Ahahahah, tô gostando dessa sessão do MA – Mochileiros Anônimos.
Maya, vou contar um pouco da minha história e da minha volta ao mundo... talvez um pouco do que eu vivi te ajude a pensar no que vc quer.
Em primeiro lugar a resposta: Sim, é possível.Eu vivo mochileiro há três anos. CALMA, eu não viajo 12 meses por ano... mas não acredito que seja necessário estar viajando todo o tempo para “viver mochileiro”!
A máquina do tempo vai nos levar lá para 1988, quando eu tinha 4 anos... que é onde a minha memória alcança. Desde lá eu sou fascinado por viagens. Lembro de ir para a casa dos meus primos na serra do RS, lembro das idas para a praia... lembro de esperar o ano inteiro para a vigem das férias de julho e do final de ano. Achava injusto ter que esperar as férias. Achava injusto ter que estudar 5 dias da semana e ter só dois livres.
Com 17 anos, no ano 2000... comecei a trabalhar e achava injusto ter que trabalhar o ano inteiro para ter 20 ou 30 dias de férias. Eu gostava de trabalhar, aprendia, crescia, sentia que era retribuído... juntava grana para as minhas mochiladas de final de ano, me ferrava para pagar a faculdade e as coisas que queria fazer, mas assim como vc, me sentia preso. Olhava ao meu redor e vinha aquela sensação do “I don’t belong here”. Acordava todos os dias de manhã e antes de levantar da cama eu me auto-motivava falando para mim mesmo: “mais um dia de trabalho, mais um dia pago da minha mochilada”... trabalhava, curtia a vida, crescia, aprendia, fiz um bom MBA, fiz algumas mochiladas pela América Latina... e assim passaram-se sete anos.
Durante todo esse tempo eu procurava oportunidades... alguma maneira de “ir ao mundo”, de fugir da rotina de alguma forma. Concordo com vc, com a nossa idade é difícil encarar a rotina, a sensação de estar preso na gaiola... tanta coisa lá fora e vc ali, pseudo-presente em frente ao monitor, ouvindo as mesmas besteiras de sempre, das mesmas pessoas de sempre.
Eu queria fugir, apesar de não estar insatisfeito... estava apenas AGONIADO. E fiz o meu plano de fuga. Ao contrário do que muitos dizem aqui (não pense demais, etc) eu achei que precisava pensar muito (hoje isso já mudou um pouco) e planejei, planejei como se estivesse jogando xadrez... imaginei possibilidades, imaginei o reflexo das possibilidades e várias jogadas futuras. Selecionei o que queria, o que não queria. O que poderia acontecer, o que eu não gostaria que acontecesse... plano de contingência e o escambau!
Pensei em juntar grana e simplesmente ir, pensei em fazer um intercâmbio de inglês, pensei em ser garçon, pensei em trabalhar em navio, pensei em virar comerciante. Pensava em várias coisas, mas tinha medo de fracassar (assim como todos nós temos). A essa altura a sociedade já tinha lavado a minha cabeça e me convencido de que eu não queria um sub-emprego... não porque não valesse a pena (nunca julguei esses empregos, sempre achei que são um modo honesto de ganhar dinheiro para viajar... honesto, mas muito suado) e aí já começava a pensar no que os outros (família, amigos...) falariam disso (besteira, hoje penso que se não tivesse conseguido a bolsa, deveria ter encarado um sub-emprego de qualquer forma) pensava que não iria acrescer nada no curriculum com isso, pensava que teria que ouvir muita merda, ralar muito, passar frio... eu precisava não só de uma desculpa para a sociedade, eu precisava de algum jeito “cabeça” de ganhar dinheiro fácil... então pensei em tentar uma bolsa de mestrado na europa... e puft... consegui!
Problema resolvido? Nada... Agora era sério. Eu tinha grandes chances de deixar tudo para trás... mas e aí, eu teria coragem? Eu tinha um emprego estável e estava crescendo, ganhava muito bem para a minha idade... o mestrado acabaria logo, e aí? Como seria a volta? Bom emprego no Brasil não é fácil... pensei na minha família e nas outras milhões de coisas e problemas pessoais que todos nós temos. Me imaginava voltando, sonho realizado e com o rabo entre as pernas: sem dinheiro e sem emprego. Dependente dos pais.
Aqui vou fazer um parênteses: Cagão. É isso que eu era. Pensei demais, analisei demais e fiquei a um passo de desistir de tudo. Por isso hoje eu digo: analise, planeje... mas nunca demais. A vida é imprevisível e ponto.
Considerei não ir. Um dia acordava decidido a ir... no outro o medo tomava conta, a vida boa e estável era muito confortável. Não queria arriscar jogar tudo para o alto.
O lado aventureiro falou mais alto. O frio na barriga bateu e eu fui!
Fazem três anos que eu vivo mochileiro. Frequentei o período obrigatório de aulas (só duas vezes por semana), passei dois anos voando com a Ryanair ou Easyjet toda semana para um lugar incrível. Fiz muito Hospitality Club / Couch Surfing, dormi em muita estação de trem e aeroporto... aprendi muito no mestrado (que em grande parte, fiz viajando) e ainda mais com as situações e as pessoas.
As pessoas: gente incrível que está por essas estradas.
Juntei a minha grana do Brasil, a grana economizada na Europa, arrisquei na bolsa e cheguei até a trabalhar no aeroporto de Lisboa! rs
E realizei meu sonho da viagem de volta ao mundo.
É impossível esquecer a sensação de acordar no meio da névoa do Nepal... sem compromisso nenhum, sem saber qual é o dia da semana (e até esquecer qual mês é) e deixar o dia acontecer. Liberdade. Essa é a verdadeira sensação de liberdade. E eu tenho paixão por ser livre.
Fui a lugares que nunca imaginaria ter ido. Visitei países que não planejei visitar e conheci gente que me fez mudar... Absorvi o melhor que achei em cada lugar e em cada pessoa. Hoje acho que o Mike de três anos atrás era um merda... e espero pensar o mesmo daqui a três anos.
Não tive problema com o desapego. Tudo compensava... abro mão de muita coisa para viajar... e viajar com muito conforto e isolado do mundo não é muito a minha praia. Fiquei muito tempo longe de qualquer “luxo” como um banheiro limpo, um bom chuveiro, uma cama sem cabelos no lençol, a privacidade...
Nunca cansei da liberdade. Mas cansei de não parar de mudar de cidade a cada semana ou quinzena. Viajar pode se tornar uma rotina, por mais interessante e incrível que a viagem seja. E por isso digo: é possível ser mochileiro mesmo sem estar viajando. Depois de um tempo (acredito que cada um tenha o seu) passei a querer algum conforto. Passei a desejar algumas coisas que não tinha (claro, como humanos, sempre buscamos o que não temos)! Queria um Nescau no sofá assistindo Travel Channel, queria ver as mesmas pessoas durante alguns meses em seguida, e principalmente: queria mais dinheiro (pois o que eu tinha estava acabando, e não queria partir para a reserva sagrada, que faz jus ao nome... é uma reserva que não deve ser usada a não ser em casos sagrados) rs.
O desfecho da história? Minha viagem de volta ao mundo (chamo de Ida ao Mundo –
http://www.idaaomundo.blogspot.com ) acabou no ano passado. Ainda não consegui absorver tudo... muita coisa aconteceu. Ainda estou escrevendo sobre a viagem... por enquanto escrevo para mim, quem sabe um dia alguém venha a ler.
O clichê: minha família, apesar de tudo está mais acostumada com a minha ausência física, minha cidade e meus amigos continuam exatamente iguais a três anos atrás. Perdi contato de muita gente, mas conheci milhares de outras mais. Os poucos e bons ficaram.
Sobre a vida profissional e o $: eu tive a sorte de poder escolher o meu emprego... hoje trabalho na área de negócios e logística internacional de uma mineradora multinacional brasileira. Moro em Maputo, Moçambique... estou na fase “rotina” da minha vida: cama limpa com lençol de algodão, Nescau e Travel Channel, ar-condicionado, cineminha, restaurante e escapadas nos feriados e finais de semana.
Quando essa fase vai passar, não sei... já não planejo tanto.
A certeza que tenho hoje é que não podemos ser reféns dos nossos pensamentos.
Siga a sua vontade e o seu coração. Só você sabe o que quer para você.