Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka


#1032198 por Lucas Ramalho
12 Dez 2014, 12:20
Para sair do tórrido verão indiano, na última parte da minha trip pela Índia, eu fui para as montanhas do norte, de Khajuraho diretamente à Rishikesh, capital internacional do Yoga. Ao chegar à cidade, primeira grande surpresa: muita gente falando português. Local onde está o Ashram do Prem Baba, milhares de brasileiros todo ano visitam o lugar para um Satsang com ele. Como eu não sabia disso até chegar lá, achei que eu tinha me teletransportado de volta a alguma localidade do Brasil desconhecida. Minha segunda surpresa foi a limpeza do rio Ganges naquele ponto: como Rishikesh é a primeira grande cidade à beira do rio Ganges, suas águas límpidas e geladas são um convite a um mergulho sagrado. Toda noite havia danças, cantos e mantras com dezenas de pessoas em comunhão bem pertinho do rio. O fluxo energético é enorme no local e Rishikesh me pareceu um dos Chakras principais da Terra onde a energia cósmica dança e vibra em todos que ali se encontram (lugares não são apenas lugares). Na cidade, é proibido o consumo de carnes e álcool e em contrapartida é possível desfrutar de dezenas de pratos vegetarianos deliciosos nos restaurantes localizados à margem do Ganges. É até possível experimentar o famoso Bhang Lassi ou Special Lassi, iogurte com partes das flores e folhas da Cannabis usado há séculos na Índia. Só provando pra entender.

Para quem gosta de Yoga, Rishikesh é a Meca. Dezenas de locais oferecem cursos, práticas, encontros em suas diversas abordagens: Hatha Yoga, Ashtanga Yoga, Raja Yoga, Bhakti, tem para todos os gostos e eu encontrei até um russo que oferecia Ignis Yoga por lá, método que ele próprio desenvolveu. Para quem gosta de massagem, é possível se aprofundar na Ayurvédica e outras variantes. Falando nisso, há grupos de estudos e práticas da medicina Ayurvédica, das técnicas de respiração como o Pranayama e por aí vai. Alguns monastérios oferecem o Vipasana, processo em que o praticante fica 10 dias sem comunicação (sem falar) e com uma alimentação restrita. Enfim, a cidade é um prato cheio pra quem se interessa por tudo isso. Passei 10 dias em Rishikesh, mas foi pouco. Conheci gente do mundo inteiro, desfrutei de cachoeiras próximas à cidade, fiz passeios de bicicleta, conheci sadhus que optaram por não participar da sociedade e se isolaram nas montanhas, tomei um super café depois de um trekking com 2 holandesas, Julia e Lidh, em um hotel cinco estrelas chamado Ananda Hotel Spa, local onde geralmente as autoridades, presidentes e primeiras-damas se hospedam quando visitam a região (uma noite por lá custa 700 dólares). Para quem gosta de esportes, há opções de rafting no rio Ganges, trekking nas montanhas próximas, ciclismo e outros mais. Eu fiz o rafting no Ganges, que não se compara ao rafting do Rio Nilo, mas vale a diversão até pelo preço que é irrisório e dessa vez o bote não virou nenhuma vez. Como nem tudo são flores, mais uma vez eu peguei diarréia, mas que felizmente durou apenas um dia. Mesmo comendo em restaurantes de boa qualidade, nunca se sabe. Como eu tinha apenas mais 20 dias de visto, segui então mais ao norte, para Dharamsala, outro lugar muito especial.

Cidade onde está assentado o Dalai Lama, Dharamsala é ainda mais alta e mais fria que Rishikesh. Na época o Lama estava de férias, mas eu fiz uma visita ao seu monastério Namgyal, local de residência de diversos monges e aspirantes. É possível observar seus diversos cantos, rituais, conversar com eles e até participar de suas práticas. A vista da região é inacreditável e o friozinho torna aquele lugar super aconchegante. À noite, sempre ocorre alguma celebração nos diversos cafés espalhados pelas montanhas. Falando em montanha, eu decidi realizar um trekking de 3 dias até Indrahaar Pass, aproximadamente a 4300 metros de altitude.

Quem me acompanhou na aventura foi a Carol da França. Nós preparamos a mochila e com um mapa pusemos o pé na trilha. O primeiro trecho até Triund (2900 metros) foi tranquilo, mas conforme íamos subindo, o tempo foi mudando e logo começou a nevar. Aquela época (abril) não é recomendada para subir até o pico, já que a neve acumulada torna a subida difícil e perigosa. Nós chegamos até Laka Got, conhecida como linha da neve, onde fica um acampamento temporário de locais que vendem café e alimentos. De lá começa uma inclinada montanha de gelo rumo ao pico. Com a neve, o caminho foi ficando mais complicado. O plano era pernoitar na Caverna Lahesh a 3500 metros e realizar o ataque ao pico de manhã. No caminho encontramos um casal e um guia que tinham tentado o ataque ao cume, mas sem sucesso. Nós achamos a tal caverna, porém ela estava cheia de gelo e nós então acampamos nas pedras em volta dela. Como nevava e ventava, a sensação térmica foi lá embaixo, mas nós sobrevivemos a noite. No dia seguinte, tendo em conta a tentativa do guia e do casal no dia anterior, nós abortamos o ataque e decidimos regressar a Laka Got. No caminho vimos diversas pegadas de ursos. Passamos a segunda noite em uma caverna próxima, que dessa vez estava seca, e no dia seguinte voltamos para Dharamsala, por um outro caminho, acompanhando um grupo que também estava por lá. Apesar de não termos chegado até o pico, a trilha foi compensadora por todo o nosso esforço e coragem de suportar aquele frio intenso das montanhas e pelas vistas espetaculares que tivemos da região. Como a Carol também estava indo pra Ladakh, fomos juntos pra aquela região do extremo-norte indiano considerada o Oásis do país.

Na Índia, uma viagem de ônibus não é só uma viagem de ônibus, é uma verdadeira expedição. De Dharamsala até Leh, capital de Ladakh, nós pegamos três ônibus e levamos cinco dias. De Dharamsala fomos a Srinagar onde fizemos uma pausa de 1 dia. Local de forte influência muçulmana, a cidade é bem organizada e recebe muitos turistas de outras partes da Índia. Diversos botes ficam atracados na orla e servem como hospedagem tanto para os locais quanto para os visitantes. Vale a pena dormir em um deles. Nós então pegamos um ônibus que iria até leh. Saiu às 5h e seguiu pelas montanhas nevadas rumo à capital. A travessia chega até 4 mil metros de altitude e não é raro alguém vomitar pelo caminho. Na primeira tentativa, após cinco horas de viagem, chegamos a um ponto em que a estrada estava bloqueada por uma avalanche. Após horas parados por lá, o motorista optou por voltar à Srinagar. No dia seguinte, nova tentativa, mas a viagem tinha sido remarcada para o próximo. Assim no dia seguinte finalmente embarcamos no mesmo horário, às 5h da manhã. Dessa vez a avalanche ocorreu em frente do ônibus. Havia apenas mais cinco ou seis carros parados à frente. Nós fomos caminhando para ver a montanha de gelo que se formou na estrada. Não era tão grande, aproximadamente dois metros, mas o suficiente para bloquear a passagem. Havia poucas pás ou picaretas, então os indianos começaram a cavá-la com as próprias mãos para retirar o gelo, a tarefa durou incríveis cinco horas. Eles abriram uma passagem por entre o gelo e os carros menores conseguiram passar, mas com muito custo já que a pista escorregava demais. O ônibus tentou três vezes e somente na última e com um ronco forte do motor ele passou. Como estava tarde, o motorista decidiu pernoitar em Kargil, metade do caminho. Dia seguinte, finalmente nós completamos a missão e chegamos em Leh antes do por do sol. Que aventura. A cidade encontra-se a mais de 3 mil metros de altitude e possui um cenário fantástico. Como ainda não tinha começado a temporada, vários hotéis estavam fechados. Nos abrigamos em um hotel aconchegante e quente (lá faz bastante frio à noite). Floron, amigo de Carol, chegou no dia seguinte e nós então programamos uma nova trilha dessa vez de 5 dias pelo Markha Valley.

A trilha é bastante árdua e conta com uma passagem máxima a 5100 metros aproximadamente chamado Gongmaru La. Fomos sem guia como sempre e levamos comida suficiente apenas para a caminhada, já que à noite, algumas casas ao longo da trilha oferecem hospedagem e jantar para os trilheiros. Não havia ninguém pelo caminho já que a temporada começaria no mês seguinte e mesmo algumas casas estavam fechadas. Por sorte, famílias indianas vivem por lá o ano inteiro e auxiliam na trilha. Ela começa de uma forma inusitada, com uma caixa acoplada a uma corda para atravessar um rio. O primeiro dia foi tranquilo, já o segundo rendeu oito horas de caminhada até Markha Village. O próximo dia também foi mais curto, já que a passagem seria no quarto dia. Saímos bem cedo, às 6h e começamos em um ritmo forte. Paramos para comer e ao meio-dia comçamos a subida até a passagem. Fazia bastante frio e a altitude aumentava o esforço da subida. Nós fomos de forma bem vagorasa e por volta das 14h finalmente alcançamos o pico. Pausa breve para fotos, aperitivos e logo seguimos em frente, havia mais 5 horas de descida até a casa mais próxima. No fim do dia, após 13 horas de caminhada, estávamos esgotados. Um jantar que parecia de gala fechou com chave de ouro aquele dia de grande esforço e coragem. Nós dormimos como bebês. O úlitmo dia, enfim, foi bem mais tranquilo e após uma hora já estávamos à beira da estrada. De lá pegamos um táxi de volta a Ladakh e voltamos para o mesmo hotel. Após uma noite bem dormida, eu desfrutei então do meu último dia na Índia naquela viagem. Tinha vôo para Delhi no dia seguinte, e de lá para Kathmandu, Nepal, de onde iria começar uma expedição rumo ao acampamento base do Everest. Conto na Próxima. Ahô!

Lucas Ramalho
Anexos
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Cavando a Estrada
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Rumo a Leh, Norte da Índia!
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Srinagar House Boat
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Srinagar
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Manis
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Surfando na Neve
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Carol
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Carol e Eu em Triund, Dharamsala
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Monastério do Dalai Lama
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Mergulho nas montanhas
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Equipe Rafting
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Macacos
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Passeio com Sabina
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Sadhu
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Capital do Yoga, Rishikesh
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Rafting
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Café Filosófico
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Julia e Lidh
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Ganges ao Fundo
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Ganges
Editado pela última vez por Lucas Ramalho em 29 Mai 2016, 17:41, em um total de 1 vez.



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