Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#965576 por divanei
31 Mai 2014, 12:43
DSC02352.JPG
FERROTREKKING


FERROTREKKING: TRAVESSIA CAMPINAS X JAGUARIÚNA

Eram tempos difíceis aqueles, não só para nós, uma família de quatro irmãos, mas para todos que migraram dos quatro cantos do Brasil para tentar uma vida melhor na periferia de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Sumaré viveu na década de 80 uma explosão populacional quase sem precedentes na história recente do país e todos que vieram para cá tiveram que conviver com total falta de infraestrutura. A situação socioeconômica poderia não ser boa para ninguém, mas nem por isso a vida era infeliz, tínhamos a nosso favor, um tempo onde a simplicidade comandava, um tempo sem carros, telefones, sem quaisquer outras tecnologias do nosso tempo moderno. Eram tempos de brincadeiras ao ar livre, subir em pés de mangas, jogar bola na rua, pescar, nadar, e outras infinidades de brincadeiras e atividades do qual a garotada de hoje nem suspeitam que existia. As viagens eram raras e no caso da minha família se restringia a um passeio no final do ano para visitar os avós na capital paulista. Por isso as festas de dezembro eram aguardadas por nós como o maior evento do ano e quando colocávamos nossos pés na Estação ferroviária de Campinas, todos ficavam em êxtase. Viajar de trem não era só a opção muito mais barata, era para nós a opção mais divertida para viajar porque tínhamos a liberdade de andar e até correr por toda a composição. Distraíamo-nos com as paisagens que corriam diante dos nossos olhos e sonhávamos com o dia em que a situação melhorasse e o nosso pai cumprisse a promessa de nos levar para visitar as terras onde nascemos, que ficava em paragens muito mais distantes que a casa dos nossos avós, viagem de trem, é claro.

As dificuldades ficaram para trás e infelizmente os trens também. Os governos do Brasil acabaram com a malha ferroviária e o pouco que restou hoje só serve aos turistas mais elitizados, já que os preços das passagens são dos mais caros do mundo. Um destes trechos ainda ativado é o trecho entre Campinas e Jaguariúna, 23 km de ferrovia cruzando por antigas fazendas de café em um senário rural, como nos meus tempos de criança.
O ferrotrekking (caminhada por linha férrea) vai aos poucos se tornando popular no Brasil, primeiro porque há muito caminho abandonado pelo país e segundo porque estes lugares costumam cruzar por lugares incríveis. Ferrovia do trigo no sul, Angra x Lídice no Rio, Funicular na Serra do mar paulista são só alguns exemplos. Alguns de nós já havíamos cruzado a Campinas x Jaguariúna andando na Maria fumaça, mas agora achamos que já estava na hora de encararmos o trecho a pé e essa caminhada descompromissada foi aceita pelos irmãos de sempre, Rogério e sua esposa Valquíria (Val) e o Dema, companheiro fiel das ultimas roubadas, na verdade todos esses aí são companheiros de roubadas memoráveis desde sempre e ainda não aprenderam com as furadas ou então se esquecem rápido e voltam a cometer os mesmos erros de sempre e voltam a aceitar outro convite meu. (rsrsrsrsrssr)

Eu o Dema marcamos de nos encontrar com o casal no centro de Campinas, enfrente a Igreja Universal da Av. Campos Sales, que é de onde sai o ônibus 369 que vai para o bairro Imperador e 31 de Março e passa enfrente a Estação Anhumas, lugar de onde parte a Maria Fumaça e também início da nossa caminhada. Chegando a pequena estação, que fica junto ao rio que lhe empresta o nome, vimos que a Maria fumaça já estava sendo abastecida com madeira e sua caldeira já estava acesa e sendo preparada para carregar a turistada depois das dez da manhã. Era pouco mais de oito da manhã e só havia nós na estação, uma garoa fina caia esporadicamente e então ficamos esperando que ela parasse e que os funcionários da ferrovia saíssem da nossa vista para podermos partir dali mesmo, não que eles tivessem dito que era proibido, mas vai saber. A Val queria perguntar se havia algum problema partir para a caminhada saindo ali da estação, mas no Brasil o lema é não perguntar nunca, porque a resposta vai ser sempre não. Para não afrontar as “autoridades” resolvemos sair da estação Anhumas e caminhar pouco mais de 100 metros pelo asfalto e logo à frente entramos em uma porteira aberta, junto a uma casa à beira da ferrovia, mas se alguém se sentir constrangido, o melhor mesmo é seguir um pouco mais ainda, talvez uns 300 metros e adentrar na linha em definitivo, sem mais ninguém para encher o saco.

Vinte minutos de caminhada desde a estação nos leva ao viaduto da Rodovia D. Pedro, que cruza sobre nossas cabeças. Logo passamos ao lado da Estação de Tratamento de Esgoto Anhumas e mais à frente a linha férrea passa por uma língua de mato, de onde já conseguimos avistar o amontoado de prédio da cidade de campinas, em uma visão diferente da sede da região metropolitana. A chuva parou definitivamente e os músculos já estão completamente aquecidos, porque apesar de parecer fácil andar pelo plano da linha de trem, o caminhar é dificultado pelas pedras e pelos dormentes e mesmo apertando o passo, acabamos por perceber que mal passávamos de 3,5 km por hora e acabamos gastando bem mais de uma hora para percorrermos os quase 5 km entre a Estação Anhumas e a Estação Pedro Américo, que homenageia o avô do proprietário que doou as terras para construção da estação. Na estação, bem preservada, aproveitamos para uma fazer uma parada, descansar e ficar jogando conversa fora com os moradores e funcionários da ABPF ( Associação Brasileira de Preservação ferroviária), entidade que tem a “concessão” deste trecho da ferrovia. No local há a casa do telegrafo, os armazéns que guardavam o ouro negro da época ( café) e vários prédios históricos.

Despedimo-nos da galera e retomamos nossa caminhada, tentando apressar mais o passo e ganhar tempo. Logo à frente cruzamos com mais um prédio histórico e às 10h00min da manhã chegamos próximo de um grande lago, exprimido entre o rio e um condomínio, onde um grande cata-vento marca o lugar onde talvez fosse possível acampar, mas não do lado do cata-vento, mas do lado direito da linha, junto a um gramadinho discreto. Mais a frente uma gigantesca fazenda de café da à mostra do que era aquela região no século XX. Estão ali os silos, a igrejinha, o terreirão, a casa de fazenda, mas um letreiro nos chama a atenção: PUSSYCATS DRINKS. É, tudo aquilo que movimentou o Brasil e fez surgir os Barões do Café, hoje está em completa decadência, uma zona, rsrsrsrssrsr. Mas logo depois da fazenda, já na Estação Tanquinho, cruza por nós a Maria fumaça . O encontro com essa histórica composição é um dos momentos mais legais do passeio. É uma maquina construída em 1.912 e o fato de saber que ela é a mesma que fazia a linha do Trem da Morte, que ia do Brasil até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, a torna muito mais especial. Ficamos por ali na estação de bobeira, nos deliciando com a tentativa do maquinista de atrelar a “fumacenta” a outra composição. O trem estava lotado de turista, que ficavam espantados com a nossa presença do lado de fora, já que apesar de parado na estaçãozinha, ninguém podia descer. O trem partiu, mas nós ficamos por ali, tomando folego e fazendo um lanche.

A Estação Tanquinho marca quase a metade do percurso. Daqui para frente a paisagem se torna mais rural e estamos caminhando em direção a calha do Rio Atibaia e depois do Rio Jaguarí e querendo chegar logo no primeiro, aceleramos ainda mais, hora caminhando pela linha , ora caminhando por pequenas trilha ao lado dela e mais à frente voltamos a encontrar nossa amiga “Maria”, parada , mais ainda soltando fumaça pelas ventas. Só estava a locomotiva porque os vagões foram puxados por outra maquina e pelo que nos pareceu, o maquinista parou ali para almoçar em um pequeno restaurante junto a linha férrea. Mais dez minutos de caminhada nos levou a atravessar o Rio Atibaia, bem seco por causa da estiagem. Uma grande ponte, que pode até causar um desconforte a quem não esta acostumado, mas bastante segura. Talvez seja o melhor lugar para acampar para aqueles que desejam fracionar essa caminhada em dois dias. Era o que eu pensava em fazer, partindo depois do almoço no sábado e deixando para terminar o roteiro no domingo. Depois do rio já se tropeça na Estação Desembargador Furtado, com um lindo jardim de cactos ao seu lado. Sem duvida é a estação menos preservada de todas, meio abandonada, onde o morador da estação reclama de um possível “maconheiro” que tentou arrombar umas das portas. Reclama da Dilma e pede que votemos no Serra. Metade do nosso grupo já diz logo que se a Dilma não for reeleita a coisa pode piorar, já a outra metade acha que a culpa de haver “maconheiro arrombador” , é da Dilma mesmo, rsrsrsrsr.

Outra hora de caminhada nos leva até um portão (aberto) onde uma placa discreta indica ser proibida a entrada. Entramos assim mesmo e descobrimos ser ali a área de manutenção dos trens e locomotivas. É um verdadeiro pulo para dentro da história ferroviária do Brasil. Estamos na Estação Carlos Gomes, em homenagem ao grande compositor campineiro. Há trens totalmente preservados, há trens destruídos e carcomidos pelo tempo, tem de tudo e mais um pouco. Deliciamo-nos entre as composições antigas, onde conseguimos localizar uma de 1.896 e como os funcionários não nos incomodaram ficamos um bom tempo por lá relembrando os nossos tempos de criança.

O estirão final é marcado já pelo cansaço e pela vontade de chegar e logo em uma curva já avistamos bem ao longe a cidade de Jaguariúna, um estímulo para apertar o passo mais ainda. Quarenta e cinco minutos depois passamos ao lado de um condomínio de João de barro, onde os pássaros aproveitaram o suporte do antigo telegrafo para construírem suas casas, é o “meu poste minha vida”. Mais à frente a linha começa a cruzar por cima do Rio Jaguarí, em uma ponte nova toda feita de concreto e foi aí que bobeamos e ao invés de cruzarmos por baixo da ponte, cruzamos por cima e corremos o risco de sermos atropelados por um trem. Pior é que só notamos isso quando já estávamos no meio dela e aí ficamos rezando para a dita cuja acabar logo, mas ela tem bem mais de 1.000 metros e se o trem aparecer der repente torça para você conseguir saltar sobre as palmeiras decorativas que sobem lá debaixo e alcançam os trilhos ou para que o Jaguarí seja fundo e você tenha tempo de saltar na água. Mas o trem não apareceu e quase às 15h00min horas adentramos na cidade de Jaguariúna e nos dirigimos até a estação de mesmo nome, onde batemos uma última foto e encerramos nosso roteiro, mas não sem antes nos deliciarmos com uma comida quentinha e gostosa de um pequeno restaurante , uns 300 metros longe da estação, já que na estação os preços são para turistas e tudo é superfaturado, chegando a custar mais que o dobro. Voltamos para Campinas de ônibus, poderíamos ter voltado de trem, mas a história tem seu preço e não quisemos pagar.

Em uma cidade verticalizada como Campinas, com quase nada para fazer ao ar livre, esse me parece um roteiro agradável, que além de render uma boa pernada, pode nos levar de volta a história escondida dentro de cada um que teve o privilégio de ter como companhia esse meio de transporte tão pitoresco e que fez parte da infância de muita gente. Muitos no Brasil acham que o trem é coisa do passado e preferem espezinhar a história, nós pelo contrário, preferimos usar nossos pés para reviver um tempo, que pode até não voltar mais, mas jamais poderá ser esquecido.

Divanei Goes de Paula – maio/2014
Anexos
Campínas x Jaguariúna.jpg
MAPINHA ILUSTRATIVO
Campínas x Jaguariúna.jpg (206.47 KiB) Exibido 836 vezes


Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 3 visitantes