Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#713445 por marcosplf
05 Mai 2012, 19:17
Relato publicado previamente no meu blog Mochila&Capacete

“Montanhas não são estádios onde eu satisfaço a minha ambição, são as catedrais onde eu pratico a minha religião ... Eu vou a elas como os seres humanos vão aos templos. De seus picos elevados eu vejo o meu passado, o sonho do futuro e, com uma acuidade incomum, eu vivo a experiência do presente momento ... a minha visão clareia, minha força renova. Nas montanhas eu celebro a criação. Em cada viagem que eu rejuvenesço.”
Anatoli Boukreev


Sou cristão, porém não tenho religião, acredito em uma filosofia própria de vida, na qual me baseio em dogmas de outras religiões. Não frequento igrejas, templos ou similares, porém tal qual Anatoli Boukreev, montanhista cazaque que desapareceu em 1997 no monte Annapurna, tenho como minha igreja as montanhas e natureza em geral. A célebre frase do montanhista, com a qual abro esse relato, expressa bem o que eu e meus amigos que me acompanharam nessa travessia sentimos.

A travessia Lapinha x Tabuleiro é um clássico circuito de trekking, que durante 3 dias corta a Serra do Espinhaço em Minas Gerais, no trecho entre o distrito de Lapinha da Serra, pertencente a Santana do Riacho e o distrito de Tabuleiro, pertencente a Conceição do Mato Dentro.
Planejava há muito tempo fazer essa travessia e agora, no feriado de 1 de maio de 2012, a travessia se concretizou.
Sai de São Paulo no dia 27 de abril, acompanhado de meu primo que iria debutar no mundo das trilhas, chegamos no aeroporto de Confins – MG as 22h 30min e ali aguardamos o “resgate” da van com o pessoal de BH e do Rio de Janeiro que iria montar nossa comitiva em direção ao nosso “templo”.

28.04.2012 – Dia 1 – Lapinha da Serra – Casa D. Ana Benta

Chegamos no distrito de Lapinha da Serra por volta das 4 horas da manhã, tiramos algumas fotos e as 5h 45min começamos a trilha, que se inicia em uma estrada a esquerda da igreja do vilarejo em direção ao pico da Lapinha (1686m), após vinte minutos de caminhada sendo acompanhados pelo sol que timidamente acordava, somos brindados pela vista de uma bela cachoeira que corre pelo paredão de pedra, com água escura, conhecida por todos como “água de coca-cola”, após a cachoeira a trilha continua, sempre íngreme, em direção ao abrigo de montanha, que fica atrás do pico da Lapinha, já no abrigo paramos para repor nossas energias por alguns minutos e abastecer nosso reservatório de água.
Imagem
Logo após o abrigo a subida até o pico da Lapinha não se delonga por muito tempo, demandando um pouco de atenção por conta das inúmeras pedras, exigindo uns trechos de escalaminhada. Atingimos o cume por volta das 9 da manhã e ali ficamos um tempo apreciando a bela paisagem.
Imagem
Após descermos do pico da Lapinha, rumamos em direção ao pico do Breu, caminhando pela crista das montanhas por umas horas chegando a base do pico, onde descansamos e tirei um merecido cochilo, pois já estava acordado a mais de 24 horas, decidimos não subir até o cume e o circundamos em direção ao riacho e com o intuito de voltarmos a trilha principal que leva a casa da Dona Ana Benta, nosso primeiro ponto de acampamento.
Imagem
A descida do Breu foi muito tortuosa, com uma vegetação de touceiras, sem trilha nítida demarcada, o que dificultava o deslocamento e a navegação, pois nosso GPS não seguia por esse caminho, após muito custo chegamos ao riacho e, após atravessá-lo, seguimos pelo pasto até a trilha principal, e de lá até a casa da D. Ana Benta seria fácil, se o GPS não tivesse apontado a localização errada desse ponto (cuidado com alguns tracklogs na internet eles indicam o fim do primeiro dia em lugar errado), para seguir até a casa da dona Benta é fácil, basta seguir a estrada branca de pó de pedra até uma bifurcação, já em terra vermelha, e pegar o caminho da direita.

Chegamos no nosso destino após 10 horas de caminhada e fomos muito bem recepcionado pela D. Ana Benta, que nos preparou um delicioso jantar no fogão a lenha, armamos nossas barracas, tomamos um banho quente e dormimos exaustos, esperando iniciar-se o próximo dia.

29.04.2012 – Dia 2 – Casa D. Ana Benta – Casa Seu José – Tabuleiro por cima

Levantamos junto com o sol e antes das 8 da manhã já estávamos andando novamente, a trilha até a Casa do Seu José, segundo ponto de acampamento, se inicia do alto da colina, em uma estrada a direita do curral que ali se encontra, a trilha é bem demarcada, contornando as montanhas com uma subida até que suave que leva em direção da porteira que adentra no parque.

Após 4 horas chegamos a casa do Seu José e da Dona Maria (como alguns mapas intitulam o local). Seu José, no alto de seus 70 anos, é uma pessoa cativante, receptivo demais e que adora uma boa conversa, conversei por um bom tempo com ele no final desse dia, conhecê-lo é uma atração a mais da travessia, proporcionando um pouco de conforto e descontração aos caminhantes.

Como chegamos cedo, por volta de meio-dia, à casa de Seu José, armamos acampamento e decidimos atacar a cachoeira do Tabuleiro por cima, que é a 3a mais alta do Brasil, com 273 metros de queda livre. O ataque até a cachoeira se dá por uma trilha a direita da casa de seu José, uma trilha longa, porém caminhando sem o peso das cargueiras levamos cerca de 3 horas até lá.
Imagem
O local é fantástico, o rio corre por entre cânions de pedra, com inúmeras quedas d’água e piscinões calmos, um bom aperitivo para a fantástica vista do dia seguinte.
Imagem
Voltamos ao acampamento antes do anoitecer e, após um banho quente, fomos agraciados com o delicioso jantar preparado no fogão a lenha pelo Seu Jose e D. Maria, regado a um boa cachacinha de alambique. Após o jantar, como já disse acima, passei um bom tempo conversando com nosso anfitrião, me dirigindo depois para área de acampamento onde meus amigos se reuniam ao redor da fogueira apreciando a “marvada” e contando muitos causos.

30.04.2012 – Dia 3 –Casa Seu José – Cachoeira Tabuleiro

No último dia da travessia tomamos um bom café na casa do Seu José e partimos morro abaixo em direção a imponente cachoeira, o sol estava forte e nos castigou nesse dia, este trecho da trilha é muito bonito, com vista para as imponentes formações geológicas da Serra do Espinhaço.
Imagem
Em pouco mais de três horas chegamos ao mirante e podemos ver a majestosa Cachoeira Tabuleiro, simplesmente uma paisagem indescritível.
Imagem
Caminhamos mais um pouco e chegamos até a sede do parque, onde deixamos nossas cargueiras e seguimos em direção à base da cachoeira, uma trilha cansativa, com um longa descida e seguindo pelo leito do rio, pulando diversas pedras até alcançarmos o “poção”, ver a cachoeira por baixo é impressionante, toda aquela imponência ao longo de uma queda de 273 metros diante de nossos olhos é surreal, são momentos como esse compensam todo o esforço e demonstram a existência de algo Maior.
Imagem
Após curtir um pouco o local tivemos que sair rápido de lá, pois os bombeiros estavam evacuando o local, pois havia risco de uma tromba d’água, subimos os 2 quilômetros de trilha até a sede do parque e ali aguardamos nosso resgate até BH.
Imagem
Posso descrever essa travessia como uma das melhores que fiz nos últimos tempos, um lugar com uma beleza impar, ideal para a prática do trekking, andamos em torno de 50 quilômetros em 3 dias, subindo montanhas, cruzando rios e nos banhando nas aguas de belas cachoeiras, uma travessia onde o contato com a natureza se dá por completo e, parafraseando Anatoli Boukreev, lugares como esses “são as catedrais onde eu pratico a minha religião”.
Imagem

#713446 por marcosplf
05 Mai 2012, 19:27
Ficha Técnica
Duração da travessia: 3 dias
Quilometragem andada: 53 km
Valores gastos:
- Camping: R$ 25,00 - Casa do Seu José e R$ 30,00 Casa da Dona Benta, ambos com banho quente e jantar.
-Entrada no Parque: R$ 5,00
VAN BH-Lapinha-Tabuleiro-BH: R$ 190,00

Navegação feita com GPS, track log encontrado na internet, e Guia de Trilhas do Gulherme Cavallari
Editado pela última vez por marcosplf em 07 Mai 2012, 10:22, em um total de 1 vez.
#713944 por Mageta
07 Mai 2012, 12:32
Parabens Marcos!!! ::otemo::
Realmente um excelente relato e é muito bom saber que não sou uma ilha, pois sinto as mesmas sensações que Vc, Boukreev e muitos outros enquanto estou fazendo minhas trilhas e contemplando a natureza é o momento que me sinto mais vivo e proximo de Deus. Posta mais fotos. T+ um grande abraço!!!!
#715199 por edver carraro
10 Mai 2012, 15:10
Marcão,

Excelente relato! Fotos profissionais e lindas!

Saudades da Serra do Espinhaço e da galera simples que vive por lá!
Quando fiz a travessia com o Peter, não subimos o Breu pois o tempo estava fechado e não ia dar tempo de descer para montar acampamento com a luz do dia. Durante a noite, avistamos um grupo descendo o Breu. As luzes das lanternas pareciam fracas e o pessoal parecia despreparado para a empreitada! Achamos imprudência aquela condição, visto a dificuldade da descida.

Também não fizemos a derivação do Tabuleiro por cima, pois chegamos um pouco tarde na casa de Dona Maria (Seu José) e não conseguimos avistar a cachu por baixo, pois o rio estava alto demais. Da mesma forma, foi um trekking fantástico!

Abraços,
Edver
#727052 por marcosplf
13 Jun 2012, 16:34
Agradeço as palavras de todos!!!


Mineirim escreveu:Marcos, parabéns pelo relato e pelas belas fotos!!!

Você pode passar o contato desta van que fez o traslado de Confins para Lapinha?
Estou planejando ir com alguns amigos e estou tendo dificuldade para arranjar um transporte.


Mineirim, vou ver se consigo e te mando, quem arrumou foi o pessoal de BH.

Abs
#759026 por FRANCISCO CARDOSO
14 Set 2012, 15:00
Fiz essa travessia agora no feriado com um grupo grande, porém bastante unido, alegre e animado! Assim como a trip do Marcos, essa tb foi show.

Como começamos a trilha bastante tarde no primeiro dia, não fomos ao Pico da Lapinha e tivemos que acampar na primeira noite no vale atrás da Serra da Lapinha. Montamos o acampamento já no escuro!
No dia seguinte, após uma escalaminhadinha básica subimos o Breu (não deu visual por causa da neblina) e ao descermos, pegamos o atalho, atravessando o Parauninha um pouco acima da Prainha. Não fomos à D. Ana Benta. Chegamos na D. Maria por volta das 3 da tarde (devia ter umas 35 barracas por lá - muita gente mesmo). Fomos na parte alta da Cachoeira (trilha definida, não tem erro, muito fácil). Lugar lindo, lindo, lindo ... Voltamos noite adentro, chegando por volta das 20h30 na D. Maria novamente!
No terceiro e último dia fomos conhecer/aproveitar a parte baixa do Tabuleiro. Cansa descer degrus e pular pedras no leito do ribeirão do Campo, mas compensa viu!

No geral a trilha é fácil, basta apenas cuidado com as pedras pra evitar torções e um mínimo de orientação. Por mais que em alguns lugares não haja trilha definida (como a descida do Breu); ou ainda caminhos paralelos, é muito fácil caminhar por lá.
Além disso, o cerrado apresenta rara beleza e imensa variedade de plantas. Vale a pena fazer essa Travessia.
Ao meu ver, os pontos altos da Travessia foram o cume do Breu e a parte alta do Tabuleiro. Indescritível e impossível não visitá-los!

E uma dica importante: Quem for se aventurar a subir os Picos da Lapinha e do Breu, trate de começar a pernada cedo, preferência antes das 9 da manhã! Do contrário, a pernada seguinte ficará muito puxada!

É realmente emocionante essa Travessia!

Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 1 visitante