Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#819864 por Jorge Soto
19 Mar 2013, 10:02
http://jorgebeer.multiply.com/photos/al ... do-Bonilha

PICO DO BONILHA, O OLIMPO DO ABC
Montanhão, Maciço, Morro da Cruz ou, nos mapas mais antigos, Ponto ou Pouso Alto. Estas são as denominações mais freqüentes pra se referir ao Pico do Bonilha, pto culminate do ABC. Do alto dos seus 986,5m, altura insignificante pra padrões montanheiros, este morrote urbano q pede emprestado seu nome ao antigo são-bernardense Alferes Bonilha, a vista panorâmica impressiona com a cidade grande querendo engolir o q resta de Serra do Mar. Contudo, por estar situado em propriedade particular e seu acesso estar regido por alguma burocracia, suas largas vistas e amplos visus são privilegio pra andarilhos detentores da virtude de Jó. No entanto, outros caminhantes menos pacientes (e mais ousados) podem alcançar o Bonilha através de caminhos alternativos, valendo-se de continuas cristas de morros vizinhos. Este é o relato de um deles.

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Desde q pisei no Pq Municipal Pedroso, a menos de mês atrás, o Pico do Bonilha despertara minha atenção de forma especial. Não pela altura – pra la de modesta – mas sim pela sua imponência natural. Sob a forma dum enorme domo arredondado, forrado de mata na base e despido de vegetação no cume, fazia com q facilmente destoasse dos modestos morrotes ao redor. Contudo, ao colher infos descobri q o maciço não fazia parte do parque e sim estava inserido em propriedade particular, ou seja, terreno privado. Seu acesso “oficial” se dava pelo seu contraforte leste, na Vila Tanque, situada no Bairro Montanhão. Pra complicar, havia necessidade de agendamento prévio pra visitação, feito diretamente á empresa proprietária do terreno. Isso sem contar sua vizinhança barra-pesada.
Bem, como sou avesso a esse tipo de burocracia (ou qq uma) somente pra subir um morro, imediatamente busquei alternativas q possibilitassem um bate-volta sem enrolação e então me debrucei sobre a carta da região, sobrepondo imagens aéreas do lugar. Claro q meu prévio conhecimento de algumas picadas do Pq Pedroso foi essencial pra tracejar um caminho p/ Bonilha pelo leste, uma vez q elas abreviaram (e muito) o vara-mato q originalmente tinha em mente. Meio q em cima da hora convoquei voluntários pra empreitada, já cientes q seria algo incerto e com eventuais dificuldades, digamos, de permissão. Mesmo tendo previsão medonha do tempo, pra minha surpresa a única q topou foi a Simone, q mostrou-se no final de contas melhor q a encomenda: ótima cia e pau-pra-td-obra como poucas.

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Saltamos na Estrada do Pedroso por volta das 8hrs, eu e a Simone, bem em frente da portaria do pque do mesmo nome. A fina garoa q fustigara nossos rostos na Estação Sto André havia dado uma breve trégua, como q sendo benevolente ao anunciar nossa chegada ao Pque Municipal do Pedroso. Mas desta vez nem sequer adentramos pela portaria oficial e sim nos pirulitamos pela entrada logo ao lado, aquela q leva em direção ao Jd Japonês. Olhando pra oeste teríamos o primeiro contato visual com nosso primeiro destino, o Morro da Torre. Mas o as brumas cinza-claras teimam em encobrir td cumeada serrana, deixando provavelmente as vastas paisagens pra mais tarde, qdo em tese a temperatura aumenta dispersando td e qq vestígio de nebulosidade reinante.
Cruzando a “Ponte da Amizade” e ignorando o belo pórtico oriental q dá acesso ao Jd Japonês, nossa direção é sempre oeste, sentido um campo de futebol visível desde o asfalto. No final, encontramos uma corrente q insiste em barrar o acesso a uma precária e antiga via calçada, mas não é nada q um simples desvio ou salto não resolva. Será essa o caminho q nos levará á base do Morro da Torre, na verdade, uma antiga estrada q como boa parte das vias do pque, atualmente ta em desuso e se encontra parcialmente fechada pelo mato. O destaque deste trecho foi encontrar algumas embalagens de preservativos no chão, sinal q as recentes campanhas voluntárias de controle de natalidade e de prevenção com DST tem surtido efeito positivo para com os “animais” silvestres desta pouco conhecida área de preservação ambiental.

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E la vamos nos, avançando calmamente por aquela precária estradinha calçada q não tarda a se tornar uma trilha, tendo em vista o alto capinzal q insiste em cobri-la de ambos os lados. Mas nada q mãos decididas afastem a vegetação mais atrevida aqui ou ali. Não bastasse isso, as recentes chuvas tornaram aquela baixada – na verdade, um largo fundo de vale - num enorme pântano, diluindo totalmente nossas esperanças em manter os pés secos. E se o tato logo sente o frio da água, os demais sentidos tb não deixam por menos. O odor inconfundível de damas-da-noite invade as narinas, assim como o som recorrente pelos 10 minutos seguintes foi o chapinhar constante no banhado, chafurdando com água até as canelas. A semelhança deste trecho com o Pantanal Matogrossense, Missisipi ou até mesmo a entrada da “Cachu da Fumaça” (Paranapiacaba) não será mera coincidencia.
Mas não demora pros pés novamente encontrarem chão seco, sob a forma do antigo calçamento de pedras, qdo a declividade aumenta de forma suave e até imperceptível. Este trecho é bem bonito cenicamente, pois lembra muito a “Trilha do Ouro”(Serra da Bocaina) ao apresentar enormes voçorocas de lirios-do-brejo salpicadas de buquês de maria-sem-vergonhas ornando as beiradas da trilha. Olhando em volta, percebemos q estamos bem no meio do Morro do Pedroso e do Morro da Segunda Estação, ambos cobertos de verdejante mata, da qual sempre destoam os tons rosados das onipresentes quaresmeiras.

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E meia hora após iniciada a pernada emergimos numa enorme clareira q, pelas infos coletadas, onde funcionou outrora uma antiga olaria, da qual so restam algumas poucas fundações concretadas. Uma breve pausa pra descanso e cliques, claro. O tempo insinua melhoras e ate arrisca a nos presentear agora com breves e tímidos vislumbres tanto do Morro da Torre (a oeste), o Morro do Pedroso (ao norte) e até flashes nítidos da Segunda Estação, coroando um verdejante morro ao sul. O som de água correndo fartamente nalgum pto a nossa esquerda é constante. E não é pra menos, afinal estamos bem no meio daquela junção de vales, no centro daquele enorme anfiteatro natureba, onde td e qq vestígio do precioso liquido necessariamente é “afunilado” ate ali.
Aqui da clareira é preciso procurar a continuidade da trilha e, fuxicando as margens do enorme descampado, ela é encontrada de forma discreta e até imperceptível, situada na extrema direita do mesmo. Mergulhamos então no frescor da floresta úmida, enxugando a vegetação q obstrui eventualmente o caminho, mas q a principio torna a pernada desimpedida de modo geral. Surge uma bifurcação e tomamos o ramo da direita, ou seja, sempre subindo. O outro cai no correguinho q vínhamos ouvindo ate ali.

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Ganhando então altitude lentamente, nossa rota começa a desviar aos poucos pro norte, indo em direção o selado q interliga o Morro do Pedroso e o Morro da Torre. A subida aperta mais pro final, alternando o terreno do chão em degraus de terra e um emaranhado de raizes, ou ate numa larga e erodida vala repleta de limo e lisa feito sabão. Neste ultimo trecho é possivel perceber o corte vertical na encosta, corroborando a hipótese de estarmos palmilhando uma antiga estrada.
As 9hrs alcançamos enfim o selado q não apenas interliga montanhas, mas tb divide propriedades. Uma cerca saindo pela esquerda confirma isso, já q o Morro da Torre é divisa natural do Pq Pedroso com São Bernardo do Campo. Aqui abandonamos a trilha q percorríamos (q desce pro outro lado da serra, pro norte, sentido Condominio dos Manacás, no Bairro da Cata Preta) em favor do cercado em questão. Daqui basta acompanhar a cerca, morro acima, ora dum lado ora doutro conforme melhor convem e tiver menos mato. As vezes surgem vestígios de pisadas e trilha, mas q logo somem a seguir. Mas não tem problema pois o sentido é obvio e o vara-mato, minimo. Mas o pouco de rasgação de vegetação no peito é suficiente pra nos ensopar duma vez só, dada a gde qtidade de umidade depositada na mata.

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Após ziguezaguear a cerca um tanto, beijar trocentas teias-de-aranha e enxugar voçorocas de samambaias, emergimos no aberto, morro acima, onde os horizontes se ampliam e nos dão uma noção do qto subimos. E assim, num piscar de olhos, um zunido eletrostático envolvendo uma enorme estrutura metálica nos recebe, como q dando as boas-vindas ao alto do Morro da Torre, as 9:30hrs. Uma ampla clareira com vestígios de fogueira domina o topo, e é nela q temos nosso primeiro pit-stop pra descanso e alguns goles de água. Contudo, as promessas de melhora de tempo vão tds por agua abaixo e um espesso nevoeiro carregado de umidade toma conta do lugar. Visu q é bom, nada. Mas é perfeitamente possivel ouvir algum veiculo anunciar a promoção dum supermercado, na Estrda da Cata Preta, bem ao norte.
Pois bem, com um brumado opaco impedindo td e qq possibilidade de navegação visual, passo a me guiar norteado por carta e bússola, complementado pelo imprescindivel bom senso. Daqui temos q basicamente acompanhar a crista abaulada da serra, sentido noroeste, seguindo tb os fios de alta tensão e a mesma cerca q vínhamos acompanhando ate então. A trilha ta bem batida, o terreno é aberto e qq capim mais alto é facilmente contornado. Não tem erro.

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Ao cair na segunda torre q coroa o morrote ao lado do principal, nossa rota desvia pro sul (acompanhando sempre a cerca) enqto as torres de alta tensão tocam indefinidamente pro norte. Aqui São Pedro faz a gentileza de nos ceder um breve momento de visual, onde tanto podemos nos deleitar com o magnífica paisagem descortinada como tb confirmar nossa rota. O Bonilha é finalmente avistado (a sudoeste) pela primeira vez e o único q nos separa dele é um vale e dois morrotes menores.
Descemos então por uma crista pra oeste, cruzamos uma simpática florestinha, um marco coberto de musgo e logo nos vemos no fundo vale q coroa o selado interligando os morros. Uma clareira de acampamento e uma placa louvando Deus são sinais q fervorosos fieis não so batem cartão no Bonilha como tb pernoitam nos arredores. Mas o destaque maior foi um bizarro e antigo chapéu sobre um galho, o q deu margem a varias especulações qto sua origem.

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Ao subir novamente pro morro sgte esbarramos com uma trilha bem maior, e assim o caminho a tomar torna-se intuitivo pois daqui partem outras picadas menores noutras direções. De qq forma, é necessário tomar qq vereda q vá pro sul, contornando ou cruzando o morro no qual estamos pisando. E assim terminamos desembocando, mais acima, na base de duas torres de alta tensão doutra linha q corre paralela á anterior.
Ao dar a volta do morro (oeste) temos uma bela vista do ABC, com o capinzal dourado do morro contrastando com o cinza das construções logo abaixo, q parecem ser da Vila São Pedro, o Clube da Volks e a Favela da Biquinha. Ali tb vimos uma tocaia de caçador, mocada bem do lado da trilha, sinal q circulam bichinhos silvestres ali, bem do lado da civilização! Cruzamos então uma florestinha rumo sul e tocamos pra cima do morro a antecede o Bonilha, novamente acompanhando um cercado. No alto, largas clareiras permitem visual e ate acampamento, mas a gente prossegue pela vereda, q desce suavemente pra sudoeste em meio a nova florestinha.

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Após descer cuidadosamente um trecho onde a vereda se alarga, recoberta de musgo terrivelmetne liso, desembocamos na estrada asfaltada oficial q vem do portão de entrada da empresa dona do terreno do Bonilha. É por essa estrada q chegam as pessoas q sobem o pico mediante autorização previa. Na verdade elas so vão ate ali com veiculo, pois a estrada não sobe ate o cume propriamente dito, pois o contorna e toca pro sul. Aqui as pessoas descem do veiculo e tem o trabalho apenas de subir o ultimo lance de trilha q finalmente leva ao cume do Bonilha. E tome ultimo lance de trilha! Ingreme e com degraus sulcados na encosta, a piramba só é vencida se valendo não apenas dos pés mas tb das mãos, q servem de apoio e sustentação na pouca mata q existe ao redor.
E assim, a exatas 10:45hrs finalmente pisamos no pto mais alto da Região do Gde ABC. Como q querendo pregar uma peça, São Pedro nos sacaneia apenas com rápidos vislumbres do entorno pelas frestas daquele brumado carregado, q decidiu de vez engolir a montanha. Mas ainda assim é possivel avistar num único olhar praticamente toda São Bernardo do Campo dominando td quadrante norte, além de parte de Sto André, Mauá, Diadema e Ribeirão Pires. Com esforço, até o Pico do Jaraguá. Mas é no virar de ombros, pro sul, q a paisagem muda radicalmente do cinza pro verde, com td restante de Mata Atlântica da Serra de Paranapiacaba, assim como uma panorâmica da Represa Billings, com seu largo espelho dágua refletindo o céu opaco daquele final de manhã dominical.

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No centro do pico, existe uma base pequena de cimento q um dia sustentou uma cruz de uns 3m de altura, mas q foi levada por vândalos a alguns anos. Reza a lenda de q ela foi erguida em função da queda dum bimotor no local, vitimando tds os passageiros; enqto outras afirmam q ela foi simplesmente trazida ali por algum religioso, q parece ser o motivo mais coerente. Isso pq são justamente grupos de fieis de igrejas protestantes da região os visitantes mais assíduos do pico, já q sobem ao topo pra orar e estar “mais próximo de Deus”. De qq forma, o fato é q o sumiço da cruz foi o motivo pra começarem a controlar a entrada do lugar.
Após o tempo suficiente de descanso e contemplação, a má vontade de São Pedro decidiu nos enxotar dali coroando o rolê com uma cereja de bolo pra lá de perrengosa: chuva torrencial inipterrupta! Imediatamente nos pirulitamos dali, antes q nossos corpos ensopados congelassem , os músculos a tiritar e queixo a bater freneticamente por inatividade. Precisávamos nos manter em movimento e nada melhor do q voltar pelo mesmo caminho! Sem pressa, claro, e com muita cautela, já q os trechos pirambeiros encontravam-se bem mais lisos q na ida e o q havia sido trilha na ida agora era um turbulento córrego, por onde corria muita agua barrenta.

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Ainda assim, a volta foi bem mais rápida q a ida, e as 13:30hrs já estávamos na portaria do Pque Pedroso, onde trocamos as vestes úmidas por roupa seca e aconchegante, nos sanitários. “Ces tavam no Montanhão mesmo?”, pergunta o incrédulo guardinha pra mim, qdo respondo de onde tínhamos recém-chegado naquele estado nada apresentável, onde parece q éramos os únicos visitantes do pque naquele horário. “Ces tão é doido!”, emenda ele, dando aquela risada de quem não se convenceu de q era mesmo verdade. Não demorou pro busão passar e num piscar de olhosja estavamos no centro de Sto André, bebemorando com brejas e cafezitos o perrenguito molhado num boteco de quinta, ao lado da estação.
Se o Pico do Bonilha ainda é quase um desconhecido até para os moradores do Grande ABC, imagine pro resto dos paulistanos. Tombado como patrimônio histórico e cultural pelo Compahc de São Bernardo em 2002, o Pico do Bonilha é propriedade privada pertencente a dois proprietários: a tradicional família Setti, de São Bernardo, e a empresa Emparsanco, q por sua vez fica do lado do pico (perto da fabrica da Volks) e cuida do portão de entrada. Em tempo, quem quiser subir o Bonilha pela forma tradicional (e oficial), atraves da estrada asfaltada q leva quase ao alto, deve ligar pelo telefone (011) 4334-8000 e marcar horário. Vale a pena dar uma passadinha la.

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O Pico do Bonilha se destaca como o ponto culminante local, visível de onde quer q seja. Essa particularidade representa grande importância paisagística por proporcionar uma visão panorâmica e única da região do Planalto Paulistano, além de fazer parte duma região que abriga remanescentes da Mata Atlântica e mananciais potáveis. E se o caminho oficial ao alto de seus modestos 986,5m é a penitencia exigida a seus costumeiros freqüentadores religiosos pra estar próximo Dele por um dia, o caminho alternativo sugerido não deixa de ser a prazerosa via-crucis daqueles q optaram a vida outdoor como estilo de vida. Chuva, mato alto, bambuzinhos espinhentos e trilha íngreme e escorregadia. Esse é o caminho ideal pra estar simplesmente mais próximo da naturesa e de largos horizontes. E pq não, de si mesmo.

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