Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#899933 por rafael_santiago
24 Nov 2013, 22:17
As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... eirasNov13.

O Pico do Muquém, o Pico da Bandeira e o Pico do Calambau formam a tríade de montanhas irmãs do município de Carvalhos, sul de Minas Gerais. Desde que os avistamos pela primeira vez durante uma travessia na Serra do Papagaio, esse conjunto despertou a nossa atenção e procuramos logo saber como chegar a eles e se haveria trilha para os cumes. Nesse último feriado o velho projeto foi colocado em prática.

PICO DO MUQUÉM

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Após uma noite de merecido descanso do estresse causado pelo enorme congestionamento de feriado, saímos eu e o Ronald da pousada Pico do Muquém, em Carvalhos, às 8h10 e nos dirigimos ao bairro do Muquém, a 8,3km da cidade, para obter informações sobre a subida do Pico do Muquém, nosso primeiro objetivo. Não há dificuldade para chegar aos bairros rurais do município pois há placas indicativas na saída da cidade e nas bifurcações todas. No bairro do Muquém os moradores nos deram duas alternativas: tomar uma estrada ali mesmo, ao lado do laticínio, e seguir até um sítio onde deveríamos deixar o carro e seguir a pé por causa das más condições da estrada; ou voltar 6,6km e, numa das bifurcações sinalizadas, rumar para o bairro Ponte Alta, com a estrada em melhores condições e a possibilidade de chegar mais perto da base do pico com o carro.

Escolhemos a segunda opção. Desde a bifurcação do bairro Ponte Alta até a igrejinha do local rodamos 2,4km, depois mais 1,2km até uma bifurcação em que as duas ramificações terminariam em poucos metros em algum sítio ou fazenda. Deixamos o carro nessa bifurcação às 9h22 e seguimos a pé pela estradinha estreita da esquerda, exatamente na direção do pico. Cruzamos a primeira porteira e antes da segunda tomamos uma trilha no pasto à esquerda, começando a subir. Essa trilha bem marcada nos levou a um selado com uma pequena porteira. Como dali em diante a picada desceria para a outra vertente, ganhamos o pasto à direita e subimos sem trilha, sempre de olho no pico. Cruzamos uma cerca por baixo e continuamos subindo (ainda sem trilha) pelo capim e lajes de pedra na direção de uma matinha no topo. Parte do bairro do Muquém já se tornava visível à esquerda, bem abaixo no vale. A matinha era rala a princípio e uma trilha ajudou a avançar na direção desejada, ou seja, sempre para cima e na direção do enorme rochoso do Muquém. A mata tornou-se mais espessa e a trilha nos levou diretamente a uma cerca, que cruzamos também por baixo. O pasto a seguir estava viçoso e com o capim ligeiramente mais alto. Seguimos sem trilha de novo tendo uma cerca à esquerda até o momento certo de cruzá-la e tomar a crista final para a base do pico. Para nossa surpresa a cerca era dupla, mas num determinado ponto o arame não era farpado e foi mais fácil a travessia por baixo ou por cima.

No capim a seguir não havia uma trilha nos primeiros metros, mas tomando a direção da crista (à direita) logo apareceu uma picada bem definida que nos levou morro acima. Nessa subida uma visão surpreendente: dois veados andavam ali pela mata da base do pico, porém ao nos ver fugiram para o alto e desapareceram.

Essa trilha, como disse, sobe pela direita do pico e leva diretamente à sua face oeste, a única acessível sem equipamento já que todos os outros lados do rochoso são altas paredes a pique. Atingida a base junto à face oeste às 11h, a visão já é espetacular, com uma série de montanhas do lado sul despontando.

Mas agora é que a aventura ia começar: a escalaminhada da parede do pico até seu cume. Como essa montanha é relativamente frequentada, já existe um caminho marcado nessa subida bastante íngreme. O lance que exige mais cuidado é uma laje de pedra inclinada (quase vertical) de uns 6 metros de altura com apoios ruins e bastante exposta à altura do lado esquerdo. Passado esse ponto de adrenalina basta subir embalado que o cume está logo ali. Chegamos a ele às 11h23 e o gps registrou a altitude de 1695m.

A visão do topo é magnífica já que o Pico do Muquém é um dos mais altos do município. O bairro Ponte Alta, onde deixamos o carro, ficou a nordeste, assim como a cidade de Carvalhos. A sudeste o bairro do Muquém, agora totalmente visível, com destaque para sua igreja. Os picos irmãos do Muquém estão ao sul (Bandeira) e a noroeste (Calambau), chamando a atenção a enorme parede de pedra da face norte do Bandeira, este uns 30m mais alto que o Muquém. E para além do Bandeira, bem distante, distinguem-se a Mitra do Bispo e a Serra do Ouro Fala, nos limites entre Alagoa e Aiuruoca. A oeste uma visão bastante diferente do Pico do Papagaio e toda sua serra. Para completar a panorâmica, dois biquinhos despontam sobre as serras ao sul: é a Pedra Selada de Visconde de Mauá.

Permanecemos no cume cerca de uma hora, recolhemos o pouco de lixo que havia e iniciamos a descida às 12h26. A passagem pela laje mais alta não teve grandes riscos e foi tranquila. Refizemos exatamente o mesmo caminho na volta, cruzamos as três cercas e descemos pelo pasto até a porteira pequena do selado. Como mencionei, dali em diante a picada que vem do bairro Ponte Alta desce para a outra vertente, a do bairro do Muquém. O Ronald deveria voltar à Ponte Alta para pegar o carro, mas eu gostei da sua sugestão de explorar esse outro lado da serra e verificar as condições da estrada, precária segundo os moradores com quem conversamos.

Nos separamos às 13h40 e não desci nem 300m que já cruzei um colchete junto a uma casa. Logo abaixo atravessei a porteira de arame farpado da entrada do sítio e peguei água no riachinho ao lado (a única água do dia). Em seguida uma casa grande em construção, uma estrada seguindo para a direita que ignorei (por supor levar a algum sítio) e uma estrada "principal" correndo à esquerda. Se a tomasse à esquerda voltaria para o bairro Ponte Alta, então fui para a direita. Ela sobe um pouco e tem um pouco de pedras soltas, mas com tempo seco é viável para qualquer carro. Passei por uma porteira às 14h10 e fui para a esquerda na bifurcação seguinte. Vários outros sítios, vacas no meio da estradinha, mais duas porteiras e às 14h34 estava de volta ao bairro do Muquém, exatamente na esquina do laticínio, como haviam nos informado. Concluí que essa estradinha, apesar de duas pequenas ladeiras com algumas pedras, seria acessível a qualquer carro em condições de tempo seco. Porém, para quem está em Carvalhos, o caminho mais curto até o Pico do Muquém certamente é pelo bairro Ponte Alta. O acesso pelo bairro do Muquém seria conveniente para quem está em Aiuruoca e se dirige a Carvalhos pelas estradas vicinais que ligam as duas cidades, passando pelo bairro Três Irmãos.

PICO DA BANDEIRA

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Sem demora, partimos para a segunda montanha do dia, o Pico da Bandeira, o irmão do Muquém mais ao sul.

Do bairro do Muquém seguimos de carro na direção do bairro Três Irmãos (sudoeste), tomando a direita na primeira bifurcação e parando um instante na segunda bifurcação, cerca de 800m após o bairro, onde uma placa indicava Três Irmãos e Aiuruoca à direita e Bananeira à esquerda. Estávamos exatamente no pé da longa crista que tem como cume o Pico da Bandeira e seguimos para a esquerda. Rodamos 2,1km e deixamos o carro em frente a um ranchinho de madeira que serve como depósito, próximo a uma casa antiga abandonada.

Dali às 14h55 cruzamos um colchete do lado direito da estrada (para quem vem do Muquém) e atravessamos uma área de terra com uma plantação de milho que ainda começava a brotar. Mais um colchete e começamos a subir a encosta de pasto à esquerda (oeste) sem trilha a princípio. Logo uma trilha bem definida aparece na direção desejada e nos leva diretamente à mata densa que recobre toda a encosta mais alta dessa serra. Surpreendentemente, a trilha continuava bem aberta e marcada por dentro da mata, o que indicava que estávamos no caminho certo e as chances de sucesso, apesar do horário avançado, aumentavam.

Bem, a trilha subiu sem erro até alcançar uma área de mata mais aberta e muitas samambaias jovens espalhadas pelo capim. Ali ela sumiu. Como o avanço seria fácil (até o dia em que essas samambaias tomarem conta de tudo), tocamos para cima procurando alguma continuação da picada, o que aconteceu uns 200m acima, onde ela corre da esquerda para a direita. Prosseguimos para a direita, atravessamos um colchete e alcançamos a crista às 15h30. Dali a trilha continua em frente, toma a direita e começa a descer suavemente. Mas o cume do Bandeira estava à nossa esquerda (e ainda havia um desnível grande até seu topo). Abandonamos essa trilha que tendia a descer e tomamos uma outra trilha à esquerda, bem na direção do cume, porém ela parecia menos usada e logo começou a sumir no meio da vegetação mais fechada. Tivemos que procurar sua continuação varando o mato para os lados. Encontramos mais um pedaço dela e saímos desse trecho mais fechado para uma matinha mais baixa e rala, onde também a trilha não estava definida mas a visão do pico nos dava a direção, ou seja, tendendo à esquerda já que à direita a inclinação era quase vertical. Aos poucos saímos da matinha espaçada e atingimos a encosta de capim do pico. Por sorte havia um rastro de capim amassado que facilitou a subida final, um pouco longa e íngreme. Atingimos enfim o cume do Pico da Bandeira às 16h18 verificando que pela sua altitude (1726m) ele era realmente mais alto que o Muquém (31m).

A visão é igualmente espetacular, com o Pico do Muquém ao norte e o bairro homônimo a leste. Ao sul, tivemos uma visão ainda mais nítida da Pedra Selada, da Mitra do Bispo, da Serra do Ouro Fala e até da Serra do Capoeirão, rasgada pela estrada que liga Alagoa a Itamonte, sempre bem destacada pelos enormes barrancos vermelhos. À direita dela pudemos distinguir bem no horizonte o Pico do Garrafão.

Percorremos o cume, que se alonga no sentido leste-oeste, e permanecemos pouco mais de uma hora, quando as chuvas avistadas ao longe começaram a se aproximar. Iniciamos a descida às 17h24 pelo mesmo caminho e chegamos ao carro às 18h55. Dali foram 11km de volta a Carvalhos.

Informações adicionais:

Cartas topográficas:
. Alagoa - http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -A-I-2.jpg
. Liberdade - http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... A-II-1.jpg

Observação: na carta topográfica do IBGE, os picos aparecem com outros nomes. O Pico do Muquém está como Morro Grande, o Pico da Bandeira é Morro do Mato Grosso e o Pico do Calambau vem registrado como Morro da Ponte Alta.

Rafael Santiago
novembro/2013

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Percurso na imagem do Google Earth

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Percurso na carta topográfica
Editado pela última vez por rafael_santiago em 04 Dez 2013, 16:26, em um total de 7 vezes.

#900047 por Otávio Luiz
25 Nov 2013, 09:28
Legal!!! Conseguiu um programa bacana pro feriado.
Cada vez mais gosto do sul de Minas, e a culpa é sua. ::cool::
#900239 por rafael_santiago
25 Nov 2013, 16:09
Hahaha... que bom, Otávio! Pela primeira vez fico feliz em ser o culpado de alguma coisa.

Então, dessa vez não deu para acompanhar a odisséia de vocês na Serra do Mar mas aproveitei o feriado enquanto a chuva deixou, com dois picos e duas cachoeiras bem bacanas. Valeu a pena conhecer a pequena Carvalhos!
Abração!
#900513 por FRANCISCO CARDOSO
26 Nov 2013, 09:22
Olá Rafael,

Lugar pertinho e lindo, por mim só visto ao longe desde a Ouro Fala/Mitra há muito tempo em um dia limpo; ou mais próximo quando ia às festinhas (ou quermesses como dizem os paulistas hahaha) nos bairrinhos de Carvalhos... (Deu até saudades daquelas festinhas hahahaha)...
Vou seguir seu relato e subi-los, fiquei curioso...

Obrigado por mostrá-los por aqui, acho que um feito inédito...

Abração

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