Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#263158 por Jorge Soto
03 Mar 2006, 08:43
LAGAMAR, TRAVESSIA NATUREBA-CAIÇARA
A região do Lagamar é a extensa faixa litorânea q faz divisa entre SP/PR e recebe o pomposo nome "Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananeia-Paranaguá" por ser considerado um enorme santuário natural preservado como Reserva da Biosfera. O mérito de tanta paparicagem cientifica é aglutinar ecossistemas tão variados como floresta atlântica, mangue, restinga e dunas espalhados em praias desertas, ilhas e canais, sem contar também q aqui é um dos últimos redutos de comunidades genuinamente caiçara. Foi justamente o trecho mais selvagem q resolvemos caminhar - ou ao menos tentar - os quase 60km q separam Paranaguá da Cananéia, passando pelo PN Superagui e PE Ilha do Cardoso, num dos últimos rústicos roteiros que exibem a rica, rara e exotica beleza do litoral brasileiro.

APORTANDO NO "FANDANGUEIRO" SUPERAGÜI
Aos poucos, fomos nos encontrando na rodô de Curitiba naquela manha de sábado. Primeiro achei o Guga (q já estava la faz tempo) quase 8:30. 2hrs depois chegaram Rodrigo Schemes & Roberta. E somente beeem mais tarde é q chegaram Bob & Paula, enquanto Ronald já nos aguardava em Paranaguá. Viajar em busos diferentes nunca mostrou-se tão estressante pela desorganização e impaciencia posteriores, se levarmos em conta o atraso em sair da cidade, o transito moroso nas rodovias por conta da véspera de Carnaval; e uma viagem de 5hrs praticamente dobrara seu tempo de duração. Curtir feriadão longe do ziriguidum dos festejos de Momo tem seu preço.. Enfim, o tempo de espera serviu p/ rever planos, buscar infos mais precisas e adotar planos emergenciais. Precisávamos ir p/ litoral paranaense porem naquela altura filas nababescas nos guichês já prenunciavam a impossibilidade de encontrar nosso amigo em Paranaguá tão breve. E agora? Felizmente, as habilidades de negociação da Roberta foram surprendentemente úteis, e logo se traduziram numa van improvisada q foi imediatamente completada com + 7 jovens num piscar de olhos! E assim a Roberta tornou-se nossa relações-publicas.
Meio-dia deixamos a capital paranaense rumo os quase 90km q a separavam do litoral. Ao tomar a Ecovia - Caminho do Mar, ou mais conehcida como Estrada da Graciosa, já tínhamos um belo preview de natureza q nos aguardava: descendo a bela e florida serra (q faz jus ao nome), já podíamos avistar os recortes sinuosos da Baía de Paranaguá, ao longe. Ainda assim, o cansaço da viagem de busao não evitou q cochilasse e so desse por mim qdo chegamos em Paranaguá, exatamente 14hrs sob sol forte e céu azul!
Paranaguá é uma simpática cidade portuária com algum casario colonial. Ás margens do Rio Itiberê, a intensa movimentação do porto se estendia as ruas em torno da orla, repletas de barzinhos, restaurantes, turistas, etc.. td embalado a um forte som de axé e do forró Calypso (arghhhh!)!! Na Rua da Praia encontramos o Ronald, tomamos umas brejas e beliscamos algo, assim como já nos informamos no trapiche da barca q ia em direção à Ilha do Superagüi, teoricamente as 15hrs. Enquanto as barcas saiam abarrotadas de gente p/ Ilha do Mel, nossa modesta (e única) embarcacao tinha apenas quase 2 dúzias de passageiros, onde o dono do barco fez questão de se atrasar na esperança de lotá-lo ainda mais. Assim, deixamos Paranaguá quase 16hrs e pouco, ainda sob sol forte e intenso..
A viagem de barca tem lá tb seu charme, pois assim q se adentra nas águas semi-calmas da Baía de Paranaguá os horizontes se ampliam e temos acima do limite do mar azul, a silhueta verdejante do relevo em destaque - ora plano e retilíneo das praias e mangues, ora acidentado com montanhas ao fundo - dos arredores de Guaraquecaba. Uma galera no barco passa a tocar Raul Seixas p/ passar o tempo. Felizmente, p/ passá-lo melhor havia cerveja gelada num enorme isopor. Nada melhor p/ desfrutar daquele visu naquele calor infernal. A bicharada tb parece nos dar boas-vindas na forma de varias gaivotas e outras aves marinhas dando rasantes rente o mar, mas o q causou maior comoção no barco foram os tradicionais golfinhos, dos quais so conseguiu se avistar seu dorso cinza reluzir ao sol.
Um tempo depois passamos a navegar bem no meio da Ilha do Mel (direita) e a Ilha das Peças (esquerda), agora deixando as águas mansas do interior da baia p/ ir bordejando esta ultima já em mar aberto. Aparentemente, os 10km da enorme praia da Ilha das Peças se reduzia a uma estreita faixa levemente inclinada de areia escura devido à maré. Vista do mar, não oferecia nenhum atrativo visível a não ser o fato dela ser totalmente deserta e ter uma matinha mediana de restinga q corria p/ seu interior. Terminada esta praia, uma pequena barra de rio separava do outro lado uma pequena vila da qual se avistavam algumas casas de madeira na praia e uma antenona em meio a densa e verdejante vegetação, tal qual um quadro primitivista. Era o vilarejo da Barra do Superagüi. Porém, aportar nele era bem mais difícil do q aparentava: alem de estarmos em mar aberto dando de cara com enormes ondas em formação, havia tb o inconveniente de vários bancos de areia, q poderiam nos encalhar a qq momento. O tempo dispendido com manobras "quase-radicais" e gambearras pelo barqueiro foi suficiente p/ deixar boa parte dos passageiros apreensivos, uns ate vestindo o colete salva-vidas.
Encostamos no discreto píer de madeira na praia do Superagüi exatas 18hrs! Inúmeras crianças apareceram p/ receber os recém-chegados, umas se enfiando ate na água p/ carregar a bagagem da povo! Com o dia terminando e a possibilidade de iniciar travessia nula, o jeito foi buscar local de pernoite e, seguindo as dicas de um jovem, encostamos as mochilas no Camping Munchau, q não passa de um terrenao arvorizado no quintal da casa de um local, repleta de mata e pernilongos ao redor.
Instalados e após tomar banho no unico "banheiro" - uma pequena cabine no qual haviam + pernilongos q água caindo da precária ducha - fomos dar uma volta no pequeno e simpático vilarejo. Superagüi (derivativo de uma sereia tupi, Piragüi, rainha dos peixes) é um vilarejo simplérrimo, sem veículos, um orelhão comunitario, algumas vendinhas, c/ "ruas" estreitas de areia e grama, casas de madeira esparsas e separadas as vezes de cercados de plantas ou arbustos, as vezes sem nada mesmo. As poucas pousadas não fugiam da simplicidade q caracteriza a vila e concentravam-se rente à praia. Havia, porem, poucos turistas, principalmente devido à pouca disponibilidade de transporte ate ali. Esta espécie de isolamento involuntário por sua vez serviu p/ congelar costumes locais, como as rodas de "fandango", um tipo de forró caiçara anunciado em vários cartazes pela vila. Outra característica q nos chamou a atenção era a maneira q as criancas comemoravam o Carnaval, q mais parecia "Halloween caiçara": fantasiavam-se de monstros c/ o q tivessem disponível e saiam por ai, perambulando mudas, afim de não serem reconhecidas pela voz..
Fomos comer algo no "Restaurante e Pousada Golfinho", onde a espera foi bem animada por conta de besouros - do tamanho de uma bola de tênis - q voavam constantemente pelas lâmpadas do recinto, pra desespero da mulherada! Depois fomos dar uma volta pela praia, enorme, silenciosa e deserta, da qual podíamos avistar a claridade ao sul da muvuca farofada da Ilha do Mel. Ali, pelo contrario, reinava o sossego e a tranqüilidade, onde o único e discreto ponto de "balada" era o pequeno boteco onde rolava um animado "fandango", onde a "banda ao vivo" se resumia a um grupo de tiozinhos de idade tocando a rabeca - um tipo de violino - um tambor e viola. Na rabeira da diversão, q mais lembrava o filme "Cocoon", alguma moçada arriscava pasos acompanhando os animados velhinhos q dançavam e dominavam o pedaço sendo o centro das atenções, enquanto a turistada so observava ou enchia a cara.
Não deu nem 22hrs e já estávamos de volta p/ camping. Afinal, estávamos cansados e o dia sgte seria de dura pernada. Fomos deitar ao som do animado "Tu! Tu! Tu!", q atravessou a noite toda. Mal encostei a cabeça no isolante e apaguei, ainda mais com uma dor-de-cabeça p/ finalizar aquele dia inteiramente dedicado p/ chegar ate ali, um local onde o tempo parece ter parado.

25KM DE PRAIA DESERTA ATE A BARRA DE ARARAPIRA
Acordei ao som de um dos muitos galos cantando quase bem no meio do camping. Eram quase 6 hrs mas enrolei ate q o sol foi esquentando a barraca. Assim q os demais acordaram, tomamos café e levantamos acampamento. Enquanto isso, conversei com Seu João, o velho patriarca da família q nos contou haverem no maximo 800 pessoas, dispersas nas casas do pequeno vilarejo. Boa parte delas vive da pesca, algum roçado de arroz e mandioca, e algumas casas ainda tem sua propria casa de farinha. Porem, atualmente td mundo teve de se adaptar com a criação do PN e assim tentam ganhar algum troco c/ o pouco fluxo de turistas, afinal já não podem derrubar mata nem caçar mais nada. O q me despertou a atenção foi a comunhão q eles tem com a bicharada, tanto é q ele mencionou q o mico-leao-caiçara, símbolo da região, vira e mexe dá as caras no quintal dele.
Finalmente as 8:30 zarpamos da vila dando inicio à pernada. Guga, apressado como sempre, já se adiantou pela praia sem ao menos nos perguntar se iríamos de fato por ali. Tanto é q ao invés disso - e com infos do Seu João - fomos por uma trilha semi-arborizada q percorria por quase 4km paralelamente à vila e à praia e nos pouparia do forte sol q começava a fritar os miolos daquela manha de domingo. Bem, qq coisa Guga nos encontraria mais adiante.
A trilha é bem nítida e obvia. Em meio a arvores frondosas vai percorrendo as casas, q aos poucos começam a rarear p/ dar lugar ora a trechos fechados ora terrenos abertos de pura restinga media e baixa, recheados de bromelias. No caminho atravessamos varias pontes sobre pequenos córregos de água vermelha, fruto da decomposição de material orgânico. As paradas são bem raras pq são motivo p/ nuvens de pernilongos virem se fartar com seu sangue. E assim nossa pernada segue quase q inipterrupta ate a trilha abrir definitivamente em meio a ampla restinga e terminar na praia, mais especificamente a Praia Deserta, onde paramos p/ descansar, tomar um banho e esperar o Guga. Este chegou logo depois, apressado e xingando td mundo por tê-lo deixado esperando feito "barata tonta". Eram apenas 9:30 ainda.
À direita de onde estávamos, a faixa de areia é reduzida em função do q parece ser o q restou de um mangue soterrado onde algumas arvores secas tombam pro mar; já p/ esquerda, a Praia Deserta se estende ate onde o horizonte alcança em seus 25km: enorme, plana e reta, com uma larga e ampla faixa de restinga baixa q se estende à oeste uns bons kilometros. Aqui ainda há alguma presença humana aqui ou acolá em fcao da proximidade com o vilarejo.
Retomada a pernada sob sol causticante, o grupo unido logo vai lentamente se dispersando cada um seguindo seu ritmo, enquanto quero-queros e gaviões protestam diante nossa passagem. Ronald e Guga proporcionam uma cena no mínimo curiosa, caminhando com um guarda-chuva preto cada um. As águas azul-escuras do mar contrastam bem com o azul-claro do céu totalmente despido de nuvens. À nordeste, uma ilhota (Ilha da Figueira?) desponta da horizontalidade do mar como uma barbatana rochosa. O chão de areia escura, firme, plano e compacto, ideal p/ andar, eventualmente mostra-se com resquícios naturebas do mar tais como gelatinosas águas-vivas, elétricos siris, conchinhas e redondas bolachas-do-mar; mas tb há alguns resquícios não tão naturais assim, como garrafas pet vazias, restos de bóias e redes, chinelos, etc. Poucos, mas há.
Por volta das 11hr encontramos uns bikers (vindo sentido oposto) c/ quais coletamos infos de tempo e distancia da Barra de Ararapira, nosso destino naquele dia. Meia hora depois e c/ o sol a pino cozinhando nossa cachola, uma breve pausa num precário toldo de madeira improvisado por algum pescador na restinga adentro servem de sombra providencial - alias, sombra é algo raro aqui - alem de aproveitar a deixa p/ descansar, dar um tchibum na praia e beliscar alguma coisa. Felizmente corre tb um refrescante riachinho de águas escarlates paralelo à praia q serve p/ tirar o sal do corpo.
Mas o tempo de descanso não pode se estender muito e 13hr já estamos com pé-na-areia novamente! Mais adiante e c/ água ate os joelhos, atravessamos a boca do riacho acima mencionado p/ dar continuidade à pernada. De longe já avistávamos algo q nos acompanharia por um bom tempo: o chão da praia a nossa frente estava totalmente tomado de aves marinhas! Eram maçaricos, atobás, trinta-reis mas principalmente gaivotas q alçavam vôo c/ a nossa aproximação, num belo espetáculo visual q tingia o céu de maneira impar! À frente, outras aves menos nobres, tais como urubus e carcarás comem o q restou de um golfinho.
Uma caminhada num praiao enorme destes seria um tédio não fosse algo p/ apreciar ou mesmo os eventuais obstáculos, no caso, mais uma pequena barra de rio - esta com enormes pitus! - transposta cuidadosamente com água ate os joelhos. O tempo vai passando e o sol já nos tostou o bastante p/ ficarmos parecendo pimentão. O Rodrigo parecia estar usando uma meia-calça vermelha. Outros bikers nos informam q mais adiante a maré tava alta impossibilitando-os de seguir ate Ararapira, mas a gente pressegue com determinação nossa jornada, pelo menos ate uma alamedinha de arvores q se destacava ao longe, ao fundo, na retidão da praia e da restinga.
Assim q alcançamos uma alameda de altos pinheiros - entrada da casa do simpatico seu Antonio - uma nova pausa p/ descanso. São 17hr e estamos visivelmente cansados. Particularmente, estava sentindo dor nos pés pq embora desse p/ andar calçado (como todos) resolvi caminhar ora descalço ou de chinelo. Enquanto isso, Guga já reclamava de uma incomoda bolha. Decidimos se pernoitamos ali ou não mas estavamos resolutos a chegar na Barra de Ararapira, distante ainda uns 5km, de acordo com as infos de seu Antonio.
Pé-na-areia e logo alcançamos a ponta da praia, q vamos contornando lentamente numa área onde a praia se estreita contra um barranco/costao de areia c/ restinga na parte superior. Já na base, nossa duvida se realmente dava pra passar pois o mar banhava todo o chão ate as arvores e matos secos e caídos ao pé do barranco. Felizmente o terreno era raso e nao teve maiores dificuldades de ser transposto, embora obrigasse td mundo a tirar as botas. Mas aventura mesmo foi cruzar o braço de rio q veio a seguir. Já do outro lado 4 bikers estudavam o melhor local p/ cruza-lo, o q significava q devesse ser mais fundo q os q cruzáramos ate entao. De cara, eu e o Ronald nos enfiamos na água e, com mochila na cabeça, cuidadosamente começamos a atravessa-lo. Imediatamente estávamos com água ate a cintura, com o pé afundando lentamente na areia. Instintivamente, sigo por um trecho q julgo não ser mais fundo e logo estou na outra margem. Todos resolvem cruzar o rio por ai, claro!
Após este obstáculo, outro riozinho raso é transposto, bastando agora ir beirando a praia, espremida entre um barranco e vários restos de arvores.
Não demorou e com a luz natural já se dissipando no horizonte, exatas 18:30 alcançamos as primeiras casas da vila de Barra do Ararapira, onde felizmente havia o "Camping das Palmeiras" e foi la mesmo q jogamos as mochilas, bem na entrada, num areial c/ vista p/ Ilha do Cardoso e forrado de palmeiras. E de pernilongos. Tomamos banho c/ os mesmos no rústico banheiro às escuras, pois o painel de energia solar dali teimava em não funcionar. Mas td bem, rusticidade e perrengues fazem parte da aventura..Preparamos a janta sob o olhar maroto (e incomodo) do elétrico gatinho do camping e exaustos, logo a seguir fomos dormir. A ideia era ir pra um dos 2 unicos bares dali, mas parece q aquela altura estavam fechados. A vila de Ararapira era muito menor q Superagui, tanto é q paz, sossego, silencio e tranqüilidade reinaram a noite toda. Pelas frestas da copa das arvores pude apreciar a noite coalhada de estrelas e constatar q fora agradavelmente fresca. O único som foi o da forte arrebentação na praia.

DO PONTAL DO LESTE ATÉ MARUJÁ
Levantamos bem depois das 8hr da manha de segunda. Parece q estavam todos quebrados do dia anterior mas o povo so saiu mesmo das barracas assim q o sol ficou forte e alcançou as mesmas. Guga reclamou de um siri dentro da barraca dele; já Rodrigo e Roberta tiveram a companhia de uma lagartixa; eu so tive a presença de pernilongos penetras na barraca, mas sacumé... entrou, não sai vivo! O sol faiscando nas aguas do Rio Ararapira se mesclando com as do mar já é um espetáculo a parte, muito bonito! A maré estava bem baixa, deixando a mostra enormes bancos de areia q o dia anterior não viramos. Tomamos café e enrolamos mais um pouco. Chamou-me a atenção a presença abundante de arbustos de cataia pelo camping, de cuja folha se curte a tradicional pinga dali.
Dez da matina deixamos o camping rumo o "centro" da vila, a 50m dali, q se resumia a um punhado de casas, um centro de saúde, uma igrejinha, vendinha-bar e só! E vários painéis solares espalhados. Por incrível q pareça, havia um orelhão comunitário! Ali mesmo negociamos um barqueiro p/ nos levar na outra margem da larga barra de rio, na Ilha do Cardoso. A travessia foi sossegada e a impressão q deu é q parece q àquela altura dava ate pra ter cruzado a pé o rio, com água ate os joelhos, pois dava pra ver perfeitamente o fundo do mesmo. Fomos informados q de madrugada passara um ciclone perto dali, mas q na pacata vila não tivera maiores conseqüências. Ainda bem.
Assim q pisamos na Ilha do Cardoso, já em solo paulista, uma placa nos saudava "Bem Vindos a Comunidade Pontal do Leste" e td mundo já estacionou no convidativo quiosque q parecia nos chamar. Logo ali lotou de turistas passando apenas a tarde por ali. E nós, andar naquele calorão? Q nada, mandamos ver umas brejas e td mais. Já prevendo baixas pro resto da travessia já me adiantei perguntando quem me acompanharia a pé ate Maruja, uma vez q a ideia era essa, não? Apenas o Ronald topou. O resto decidiu permanecer por ali, no sossego e seguir de barco ate Maruja, onde marcamos de nos encontrar. Guga, por sua vez, ficou jururu novamente, agora pq a maquina fotográfica dele tava c/ algum pepino.
Pra não perder tempo contornando a praia, ao meio-dia eu e Ronald tomamos um trilho q atravessava a pequena comunidade, marcada de algumas casas esparsas em meio a restinga baixa e logo chegamos no inicio da enorme praia do Pontal do Leste, ou Praia da Baleia, q seguia pro norte por longos 16km ate Marujá. A praia não diferia muito da q percorrêramos o dia anterior, sendo longa, plana, uma reta sem fim limitada pelas enormes montanhas forradas de verde q despencam em costoes no mar, visíveis dali, embora bem distantes.
A caminhada transcorre tranqüila e sem nenhuma intercedência. Apenas uma breve pausa la pelas 13hrs p/ descanso num tronco e beliscar alguma coisa na precaria sombra oferecida pelo único arbusto rente à praia. A sensação de solidão e silencio so são quebradas pelas arrebentações do mar, o canto dos pássaros e alguns bikers em sentido contrario. A proximidade da vila se faz presente com o gradativo numero de pessoas avistadas aumentarem após as 14hrs e, passada uma alameda de pinheiros, a muvuca sonora e visível cada vez mais próxima é sinal q o final da pernada estava bem proximo. Aqui tivemos ate um tentadora carona de barco até Maruja, mas Ronald me recordou q o lance era fazer a pé, e assim foi, ne?
Após uns perdidos nums caminhos arenosos em meio à restinga, finalmente chegamos no vilarejo de Maruja, pontualmente as 15hrs! Visivelmente maior q todos os q estivéramos, era o vilarejo mais infestado de turistas, boa parte deles jovens, muitos dos quais dormiam (xapados?) ao relento, no chão gramado das simpáticas "ruas" q se entrecruzavam. Marujá esta esparramado bem no meio da restinga mais arborizada, e a distancia q separa a Praia de Marujá do Canal de Ararapira - q corre paralelo à praia e onde aportam os barcos - não passa de 300m!! Casas esparsas, bares, restaurantes, painéis solares, geradores, um telefone comunitário, um posto simples de saúde, etc..enfim, isso é Maruja! Porém, acrescente muito barulho..diga-se funk!
Tentamos arrumar camping ou um quarto de pousada mas não conseguimos. Estava td lotado e havia limite de barracas por casa, devidamente fiscalizado pela associação de moradores local! E agora? Sera q ninguém é ganancioso o bastante p/ faturar um troco permitindo + barracas na moita? Pois é, lá ninguém desrespeita essas regras! Puts, e agora? Fomos pensar nisso enquanto bebíamos algo num bar e observávamos o vai-vem do vilarejo. Apesar da baixa kilometragem, a pernada tava de bom tamanho pois meu pé tava esfolado por causa do chinelo. Por volta das 16hrs fomos encontrar o resto da galera no Centro de Visitantes, conforme combinado. Eles não estavam la. Assim, decidimos espera-los num dos trapiches rente o canal e depois decidir como passaríamos a noite ali. Nesse meio-termo, deu ate p/ tomar um banho na surdina, num dos campings de lá..
Dando quase 18:15hrs e nada da galera, decidimos buscar um local p/ acampar na moita, literalmente, ainda com luz. Estava prestes a escurecer e já se ouvia q a noite seria recheada de forró e agitacao! Eu e Ronald voltamos p/ praia, caminhamos menos de 1km p/ sul e arrumamos um local plano e meio ao capimzal espinhoso da restinga. Claro, sempre atentos se havia alguém de olho na gente ou não, afinal, acampar ali era proibido! Assim q escureceu fizemos nossa janta e caímos no sono. Já curtira a noite de Marujá noutra ocasião e não havia necessidade de repeteco. A noite consegui dormir q foi uma belezura, não fosse a barulhada da agitação noturna da vila. O "Tu! Tu! Tu!" do tradicional e recatado fandango aqui dava lugar ao estrondoso "Tum! Tum! Tum!" de 2 raves rolando em locais opostos da vila!! A diferenca com Superagui e Ararapira era gritante! Não bastasse , choveu 2 vezes na madrugada, me obrigando a remanejar os pertences dentro da barraca de forma a q não molhassem com as tradicionais infiltrações q sempre ocorrem nestas ocasiões. Fora isso, dormi feito neném com direito ate sonho!!

A VOLTA DE CANANEIA
Terca-feira levantamos assim q o sol despontou no mar e toldou as poucas nuvens de tons ferruginosos. Desarmamos td após tomar um rápido café, sob o olhar atento de um gavião na restinga. Ronald foi tentar contatar o resto da galera enquanto eu tomava conta das coisas na praia. Nesse meio-termo, alem de descansar (mais ainda!) deu ate p/ secar a barraca. Não demorou e Ronald voltou com boas noticias: havia encontrado o Rodrigo e a Roberta, alem de quase esbarrar numa cobra cruzando a trilha p/ mata.
Assim sendo, fomos de encontro c/ nossos amigos, q haviam chegado o dia anterior no inicio da noite e, após muito procurar, conseguiram se espremer num cubículo no Camping do Vlad, onde havia gente dormindo no gramado e nas sacadas. Eles ao menos tiveram a oportunidade de curtir a ultima noite de carnaval na vila, com direito até a uma rodada de cataia q deixou o Bob bem "alegrinho", de acordo os presentes.
A ideia inicial era continuar a travessia ate o Núcleo Perequê (extremo norte da ilha, o q daria + um dia de pernada) mas com o tempo escasso devido aos inúmeros atrasos no inicio da trip, nos restou curtir aquela manha antes de partir. De qq maneira, aquele trecho eu já havia feito noutra ocasião e p/ mim o já feito já tava de bom tamanho. Bem q tentamos deixar as mochilas no quarto deles, sem sucesso; o tal de Vlad era um caiçara ignorante q resolveu implicar c/ nossa presença, afinal, não estávamos dentro do "pacote" combinado pela galera. Dane-se...
Totalmente despreocupados, fomos p/ Praia de Maruja curtir aquela manha nublada impregnada de um mormaço bravo. A Roberta (sim, sempre ela!) já havia negociado a voadeira c/ um tiozinho p/ nos levar ate Cananéia, pois a barca da Dersa era cara pacas e a escuna credenciada tava lotada, alem de necessitar de reserva prévia. Mas lanchas aparentemente era o não faltava por lá. Assim, nos acomodamos no chão batido da praia com a única missão de "coçar": enquanto uns foram se banhar, outros arriscavam jogar freesby c/ a empolgação de uma partida de bocha, enquanto a Paula, coitada, reclamava das trocentas picadas q exibia pelo corpo todo.. A movimentação de jovens era intensa, sempre observados pela Ilha de Castilhos, à leste.
Na seqüência, fomos arrumar as coisas e por volta das 13:15 nos dirigimos ao trapiche da vila, onde pegamos a lancha do tiozinho p/ darmos adeus àquele simpático e muvucado vilarejo. A viagem pelo Canal de Ararapira é um show a parte. A medida q vamos contornando a verdejante ilha é q se tem ideia do vasto "mar de adentro", costeando muito mangue em meio a densa e exuberante vegetação! Ninguém imaginaria q no meio daquele verde td, alem de haver uma diversidade de espécies vegetais e animais e muitas cachoeiras escondidas, tb existem sambaquis, aterros milenarios de enorme valor arqueológico. Nos galhos, garças e biguás parecem despedir-se da gente. Na água, cercos de madeira indicam a tradicional forma caiçara de pesca artesanal, onde cardumes entram pelas armações e não conseguem sair. Alem do show natureba, a trip é tb emocionante; a veloz lancha singra o canal com discreta trepidação, q se transforma em altos solavancos ao cruzar c/ outras embarcacoes sentido contrario. A trepidação so se torna definitivamente intensa qdo deixamos as águas calmas dos canais internos p/ sairmos no "quase mar-aberto" da Baia de Trepandé. Aqui os golfinhos tb dão o ar da graça igualmente p/ nos darem o ultimo espetáculo de despedida. Assim, nos afastamos da ilha p/ seguir pro norte, agora tendo à direita a estreita e civilizada ponta de Ilha Comprida e à nossa esquerda a visão do q já foi um movimentado cais, agora em desuso.
Chegamos, finalmente, em Cananéia as 14:30 sob forte sol c/ destino certo: restaurante! Com tempo de sobra, nos esbaldamos de cerveja, ostras, casquinha de siri e uma suculenta moqueca de pescada, enqto observávamos a pequena cidade, q se recuperava dos festejos dos dias anteriores, tem um belo casario colonial preservado e reivindica o titulo de primeira cidade brasileira. Tomamos o busao as 16:30 apenas p/ dormir td a viagem. Por incrível q pareça, nossos temores de pegar transito infernal na volta (e chegar de madrugada) eram infundados pq aportamos em sampa ate bem antes do previsto, por volta das 22hrs.

E assim foi a travessia do Lagamar, Mar de Dentro ou Mar Adentro, como queira ser chamada. 60km ou 40km percorridos? Tanto faz. A diferença de kilometragem é aqui irrelevante, pois numa conversa ou noutra segue a vida do mesmo jeito nesta região de ilhas pacatas e remotas, perdidas entre o ruído da mata e a agitação do mar. E onde o tempo parece estático, ainda sobrevivem resquícios da secular tradição caiçara. Apesar de td já torna-se perceptível q uma ou outra vila caminham a pasos rápidos, p/ uma quiçá intensa transformação. Enquanto isso, assim como a natureza mantem-se preservada como Reserva da Biosfera, os deuses caiçaras observam a td atentos, esperançosos de q suas tradições se perpetuem na mesma medida. Afinal, ali é um local de natureza, bichos e gente raros.

#249988 por samuel_adv
03 Mar 2006, 09:21
O que falar da viagem? Mais uma caminhada show de bola!!!!

Parabéns pela empreita, muito bom o relato, como sempre!!!

Me diz uma coisa, os trechos beira-mar que percorreu eram de areia dura? Será q dá pra fazer todo esse percurso de bike?

[]´s!
#249991 por Jorge Soto
03 Mar 2006, 09:31
cara, essa pernada é so em areia plana, dura e reta...sem erro algum. O ideal é fazer a travessia de bike mesmo, alias vimos muita gente fazendo assim durante td o percurso.
#250436 por rodrigoschemes
04 Mar 2006, 11:37
Aí Jorjão.. parabéns pelo relato,"meias vermelhas" são foda.. hehe.. pior que era verdade, mas ja voltou ao normal!
#392110 por Raulz!to
10 Ago 2009, 20:17
Fala Jorge!

Sei que o relato tá meio antigo, mas tenho uma dúvida: você mencionou que já fez Marujá - Itacuruçá (Perequê). Poderia me dar mais informações? Tipo quilometragem, percurso (vc fez pela praia ou por dentro), tempo de caminhada, a questão da maré etc.?

Tô totalmente maluco pra fazer esse rolê e não acho informações na net.
#392258 por Jorge Soto
11 Ago 2009, 07:57
Punisher escreveu:Fala Jorge!

Sei que o relato tá meio antigo, mas tenho uma dúvida: você mencionou que já fez Marujá - Itacuruçá (Perequê). Poderia me dar mais informações? Tipo quilometragem, percurso (vc fez pela praia ou por dentro), tempo de caminhada, a questão da maré etc.?

Tô totalmente maluco pra fazer esse rolê e não acho informações na net.


Véio, fiz o trecho Perequê-Marujá ja faz um tempo (em 2003) e foi pela praia, bem sussa. Ou quase. na verdade vc deve atentar 'a tabela das marés e escolher uma epoca propicia (de mare baixa) se pretende fazer essa pernada, q no maximo leva dois dias..ou até um dia corrido. Devo ter um relato sobre, mas ta perdido no meu hd. Em suma, vc sai de Cananeia bem cedo e negocia com algum pescador/lancha pra te levar pro outro lado, de preferencia um pouco afastado do Nucleo Pereque. Isto pq em tese é proibido pisar por la sem autorizacao. Mas uma vez na praia é so tocar pra frente, pois la é bem deserto e nao ha ninguem. Dai vc vai alternando praia e enseada, estas por trilha obvia q te leva pra praia seguinte. Nao tem erro. Mas como disse antes: atente pras marés, pq tem um trecho de costao rochoso q so é possivel passar pro outro lado na maré baixa. Na ocasiao, nao atentei pra este detalhe e tive q ficar mais dia e meio (acampado no mato e nao na praia, na surdina, pra nao levar bronca dos guardas, q dao rolês por la de bike) esperando a maré abaixar pra cruzar este trecho. Minha sorte foi q passou um barco de pescadores e me deu carona ate a praia sgte, senao ia ficar mais um dia facil lá, pois nada da maré baixar. Imagine só a cena: eu acenando desesperado pros caiçaras, tipo Tom Hanks em Naufrago.. ::lol4:: Minha sorte era q o feriado era de 4 dias, sendo q um e meio foram passados estacionado somente naquele trecho. Pelo menos tava acompanhado de uma amiga e deu pra curtir de forma bem natureba..ou naturista até.. :twisted:
#392268 por edubisan
11 Ago 2009, 08:46
Bela pernada, hein!

Raul, vamos motivar ae e aumentar nossa trip, hahahahaha dar uma 'esticadinha' até superagui, passando por arapira...!

Bom, mas tratando da idéia inicial: itacuruçá - marujá:

Jorge, da última vez que trilhamos pela região, eu e o Raul esticamos do itacuruça sentido sul, passando por um marco da coroa portuguesa (http://www.ambiente.sp.gov.br/destaque/ilha_cardoso.htm), e em determinando momento passamos por um pequeno costão, aonde o mar prensava os galhos trazidos pelas ondas nas pedras... Naquele dia, cruzamos sem dificuldade, com as ondas nas canelas... Será esse o trecho mais difícil ou tem mais pedreira seguindo sul?

Pelo que consta aqui http://www.pick-upau.org.br/expedicoes/ ... doso.htm#1, são 9km de itacuruça até o início da praia de ipanema, que possui mais 12km de extensão até a próxima praia, "cambriú". Depois vem as praias do fole (pequeno e grande), praia da laje (12km de extensão) e o vilarejo marujá. Portanto nas continhas acima já dão fácil mais de 20km.

Abraço!

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