Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#802249 por Kássio Massa
26 Jan 2013, 21:18
Trip realizada no dia 5 de Agosto de 2012

Confira a galeria de fotos completa desta trip!


"Muitos aqui vivem, mas poucos daqui ousam se aventurar além dos limites cinzentos desta grande floresta de concreto chamada São Paulo."

A vida frenética e efervescente típica de grandes metrópoles não deixa de lado esta vasta mancha urbana. São Paulo exibe sua imponência enquanto cidade em suas inúmeras atrações, apesar de sofrer com seus peculiares problemas tais como a famigerada violência e o trânsito caótico. A soma destes elementos nos faz desacreditar que, a poucos quilômetros do centro desta badalada urbe, podemos nos deparar com a Serra da Cantareira, um denso remanescente de Mata Atlântica secundária, considerada a maior floresta urbana do mundo.

O nome "Cantareira" nos remete aos séculos XVI e XVII, quando esta região serrana era rota de tropeiros que estabeleciam relações comerciais entre São Paulo e Minas Gerais. Estes comerciantes carregavam seus suprimentos de água em jarros chamados "cântaros" e os guardavam em prateleiras sugestivamente chamadas de "cantareiras". A área foi intensamente explorada no ciclo do café paulista, tendo grande parte de seu território devastado para dar lugar às áreas de plantio. Mas com as medidas preservacionistas tomadas nas últimas décadas, a flora e fauna vêm se recuperando de forma muito interessante.

Abrangendo os municípios de São Paulo, Mairiporã, Caieiras e Guarulhos e cobrindo uma área de 64800 hectares, integra o Cinturão Verde da Cidade São Paulo. Sua encosta sul é administrada pelo Parque Estadual da Cantareira, unidade de conservação concebida e mantida com objetivo de promover o turismo sustentável - e auto-guiado sob uma taxa simbólica de R$5 para ingresso nos núcleos do parque - em seus inúmeros atrativos - tais como o mirante da Pedra Grande (1010m), quedas d'água e trilhas diversas - , bem como de proteger este importante ecossistema, garantindo que a cidade, por meio da especulação imobiliária, não a engula de vez


Já havia visitado, algumas poucas vezes, o Núcleo Pedra Grande, onde pude ter meu primeiro contato com a Serra da Cantareira e contemplar uma vista surreal da metrópole, vista a 1010m, bem como uma outra trilha secundária que leva a um charmoso lago de carpas. Mas algo dentro de mim dizia que aquela região não se resumia somente ao que os já badalados núcleos do parque poderiam oferecer. E numa oportunidade ocasional, em Agosto de 2011, eu, o Gabriel Medina e o Leandro Furquim, nos embrenhamos num ponto mais abandonado da serra, nos arredores da antiga Estrada da Vista Alegre, utilizada pela Sabesp para manutenção de seus tanques de captação de água, atualmente desativados. E foi nesta ocasião que acabamos por mapear alguns curiosos caminhos e cenários que encontramos, além dos piscinões represados. Eis que o mais curioso destes atrativos, um desmoronamento de rochas, formava uma gruta de tamanho considerável, cuja qual em seu interior corria um riacho límpido que se perdia vale abaixo. Intrigados com a "descoberta", mas assolados pelo mal tempo que naquele dia nos fez abortar a "mini-expedição", prometemos a nós mesmos um retorno mais detalhado a este local, retorno este conseguido quase um ano depois, desta vez sob a participação de um grupo maior.

Nosso objetivo era simples: pretendíamos atingir a referida gruta, com acesso pelo sopé da serra, localizada em uma propriedade particular, e a partir da mesma, tentar emendar com a Estrada da Vista Alegre, por meio de alguma possível trilha que supostamente conectaria os dois atrativos, ocasionando um circuito inédito na região. Esta estrada, de terra, nos conduziria de volta à civilização, nos deixando na Estrada da Santa Inês (esta liga a Zona Norte de São Paulo ao município vizinho, Mairiporã), nas proximidades da E.T.A. Guarau.

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Por se tratar de um bate-volta próximo, a logística simples nos permitiu grande flexibilidade. A maior parte do grupo que se encontraria por volta das 8h da manhã nas estações Santana e Palmeiras-Barra Funda, do Metrô, iriam de ônibus até o Hipermercado Andorinha, localizado próximo ao Núcleo Pedra Grande do P.E. da Cantareira e também ao Horto Florestal de São Paulo, onde estariam eu e o Gabriel os esperando e, a partir daí, nos dirigiríamos até o posto policial da Santa Inês, onde encontraríamos a Vivi e o Fábio, às 9h30, completando o grupo. Obviamente, houve atrasos, mas nada tão significativo!

Seguindo adiante por cerca de 20min, pela Avenida Santa Inês (não confundir com a Estrada Santa Inês, são a mesma via, porém, trechos distintos), atingimos uma região bem carente, referida ao bairro Jardim Antártica, onde após algumas quebradas, nos deparamos com a entrada do caminho anteriormente percorrido que nos conduziria a ruínas de um antigo vilarejo colonial português. Aqui existe uma guarita, onde trocamos ideia com o guardinha, alegando que pretendíamos apenas fazer uma trilha e que a conhecíamos. Por fim, sem restrições, o mesmo nos deixou passar e logo nos vimos diante de um rico patrimônio cultural cruelmente abandonado. Fizemos algumas fotos enquanto o Anderson procurava cantos do casarão e da capela - ambos sem tetos - onde pudesse trazer suas "modelos" para ensaios fotográficos.

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Enfim, após quase meia-hora, demos início definitivo à pernada, pela trilha que tem início a partir do casarão. Numa primeira bifurcação, tocamos para a direita, uma picada que seguia em direção ao riacho principal, mas vimos que a mesma complicaria logo adiante, apresentando deslizamentos e outros caminhos duvidosas. Então orientei a todos que retornássemos à bifurcação e seguíssemos pelo outro caminho, à esquerda, que subia a encosta do vale, nos obrigando em certo ponto a descer pela mata densa, de volta ao fundo do vale e ao riacho para, então, atingir a trilha secundária que nos conduziria à gruta.

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E lá fomos nós, subindo a encosta íngreme e acidentada daquele vale, até que feitos 600m de trilha, vimos que já teríamos condições de descê-la, uma vez que nesta área a vegatação era menos densa e o terreno menos acidentado. Sendo assim, cada um desceu à sua maneira, uns quase rolando, outros sentados, enfim, o importante é que todos venceram este primeiro "obstáculo". Por fim, às 11h30, nos vimos, finalmente, na "Trilha da Gruta", como gosto de chamá-la, e trata-se justamente do mesmo caminho pelo qual tentamos seguir no início, porém, agora, estávamos além dos obstáculos vistos no início.

Seguindo adiante, nos deparamos com outras pequenas formações rochosas e uma "Gruta-menor" - pequena de mais para caber gente dentro - no meio do caminho, e ainda uma bifurcação cuja sua exploração preferimos deixar para uma próxima ocasião, mesmo tendo nos arriscado por ela durante algumas dezenas de metros - na ocasião de 2011, passamos batido por estes locais. Após breve parada para descanso na Gruta-menor, o Fábio se queixou de seu pé que começara a doer, uma vez que naquela manhã, o mesmo teria sido atingido por uma gaveta em queda. Às 12h30, demos continuidade á pernada exploratória, porém, decidimos seguir com mais calma e cautela. O Fábio preferiu por não avançar mais e nos esperar na Gruta-menor, portanto, combinamos de retornar pelo mesmo caminho de onde viemos, para assim, reencontrá-lo ali mesmo, e não mais adotar o traçado originalmente proposto.

A Gruta principal ficava a menos de 10min da Gruta-menor. O local era fabuloso, a começar pela grande clareira que se apresentava diante do enorme desmoronamento de rochas que formou a gruta. Um pórtico estreito nos conduzia ao interior do salão, amplo e parcialmente iluminado pela luz natural que penetrava pelas frestas e aberturas entre os blocos de pedra. Ainda dentro da galeria, uma sequência de pequenas quedas d'água e piscinas naturais formada pelo riacho que esculpiu todo o vale permitia o refresco do dia.

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Ali ficamos durante algum tempo, até que nossos relógios começaram a escandalizar e a pressão dos compromissos de fim de dia nos fez seguir adiante, sem que antes, a Vivi trouxesse o Fábio, "na marra" para que ele pudesse conhecer a "'caverna' do lado de casa". Com o Fábio novamente presente, decidimos que retomaríamos o traçado original e procuraríamos o suposto caminho que nos deixaria na supracitada Estrada da Vista Alegre. Avançamos para além da Gruta, por uma trilha fácil e desimpedida onde um único trecho íngreme exigiu certa cautela para ser transposto. Num piscar de olhos, a trilha nos deixou numa estrada maior, de terra batida, que rapidamente identificamos como sendo a almejada Estrada da Vista Alegre, mais precisamente, na altura do 1º Tanque de captação. Missão [quase] cumprida!

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Novamente, as dores no pé do Fábio voltaram a infernizá-lo e o mesmo decidiu tomar rumo à Estrada da Santa Inês, onde descansaria e nos esperaria, enquanto nós seguimos estrada adentro até o "mirante", uma rocha de tamanho médio com vista panorâmica das comunidades ao redor.

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Feita alguma hora por ali, decidimos rumar de volta à civilização e irmos ao encontro do Fábio. Em cerca de 40min, deixamos a Estrada da Vista Alegre, já na Santa Inês, onde o reencontramos e seguimos de volta ao posto policial do encontro inicial, onde nos despedimos da Vivi e do Fábio, que seguiriam por outro caminho. Eu, o Gabriel, a Simone, a Camila, o Anderson e o Felipe paramos numa padoca próxima para nos esbaldar com algum bem vindo salgado, antes de nos despedirmos. Cada vês mais diluido o grupo, seguimos, desta vez, somente eu, o Gabriel e o Felipe rumo ao ponto de ônibus próximo ao Horto Florestal, onde o Felipe seria o próximo a seguir rumo próprio. Um detalhe curioso foi que flagramos a Vivi e o Fábio fazendo hora junto a amigos que encontraram por ali!. Batemos um último papo e nos despedimos pela segunda vez!

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Não importa o tamanho físico de uma pernada, nem mesmo a distância que nos separa de nossos destinos. Esta trip é uma prova de que mesmo no quintal de nossas casas existem locais de beleza cênica e que merecem ser desbravados e preservados.


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