Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#1147571 por divanei
23 Dez 2015, 22:18
Minha primeira tentativa de atingir a lendária montanha, juntamente com o Alexandre Alves, pelas circunstâncias em que ocorreram, debaixo de um temporal daqueles, acabou por ser o verdadeiro estopim para eu não tirasse mais aquela montanha da minha cabeça. Subimos até o Pico boa Vista e estabelecemos um caminho varando mato, que nos deixou a uns 2 km de chegar à sombra da grande Pedra. Naquele dia, voltamos com a sensação de que poderíamos ter avançado mais se a chuva e a falta de tempo não tivessem nos barrado. Pois bem, durante um mês inteiro meus pensamentos acabaram se voltando em como conseguir voltar lá novamente, mas desta vez teria que ser uma expedição bem mais planejada e organizada, teria que escolher os desbravadores a dedo.
O anexo DSC02445.JPG não se encontra mais disponível


Durante mais de um ano de pesquisas acabamos por não conseguir quase nenhuma informação a respeito dessa montanha. Um vídeo que mostrava uma homenagem ao Coronel Pethená em 2005, onde o Vitor Negretti, juntamente com os monitores ambientais da região, foi ao cume, era o que tínhamos a respeito e do mais, só uma citação de um membro do Grupo de Escalada Esportiva da Unicamp, que em 2006 se aventurou por lá, na companhia de mateiros da região. Sabíamos que não era uma mera caminhada até o cume, já que a parte final é uma escalada técnica que necessita de equipamentos móveis. Tentei fazer contato com dezenas de excursionistas renomados, gente que já se aventurou por tudo que é lugar e para minha surpresa, a maioria nem ao menos havia ouvido falar no tal Dedo de Deus Paulista e outros apenas sabia da sua existência por avista-lo de alguma parte do litoral sul Paulista.

O fato de ser preciso escalar uma parede de uns 30 metros para se chegar ao topo deu uma balançada no início do projeto porque nós nunca fomos escaladores e então era preciso que saíssemos da inércia e começássemos a aprender os rudimentos. Durante um mês nos dedicamos ao tal ofício e foi aí que acabamos mesmo por descobrir que escalador é uma coisa, montanhista explorador é outra bem diferente. Encontramos muita gente boa escalando, mas nenhum parecia ter mesmo condição de enfrentar uma empreitada de vara-mato no meio daquele inferno verde e foi aí que surgiu meio que por acaso a oportunidade de agregar ao grupo a Vivi Mar e o Fábio Borges, que além de ótimos escaladores, também são excursionistas com o “sangue nos zói” e não arregam para coisa alguma, era o que faltava para completar o grupo expedicionário.

A outra parte do grupo seria formada além de mim, pelo Eduardo Loures, pelo Daniel Trovo, pelo Rodrigo Ligado e pelo Professor Dema, pessoas que dispensam comentários quando se trata de explorações onde é preciso botar a faca nos dentes e navegar num mar de florestas e cânions no submundo selvagem da Serra do Mar Paulista. Esse era ao meu ver o grupo mais forte que já havíamos formado porque cada um era dotado de uma grande habilidade e todos se completariam. Mesmo com uma previsão de tempo anunciando um dilúvio, resolvemos manter a nossa operação, ainda apostávamos que poderíamos ter pelo menos umas três horas de tempo de sol, que nos levaria direto para o cume da montanha, mas deixamos bem claro que não haveria qualquer certeza de que conseguiríamos escalar a parede final e que todos deveriam estar cientes disto para que não houvesse frustações. O desafio foi aceito por todos, que de antemão já estavam cansados de saber que aquela “expedição” não teria um líder, um guia, um chefe, um cacique, um comandante e que cada um estaria por conta e risco, que cada um teria que ser responsável por sua segurança e também cuidar da segurança do grupo.

O local de encontro marcado foi o “boteco do compadre”, o único estabelecimento comercial perdido à beira da ponte metade concreto, metade madeira, que atravessa o Rio Despraiado. A estrada também se chama Despraiado e fica a meio caminho entre Pedro de Toledo e o litoral sul do São Paulo, encravado no meio da Estação Ecológica da Juréia-Itatins. Tirando todos os contratempos de feriado prolongado, foi somente às 11 horas da noite que todos nós nos juntamos no referido bar, que por sinal e de costume, estava totalmente deserto de gente e somente o simpático senhor dono da birosca, estava por lá para vender uns refri e umas cervejas geladas. Claro que é com uma grande alegria que nos encontramos com toda essa galera, que não víamos a um bom tempo. Sem perder muito tempo resolvemos em conjunto que o melhor mesmo seria seguirmos com o plano inicial, que era o de acamparmos na antiga escola em ruínas, porque além de mais confortável, já estaríamos na boca da trilha.

Como algumas mochilas ainda não estavam prontas, resolvemos pegar tudo as pressas e ir levando nas mãos mesmo, já que seria apenas meia hora de caminhada até a escola em ruínas. Era uma noite com uma grande lua a nos iluminar . Tomamos o caminho de volta e tendo agora o Rio Despraiado a nossa direita, vamos subindo pela estradinha de terra até interceptarmos 1.500 metros depois, três grandes tubos de concretos abandonados à beira da estrada e 50 metros depois localizamos também do lado direito uma trilha que vai descer o barranco por uma escadinha de concreto. Descemos por uns 10 metros e viramos a direita e vamos acompanhando o rio por mais alguns metros até conseguirmos acessa-lo , onde localizamos a cabeceira de concreto de uma antiga ponte que já não existe mais. Atravessamos o rio pulando pelas pedras e subimos o barranco para localizarmos uma trilha que alguns metros depois, nos leva para a grande ponte pênsil. É uma ponte totalmente carcomida pelo tempo e ainda é de se admirar que esteja em pé. Passamos com muito cuidado pela ponte e logo em seguida localizamos uma pinguela, igualmente podre. Depois desta pinguela, passamos ao lado de uma grande parede de pedra e nos enfiamos em uma "floresta" de lírios do brejo e metros depois, demos de cara com a escola abandonada. Passamos pela frente dela até que desembocamos no grande galpão que servia como área de merenda e ali jogamos nossas mochilas ao chão.

No grande galpão cada um se virou como pode: Eu e o Dema apenas jogamos nosso isolante ao chão, a Vivi e o Fábio montaram a barraca e o Eduardo, o Ligado e o Trovo montaram suas redes nas pilastras de concreto. Aliás, o Ligado ficou meio indeciso se dormia na rede ou dormia no chão, já que vez ou outra se esborrachava no concreto. O Loures, que muito provavelmente, foi Nero nas vidas passadas, já meteu fogo numas madeiras velhas e fez com que tudo que era escuro, se iluminasse.

O dia amanheceu lindo e a galera muito bem disposta, comprovando que foi mesmo uma boa termos acampado ali. Tomamos café, desmontamos tudo e partimos às 8:30 da manhã. Nosso caminho segue direto para a parte atrás da escola até interceptarmos o cano que a abastecia. Localizado o cano, subimos o barranco até encontrarmos a antiga estradinha que a uns 40 anos atrás servia para que os jipes acessassem as antenas da antiga COTESP, menos de meia hora abaixo do topo do Boa Vista. Pegando para esquerda seguiremos o que outrora fora uma estrada e agora mal passa de uma trilha toda obstruída por árvores e vegetação espinhuda. como eu estivera ali a pouco mais de um mês para subir o Boa Vista e abrir parte do Caminho para o Dedo de Deus Paulista, coube a mim a ingrata tarefa de ir abrindo o mato no peito e como eu sou um cara super inteligente, usei camisa sem manga para realizar tal empreitada e pagaria muito caro por isso.

A cipozeira vai agarrando na gente e um bambuzinho em especial gruda na pele e faz um estrago danado, formando feridas que logo inflamam e te deixa todo retalhado. A unica coisa que denuncia que estamos no caminho correto é o nitido corte do que antes era uma estrada, mas vez ou outra, a floresta cai sobre o caminho e aí você se ve abandonado, sem saber para onde ir e então é preciso rodar pelo mato pra tentar novamente encontrar o caminho. Como o grupo é grande, a caminhada segue em um ritimo não muito rápido, mas constante. Eu estou pilhado e as vezes acabo por tomar uma certa dianteira e quando percebo, diminuo o passo até todos se ajuntarem novamente para mais um gole de água e mais uma conversa divertida.

Por se tratar de uma antiga estrada, o desnível acaba sendo suave nas primeiras duas horas, mas o calor e a umidade da floresta densa, vai minando a energia da gente e quando o caminho começa a inclinar mais, uma névoa baixa sobre nossas cabeças, dando indícios que o dia lindo e ensolarado vai ter mudanças. Quando completamos três horas de labuta serra acima, já não vemos a hora de chegar, mas é aí que o terreno inclina de vez e as mochilas e a lei da gravidade já começam a nos sacanear, fazendo um complô para não nos deixar avançar como queremos. Continuo à frente com os dentes serrados e só me animo de vez quando vejo uma pequena mureta de concreto à beira do barranco, que denuncia que o fim está próximo. Agora o terreno inclina de vez e a trilha fica um pouco mais confusa, às vezes nos obrigando a pular por cima de árvores caída, mas logo quando vejo vestígio de um poste à beira do caminho , já me dou conta que estou bem embaixo da grande antena da antiga TELESP e bem na boca do abrigo do Boa Vista e logo em seguida todo o grupo se juntou a mim para comemorarmos essa nossa primeira parte da travessia.

Levamos umas 4 horas para percorrermos o caminho até o abrigo, um tempo até bom se considerarmos estar em um grupo grande. O abrigo em forma de iglu nada mais é que o lugar onde estava instalado os geradores e se encontra bem preservado se considerarmos as décadas de abandono. Resolvemos fazer um almoço rápido antes de partirmos e enquanto o fogareiro roncava, alguns foram subir na grande torre, que surpreendentemente se encontra totalmente inteira e sem sinais de deterioração. A subida é vertiginosa e é preciso ir subindo bem devagar, mantendo a concentração para não se despencar no vazio. A visão lá de cima é deslumbrande, tendo uma visão de quase 360 graus, interrompida somente pelo próprio cume do Boa Vista, justamente a direção da cadeia de montanha que buscávamos. Como o tempo estava dando sinal de melhoras, tratamos de almoçar rapidamente e partir. Saindo do abrigo passamos ao lado da torre, subimos a escadinha e demos de cara com a antiga casa de madeira, que só se mantém em pé por pura obra do destino e não tarda em ir ao chão. Pegamos uma trilhinha do lado esquerdo da casa e fomos acompanhando uma mureta até que ela acaba em uns elementos vazados. Pulamos a mureta e nos livrando dos arbustos, caindo em uma trilha e a seguiremos em direção a grande rocha que está acima de nós, mas antes de chegarmos a grande pedra, buscaremos a direita as duas caixas d’àgua que abasteciam a casa. É uma água de qualidade totalmente duvidosa, amarela, onde sapos, rãs, e outros animais aquáticos desfilam suas gosmências e deverá ser tratada com clorim, hidrosteril ou fervida e mesmo assim teve uns que fizeram cara de nojo e se mantiveram longe do liquido.

Rumamos para a pedra e passamos pelo seu lado esquerdo, onde tem um fio preto que irá nos auxiliar na subida do barranco. O Dema vai à frente puxando a fila e abrindo caminho, caminho esse que vai curvando para esquerda até entrar no mato e se estabilizar de vez e metros à frente alcança o cume do PICO DO BOA VISTA – 1.140 metros de altitude. Não há no topo um lugar que denuncie ser ali o cume, não existe uma pedra exposta e sim uma clareira no meio da mata, mas nem precisava porque é desta clareira, desta pequena abertura na floresta, que se descortina a nossa frente a visão impressionante do DEDO DE DEUS PAULISTA. É uma pedra gigante, elevada feito um vulcão que enfeitiça a cabeça da gente. Pouco mais de um mês antes, quando estive no Boa Vista, me deslumbrei com essa vista e agora, mais uma vez, me deparo com aquilo que vinha estudando a mais de um ano, a montanha que vinha tirando meu sono nos últimos tempos. Reunimos todo o grupo ali e repassamos novamente o plano traçado, seria um vara mato meio que as cegas numa das mais fascinantes florestas do Brasil.

Bom, daqui para frente eu teria que assumir a liderança, não porque eu seria o melhor navegador, mas porque era eu quem já havia aberto parte do caminho anteriormente e agora cairia sobre os meus ombros a responsabilidade de conduzir todo o grupo até o Vale Verde, que foi o nome que havíamos dado ao último local onde chegamos. Deixando a clareira que marcava o topo do Boa Vista, vou seguindo pela crista, tentando me guiar pelas lembranças da expedição anterior. Depois de alguns minuto na crista, começamos a descer e logo em seguida voltamos a subir novamente até que praticamente a crista acaba em outra clareira. Seguir enfrente não é mais possível, mesmo porque olhando no mapa já sabemos que o único caminho deverá ser para direita, mais ou menos uns 130 graus de azimute. É exatamente isso que eu faço, mas novamente, como da outra vez, chego num abismo sem fim e vejo que será preciso virar à esquerda e ir acompanhando até que se aviste uma linha de árvore logo abaixo , denunciando existir ali uma rampa de acesso para nos levar para outra cadeia de montanhas. Da outra vez eu e o Alexandre gastamos um tempão para descobrir esse caminho e agora, graças as marcas de facão, já encontrei rapidamente a trilha de conexão e sem perder tempo já fui me enfiando no mato e despencando para o vale mais abaixo. Logo no vale já dá para ver do nosso lado direito o lugar que quase despenquei na outra investida. O caminho segue sempre descendo por uma crista e vai se enfiando mata a dentro em linha reta até 15 minutos depois nos leva a outro abismo.

Mais uma vez é preciso descobrir para onde ir e só resta uma opção:seguir para a esquerda até novamente , se valendo da linha de árvores mais abaixo, encontrar outra rampa de conexão. Mas agora com o caminho marcado nas árvores com um fação, foi só seguir para a esquerda até novamente voltar a descer por dentro de uma espécie de fenda, onde é preciso se jogar em um buraco e logo em seguida encostar na parede rochosa que escorre água, a parede que nós chamamos de Pedra que Chora para marcar o território. Depois é preciso descer um barranco para acessar a referida rampa, que nada mais é que uma nova crista, com vales dos dois lados. O caminho para frente é bem óbvio porque o vara mato agora se transforma numa trilha e essa trilha vai nos conduzir uma hora e meia depois do topo do Boa Vista, direto para o Vale Verde, o último lugar que eu havia chegado com o Alexandre na expedição anterior. Meu papel naquela travessia já estava cumprido, cheguei onde prometi e agora a responsabilidade seria de todo o grupo, que deveria se unir para estabelecer um caminho até a montanha lendária, deveria navegar usando todos os recursos disponíveis para cumprir a missão estabelecida e eu tinha certeza que se tivesse alguém capaz de encontrar um caminho para o Dedo de Deus Paulista, esse alguém seríamos nós.

Nos reunimos mais uma vez no Vale Verde, onde tentei dar um giro para ver se encontrava água, mas nada achei. Pulamos o grande tronco e reencontramos a trilha que eu já havia visto na primeira expedição. Agora era a vez do Rodrigo Ligado tomar a dianteira, seguido de perto por mim e pelo Eduardo Loures. A trilha segue por alguns minutos em linha reta e aos poucos vai curvando-se para a direita, justamente para a direção que deveríamos ir, mas não demora muito a dita cuja desaparece e aí é preciso enfrentar mato no peito, sempre tentando manter a direção desejada que no caso seria uns 140 graus de azimute. é uma mato desgraçado que vai destruindo a gente, meus braços já estão em carne viva e os meus amigos compartilham comigo da mesma desgraceira. Nessa hora entra em cena pra nos socorrer o Fábio e seu GPS, já que eu tinha marcado um caminho encima do mapa de satélite e o Fábio conseguiu jogá-lo para o aparelho. Sempre que começávamos a nos distanciar da linha , éramos avisados para nos mantermos mais a direita ou mais á esquerda e assim fomos nos embrenhando cada vez mais naquele fim de mundo, num lugar tão longe da civilização que era como se estivéssemos em um mundo perdido, uma espécie de caverna do dragão tupiniquim. Pouco mais de uma hora depois de partirmos do Vale Verde, demos de cara com um vale, onde um riacho corria alegremente e antes mesmo de eu tocar os meus pés na água, o Daniel Trovo já estava se afogando nas águas cristalinas.

O tempo havia fechado de vez, já não era mais possível ver o Dedo de Deus Paulista. Seguimos nosso caminho, hora guiado por mim, hora pelo Dema, hora guiado pelo Loures, hora guiado pelo Trovo e o Ligado, sempre com a consultoria técnica do Fábio e da Vivi. Cada um dava sua opinião para onde deveríamos seguir, sempre havendo um consenso entre todos. Buscávamos agora o tal vale que teria servido de acampamento para expedições do passado, mas desse tal vale da última água, não vimos nem sinal. Em algum momento,o Daniel Trovo estava à frente, ele chegou a ver a tal nascente do rio que cortaria todo o vale a esquerda até desaguar no mar, mas vimos logo que o caminho não seria por ali, e decidimos subir para a crista que deveria nos levar direto para o pico. Foi uma decisão mais do que acertada, porque alem de estarmos encima da linha demarcada por mim, ainda localizamos uma trilha bem nítida cruzando por cima da crista, mas ali nem precisava de trilha, porque não há outro caminho possível, ou você está na crista ou caiu no abismo que há dos dois lados.

O dia já ia findando, eu já estava um bagaço, porque além de estar todo retalhado pelo mato, ainda tinha o fator de ter ficado o dia inteiro estraçalhando mato e cipó no peito e isso vai acabando com a energia da gente. Sentíamos que as paredes do Dedo não estavam longe, mas quando deu 17:00 horas e encontramos o único lugar plano daquela crista, não tivemos dúvidas, jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrado aquela longa jornada. Eu e o Loures ainda tentamos ir mais um pouco à frente sem as mochilas para ver se localizávamos o tal vale da última água, mas não deu nem cinco minutos de caminhada, um temporal desabou sobre nossas cabeças, então voltamos para trás correndo e fomos nos juntar aos outros que já haviam montando uma lona para se proteger do aguaceiro.

Eu e o Dema montamos a barraca e a Vivi e o Fábio também, já o Loures, o Ligado e Trovo, optaram por acampar com redes. Ficamos um bom tempo embaixo do toldo improvisado jogando conversa fora, mas antes que o sol fosse se jogar a oeste, me enfiei na barraquinha para um descanso, antes de ir cuidar do jantar. Acordo uma hora depois para ver que uma tempestade havia tomado toda aquela floresta de assalto e vendo que o Dema também havia sucumbido ao cansaço, voltei a dormir e deixei esse negócio de janta pra lá.

O dia que amanhece é um dias dos mais horríveis possíveis. A chuva além de não cessar, acabou foi aumentando. Lá fora ouço a reclamação dos exploradores que acabaram por acordar molhados por não terem tido tempo de montar o toldo como deveria, mas me chama muito a atenção de ouvir os caras combinando de desmontar tudo e picarem a mula de volta, sem mesmo tentarem chegar até o Dedo de Deus Paulista e meu espanto também é compartilhado pelo meu companheiro de barraca. Para mim e para o Dema não fazia o menor sentido chegar a menos de uma hora do nosso objetivo e fazer meia volta. Subir aquela Pedra debaixo daquele temporal era tarefa quase impossível, mas estava mais que claro pra gente que só desistiríamos quando nos víssemos grudados à rocha, desistir dali, era algo totalmente inimaginável para nós. Ainda bem que a Vivi e o Fábio também comungavam com a nossa visão e logo o ameaço de desistência de alguns ruiu como um castelo de cartas e novamente éramos um grupo unido num mesmo objetivo. Nos equipamos com o que tem de mais moderno em matéria de proteção contra chuva, que no caso meu e do Dema , não passou de dois sacos de lixo que improvisamos como capas de chuva. Jogamos as mochilas de ataque às costas e partimos para a nossa empreitada final.

Como relatei anteriormente, estávamos acampados bem encima da crista final que nos levaria direto para a Pedra. Ali não tem jeito, não tem outro caminho para seguir porque de ambos os lados são vales gigantescos e ainda é possível ver , com olhos bem treinados, que há um vestígio de trilha que provavelmente foi usado por expedições antigas. O caminho logo começa a subir, as vezes meio confuso, outras vezes mais óbvio. A cada passo dado, vai aumentando nossa expectativa de avistarmos o gigante rochoso, mas o tempo extremamente ruim, não nos deixa ver coisa alguma. Logo o terreno se estabiliza e começa a descer a um vale e aí ficamos imaginando que esse poderia ser o tal Vale da Última Água , mas ao chegarmos ao seu fundo, constatamos que apenas se tratava de um selado e após esse vale, o terreno volta a se inclinar de vez e menos de uma hora depois do nosso acampamento, tropeçamos no MONSTRO ROCHOSO e então o que era apenas um ponto perdido no mapa, se materializou à nossa frente e quase não podíamos vê-lo, mas podíamos senti-lo, estava estabelecido o caminho para a montanha esquecida da Serra dos Itatins , o DEDO DE DEUS PAULISTA ( 1.333 M) acabara de ser reencontrado, o que antes era feudo de meia dúzia de nativos da região, agora era domínio de exploradores de "terras distantes".

O objetivo de chegar à Pedra havia sido cumprido, faltava agora encontrar um caminho que pudesse nos levar ao topo, mesmo sabendo que seria tarefa quase impossível diante do aguaceiro. Já vimos logo que o caminho pela direita, não era possível, então peguei pela esquerda e escalei o barranco, que uns três metros acima me levou direto para linha de árvores. No meu encalso seguiu todo o grupo. Seguimos em uma linha reta, nos segurando em cada "pé de pau " do caminho até que finalmente os arbustos acabam e não ha mais o que fazer porque estamos diante das grandes paredes verticais do Dedo de Deus, com abismos para todos os lados, aí é hora de estacionarmos e tentarmos montar um plano para a escalada final.

Do nosso lado esquerdo temos uma fenda extremamente gigantesca, que nos pareceu ser impossível acessar o cume por ela, mas diante da chuvarada, não tivemos nem condições de investigar. À nossa frente outra fenda e foi essa que nos pareceu ser o caminho de onde partiria a tal parede que deveria ser escalada. Essa investigação acabou sobrando para mim ,para o Dema e para o Fábio. Então nos enfiamos naquela fenda de lama escorregadia e fomos escalaminhando nos valendo de alguns arbustinhos de raízes soltas e que, uns dez metros acima, nos leva a um platô, que mais uns dois metros à frente acaba numa fenda potencialmente perigosa, onde um abismo sem fim nos faz pararmos imediatamente. Do lado esquerdo dessa fenda me pareceu ser um lugar por onde daria para acessar um novo patamar mais acima, justamente de onde parte a parede que deverá ser escalada com equipamentos. Até tentei ver se era possível subir, mas quando me apoiei na vegetação grudada à rocha, ela se soltou e foi cair no abismo, recuei imediatamente e me afastei para o meio do platô. Enquanto isso o Dema optou por tentar escalar uma chaminé de uns dois metros e meio, mas como a pedra estava muito molhada ele acabou tendo uma certa dificuldade em achar um apoio para as mão, mesmo porque uma queda ali seria dispensar no vazio. Claro que com um tempo seco, subir ali não seria coisa de outro mundo, mas debaixo de chuva a situação muda de figura. Mas o Dema não desiste fácil e logo se agarrou num arbusto mais acima, se pendurou na rocha e se esgueirou por dentro de um buraco por debaixo de uma rocha e atingiu o ponto em que desejávamos chegar.

Com o Dema já alojado acima, auxiliei o Fábio na subida, explicando pra ele por onde subir e quando ele também se juntou ao outro, me disse : -" Divanei fica aí embaixo para nos auxiliar na descida porque estamos sem corda e com esse terreno escorregadio, talvez seja necessário alguém para nos indicar onde será melhor apoiarmos os pés". O Fábio era o cara que iria comandar aquela escalada e era óbvio que eu iria aceitar as suas indicações, mas fiquei ali na metade daquela fenda me descabelando de ansiedade e torcendo para os dois conseguirem fazer uma análise daquela parede e dar o aval para que todos pudessem subir. Ficaram uma meia hora por lá analisando, mas para mim foi uma eternidade. Segundo eles, não se tratava de uma escalada tão difícil, mas o único ponto de fixação de costura estava a uns 15 metros de altura e como a rocha estava toda babada, a chance de alguém despencar abismo abaixo, era realmente grande. Parecia que realmente não havia nada a fazer, porque logo a chuva apertou de vez. Diante disso, os dois voltaram e se valendo do meu ombro, voltaram ao platô intermediário e depois descemos quase que escorregando na fenda abaixo e nos juntamos de novo ao grupo, que não arredaram o pé de onde estavam.

Bom a escalada final do Dedo de Deus Paulista ficaria para uma próxima oportunidade, havíamos sidos barrados por uma parede de uns 30 metros, mas por fim, havíamos cumprido com a missão a qual nos propusemos realizar, a rota estava estabelecida. Eu e o Dema até havíamos conversado sobre a possibilidade de ficarmos acampados ali na base da pedra para esperar que fossemos agraciados com umas três horas de sol que pudesse secar a parede e nos desse a oportunidade de irmos ao cume, mas como parte do grupo já estava mesmo a fim de voltar, nem colocamos essa nossa posição em discussão, ainda bem, porque o tempo se encarregaria de mostrar que eles estavam certos.

Demos às costa para aquela montanha lendária e nos valendo do rastro que havíamos deixado na vinda, fomos voltando rapidamente, desta vez me pus a trás e fui amarrando algumas fitas zebradas para marcar o caminho no caso de uma próxima expedição. Não deu nem 40 minutos já estávamos de volta às barracas e enquanto o Dema desmontava tudo, tratei logo de preparar um belo almoço com a água que se acumulou no toldo, mesmo porque a chuva teimava em não cessar. Enquanto almoçávamos rolou uma discussão se devêramos voltar e mesmo noite adentro, terminar a caminhada no mesmo dia para voltarmos para casa. Eu já me coloquei logo contra, mesmo porque ainda tínhamos um dia inteiro para nos divertirmos naquela trip, opinião essa que foi seguida prontamente pela Vivi e o Fábio, o Dema estava comigo e não iria abandonar uma bela noite de bate papo no Abrigo do Boa Vista por nada. No fim ficou mesmo decidido que faríamos uma grande confraternização a noite, com direito a fogueira e tudo.

Desmontamos tudo e partimos. Decidimos que iríamos seguir agora toda a crista até ela acabar e só depois tomaríamos o rumo do Vale Verde. Foi o que fizemos, nos enfiamos no mato e fomos caminhando por onde achávamos que o terreno estaria mais desimpedido, as vezes parecia estarmos caminhando sobre uma trilha, mas logo em seguida estávamos mesmo era enroscados numa floresta fechada. Nesta parte da caminhada me fazia companhia à frente, ajudando no vara mato, o Trovo e ao passarmos por uma árvore com uma enorme fenda onde parecia um abrigo de animais de grande porte, o Trovo deu um grito, fazendo menção de que o animal estaria deitado ali, foi quando olhamos para trás e vimos que o matemático do grupo havia conseguido escalar o Dedo de Deus sem corda, oooooo bicho medroso, ( rsrsrssrsr) .

Seguimos enfrente, sendo sempre orientados pelo Fábio, que ia nos indicando a melhor direção para não nos distanciarmos do caminho, que naquele momento, seria a bica de água. Começamos novamente a subir e quando fomos parar no meio de uma floresta de bambu, foi que notamos que aquele caminho era o pior que poderíamos seguir, porque o GPS te indica a direção, mas não te fala que demônio de vegetação você vai enfrentar pela frente. Resolvemos nos desviar um pouco para esquerda para abandonarmos de vez aquela quiçaça e logo demos de cara com fenda de pedras, feito um leito de rio. Tentamos atravessar mais acima mas diante da dificuldade, escorregamos para transpor mais abaixo e mais alguns minutos estávamos de volta ao ponto de água que havíamos encontrado na ida.

Gastamos pouco mais de uma hora desde o nosso acampamento até o ponto de água, um tempo espetacularmente rápido para a volta. Abastecemos os cantis e desta vez fiz questão de ficar atrás para marcar bem a trilha com as fitas zebradas e logo à frente, percebemos que a tal trilha que poderia nos levar para o tal ponto da última água, poderia ser ali naquela bifurcação, mas agora para nós pouco importava, já havíamos estabelecido outra rota, outro caminho. Voltamos muito rápido porque desta vez não havia mais nenhuma vegetação para nos barrar e quando algum empecilho aparecia, o Loures e o Ligado tratavam logo de exterminar com eles, se valendo das suas armas cortantes. Meia hora foi o que levamos para ir da água até o Vale Verde e do Vale verde até o topo do Boa Vista, mais uma hora. Sem perder tempo, escorregamos como deu e alguns se fuderam na descida, até novamente estarmos de volta antes das 18:00 ao abrigo do Boa Vista, junto a Torre.

A chuva não dava trégua. Nos alojamos no abrigo de metal em forma de iglu e dividimos a tarefa de deixá-lo mais habitável, fazendo uma faxina geral. Alguns foram recolher madeira da casa em ruínas para a fogueira, que pretendíamos fazer para secar nossas coisas, principalmente os sacos de dormir do grupo que acampou com rede e que estavam totalmente encharcados. Sem perder muito tempo já me pus a preparar o jantar, dessalgando a carne seca e descascando as batatas. A Vivi e o Fábio montaram sua barraquinha em um canto do abrigo, o Dema pegou a madeira excedente e fez uma cama improvisada, já que ele viu o Rodrigo Ligado montando sua rede encima de onde pretendíamos estender nossos sacos de dormir e segundo o matemático, não ia correr o risco de ser amassado, já que o Ligado costuma cair muito da rede durante a noite e não deu nem cinco minutos, lá estava o Ligado e o Loures se esborrachando no chão. É , esse Dema entende bem desse negócio de força da gravidade, bem que ele avisou que os caras iam cair, ( rsrsrsrsrs).

Realmente ter passado a noite ali no abrigo foi o melhor que poderíamos fazer. Foi a deixa para colocarmos o papo em dia à beira da fogueira. Foi muito bom para podermos conhecer melhor a Vivi e o Fábio, com quem tínhamos amizade a vários anos, mas por coisas do destino, nunca havia calhado de fazermos uma trip juntos. Outro que conhecíamos a algum tempo era o Rodrigo Ligado, mas a única vez que tentamos caminhar com ele, quis o destino que a trip fosse interrompida logo nas primeiras horas de caminhada por causa de um acidente com um dos integrantes. Como não poderia deixar de ser, os novos companheiros de aventura não nos decepcionaram, a Vivi , o Fábio e o Ligado, deram um show na trilha, sempre prontos à avançar, em nenhum momento reclamaram de nada e estavam sempre prontos para assumir o papel de personagem principal quando o bicho pegava. Já o Dema, o Loures e o Trovo, esses aí dispensam qualquer comentário, parcerassos de roubadas e perrengues memoráveis, são os caras que mantém a faca nos dentes, prontos pra seguir caminhos onde outros tem medo de olhar até pelo mapa. Foi uma confraternização daquelas, regados a muita comida, papo furado, conversa pra boi dormir e narrativas de aventuras memoráveis, já que o grupo confinado ali naquele minúsculo espaço, já tinha idade´para fazer Matuzalem parecer um adolescente. Eram gente velha, mas alguns resolveram voltar ainda mais no tempo, a tal ponto de uns caras começarem a catar carrapatos uns nos outros e como comentou a Vivi, pareciam babuínos numa caverna e como eu me recusava a ficar assistindo aquela cena dantesca, me recolhi ao meu saco de dormir e apaguei .

O amanhecer no iglu é um amanhecer lento e preguiçoso. Lá fora a chuva não cessava. Com calma e sem maiores atropelos, desmontamos tudo, tomamos café e partimos somente lá pelas 11 horas da manhã. Foi uma volta tranquila e surpreendentemente rápida, gastamos menos de 2 horas do Boa Vista até a escola abandonada e sem perder muito tempo, já passamos pelas pontes e desembocamos na estrada do Despraiado. Estávamos finalmente de volta à civilização, para trás ficaram um mundo selvagem, um mundo ainda totalmente preservado onde quase todos os bichos desfilam livremente, um mundo de florestas e montanhas exuberantes. Valeu a pena cada minuto passado naquela lugar, valeu a pena ter passado horas e horas debruçado sobre mapas, se dedicando a pesquisas, consultando nativos,esmiuçando mapas topográficos e mapas de satélite e desvendando curvas de nível. Valeu a pena ter escolhido a dedo um grupo que se não são os melhores, com certeza estão entre os melhores exploradores e companheiros de aventura que poderíamos ter encontrado. Fomos lá e realizamos o que havíamos proposto a fazer, reencontramos o caminho para a LENDÁRIA E ESQUECIDA montanha que atende pelo nome de DEDO DE DEUS PAULISTA .



Divanei Goes de Paula - novembro/2015
Anexos
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Dedo de Deus Paulista
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Torre da Cotesp
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Editado pela última vez por divanei em 08 Jan 2016, 10:39, em um total de 1 vez.

#1151186 por zaneymattos
06 Jan 2016, 14:12
divanei escreveu:Obrigado Zaney ,

Gostaria de poder escrever com mais riquezas de detalhes mas infelizmente não tenho paciencia para ficar anotando nada por causa da intensidade da aventura.



To afim de fazer essa trilha em fevereiro ... posso pedir tua ajuda? posso passar meu wpp pra nos comunicarmos?

abç
#1151869 por divanei
08 Jan 2016, 10:32
Zaney ,
Já vou adiantando que vai ter que assumir os riscos, tanto físico como também os riscos por parte da fiscalização da Reserva Ecológica. Minha função é sempre insentivar as pessoas a sairem por aí por conta própria, sem a necessidade de se atrelar a nenhum guia ou coisa deste tipo, mas é claro , é preciso que o indivíduo saiba o que está fazendo para não se quebrar todo porque estas expedições selvagens são lugares onde nada pode dar errado ou o sujeito acaba pagando com a propria vida, como já aconteceu com um integrante do nosso grupo no ano passado. Não há a menor possibilidade de acionar o resgate se algo acontecer, ser picado por uma cobra, por exemplo. Então tem que fazer a coisa certa para ameniza estes riscos ao minimo possivel. Bom, mas respondendo a sua pergunta e parando de encher linguiça, claro, terei o maior prazer em te ajudar com essa subida, se não para que serveria meus relatos. Me adiciona no Facebook quando puder : Divanei Goes de Paula

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