doce e Rio São Francisco, cuja silhueta montanhosa daqui surge em tons opacos em virtude do mau tempo. Após ignorar a picada q leva à Cachu Farofa de Cima, a picada cai pra direita e bordeja o agitado Rio Bocaina um bom tempo ate q um som trovejante anuncia uma queda próxima. Dito e feito, a Cachu do Gavião surge imponente por entre os paredões à nossa esquerda despejando sua água acobreada atraves de seus afloramentos rochosos do alto de seus mais de 40m num belo e enorme poção!!

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A caminhada prossegue inipterrupta serra adentro. A chuva não dá trégua alguma e ate aquela altura já estamos parcialmente ensopados; o mau tempo ameaça engrossar, mas assim mantêm sempre alguma queda visivel despencando dos paredões no entorno. O tempo passa, a trilha se estreita cada vez mais e o mato apresenta-se cada vez mais fechado. Nessas condições desembocamos as margens arenosas do enorme lago onde a Cachu Tombador lança suas águas cor-de-iodo, as 11:13.
A partir daqui a picada some, apesar das nossas tentativas de busca de algum acesso rio acima. Daí não restou opção senão escalaminhar e varar-mato em meio aos afloramentos rochosos e arbustos afim de ganhar o alto da cachu. No processo, as vistas tanto do vale percorrido até então como do q ainda falta se descortina de tal forma q nos dá o combustível necessário pra prosseguir a árdua tarefa de avançar na raça, sem trilha. Após vencer o alto do morrote nesse esquema perrengueiro, segue-se uma descida no mesmo naipe ate q finalmente, as 12:20, desembocamos nos espaçosos e largos lajedos q caracterizam o alto dos mais de 50m da Cachu Tombador. O sol ameaça surgir e é aqui mesmo q nos brindamos um breve pit-stop de lanche e descanso. Em meio ao calor abafado daquele horario, não me faço de rogado e me presenteio com um refrescante tchibum no pequeno lago represado do qual somos donos absolutos.
Nossa jornada rio acima tem continuidade não pela sua margem e sim pela sua encosta rochosa direita, onde a mata arbustiva dos afloramentos não é tão agreste ou fechada, permitindo transito mais facilitado e agil. E la vamos nos avançando no vara-mato, subindo e descendo rochedos em meio a charmosas canelas-de-ema, de modo a ganhar alguns descampados no caminho. A enorme Cachu do Fantasminha surge majestuosa à nossa esquerda, caindo do alto dos paredões q limitam o vale em sua porção norte. Mas é a visão do grandioso Travessão cada vez mais próximo q nos estimula a prosseguir com pausas pra descanso cada vez mais raras.

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Após avançar ora pela encosta ora atraves de sucessivas lombadas serranas, desembocamos num razoável descampado, agora bem próximos do ataque final à base do Travessão, q aqui se mostra um fundo vale afunilado em “V” entre duas altas paredes avermelhadas de puro quartzito. Aqui temos um momento pra decidir se atacamos o dito cujo pelo fundo vale (leste) ou se o contornamos pelos seus paredões da direita (sul/sudoeste). Optando então pela primeira opção, descemos a encosta de capim pra depois mergulhar num chaparral de samambaias de onde saímos com mato ate os ouvidos.
Caimos então nas margens pedregosas do Córrego do Capão, onde bastou avançar rio acima atraves das enormes rochas na base da escalaminhada facil, alternando uma margem ou outra, onde ganhamos altitude suavemente de modo a passar por entre os primeiros enormes paredões de granito q bloqueavam nosso avanço. Eventualmente há necessidade de subir a encosta e varar um pouco de mato, mas logo a intuição nos obriga a voltar ao leito do rio e dali prosseguir desimpedidamente. No caminho, muitos poços e cachus alegram os olhos naquele calor infernal do meio de tarde.
Abandonamos o rio e galgamos a suave encosta de capim q nos leva finalmente ao selado principal q marca o Travessão, as 17hrs. Estamos no local q separa o enorme cânion a leste, do vale da Bocaina a oeste, de onde viemos. A vista é soberba de ambos lados e merecedora de mais de um clique, beneficiado pelo tempo q neste horário se mostra mais generoso q pela manhã. Os majestuosos paredões rochosos se debruçam de alturas incomensuráveis sobre o Rio do Peixe, q por sua vez serpenteia o fundo vale ate se perder à leste.

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Montamos as barracas num platozinho de capim ralo próximo e com vista privilegiada deste imponente cânion, quase ao lado de um bem-vindo córrego q provêm dos campos altos à sudeste. Mas assim q o sol se perde atrás das montanhas nos enfurnamos em nossas tocas onde cada um parecia dar andamento ao seu ritual particular no preparo da janta. Particularmente estava muito mais cansado q faminto, motivo pelo qual apenas me limitei a beliscar algum lanche pra depois desfalecer no meu saco-de-dormir, ritual onde fui acompanhado pela Lu. Já o Mamute e Paulão ainda ficaram um tempo mais acordados jogando conversa fora. Durante a madrugada choveu tanto q deixaria Noé orgulhoso. Pingos e respingos tamborilavam fortemente no sobreteto da barraca acompanhados de violentas rajadas de vento sacolejavam a frágil estrutura da Aztec, q guentou bem o tranco e nos garantiu uma razoável noite de sono. Só torcia pros meus colegas de trip não terem inconvenientes por conta daquela tempestade inesperada, embora conseguisse ouvir o Mamute desferindo impropérios por conta de infiltrações em sua Nautica improvisada de ultima hora.

A MONTANHA-DOS- TRÊS -PENHASCOS
O dia sgte amanheceu envolto em brumas q não permitiam enxergar nada em volta e pior, chovendo. Por conta disso ficamos ali, prostrados em nossas respectivas barracas à tóa, presos àquele ócio mais q justificado naquele inicio de dia aguardando a chuva dar sinais de trégua. Qdo ela suavizou não pensamos duas vezes em levantar acampamento, afinal nunca se sabe se o humor de São Pedro pioraria a partir dali. Ao dar uma espiada lá fora qual minha surpresa ao reparar q do alto de ambos os paredões do Travessão havia td sorte de cachoeira despencando em largos filetes vale abaixo, no melhor estilo “O Senhor dos Aneis”. As nuvens iam e vinham, escondendo parcialmente estes gigantes maciços de quartzito conferindo-lhes até um ar meio místico. O manso córrego à nosso lado agora era um furioso rio q trovejava de forma ensurdecedora, sem contar q era acompanhado de uma ruidosa cachu logo acima.

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Apesar de ainda a fina garoa fustigar nossos rostos, o fato é q só começamos a andar bem tarde naquele fim manhã, por volta das 11hrs. Retomamos a pernada inicialmente subindo selado acima rumo sudeste e quebrando pra esquerda, acompanhando o curso do rio ao nosso lado. Mas não demora pra trilha sumir e nos vermos subindo uma campina cercada campos rupestres em meio a um espesso nevoeiro. Mamute toma a dianteira meio q na intuição e a pernada nos leva à beira de um precipício. Caminho errado. Voltamos um pouco e decidimos escalaminhar o morro ao lado pra melhor estudar o cenário à nossa volta. É, a facilidade de navegar por estes descampados vai por água abaixo qdo a serração resolve dominar a paisagem.
Uma vez escalaminhado o alto do morrote em questão, como q por passe de mágica o tempo começa a abrir descortinando a paisagem à nossa volta, as 13:30. De fato, nos havíamos precipitado ao desviar muito já logo de inicio sendo q devíamos ter acompanhado a borda do cânion do Rio do Peixe rumo leste por um tempo pra somente depois desviar pro sul. Paciencia. E ali, prostrados no alto daquelas lajotas e pedras de quartzito em meio a jardins rupestres fazemos um breve pit-stop de descanso e breve lanche, q complementa nosso mirrado desjejum.
Descendo td novamente, ganhamos as campinas rumo nordeste chapinhando em meio a muito brejo e charco, contornando o enorme morro q servira de mirante improvisado e nos brindara com vista incrível da boca do cânion. Após cruzar uns dois riachos sentido leste, subir a suave encosta de um novo morrote e passar por um largo platô, a pernada estabiliza no dorso de uma crista onde agora a rota aponta apenas numa direção só: sul.

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A caminhada é estimulante e desimpedida atraves de planas lombadas e lajotas de quartzito, ainda mais com o tempo abrindo e sendo beneficiado pelo sol q agora destoa radiante, iluminando a paisagem repleta de horizontes ondulantes salpicado de afloramentos rochosos à oeste. À nossa esquerda o visu não é menos impressionante, com panorâmica privilegiada de td extensão do majestuoso cânion do Rio do Peixe.
O tempo vai passando e a pernada se mantêm sempre no mesmo compasso rumo sul, subindo e descendo suavemente os ondulados campos q forram esta larga e vasta crista. Escapando dos abismos óbvios à nossa esquerda e desviando eventualmente de pequenos focos de mata, surge à nossa frente a imponente “Montanha-dos-Três-Penhascos”, formidável elevação serrana marcada por três abismos diagonais. Claro q nossa rota passa longe pela direita desta.
A partir dali cruzamos o campo e no morrote sgte novamente ganhamos o alto, após cruzar mais um pequeno córrego. Mas já são 17:30 e o cansaço da pernada inipterrupta desde a ultima parada nos obriga a estacionar no interior de um pequeno cinturão de mata em meio á vasta campina. Na verdade jogamos as cargueiras no chão e montamos acampamento num decrépito curral bem protegido de uma eventual ventania à noite. E o melhor, com água perto.

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Pra variar, a penumbra da tarde deixa tanto pernilongos qto borrachudos ávidos por sangue fresco e não há repelente q dê conta. Após uma janta farta nos recolhemos á nossas tendas cientes q estamos atrasados conforme nosso cronograma e q amanha teríamos q compensar o tempo perdido. Ou seja, nossa pernada começaria cedo independentemente de estar chovendo ou não. E tal como a noite anterior, aquela ali tb foi marcada por chuva durante td madrugada. Felizmente escolhemos um bom e estratégico local pra acampar, motivo pelo qual tds ao menos tiveram uma boa noite de descanso em meio ao temporal q se abateu inclemente sobre a serra.

PELO PICO DO CURRAL E A CASA DOS BRIGADISTAS
A manhã irrompe conforme o previsto, isto é, abraçada por uma fina garoa e uma bruma preenchendo o restante da paisagem. Independente disso, e sob os protestos do mamute reclamando de assaduras em locais baixos, levantamos acampamento as 8hrs fim de otimizar ao máximo a pernada daquele inicio de dia e compensar o atraso do dia anterior.
Na sequencia nos vemos ainda pela crista do Espinhaço, subindo e descendo abaulados morrotes, passando pelo lado de canelas-de-ema gigantes (de mais de 2 metros de altura!!) até dar na base de uma montanha, q obviamente devemos contornar pela direita. Mas a trilha logo se perde num chaparral de samambaias q gera um pouco de confusão. Tentamos varar-mato mas logo percebemos não ser a melhor opção em função do tempo totalmente enevoado. Retrocedemos na eventual possibilidade de contornar a montanha pela esquerda, tática q revelou-se equivocada pela presença de enormes abismos.
Mas após um tempo indo e vindo pela trilha principal, conseguimos adotar uma direção no meio do nevoeiro q bastou acompanhar pela direita pela encosta montanhosa, indo de encontro com vários trilhos de vaca paralelos, sem perder nunca altitude ou cair nas gargantas de mato à nossa direita. Daí começamos a subir a encosta de pedra, tendendo pra esquerda, ate dar num selado marcado por uma decrépita porteirinha. E nada da fina garoa dar trégua.

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Passada a porteira e o degrau rochoso q a acolhe, ganhamos um enorme e vasto campo de pasto ao sopé do Pico do Curral, q agora sequer pode ser visto por conta do espesso nevoeiro. Chapinhando pela campina meio q às cegas, ao meio-dia damos uma breve parada no pequeno curral de chão arenoso e repleto de dejetos de vacas q nomina o pico. Mas a parada não se estende por muito tempo, diga-se de passagem, mas me dá tempo pra mastigar umas bolachas tiritando. O sangue esfria rapidamente e a baixa sensação térmica é agravada pela forte ventania em nossos corpos parcialmente ensopados pela chuva fina. Proteção ali é quase nula, pois nosso descanso se dá abaixo de um mirrado arbusto e em pé, apoiados numa pedra, pois o chão esta ou repleto de bosta ou dominado pelo brejo.
Azimutando pro sul, deixamos o platô pra ganhar altitude pela encosta pedregosa do Pico do Curral propriamente dito, q vem a ser o pto culminante da Serra do Cipó, com seus 1700m. Por estar totalmente encoberto não nos animamos nem um pouco em subir ao topo, razão pela qual simplesmente o contornamos pela direita ate dar na continuação da crista principal, sempre pro sul. Desviamos de outros dois cocorutos no caminho ate tropeçar com a famosa trilha q segue, perpendicular, ao vilarejo de Cabeça-de-Boi. O tempo consegue ser um pouco generoso ao nos dar uma breve trégua pra ter alguns vislumbres da bela paisagem do entorno, de onde se destacam os paredões escarpados apontando pro céu q marcam a Serra dos Linhares, à sudeste.

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Mas é aqui q desviamos da crista e descemos pelo pasto em direção uma porteira à nossa direita. Ganhamos novamente o alto dos morrotes sgtes pelo pasto ate tomar novamente a rota pro sul, porem atraves de outra crista q só conseguimos atingir desviando de alguns fundos vales no caminho. Subindo e descendo suave e constantemente, pra depois nos manter em nível, podemos avistar a pirâmide rochosa imponente do Pico Agudo, se elevando à sudoeste. Contudo, nossa rota prossegue inipterrupta pro sul em meio a ondulantes afloramentos rochosos e sem trilha alguma, qdo ao ganhar o alto de novo morrote um temporal desaba de vez acompanhado com ventos de furacão q baixam rapidinho nossa temperatura. Chovendo canivete, o jeito é andar depressa pra se manter aquecido , chapinhando brejos e galgando as lajotas de pedras no caminho com cuidado redobrado.
Após andar um tempão chapinhando pela campina, acompanhamos um fundo vale q pareceu ser o do Córrego Garça ou Gavião, ate q enfim mergulhamos num bosque atraves meio de uma trilha bem marcada q o cruza durante um bom tempo. Emergindo do outro lado da mata qual nossa surpresa ao nos deparar com um casebre ao lado de um pequeno cocho!!! A chuva havia dado uma maneirada e o horário das 17hrs já mostrava-se bem avancado, razão pela qual decidimos pedir ao eventual dono a possibilidade de acampar sob o pequeno telhado ao lado. Gritamos e nada. O casebre estava vazio e pra nossa sorte, destrancado. Uhhhúúú!

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Claro q não pensamos duas vezes em estacionar lá dentro, q nunca caiu em melhor hora q aquela. Na verdade era uma casa de apoio aos brigadistas de incêndios no parque (estava cheio de rabiscos dos “Rambos” na parede), e dispunha tanto de uma ampla sala com colchões como uma cozinha bem rústica, mas q vinha a calhar com nossas necessidades. Mesmo no interior, Mamute e Paulo optaram por montar suas barracas no assoalho de madeira com receio de barbeiros, enqto eu a Lu apenas estendemos os isolantes e sacos-de-dormir no chão mesmo. Danem-se os barbeiros ou qq bicho peçonhento. Não somos nós q estamos com eles e sim o contrario.
Colocamos td q estava úmido pra secar num varal improvisado no lado de fora, e na sequencia preparamos nossa janta no exato momento em q a luz do dia se extinguiu. Paulo e Lu imediatamente apagaram, enqto Mamute se tratava de remediar o incomodo de suas assaduras nas partes baixas. Eu fiz varias visitas noturnas à “toallete” (na verdade, um buraco cavado no chão num cubículo anexo) por conta de uma inconveniente dor-de-barriga. Pra variar choveu torrencialmente durante td noite, e os trovões reverberam pelas paredes do casebre em flashes q iluminam td em volta. Mas devidamente acomodados naquele nosso “hotel 5 estrelas”, ignoramos a tempestade e dormimos regaladamente o sono dos justos.

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FINALMENTE, SERRA DOS ALVES
Ao amanhecer do nosso quarto e ultimo dia de trip a chuva havia passado desde o final da madrugada, razão pela qual mal acordamos demos um jeito de arrumar td afim de aproveitar o tempo, em tese, bom. Tomamos nosso ultimo desjejum coletivo de modo a esvaziar nossas cargueiras já pesadas pela umidade e zarpamos antes mesmo das 8hrs.
Tomamos então uma picada q vinha por trás da casa mas q logo foi dar apenas num córrego. Ultrapassado o mesmo, prosseguimos nossa jornada sem trilha atraves das campinas encharcadas dos pequenos morrotes à nossa frente ate ganhar os vastos descampados sgtes. Interceptamos um trilho arenoso bem largo q àquela altura parecia um rio mas q ia no sentido desejado, e por ele andarilhamos um tempão sem desnível algum, sempre no sentido sudeste como q indo de encontro num serrote com formato de barbatana de tubarão.
Ainda chapinhando pelo pasto, antes de atingir a base do tal serrote a trilha começa a perder altitude atraves de uma encosta q tende pra esquerda, e logo um amplo e maravilhoso vale se descortina à nossa frente: à sudeste observamos claramente os contrafortes escarpados da Serra dos Linhares espichando-se pro sul, sendo atravessados perpendicularmente pelos recortes acidentados da Serra do Lobo; e temos o pequeno arraial de Serra dos Alves no alto da Serra da Boa Vista, bem ao sul, pequenino. Logo adiante escutamos o ruído um riachinho despencando à nossa direita, cavando um fundo vale serra abaixo. São as nascentes do Rio Tanque, anunciando as primeiras de suas intermináveis e vertiginosas quedas.

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Perdendo rapidamente altitude ora em ziguezagues ora por meio de uma suave encosta, a trilha pedregosa nos lança num platô bordejando o impressionante Cânion dos Marques, onde o supracitado Rio Tanque serpenteia serra abaixo espremido por dois enormes paredões. No caminho, as campinas ornadas por vistosos jardins de sempre-vivas dançam ao vento e reluzem o orvalho matinal. O silencio do lugar só era rompido pela Lu queixando-se de mosquitinhos inconvenientes indo pousar diretamente no interior de sua boca, e do Mamute reclamando de dor das assaduras, q àquela altura o faziam caminhar quinem cowboy, ou seja, com as pernas abertas. Aqui o Paulo começa a se situar e comandar na rota a tomar, uma vez q já esteve pela região noutras ocasiões.
Uma casa fechada no alto dos 1200m de altitude marca nosso primeiro contato com a civilização, e logo depois uma placa indica estarmos numa tal Serra da Rita, por sinal Area de Proteção Ambiental cujo acesso se dá apenas mediante autorização e com condutor ambiental. A descida da serra tem continuidade no mesmo compasso, através de encostas sucessivas q bordejam o agora furioso Rio Tanque, cavando cada vez mais um cânion mais fundo. Enqto isso, a manha se mantem tal como começou, ou seja, enevoada e envolta numa fina garoa.

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Mas a picada nos leva do outro lado da encosta e desemboca numa lamacenta e larga picada, q descemos com td cuidado possível e bordeja a montanha pela esquerda. O fundo e verdejante vale ao nosso lado nos oferece pequenos vislumbre de cachus despencando dos seus paredões laterais. Seriam estas as famosas cachus locais da Boa Vista, Marques ou Bonge? A vegetação aumenta de tamanho e começam a surgir alguns sítios no caminho, sinal q estamos já em território seguro. “Sitio Bandeirinhas – Propriedade particular”, nos avisa laconicamente uma placa q deixamos pra trás ao cruzar uma porteira, e após uma piramba lamacenta terminamos desembocando no fundo do vale, às margens do largo Rio Boca da Serra. Cruzamos o dito cujo por meio de uma oportuna e trepidante ponte pênsil, sob o olhar curioso de inúmeras vaquinhas pastando perto dali, onde a interminável pernada se dá agora por uma precária estrada de terra.
Enfim, chegamos no pacato vilarejo de Serra dos Alves ao meio-dia, onde imediatamente buscamos um lugar onde estacionar e, principalmente, conseguir transporte pra Cardeal Mota ou Itabira. O vilarejo, nascido de um assentamento bandeirante, parece um presépio de tão pequeno e charmoso q é. De ambiente bastante bucólico, se resume a um punhado de casas de pau-a-pique dividindo espaço com outras mais elaboradas ao redor de uma simpática capela. Lembrando q Serra dos Alves é uma denominação local para a Serra do Espinhaço e, situada dentro de uma APA, faz fronteira com o Parna Serra do Cipó.

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A INTERMINÁVEL VOLTA
Ensopados e imundos de lama ate a medula, terminamos encostando na Pousada Portal da Serra, onde fomos gentilmente recebidos pela Joelma e Josilene, donas do estabelecimento, q ficaram pasmas ao saber q havíamos cruzado td serra naquele tempo. Hospitaleiras como td povo mineiro, nos ofereceram banheiro pra trocar nossas vestes úmidas e principalmente, se dispuseram a nos preparar comida, gentileza q não recusamos claro! Enqto eu, Mamute e Paulo nos entupíamos de porções de deliciosa calabresa regadas a cerveja, a sempre pró-ativa e cheia de disposição Lucilene tomou a iniciativa de buscar transporte por conta própria pelo arraial td, sem sucesso.
Foi ai q fomos informados q em virtude do péssimo tempo poucos turistas haviam decidido passar o feriado ali e q as condições das estradas (tds de terra) tb não estavam ajudando muito. Bem, o máximo q poderia ocorrer seria pernoitar ali e zarpar na manha sgte, de taxi. De qq forma, esse era apenas detalhe pq o clima era de total descontração áquela altura do campeonato, e depois de td aquele perrengue molhado na serra aquela bebemoração era mais q merecida. Bebemoração tb regada a pinga local, q o digam a Lu e o Paulo, este ultimo exagerando além da conta. Enqto isso, eu me divertia com os causos da faladora Josilene, q entre um e outro deixou escapar q a região é visitada por discos voadores. Hummm..será? É, parece q as belezas do Cipó atraem ate gente de outro mundo!

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Pois bem, por sorte da Divina Providencia, as donas da pousada tinham contatos na região q nos terminaram levando ao taxi do Geraldo, com o qual negociamos o preço pra nos levar a Itabira, e de lá tomar bus pra BH. Pois é, era mais negocio retornar á capital mineira q ir buscar o veiculo em Cardeal Mota. Q fosse. Enqto isso, a manguaça rolava solta entre a gente, com pinga goela abaixo em doses exponenciais. O Paulo q o diga. So pegamos a estrada com o Geraldo la pelas 16hrs, dando adeus à Serra do Cipó, viagem esta q nunca foi tão divertida por conta do nosso bebum de plantão. Um doce pra quem adivinhar quem era...
Chegamos na terra de Dummond um pouco antes das 18hrs a pto de tomar um bus pra BH. Esta viagem, contudo, não foi assim tão animada pois nosso integrante “Zé Cachaça” estava “apavorando geral” entre os demais passageiros do busunga, e por pouco não fomos expulsos pelo motorista. Em BH um taxi nos levou ao apê do Paulo, onde pernoitamos gostosamente de modo a levantar revigorados. Na manha sgte Mamute madrugou, tomou busão pro Cipó e foi buscar o veiculo. Resultado: só deixamos a capital mineira por volta das 14hrs, chegando em Sampa apenas à noite daquele mesmo dia. Demorado, sim..porém necessário.

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Passear pela Serra do Cipó é sempre uma grata surpresa. Suas montanhas e campos rupestres escondem mistérios q só descobrimos depois de atravessá-las. E a travessia “Cipó – Itabira” é uma boa alternativa pra começar a ganhar intimidade com este Cipó menos convencional. Com algumas variantes q iniciam em Duas Pontes ou até em Alto Palácio, esta caminhada tem em seu trajeto uma coluna vertebral imutável no q diz respeito ao rumo: sempre pro sul! E numa serra onde as sutilezas parecem nunca se esgotar, as possibilidades de suas rotas seguem o mesmo caminho, fazendo valer cada passo dado. Pois receber visitantes inusitados é a vocação natural da Serra do Cipó, sejam eles bandeirantes, montanhistas ou até extraterrestres. Como disse o Poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

#586703 por Frida_ssa
13 Mai 2011, 11:10
Jorge,

mais um show de relato!!! sempre com um perrengue... e não menos adrenalina!!

parabéns pela trip!!! shoe de bola!!!

abraços!!
Fernanda (frida_ssa)
#626275 por Cacius
22 Ago 2011, 22:20
Grande Jorge!
Que pernada, hein? Uma pena o tempo não colaborar com vcs, pois os visuais ficam prejudicados. Mas pelo visto a trip foi boa, é o que vale!
#626966 por haole
24 Ago 2011, 18:40
Boa heim Jorge...muito legal mesmo ::cool::
PauloBR...seu "pilantra"...cadê você rapaz ?!?!?! ::grr:: pensei ter morrido no Nepal ::tchann:: ::tchann::
Jorge, se lembrar...manda esse recadinho para ele!
Abraço

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