Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka
#1027626 por Lucas Ramalho
01 Dez 2014, 09:05
Cheguei a Índia em fevereiro de 2013, em Mumbai vindo de Nairobi. Um casal amigo, Arjun e Lavynia, ofereceu seu apartamento para que eu pudesse me ambientar com a cidade. Trens auxiliaram na aventura pela cidade. Portas abertas, pedintes e o famoso pulo com o trem chegando na estação são suas características, nada muito difrente do que havia em São Paulo há uns 10 anos atrás. No segundo dia, caminhando pela cidade, ouvi uma música e resolvi seguir o som. Entrei no corredor de uma casa e lá no fundo um casal no chão realizava uma pequena cerimônia. Quando me viu, um outro rapaz se aproximou e pediu que colocasse meu nome em um papel dourado. Era o convite para um casamento que aconteceria no dia seguinte. Eu prontamente aceitei o convite. Na manhã seguinte apareci e em um ônibus com mais 20 pessoas fomos ao local da cerimônia. Foi-me servido um ótimo café da manhã e algumas pessoas chegaram para perguntar se eu era o rapaz que tinha vindo do Brasil para o casamento, eu respondi que sim hehe. A cerimônia durou horas e horas, eu acompanhei a primeira parte antes do almoço, em uma certa parte jogaram arroz nos noivos, em outra fizeram o ritual com a chama de uma vela. O almoço incluía buffet indiano e chinês, ambos vegetarianos. Eu desfrutei de tudo que poderia. Mais tarde conheci Shreeneth e fui a sua casa para trocar minhas roupas. Ele me emprestou um terno azul e uma calça social, eu comprei sapatos na rua e então retornamos à cerimônia. Já no salão, muitas fotos com os convidados, inclusive com os noivos e obviamente um jantar de gala que novamente incluía os dois buffets. Encerrada a cerimônia, disse a Shreeneth que queria ir a um bar, mas ele me levou para um lugar mais exótico. Uma porta de madeira discreta era a entrada. Sentamos em um sofá no meio do salão. Havia um palco em frente e músicas sensuais eram tocadas. Pedi uma cerveja e logo diversas garotas asiáticas começaram a desfilar para a gente: era um prostíbulo. Como estrangeiro, eu era um prato cheio por lá e não podia sequer sorrir para qualquer uma que isso já era um sinal de positivo. Bebemos a cerveja e eu incomodado disse a Shree para partimos. Tudo isso aconteceu já no meu segundo dia na Índia.

Eu continuei usando o terno azul pela cidade e era engraçado como muitas pessoas me seguiam e perguntavam o que eu fazia por lá e quais eram meus planos para a Índia hehe. A todo instante alguém vinha papear comigo. Conheci os principais pontos de Mumbai, o clássico Portão da Índia, feiras, templos, igrejas, bares, baladas. Comi em ótimos restaurantes acompanhado de Arjun e Lav e após uma semana decidi que era hora de partir. Segui então para Goa, destino mais famoso do país. Escrevendo isso hoje, acabei de ler que os viajantes poderão tirar visto de 30 dias no próprio aeroporto de Goa, inclusive, os brasileiros (naquela época, somente visto com antecedência). Decidi ir por terra. O transporte é um caso à parte no país. Os ônibus são equipados com beliches e todos viajam deitados. Comprei uma passagem simples e a trip duraria 12 horas. Na hora do embarque percebi que a largura das camas era muito boa e pensei comigo que dormiria confortavelmente a viagem toda. Ledo engano, nunca estamos confortáveis na Índia. Após uma hora, um rapaz que estava no fundo do ônibus se aproximou de mim e disse que ele logo viria descansar. Eu perguntei aonde e ele apontou para a letra B atrás da cama. Meu tíquete era a letra A e só então eu percebi que aquelas camas largas e confortáveis são para duas pessoas hehe. Fiquei bravo. Perguntei ao assistente do motorista porque ele não havia me dito nada e ele garantiu que tinha me dito. Não havia muito o que fazer, eu me enfiei no saco de dormir e deitei de ponta-cabeça eseprando pela chegada do rapaz. Felizmente ele era simpático e a noite transcorreu sem maiores problemas, exceto pelas curvas da estrada.

Cheguei pela manhã e após tomar um Masala Chai, encontrei uma pousada perto da praia. Conheci Jammie, da Nova Zelândia, Ros, da Inglaterra e Anna da Escócia, melhor jeito de treinar o inglês, impossível. Nos tornamos uma equipe de motociclistas, cada um de nós alugou uma scooter. Eu consegui uma por 1 dólar por dia, acreditem se quiser. De lá, visitamos diversos pontos de Goa, Vagator, Arambol e a capital com tradição portuguesa. Nesta última, eu comi até uma feijoada, um pouco diferente e mais apimentada, mas deu pra enganar. Em uma das tardes, fomos a uma clássica rave na praia e à noite visitamos diversas festas. Todos os estrangeiros em Goa alugam scooters, sendo que acidentes são bem comuns. Algo divertido ocorreu em uma das noites: terminada a festa, eu com Ros na Garupa voltei para o hotel. A estrada é bem escura e com bastante curvas. Eu, sem lembrar muito do caminho aquela hora da noite, peguei uma entrada à direita e após três minutos fui parar em uma rua sem saída com um portão grande em frente, quando olhamos pra trás, diversas outras scooters estavam nos seguindo e também tiveram que dar meia volta. Nós rimos que nem loucos. Há também um perigo adicional de se pilotar pela Índia: as vacas. De dia elas ficam na praia tomando sol e à noite, elas dormem no meio da rua e para quem está pilotando isto não é nada bom. Diversas vezes, tive que frear em cima para não bater em uma vaca dormindo no meio da rua estreita, parece até mentira, mas quem manda por lá são elas. E nada de buzinar, é preciso esperar que elas decidam se levantar e sair do caminho. Falarei mais delas na segunda parte. Fiquei uma semana em Goa e me diverti adoidado, para quem gosta de festa, aquele é o lugar, mas eu também queria ver algo mais “indiano” e segui viagem.

Novamente de ônibus fui para Hampi, no centro-sul da Índia, à beira do Rio Thungabhadra. Capital de um atigo império, possui centenas de templos antigos, esculturas, pinturas e sistema de irrigação, que compõem um cenário fantástico. Conheci Charlotte, francesa que viajava por lá e decidimos ficar no mesmo quarto. Passeamos de bike pela região e até fizemos um trekking até um monte próximo para ver o por do sol. Um ponto de destaque de lá são os cafés: não há cadeiras, todos sentam nos chãos e descalços assistem a filmes temáticos. Nada melhor que um ótimo almoço depois de uma pedalada e uma soneca no restaurante para recarregar as energias. Tive a impressão que o tempo por lá passou em um ritmo mais vagaroso e foi muito bom para curar a ressaca da frenética Goa. Segui ainda com Charlotte para Mysore, onde um palácio magnífico nos esperava para ser visitado. Ricamente decorado, o local impressiona tanto de dia quanto de noite, com shows de luzes na parte externa dele. Com mais dois franceses, seguimos então para um bar local. Quebrando o tabu machista do país, as garotas entraram conosco, mas não foi fácil. Ficamos em uma espécie de cabine só para a gente, mas não estávamos sós. Um ratão enorme quase do tamanho de um gato tentou entrar no recinto para desespero de Charlotte e da outra francesa que nos acompanhava. Em seguida um bêbado descontrolado também invadiu a cabine e num tom ameaçador falou alguma coisa em Hindi para nós. Depois disso, decidimos que era hora de partir, era Resident Evil demais para nós. Como estava muito calor na época, fomos para as montanhas do sul respirar ar fresco. Ooty foi nosso próximo destino, a 2400 metros de altitude, equivalente à nossa Campos do Jordão aqui de São Paulo. Com um ritmo mais tranquilo e com uma temperatura média de 14ºC, serve como um refresco para o quente verão indiano. Charlotte e eu ficamos em uma incrível pensão colonial e fizemos um trekking pelas montanhas da região. Com um comércio voltado para o turismo, mas também para agricultura, as colinas impressionam pelas plantações de chá, de legumes como batata, couve-flor e de frutas como pêssegos, ameixas e morangos. Dessa vez quem nos atormentou foram os macacos, extremamente agressivos, eles podem te atacar facilmente caso vejam que você está com uma banana que a princípio é deles. Eles me roubaram um doce que eu pus ao meu lado enquanto estava sentado em um banco, mas por sorte, pouparam o meu celular. Após dois dias, me despedi de Charlotte que estava indo ao leste indiano para um trabalho voluntário e eu segui ainda mais para sul: para o rico estado de Kerala.

Com o maior PIB da Índia, o pujante estado de Kerala apresenta diversas atrações. Tratamentos Ayurvédicos à beira-mar, surf nas ondas de Varkala, Yoga, ótima gastronomia, além de alimentação orgânica e vegetariana por toda parte. No hostel Shiva Garden, conheci Mike, da alemanha e Erick da Suécia. Formamos uma equipe de surf e nos arriscamos pelas ondas da praia em frente. Os hostels ficam todos no topo de uma colina, enquanto que para acessar a praia é preciso descer uma grande escadaria. O cenário é fantástico. Tomamos muito caldo no mar, mas deu pra se divertir. À noite, violão, fogueira, chai e muita diversão. Fiquei quatro incríveis dias por lá e até pratiquei um pouco de Yoga ao amanhecer com uma portuguesa, dona do Shiva Garden. Fizemos a saudação ao sol, Surya Namaskar. Eu me despedi de Mike e Erick que acabaram comprando um Rickshaw (triciclo automotor usado como táxi na Índia) e decidiram seguir para Goa. Eu fiz minha última parada no sul da Índia em Kollam, para um passeio pelos canais do lago Ashtamudi, um dos mais preservados da Índia. A região inteira é conectada por canais e tudo é feito de barco por lá: ida à escola, igreja, mercados flutuantes, visitas a pontos turísticos, vale a pena conhecer a região. Por fim, segui então para Madurai para uma breve visita ao espetacular templo Meenakshi Amman e de lá peguei meu avião para a Delhi começando uma outra jornada, mais turbulenta, mais quente e ainda mais insana pela Índia. Conto na Próxima.

Lucas Ramalho
Anexos
20130319_103648.jpg
Amman Temple em Madurai
20130318_120217_edit.jpg
Escola em kollam
20130318_111633.jpg
Canais de Kollam
20130317_181309.jpg
Kollam
20130317_085300_edit.jpg
Equipe de Surf em Varkala
20130317_081543_edit.jpg
Cerimônia em Varkala
20130314_153718.jpg
Varkala Beach
20130308_115447.jpg
Hanuman
20130308_103129_edit.jpg
Charlotte, eu e o Deus Sapo.
20130306_182648.jpg
Hampi
20130306_092749.jpg
Hampi
20130306_071419.jpg
Hampi
20130305_132009.jpg
Quanta Pipoca
20130302_144025_edit.jpg
Equipe scooter em Goa
20130302_140348_edit.jpg
Goa
20130228_160633.jpg
Rave em Goa
20130225_142058_edit.jpg
Vacas curtindo um sol em Goa
20130224_171407_edit.jpg
Onibus para Goa com cama compartilhada
20130224_161511.jpg
Buzine Por Favor!
20130223_130629.jpg
Mesquita Branca em Mumbai
20130222_181131.jpg
India Gate
20130220_222144.jpg
Foto com a Família
20130220_221117_edit.jpg
Foto com os noivos
20130220_192325.jpg
Foto com Shreeneth
20130220_142924_edit.jpg
Noivos
20130220_131509_edit.jpg
Celebração
20130220_104809.jpg
onibus para o casamento



Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 0 visitantes