Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#789690 por Kássio Massa
24 Dez 2012, 04:16
Trip realidada no dia 23 de Setembro de 2012

Confira a galeria de fotos completa desta trip


Apenas uma semana após a trip com pernoite pelas cachoeiras do Vale do Rio Sorocaba, na incrível Serra de São Francisco, em Votorantim-SP, já buscávamos um novo destino para um bate-e-volta folgado, mas que nem por isso deixasse de representar um desafio a mais para o repertório de qualquer trilheiro. Foi assim que uma pesquisa por alguns sites nos apresentou a Cachoeira dos Pretos, uma sequencia de corredeiras e saltos com 159m de altura, pertencente ao município de Joanópolis e bem próxima à divisa entre os São Paulo e Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira.

Como o Marcelo Monteiro, que também esteve na última trip em Votorantim, estaria com seu carro novamente disponível, optamos por nos encontrarmos às 7h30, no Largo da Santa Cecília, em frente ao acesso da estação de Metrô com o mesmo nome. Desta vez, fariam parte da trip eu, o Gabriel, o Marcelo, o Raphael M. e o Raphael Y., um grupo ideal para uma trip rápida e desimpedida, ainda mais pelo fato de estarmos de carro.

Como nem todos chegaram no mesmo horário e houve, consequentemente, um atraso de quase 1h, tivemos tempo de sobra para desjejuar em plena praça, antes que déssemos partida rumo ao Interior. Por fim, às quase 9h da manhã, com todos presentes, demos início à empreitada, inicialmente, deixando a capital pela Rodovia Fernão Dias (BR-381, São Paulo - Belo Horizonte), naquele dia, totalmente livre.

Feitos pouco mais de 40min do percurso, que calculei em um total de 1h40 (120km), Já abandonávamos de vez a mancha urbana da Região Metropolitana de São Paulo e, após passarmos quase despercebidamente pelas cidades de Mairiporã e Atibaia, decidimos parar num posto de estrada, rústico e aconchegante. Fazia tempo que não sentia aquele prazeroso aroma de casinha de campo. Certamente, o clima era outro, muito bom!

Imagem

Depois de termos aliviado nossos rins e bexigas (rs) e de eu ter comprado uma barra de chocolate que não demorei a devorar, demos continuidade ao trajeto e continuamos pela Fernão Dias até pouco depois de Vargem, onde abandonamos esta auto-estrada em função do acesso a uma estrada secundária devidamente sinalizado por uma placa grafada como "Saída 2 / Joanópolis". Esta estreita estrada nos deixaria em nossa cidade destino, 25km depois, mas sem antes margear as encostas serranas da Mantiqueira, garantindo-nos sempre um visual extraordinário da grande represa de Piracaia à nossa direita e dos cumes verdejantes e imponentes da referida serra à nossa esquerda!

Imagem

Em razão de alguns perdidos, ao finalmente adentrarmos a pequena cidade de Joanópolis, tivemos um pouco de trabalho para encontrarmos a estradinha de terra que nos levaria à entrada da fazenda onde a Cachoeira dos Pretos está inserida, mas é exatamente devido a estes causos que preferimos sair quase de madrugada de nossas casas! No mais, nada que algumas perguntadas na cidade não resolvessem o problema.

Imagem

A dita estrada, não asfaltada, era sempre margeada por fazendas bem cuidadas, verdejantes colinas e simpáticas casas. Curvas após curvas, finalmente podíamos avistar a sequencia de quedas da Cachoeira dos Pretos, destacando-se numa colina bem ao fundo da paisagem, que se aproximava de nós cada vez mais, a medida que avançávamos por aquele sinuoso caminho. Após 14,5 quilômetros rodados na estrada de terra, chegamos ao estacionamento do complexo, muito bem estruturado por sinal, apesar de não ser cobrado nenhum tipo de ingresso no local.

Imagem

Ao deixarmos o carro no estacionamento, logo caminhamos sem pressa em direção ao curso do rio, que parecia costurar suavemente aquele lugar que mais parecia um clube de tão frequentado e estruturado. Nas margens do rio, víamos bancos de madeira, mesas, espaços para pic-nic, lanchonetes e todo tipo de estrutura que se possa associar a este tipo de ambiente. Todo o percurso desde o estacionamento até as proximidades do rio, na base da cachoeira, se dá por calçadas pavimentadas em paralelepípedo.

ImagemImagem

Enfim, acompanhando sua margem direita rio acima, chegamos ao "ponto máximo permitido" pela fazenda aos turistas, que pareciam se contentar com a quase superlotação daquelas pequenas piscinas naturais represados pelas pedras do leito do rio.

Imagem

Enquanto isso, à nossa frente, cada patamar daquela enorme cachoeira parecia nos convidar de modo que não demoramos muito para saltar para a outra margem e seguir adiante pelo que parecia ser uma trilha inutilizada, claramente proibida pela fazenda de ser feita sem acompanhamento de guias, e que seguia cachoeira acima, sempre bordejando a encosta íngreme. Porém, sem nenhum impedimento, avançamos trilha acima de forma satisfatória, de metro em metro, até que atingimos o patamar médio da cachoeira, a cerca de 70m da base, onde forma-se uma bela piscina natural represada por grandes blocos de rocha. Nesta piscina deságua uma das maiores quedas da Cachoeira dos Pretos, com mais de 30m ininterruptos. Dali já era possível ter uma vista privilegiada que praticamente nenhum turista lá embaixo imaginava ter acesso!

ImagemImagemImagem
Imagem
Imagem

Continuamos, após uma breve parada no local, a subir pela trilha, que serpenteava a encosta, agora mais íngreme e fechada, até que em cerca de 20min, o caminho passou a não apresentar mais declividade alguma. Sim, já estávamos no topo da cachoeira, a 159 metros da base, uma subida bem mais tranquila do que imaginávamos, contrariando completamente nossas expectativas tenebrosas, inclusive a de uma possível não existência de trilha e necessidade de varação de mato ou escalaminhada mais técnica, e a alegação de um funcionário da fazenda que, quando perguntado por mim sobre a possibilidade de ascenção da cachoeira, disse não ser permitido sem o acompanhamento de guia, e que apenas naquela semana, 4 pessoas morreram tentando subí-la - aliás, só gostaria de saber como.

ImagemImagem
ImagemImagem

No topo, a vista era ainda mais ampla. Era possível avistar todo o caminho percorrido desde o estacionamento, além de parte da estrada que vem de Joanópolis. No horizonte, ainda podia-se ver alguns morros e picos da Mantiqueira, incluindo a Serra do Lopo. Após sentamos num lajeado à beira do rio para contemplarmos aquele visual único, não satisfeitos, nos pusemos a explorar além da cabeceira da cachoeira, seguindo rio acima, sempre numa trilha sussa que não desgrudava de sua margem esquerda. Os cenários que se seguiam variavam de inúmeras piscinas naturais de águas esverdeadas a pequenas cachoeiras, de até 3m de altura. Continuamos pelo fácil caminho até que nos vimos cada vez mais próximos da nascente daquele rio, evidenciada pela abrangência de seu leito, que era cada vez menor, estando este mais raso e estreito.

Imagem

A trilha simplesmente terminava numa porteira de uma propriedade particular, na qual evitamos adentrar e logo retornamos, sem antes fazer um pouco de graça e irritar o gado estressado que pastava pelos campos ao redor. Gritávamos e acenávamos como se estivéssemos libertando nossas crianças encubadas de dentro de nós!

ImagemImagem

Fim de linha, decidimos iniciar a descida da cachoeira, parando novamente em seu patamar médio para finalizarmos aquele bate-e-volta. Assim como a subida, não tivemos problemas na descida, apenas nos atendo à declividade do terreno, que poderia resultar nalgum rola tenebroso.

Imagem

Assim, às 14h, estávamos de volta ao patamar, onde acabamos encontrando outras pessoas que também haviam decidido abandonar a zona de conforto da área turística. Me acomodei numa pedra com vista para toda a paisagem, saquei um lápis de minha mochila e resumi aquele início de tarde a passar tudo o que via ao meu redor para uma simplória folha de papel, afinal, existem certas ocasiões em que a mera fotografia não consegue registrar o que verdadeiramente sinto ou vejo.

Imagem

Quando meu relógio marcava 16h30, continuamos nossa descida de volta à base da cachu. O parque estava nitidamente mais vazio a esta hora, mas mesmo assim, não deixamos de chamar atenção de alguns, ao sermos vistos sujos, encharcados e levemente ferrados, ressurgindo do matagal, no outro lado do rio, uma cena no mínimo engraçada!

Famintos, procuramos a primeira lanchonete que vimos e beliscamos além de salgados, o restante dos biscoitos e chocolates que havíamos comprado durante a ida, pela manhã e, enquanto isso, jogávamos conversa a fora e zapeávamos nossas câmeras com as fotos do dia.

Satisfeitos pelo perrengue superestimado do dia, nos despedíamos daquele bonito lugar, mais uma vez, rumo à rotina frenética da cidade grande. A Cachoeira dos Pretos é uma das poucas que não deixa de esbanjar seu lado selvagem e intocado, mesmo sob a forte pressão da infra-estrutura turística que ocupa toda a sua base e que teima em fazer da mesma um patrimônio privado.


Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 0 visitantes