Relatos de Viagens em Portugal
#949802 por JJPPMM
16 Abr 2014, 19:18
Olá a todos

Acabei de me registar no vosso ( nosso ) forum.
Sou o João Paulo , vivo em Lisboa , tenho 50 anos e adoro viajar
E porque Portugal não é só Lisboa e o Porto ,mostro-vos uma aldeia muito tipica de Portugal , talvez a mais tipica e a mais bela e chama-se

PIODÃO

“Abrigada no coração da Serra do Açor, une-se com a natureza de tal forma, que por detrás de cada pedra erguida se esconde uma história.”

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Por diversas vezes tinha ouvido falar do Piodão , mas sempre que visitei a zona da Serra da Estrela , não sei bem porque razão , sempre fazíamos a volta normal de Manteigas , Torre , Covilhã , nunca dando muita atenção á vizinha Serra do Açor que veio a mostrar-se tão ou ainda mais interessante .
Assim numa manhã de sábado de Páscoa , partimos para uma visita à Serra do Açor e à Serra da Estrela. A volta que escolhemos foi a ida pelo A1 ( Lisboa ) , seguimos pela IP3 até à saída para Arganil, passamos por Coja , Benfeita, Fraga da Pena seguindo depois pela estrada bem sinalizada até ao Piódão.
As estradas sinuosas e estreitas serpenteiam as encostas xistosas da Serra do Açor.

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Qualquer que seja a altura do ano, qualquer que seja o caminho tomado, a natureza não pára de surpreender com as suas cores improváveis, num mundo vestido a cinza de betão. O branco da neve e a transparência das cascatas que escorrem dos socalcos íngremes da serra no Inverno dão lugar, na Primavera, ao amarelo das giestas e das carquejas e ao lilás das Urzes. As rochas estão salpicadas por líquens e musgos de cor verde oliva. Ao longe vemos manchas de pinheiros, carvalhos e castanheiros. São frequentes as ruínas do que outrora foram casas de xisto de agricultores agora abandonadas e desgastadas pelo tempo e que são hoje apenas parte da paisagem e da história deste lugar.

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No meio das exuberantes escarpas e vales profundos situam-se pequenos povoados que se fundem na paisagem. Rasgando os céus encontrará o Açor, uma ave de rapina que deu nome a esta maravilhosa e colorida serra. Corujas do mato e gaviões também são habitantes locais. O Javali e a Geneta são exemplos dos mamiferos de grande porte que habitam a região.
Depois de uma hora passeando pela Serra, encontramos o Piódão no seu ninho de verdura, tal uma tela cubista imobilizada no tempo.

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As suas casas de pedra descem de socalco em socalco ao sabor do monte, oferecendo-se ao olhar incrédulo de quem julga ter encontrado uma povoação encantada em plena Serra do Açor. Assim nos surgiu o Piódão, uma das dez Aldeias Históricas de Portugal, que sobreviveu aos rigores de muitos Invernos e Verões da Beira para nos fazer recordar um país quase esquecido

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Há muitos anos atrás , lá no cimo da colina , existia um lugar chamado “ Casal de Piodam” . Piodam queria dizer “a gente ou o povo que anda a pé” . Um dia, contam os anciães, uma “praga de formigas” obrigou a povoação a abandonar o local do qual somente ficou o nome : Piodão Velho.

Os poucos habitantes refugiaram-se no fundo da encosta .Este recatado lugar viria a ser o ponto de partida para a fundação de uma nova aldeia de beleza ímpar : PIODÃO NOVO.
De qualquer modo, as duas aldeias partilham uma história muito mais antiga: os habitantes de ambas descendem dos Lusitanos, os mais antigos povoadores dos Montes Hermínios .

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Ao longo dos tempos, as populações foram criando condições para a subsistência, conquistando à serra com suor, cada pequena eira cultivada em socalcos. Viveram durante séculos do mel, do azeite, do queijo, do centeio e do milho.
Curavam as maleitas com responsos e mezinhas e quebravam o isolamento com grandes caminhadas (são deliciosas as histórias, por exemplo, das “galinheiras”, mulheres que calcorreavam caminhos até à Covilhã, de cesta à cabeça, em dias de neve ou calor abrasador, recolhendo ovos pelos montes que depois vendiam na cidade ) para venderem os seus produtos nas feiras e mercados das aldeias e cidades vizinhas.

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Era bem dura a vida dos piodenses. A Natureza não cedia facilmente os seus tesouros . Tiveram de construir as casas com lousa , xisto , argila e madeira de castanheiro. Como aliado na lavoura e nos transporte dos produtos agrícolas , tinham o “ macho “ , um intrigante animal fruto do cruzamento do cavalo e do burro .

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Como recompensa do trabalho passado na lavoura , o povo ambicionava ter uma capela . Segundo os ditos populares a primeira foi construída com base no suor e nas poupanças dos aldeões. Um deles, diz-se ter caminhado durante quatro dias para conseguir a autorização do Bispo de Coimbra para esta obra. É desta forma que o Piodão aparece referenciado pela primeira vez em 1676 como freguesia.

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Só que as dificuldades deixaram um dia de fazer sentido, perante o estilo de vida das grandes cidades e, a partir de meados do século XX, a maioria emigrou para outros países ou para o litoral. Repare-se que a estrada de Piódão só foi construída em 1972 e a instalação de energia eléctrica, meia dúzia de anos depois. Demasiado tarde para fixar as gentes de Piódão à sua terra, agora ressuscitada, graças ao número crescente de visitantes que viajam, através desta aldeia remota, pela história de um Portugal quase esquecido.

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A disposição das casas numa encosta abrigada é típica de um povoamento medieval de montanha, que certamente cresceu à medida que a população ia aumentando. Actualmente, a povoação consiste num amontoado de casas de xisto semelhantes entre si (parecem ter sido todas construídas de uma só vez), que se espraia pelo morro em forma de altar ou anfiteatro, com todas as suas ruelas empedradas em xisto ou talhadas na rocha. Pelo meio passa uma levada, onde a água corre por força da gravidade.

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A exploração deste lugar é nada mais nada menos que uma aula sobre os modos de vida de outros tempos, já que a maioria das casas guarda a estrutura de antigamente. São compostas por dois pisos, sendo o térreo destinado à arrecadação das alfaias agrícolas, arcas dos cereais e salgadeiras, onde se guardava e conservava a carne de porco. No primeiro piso encontramos a habitação propriamente dita . As janelas azuis cobertas por lindas cortinas de renda trabalhada à mão , não permitem ver o interior que se diz sóbrio e de pouca opulência.

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A homogeneidade da cor com que as portas e os frisos das janelas foram pintadas, azul magrebino, é mais uma consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeito . A razão segundo consta, é que na altura a única lata de tinta que tinha chegado á mercearia da aldeia tinha esta cor. Por cima de muitas das portas existem ainda pequenas cruzes que, acredita-se, afastam as trovoadas. No Domingo de Ramos os fiéis levam um ramo de oliveira para benzer e, nas noites de tempestade, fazem com ele uma cruz que colocam em cima das brasas da lareira ou da entrada de casa, invocando, deste modo, a protecção de Santa Bárbara.

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Esta a ser feito um grande trabalho de recuperação nas casa da aldeia , mas deveriam dar mais atenção a pequenos pormenores tais como as antenas de televisão ou os cabos de energia que tiram em muitos casos a beleza natural desta vila.
O maior monumento de Piódão é a aldeia no seu todo, mas a Igreja Matriz (século XVII), dedicada a N. Sr.ª da Conceição, é um edifício interessantíssimo que testemunha a religiosidade dos habitantes. Pensa--se que, no local onde está actualmente edificada, teria existido uma pequena capela, da qual resta uma imagem calcária de N. Sr.ª da Conceição, colocada no exterior da actual igreja. Esta última sofreu várias obras de beneficiação, uma vez que os retábulos interiores datam do século XVIII e as obras de talha são da transição do século XIX para o XX, altura em que foi ampliada e remodelada e a sua frontaria construída e planeada pelo Cónego Nogueira. Ameaçava ruir e o restauro foi feito ao sabor do neo-barroco, ecléctico e romântico, muito comum na época.

Poucas são as aldeias históricas em Portugal que não tenham uma lenda popular . O Piodão não foge à regra e porque a achei simpática e cativante gostaria também de a partilhar com todos vós.

Lenda da Aldeia Histórica de Piódão
Dois Reis enganados por um mendigo

Esta é uma história baseada em factos reais. Os três nobres que assassinaram D. Inês de Castro refugiaram-se em Castela, após os fatídicos acontecimentos. O Rei de Castela considerou que o crime cometido em Portugal não lhe dizia respeito e acolheu-os com honras de grandes senhores e garantiu-lhes protecção. Com a morte de seu pai, D. Pedro subiu ao trono e jurou vingar a morte da sua amada Inês. Propôs então ao Rei de Castela um pacto: trocariam entre si criminosos fugidos à justiça. O Rei aceitou o pacto a mandou prender e entregar a D. Pedro os homens a quem tinha garantido protecção. No entanto um deles, Diogo Lopes Pacheco, logrou escapar de tal sorte. Ajudado por um pobre mendigo, de seu nome Garcia, a quem tinha em tempos ajudado e dado protecção, que o avisou da combinação entre Castela e Portugal, conseguiu enganar os guardas que em vão o procuraram. Assim que soube que o Rei de Castela procurava o seu amigo, Garcia partiu ao seu encontro. E assim que o avistou, depois de lhe contar o que se passava, contou-lhe do seu plano para que pudesse escapar. Por conselho do pobre Garcia, o nobre trocou as suas faustosas roupas de caça por velhos farrapos, aos quais sobrepôs um hábito de frade. Com o capuz pela cabeça, seria impossível reconhece-lo. E devia partir, na companhia de almocreves, fingindo pedir esmola. O nobre achou o plano brilhante, notável, de tão simples. Antes de partir, porem, depositou nas mãos de Garcia, um punhado de moedas de ouro, dizendo-lhe que ele seria, por certo, o único amigo verdadeiro que tinha nesta vida. E partiu. Partiu rumo a uma encosta inacessível de um vale isolado, onde só de longe em longe apareciam pastores ou fora-da-lei. Diz a lenda que é nesse lugar que se ergue a aldeia de Piódão e que quem lá vai mesmo que não conheça estas histórias antigas sente mesmo assim, o envolvimento numa atmosfera cheia de segredos.
Cada um de nós que visite o Piodão tire as suas conclusões. Eu tenho a minha !!!!!

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Não era tarde quando nos despedimos do Piodão. Afinal ainda tínhamos bastante mais para ver e muitos quilómetros em estrada de serra a fazer , mas , ficou em mim aquela sensação estranha de imaginar o que seria fotografar o Piodão numa escura noite de Inverno.
Ficará para uma outra oportunidade pois tenho a certeza de que quem visitar o Piodão voltará sempre.

E para terminar gostava de vos dizer que o fascínio e a beleza não estão unicamente na fantástica aldeia que é o PIODÃO , mas está também em muitos dos seus habitantes.
Um deles é este simpático e imaculado " GATO BRANCO " que de cabeça pendurada na sua varanda observa atentamente cada um dos visitantes que por ali passa.... bonito não é ?

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Espero que tenham gostado tanto quanto nós.

Abraço a todos
J.Paulo

#949909 por JJPPMM
17 Abr 2014, 08:20
Juliana Champi escreveu:Que legal, como Serra Estrela está no meu roteiro, vou ver se dou uma chegada nesse lugar!!
:D


Olá Juliana

Está no mesmo maciço da Serra da Estrela .
Toda a Serra é muito bonita ( Manteigas , Foz da Égua , Folgosinho , Etc ).
Se tiver dúvidas diz

J.Paulo
#1119342 por maurício.chara
01 Set 2015, 08:18
Não sei com o que fiquei mais impressionado: se com a vila em si ou da maneira como você escreveu! Parabéns pelo relato MUITO bem escrito!
Certamente que Portugal está entre os lugares mais lindos que visitei (se não for o mais). Quando fui aí em março deste ano subi a Serra da Estrela por Seia e desci por Covilhã, mas agora arrependo-me por não ter conhecido esta vila. Já estou programando minha próxima viagem ao país e certamente estará em meu roteiro! Forte abraço!

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