Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#725705 por Kássio Massa
09 Jun 2012, 05:00
Mais fotos desta trip: http://rotamassa.blogspot.com.br/2012/0 ... lista.html

Este roteiro foi pensado de modo a casar dois interessantes itens; o trekking, através de uma caminhada de 7 km por estrada de ferro, e o reconhecimento cultural e arquitetônico de uma importante região no Interior Paulista.

Há exatamente um ano, realizei parte deste mesmo trajeto que para muitos é rotina diária, o percurso peatonal sobre os trilhos de uma das mais antigas estradas de ferro brasileiras, a Estrada de Ferro Sorocabana, caminhada que tem seu ponto de partida na periferia de São Roque, e se extende por cerca de 7km até a antiga Estação de Mairinque, datada de 1906, e considerada uma das construções mais importantes do país.

A Estrada de Ferro Sorocabana, ou EFS, é um sistema ferroviário construido no século XIX a fim de servir como meio de transporte de cargas e passageiros entre o Interior Paulista e a região central de São Paulo, bem como para a Baixada Santista, através do ramal Mairinque-Santos. Atualmente, a Sorocabana serve somente ao transporte de cargas, tendo alguns de seus trechos sido desativados.

Diariamente, moradores de zonas próximas a esta ferrovia a utilizam, a pé, para se deslocar entre cidades cortadas por ela, como alternativa aos precários sistemas de transporte público e a arriscadas caminhadas por estradas e rodovias.


A fim de realizar o percurso por completo, tratei de estruturar uma rota mais atraente que a do ano anterior. Desta vez, sem passar pelo centro de São Roque, mas sim, descer do ônibus ainda na rodovia Raposo Tavares, pouco antes de o mesmo adentrar a dita cidade, e acessar a ferrovia por uma passagem de nível localizada à beira da estrada, mas sem antes passar pelo Recanto da Cascata, um complexo turístico localizado próximo dali e que oferece, alem de quadras e campos poliesportivos, uma vista espetacular de uma grande sequência de quedas d'água, pertencentes ao Ribeirão Carambeí, mesmo curso de rio que corta toda a área central da cidade.

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Como nosso encontro na estação Itapevi, previsto originalmente para as 9h30, sofreu um atraso de quase 1h, chegamos ao Recanto um pouco mais tarde do que prevíamos, mas não o suficiente para prejudicar o desenrolar da trip. Sendo assim, após contemplar a bela cachoeira presente no local, nossa trupe, desta vez composta pelo Gabriel Medina, o Finazzi (Felipe Cruz) e o estreante Raphael Martins, deu início ligeiro à caminhada pelos trilhos da Sorocabana - quer dizer, quase ligeiro, não fosse um longo cargueiro (talvez o mesmo que havíamos avistado em Carapicuíba, enquanto ainda seguíamos para Itapevi, no trem da CPTM), que também indo em direção a Mairinque, passava lentamente por nós, nos fazendo esperar a via ser totalmente liberada para que pudéssemos prosseguir sem maiores problemas.

Eis que em cerca de 20min de caminhada, passamos pelo o primeiro ponto de referência do trajeto, a Estação de São Roque, que vem - ainda - sendo restaurado pela prefeitura da cidade e de onde também se pode acessar o Morro do Cruzeiro, um dos mirantes da região.

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Por não termos passado em locais que visitamos na última vez, como os próprios Morro do Cruzeiro e a estação, conseguimos avançar rapidamente. Menos de 1h depois, chegamos ao "cemitério de trens", onde diversos vagões sucateados vegetam, sob a ação do tempo e da natureza que aqui, mostra-se vagarosa, mas não mais piedosa.

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A novidade se dá no trecho final, de 1,6km, o qual não havíamos percorrido antes, onde o leito da ferrovia se alarga e passa por grandes indústrias, até culminar no pátio ferroviário da antiga Estação "Mayrink", cuja grafia do nome foi alterada para Mairinque, mesmo as antigas placas de sinalização não tendo sido trocadas ao longo do tempo. Hoje, o pátio é utilizado pela ALL - América Latina Logística para manutenção, manobras e como garagem de seus trens. O prédio da antiga estação é separado do complexo ferroviário por uma cerca em arame, pois está sob propriedade da prefeitura da cidade, que encarregou-se de transformá-la em museu ferroviário. Portanto, não conseguimos registros fotográficos tão precisos do interior da edificação, apenas panoramas externos. Aproveitamos também para tirar algumas outras fotos aleatórias de locomotivas que se encontravam ali no pátio, até sermos abordados por um fiscal "responsável pela área", que se incomodou ao nos ver fotografando o local - não apenas os trens, mas sim, a própria estação -, alegando que para tal, precisaríamos de autorização prévia, sendo que fotografar ou fazer qualquer registro de patrimônios históricos ou tombados é um direito do cidadão, garantido por constituição federal. Por fim, ele não teria muito o que fazer, já que as fotos já estavam tiradas!

A antiga Estação de Mayrink, concebida pelo arquiteto francês Victor Dubugras, e inaugurada em 1906, ao estilo Art-Nouveau, é tida como a primeira construção em concreto armado do país, sendo que esta técnica construtiva somente seria utilizada, novamente, em território nacional, 30 anos depois. Por este motivo, é considerada um dos edifícios mais importantes do país, mesmo não recebendo atenção e cuidados dignos por parte de quem o administra atualmente - por exemplo, atualmente, a estação virou museu, mas somente funciona em dias úteis. Uma pena...

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Dando continuidade ao roteiro, deixamos o pátio ferroviário por um portão a Sul, e seguimos em direção ao centro, passando ainda, pelo túnel de acesso à estação, ao qual, devido à mesma não abrir ao público em fins de semana, não conseguimos acessar a partir do pátio. Trata-se uma passagem abaixo do nível da estação, pelo qual se acessa o prédio principal e as plataformas de embarque, por uma escadaria. Ou seja, a Estação de Mairinque é semi-elevada e tem acesso subterrâneo, um trunfo arquitetônico para a época.

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No centro de Mairinque, visávamos contemplar uma locomotiva com a mesma idade da antiga estação, datada de 1906, estacionada numa pequena praça. Trata-se da locomotiva a vapor, de fabricação estadunidense, e carinhosamente referida como "Cecília". Um fato interessante é que a mesma ainda está em excelente estado de conservação, e é totalmente funcional. Há projetos para utilizá-la em rotas turísticas na região. Esta mesma praça abriga o ponto de ônibus onde passa o coletivo que nos levaria, posteriormente, de volta a São Roque.

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O último atrativo do dia ficaria por conta do Horto Florestal de Mairinque, acessível pela Rua Luiz Matheus Mailasky. A princípio, tudo corria bem, encontramos a estradinha de acesso ao parque, porém, nos deparamos com algo inusitado: o portão principal do horto estava inacessível, graças a um alagamento de causas misteriosas. Simplesmente, uma enorme área estava submersa, e em certos pontos, a profundidade era tanta que a água chegava a cobrir imóveis que ali estavam! Insistidamente, procuramos meios de entrar no parque, e por fim, encontramos um acesso alternativo, por dentro da mata, que consistia em um precário tronco, que servia de ponte improvisada para que as pessoas pudessem transpor um abismo de cerca de 4m de profundidade, um obstáculo desnecessária, não fosse o descaso nítido da prefeitura para com este espaço público, que é o Horto Florestal de Mairinque.

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Apesar da propaganda - muito bem feita - do lugar, na Internet, percebemos que o cenário aqui é de total abandono. Um jardim japonês, concebido e implantado no ano de 2008 para o centenário da imigração japonesa no Brasil encontra-se, hoje, praticamente, intocado, e totalmente abandonado, assim como o restante do parque. Não sendo o bastante, a infra-estrutura de apoio e sanitários públicos encontram-se totalmente destruídos. É de se espantar que mesmo com tantos fatos revoltantes e com a própria dificuldade de acesso o parque ainda recebe alguns visitantes, inclusive famílias com crianças!

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Enfim, às 17h30, vazamos daquele ermo parque urbano, e rumamos de volta ao centro. Mas antes de embarcarmos, decidimos, gloriosamente, rachar uma merecida pizza numa padoca-restaurante próxima ao ponto, um gesto comemorativo digno de um dia muito bem aproveitado como este!

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Mas ainda nos restava a jornada de retorno à paulicéia, que se resumiu em 2 horas somadas de espera em pontos de ônibus, e um "show de humor" do "Jhow de Itapevi", no busão que tomamos em São Roque para Itapevi, um velhote, definitivamente sob efeito de substâncias não muito interessantes que, sem sequer conseguir parar em pé, soltavam bordões e levantavam o astral da galera - claro, sem esta intenção.

Apesar da grande bagagem cultural que podemos adquirir e da satisfação em conhecer novos lugares, quando viajamos, mesmo para destinos próximos de casa, como São Roque ou Mairinque, ainda conseguimos nos deparar com desprazeres que nos fazem não só refletir, mas pensar e propor soluções a estes. A região visitada é lar de um riquíssimo patrimônio cultural e natural, mas somente poderemos usufruir deste se houver efetiva atenção por parte não apenas das autoridades responsáveis, mas também de todos nós!


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