Manual de Compra: Mochila Cargueira

Marcas, modelos, litragem, informações e dicas sobre o principal equipamento e companheiro do Mochileiro : A Mochila


Manual de Compra: Mochila Cargueira

Mensagem não lidapor ogum777 » 18 Jan 2009, 21:31

este é um guia sucinto para quem vai comprar a sua primeira mochila cargueira - aquela mochilona gigante que muita gente usa pra viajar e também em determinadas atividades ao ar livre. não se trata de uma demonstração das mochilas existentes no mercado, mas informações para você comprar a sua mochila cargueira, para saber escolhê-la, sem jogar dinheiro fora num produto muito barato que logo estragará nem em um produto extremamente caro com detalhes que você nunca usará. serve de guia para você que quer parecer um mochileiro descolado - pois todo mundo acha descolado parecer um viajante desencanado, mas poucos efetivamente o são.....

SITUAÇÕES QUE NOS FAZEM PENSAR EM COMPRAR UMA BOA MOCHILA CARGUEIRA.

primeiro vamos descrever 4 cenas:

1. final dos anos 70, num aeroporto do nordeste. o garoto de uns 8 anos de idade, já sabendo ler, vê um viajante com cara de estrangeiro, loiro, pele muito queimada, cabelos longos mal tratados pelo sol e pela areia do mar, chinelos de couro, e uma mochila imensa nas costas. começa a seguí-lo, curioso, pelo aeroporto. consegue ler o que está escrito atrás (sem saber que era a marca da mochila), a palavra "lowe". um dado momento o viajante percebe o olhar curioso do menino, vira-se, dá um sorriso, fala alguma coisa (provavelmente em inglês, mas o menino não entende nada), passa a mão em sua cabeça, e vai para o portão de embarque de algum voo. o menino não percebeu, mas se tornou mochileiro naquele dia.

2. anos 80, um grupo de adolescentes escoteiros, todos metidos a rambo, pegam um domingo para fazer trilhas em paranapiacaba, distrito de santo andré, cidade do ABC paulista. descem a serra, por dentro da mata atlântica. conhecem bem as trilhas dali e, naquele domingo, sem que seus chefes escoteiros soubessem, armaram o passeio. enganaram os pais, avisando que haveria adultos entre eles. dia nublado, nas costas do adolescente uma mochila tiger, de nylon. mochila simples, apenas o compartimento principal e um bolso, já tinha sido utilizada em um zilhão de atividades escoteiras e ainda era usada para levar o material escolar. o adolescente num dado momento, tem que fazer como os demais, e atravessar um rio com a mochila sobre a cabeça. no meio do rio as solas dos coturnos velhos siplesmente descolam, transformando as botas em polainas. nas pernas os joelhos da velha calça jeans rasgam. e meia hora depois, caminhando no resto da trilha que os levaria o pé da serra (o passeio consistia em descer toda a serra do mar, até cubatão), a mochila rasga nas duas alças. com um saco plástico e um pedaço de cordelete de sisal, o adolescente improvisa uma mochila simples, e coloca toda a sua tralha lá dentro, consistente, de uma garrafa de água, os restos da outra mochila, o lanche, uns dois isqueiros e uma faca - e os restos da bota. voltou calçando um par de tenis que um outro simplesmente esquecera dentro de sua mochila. e assim o adolescente descobriu que mochilas e calçados simplesmente não podem dar defeito em trilhas sob hipótese alguma.

3. anos 00. advogado e professor universitário embarca num projeto utópico de criação e implantação de um curso universitário a 400 kms de sua casa. começa a viajar semanalmente para a dita cidade, carregando sempre muita carga: roupas e muitos livros. em um ano detona porta-ternos, malas, bolsas e etc. cansado de gastar dinheiro com malas que não duravam nada, resolve comprar uma mochila cargueira. achando que sabe de tudo, que é muio esperto, compra uma mochila grande da náutilka. na terceira viagem a mochila começa a esgarçar o tecido. com aquela sensação ruim de ter gastado dinheiro em besteira, fuça na net, acha o mochileiros.com, lê um monte de posts de outros usuários e depois, no orkut, acha alguém que esteja vendendo uma boa mochila usada, uma mont blanc alpinist 60+15 que já tinha sido usada na trilha inca e no caminho de santiago de copostela. compra a mochila e, nos primeiros 5 minutos da viagem seguinte, os primeiros 5 minutos com a mochila carregada nas costas percebe o que é uma boa mochila, com boa transferência de carga. e mesmo com cerca de 10 anos de fabricação, a mochila vai firme e forte. com apenas um reparo.

4. final de anos 00. o personagem da historinha anterior vê um outro colega, que participa do mesmo projeto útópico a 400 kms de são paulo, que também levava ternos, roupas, livros e ainda mais alguns pesos de musculação pra se exercitar no hotel, chegar a um outro local de trabalho fulo da vida: ao descer do ônibus com a mala, a mesma teve sua alça arrebentada. e no caminho próximo ao outro local de trabalho, a mala simplesmente se desfez. depois de muitos xingamentos, o dono da mala pergunta ao personagem da historinha anterior, onde comprar uma mochila cargueira decente. pois se algo resiste a levar carga ao topo do everest, deve resistir a levar alguns pesos pra musculação em viagens.

são quatro situações diferentes, evidentemente. a primeira retrata a figura normalmente fascinante do mochileiro aos olhos dos outros. as outras três mostram o porquê de algumas pessoas preferirem as mochilas - com alguma qualidade, claro. ao contrário do que muita gente pensa, não é uma mera questão de estilo, de aparência, de "atitude". mas de um modo de viajar.

um modo que tem vantagens e desvantagens. por exemplo, pra se deslocar no piso liso de um aeroporto, nada melhor do que uma mala de rodinhas, cujo peso não está nas costas, mas no piso, diretamente. malas você pode levar quantas quiser e quantas puder pagar para que o carregador leve. já a mochila limita o tamanho da sua carga ao tamanho e resistência da mochila e, também, à sua capacidade de carga (que apenas em situações raras deve passar de 10% do seu corpo).

então, se você vai fazer um tour por paris, e quer levar aquela coleção de sapatos lindos, por favor, não tente bancar o mochileiro. vá com uma mala, que é melhor.

agora, pra entender o porquê de algumas pessoas usarem mochilas, vamos entender sua história.

BREVE HISTÓRIA DAS MOCHILAS

os indígenas americanos (norte, centro e sul-americanos) tinham diversos sistemas de carregar as coisas. as américas conheceram a roda apenas com a chegada dos europeus. então, o que não se carregava nas costas de um animal como a lhama (os cavalos também só chegaram com os europeus), se carregava nas costas de alguma pessoa. carregar as coisas na mão, apenas para objetos leves, o resto os índios penduravam no corpo, em bolsas menores como bornais feitos de couro, de palha, ou mesmo cabaças penduradas, e objetos maiores nas costas ou sobre os ombros, presos por tiras. em alguns casos, cestos grandes e compridos, ou armações de madeira onde poderia se amarrar os objetos, eram presos às costas por alças presas aos ombros, à cintura, ou mesmo à testa.

claro, o modo mais leve de carregar uma coisa é usar alguém que faça isso por você. durante séculos os indigenas das américas tiveram escravos. incas submetiam outras populações, os astecas fizeram o mesmo, e hans staden descreve como os tupis escravizavam tapuias e vice-versa; posteriormente, houve a introdução dos escravos negros nas américas. então, durante séculos, carregar as coisas era problema dos subjugados.

por isso, a figura mítica do aventureiro do século XIX ou do começo do século XX é de alguém que possui atrás de si uma fila de carregadores mal-trapilhos.

a mochila começa a aparecer junto com o desaparecimento da chaga, da mancha da escravidão. talvez por isso ela nos transmita essa sensação de liberdade.... aquele que carregas próprias coisas não submete outro a fazê-lo por si.

mas a mochia não surge como conceito representativo da liberdade em abstrato, mas como instrumento da vida prática. mais especificamente, como instrumento da vida prática dos soldados das américas.

os teatros de guerra europeus nunca foram muito extensos. as distâncias são pequenas na europa, que está cortada pro caminhos e estradas "rodáveis" há milhares de anos. assim, os soldados carregavam muito pouca coisa, normalmente cabendo em bornais.

mas nas guerras das américas as distâncias percorridas pelos soldados sempre foram muito longas. assim, as linhas de suprimentos eram mais falhas, e o grau de autonomia dos soldados tinha que ser maior.

na guerra do paraguai e na guerra da secessão, nos e.u.a., nós já vemos soldados carregando coisas às costas, em bolsas com duas alças, uma pra cada ombro. posteriormente, na I guerra mundial, os soldados já estavam usando, em sua maioria, mochilas.

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(miniatura de soldado confederado - guerra da secessão - e.u.a., usando mochila)

no imediato pós-guerra (1919 em diante) nós vemos os ex-soldados mantendo essa peça do equipamento militar, e usando-as em viagens, por exemplo. é um período de crescimento do montanhismo, na europa (podemos remeter a história das escaladas ao século XVIII, mas o fato é que ela só se torna mais popular no século XX), e muitos daqueles que iam às montanhas, na europa, usavam mochilas. primeiro as mochilas militares, depois o saco alpino...

durante a II guerra a mochila foi intensamente usada, e aí se criou o mito de que a mochila militar é a melhor mochila possível. pois durante mutio tempo isso foi verdade. a produção em alta escala deste artigo para suprir exércitos permitiu alguns refinamentos na época.

no pós-guerra, nos e.u.a., teremos um monte de equipamento militar sem uso, sendo vendido barato, em lojas que eram frequentadas por aqueles que de algum modo frequentavam as florestas e montanhas: lenhadores, por exemplo. intensifica-se as atividades ao ar livre, o campismo.

por ouro lado, a geração beatnik coloca o pé na estrada e, se em "on the road" de jack kerouac a mochila não aparece, no seu livro seguinte, "vagabundos iluminados", ela é o equipamento principal dos principais personagens.

nos anos 50, inclusive, surge a necessidade de mochilas maiores do que aquelas usadas por soldados, e as armações progressivamente surgem.

dick kelty (que seria o fundador da kelty), em 1952, inspirado nas armações de madeira que alguns índios norte americanos usavam para carregar coisas nas costas, cria a primeira mochila de armação (externa - greg lowe, fundador da lowe alpine, fará a primeira mochila de armação interna apenas em 1967), que ainda está em produção, a trekker (com cerca de 65 litros). em 1972 foi lançada a lendária kelty tioga, provavelmente a melhor mochila de armação externa já feita, e também ainda em produção.

ainda hoje é possível encontrar nas largas e tradicionais trilhas norte-americanas (pacific crest trail, por exemplo) velhas mochilas kelty ainda em uso, algumas com cerca de 3 décadas de utilização.

mas o pessoal da escalada tinha outras necessidades. mochilas de armação externa, se por um lado possuem uma capacidade incrível de carga, com um conforto ainda não superado pelas mochilas de armação interna (hum, alguns que lerão isso me xingarão, mas isso é verdade, eu já caminhei com uma kelty dessas nas costas...), por outro lado, pelo fato de serem largas e possuírem mais "cantos vivos", engatam muito em galhos e, principalmente, são difíceis de se utilizar em caminhos estreitos entre rochas, alem de darem mais trabalho ao seresm suspendidas por cordas.

em pouco tempo as mochilas de armação interna lowe alpine foram se popularizando.

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(primeira mochila de armação interna - lowe alpine - 1967)

um outro detalhe ajudou. é muito mais fácil produzir uma mochila de armação interna do que uma mochila de armação externa.

enquanto a armação externa constitui-se de tubos curvados e soldados (há modelos atuais com armações em plástico e outros polímeros), e diversos conectores entre o corpo da mochila e a armação, nas mochilas de armação interna bastam duas ripas de alumínio, curvadas ou não, devidamente encaixadas verticalmente no costado da mochila, em locais com passadores costurados.

assim, não é de estranhar que tenham se popularizado tanto. e tenham se tornado o padrão único em um país como o brasil. nos anos 60, com a carência de material produzido aqui, muitos usuários começaram a produzir seu próprio equipamento, que ia de mochilas e barracas a casacos, calças e mesmo botas.... esta é a origem de boa parte das marcas nacionais, grande parte delas concentradas em dois estados que possuem muitas montanhas: rio de janeiro e paraná.

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(elevation 90-145 lts, da equinox, do rio de janeiro)

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(fritz roy 75+15, da conquista montanhismo, do paraná)

nos anos 90, algumas dessas marcas passaram a terceirizar a produção, produzindo na china, outras continuaram a produzir no brasil, produtos que se caracterizam pela simplicidade e pela qualidade - simplicidade pode inclusive vir a ser uma característica desejável, se não necessária, em determinados usos.

pronto, depois desse histórico, já vimos as três vertentes que movem o desenvolvimento das grandes mochilas: as viagens, as trilhas (o trekking), o montanhismo.

e assim, temos três grupos de necessidades a serem satisfeitas por diferentes mochilas. vamos aprender a indentificar e escolher.

QUALIDADE DOS MATERIAIS E DA MOCHILA

uma primeira coisa a se verificar nas mochilas, é a qualidade do seu feitio. não adianta a mochila ser bonitinha, cheia de detalhezinhos, se suas costuras abrirem com o peso da sua carga, assim que você sair de casa... ou pior ainda (pois quando o problema é na porta de casa, nós voltamos à ela), quando a sua mochila abre o bico no meio de uma trilha. eu já vi isso acontecer, uma mochila partir as duas alças e a barrigueira. tivemos que içar essa mochila num trecho da trilha, e improvisar consertos com cordeletes. o dono carregou-a de volta com todo o peso nos ombros, quadruplicando o esforço que já não seria pequeno em condições normais.

boas mochilas são feitas de material resistente. nada de nylon, mas principalmente poliéster de alta tenacidade, com alta resistência à abrasão, cordura, ou mesmo kevlar, no caso de uns pucos produtos importados. isto por que mochilas normalmente estão expostas a raspões, tombos, enganchamentos em galhos, pedras e etc. é comum que se utilize um tipo de tecido denominado rip-stop ("to rip" é rasgar), meio quadriculado, cuja função é diminuir o tamanho dos rasgos possíveis. mochilas utilizadas em escalada precisam ser de material muito mais resistente.

normalmente se utiliza poliester a partir de 400 denier e cordura a partir de 250 denier. o mais comum é a utilização de poliester 600D ou cordura 500D. em mochilas cargueiras utilizadas em escaladas, é comum a utilização de cordura 1000D. nas mochilas feitas para aproximação e içamento (petates), utiliza-se também cordura 1000D vinílica.

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(petate de 90 litros, da alto estilo, do paraná)

muitos destes tecidos costumam receber uma película interna de proteção, que lhes dá uma certa resistência à umidade também.

boas mochilas também possuem boas costuras. costuras duplas ou mesmo triplas, e arrematadas com viés.

REGULAGEM DA MOCHILA

uma segunda coisa a se verificar na mochila, é o grau de adaptabilidade para o seu corpo.

mochilas devem ser "vestidas", devem ajustar-se ao corpo, perfeitamente, sem machucar ou apertar, e também sem balançar. devem ficar firmes.

e, para verificar isso, precisamos entender as partes de uma mochila.

as partes mais óbvias, são as alças.

as alças normalmente possuem 3 (isso, três!) regulagens, cada uma. a mais conhecida é a de comprimento, na frente. a mais importante é a de inserção da alça no costado, nas costas, ou seja, sua altura. em algumas mochilas as duas alças são reguladas simultaneamente. em outras, separadamente, e em outras mochilas, essa regulagem inexiste (normalmente mochilas assim são vendidas em tamanhos, embora isso seja comum apenas no exterior). as fivelas de regulagem podem estar ocultas atrás do costado, ou mesmo embaixo, atrás da barrigueira. a terceira regulagem, é a das fitas de estabilização da carga, fitas acima dos ombros, que quando puxadas jutam a mochila fortemente aos ombros.

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(costado de cargueira da curtlo - as faixas horzontais coloridas no meio do costado servem para regular a altura da inserção das alças)

a regulagem de inserção das alças deve ser feita apenas uma vez, adequadamente. depois de feita, nunca mais se mexe. a alça deve estar posicionada de modo a cobrir toda a curva do ombro.

a regulagem de comprimento permite evitar que a mochila fique alta demais. e a de estabilização da carga é a regulagem mais comum, se faz toda vez que se veste a mochila.

a outra parte, ignorada por muitos, mas que tem importância igual ou maior que as alças é a barrigueira. a barrigueira é um cinto largo que tem a função de transferir o peso para a bacia. deve ficar firme, apoiada sobre os ossos da bacia. nunca se deve levar uma cargueira pesada com a barrigueira aberta, pois desse modo estaremos com todo o peso sobre os ombros. mas é comum vermos em aeroportos e rodoviárias gente que carrega cargueiras pesadas sem fechar a barrigueira. fazem isso por total desconhecimento da arte de mochilar. esse inclusive é um modo de se identificar o falso mochileiro: está com uma mochila apenas por que ela está disponível, mas não sabe usá-la.

grande parte das mochilas com barrigueiras possuem também duas fitas laterais, de ajuste, que têm a função de estabilizar lateralmente a mochila.

MOCHILAS FEMININAS

grande parte das mochilas é feita apenas pensando-se no corpo masculino. o fato é que o número de homens que usam mochilas, em países como o brasil, é maior, pricipalmente em razão do desconhecimento. lembram-se do não uso da barrigueira e do excesso de peso sobre os ombros? homens são naturalmente mais fortes, e mulheres com mochilas inadequadas recebem a mensagem errada de que mochilas não são para elas.

mas há boas cargueiras adequadas ao corpo feminino. sua barrigueira é mais afunilada, adequando-se melhor à bacia da mulher, e suas alças são mais estreitas, para não pressionar os seios. uma boa cargueira feminina fica desconfortável num homem, e uma boa cargueira masculina fica desconfortável numa mulher.

TAMANHO DA MOCHILA

qual o tamanho? essa é uma pergunta comum. depende para quê. depende do que se vai levar. minha maior mochila uso em viagens. já cheguei a carregar em seus mais de 100 litros outra mochila cargueira, toda a tralha pra camping, roupas para duas semanas e os presentes de natal. mas há quem use o mesmo volume apenas numa viagem de final de semana.

no geral, para passeios de um dia, se usam menos de 40 litros. para trilhas com um pernoite, uns 50 ou 60 litros no máximo. e acima de 70 litros apenas para trilhas com pelo menos 3 pernoites.

em viagens de turismo (sem ter que carregar barraca, isolante, saco de dormir, fogareiro e etc), o tamanho da mochila varia de acordo com o grau de experiência em viagens do viajante. quanto mais experiente o viajante, menor é a mochila, pois se aprende a racionalizar o tamanho da carga. com o tempo aprendemos que não adianta levar 10 pares de calçados, nem 8 calças jeans.

o padrão mais comum no mercado é de mochilas de 60 litros (e suas variações: 60+15, 50+10, por exemplo), que é um tamanho muito flexível.

mas o mochileiro mais aguerrido costuma, com o tempo, ter mais de uma mochila, variando seu uso de acordo com a necessidades. eu tenho cinco cargueiras, 4 mochilas de ataque, e acho pouco...

TIPOS DE MOCHILAS

agora vamos aos tipos de mochilas.

primeiro, as mochilas menores. algumas são de uso escolar, outras são as chamadas day-packs, mochilas para uso com equipamento para menos de um dia. alguns usam essas mochilas pra viagens curtas também. são conhecidas também como mochilas de ataque, pois originam-se das mochilas pequenas utilizadas em ataques ao cume, em expedições mais longas, onde se estabelece um acampamento próximo ao cume e se ataca o cume dali, levando o mínimo de peso possível, como um pouco de água, alguma comida, um agasalho extra e eventualmente material de escalada.

muitas mochilas de ataque possuem daisy chains e loops para acomodar mosquetões e piquetas. daisy chain é uma fita costurada de modo a criar uma série de alças, para que ali sejam presos mosquetões que estão sendo levados pelo alpinista. e loops são alças circulares, na base da mochila, normalmente, para se encaixar uma piqueta. uma piqueta é uma espécie de mini-picareta usada em escalada em gelo.

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(síntese 25 litros, da equinox, com daisy chain à frente)

nos últimos anos, as mochilas de ataque passaram a ser muito usadas por universitários e outros estudantes, de modo que daisy chains e loops/porta-piquetas hoje podem ser encontrados até em mochilas escolares! obviamente, de modo meramente decorativo, uma vez que muita gente começou a comprar mochilas que se pareciam mochilas de ataque, pois as achavam descoladas, mas sem saber o que estavam adquirindo....

mochilas de ataque costumam não ser muito grandes. é normal que tenham em torno de 20 litros de volume, e, em alguns casos podem chegar a uns 40 litros. não servem para levar muito peso, pois nessas mochilas o peso está concentrado nas alças, e a fita abdominal é apenas uma fita de estabilização da mochila para que ela não balance nas costas durante uma escalada.

MOCHILAS GRANDES

agora, às grandes mochilas.

a primeira grande mochila com armação foi vendida em 1952. dick kelty, fundador da kelty, montou algumas armações de alumínio e sua esposa nena costurou as partes em nylon. no primeiro ano vendeu 29 mochilas, no segundo ano vendeu 90, no terceiro vendeu 500 mochilas e hoje a kelty é uma das mais respeitadas empresas do ramo. a mochila é a kelty trekker, ainda em produção com algumas mudanças, mas sendo essencialmente a mesma coisa.

essas mochilas eram usadas, além dos viajantes, por escaladores e trilheiros. pois estes costumam dividir ambientes comuns. por exemplo, no brasil, no estado do paraná, o Pico Paraná é atingível por uma trilha, não se necessitando técnicas e material de escalada para se atingir o cume. mas também possui vias de escalada então há quem vá fazer a trilha até o cume, e há quem vá fazer a trilha para alcançar algumas das vias de escalada. ora, a não ser o escalador de ambientes fechados, a escalada se faz em locais de difícil acesso, tendo que se percorrer trilhas na chamada "aproximação".

normalmente, o equipamento de aproximação costuma ser comum ao equipamento de um trilheiro não-escalador, um trekker. claro, o escalador estará levando muito mais equipamento, pois além de barraca, saco, isolante, roupas, equipamento de cozinha, alimento, água e outras miscelâneas (coisa que todo trekker carrega), estará levando também o material de escalada, que pode pesar muito: cordas, mosquetões, friends, freios e etc.

a indústria, portanto, nem sempre produz produtos diferenciados entre esses dois grupos de usuários, e mesmo esses ususários um pouco diferenciados acabam por não eixigir produtos muito específicos. assim, é comum que vejamos trilheiros usando mochilas com acessórios mais específicos para escalada, como daisy chains, mesmo que esses acessórios sejam desnecessários.

um outro dado é que a partir do final dos anos 80 vimos as cargueiras evoluírem para possuírem uma quantidade incrível de pequenos detalhes. se as primeiras eram essencialmente sacos com apenas uma abertura por cima, em anos de evolução surgiram diversos bolsos nos mais diversos locais. bolsos laterais, bolsos frontais, bolsos internos, bolsos específicos para garrafas de água ou cantis flexíveis, bolsos que viram mochilas de ataque pequenas, bolsos para celulares e gps nas alças, na barrigueira e etc.

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(air contact pro, da deuter)

o aceso à mochila também muito mudou. antes apenas por cima, depois por cima e por baixo (realmente, é mais fácil acessar determinadas coisas no fundo com uma mochila com acesso por baixo), acessos frontais e etc. e claro, com tantas facilidades, algo da antiga arte de saber bem montar uma mochila (algo necessário em uma mochila com acesso só por cima), andou se perdendo.

ultimamente parece haver um retorno à simplicidade, e em mercados mais avançados, como o mercado americano ou o mercado inglês, começam a surgir mochilas mais simples, que incorporam os avanços recentes tecnológicos (boas moldagens, tecidos mais leves e resistentes), com a simplicidade que se encontrava nos anos 60. o movimento se deu por inciativa de trilheiros qee começaram a não mais querer carregar mochilas de 3 kg de peso (lembrando que todo detalhe pesa...), para carregar menos de 10 kg de equipamento, e começaram a fabricar suas mochilas, mais frágeis, mas muito mais leves - alguns desses trilheiros receberam tantas solicitações de venda de seus produtos que passaram a fabricá-los e vendê-los, ou sob a forma de produtos acabados, ou sob a forma de kits. aqui no brasil essa "onda" ainda não chegou, uma vez que o brasileiro (por herança da escravatura, onde o sinhô usava os escravos como seus pés e mãos) parece não sentir o menor prazer em fazer seu próprio equipamento e ter vergonha (e não orgulho, como americanos e europeus, que enchem a net de blogs expondo suas criações) de usar algo feito em casa.

assim, o mercado internacional oferece opções as mais variadas. desde mochilas pesando menos de 200 gramas para aproximadamente 50 litros de volume (é o caso das mochilas da z-pack), até mochilas de mais de 3 kg para volumes acima de 70 litros (alguns modelos da deuter, por exemplo).
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(blast, da z-packs, pesando menos de 150 gramas)

mas podemos dividir essas grandes mochilas em 3 grandes grupos:

- as superleves. muitas vezes não possuem sequer uma armação, fazendo o isolante térmico essa função. ou são cargueiras feitas com armação, mas sem muitos dos detalhes comuns às mochilas cargueiras: sem muitos bolsos e sem acesso por baixo, por exemplo.

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(alpina 77 litros, da conquista montanhismo, pesando 1270 gramas, sem acesso por baixo)

- mochilas específicas de trilha, feitas com material leve porém resistente, algumas mais estreitas (para passar melhor entre caminhos cheios de galhos, por exemplo), sem detalhes desnecessários como daisy chains, porta-piquetas, mas com acesso por baixo ou frontal, bolsos laterais e etc.

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(poc itaimbezinho, de 65 litros, mochila estreita para canyons)

- mochilas grandes e pesadas para carregar muito peso e muito volume nas expedições e aproximações a cumes, sendo comum que possuam detalhes específicos para uso em escalada: bolsos onde se pode colocar um capacete, daisy chains longas para muito equipamento, e etc.

a questão é: qual delas ter? a minha recomendação é ter mais de uma - coisa que a gente efetivamente faz quando se torna um mochileiro empedernido. mas a principal dúvida é sobre a primeira mochila grande. qual ter?

enquanto não temos claramente uma visão de que atividade nós estaremos desenvolvendo, o ideal é comprar uma mochila de boa qualidade mas com características que a tornam mais ou menos versátil. ou seja, um bom tamanho (algo em torno de 60 litros, que nos permite dias de viagem ou uns dois ou 3 dias de trilha), com alguns bolsos (até dominarmos a arte de arrumar a mochila e decorar exatamente onde está o quê, para podermos usar uma mochila sem bolsos), e uma adequada regulagem (para a adequarmos ao nosso corpo), feita de material resistente (cordura ou poliéster de alta tenacidade), bem costurada, bem feita, com boas fitas de compressão. alguns detalhes não devem ser decisisvos: capa de chuva incorporada (pode-se levar uma capa de chuva separadamente), bolsinho na alça, apito de emergência incorporado na alça... tanto mochilas boas podem ter isso, mas também produtos chineses de qualidade inferior, vendidos em supermercados, também os têm....


se a intenção é usar a mochila apenas em viagens, uma boa opção são as mochilas-mala. elas têm um formato mais quadrado (melhor para amassar menos a roupa, e acomodar melhor a bagagem), normalmente possuem uma forma de acesso por zíper que permite amplo acesso ao conteúdo da mochila, e uma capa que se fecha tampando as alças e barrigueira, e alças para se carregar com uma mala ou bolsa.

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(adventure, mochila-mala da curtlo)

assim, acredito que aqui já existam elementos para você avaliar se estará fazendo uma boa compra ou não. lembre que nunca se escolhe uma mochila primordialmente pela estética. no mundo outdoor, a forma segue a função. bonito é o que funciona, e não quebra, não rasga, não pesa desnecessariamente, e não é caro, para não termos medo de usar. há algum tempo soube de alguém com uma mochila cara numa trilha, que ao desequilibrar-se preocupou-se em não cair sobre a mochila nova e cara, para não danificá-la. o movimento brusco de corpo para proteger a mochila acabou resultando numa fratura na perna, e num resgate muito demorado e dolorido. por outro lado, há algum tempo, ao descer um paredão, eu não tive medo de jogar de 4 metros de altura a mochila que eu estava usando. mochila leve, resistente, muito simples, e barata (e o isolante térmico, por dentro da mochila, servia de proteção a todo o equipo nela guardado). não tive pena da mochla, e chegando ao chão, só tive que espanar o pó, a mochila estava perfeita. melhor jogar a mochila do que correr o risco de despencar de 4 metros de altura correndo o risco de quebrar o pescoço.

mochila é algo a ser usado. afinal, lembre da regra geral de atração do universo: semelhantes se atraem. mochilas atraem mochileiros, malas atraem malas. muitas vezes sem alça....

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