Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka
#797095 por engand.andre
14 Jan 2013, 11:17
Pessoal, essa é a continuação da viagem da Turquia, postada aqui: uma-viagem-de-6-meses-relato-da-turquia-t77190.html#p797092

Mudei o tópico pois Índia e Sudeste Asiático tem outro foco.

Reitero que não consigo postar fotos aqui. Faço apenas uma colagem do texto do meu blog (abaixo de minha assinatura) e retiro as legendas e reformato o texto. Perdoe-me alguma falha. Os links do texto original também não são copiados e para mim, que estou no meio da viagem, ficaria inviável de recolocar todos.

Abraços!


#797098 por engand.andre
14 Jan 2013, 11:18
Dia 28 a 31– Índia: Chennai e Mahabalipuram

Após a longa viagem para a Índia, cheguei em Chennai. A cidade foi escolhida por ser a porta internacional do sul da Índia, ou mais especificamente, do Estado de Tamil Nadu, o primeiro objetivo a vivenciar. Uma região que, por estar mais distante das rotas de comércio da antiguidade e das batalhas no Norte com outros povos, sofreu menos influência de outras religiões e possui uma largo legado das civilizações primitivas indianas, que já professavam o hinduísmo a mais de 20 séculos a.C., o que a torna, documentalmente, a mais antiga religião ainda seguida no mundo.

Em Chennai, eu reservei pela internet um hotel perto do aeroporto, pois iria encontrar uma amiga logo na manhã seguinte, no aeroporto. A ideia seria apenas descansar um pouco da viagem. Porém, a experiência não foi boa. O local, a rua eram péssimos. Imagine a Índia maluca que você vê em filmes. Era assim. Com a dificuldade de encontrar um supermercado decente, de entrar na internet (no hotel, embora no booking.com mostrava a existência, estava com problemas), e de se fazer uma simples refeição com segurança. O barulho de buzinas ensurdecedor, mesmo dentro do quarto. Lá fora, ruas sem calçadas, disputa de espaços com pessoas (milhões), motos (milhares), tuktuks e carros (centenas) e vacas (dezenas). O alento foram as pessoas, sempre gentis na tentativa de ajudar, porém com um inglês bem difícil de entender. Enfim, esse primeiro dia foi um choque cultural enorme, que aliado ao cansaço da viagem, me deixou meio em transe. Precisava me recompor em outro local. E foi para esse local que fui com essa amiga no dia seguinte junto com um grupo de viagem: Mahabalipuram.

Mahabalipuram fica a cerca de 30km de Chennai, uma distância que a van demorou mais de uma hora para percorrer, em virtude da loucura do trânsito na saída da cidade. Procurei uma guesthouse e encontrei rapidamente uma praticamente de frente à praia, com banheiro privativo e ar condicionado: Seawaves. A cidade é muito bem servida de guest-houses, não há necessidade de reserva antecipada. Os preços variam, mas é fácil encontrar algo bem decente por 500 a 800 rúpias por noite (cerca de 10 a 16 dólares). Tenho certeza que exista abaixo disso, mas as condições são piores; vi algumas passeando pela cidade. A Seawaves cobrava 800, mas eu fechei duas noites por 600 cada. E fiquei uma terceira posteriormente. De fato, o preço da hospedagem não parece muito atrativo quando comparamos com outros locais ou quando vemos relatos de que a Índia é muito barata. Mas é no dia a dia que isso é percebido, principalmente na alimentação e preço das atrações turísticas. Só para exemplificar, esse post representa 4 dias completos na Índia. Nesse período, eu gastei 27 dólares por dia, incluindo tudo. Com direito a três refeições completas por dia em restaurantes (algumas com cerveja, que aqui é bem cara), entrada para todas as atrações da cidade, internet em lan-house e uma prática ayurvédica de Siro Dhara….. Impressionante, ainda se pensarmos que é uma cidade turística!

A cidade é sede de um dos maiores complexos de templos da Índia, erguidos em sua maioria na dinastia Pallava, que atingiu seu apogeu entre os séculos VIII a.C. e VII a.C., antes, portanto, do apogeu da civilização grega. Em nossos estudos de história escolares, omitem-se muito os estudos da civilizações orientais, o que nos deixa com uma compreensão parcial da verdadeira História Geral. Muitos desses templos em Mahabalipuram são monolíticos, esculpidos na própria rocha, e seus maiores representantes são os “Five Rathas”. O Shore Temple, esse não monolítico, é a mais antiga estrutura da cidade e guarda um templo no seu interior dedicado à Shiva. Fica em frente ao litoral e vem sofrendo deteriorações em virtude da erosão. Para ambos os templos, o custo de entrada é de 250 rúpias (ou 10 rúpias se você for indiano). Vale checar também o Museu das Esculturas. Mesmo que não aprecie, você não perderá muito: apenas 5 rúpias a entrada, ou o equivalente a 20 centavos de real. O farol, que ainda funciona, possui um vista privilegiada da região e cobra apenas 20 rúpias para permitir sua subida. O Parque arqueológico (entrada livre) guarda muitos templos, animais esculpidos, grandes painéis escavados em rocha e a curiosa Krishna´s Butterball. O ambiente animal é muito rico no parque e na Índia em geral. Vacas, cabras, corvos, cães, macacos, porcos convivem ao seu lado, constantemente. Só não vi gatos. Talvez não estejam aptos para sobreviver nesse ecossitema…

Afora os monumentos históricos, a cidade é muito amigável e aconchegante. Claro que não podemos comparar padrões indianos com europeus, por exemplo. O choque cultural ainda existe, mas aqui, o clima é infinitamente mais agradável da região que estava em Chennai, que desisti de voltar. Apenas a rua principal, distante uns 3 ou 4 quarteirões da área mais turística próximo à praia, tem algum purupupu de buzinas. O restante das ruas é uma gostosa tranquilidade, cheia de comércio de roupas, restaurantes, casas de práticas ayurvédicas e de esculturas em geral, principal produto feito pelos artesões da cidade. Diferentemente da Europa, onde a máxima é “quem converte não se diverte”, aqui é o contrário. Se converter o valor dos preços para reais, você quer levar tudo. Uma colega do grupo de viagem comprou dois vestidos por menos de 15 dólares e disse que não encontra algo parecido no Brasil por menos de 200 reais. Eu nem fui atrás de roupas, pois nem tinha como colocar na mochila. Quando estiver saindo da Índia, vamos ver… talvez faça uma troca de guarda-roupa. Nas lojas, os vendedores, apesar de chamar sua atenção, não são insistentes e podemos puxar conversas normalmente com eles sem ter a obrigação de comprar nada. Na Turquia eu já sentia algo negativo em entrar em uma loja e não comprar nada. Como fiquei três dias na cidade e passava pelo mesmo caminho todo dia, já era normal cumprimentar os vendedores com quem tinha conversado. Como primeira impressão, você acaba sentindo-se de casa, um sentimento bem diferente de forasteiro que costumamos sentir nos EUA e Europa. Vamos ver se é uma impressão da cidade ou do país como um todo.

O clima de praia ajuda a compor a atmosfera do local. Uma parte da praia é quase que exclusivamente dedicada aos botes de pesca, e pela manhã, muitos pescadores trançam e arrumam suas redes após a pesca realizada. Na área mais aberta (a área do Shore Temple divide as áreas), muitos indianos usam a praia como encontro, atividades religiosas e diversão para as crianças. Todos com roupas. A cidade é local de peregrinação para os hindus no país, estando sempre cheia de pessoas usando suas roupas típicas. Existe também um fluxo razoável de europeus, principalmente franceses. Alguns já estabeleceram até comércio na cidade, como restaurantes e livrarias. Como estamos na alta temporada, a cidade tinha todo dia um show de danças típicas próximo à área do Shore Temple, mas não gostei. Pareceu-me algo exclusivamente para atrair turistas e não algo que fariam por si só. Além do que, não gostei do tipo de dança e música. Mas durante o show, era obrigado a ouvir continuamente independente de onde estivesse, em função dos alto-falantes instalados.

Meu primeiro contato com a comida indiana foi positiva. Depois de um aula que recebi, fiquei esperto para escolher corretamente. Em Chennai vivi a primeira lição: nada de masala, um tempero apimentado que só. Comprei uma batata Lays em Chennai com masala e não consegui comer. Os pratos com paneer (queijo cottage) são muito gostosos para quem não deseja carne e a entrada raitha (iogurte com legumes) junto com naan ou chapatt (pães) sempre muito boa. Os diversos pratos de curry com arroz e a bebida lassis (iogurte com diversos sabores) completam os pratos principais experimentados na cidade. Nos intervalos das refeições, alguns salgados industrializados, chocolate e banana, barata e segura contra contaminações.

Em Mahabalipuram tive meu primeiro contato com o tratamento ayurvédico. Submeti-me a um Siro Dhara (700 a 1000 rúpias). Diz-se que alivia o stress e mais (sempre) uma porção de coisas, em virtude da aplicação contínua de óleo no 6º chacra Ajna (meio da testa), revitalizado o sistema nervoso. Nessa prática, você inicialmente recebe uma massagem na cabeça com óleo por uns 10 minutos e deita sobre uma cama de madeira. Após um tempo de preparação (5 min), onde seus olhos são cobertos e um tipo de tiara de pano é colocada na sua testa, você começa a receber continuamente um fluxo de óleo morno e aromatizado, movimentando-se pela sua testa, durante uma meia hora. Claro que o óleo vai todo para o cabelo e a pessoa que está na prática aproveita para usar esse óleo para massagear toda sua cabeça. Algumas vezes havia massagem na mão e pés também, mas de forma rápida. O ambiente para relaxamento é muito bom, e a pessoa que se desliga fácil amaria estar no meu lugar. Eu gostei da prática, mas consegui dar uma relaxada somente no final. Eu ainda vou aprender a esvaziar a mente de forma mais natural… Adquirir essa capacidade é hoje um dos maiores desafios da minha vida. Vou fazer de novo em outras oportunidades.

Próximo post: Pondcherry e Auroville
#797099 por engand.andre
14 Jan 2013, 11:21
Dia 32 a 33: Auroville e Pondcherry

Após um período de adaptação nesse singular país em Mahabalipuram, saí cedo da cidade em direção à Pondcherry. Como acordei meio tarde, peguei um tuk-tuk (rickshaw) para o local do ônibus, prevendo como seria minha primeira viagem de ônibus pela Índia. Impressionava-me algumas fotos que circulam na Internet e alguns que vi passeando ao nosso redor, caindo aos pedaços e amontoados de gente. Mas a viagem foi muito positiva. O ônibus (60 rúpias), embora não seja do nível que vi na Turquia ou mesmo do Brasil, era razoável, super enfeitado e bem cuidado (embora velho), interior todo estofado até o teto e estava incrivelmente vazio. A estrada, uma das melhores da Índia, não prejudicou a viagem, mas mesmo assim, em função do trânsito, demoramos 1 hora e meia para percorrer 96km.

Cheguei em Pondcherry por volta das 11:00hs, com a ajuda do GPS pude dispensar a horda de motoristas de tuk-tuks que me abordaram quando desci do ônibus e fui na região central procurar um local para ficar. Dispensei o primeiro e acertei o quarto privativo no segundo (Mother´s Guest House). Deixei rapidamente o mochilão e fui procurar um local para alugar uma bike (40 rúpias) para ir à Auroville. Havia motocicletas disponíveis, mas resolvi não arriscar. Primeiro pelo trânsito louco da Índia. Com a bike posso andar nos acostamentos por segurança. Segundo, por eu ter ouvido que as motocicletas são mal conservadas e podem pifar a qualquer momento (fotografei um gringo empurrando a sua de volta para a cidade). Terceiro, a distância era de apenas de 10km de pista plana, feita facilmente em meia hora e ajudando a manter um mínimo de tônus muscular na área inferior ao menos. Frustei-me apenas porque a buzina da minha bike não estava funcionando. Queria poder participar da sinfonia sem intervalo do trânsito indiano… Enfim, meio-dia já estava em Auroville.

Auroville é uma cidade criada em 1968 a partir de uma visão de “The Mother” a partir de sua convivência com Sri Aurobindo Ashram, que foi um líder espiritual na Índia no começo do século XX, pregando a yoga como modo de adquirir força espiritual e energia como guias divinos para a vida. Concebida para ser uma cidade universal, onde seus habitantes viveriam em paz e progressiva harmonia acima de qualquer nacionalidade, conta hoje com mais de 2000 habitantes de 45 diferentes nacionalidades. Auroville foi imaginada como uma cidade de cidadãos livres da opressão da religião, das posses materiais e das convenções morais e sociais; livres, porém sem usar essa liberdade como uma escravidão do ego para seus próprios desejos e ambições. Uma cidade onde a união seria celebrada e todos teriam descoberto sua vocação espiritual, em comunhão com o Divino. Enfim, um laboratório da evolução, segundo sua mentora. Quando recebi essas informações, pensei na hora na letra da música “Imagine” de John Lennon. Procurei algo na net e parece que há uma inspiração da canção pela cidade. Infelizmente, a net aqui na Índia é muito ruim e não tive tempo de assistir os vídeos que aparecem na procura. Vou analisar com calma mais tarde e depois modifico o post se necessário. Bem, e a cidade também divulga suas atividades realizadas no local, como o reflorestamento da área, uso de recursos renováveis de energia (parcial) e de seu trabalho social, como o emprego e a educação de pessoas que vivem em seus arredores. Tentei procurar algum dado do turn-over dos habitantes da cidade, mas não achei. É um dos melhores indicadores para saber se uma vida dedicada ao local pode trazer grandes benefícios espirituais ou não. :-)

Bem, cheguei no local e após almoço acompanhado de um xarope de flores para “abrir a consciência” e com um grupo de brasileiros, fui reservar o dia seguinte para poder entrar no Matrimandir, coração espiritual da cidade. Mas foi impossível: o próximo dia livre seria apenas a seis dias. Como implicava um alto custo (tempo), achei que não compensava. Bem, me contentei em observar a Matrimandir externamente, distante 1km, obrigatoriamente percorrido a pé, do centro turístico da cidade, que não pode ser acessada de fato para quem não possui um passe especial, dado apenas para convidados e voluntários que queiram ficar um tempo por lá. Voltei e aproveitei o resto da tarde com a bike. Conheci a Aurobeach, diretamente oposta à rodovia ECR (East Cost Road), já sabendo que não encontraria praia de areia em Pondcherry. Mas foi uma visita rápida, pois estava de tênis e com a bike, que não rodava na areia fofa de jeito nenhum. Voltei para a Guest House, após devolver a bike, após o supermercado, um tempinho em uma wi-fi lan-house (aqui na Índia arrumar uma hospedagem com internet está difícil) e uma janta. O dia seguinte estava previsto para conhecer Pondcherry e procurar como sairia daqui para Thanjore ou Trichy.

Pondcherry na verdade não tem muita coisa de especial. Foi mais um ponto de apoio para conhecer Auroville e o Matramandir. A cidade possui uma pequena área próxima da costa (cerca de 5 quarteirões para dentro da cidade por 15 quarteirões de extensão) que é a área original da cidade quando sob o domínio da França. A cidade já foi capital da Índia Francesa e pertenceu à França por 300 anos. E é justamente essa área que encontra-se a melhor parte da cidade, com ruas com calçadas, menos sujeira e melhor trânsito. Nessa área também está presente o Ashram de Sri Aurobindo, onde está seu túmulo e hoje é um centro de ensinamentos de ioga como provedora de energia espiritual. Nessa área encontra-se também uma linda catedral, com o sugestivo nome de Notre Dame des Anges, com vitrais multicoloridos, também herança da colonização francesa, assim como a bonita praça Bharati. Fora dessa pequena região, porém, a cidade mostra o lado indiano real da cidade, como vi em Chennai: ruas sujas, mal cheiro, sem calçamento (obrigando o pedestre a disputar espaço na rua com tudo o que aparece na sua frente) e trânsito mais do que caótico. Confesso que estou me concentrando para não me irritar com tanta buzina. Os indianos buzinam o tempo todo, mesmo sem motivo. Nesse ponto, a Índia é um inferno. Pensei em ter Mahabalipuram de volta…

Existem poucos templos hindus em Pondcherry e não são grandes. Aliás, me decepcionei como os indianos profaranam (será que a palavra correta é essa?…) seus próprios templos. Há comércio dentro dos templos e em seu exterior, permitiu-se a contrução de inúmeras barracas de ambulantes, tornando o visual feio, sujo, totalmente não convidativo de ser visitado. E na última visita que fiz ao templo de Manakulla Vinayagar roubaram meus chinelos (é necessário entrar descalço). Nem todos indianos são, digamos, espiritualizados para o bem… Voltei ao hotel descalço e comprei outro em seguida.

Após verificar os horários de possíveis trens e ônibus na rodoviária com muita dificuldade (não existe grades de horários, os destinos dos ônibus só são grafados em tamil, e é difícil encontrar uma pessoa responsável), voltei planejando passar no Jardim Botânico, para ver se encontraria algo de belo fora da área colonizada pela França. E o que deveria ser a entrada de um imponente Jardim Botânico, havia apenas portões fechados e muita sujeira em volta, cercada por ambulantes. Decepcionei-me como não consegui encontrar nada de bonito mantido pelos indianos na cidade. A cultura realmente é muito diferente, os conceitos de higiene (vi vários homens urinando na rua, tirando catarro do nariz com as mãos e depois voltando às suas atividades), a manutenção mínima das construções e o conceito de limpeza – é normal encontrar mulheres varrendo folhinhas das árvores do chão (encurvadas, com vassourinhas curtas), mas o lixo real mesmo, das ruas, ninguém parece se incomodar. O trânsito, nas ruas principais, impede o pedestre de andar de fato, pois não existem calçadas, forçando-nos a andar pela rua. E onde existem as poucas calçadas, os indianos as ocupam para estacionar suas motos, impedindo a nossa circulação. Bom, perdi totalmente a vontade de continuar andando e voltei para o hotel bem antes do final da tarde. Acho que a minha opinião de cidade grande na Índia já está em formação. Preciso de uma cidade pequena novamente…

Próximo post: Trichy e Thanjore.
#798092 por engand.andre
16 Jan 2013, 11:28
Acordei bem cedo em Pondcherry para o próximo destino, que ainda estava em aberto entre as duas cidades. Havia recebido informações conflitantes dos horários de ônibus e iria pegar o primeiro que aparecesse, para qualquer das duas cidades. Chegando no terminal, veio uma outra informação: Domingo não havia ônibus direto para nenhuma delas. Deveria pegar um ônibus para Viluppuram e de lá procurar esses destinos. O ônibus saiu pouco antes das 6 da manhã e levou uma hora até a cidade. Esses dois dias foram excelentes na convivência com os indianos. Já nesse ônibus, conheci um senhor que me ajudou a localizar, em Viluppuram, o ônibus para Trichy (assim que cheguei já estava saindo, e fiz minha escolha de destino na hora). Como cheguei em cima do horário peguei o ônibus lotado e me espremi por lá. E conheci uns indianos que gostavam de conversar. Rapidamente alguns se espremeram para dar uma beirada do banco para eu sentar. E ficamos batendo papo a viagem toda, de quase 4 horas de duração. A noção de espaço deles é diferente da nossa. Antes do meio do caminho, muitas pessoas desceram e o aperto diminuiu. Conheci mais um pouco da Índia, dicas de pontos para visitar, dos hábitos das pessoas e etc. E passei algo do Brasil também, que eles sempre são curiosos em saber. Um deles escreveu em tamil no meu caderno de notas todos os nomes das cidades que eu iria, para eu poder localizá-las na frente de cada ônibus. É estranho sentir-se um completo analfabeto frente a um alfabeto tão natural a eles. Para uma ideia de preços de ônibus, gastei 105 rúpias nessa manhã, em uma viagem (lenta) de 5 horas. Isso mesmo: 2 dólares!

Cheguei em Trichy (ou Tiruchirappalli) por volta das 11 da manhã. O terminal de ônibus fica em uma área central e ao lado existem bastante hotéis. Fiquei no primeiro que encontrei, e saí rapidamente para ir a Thanjavur (ou Thanjore) ver o famoso Templo Bridhadeeswara. O ônibus partia do mesmo terminal e novamente, por sorte, estava de saída. Aliás, a sorte estava do meu lado em todas as viagens de ônibus que fiz nesses dois dias (ou a frequência dos mesmos é muito alta): nunca esperei mais do que 3 minutos. Curti por alguns momentos a aventura de viajar ao lado do vão onde deveria existir a porta do ônibus (eles não possuem portas). Parece estranho, mas dá uma sensação de liberdade e de capacidade de auto-defesa contra todas as coisas que o mundo tenta nos proteger. Nossa sociedade está ficando cada vez mais chata com tanta proteção contra tudo e na Índia essa sensação ainda é possível de ser sentida. Como andar de moto sem capacete. Era bem mais gostoso antigamente. Em Trichy ainda tive que pegar outro ônibus para o terminal antigo, que fica próximo ao templo.

O templo Bridhadesswara foi construído no século XI no Reinado dos Cholas e é considerado um grande marco na evolução das construções do sul da Índia. Não é apenas um templo, e sim um grande complexo fortificado com muros e muito bem conservado. Guarda um santuário de granito dedicado ao deus Shiva e é cercado por corredores com pinturas e outras imagens de deuses. Foi o local na Índia onde, até agora, pude sentir o real esplendor de uma grande civilização do passado. O local é tombado como patrimônio da humanidade pela UNESCO. Contornando as muralhas do templo externamene, chegamos ao parque Siva Ganga e ao lado encontra-se a Schwartz Church, que, além de não ter nada de especial, permite o acúmulo de lixo ao seu redor, assim como em toda a área externa ao templo. Outro local visitado foi o Palácio Maratha, residência oficial dos governantes do século XVII ao XVIII. Esse local já não está muito bem conservado (suas paredes externas são painéis para colagens de cartazes, muito acúmulo de teias de aranhas nos tetos, morcegos, etc…) mas guarda em sua biblioteca (Saraswathi Mahal) alguns materiais interessantes, como muitos livros e mapas europeus e indicanos, além de escritos em folha de palma indianos, a maioria em sânscrito. Muita pinturas das cidades indianas, feitas por indianos no reinado do rei Saraboji, encontram-se disponíveis. Pena que as fotografias eram proibidas. Havia muitas de alta qualidade. Estátuas de bronze do período Chola são expostas na Art Gallery, ao lado da biblioteca. Voltei posteriormente para Trichy através das duas viagens de ônibus. As quatro viagens (ida e volta) custaram algo próximo a 40 rúpias. Em Trichy resolvi comer uma comida chinesa dessa vez. Mais apimentada que eu esperava, mas o Lassi, comprado em uma barraquinha, me salvou novamente. Não sei qual dos dois me deu uma indigestãozinha na manhã seguinte. Primeira experiência na Índia…

No dia seguinte a proposta era conhecer os dois principais templos de cidade e andar um pouco. Ficar próximo ao terminal de ônibus foi uma mão na roda. No mesmo local peguei o ônibus número 01 (esse foi fácil de identificar) que faz esse circuito. O ônibus pára em frente à bela Igreja de St. Joseph, construída em 1792. Atravessando a rua segui em direção ao Rockfort Temple (25 rúpias, incluindo taxa da câmera), na verdade um complexo de templos, e um deles (Arumilgu Uchipillayar) guarda a imagem do deus Vinayaka, está no topo do rochedo e oferece uma linda vista de 360º da cidade. Na escadaria que leva ao topo, parte esculpida na própria rocha, existem pequenos templos nas laterais onde muitos hindus estavam presentes, recebendo as dádivas de seus gurus. Em um ponto particular, algumas pinturas decoravam o local, e uma delas chamou-me a atenção por assemelhar-se muito com as pinturas católicas que retratam a vinda do messias. Ajuda a aceitar que todas as religiões parecem ter uma motivação comum: a redenção da vida. Formas e meios são suas variáveis. Nesse templo conheci uma indiana, Phrinca, que falou um pouco sobre as festas (a que está ocorrendo nesse período chama-se Pongal) e o motivo pela qual está cheia de turistas vindos de outra parte do país. Falou um pouco sobre o templo e o significado de tantos deuses para os indianos. Mas aula mesmo eu recebi no templo a seguir, com um líbio-italiano radicado na Índia há 30 anos. Dentro do templo Sri Ranganathaswamy, após me interpelar que eu estava entrando em um local exclusivo para hindus, passou mais de meia hora explicando muitas coisas sobre o hinduísmo, seu verdadeiro significado e que não está presente na maioria dos indianos com seu típico materialismo (percebi isso na conversa com os indianos no dia anterior, quando me perguntaram minha renda, que tipo de casa e carro eu tinha, etc…). E a conversa do Dindaial (era seu nome) até que estava agradável e deixei ele continuar. Falou muitas coisas com as quais concordo, como a forma com que o materialismo pode distorcer certos valores e impedir a pessoa de viver o que realmente importa na vida. E ainda, como muitas pessoas usam a religião como uma forma de arbitrar os bons valores a si próprio sem praticá-los no dia a dia. Sim, o Dindaial era bem esperto. Bem, e falando do templo em si, ele possui a mesma configuração
física do templo de Thanjavur, ou seja, é uma grande área, outrora fortificada, com 4 entradas colossais e muitos templos internos. Sua idade é estimada em mais de 2000 anos. Não hindus não podem entrar na área central do santuário dourado, mas podemos subir ao telhado do primeiro templo de forma a observar de longe o santuário dourado (10 rúpias para tal). O templo geral é considerado o mais antigo do deus Vishnu (um dos deuses da trindade hindu; Brahma e Shiva a completam) e possui a mais alta torre de entrada de um templo do mundo (Raja Gopuram, com 60 metros). E como sempre, os indianos usam o templo como um local de comércio, social e comunitário da forma que bem entendem (não, não é uma crítica, mas é estranho). Comento pois nesse último, um deles levou até um elefante para dentro do templo para “abençoar” as pessoas em trocas de moedas... Ambos os templos de Trichy ficam a mais de 5km da cidade e gastei 16 rúpias em três ônibus para ir e voltar.

Voltando à cidade, após um pequeno descanso no hotel, jantei uma comida indiana para os indianos, não para turistas, num restaurante próximo ao hotel. Era um restaurante simples e sem estrangeiros, apenas moradores locais. O valor do almoço denunciava seus clientes (de 40 a 60 rúpias a refeição). Os indianos comiam a comida com a mão, sobre uma folha de bananeira, que por alguns, era “lavada” com a água do copo que sempre vem antes da refeição. Eu estava me preparando para fazer o mesmo e experienciar isso, mas a minha comida vegetariana (paneer, o queijo cottage deles) veio em uma bandeja num potinho em cima da folha de bananeira, com uma colherzinha. Acho que o garçom percebeu que eu estava olhando muito as pessoas e trouxe-me algo mais tradicional. Mas ok, terei tempo de fazer novamente e pedir antecipadamente para vir da mesma forma da comida para os indianos. Ora, quem não pega a coxa de frango e faz o mesmo no Brasil rs?

Próximo post: Madurai
#799370 por engand.andre
19 Jan 2013, 13:39
Na manhã do 36º dia saí do hotel em Trichy e fui à rodoviária para pegar um ônibus a Madurai. Mantendo a tradição nas viagens de ônibus da Índia, assim que cheguei tinha um veículo de saída. E vazio. Consegui um lugar logo na frente para percorrer visualmente a estrada, coloquei o fone de ouvido e me embalei ao som do rock Brasil da segunda metade dos anos oitenta. Nunca mais tivemos tantas boas bandas em um curto período de tempo. Tínhamos que contar o dinheiro para decidir em qual LP investir entre tantas opções. Uma pena que novas tendências da música brasileira ocorreram em detrimento ao rock nacional. Nesse ponto, precisamos resgatar o passado, não há outro jeito... E foi uma viagem de 3 horas tranquilíssima, embora a velocidade média não ultrapasse 50km/h. Lenta, novamente.

Chegando em Madurai, precisei pegar um outro ônibus para a estação Periyar, mais central e próxima ao Templo Meenakshi, principal atração turística da cidade e local que abriga vários hotéis. No primeiro que chequei eu não gostei do quarto, mas acertei duas noites na minha segunda visita. Deixei as coisas no hotel e fui procurar como eu iria sair da cidade em direção ao próximo destino, Kochi. Eu decidi fazer uma mudança no meu planejamento original em função do tempo e logística disponível. Após Madurai eu tinha me planejado ir ao Parque de Periyar, onde poderíamos estar em contato com animais. Acredito que seja algo como era o Simba Safari em SP, através de comentários que vi na internet. Porém, o transporte para lá é meio complicado e no fundo, não me animei em gastar meu tempo na Índia com isso. Outro destino seria Kumarakon, onde também o transporte era mais difícil (duas conexões) e que seria apenas um local de relaxamento, nas backwaters de Kerala. Porém, li sobre a cidade de Kochi e me pareceu um local legal para conhecer. E se eu animar, por lá posso fazer um passeio para as backwaters também. Assim, ao invés de ficar apenas um dia em Kochi, resolvi ir direto para lá e ficar dois ou três. Para ir a Kochi, não me aventurei a ir com o transporte público. Seria muito desgastante (20 horas de viagem em ônibs muito ruins). Fui em uma companhia privada para ver como seria. Pelo que o agente me falou e fotos que vi, a viagem duraria 11 horas e o ônibus possui ar-condicionado, bancos reclináveis na parte de baixo e camas reais na parte de cima. Peguei o melhor pacote com a cama. O valor ficou 5 vezes mais caro do que ficaria com transporte público, mas mesmo assim, nem se compara com os preços brasileiros: 600 rúpias, ou cerca de 24 reais. No próximo post comento como foi essa viagem.

Bom, acertada a saída, andei um pouco pela cidade e próximo ao templo Meenakshi. A cidade de Madurai, uma das cidades mais antigas habitadas de forma continuada no mundo (há evidências históricas desde o século 3 a.C.), cresceu ao redor do antigo templo, e é uma das maiores fontes de peregrinação do povo Tamil, com mais de 25000 visitantes por dia aos finais de semana. De fato, a cidade estava cheia de peregrinos. A presente estrutura do templo foi construída no século XVII e compreende quatro entradas principais, relacionadas aos pontos cardeais com torres (gopurams) de até 52m de altura, que são um show à parte em função de todos os detalhes que a compõe, com a representação dos milhares de deuses e seus avatares. O templo é riquíssimo em esculturas, principalmente no Museu de Arte dentro do complexo, tetos ricamente decorados e colunas bem preservadas. Os grandes templos são uma grande oportunidade para conhecer mais a fundo a cultura religiosa dos tamilenses, com suas orações e manifestações frente às esculturas, frente uns aos outros e frente também aos visitantes. Visita imperdível para quem vai ao sul da Índia. O visitante pode comprar um ingresso “full” para uso da câmara fotográfica e entrada ao Museu interno por 100 rúpias, mais a gorjeta deixada no local de guarda dos calçados. O quadrilátero que cerca o complexo do templo é um calçadão dedicado aos pedestres e assim, um local agradável para se caminhar, longe do infernal trânsito indiano. Estava com a camisa do Brasil nesse dia e ela sempre chama a atenção. Vários indianos vieram conversar comigo, perguntavam algo a alguns até pediam foto. Passei um bom tempo nessas conversas, observações do cotidiano e perplexo como as culturas de um povo podem ser tão diferentes do outro.

Outro ponto que vale a visita em Madurai é o complexo do Palácio de Thirumalai Nayak, que originalmente era quatro vezes maior do que a construção remanescente, e data do século XVII. A estrutura é imponente, bonita, mas, embora estruturalmente esteja bem conservada, a manutenção visual é muito falha. As belas colunas do monumento estão todas riscadas, existe muita sujeira nos tetos e a área interna do museu possui armários que deveriam proteger as peças (pinturas antigas, objetos do período neolítico, esculturas e manuscritos) estavam abertos, possibilitando a qualquer um tocar ou mesmo levar as peças. Existem armários inclusive aberto e sem peças. E durante toda minha visita, não havia nenhum segurança, desde a entrada até a saída. Passei a andar pela cidade posteriormente, para conhecê-la e indiretamente, um local para comer e depois fazer algumas compras de supermercado. Andei por várias avenidas principais e concêntricas à área central do templo, por mais de duas horas. Não encontrei nada minimamente decente. E olhe que Madurai é uma cidade grande, de mais de um milhão de habitantes. A impressão positiva anterior, da beleza do templo, das pessoas amáveis que vinham conversar contigo, acabou sendo arranhada, pois fiquei realmente estupefato como que em uma cidade desse porte, na região central, turística, não encontrava nenhum lugar agradável para ficar e comer tranquilamente. A Índia realmente impressiona de ambos os lados. No final acabei encontrando uma lanchonete estilo McDonald´s, até com Wifi, mas foi um oásis no meio do deserto. E voltei para lá no dia seguinte.

No último dia, meu ônibus só partia às 20:30hs e fiz o check-out no hotel ao meio-dia. Deixei o mochilão por lá e após uma passadinha na lanhouse fui ao cinema. Assisti um filme em tamil que misturou “O Vingador do Futuro”, “A Rede” e “O Show de Truman”, com muitas danças e musicais no meio. O herói indiano (aquele que bate em todo mundo e nunca é alvejado por uma saraivada de tiros) do filme é colocado na pele de outra pessoa em uma grande armação e seus passos são acompanhados visualmente em tempo real. Meio hilário, apesar de eu não ter entendido praticamente nada dos diálogos. O filme de ação, meio hollywoodiano, abusou de lindos cenários, grandes edifícios, avenidas largas e praças limpas. Talvez por isso não houve nenhuma cena externa gravada na Índia, apenas em Bangcok e Kuala Lumpur. Eles não devem ter encontrado tais paisagens por aqui ainda, assim como eu… A sala de cinema até que era boa, mas para ir ao banheiro os homens precisavam sair fora da sala e pegar um sol. Idem para comprar algo para beber ou comer. A sala estava cheia em plena quinta-feira à tarde (aliás, é difícil encontrar algo na Índia que não esteja cheio) e mais de 90% eram homens. Nas ruas a proporção cai um pouco, para cerca de 80%…

Próximo post: Kochi
#803703 por engand.andre
30 Jan 2013, 14:49
A cidade de Kochi desde seus primórdios teve a vocação para o comércio portuário, o que atraiu, além dos habitantes da região, sírios cristãos e judeus nos séculos passados. Com a colonização européia, iniciada na Índia através de seu porto pelos portugueses, foi palco de batalha entre esses, holandeses e ingleses. Vestígios da colonização européia são vistos pela cidade, pricipalmente na área do Forte Kochi e arredores, que hoje é a área turística da cidade e foi o local onde limitei minha visita. Minhas impressões da cidade limitam-se à essa região. Viajei em um ônibos noturno privado a Kochi, partindo de Madurai. A utilização desse meio de transporte entre cidades na Índia mostrou-se uma opção interessante. Apesar de bem mais caro (5 vezes o valor de uma passagem nos ônibus normais), é barato para os padrões brasileiros (24 reais), vai bem mais rápido e não possui conexões. Porém, o que mais chama a atenção é o conforto. O valor que paguei é de uma cama literalmente, dentro do ônibus acima das poltronas, que também são confortáveis. Sim, viajar de ônibus na Índia pode ser uma experiência positiva. Na cidade fiquei pela primeira vez em um hostel na Índia, que durante a minha estadia foi frequentado apenas por estrangeiros, na maioria europeus. Recomendo o local para futuros viajantes, pois é confortável, possui ar condicionado e um padrão de limpeza mais ocidental, além de possuir wi-fi, embora não de grande qualidade. E com papel higiênico nos banheiros! Vê-se que o objetivo do público são mesmo turistas ocidentais (Hostel Verdanta Wake-up).

Historicamente, a cidade guarda as primeiras igrejas construídas, pelos portugueses, na Ásia (1502 e 1503). Existem dezenas em toda a cidade, fazendo com que Kochi seja umas das cidades da Índia com maior proporção de cristãos. Em 1568 os portugueses construíram um palácio como presente para o marajá local, em trocas de permissões e favores. Após a vitória holandesa, o palácio foi denominado Dutch Palace e hoje abriga um museu, com muitas pinturas hindus nas paredes, carruagens de mão, armas e outras peças. Não é algo tão vistoso, mas a entrada é de apenas 5 rúpias. Próximo ao local concentram-se muitos bazares de temperos e especiarias. A influência holandesa é sentida nos diversos bangalôs e construções da cidade, alguns hojes restaurados e transformados em hotéis. A sinagoga foi construída pelos judeus em 1568 e a área foi palco de refugiados durante as cruzadas, abrigando uma grande comunidade antes da criação do Estado de Israel. Seu entorno possui hoje um grande comércio de joias e antiguidades.

A área de Fort Kochi lembrou um pouco a pequena área de influência francesa em Pondcherry, porém, possui todos os problemas vistos na Índia até então, mas com algumas atenuações. Existem bem menos lixos nas ruas, menos trânsito e mais ruas arborizadas, além das construções melhor cuidadas e algumas casas muito bonitas. Porém, destoa a poluição da praia e detalhes pouco cuidados como as praças centrais. Se andarmos fora do pequeno centro, voltamos a nos deparar com a visão de uma cidade indiana. A península é cortada, inclusive, por um córrego muito poluído com mal cheiro, que deságua na praia sem nenhum tratamento. A rua principal da cidade e com construções agradáveis é a Princess Street, onde existem bons restaurantes e deliciosos sorvetes. Porém isso é um pequeno oásis na cidade, já que a rua engloba apenas um quarteirão.

Esses dois dias na cidade foram dias de descanso (no sábado acordei às 10 da manhã) em função da viagem noturna anterior e de uma rotina pesada que me espera em Delhi a seguir. Comprei a passagem aérea via web ainda quando estava em Madurai pela empresa Spicejet (190 dólares). Vamos ver como que é voar em uma companhia low-cost indiana!

Próximo post: Nova Delhi e Agra.
#803705 por engand.andre
30 Jan 2013, 14:51
O vôo de Kochi a Nova Delhi fez uma escala em Hyderabad, e foi pontual. A companhia Spicejet é uma companhia low-cost na qual até a água é paga. E a passagem nem foi tão barata assim (US$ 185) para um vôo de 4 horas. Cheguei no aeroporto e aguardei um grupo de turistas brasileiros. Participaríamos juntos de dois passeios nos próximos dois dias: a viagem a Agra e um city-tour na cidade de Nova Delhi. Eu não havia reservado hotel, mas sabia que existe uma grande área na cidade com uma enorme concentração de hotéis com preços razoáveis, boa infra-estrutura e próximo à Estação Ferroviária, a qual eu iria utilizá-la para continuar a viagem dentro de poucos dias. Fiquei no hotel Chanakya, com uma boa estrutura geral, mas em um quarto que deixava a desejar um pouco na conservação do mobiliário e paredes. Porém, o hotel tinha um bom sinal de wi-fi mesmo no quarto e isso pesou na escolha. Não ter que procurar lan-house já é um grande avanço nos hotéis low-cost da Índia.

No dia seguinte, encontrei o grupo no hotel em que se hospedaram e fomos juntos de trem a Agra, onde um ônibus nos esperava para visitarmos o Taj Mahal e o Agra Fort. Agra foi a capital do império islâmico Mughal durante mais de 100 anos nos séculos XVI e XVII. Grandes construções foram realizadas no período, como o Agra fort (construído por Akbar) e o Taj Mahal (por Shah Jehan). O Taj Mahal foi algo que impressionou pelos detalhes da construção e devido estar permeado por uma grande história de amor, pois é um mausoléu feito em função da morte da esposa favorita do imperador Shah Jehan, Mumtaz Mahal. Feito de mármore branco, com diversas pedras, outrora preciosas, incrustadas no mármore através de uma técnica específica na época (nada foi pintado), é um dos monumentos mais bem conservados na Índia, apesar do Estado não conseguir evitar todas as inscrições de vândalos no mármore. Além do lindo trabalho de inscrustação, os detalhes esculpidos no mármore nas paredes e guias são fantásticos. O mausoléu demorou quase 20 anos para ser construído no início do século XVII e a ideia posterior de Shah Jehan era a construção de outro mausoléu idêntico em mármore preto em frente ao Taj Mahal, para abrigar o seu corpo após sua morte. Seu plano, em função das condições financeiras do império foi abortado pelo seu filho, Aurangzeb. Há historiadores inclusive que associam a construção do Taj Mahal com a decadência do império Mughal, em função dos recursos que o mesmo drenou das finanças do império.

O outro monumento visitado em Agra foi o Agra Fort, construído em arenito vermelho no século XVI pelo imperador Akbar. O que hoje restou para visitação foi uma pequena parte do forte, que em seus tempos áureos, podia abrigar mais de 3000 moradores dentro de suas muralhas. O forte contém muitas alas, incluindo a moradia do imperador, de onde ele podia observar a construção do Taj Mahal ao fundo e os quartos de suas esposas. Em alguns locais podem ser observados influências hindus nas construções, porém sem a representação de imagens de pessoas ou animais, proibidas na cultura mulçumana. O ingresso para o Taj Mahal e Fort Agra, comprados em conjunto, custou 1000 rúpias, o mais alto preço pago para uma visita a um monumento na Índia. Após a visita, retornamos a Nova Delhi e presenciamos o primeiro grave acidente na Índia: um caminhão virou ao atropelar e matar alguns bois e machucou seriamente o motorista. Aconteceu poucos metros na frente e ficamos parados no trânsito observando o demorado socorro durante meia hora.

No dia seguinte, fiz o city tour em Delhi com o grupo. A cidade de Nova Delhi, incrustada praticamente dentro da grande Delhi é a capital do país e foi construida pelos ingleses entre o final do século XIX e início do século XX. Essa área abriga grandes avenidas, ligadas por um sistema de grandes rotatórias, e, cercada por alguns edifícios, mostra um pouco da influência ocidental na Índia, algo que eu ainda não tinha presenciado. Mas entre as avenidas, ou saindo da área central, a Índia volta a mostrar sua face, com ruas estreitas, cheia de gatos elétricos, sujas, comércio de rua e aquele trânsito infernal. Foi em um local assim que iniciamos a primeira visita do dia, a maior mesquita da Índia, a Jama Masjid. A entrada é cobrada apenas para quem vá usar câmera (300 rúpias). Como estávamos em um grupo, apenas uma câmera foi usada para cobrança. A mesquita não guarda tantas atrações e beleza, entretanto. Sua construção é um tanto diferente das grandes mesquitas que vi na Turquia: possui um grande pátio aberto e uma pequena área coberta, horizontal. Posteriormente, visitamos o Raj Ghat, um memorial onde foi cremado o corpo de Mahatma Gandhi. No momento, ocorria um ensaio realizado por militares para a comemoração do dia da independência da Índia (26 de janeiro). Muitos locais de interesse (Indian Gate, Red Fort) inclusive, não estavam acessíveis em virtude da proximidade desse feriado, guardados sob forte esquema de segurança para evitar atentados. Em seguida, visitamos o Gandhi Smriti, uma grande mansão onde Gandhi foi assassinado e hoje transformada em museu, mostrando toda sua história e guardando vários de seus instrumentos pessoais. O museu está muito bem conservado e possui uma nova área superior chamada por eles de multimídia, onde a tecnologia auxilia a transmissão das mensagens. A entrada é gratuita e a visita é altamente recomendada. Terminamos o city-tour no complexo Qutub (250 rúpias), onde o destaque é o minarete Qutub, com 72,5 metros de altura e na época de sua construção (1193-1368), era a estrutura mais alta do mundo. O complexo possui muitas tumbas, a primeira mesquita construída em Delhi (parcialmente em ruínas), a base de uma segunda torre que deveria ser construída mas foi interrompida após a morte de Ala-ud-din-Khilji e o consequente esfacelamento do império. Abrigava uma grande comunidade de esquilos também.

No terceiro dia útil em Nova Delhi, separei-me do grupo e fui andar pela cidade, pela área construída pelos ingleses, ou seja, a parte mais nobre e central da região. Entre as grandes avenidas de mão dupla, várias rotatórias e muitas dificuldades aos pedestres, não surgiam muitas coisas interessantes para ver e nem para desfrutar. Entretanto, o cenário da cidade era muito mais bonito do que eu vinha presenciando até então no país. Há bem menos lixo (embora ainda mais do que vemos no Brasil) e as avenidas são arborizadas. Porém, continua não sendo uma cidade com alguns padrões ocidentais que sinto muita falta aqui na Índia. Não há praças na região central. As pessoas sentam para descansar no chão das pequenas ilhas verdes das rotatórias. Continuo sem encontrar um supermercado e uma boa padaria para comer algo com gosto. Quem substitui de alguma forma essa falta, são algumas redes de fast-food como Mcdonalds, Pizza Hut e KFC, situadas próximas à Cornaught Place. Ao menos, um alento em relação às outras cidades que visitei. Nosso guia havia comentado que existem shopping-centers mais para fora da cidade, porém, eu não iria lá apenas para isso. Visitei ainda o Jantar Mantar, um dos cinco observatórios astronômicos construídos sob o reinado de Sawai Jai Singh no século XVIII, com enormes instrumentos para observação dos astros e medição de suas posições (100 rúpias). Os indianos, que pagam (ou deveriam pagar) apenas 10 rúpias, usam a área como um parque de lazer, talvez pela ausência desses locais na cidade. Durante a tarde passei por toda a área governamental da cidade, com mansões e palácios imensos que abrigam estruturas burocráticas do governo, drenando a riqueza do país e devolvendo apenas uma pequena parte, após os montantes perdidos na ineficiência e corrupção. Toda essa região estava sob forte esquema de segurança, inclusive com várias barricadas montadas para evitar ataques no dia da Independência.

Posteriormente, após haver checado que a situação de reservas de trens na Índia estava muito complicada em função dos festivais (um me afetava diretamente: o Kumbh Mela em Haridwar) acertei antecipadamente todo o roteiro de trens nos meus últimos 13 dias na Índia. Contratei os serviços de uma agência de turismo, pois estava muito complicado montar todo o roteiro sozinho. Achei meio bagunçado a forma de compra dos tickets. O valor total do pacote ficou em 110 dólares, e calculei que deixei ao menos 40 dólares para a agência. Serão 5 trens (todos em classe AC, pois não me animei em pegar trens populares, três deles noturnos com minha bagagem desprotegida) para Haridwar (Rishikeshi), retorno à Delhi, ida a Khajuharo, posteriormente Varanasi e retorno à Delhi antes da viagem ao Nepal, comprada para 04 de fevereiro. A passagem está marcada para às 15:40hs e o trem chega em Delhi às 07:40hs. Vamos ver se não tenho nenhuma surpresa desagradável…

Próximo post: Rishikeshi e Haridwar.
#803707 por engand.andre
30 Jan 2013, 14:52
O trem 12017 partiria às 06:50hs da Estação de Nova Delhi. Cheguei meia hora mais cedo para não ter problemas de encontrar a plataforma correta. Na ida a Agra, havia percebido que a estação é imensa, porém naquela situação estávamos com o guia para nos mostrar o local correto. Agora era comigo mesmo. Porém, não houve complicações. Apesar de andar um tantinho, as plataformas são bem anunciadas. Para andar de trem na Índia, você, já com a passagem na mão, não precisa parar em nenhum lugar e sim ir direto ao trem, em seu vagão e assento corretos. Já havia visto na internet para evitar malandros no caminho que dizem que você precisa de boarding pass. Mas não vi nada do tipo. Talvez eles não estivesses acordado ainda. A viagem foi tranquila, e foi servido um razoável café da manhã, com pão, geleia, manteiga, leite e uns bolinhos salgados com batata e queijo. A primeira parte da viagem foi bem lenta em função da neblina que nessa época é normal na região de Nova Delhi. Em função da neblina, cheguei em Haridwar com uma hora de atraso e, como o primeiro destino seria Rishikeshi, fui direto à estação de ônibus para mais uma viagem de quase 1 hora. Durante o percurso, passamos por alguns diques artificiais do Rio Ganges, onde em um deles existia uma pequena central hidrelétrica e , em algumas travessias, as pontes cruzavam apenas um vale, praticamente seco, mas o indiano ao meu lado confirmou que na época chuvosa a água preenche todo aquele espaço vazio.

Rishikeshi fica bem no norte da Índia, localizada no pé de uma cordilheira próxima ao Himalaia, e é um dos portões de entrada para trekkings nas montanhas e outros esportes radicais. A cidade é margeada pelo Rio Ganges, que aqui ainda é limpo e ficou famosa pela visita dos Beatles a um de seus inúmeros Ashrams, centros espirituais de meditação e evolução espiritual que são geridos por gurus diversos. A cidade possui sua região central, bem estilo indiano, mas subindo a estrada 58 em direção às montanhas com uma linda vista do Ganges à sua direita, chega-se a um distrito chamado Tapovan no lado direito do rio (direção de seu fluxo), muito próximo à duas belas pontes pênsil: a Ram Julha e Laxman Jhula. É nessa região, que pode ser conhecida inteiramente a pé, que situa-se o principal ponto turístico, com uma ótima infraestrutura de comércio, restaurantes, inúmeros ashrams e agências de turismo que vendem todos tipos de esportes de aventura. Por incrível que pareça, aqui nesse distritinho dessa cidadezinha encontrei o melhor supermercado de toda Índia, com grande variedade de produtos importados que encontramos pelo mundo. Fiquei 4 noites no hotel Ganga Ambiance e ele não decepcionou. Foi um dos melhores que fiquei na Índia, boa equipe e wifi no quarto. Ajudou a tornar esses 4 dias um momento de saudável recuperação da energia que precisarei para a parte final da Índia, antes da ida ao Nepal.

Além do descanso em si e da atualização de várias leituras atrasadas que eu acumulava, decidi fazer aulas de ioga e meditação (90min – 150 rúpias) todos os dias no Ashram Anand Prakash. Afinal, a cidade é tida como capital mundial da ioga. O Ashram é um local muito agradável que acolhe turistas para pernoite também, mas a reserva para tal tem de ser feita com grande antecipação. Ficava a 5 min do meu hotel. As aulas tiveram um professor no 1º e 3º dia e outro no 2º e 4º dia e estiveram bem cheias, com média de 20 pessoas cada dia. O estilo foi bem diferente entre os professores. O primeiro usou muito mais sons para relaxamento e incluiu muito mais a meditação e cuidado com a respiração, bem zen mesmo. O segundo ministrou uma aula fisicamente mais puxada, com muitos alongamentos e propostas das posições clássicas de ioga, as quais algumas tive grande dificuldade de realizar. Mesmo com algum condicionamento a idade mostra suas caras… Mas foi muito bom. Faz-nos lembrar em quanta paz existe no silêncio, em quantos benefícios existem quando percebemos o nosso corpo. Nunca havia feito uma aula no Brasil e foi muito interessante conhecer como funciona justamente aqui, com professores indianos. Quanto à minha dificuldade de concentração… acho que estou melhor, mas tenho um grande caminho a percorrer ainda…

No terceiro dia fiz um rafting no Rio Ganges de quase duas horas (400 rúpias), com um intervalo no meio do circuito. A maior parte foi sossegada, pois o fluxo do rio não é muito intenso nessa parte do ano, mas pegamos algumas descidas que o guia comentou que possuía classe 3. De fato, deu para molhar bem e alguns momentos, éramos levados a tombar o corpo para o lado em função do movimento do bote. E a água estava extremamente gelada no inverno norte-indiano. De dia as temperaturas mal passavam de 22ºC, mas de noite caía a 7ºC. Mesmo assim, essa oportunidade seria única e não queria perdê-la. Valeu muito a pena!

A caminhada é agradável em torno da região das duas pontes, que é frequentada por dezenas de macacos. Ouvi comentários de roubos de comidas pelos mesmos e realmente, alguns ficam encarando você, esperando uma oportunidade. Na margem esquerda da Laxman Jhula fica o templo Travambakeshwar, uma bela construção e do mesmo lado do rio, ao final da Ram Jhula fica o Swarg Ashram, na região tido como o ponto espiritual central de Rishikeshi, com grande concentração de ashrams e templos. É parte mais “zen” da cidade, com muitas lojas tocando músicas de meditação e queimando incenso. Muitos prainhas e gaths (escadarias que levam ao rio) existem pela margem do Ganges, onde os indianos fazem suas devoções.

Aqui a maioria do povo indiano continua com a mesma simpatia de sempre, parando os estrangeiros na rua, perguntando de seu país, profissão e características de sua viagem. O balanço característico da cabeça está em quase todos e pode significar tudo. Estou me acostumando a prestar atenção em outros sinais para saber se ele quer dizer “sim”, “não” ou “talvez”. Claro que existem os tipos “vendedores chatos”, aos quais o turista deve ser duro logo no começo pois caso contrário eles não saem do seu pé. E pedintes aos montes tornando impossível classificar os realmente necessitados daqueles utilizados como meio de manobra para extorquir dinheiro dos turistas (é um negócio, como no Brasil). Já passando para a parte final da minha visita no país, começo a entender mais certas situações e comportamentos do dia a dia dos indianos.

O último dia na região eu passei em Haridwar, pois meu trem saía dessa estação no dia seguinte, às 06:22hs. Não ia conseguir arranjar um transporte confiável em Rishikeshi para poder ir direto de lá nesse horário. Haridwar é uma cidade sagrada para os hindus, também é banhada pelo Ganges (já com alguma poluição visual nas margens) e centro de peregrinação, notadamente na época do festival Kumbh Mela, que por sinal estava ocorrendo nesse mês. Possui vários gaths e templos para purificação e devoção. Porém, procurei na internet e não achei nada muito diferente do que já vi na Índia. Como fiquei poucas horas na cidade, resolvi andar um pouco na mesma e dormir cedo para a viagem do dia seguinte que seria emendada com uma outra viagem noturna, para Kajuhaho após permanecer algumas horas em Nova Delhi.

Próximo post: Khajuharo.
#805418 por engand.andre
05 Fev 2013, 09:13
Dias 50 a 53 - Khajuharo

O trem de Nova Delhi para Khajuharo não parte da estação central, e sim da estação Nizamuddin, mais ao sul da cidade. Passei algumas horas na agência de viagens que comprei os tickets usando a internet e depois o dono me levou até a estação. Ele deve ter explorado bem minhas rúpias anteriormente para fazer toda essa gentileza… Os trens-leitos na Índia, mesmo nas classes superiores (2A e 3A) são relativamente apertados. Mas não há grandes dificuldades de se pegar no sono. Você recebe um jogo de cama (teoricamente limpo) para forrar o leito. Na classe 3A, são seis camas por “cômodo”, enquanto na classe 2A são 4. Viajei junto com um casal de indianos e seus dois filhos e mais um japonês. A mulher não abria a boca e tinha sempre o olhar baixo. Apenas o marido que falava. Faces da dominação de gênero (A religião, a mulher e o relativismo cultural)?… Dormi no topo, e foi muito melhor. Se o seu lugar for a cama de baixo, precisa esperar todos se arrumarem para depois arrumar a sua. Em relação às pessoas, tive total segurança em deixar o mochilão e as botas embaixo da cama; o casal não despertava nenhuma suspeita, muito menos o japonês rs. Mas os banheiros sempre possuem problemas. Imagino como deve ser na segunda classe. Antecipe tudo o que puder antes de entrar em um trem indiano!

Cheguei em Khajuharo em ponto, às 06 e meia. A estação fica longe da cidade, mas por sorte conheci duas coreanas que estavam no mesmo trem e dividimos um tuk-tuk. O motorista sugeriu o hotel Lakeside e ficamos por lá mesmo. O hotel é bom, possivelmente um dos melhores que fiquei na Índia. Quarto bem limpo para os padrões indianos, arejado, boa wi-fi e uma grande vista no terraço para o lago da cidade, com vista para o nascer e pôr-do-sol. Uma pena que esses dias estavam todos enevoados e não consegui ver um bonito espetáculo. No café da manhã o dono, sabendo que eu era brasileiro, me mostrou um jornal local com destaque para a tragédia que ocorreu na boate em Santa Maria no Brasil, que na verdade não teve nada de fatalidade, mas sim uma sucessão de erros que envolvem tanto o poder público quando à irresponsabilidade da banda. Duas lições para serem aprendidas: alvarás de funcionamento não servem para muitas coisas, a não ser molhar a mão de funcionários públicos. Isso deveria ser feito por uma empresa privada, que, operando em um mercado de concorrência, seria responsável por emitir o seu próprio alvará e o faria com os melhores critérios possíveis, para manter sua empresa entre as melhores do mercado. E ao final das contas, as responsabilidades são sempre individuais, e não coletivas. Cada um deve responder pelos seus próprios atos, como o indivíduo que faz pirotecnia dentro de ambiente impróprio.

Voltando… A cidade de Khajuharo me impressionou positivamente. Pouco lixo nas ruas e pouquíssimo trânsito na área que fiquei, ao lado dos templos do lado oeste – as ruas principais do centro são fechadas para veículos, o que dá uma sensação de paz dificilmente vivida nas cidades da Índia. É possível ouvir o canto dos pássaros no meio da cidade! Além disso, parece que a cidade faz algo que eu havia comentado anteriormente com um colega britânico em Kochi como sendo algo lógico: muitos bovinos da cidade ficam confinados em uma área, próxima aos templos da área leste. Até as deidades gostariam dessa paz! E de fato, não vi bois nas ruas, embora as cabras e porcos estejam presentes… nada é perfeito. Mas já diminui muito a sujeira. Entre a área turística e a estação de ônibus, na avenida principal, existe algo raro no país: uma praça e, ainda por cima, bem cuidada! Bancos para descanso, bonitos jardins… Claro, conservação não era muito boa dos postes e do piso, mas na Índia, isso é algo bem raro. Presenciei uma boa conservação dos locais apenas em alguns pontos turísticos como o Taj Mahal, o Shore Temple e nos próprios templos aqui de Khajuharo.

Em relação às pessoas daqui, senti uma insistência maior na aproximação, na conversa e na tentativa de surrupiar seu dinheiro. A cidade vive pelo turismo e aqui as pessoas aparentemente não tem muito o que fazer. Ficam zanzando na rua à nossa caça. E notei que aqui, os indianos exageram um pouco nos comentários feitos e são mais atrevidos. No primeiro dia, por exemplo, visitei os templos com as duas coreanas. E vinham indianos (não foi um só) que me puxavam ao lado, perguntavam se eu era namorado, se eu ia “pegá-las” de noite, qual das duas eu preferia… um humorzinho bem ácido para uma pessoa que você acabou de conhecer. Espiritualidade zero rsrs. Eles também grudavam nelas e pelo que conversamos depois, não foi uma conversa agradável. Talvez aqui eles sejam influenciados pelas esculturas eróticas dos templos e só pensem naquilo…

O grupo principal dos templos são os templos Oeste e são os únicos que cobram a entrada (250 rúpias). Soube que o ticket do Taj Mahal valeria para entrar aqui, mas havia jogado fora… Os templos em Khajuharo, com arquitetura indo-ariana, foram construídos nos séculos 10 e 11 AD na dinastia Chandela, refletindo a paixão da disnatia pela arte proibida, representada através das esculturas eróticas que permeiam vários templos, uma divulgação da literatura do Kama Sutra. Os templos ficaram escondidos vários séculos pela vegetação (tamareiras) e foram redescobertos em 1838 pelos ingleses. A história lembra a mesma situação vivida em Machu-Pichu, décadas depois. Existem diversos templos nessa área e o destaque maior é o templo Lakhmana, mais antigo e com esculturas mostrando a trindade hindu (Brahma, Vishnu e Shiva). Já o templo Devi Jagdamba é o que contém o maior número de esculturas eróticas. Outros destaques são os templos Varaha e Vishwanath. A cidade ainda possui dois sítios de templos com entrada livre, o grupo leste (com alguns templos com arquitetura Jain) e sudoeste, com destaques para os templos de Parsvanath e Dulhadev. O ticket pago no grupo Oeste é válido como entrada no Museu Arqueológico da cidade, quase em frente ao lago e ao lado do hotel que fiquei. O Museu é pequeno, mas traz esculturas encontradas nos sítios e que são, portanto, similares aos padrões existentes nos templos. É separado em quatro alas diferentes, com arquitetura Saiva, Jaina, Vaishnava e uma ala “geral”. Fotos são, entretanto, proibidas.

Faltando apenas uma cidade para deixar a Índia, começa a bater a sensação de despedida do país. Aquela sensação de “ame” ou “odeie” que li em vários relatos na Internet é a mais pura verdade. Você precisa fechar os olhos para algumas coisas se quiser curtir melhor a viagem. O melhor mesmo do país são os indianos, não em relação aos seus costumes em si, os quais muitos são chocantes para a nossa cultura, mas de sua amabilidade, mesmo quando você sabe que eles querem uns trocadinhos seus. No último dia de Khajuharo, um indiano que havia conhecido no primeiro dia me encontrou e convidou para jantar na casa dele. Achei uma boa oportunidade para conhecer uma família indiana de fato. A casa, modesta, reflete o seu modo de vida e a forma diferente de percepção de espaço e conforto. Morava com a mulher, dois filhos e os pais em quatro cômodos, com o banheiro externo e trabalhava com turismo. Posteriormente, levou-me até a estação ferroviária para mais um trem noturno. O último choque na Índia ainda aconteceria na próxima cidade, onde são realizadas cremações de mortos em público e suas cinzas jogadas no Rio Ganges, onde milhões se banham para purificação. O trem noturno sairia de Khajuharo às 23:40hs.

Próximo post: Varanasi.
#806777 por engand.andre
10 Fev 2013, 11:27
E chegamos ao final dessa “inacreditável” Índia, com mais uma vivência da extrema devoção religiosa de uma parte dos indianos e infelizmente, muita, mas muita sujeira. Cheguei em Varanasi pela manhã, com cerca de uma hora de atraso. Conheci um sul-coreano no trem e fomos procurar um hotel juntos. Como o quarto era duplo, resolvemos rachar a diária, e nesse meu dia e meio de Varanasi fizemos juntos o tour pela cidade. Ficamos na Vishnu Guest House por falta de opção. A cidade estava cheia de turistas e não havia vagas nos dois primeiros locais que procuramos. Como eu ia ficar apenas uma noite, não exigi muito. O quarto era ruim, apesar de possuir sacada e ter uma tamanho razoável.

Mas mesmo assim, não recomendo essa guest house para ninguém. A cidade de Varanasi é famosa na Índia pelos seus funerais e cremações de corpos à beira do Rio Ganges, além da massa de indianos que fazem seus votos religiosos mergulhando na água poluída. Sim, é mais uma cidade sagrada (mais uma, o que torna o sagrado não uma exceção, mas quase um padrão), e uma das cidades mais antigas continuamente habitadas no mundo. As ruelas próximas ao rio são extremamente estreitas e carros e tuk-tuks são proibidos de circular. Isso porém, não garante um trânsito é fácil, pois motocicletas e bovinos sempre estão no caminho. As motocicletas com a buzina sempre travada no “on” e os bichinhos sempre obrigando-nos a manter o olho no chão. Não é fácil e muito menos agradável andar na cidade.

A cena dos hindus banhando-se no rio impressiona. A devoção religiosa é forte para se submeterem a entrar no rio gelado e extremamente poluído, onde o guia nos informou que não é raro corpos em putrefação surgirem na superfície. No raiar do sol do segundo dia na cidade, pegamos um bote com mais dois japoneses e fizemos um tour pela margens por duas horas. Paramos na outra margem, com uma grande faixa de areia que impede a vista da outra parte da cidade. Passamos em um dos gaths (escadarias que levam ao rio) de cremação onde estava um corpo esperando sua vez. Para os indianos de casta inferiores, a cremação ocorre próximo à areia, sem nenhuma base de sustentação do corpo. Para os indianos de casta superiores, existem uma área mais recuada onde o corpo é suspenso durante a cremação. Mais um dos flashs que mostram a ridícula segregação social existente e que comentei parcialmente aqui. A cidade possui vários templos, mas não os visitei, uma vez que não eram muito diferentes dos templos-padrão que existem em todas as cidades indianas. Gastei o resto do pouco tempo na cidade percorrendo suas vielas e aproveitando para comer bem, uma vez que aqui os preços são bem mais em conta do que as cidades chamadas turísticas da Índia. Mas precisamos ter coragem e escolher um local adequado.

A sujeira é o padrão da cidade. Achei que não ia ver algo pior do que já vi na Índia, mas Varanasi se superou. A cidade é incrivelmente imunda. A quantidade de bovinos, cachorros e macacos andando pelas vielas é absurda. Foi a primeira vez que vi uma manada de bois subindo escadas. Grandes escadas. Mas eles não são os únicos responsáveis pela sujeira. Os indianos jogam continuamente lixos nas vielas. Vendem alimentos no chão, ao lado de excrementos, animais e demais lixos. E isso faz o cheiro da cidade tornar-se insuportável. Gostaria de terminar os posts da Índia com uma visita positiva, mas seria falso se narrasse algo diferente. Varanasi foi a pior cidade que conheci na Índia e as fotos no Picasa mostram cenas adicionais. A energia positiva que muitos sentem por aqui não incorporou-se em mim. A sujeira, o cheiro, o ambiente em si impediram qualquer outra sensação ou manifestação.

No retorno o trem para Nova Délhi atrasou uma hora para sair, mas manteve esse atraso até a chegada. Fui direto ao aeroporto, pois não queria correr riscos de perder o vôo. A infreaestrutura da Índia é complicada e não sei o que poderia acontecer. Quedas de eletricidade eram comuns em todas as cidades que fiquei, o que poderia prejudicar o metrô. Ir por superfície seria complicado pelo trânsito caótico. E não me arrependi, pois o novo terminal 3 do aeroporto (e a linha expressa do metrô que liga a estação ferroviária até ele) são primorosos. Visão de primeiro mundo, a primeira que tive na Índia. Foram contruídos para a Copa Commonwealth dois anos atrás para receber as delegações e turistas. E ficaram como um bom legado para o país. E para o Brasil, qual será o legado que ficará com a Copa e com as Olimpíadas? Provavelmente, apenas estádios elefantes brancos… Nada de melhoria significativa de infraestrutura está sendo feita até agora. O pouco que está sendo feito vem da iniciativa privada, com alguns aeroportos privatizados. O que depende do governo possui um andar paquidérmico. Sempre. Não será o título ou as medalhas que deveriam ser motivo de orgulho, mas o que poderia-se fazer pelo país com a realização desses mega-eventos, embora a história mostra que o país-sede quase sempre sai perdendo. Mas poderíamos perder menos.

Bom, mas retornando à viagem… A Índia realmente possui muitos contrastes e para gostar do país, o viajante precisa fechar os olhos para muita coisa. Muitas mesmo. A não ser que faça uma viagem basicamente “turística”, não passando pelas mesmas situações em que a maioria dos indianos passariam, o viajante experimentará várias situações em que tenho certeza que ele dirá a si mesmo: “nunca mais”. Mas existem compensações. Como comentei anteriormente (Khajuharo), o povo em geral, lhe recebe muito bem. Claro que a maioria está interessada em algo, mas eu acredito que genuinamente, muitos têm interesse em conhecê-lo como pessoa, assim como os costumes do seu país. Em nenhum país do mundo vi tamanha recepção, tantas perguntas e vontade de bater papo. A Índia possui também cidades melhores e piores. Se Varanasi estava em um extremo, Mahabalipuram e Rishikeshi estavam em outro, com Khajuharo logo a seguir. São todas cidades menores, com menos lixo, menos barulho e aparentemente, pessoas mais amistosas. Porém, isso não seria suficiente para eu, um dia, pensar em viver no país. Acredito que falta muita coisa para se ter um mínimo de conforto na sua vida. Não penso em conforto material, mas sim em conforto vivencial. O dia a dia aqui cansa demais. Não só a sujeira, o cheiro, as intermináveis buzinas... Mas também a falta de encontrar algo gostoso para se comer, algum lugar gostoso para descansar, visões bonitas para descongestionar a visão. Fico imaginando como seria no verão, com um calor escorchante. Beiraria o insuportável.

Enfim, existem muitas formas de enxergar essas situações e eu respeito todas. Não faço nenhum julgamento de opinião. Mas eu respeito principalmente a opinião das pessoas que passaram por tudo isso que passei. Não vale adorar a Índia sem ter posto os pés por aqui. Não vale adorar a Índia ficando só em hotel 5 estrelas e andado de ônibus turístico com ar condicionado (embora alguns turistas nessas condições – e eu presenciei, aproveitam para uma vivência maior no dia a dia do país, e isso já é positivo). Se você encontra-se em um desses dois grupos, sua opinião pode ser tendenciosa. Faça uma visita real. No meio do povo. Você poderá se decepcionar, e muito. Ou amar de vez. Existem milhares de pessoas no segundo grupo.

E vamos para o Nepal!

Próximo post: Kathmandu.
#808310 por engand.andre
15 Fev 2013, 11:40
Esse curto post será apenas para comentar a chegada ao Nepal no dia 56 e a procura para o trekking no dia seguinte em Kathmandu, antes de viajar para Pokhara no dia 58. Após Pokhara, volto a Kathmandu e falarei sobre a cidade em si, inclusive sobre a visita a Durban Square, feita na tarde do dia 57.

As primeiras impressões do Nepal não foram boas, já no aeroporto. Para o viajante, não há nenhum tipo de informação que o auxilie a providenciar seu visto. Não recebemos nenhum papel de preenchimento na aeronave da Spicejet e no desembarque precisamos ir caçando informações do que deve ser feito. Ao final do corredor de desembarque do aeroporto pequeno e antigo, abre-se um grande salão onde ao final existe alguns formulários para serem preenchidos. Nenhuma pessoa para lhe auxiliar e nenhuma caneta. Bom ter sempre uma por perto. Fui junto na onda do povo e preenchi os dois formulários que estavam no local. Duas filas imensas se formaram e após alguns minutos que já fazíamos parte delas, um francês nos informou que devíamos pagar a taxa primeiro (US$25 para 15 dias, exatamente o tempo que ficaria no país). Surpresa que, depois de pagar a taxa, o funcionário nos mostrou um guichê ao lado, praticamente livre, onde recebi o visto adesivado no meu passaporte. Resumindo, as filas lá atrás para quem já tinha o visto continuavam morosas, mas para quem acabou de fazer o processo até que foi rápido.

Rápida não foi a espera das bagagens. Uma confusão. Trocaram a esteira por duas vezes e como havia muitos vôos chegando ao mesmo tempo para apenas 4 esteiras, demorei mais de meia hora depois do fazer o visto para conseguir pegar a bagagem. Pior para o motorista do hotel que estava me esperando, mas acredito que ele já entendia esses atrasos, pelo bom humor que estava. O Hotel Silver Home foi um bom achado. Um excelente custo-benefício com wi-fi, bom quarto com banheiro e uma boa localização no Thamel, embora a pequena viela que dá acesso ao hotel não seja um local muito bonito. Quando voltar de Pokhara, continuarei no mesmo hotel e vamos ver se a opinião persiste posteriormente. O problema durante a hospedagem no Nepal não é dos hotéis em si, como percebi depois, mas sim a constante falta de energia elétrica do país. Não me aprofundei ainda no assunto, mas com as poucas pessoas que conversei, não há suficiente produção de energia no país desde os acontecimentos políticos de alguns anos atrás quando a monarquia foi derrubada e os maoístas começaram a participar do governo. Sem comentários… Enfim, é normal o país ficar sem energia elétrica várias horas por dia, e apenas os hotéis de luxo tem geradores para um suprimento contínuo. Porém, até agora, no período noturno ela tem se mostrado presente.

O cômico disso é que na entrada do saguão do aeroporto, existe uma placa mostrando que o Nepal, após o Brasil, é o segundo país do mundo em possibilidades de geração de energia por recursos renováveis. Mas o que adianta isso se os governos são incompetentes? O que adianta o nosso país ter esse título e o governo afugentar todo tipo de investimento em geração querendo controlar o mercado e colocando-nos novamente em uma crise energética? Estados… sempre incompetentes em gerir a economia e retirando da população muito mais do que oferece de volta.

De qualquer forma, adianto que as impressões da cidade no dia seguinte foram bem positivas e serão relatadas após os dias de trekking em Pokhara. Na procura do pacote, fui checar as possibilidades que eu possuía. Eu tentei primeiro no hotel, depois procurei duas pessoas que conheci no couchsurfing e que possuíam contatos de agências. Na terceira consegui um preço que achei imbatível e que me foi confirmado por outros colegas pela net, antes que eu fechasse com a empresa no final da tarde. Fechei um trekking curto de 3 dias com 4 noites inclusas, três refeições por dia, guia exclusivo, permits e passagem de ônibus e turismo ida e volta Kathmandu-Pokhara por US$145.00. Os preços que eu pagaria se fizesse esse pacote por conta própria em hotel, refeições e transporte seria de US$96.00. Achei justo US$49.00 por três dias de guia exclusivo. E pelo conforto de resolver tudo rapidamente. Além disso, a empresa “World Trail Finder Adventure” está classificada como cinco estrelas no Tripadvisor, com excelentes recomendações. Existia uma outra alternativa de ir à Pokhara e contratar algo por lá, talvez até um guia independente. Com certeza eu tomaria essa iniciativa se não conseguisse um preço razoável em Kathmandu.

A decisão da duração do passeio ocorreu em virtude de aproveitar melhor os 15 dias no Nepal. As paisagens em si, apesar de belíssimas, vão deixando de acrescentar muito ao seu repertório na medida que o tempo passa, uma vez que o cenário é parecido. Não me entusiasmei em ir muito longe também, para não me exigir demais fisicamente, tanto pelo cansaço como pelo frio. Enfim, fiquei satisfeito com a escolha. Conto ela no próximo post.

Próximo post: Pokhara

P.S.: “Era” para ser um post curto…
#816830 por engand.andre
10 Mar 2013, 22:13
Dias 59 a 63 - Pokhara e trekking

Após esse dia em Khatmandu, peguei o “tourist bus” para Pokhara. O local de saída é o mesmo para todas as companhias e muito perto de uma das extremidades de Thamel, o bairro turístico da cidade. Todos os ônibus saem juntos, às 07:00hs. Seriam apenas 200km, mas, pasmem, percorridos em 7 horas. Se eu fosse de ônibus local, seriam 12 horas. Algo impensável em qualquer lugar com um mínimo de infraestrutura de transportes. A estrada realmente é muito ruim, sinuosa e perigosa. Atravessa na maior parte do caminho, margens montanhosas e profundos vales. E os motoristas também não são um primor em segurança defensiva. Os ônibus chacoalham absurdamente devido à má condição do asfalto, e a poeira se faz presente de forma demasiada. Percebi isso pricipalmente no retorno, quando o tempo estava seco. O ônibus pára por duas vezes para lanche e almoço antes de chegar em Pokhara. O terminal era bem próximo do meu hotel, mas rachei um táxi com um alemão com quem vim conversando no ônibus.

O Hotel Yeti é um bom hotel. Ambiente agradável, bonito, bom quarto com banheiro, água quente nos horários pré-programados, mas sofre como qualquer outro com a falta de energia elétrica constante no país: são cerca de 10 a 12 horas de racionamento. Eles possuem uma rede alternativa de energia que mantém algumas funções ligadas (interessante é que a wi-fi participa dessa rede), mas as tomadas para recarregar o laptop e celular não estão incluídas nesse “pacote”. E esse padrão é o mesmo tanto para o hotel que fiquei em Kathmandu, em Pokhara e nos locais do trekking. Não fico sem wi-fi, mas fico sem energia no laptop… Pela tarde andei na avenida em frente ao bonito lago Phewa. Essa área da cidade é bem agradável, o lago e os espelhos de água refletem com uma beleza incomum as montanhas e as nuvens no céu. O tempo não ajudou, estava com uma leve garoa, mas o próximo dia seria seco.

No café da manhã do dia seguinte, conheci um chileno que mora na Austrália e estava “preso” na cidade desde o dia anterior porque os vôos foram cancelados em função das condições climáticas. Também é uma opção vir pelo ar para Pokhara, mas no meu pacote as passagens de ônibus já foram incluídas. Além disso, o valor de US$100.00 para voar por meia hora achei bem abusivo. Talvez tenha perdido a vista das montanhas por cima, mas com o tempo fechado que estava possivelmente não veria muita coisa. E sempre existe o risco de cancelarem os vôos, como aconteceu com o chileno. O meu guia, Karam, já havia se apresentado no dia anterior e ficou também no mesmo hotel. Após o café da manhã iniciamos nossa caminhada, junto com um grupo de franceses que estavam no mesmo hotel com mais um guia. Enfim, tornamo-nos um grupo grande e fizemos todo o passeio juntos.

O primeiro destino seria Sarangkot, uma vila próxima à Pokhara com vistas espetaculares para as montanhas. Andamos quase 4 horas nesse dia, em um circuito pelas montanhas recheado de subidas. Foi a parte mais difícil do trekking. Com uma mochila nas costas relativamente grande, a dificuldade era multiplicada. A vila de Sarangkot é minúscula, é um ponto de decolagem de paragliders e possui no topo um mirante onde é possível ver de forma privilegiada tanto o nascer quanto o pôr do sol. Nesse último, não tivemos sorte: nuvens encobriram nosso astro-rei. Já no dia seguinte, madrugamos para não perder seu nascimento. E aí assim, valeu a pena. Sobre a guest house que ficamos, nunca achei que teríamos algum conforto nas montanhas. O quarto foi muito bom. Apenas o banheiro é compartilhado. Porém, nessa noite de baixa temporada havia apenas nosso grupo e uma família de japoneses hospedados, então não houve problemas. Temos porém que acostumar com o horário da água quente, pois os aquecedores solares a mantém aquecida até no máximo 19 hs. Mas em si, o local era bem agradável. Um trekking confortável!

No segundo dia, após o espetáculo do nascer do sol nas montanhas deixamos Sarangkot e caminhamos cerca de 7 horas, com um almoço de intervalo onde comemos a típica comida nepalesa (daal bhaat tarkaari, um arroz com lentilhas e vegetais). Caminhamos mais tempo, mas o caminho foi mais plano, o que facilitou a progressão. Passamos em Australian Camp até chegarmos em Dhampus, um vilarejo ainda menor do que Sarangkot, ao lado dos picos nevados em torno da parte sul do Annapurna. A guest-house dessa noite era um pouquinho mais rústica, mas mesmo assim confortável para passar uma noite.

Durante as caminhadas entre as vilas, além das trilhas pelas montanhas, passamos por várias pequenas estradas onde observamos o modo de vida da população rural do Nepal, que compreende mais de 80% do total. Muitas pequenas plantações de milho, arroz e batatas e colza (canola) e mostarda encontram-se a lado das simples habitações. Não vemos muito, em função das irregularidades do terreno, grandes áreas plantadas. As plantações são majoritariamente familiares e restringem-se em pequenas propriedades. Nada de mecanização: vimos bois serem usados para arar a terra e agricultores abrindo covas para a semeadura. A produtividade deve se baixíssima. As propriedades possuem ainda búfalos, carne de consumo normal nos restaurantes, cabras e galinhas. Entre os habitantes, vimos muitos escolares indo para as escolas, mesmo no final de semana, e muitas, mas muitas crianças que praticamente sem exceção nos cumprimentávamos com um alegre “namastê” ou um ocidentalizado “hello”. Algumas vinham falar conosco e mostravam um afiado inglês na comunicação. Até uma flor eu ganhei de uma menininha rs. Encontramos também um grupo de nepalesas cortando e posteriormente, carregando lenha para aquecimento. É incrível o peso que as mesmas carregam nas costas. Respeckt! Presenciamos durante o trekking duas festas de casamentos locais. Enfim, uma agradável imersão cultural, longe do bafafá turístico.

No terceiro dia, descemos a montanha em uma caminhada de mais de duas horas. A descida era bem íngreme, em degraus, o que atrasou e dificultou as passadas. Para quem tem problema no joelho seria o fim. Mas chegamos na estrada ainda antes do horário de almoço para voltar à Pokhara. Caminhamos mais um pouco e tomamos o primeiro de três ônibus para chegar até o hotel, já de tarde. Esses ônibus, urbanos. Uma aventura. A última vez que andei em algo parecido foi na Bolívia, onde até cabras estavam entre os passageiros. Aqui não chegou a tanto, mas teve quem levara dentro toras de madeira, que é o principal combustível usado para produção de calor no país, disputando espaço junto a uma infinidade de pessoas. O curto trekking foi então finalizado, e valeu pelo conhecimento da região rural do Nepal, pelas grandes vistas, pelo nascer do sol em meio aos picos nevados e pela oportunidade de presenciar a expressão da vida nos vilarejos. Não tivemos visões, porém, de rios e cachoeiras, que são muito presentes na rodovia Khatmandu-Pokhara. Achei que veria algo. Até passamos uma ponte com um pequeno curso de água, mas que estava muito fraco em função da estação. Nas monções, segundo o guia, o fluxo é grande.

Ainda deu tempo de conhecer um pouco a cidade de Pokhara até o final da tarde, e escolhi uma região não turística para andar. Uma primeira impressão que tive do Nepal em Kathmandu, e que se manteve em Pokhara é que as cidades, apesar de pobres e simples, são bem mais limpas do que as cidades indianas. Sim, existe bem mais lixo que estamos acostumados a ver, mas parece que aqui eles não são simplesmente jogados em qualquer lugar. Há áreas específicas e eles são ensacados, parecendo esperar uma coleta. Percebi posteriormente, que isso entretanto, ocorre apenas nas regiões centrais. No retorno à Kathmandu passei pela periferia da cidade e uma “little Índia” surgiu de novo na minha frente. Nem tudo é perfeito… As cidades são, ao menos mais ocidentalizadas no que diz respeito ao comércio. É fácil encontrar um restaurante, um supermercado melhorzinho, farmácias vendendo produtos de higiene, etc. Nesse ponto, o viajante sente-se mais confortável. As contruções são mais bonitas também do que na Índia. Existem vários prédios baixos de apartamentos, de três ou quatro andares, muito bonitos e que em geral, pertencem a uma mesma família. Quartos que estão sobrando são alugados a terceiros.

No dia seguinte, passei o último dia completo na cidade e conheci a área do lago Phewa, cuja superfície é possível observar de forma magnífica o reflexo das montanhas e do céu. Em alguns sites, há comentários de que é uma das mais magníficas visões do mundo. Consegui tirar umas boas fotos, mas na internet há algumas magníficas, profissionais. Vale a pena dar uma olhada. Existe também um parque muito tranquilo em uma das extremidades do lago para momentos de contemplação. Ao fundo, um templo hindu muito bonito e bem conservado. Continuei a caminhada pelo sul e oeste, tentando alcançar a caverna Gupteswar e as cachoeiras Devis. Não consegui entrar em ambos, pois embora o preço seja irrisório (U$S1.50 para ambos) eles não aceitavam rúpias indianas, moeda que tinha no bolso. Não achei que seria muito interessante também. Vi algumas fotos pela net e além disso, o fluxo da cachoeira seria muito fraco nessa época. E o caminho até lá que foi mais interessante, passando por uma área mais periférica e rural da cidade. Durante uns 15 minutos dois garotos me acompanharam fazendo um monte de perguntas sobre o Brasil. E esse contato vale muito mais do que visitar simples “pontos turísticos”.

De volta ao hotel e à realidade do suprimento de energia do Nepal, atualizei-me perante as notícias até a bateria do computador acabar. Como comentei anteriormente, a bateria acaba mas a wi-fi continua funcionando… Mas ok, não perdi muito. Afinal, no Brasil é carnaval. Ziriguidum da alienação! No dia seguinte cedinho voltei à Kathmandu, no mesmo estilo de transporte. Como dessa vez sentei na janela e o tempo estava bom, pude tirar algumas fotos do belo e perigoso vale que a estrada margeia. Fiz também um pequeno vídeo já chegando próximo do destino, para tentar passar um pouco da impressão da viagem. Algumas pessoas me perguntam sobre as demais fotos. Todas estão disponíveis no Picasa (link na coluna direita do blog). Porém, algumas vezes atraso um pouco para disponibilizar em função da lentidão da net para fazer o upload.

E por falar em vídeo, fica aqui também a sugestão de um belo vídeo feito por uma amiga e fotógrafa profissional que conheci na Índia, Andréa Ribeiro. Ele ajuda a passar um pouco mais desse pitoresco país.

Próximo post: Kathmandu e arredores.
#816831 por engand.andre
10 Mar 2013, 22:15
Dias 64 a 71 - Khatmandu e arredores

Esse post refere-se ao período em que passei em Kathmandu e nos arredores da cidade, visitando, além dos principais pontos turísticos da cidade, a cidade de Pathan e Bhaktapur. Emenda também os comentários de Durban Square, que visitei no dia 57, como comentei aqui, antes do post de Pokhara. Nesse último post comentei as principais características do país, e essa percepção não mudou após esses dias em Khatmandu. Estendendo um pouco as observações, acrescento que para o andarilho, as cidades nepalesas são um pouco inóspitas. Ruas sem calçadas e mal pavimentadas, trânsito confuso, muita, mas muita poeira e poluição (muitos habitantes andam apenas de máscaras) tornam as visitas aos locais um pouco desconfortáveis. E em tempo chuvoso, que presenciei nos últimos dias, a poeira assenta-se, mas como consequência forma-se muita lama pelas ruas. No hotel, o racionamento
de energia do país também atrapalha um pouco seu conforto e faz com que acabemos mudando nossa rotina para nos adaptarmos à falta de energia elétrica. Porém o Hotel Silver Home proporcionou um
ambiente agradável, com uma equipe muito boa e estrutura necessária para uma agradável hospedagem. O público, quase exclusivamente europeu e norte-americano, tornou o ambiente descontraído e divertido. Voltaria ao hotel novamente caso retorne ao país. Enfim, o Nepal tem seus encantos, mas também possui características as quais eu considero negativamente determinantes para passar um longo período por aqui. Positivamente, e novamente e mais intensamente do que os indianos, as pessoas em geral são muito solícitas e gentis. E ao contrário da maioria dos indianos, não pedem algo em troca ao final de uma conversa.

Não me exigi muito nesses dias. Em geral, saía do hotel por volta das 10 da manhã e voltava por volta das 16 horas. E de noite, apenas para jantar. Andei bastante a pé e de ônibus, e durante 4 dias tive a companhia de uma inglesa que conheci no hotel, o que me ajudou a melhorar um pouco minha prática na audição no idioma. Nos últimos dias, conheci uma americana que fala português e dois guatemaltecos e jantamos juntos as três noites restantes com direito a uma baladinha em um pub em Thamel no sábado. O Thamel, inclusive, é o melhor bairro para o turista ficar. Não vi nada melhor na cidade. Foge um pouco da vida real da cidade, mas a vida real é bem desconfortável fora do Thamel. O bairro possui a melhor infraestrutura em comércio de todo o tipo, hotéis, restaurantes e casas noturnas para todos os gostos. Claro que os preços são mais caros que bairros locais, mas pelo conforto compensa, pois mesmo assim, ainda são baratos para nossos padrões. De qualquer forma, é fácil após uma caminhada de 5 ou 10 minutos saindo do Thamel encontrar restaurantes locais com comidas tipicamente locais. Cheguei a almoçar uma boa quantidade de momos (típico prato nepalês) e chowmeins por 60 rúpias nepalesas cada. Sim, um dólar vale 84 rúpias… No Thamel esse valor dobra ou triplica, dependendo do restaurante. Vale experimentar ainda as cervejas nepalesas (Gorkha, Everest e Nepal Ice – cerca de 250-300 rúpias) e a bebida alcoólica tibetana Tongba, feita com millet fermentado (também chamado de painço ou milho miúdo). Diferente de tudo que você já viu.

As famosas Durbars Squares do Nepal representam as áreas que ficam em frente aos antigos palácios reais dos reinos da região na antiguidade, antes da reunificação do Nepal, com muitas construções ainda bem preservadas, dentre elas os palácios, templos e prédios públicos, que datam de desde o século XII até o século XVIII. As três mais famosas são a de Kathmandu, Pathan e Bhaktapur, todas tombadas como patrimônio cultural da UNESCO. As construções se interligam por estreitas ruas, becos e cantos, num labirinto onde misturam-se pequenos comércios, vendedores de rua, moradias locais e pequenos templos em cada esquina. A maior delas é a de Bhaktapur, que na verdade, é uma aglomeração de quatros “squares” conectadas. A arquitetura das construções é espetacular, mostrando as potencialidades do povo newar (habitantes originários do vale de Khatmandu de origem tibetana e indo-ariana), onde os historiadores valorizam principalmente o estilo de janelas e frisos de madeiras do templo, muito bem trabalhados.

Outro site interessante foi o grande templo hindu de Pashupatinath, dedicado à Shiva. Ao meio da área do templo, corre um córrego completamente imundo. Possivelmente no período de monções o fluxo seja maior e disfarce um pouco a poluição. O que chama a atenção no templo é a área dedicada às cremações dos mortos. Das dez estruturas existentes, quatro estavam ocupadas no momento da nossa visita. Assistir a cerimônia dá uma certa angústia, mas quando incorporamos que diversas realidades são vividas por seres humanos tão próximos entre si, e que nenhuma pode ser considerada mais correta que a outra, passamos a ver com outros olhos essas manifestações. Após a chegada do corpo coberto com lençol e com flores em uma maca simples de madeira e sua lavagem simbólica com as águas do córrego, ele é levado para a área de cremação onde existe uma base composta por toras de madeira. Após passar o corpo por três voltas nessa base, os familiares o colocam sobre ela e descartam a maca provisória. Jogam os lençóis e as flores no córrego e iniciam a cremação, alimentando o fogo por baixo com palha. Não acompanhamos até o final, pois o processo consome várias horas. Familiares banham-se nas águas após as cinzas serem jogadas no córrego. Não consegui ver a cerimônia no Ganges, mas vi em Kathmandu. Fotos durante a cerimônia, por respeito, são proibidas.

Existem vários budas pela cidade, mas o maior, a leste de Thamel é Boudhanat Stupa, próximo à Pashupatinath. Esse Stupa é o maior do Nepal e um dos maiores do mundo e era um intenso centro de peregrinação dos tibetanos quando as fronteiras do Tibete eram abertas. O seu domo tem aproximadamente 120 metros de diâmetro e 43 metros de altura. Em seu caminho, pudemos presenciar uma festa de ano-novo da comunidade Sherpa Dharma Peak, no templo Boudha Tinchuli, puramente por sorte. Ficamos alguns bons minutos acompanhando as festividades. Outro grande Stupa, Swoyambhunat, situa-se a oeste de Thamel em um local privilegiado: um grande morro onde podemos ter uma visão panorâmica da cidade de Khatmandu. Os Stupas são um símbolo do Nepal, um tributo para sua espiritualidade e cultura, simbolizando uma remanescência de seu passado e a esperança de um futuro melhor. São mantidos principalmente pelo povo Newar e Sherpa, que mantém o patrimônio bem conservado já há muitos séculos.

Em uma das tardes, foi válida uma pausa para um relaxamento em um ambiente muito agradável, no meio de Khatmandu e bem próximo ao Thamel: o “Garden of Dreams”. É um grande jardim, ocupando todo um quarteirão na cidade de 7.000m2, que funciona como válvula de escape ao estresse do trânsito e da poeira da cidade, uma vez que é completamente murado, isolando-o do ritmo da cidade. Originalmente um jardim privado do rei Shumsher, ficou abandonado até meados dos anos 90 do século passado, quando sua reconstrução e reconstituição foi financiada pelo governo austríaco. Com três pavilhões (um com belas fotos antigas e atuais do jardim), anfiteatro, fontes (que funcionam), e várias espécies de plantas e flores, é um oásis no centro da cidade, e recebe regularmente programas culturais, concertos e outros eventos.

Nesses 7 dias de Khatmandu (um foi quase todo preenchido pela viagem de Pokhara), os primeiros cinco dias renderam mais, pois os últimos dois foram chuvosos. E passear na chuva entre a lama ninguém merece. Por sorte, já tinha visitado as principais atrações da cidade e saí poucas vezes, entre um almoço e uma janta, para andar por ruas e vielas que ainda não tinha passado. A cidade possui ótimos preços para compras de roupas. Vi muitas pessoas enchendo a mala para voltar para casa. Eu ainda não posso fazer isso, pois ainda tenho mais de 120 dias de viagem pela frente… No dia seguinte, meu vôo para a Tailândia sairia cedo e, com escala na Índia, iria chegar em Bangkok no começo da noite.

Próximo post: Bangkok!
#816835 por engand.andre
10 Mar 2013, 22:19
Dias 73 a 78 - Bangkok e Ayutthaya

Em Bangkok passei pela primeira vez pela experiência do “couchsurfing”, situação em que pessoas disponibilizam suas casas para a hospedagem de viajantes. Em geral, o anfitrião limita-se a hospedar uma ou duas pessoas, mas o meu anfitrião em particular agia de forma diferente e curiosa. Ele possui uma casa de dois andares com quatro quartos disponíveis e várias camas e colchões. E fazia da casa dele um hostel. Em uma noite dormiram 9 pessoas lá dentro. Sim, é um caso especial, mas achei bom, pois pude conhecer várias pessoas e mais do couchsurfing nesse intervalo em Bangkok. Há relatos de experiências positivas em sua maioria, embora algumas pessoas tivessem passado por algumas situações meio desagradáveis em outros locais. De qualquer forma, a experiência valeu a pena e abriu novos horizontes para o futuro.

A cidade de Bangkok assemelha-se muito a uma grande cidade brasileira e foi um marco para a volta à civilização após is últimos 45 dias na Índia e Nepal. Não comento isso em tom depreciativo em relação aos últimos países, mas sim pela presença de algum conforto a qual estamos acostumados no Brasil. A energia elétrica está sempre presente, não existe ruas de terra e poeira nas regiões centrais (embora há poluição veicular), em todo lugar existem supermercados e padarias onde pode-se comprar coisas gostosas para beliscar e lugares bonitos e agradáveis para descansar. Mas mostra um lado oriental que não estamos acostumados a ver. Pela primeira vez, estou em um país predominantemente budista. E a quantidade de templos budistas na cidade é algo imenso. Muito maior do que as igrejas (católicas e protestantes somadas) que existem nas cidades do Brasil. Templos de todos os tipos de luxo, de tamanho e de imagens de Buda. Possui o mesmo padrão geral de arquitetura, mas alguns possuem detalhes impressionantes, que os destacam entre os demais. Outra característica da cidade é o culto à família real. A cidade divulga suas imagens em grandes cartazes nas ruas, em frente de todos os edifícios públicos como delegacias, hospitais, universidades, entre outros. Acho totalmente “non-sense” esse tipo de culto à pessoas cujo único mérito é ter apenas nascido no lugar certo. Admirar pessoas que tiveram uma vida com realizações interessantes é uma coisa, e nutro uma admiração por várias delas. Mas cultuar família real acho uma característica de pessoas que pararam no tempo. Completa inversão da meritocracia. Bom… como dizia um amigo meu, cada um com seu cada um…

No primeiro dia em Bangkok fomos ver um campeonato de Muay-Thai, que ocorre em uma arena todas as quartas-feiras, próximo a um grande shopping-center. A luta é o esporte nacional do país e atrai muitos expectadores. Chega a ser até mais violento do que o box, em função dos golpes com os membros inferiores, e existem competidores de ambos os sexos. Posteriormente após uma janta antecipada, fomos a uma reunião do grupo do couchsurfing em Bangkok, no qual o meu anfitrião era um dos organizadores. Cerca de 50 pessoas estavam presentes e entre uma cerveja e outra, conheci um pouco mais do sistema de disponibilização de sofás pelo mundo.

Os próximos dois dias foram reservados para passeios em regiões de atração turística. Para chegar no primeiro local, eu e um colega fomos de barco pelo Rio Chao Phraya, que corta à cidade. É um meio de transporte eficiente, pois não é afetado pelo caótico trânsito da cidade, e como bônus presencia-se uma visão privilegiada. Os tailandeses o usam como um ônibus fluvial de fato para sua locomoção. Comprei o ingresso para o Grande Palácio. Um ingresso caro para os padrões da cidade, no mesmo nível do Taj Mahal em Agra, mas que além dos muros do palácio, lhe dá o direito à entrada no Anantasamakhom Throne Hall, que comento depois. O Grande Palácio é na verdade um complexo de construções em uma grande área com mais de 200 anos de história e que foi usado como residência dos reis do país e grandes cerimônias oficiais durante os últimos tempos. Abriga em sua área o Wat Phra Kaew (Wat= templo), considerado o mais sagrado templo budista na Tailândia e não permite fotos em seu interior. O lugar é magnífico, muito bem conservado e mostra muito bem o estilo de construção tailandês que vigorou nos últimos dois séculos. Após essa visita e almoço, visitei o Wat Pho, que também é um complexo de construções o que o faz o maior templo de Bangkok, possuindo em sua área mais de 1000 estátuas de Buda. A maior e mais significante para o visitante é a enorme e dourada estátua do Buda deitado, com 46 metros de comprimento por 15 de altura. Posteriormente, fomos ao templo Wat Arun do outro lado do rio, que possui uma construção ornamentada por porcelanas chinesas e era a mais alta estrutura em Bangkok antes da construção dos arranha-céus. É possível subir uma escadaria íngreme até pouco acima de sua metade e ter uma visão panorâmica da cidade. De volta ao velho centro, andamos pela famosa Khao San Road, local de hospedagem da maioria dos mochileiros na cidade, com centenas de hotéis e guest-houses, restaurantes e milhares de vendedores de rua com todos os produtos que você imaginar, até escorpiões fritos. Essa experiência eu deixei para uma próxima viagem.

Em outro dia de passeio fui visitar pela manhã o Wat Benchamabophit, templo de mármore branco que considerei um dos mais bonitos que vi na capital, e o Anantasamakhom Throne Hall, local que disponibiliza a entrada mediante o ingresso do Grande Palácio. E foi uma experiência fascinante. Um dos lugares mais belos que já entrei. Uma pena que as fotos sejam proibidas. Levam tão a sério essa proibição que disponibilizam armários com cadeados para deixar seus pertences e as pessoas são revistadas antes da entrada. Câmeras e celulares proibidos. O local, construído em 1906, além do museu visitado, ainda recebe certas reuniões de chefe de Estado em suas alas. Os detalhes das pinturas e do painel escavado em madeira são impressionantes, e junto com o esmero com que conservam o local, torna-o imperdível para quem visita a cidade. Mas, comparativamente ao Grande Palácio, o Anantasamakhom é um pouco negligenciado e fica fora dos grandes roteiros turísticos, pois não fica no velho centro da cidade. Uma pena, pois considero imperdível para quem visita a cidade. O dia prosseguiu, entre um smotthie e outro (delícia de Bangkok) com uma longa caminhada pela cidade, na área dos suntuosos prédios públicos, residências dos parlamentares e palácios de recepção de chefes de Estado, que ficam em um imenso quarteirão cercados por fontes imersas em um pequeno curso de água canalizado na cidade. No monumento da Vitória, ponto de confluência de grandes avenidas, notam-se algumas soluções urbanísticas que a cidade adotou para atenuar o problema do trânsito e oferecer mais conforto aos pedestres. Em vários pontos há uma cidade “suspensa”, acima do nível das ruas, interligada com as estações do BTS, ou Sky-train, trem elevado que cruza algumas regiões da cidade. Todas as grandes redes de shopping-center e lojas possuem entradas elevadas diretamente para essas passarelas, evitando que se tenha que descer para a rua novamente. Teoricamente, a pessoa pode, após tomar o sky-train, fazer compras, ir ao cinema, jantar em um restaurante e voltar para a casa sem colocar os pés na rua. Solução interessante. O ponto negativo é a poluição visual para quem está no nível da rua quanto olha para cima. Fica uma imagem pesada, perde-se o céu e trava a sensação de liberdade.

Em um dia aproveitei para trabalhar um pouco pela manhã e pela tarde fui experimentar uma massagem tailandesa. O serviço dura uma ou duas horas e tem toda uma técnica de pressão de pontos específicos, alongamentos e ações nas articulações. Como postei anteriormente no facebook, nunca pensei que em alguns momentos pudesse doer tanto, nunca pensei que minhas articulações pudessem crepitar tanto e nunca pensei que pudesse revigorar tanto no resto do dia. Bom fazer no país de origem e melhor: em um local frequentado apenas pelos próprios tailandeses, evitando influências ocidentais. Posteriormente, emprestei a bicicleta de meu anfitrião para dar uma volta no bairro que ele mora. É um bairro tranquilo no norte da cidade cujas ruas não possuem saída ao fundo, o que faz com que o fluxo de carros seja bem reduzido. Possui vários locais para janta na entrada da rua principal, onde fomos em grupo experimentar a comida local e tomar algumas cervejas, que aqui são bem mais baratas do que o Nepal ou Índia, embora ainda um pouco mais caras que no Brasil. Mas foi a única coisa que achei comparativamente mais cara que nosso país. Todo o resto, incluindo comidas, transportes e roupas, é bem mais barato.

No Domingo reunimos mais de 10 pessoas e fomos à Ko Kret, uma ilha ao norte caminhar e almoçar. A ilha é bem urbanizada na verdade, com muito artesanato local e muitos, muitos quitutes para serem experimentados. Foi mais uma visita cultural do que uma apreciação da natureza. Presenciamos ainda muitos templos, um funeral budista e uma apresentação escolar de crianças. Após voltar à casa e descansar um pouco, fechamos o dia em uma pizzaria no shopping center próximo para fortalecermos mais os laços, pois no dia seguinte, muitas pessoas partiriam logo cedo, inclusive eu.

Minha próxima jornada foi pegar um trem para Ayutthaya, distante quase 2 horas de Bangkok. Ayutthaya foi fundada em 1350 e foi capital do império de Sião por longos anos. No ano de 1700 possuía 1 milhão de habitantes e era uma das cidades mais populosas do mundo. Muitos mercadores relataram à época que era uma das cidades mais belas que tinham visitado. A cidade foi completamente queimada em 1767 após a invasão burma. Chegando na cidade, segui as dicas que recebi e aluguei uma bike. A cidade é plana e fácil de ser visitada, e na Tailândia os bikers possuem as facilidades dos pedestres (podem entrar em qualquer lugar) e são respeitados pelos motoristas. O que prejudica um pouco é o calor. Todos os dias em que passei no país até então a temperatura passou de 30ºC durante o dia. A cidade é riquíssima em templos em ruínas. Alguns melhor conservados, outros nem tanto. Mas existem dezenas de sítios arqueológicos em uma pequena área da cidade, o que demonstra um real esplendor no passado. Um pouco mais afastado, está o Wat Phu Khao Thong, completamente alvo e permitindo uma visão panorâmica da cidade e Wat Na Phra Mane, o único que não foi atingido pelo incêndio no século XVIII. Alcancei mais adiante a igreja católica Saint Joseph, herança da cultura de uma breve assentamento português na cidade, na época das grandes batalhas pelo seu domínio. E finalizei ao final da tarde no parque do sítio arqueológico antes e devolver a bike para o locador. Após janta, descobri que existe uma boa internet gratuita na estação ferroviária e fiquei lá até o trem noturno para Chiang-Mai chegar.

Mais fotos aqui!

Próximo post: Chiang Mai.
#817001 por Silnei
11 Mar 2013, 11:38
Show de relato André!

Nos tópicos globais colocamos um tópico com dicas pra inserir fotos:
http://www.mochileiros.com/como-inserir-fotos-nas-mensagens-t79090.html

O sistema do site estava com um falha que não deixava enviar fotos acima dos 256kb e isso já foi corrigido. Agora aceita fotos de até 10mb e no envio ela é redimensionada pra não ficar pesada na navegação.

De qualquer forma se tentar enviar algumas fotos e não conseguir nos avise.
Abraço,

Silnei

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