Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#673622 por Kássio Massa
12 Jan 2012, 00:12
Trip realizada no dia 8 de Janeiro de 2012

Galeria de fotos desta trip

Muito é feito para ao menos manter os poucos remanescentes de mata nativa e semi-nativa existentes nesta que é a região brasileira mais industrializada e mais povoada. Apesar de 80% da Mata Atlântica ter sido devastada ao longo dos 5 séculos de desenvolvimento Brasil, ainda é possível encontrar, em meio a um mar de áreas de cultivo, pastos e manchas urbanas, belas paisagens, que se destacam pelas suas formas e tons. Isto vale para a região de São Roque, no interior paulista, a 65km da capital. Considerada importante centro turístico, no conhecido "circuito do vinho" paulista, a cidade ainda oferece algumas boas opções para quem quer fugir da muvucada civilização e se embrenhar no mundo natural. Estou me referindo à Serra do Ribeirão, uma imponente saliência cristalina, protagonizada pelo seu pico-mor, o Morro do Saboó, com 1000m de altitude, acessível facilmente por sua face Norte, através uma subida tranquila, sem muitos esforços, caminhando pelas Estradas de Araçariguama e do Morro do Saboó até o bairro homônimo, tomando a trilha até o cume, num percurso de uns 13km, a partir do centro de São Roque.

Apesar da tradicional rota a partir do referido e pacato bairro, o cume do Saboó ainda é atendido por rotas pouco exploradas e praticadas, que transpõem o Vale e percorrem toda a crista Serra do Ribeirão. Uma delas é o que podemos classificar como uma travessia, possível de ser concluída em esquema de bate-volta, apesar da longa distância a ser percorrida - 10km -, envolvendo trechos de estrada asfaltada e de terra, trilhas em mata densa, travessias de dois vales, varação de mato, caminhada árdua em terreno semi-árido e uma íngreme e gratificante subida!

Confirmado o destino, tratei de organizar com o Jefferson Zanandrea e a Renata Aguiar o roteiro, sendo que, mais tarde, eu vim a contatar o Gabriel Medina, que estava misteriosamente sumido da Web. A trupe estava, por fim completa, até que decidi incluir mais uma galera nesta: o grupo de trekkers, denominado Radical Friends, que se interessou pela pernada, quando comentei na página que o mesmo mantém, no Facebook. Soubemos, mais tarde, que a Renata não poderia participar desta, por motivos familiares.

Enfim, marcamos de nos encontrarmos na Estação de Itapevi, na Linha 8-Diamante, da CPTM, às 8h do Domingo, dia 8 de Janeiro de 2012. Curiosamente, todos os 10 integrantes, à minha exceção, viajaram no mesmo trem, que chegou logo após o meu! Após uma breve apresentação, a trupe, desta vez composta por nada menos que 11 integrantes, nos dirigimos ao ponto de ônibus localizado em uma rua próxima à estação, onde embarcamos no ônibus intermunicipal do Expresso Regional rumo a São Roque.

A viagem foi tranquila, marcada pela enturmação do pessoal, e por uma interessante conversa entre eu, o Gabriel e um senhor morador dos arredores de São Roque, que nos forneceu informações oportunas a respeito de possíveis rotas e trilhas exóticas em cidades próximas. Chegamos à Rodoviária de São Roque às 10h, e paramos numa lanchonete para nos abastecermos diante da longa jornada que nos esperava.

Enfim, às 10h30, uma vez preparados, bora pernar!

Como já mencionado anteriormente, para a ocasião, dispúnhamos de duas opções: uma subida tranquila e certeira, porém, sem muitas emoções por resumir-se em , ou uma verdadeira, perrengosa e incerta travessia, uma vez que a região ainda carece de referências e informações, o que não possibilitou uma elaboração efetiva do croqui.

Em uma última e solene reunião com o grupo, mesmo a meu contragosto, acabamos decidindo acessar o morro pela face Sul, ou seja, pela travessia. Sendo assim, coube apenas meu aviso de que as poucas e imprecisas informações do croqui não nos daria outra opção se não contarmos com nosso senso de direção, conhecimentos geográficos e, uma bem-vinda bússola, uma vez que seríamos obrigados a seguir por trechos onde a existência de trilha ou caminho era pouco garantida. Cientes, seguimos rumo ao (quase)desconhecido!

O primeiro trecho, de 2,9km, tratava-se de uma caminhada tranquila rumo à saída Norte da cidade, onde um portal, ainda em construção, indica o início da Estrada de Araçariguama, que liga São Roque à Rodovia Castello Branco. Neste local, pegamos a Estrada do Condor, que sobe à esquerda da estrada e, em pouco tempo, mergulhamos em direção ao primeiro vale a se transpor, sempre avançando em irregulares zigue-zagues, até, após atravessarmos uma ponte, adentrarmos num humilde sítio, onde fomos recebidos com simpatia por um dos moradores do local, que nos forneceu, finalmente, informações mais detalhadas sobre os meios possíveis de se atingir nosso destino. Fomos informados de que logo antes de cruzarmos a ponte que dá acesso à sua propriedade, o caminho que se mostrava à nossa direita cruza o vale mais à frente, e dá acesso à crista da Serra do Ribeirão. Porém, indaguei-o se não seria possível - para não precisar retroceder até a ponte - acessarmos o rio a partir de sua propriedade e acompanharmos seu curso até culminarmos na referida ponte e, sem nenhum impedimento, fomos orientados a seguir e a passar pelas três casas que encontraríamos à frente, pois havia uma curta trilha de acesso ao rio, à direita da terceira casa. O agradecemos e demos continuidade à pernada, que nos rendeu, neste trecho privativo, algumas boas fotografias e impressões que não tinha há tempos: a pacata vida interiorana!

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A transposição do pequeno curso d'água se dava por meio de alguns troncos que haviam tombado sobre seu leito, permitindo assim, que não molhássemos nossos calçados em suas águas um pouco suspeitas. Dois garotos, que estavam ali pescando, nos orientaram, mais uma vez, como proceder a partir dali. Nos despedimos dos mesmos e seguimos pela margem oposta. Apesar da informação óbvia de que bastava seguir o curso do rio, favoravelmente, o grupo se desorientou e passou a subir a encosta, rasgando a mata como se um desejo maior de alcançar os céus sobrepusesse qualquer lógica de deslocamento em mata. Felizmente, o rumo fora retomado, quando reencontramos as margens do rio.

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Ainda que tudo parecesse bem, mais uma crise de desorientação fez o grupo tomar rumo piramba acima, novamente, desta vez, uns 100m mais à frente. Bem, de uma forma ou de outra, não estávamos em rota errada, pois subindo constantemente a encosta e seguindo o azimute da bússola - que eu havia configurado anteriormente, ainda quando estávamos na Estrada do Condor, quando era possível avistar o Morro do Saboó - acabaríamos atingindo uma zona descampada, de onde seria possível novo contato visual com a região. Dito e feito, às 12h30, após cerca de 1h de subida, atingimos a vasta zona dominada pelo cerrado, de onde pudemos perceber o quão alto já estávamos. Ainda a Norte, era possível avistar o Morro do Saboó, bem mais próximo de nós!

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Porém, ainda havíamos que transpor o último e principal vale - o do Ribeirão Monjolinho, que empresta seu nome a este relato - para, só assim, enfrentar o trecho final, pela finalmente crista da serra. Encontramos resquícios de trilhas que mergulhavam para o fundo do vale, e o transpomos sem muitas dificuldades. As trilhas continuavam após o mesmo, rumo ao alto da crista, onde cruzaria a trilha principal rumo ao cume do Saboó. Este último trecho, de 2km, mesmo com a ameaça de forte chuva, apresentou-se crítico, em decorrência da semi-aridez de seu cenário, dominado pela vegetação rasteira típica do cerrado paulista.

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A subida até a crista serrana foi um dos pontos mais cansativos de toda a trip. De fato, sob um Sol de fritar miolos, alguns integrantes do grupo acabaram sentindo o verdadeiro tranco da pernada! Após interceptar a trilha principal, a situação melhorou, pois a declividade caiu drasticamente. Porém, fomos surpreendidos por um enxame de furiosos marimbondos, e o Jefferson, de cobaia da trupe, nos alertou sobre o ataque que havia acabado de sofrer, tendo que se jogar, desesperadamente em meio à mata à sua direita, numa tentativa de se livrar dos perigosos insetos. Não nos restou alternativas e o jeito foi abandonar a trilha e seguir num patamar acima, distante do enxame. Mais à frente, tomamos liberdade para retornarmos à trilha que, a partir dali, mergulhava, novamente, num pequeno remanescente de Mata Atlântica, um singelo vale onde corria, para a alegria de todos, um límpido riacho, afluente do Monjolinho. Paramos ali mesmo, às 14h30 para reabastecermos nossos "cantis" de água, enquanto aguardávamos o restante do grupo que havia ficado para trás.

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Reabastecidos e recuperados, cruzamos o pequeno aluvião, até que a trilha abandonou, novamente, a mata, seguindo desimpedidamente, desta vez, pela encosta Oeste, passando por boas áreas descampadas e de terreno favorável à instalação de acampamentos. A esta altura, a inevitável chuva já havia dado as caras, nos obrigando a correr contra o tempo para conseguirmos pelo menos algumas fotos no cume, antes que a mesma engrossasse de vez. Seguimos a passos largos e ligeiros, sempre clicando os melhores ângulos da paisagem que nos cercava. A subida ao cume do Saboó se dava por uma trilha irregular, íngreme e rochosa, que exigia trechos escalaminhada.

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Enfim, às 15h30, nos vimos, finalmente, no ponto mais alto da região de São Roque, a 1000m de altitude, pisando no topo daquele que, no idioma Tupi-Guaraní, é referido como "Morro Pelado" (Saboó)! Apesar da chuva que já nos impedia de vislumbrar qualquer panorâmica dali - panorâmica esta que destaca as cidades de São Roque, Mairinque, Ibiúna e Alumínio, bem como as estradas, rodovias e todo o trajeto feito por nós naquele dia -, certamente, uma sensação de "dever cumprido" tomava conta de todos nós, afinal, um local de tão fácil acesso acabara de ser alcançado por uma rota ainda turbulenta e incerta, possível de ser concluída apenas graças à persistência do grupo!

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O retorno para São Roque seria pelo caminho tradicional, ou seja, por uma caminhada sussa de aproximadamente 13km, contornando a base do morro pela sua face Norte e caindo na Estrada de Araçariguama. Às 16h15, tomamos a trilha que desce para o Bairro Saboó, ainda em meio à forte chuva que agora se intensificava, chegando a apresentar pequenas pedras de gelo - isso mesmo, levamos granizo na testa! -, até que, em 30min de descida, alcançamos as ruas do pacato bairro, onde pudemos seguir rumo à Estrada Morro do Saboó. A violenta tempestade, rapidamente, se dissipou, nos revelando novamente, a bela paisagem local, e uma nova perspectiva do pico que acabávamos de descer. Foi neste exato momento em que uma caminhonete que seguia para a Rod. Castello Branco, foi a grande deixa para uma oportuna carona que nos poupou de uma cansativa caminhada de aproximadamente 3km!

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Após deixarmos o veículo, que seguiria em direção contrária à nossa, demos continuidade ao restante da caminhada, sempre parando para vislumbrar os diferentes ângulos da Serra do Ribeirão, mais uma vez, visível à nossa direita.

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O grupo, já exausto, encontrava-se cada vez mais disperso e cada um ia em ritmo próprio. Eu, o Gabriel e o Rafael (Zipão, do Radical Friends), que estávamos juntos e bem mais afastados e atrasados que os demais integrantes, fomos surpreendidos por mais uma caminhonete que, inesperadamente, sob o comentário sem compromisso "Poxa, bem que eles poderiam nos oferecer uma carona!" feito pelo Zipão, estacionou em meio à estrada e nos presenteou com uma viagem sem escalas até a Rodoviária - pois é, uma segunda carona! O custo: meu boné, que acabou voando, em razão da ventania que soprava contra nós! Mais à frente, nosso veículo alcançou o Jefferson, que também conseguiu embarcar, após correr desesperadamente ao nos ver encima do veículo! Enquanto seguíamos em alta velocidade, já pela Estrada de Araçariguama, pudemos ver o restante da trupe sendo deixada para trás, um a um, até que, em menos de 5min, adentramos os limites da cidade de São Roque, passando pelo já mencionado portal. O veículo nos deixou em frente à Rodoviária, às 18h20, onde agradecemos imensamente ao prestativo casal, e ficamos a descansar, à espera do pessoal retardatário!

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Após uma longa espera, eis que finalmente, todo o grupo estava reunido, às 19h30! Nos dirigimos ao Terminal Intermunicipal, onde daríamos início à jornada de retorno às nossas tão requisitadas homes!

Esta trip, pela forma ousada como foi concebida, mostra que, mesmo os destinos mais fáceis, e até mesmo os mais difíceis, podem ser alcançados das mais variadas formas, bastando apenas o espírito aventureiro e a vontade para sempre traçar e se embrenhar em novas rotas, fazendo de uma simples trip, a essência do "aprender" a viver sem limites!


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