Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka


#1030165 por Lucas Ramalho
07 Dez 2014, 18:24
Seguindo viagem pela extraordinária Índia, eu saí de Madurai no Sul do país e voei até a caótica Delhi. Com mais de 20 milhões de habitantes em sua área metropolitana, a capital do país apresenta uma organização bem confusa. Em muitas avenidas, não há contramão e cada um faz o caminho que quiser. Lá, eu peguei um trânsito inacreditável mesmo estando de bicicleta. Chega a ser bizarro lembrar das vacas presas no meio do intenso tráfego humano. Falando nisso, há vacas por toda parte, inclusive nas estações e dentro dos trens haha. No restaurante enquanto desfrutava de um Veg Biryani (mix de arroz apimentado com vegetais), uma vaca ruminava ao meu lado. Elas também tem passe livre pelos templos e monumentos do país. Infelizmente se alimentam de lixo e restos de comida, sobretudo nas cidades; eu cheguei a ver vacas lambendo a lataria de motos sabe-se lá pra quê. Uma outra questão interessante em Delhi é a alimentação, apesar de ser barata, é preciso ter um extremo cuidado para não ter problemas estomacais, existe até um termo comum entre os viajantes para indicar o problema: Delhi-Belly. Eu mesmo peguei uma senhora diarréia após comer um frango suspeito em um restaurante. A higiene é mínima por lá e qualquer descuido pode ser fatal. Após uma curta visita aos pontos principais da cidade, tratei logo de sair de lá. Fui de trem para Udaipur, conhecer seu famoso City Palace.

Era final de março e logo ocorreria o Holi Festival, famoso festival das cores que celebra o início da Primavera na tradição Hinduísta. De Udaipur eu segui então para Pushkar para comemorar o evento. A cidade é pequena e possui apenas uma via principal que circunda o sagrado lago Pushkar, onde muitos peregrinos se banham. Pela cidade, eu encontrei Jammie, que fez parte da nossa equipe de motociclistas de Goa. Como precisava relaxar um pouco, fiquei em uma super pensão com piscina, ar condicionado e tudo mais por um preço bem módico. A cidade é famosa pelo Templo de Brahma, um dos poucos dedicado a ele em todo mundo. A cerimônia do Holi começou na noite de lua cheia com a queima de Holika, mulher-demônio, representando o triunfo do bem sobre o mal. A cidade inteira se reuniu no cruzamento principal e após uma série de mantras e cantos sagrados, deu-se início à fogueira. Houve então muita dança em volta dela até às 4h da manhã, quando a multidão se dispersou. No dia seguinte, logo cedo, começou de fato o festival de cores. Eu fui com uma roupa bem velha e em cinco minutos já estava completamente colorido. Rico ou pobre, mulher ou homem, hindu ou não-hindu e até mesmo as vacas não escapam dos pós coloridos. A cerimônia vai até de tarde com dança e celebração até o final. Foi um evento espetacular e até hoje guardo na memória detalhes da festa.

Segui então para Jaipur, para conhecer o imponente Forte Nahargarh. Conhecida como a cidade rosa, Jaipur impressiona pela organização de suas ruas e pela divisão dos distritos. Não é à toa que faz parte do triângulo dourado que inclui Delhi e Agra (Taj Mahal), compreendendo um circuito de visitação prático e acessível para os viajantes. Falando nisso, fui então visitar o famoso Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo moderno. Para quem não conhece, é um mausoléu de mármore branco construído pelo Imperador Shah Jahan para a sua terceira esposa. É tida como a joia da arte islâmica na Índia. Cheguei cedo para a visita e fui um dos primeiros a entrar. Acompanhado de uma japonesa, testemunhamos um batalhão de pessoas que se amontoavam para tirar fotos incessantes do Taj. Em um momento, pensei que o monumento iria ser implodido em breve, tão afoitos estavam todos para tirar fotos dele. Obviamente que o Mausoléu impressiona pela harmonia e concordância, mas acredito que alguns que estavam ali não desgrudaram os olhos da câmera e nem sequer apreciaram propriamente a obra. Nós entramos dentro dele, apreciamos o jardim e relaxamos um pouco. O preço da entrada é caro para os padrões indianos, porém ele é diferente para turistas estrangeiros e nacionais. Nada muito de assustar, na época custou 25 dólares e vale muito a pena. Ainda dentro do triângulo dourado, há uma cidade chamada Vrindavan que é pouco visitada por estrangeiros. O inglês não é muito falado por lá. A cidade é tida como o Vaticano da Índia, lugar sagrado para todas as tradições hinduístas. Segundo reza a lenda, Krishna teria nascido a 10 quilômetros de lá, em Mathura. Há centenas e centenas de templos localizados um ao lado do outro. Impressiona a demonstração de fé dos indianos que visitam o local. Dentro de um dos principais templos da cidade, eu testemunhei uma intensa catarse coletiva, com gritaria, choro, alegria, tudo ao mesmo tempo. Em outro templo, eu vi uma beleza inacreditável nos detalhes, nas esculturas e quadros e na arquitetura. Se estiver visitando esta parte da Índia, Vrindavan é imperdível.

De trem então segui para o leste, para visitar Varanasi, tida como capital espiritual da Índia. Lá testemunhei as tradicionais cremações dos mortos. Segundo a lenda, morrer em Varanasi traz a salvação para a alma. Por isso, muitos hindus trazem seus entes falecidos para a cremação à beira do rio Ganges. Não é um ritual fácil de assistir, alguns dele vem enrolados em panos, outros vem com face, pés e braços descobertos. Diversas fogueiras ficam acesas ao mesmo tempo e há um fluxo continua de corpos, sobretudo, à noite. Após a cremação, as cinzas são jogadas no Ganges. Para quem tem estômago para assistir, é um momento auspicioso em que paramos para refletir sobre o que é a morte. Pela manhã, muitos hindus se banham no rio, apesar de estar intensamente poluído (também serve para refletir sobre o que fazemos com nossos rios). A temperatura passava fácil dos 40 graus na região e eu ainda tinha uma última parada antes de rumar às montanhas do norte: Khajuraho.

A pequena cidade é um destino popular entre os viajantes pelos templos jainistas e hinduístas famosos pelas esculturas eróticas nas fachadas externas. Segundo a história, a dinastia Hindu Rajput na época da construção dos templos era seguidora do culto tântrico e decidiu esculpir centenas de figuras de posições sexuais envolvendo homens, mulheres e animais. O local impressiona pela qualidade e conservação dos templos que datam do século X. As representações eróticas são bem detalhadas e sugestivas e às vezes envolvem grupos e até mesmo cavalos. Para quem gosta do tantrismo ou se interessa por história e arqueologia em geral, vale a pena a visita. A temperatura já chegava aos 45ºC e era hora de rumar para lugares mais serenos e tranquilos: para as montanhas do norte. Minha próxima parada foi a fantástica Rishikesh, capital internacional do Yoga. Conto na próxima e última parte referente à Índia.
Lucas Ramalho
Anexos
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Esculturas do Kama Sutra
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Khajuraho
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Khajuraho
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Varanasi
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Varanasi
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Varanasi
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Varanasi
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Templo em Vrindavan
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Lassi em Vrindavan
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Taj Mahal
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Taj Mahal
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Taj Mahal
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Water Palace, Jaipur
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Water Palace, Jaipur
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Jaipur
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Nem a Vaca Escapou
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Holi
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Holi Festival
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Cerimônia Holi
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Holi
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Queima da Holika
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Pushkar
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Pushkar
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City Palace em Udaipur
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Trânsito em Delhi
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Barbeiro
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Delhi
Editado pela última vez por Lucas Ramalho em 29 Mai 2016, 17:39, em um total de 1 vez.



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