Mutirão da Neve
No final do mês de abril, 31 escaladores subirão o Everest com o objetivo de retirar o lixo – inclusive corpos humanos – deixado pelas expedições ao longo dos 47 anos em que a maior montanha do mundo vem sendo escalada. Namgyal Sherpa, o líder do grupo, conversou exclusivamente com a Go Outside, direto do Nepal.
Desde que Edmund Hillary atingiu o cume do monte Everest, em 1953, mais de 4 mil pessoas chegaram ao topo do mundo, e a cada ano outros 8 mil escaladores tentam atingir seus 8.848 metros de altitude. Eliminar peso para conseguir vencer as duras condições climáticas da chamada “zona da morte”, acima dos 8 mil metros de altura, é uma prática comum entre os montanhistas. Mas o grande volume de expedições que já passou por lá fez com que cerca de duas toneladas de resíduos se acumulassem nas paredes do Everest, incluindo corpos que não se decompõem por causa das baixas temperaturas. Com custo estimado em US$ 200 mil, o inédito projeto de limpeza tem a intenção de cuidar da montanha para futuros escaladores, já preparando-os para não mais poluí-la.
Go Outside – Se comparada com uma expedição normal, como você avalia os riscos para os participantes?
Namgyal Sherpa – Essa não é uma expedição comercial, é o primeiro projeto dos sherpas do Everest de limpeza do telhado do mundo. Vamos coletar todo o lixo acima do colo sul, inclusive os corpos em decomposição, que estão lá desde 1996. Desde a primeira ascensão, em 1953, são deixados na montanha os restos das expedições. O clima vem mudando e o aquecimento global está derretendo parte da neve, expondo tudo o que tem por lá.
Do que é composto esse lixo?
Cordas, barracas, garrafas de oxigênio e bandeiras. Esses são os principais itens. E não podemos esquecer dos corpos. No momento, nossa montanha está se movendo, então as coisas antigas estão sendo reveladas. Enquanto você está escalando, dá para ver a quantidade absurda de lixo exposta. Definitivamente, nós, os escaladores, estamos sendo diretamente atingidos pelos problemas com o lixo acima dos 8 mil metros. Nossos recursos hídricos também são afetados por esse problema. O Himalaia é nossa fonte de água.
Além de você, do italiano Pablo Chertudi e dos nepaleses Chakra Karki e Long Dorgee Sherpa, como o grupo de 31 escaladores foi formado? Houve alguma seleção?
Não houve seleção, são todos voluntários. Somos montanhistas experientes que querem contribuir com o Everest.
E os vinte sherpas que subirão além dos 8 mil metros, como eles foram selecionados?
Todos já escalaram o Everest e outras montanhas. O projeto, na verdade, acontece acima dos 8 mil metros – o primeiro no topo do mundo. Apenas bons escaladores estão preparados para enfrentar essa altitude por sua própria conta e risco. Somos profissionais nisso. Vocês, brasileiros, têm habilidades para o futebol; nós temos para o montanhismo.
Como vai ser o processo?
Vamos trazer o lixo do cume até abaixo do acampamento-base (5.400 metros). O material reciclável ficará na vila Pangboche (4.500 metros) e os não recicláveis virão para Katmandu. Usaremos nossas mochilas na montanha e depois teremos auxílio dos iaques para o transporte. Também estamos conversando com o exército do Nepal para disponibilizarem helicópteros de apoio.
E os corpos, haverá algum tratamento especial?
Todos os corpos estão acima dos 8 mil metros. Precisamos da permissão da família para retirá-los de lá. Como seres humanos, respeitamos a opção da família. Mas a montanha é nosso deus. Rezamos para ela como se fosse para Deus, a todo momento. A política do nosso governo é clara para retirar os corpos, já que eles estão poluindo nosso deus, a montanha.
Você vive na montanha e durante sua vida já atingiu o cume cinco vezes. Quais são seus sentimentos pelo projeto?
Antes de tudo, acho que é uma experiência completa e muito gratificante. Montanhismo é nossa profissão, não diversão. Eu acho que é um bom trabalho, mas quando vejo a pilha de lixo no topo da montanha, penso que é muito triste para toda a comunidade montanhista. Por isso criamos o projeto de limpeza. Pena que seja tão difícil encontrar patrocínio. Nosso principal patrocinador é o Banco Internacional do Nepal e estamos procurando outros também.
Fernanda Franco - Revista GoOutside - Edição 59 - Abril/2010
No final do mês de abril, 31 escaladores subirão o Everest com o objetivo de retirar o lixo – inclusive corpos humanos – deixado pelas expedições ao longo dos 47 anos em que a maior montanha do mundo vem sendo escalada. Namgyal Sherpa, o líder do grupo, conversou exclusivamente com a Go Outside, direto do Nepal.
Desde que Edmund Hillary atingiu o cume do monte Everest, em 1953, mais de 4 mil pessoas chegaram ao topo do mundo, e a cada ano outros 8 mil escaladores tentam atingir seus 8.848 metros de altitude. Eliminar peso para conseguir vencer as duras condições climáticas da chamada “zona da morte”, acima dos 8 mil metros de altura, é uma prática comum entre os montanhistas. Mas o grande volume de expedições que já passou por lá fez com que cerca de duas toneladas de resíduos se acumulassem nas paredes do Everest, incluindo corpos que não se decompõem por causa das baixas temperaturas. Com custo estimado em US$ 200 mil, o inédito projeto de limpeza tem a intenção de cuidar da montanha para futuros escaladores, já preparando-os para não mais poluí-la.
Go Outside – Se comparada com uma expedição normal, como você avalia os riscos para os participantes?
Namgyal Sherpa – Essa não é uma expedição comercial, é o primeiro projeto dos sherpas do Everest de limpeza do telhado do mundo. Vamos coletar todo o lixo acima do colo sul, inclusive os corpos em decomposição, que estão lá desde 1996. Desde a primeira ascensão, em 1953, são deixados na montanha os restos das expedições. O clima vem mudando e o aquecimento global está derretendo parte da neve, expondo tudo o que tem por lá.
Do que é composto esse lixo?
Cordas, barracas, garrafas de oxigênio e bandeiras. Esses são os principais itens. E não podemos esquecer dos corpos. No momento, nossa montanha está se movendo, então as coisas antigas estão sendo reveladas. Enquanto você está escalando, dá para ver a quantidade absurda de lixo exposta. Definitivamente, nós, os escaladores, estamos sendo diretamente atingidos pelos problemas com o lixo acima dos 8 mil metros. Nossos recursos hídricos também são afetados por esse problema. O Himalaia é nossa fonte de água.
Além de você, do italiano Pablo Chertudi e dos nepaleses Chakra Karki e Long Dorgee Sherpa, como o grupo de 31 escaladores foi formado? Houve alguma seleção?
Não houve seleção, são todos voluntários. Somos montanhistas experientes que querem contribuir com o Everest.
E os vinte sherpas que subirão além dos 8 mil metros, como eles foram selecionados?
Todos já escalaram o Everest e outras montanhas. O projeto, na verdade, acontece acima dos 8 mil metros – o primeiro no topo do mundo. Apenas bons escaladores estão preparados para enfrentar essa altitude por sua própria conta e risco. Somos profissionais nisso. Vocês, brasileiros, têm habilidades para o futebol; nós temos para o montanhismo.
Como vai ser o processo?
Vamos trazer o lixo do cume até abaixo do acampamento-base (5.400 metros). O material reciclável ficará na vila Pangboche (4.500 metros) e os não recicláveis virão para Katmandu. Usaremos nossas mochilas na montanha e depois teremos auxílio dos iaques para o transporte. Também estamos conversando com o exército do Nepal para disponibilizarem helicópteros de apoio.
E os corpos, haverá algum tratamento especial?
Todos os corpos estão acima dos 8 mil metros. Precisamos da permissão da família para retirá-los de lá. Como seres humanos, respeitamos a opção da família. Mas a montanha é nosso deus. Rezamos para ela como se fosse para Deus, a todo momento. A política do nosso governo é clara para retirar os corpos, já que eles estão poluindo nosso deus, a montanha.
Você vive na montanha e durante sua vida já atingiu o cume cinco vezes. Quais são seus sentimentos pelo projeto?
Antes de tudo, acho que é uma experiência completa e muito gratificante. Montanhismo é nossa profissão, não diversão. Eu acho que é um bom trabalho, mas quando vejo a pilha de lixo no topo da montanha, penso que é muito triste para toda a comunidade montanhista. Por isso criamos o projeto de limpeza. Pena que seja tão difícil encontrar patrocínio. Nosso principal patrocinador é o Banco Internacional do Nepal e estamos procurando outros também.
Fernanda Franco - Revista GoOutside - Edição 59 - Abril/2010



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