Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#863197 por Sandro
24 Jul 2013, 21:03
Travessia Bananal - Angra dos Reis via Pico do Frade

Sobre a trilha
Esta trilha inicia-se no alto do Parque Nacional da Serra da Bocaina no município de Bananal - São Paulo indo até o Pico do Frade, elevação rochosa proeminente que se destaca com seus 1560 metros de altitude na cadeia montanhosa sendo visto desde a Ilha Grande na sua face voltada pro continente, de toda a baía de Angra dos Reis até a baía de Parati.
Uma trilha complicada de navegação em virtude das muitas ramificações em meio a mata fechada e exigente por conter muitos trechos lamacentos, outros com vegetação cobrindo a trilha e trechos alagados.
A partir do Pico do Frade é possível descer a serra para o litoral de Angra via duas trilhas, uma levando até o bairro de Mambucaba encontrando no meio do caminho a antiga Trilha do Ouro vinda de São José do Barreiro. A outra trilha desce até o bairro do Frade, caminho pelo qual optamos em terminar a travessia.

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Relato
Desde que avistei o Pico do Frade pela primeira vez a partir da baía de Parati a alguns anos disse a mim mesmo que um dia eu o subiria e assim também nas vezes que o vislumbrei da BR-101 ao longo do litoral de Angra dos Reis e a partir da Ilha Grande.
Os anos foram passando, muitas outras trilhas realizadas, mas sempre que pensava em mais uma trilha pela Serra do Mar a imagem do Pico do Frade sempre voltava á tona.
Lembro de ter lido algumas informações sobre as dificuldades de se chegar até ele, mas não lembro se foi lendo o relato da primeira investida do Augusto, só guardei na memória que tinha um certo grau de dificuldade. Mas não foi isto que me fez postergar por muitos anos minha incursão e sim as inúmeras possibilidades de trilhas tão fascinantes quanto esta que temos à disposição aqui pelo Sudeste, muitas, tecnicamente até mais difíceis e que foram tomando prioridade e sendo realizadas. Mas a vez do Pico do Frade chegou...
No início deste mês conversando com o Fábio sobre planos para nossas próximas trilhas sugeri a travessia saindo de Bananal passando pelo Pico do Frade e terminando em Angra dos Reis, travessia esta que eu sabia ser um desejo antigo do Fábio também. Dois dias depois ele me perguntou se eu topava realizá-la dentro de uma semana o que de imediato concordei. A previsão meteorológica era muito favorável e o Fábio já até tinha planejado a logística e baixado um tracklog para o GPS.
Além do Fábio a Vivian também estava nessa de corpo e alma pro que desse e viesse, o último a integrar o grupo foi o Danilo que entrou na última hora.
De posse do relato do Augusto e do tracklog partimos de São Paulo a meia noite do dia 11 (quinta-feira) em um ônibus com destino à cidade de Barra Mansa estado do Rio de Janeiro na qual chegamos ás 5:00h. do dia 12 (sexta-feira).
Como os horários dos ônibus locais que podem nos deixar mais próximo do início da trilha são muito limitados (de Barra Mansa é necessário pegar um circular até a cidadezinha de Bananal e de Bananal outro com apenas dois horários, ás 6:30h. e 14:30h. que nos deixam em uma localidade distante ainda 2:30h. do início da trilha) optamos por contratar um transporte particular que nos pegasse na rodoviária de Barra Mansa e nos levasse até a Pousada Brejal em Bananal, ponto de referência e apoio à todos que pretendem realizar esta travessia.
O proprietário da pousada é o Carlinhos, crescido na região e que percorreu muitas vezes esta trilha, sempre muito prestativo ajudando quem chega para realizá-la e dando dicas atualizadas das condições da travessia.
Foi também do Carlinhos que pegamos a indicação do transporte que poderia nos levar de Barra Mansa até sua pousada, quem nos pegou na rodoviária foi o “Gordo” em sua Kombi que chegou no horário combinado ás 6:00h.
Partimos de Barra Mansa - RJ e seguimos rumo à Bananal - SP, percurso tranquilo por rodovia em bom estado que leva em média 1:00h. No caminho a paisagem predominante é de pastagens entre pequenos vales e sítios.
A cidadezinha de Bananal situasse aos pés da Serra da Bocaina e é bastante aconchegante mesclando casas com arquitetura do período colonial com prédios modernos e comércio diversificado oferecendo uma pequena, mas boa estrutura turística.
Logo saímos do centrinho da cidade e a paisagem volta a ser tipicamente rural e a rodovia mais sinuosa na medida em que passa subir a serra.
Quanto mais subíamos mais podíamos ver como o céu estava limpo, azulado e o Sol preenchendo de calor o topo das montanhas e o vale cada vez mais profundo que íamos deixando para trás. O dia estava realmente perfeito para uma caminhada.
Ao chegarmos ao alto da serra a rodovia ainda segue asfaltada por mais 1 km tornando-se uma estrada de terra firme por 6 km até chegarmos em uma grande bifurcação com uma praça ao centro, algumas construções no entorno e uma pequena igreja no alto de um morro diante da praça, local conhecido como Sertão da Bocaina, aqui é o ponto final do ônibus que vem da cidade.
Tomamos o caminho da esquerda e a partir daqui serão mais 7 km até a Pousada Brejal trecho em que a estrada está bastante lamacenta e com grandes buracos.
Chegamos na Pousada Brejal após 40 minutos desde que passamos pela cidadezinha de Bananal e fomos recebidos pelo Carlinhos, uma pessoa simpática e bastante comunicativa que gosta de conversar sobre a trilha e sobre as questões ambientais que envolvem a região.
Nos despedimos do Gordo que retornou à Bananal e começamos preparar os últimos detalhes para botar os pés na trilha, trocar de roupa, fazer um rápido lanche, ajustar as mochilas...
Muito atencioso o Carlinhos ficou preocupado por chegarmos após uma noite em que a maioria do grupo não dormiu e já partirmos para a caminhada, mas procuramos lhe tranquilizar por estarmos acostumados em fazer este tipo de atividade já alguns anos e com bastante experiência em navegação, além disso tínhamos em mãos o relato do Augusto e o tracklog em GPS. Mesmo assim ele nos alertou que em alguns trechos o GPS iria falhar (o que realmente aconteceu) e que o melhor era termos o croqui elaborado pelo Augusto (o que infelizmente não levamos e que ele não tinha mais cópias para nos fornecer como faz com a maioria dos que passam pela sua pousada a caminho da trilha).
O local é tão agradável e a conversa estava tão boa que 1 hora se passou rapidamente, nos despedimos do Carlinhos e ele nos deu seu cartão pedindo que lhe ligasse quando chegássemos no Pico do Frade para dizer se estávamos bem ou caso acontecesse algum incidente e precisássemos de alguma ajuda.
Partimos da pousada ás 9:00h. e seguimos pela estrada passando pela primeira bifurcação onde seguimos pelo caminho da esquerda, logo surge outra bifurcação a qual seguimos pelo caminho da direita e após alguns metros temos a primeira visão do pico bem distante ao mesmo tempo que íamos passando por umas casas do lado direito da estrada.
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Avistando o Pico do Frade
A caminhada prossegue por este trecho inicial de estrada bem aberta e tranquila de chão firme até chegarmos ao que parecia ser seu fim entre três casas brancas de uma fazenda (Seda Moderna), mas a estrada prossegue agora já não de chão firme, mas com alguns pontos de atoleiros. O que nos dá certeza que ainda estamos em uma rodovia estadual é uma pequena placa de madeira pintada a mão do lado esquerdo escrito SP-247 confeccionada por algum morador. Pelo relato do Augusto antes havia ali um marco indicando que estávamos na divisa dos estados saindo de São Paulo (Bananal) e entrando no Rio de Janeiro (Angra dos Reis), portanto final da rodovia SP, mas a estrada prossegue e após uns 300 metros surge uma bifurcação onde no caminho da esquerda tem uma placa escrito: “Pousada Rio Mimoso - 1,5 km” e no caminho da direita tem uma tronqueira. Atravessamos a tronqueira e seguimos, pois o caminho é este, alguns metros à frente do lado esquerdo surgem algumas casas e vários cachorros que se limitaram denunciar nossa presença com latidos porque não demonstraram intenção de nos atacar, não vimos surgir nenhuma pessoa das casas e continuamos tranquilos pela estradinha apesar de estarmos passando por dentro de uma propriedade particular agora.
Atravessamos mais uma tronqueira e continuamos com a estradinha agora mais barrenta e após aproximadamente 1 km surge uma porteira e diante dela um riacho com uma ponte feita de troncos (dois troncos, um vão deixado por um tronco que caiu e mais três troncos), após a ponte vemos surgir do lado esquerdo um belo e cristalino remanso, o Rio Bonito, paramos para apreciá-lo por alguns minutos e seguimos estrada acima por mais 160 metros até uma grande clareira do lado esquerdo da estrada com o rio passando ao fundo e araucárias bem visíveis na outra margem do rio.
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Final da rodovia

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Remanso do Rio Bonito

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Rio Bonito
Deixamos a estrada e seguimos até o rio que aqui tem uns 7 metros de largura e no máximo 40 centímetros de fundura, leito de areia e pedras com água límpida e calma, após cruzá-lo colocamos definitivamente os pés na trilha que segue pro lado direito por trás das araucárias, surgem vários caminhos paralelos feitos pelo gado que pasta na região mas basta se manter na trilha mais demarcada e central.
Passamos por um pequeno trecho de mata e logo saímos em um descampado com a trilha abrindo em dois sentidos, seguimos na trilha que vai fazendo uma curva para a direita e segue bem demarcada até chegar num pequeno charco, ao passarmos pelo charco já viramos para a direita procurando pela continuação da trilha que reaparece alguns metros á frente.
A partir deste ponto começa a mata fechada e com ela um prenuncio de como seria boa parte da trilha ao longo do primeiro dia: muitos trechos de lama.
A trilha prossegue larga e bem definida no início com leves declinações alternando trechos planos com suaves aclives balanceando com os declives, logo surgem as primeiras ramificações e vamos nos mantendo na trilha com características de ser a mais antiga.
Chegamos em um riacho (Goiabeira) após mais ou menos 30 minutos depois que cruzamos o Rio Bonito e passar por este custou no máximo molhar até o tornozelo tirando o excesso de lama das botas.
A partir daqui seguem uma sucessão de trechos lamacentos onde é praticamente impossível não afundar as botas o que retarda muito nosso progresso na busca de melhores pontos para apoiar os pés, aumentam também a quantidade de bifurcações, trifurcações e até mais ramificações em alguns pontos, alguns visivelmente abertos recentemente e até mais largos que a trilha correta que em alguns trechos fica bem estreita e tomada pela vegetação, na dúvida consultávamos o GPS e as orientações do Augusto.
Chegamos em um grande descampado onde pudemos mais uma vez vislumbrar o imponente Pico do Frade e perceber o quanto ainda teríamos que caminhar, havíamos percorrido em torno de 7,5 km e restavam para o pico um pouco além de 6 km. Atravessamos o descampado na orientação norte / sudoeste obrigatoriamente sobre alguns pontos de charco, retomamos a trilha pela mata e em mais uns 20 minutos emergimos em outro descampado menor, porém com charco de uma ponta à outra.
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Primeiro descampado

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Primeiro descampado

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Segundo descampado
Seguimos, adentrando novamente a mata no lado oposto e nos mantendo sempre na trilha aparentando ser mais antiga, profunda.
Após aproximadamente 10 minutos desde o último descampado as subidas e descidas tornam-se mais acentuadas e depois de 1240 metros percorridos deste descampado (uns 40 minutos) chegamos em uma bifurcação em que seguindo pelo caminho da direita desce-se para o bairro de Mambucaba indo se encontrar com a Trilha do Ouro que vem de São José do Barreiro.
700 metros à frente desta bifurcação e após aproximadamente 2:15h. desde que saímos da Pousada Brejal chegamos em uma pequena clareira com trilhas seguindo em várias direções e uma árvore com muitos riscos em seu tronco e escrito “PF” com uma seta em baixo apontando para a direita, seguimos nessa orientação e alguns passos á frente essa trilha bifurca onde pegamos o caminho da direita novamente e a trilha segue fazendo uma curva para a esquerda e em seguida é bloqueada por mais uma árvore que caiu trazendo junto muito cipó e outras plantas, nos embrenhamos por entre a vegetação alcançando do outro lado a continuação da trilha que agora desce para dentro de um pequeno vale mais escuro e úmido devido o pouco alcance do Sol ali, vamos seguindo e logo a trilha vira para esquerda e passamos por um córrego, a trilha vira novamente para a direita e é tomada por uma vegetação de folhas grandes pelas quais passamos sem dificuldade, atravessamos outro trecho de córrego e passamos por mais algumas bifurcações nos mantendo sempre na mais antiga.
A trilha segue subindo um pequeno morro e tomada por bambuzinhos que parecem cipós atravessando a trilha e que se agarram em tudo, mochilas, roupas e na pele, pois possuem micros espinhos (como eu odeio bambus na trilha).
Depois a trilha volta descer íngreme em outro pequeno vale aonde ao chegarmos ao fundo vemos nítido que ali é leito de passagem de água pluvial em grande volume pela erosão e limpeza característica que ela promove.
Seguimos pro lado de baixo (direita) no leito e alguns metros à frente tem-se uma bifurcação e uma pequena árvore caída ao seu lado, passamos pela árvore seguindo o caminho da esquerda; mais alguns metros surge um espaço (quase que uma clareira) com um córrego do lado direito e várias trilhas, a dica é se manter em frente na orientação da trilha pela qual você veio. A trilha segue subindo um pequeno lance depois volta descer um pequeno trecho e logo uma sequência de leves subidas e descidas por entre um bambuzal.
Atravessamos mais dois córregos pelo caminho onde o último encontra-se a uns 30 metros antes da Gruta dos Alemães na qual chegamos ás 16:00h.
A gruta é um grande abrigo natural, porém com solo bastante irregular para se montar barraca em seu interior propiciando apenas 3 pontos para bivaque. Diante da gruta existe uma área plana onde cabem 2 barracas para 2 pessoas cada. No fundo da gruta passa outro córrego com água abundante (leito de pedras e areia), de fora podemos ouvi-lo, mas para enxergá-lo é necessário pegar a lanterna.
Avaliamos horários, condições do clima, logística de saída para o dia seguinte e optamos por montar acampamento na gruta, fazendo o ataque ao Pico do Frade no dia seguinte e tentarmos descer para o litoral pela trilha que vai para o bairro do Frade, caso não conseguíssemos descer por esta trilha voltaríamos e pegaríamos a trilha que se encontra com a chamada “Trilha do Ouro” vinda de São José do Barreiro e que desce até o bairro Mambucaba mais fácil, porém um percurso mais longo (caminho pelo qual o Augusto desceu).
Montamos acampamento, o Danilo “bivacou” na gruta, aproveitando que ainda estava claro e não muito frio fui lavar a camiseta suada do dia e tomar um “banho de gato” no córrego que fica a uns 30 metros da gruta. Ao voltar preparamos o “almojanta” e fomos dormir cedo. Há tempos não dormia tão bem num acampamento.
Levantamos por volta das 7:00h. (sábado), preparamos café, desmontamos acampamento, nos abastecemos com pelo menos 1 litro de água cada e partimos novamente ás 9:00h.
A partir da Gruta dos Alemães começa o trecho mais íngreme de trilha até o rochedo que é o Pico do Frade, que se percorrido completo com cargueiras leva em média 2 horas para se alcançar o cume.
Começamos a subida com as cargueiras, pois a trilha que pretendíamos descer a serra saía de um ponto mais a cima.
Após uns 20 metros surgem alguns caminhos indo pro lado direito, mas o correto é o que segue subindo para o esquerdo, por aqui existem bons lugares para bivaque e para esticar redes, mais uns 30 metros e avistamos junto à trilha um poleiro de caça (abrigo improvisado por caçadores nas árvores) feito com pequenas árvores e cipós do local e um grande pedaço de plástico preto com o qual o caçador se cobre para não ser visto pelos animais, ele se encontra á uns 3 metros do chão.
Mais um pouco e chegamos numa árvore caída sobre a trilha pela qual temos que passar por cima onde do outro lado há uma pequena clareira com a trilha para o pico seguindo em frente, uma trilha saindo pelo lado direito e outra pelo lado esquerdo. ESTA TRILHA saindo do lado esquerdo é a trilha que desce para o bairro do Frade, tínhamos ela no GPS, porém o mesmo a indicava 30 metros fora da sua posição correta, o que nos fez achar que ela estivesse mais para cima e nem notamos ela quando passamos, então prosseguimos com nossas mochilas. A partir daqui a subida se torna mais íngreme e vai passando ao lado de enormes pedras, algumas com pequenas grutas onde se é possível fazer bivaques.
Passados 30, 40, 50 metros a cima da pequena clareira não encontramos outra trilha à esquerda que pudesse ser a que descesse a serra (também não passamos por nenhuma saindo para a direita) e o GPS agora nos indicava que havíamos passado por ela, resolvemos continuar subindo com as cargueiras e chegamos num pequeno patamar próximo ao ponto chamado de “mirante” onde resolvemos deixar as mochilas.
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Pico do Frade visto do mirante

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Baía de Angra dos Reis vista do mirante
Deste mirante na crista da serra temos a magnífica visão do Pico do Frade pelo seu lado esquerdo e de boa parte da baía de Angra dos Reis. Daqui ao pico onde enfim encostamos a mão no grande rochedo são mais uns 10 minutos por um trechinho de bambuzal que daí vai contornando o pico por trás até o último trecho que é de “escalaminhada”. A via de “escalaminhada” apesar de variar ângulos de 60º à 80º é fácil, com muitos lugares de apoio, cordas fixas em dois pontos e alguns degraus de madeira nos levando completar a subida em 15 minutos.
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Vivian na via de “escalaminhada”
Chegamos ao cume ás 10:30h. e aí foi se extasiar com a beleza proporcionada pela paisagem das baías de Angra dos Reis e Parati com suas dezenas de ilhas, Serra da Bocaina, Serra do Mar e tantas outras serras a não se poder contar naquele lindo dia ensolarado.
Ficamos contemplando e descansando no cume em torno de 1 hora, nesse tempo ligamos pro Carlinhos para avisar que havíamos chegado bem, na descida, ainda no trecho de “escalaminhada” passamos alguns metros por uma bifurcação pouco perceptível para quem está descendo do lado direito que é por onde havíamos vindo, mas logo percebemos que o caminho mais largo e direto para baixo por onde estávamos descendo nós não havíamos passado na subida. Segundo o Carlinhos nos disse esse caminho também segue para o bairro Mambucaba, de forma bastante íngreme.
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Vista para Mambucaba e baía de Parati

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Serra da Bocaina

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Baía de Angra dos Reis vista do Pico do Frade

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Baía de Angra dos Reis vista do Pico do Frade

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Baía de Angra dos Reis vista do Pico do Frade
Regressamos no nosso caminho recolocando as mochilas e seguimos na busca daquela trilha que nos levaria ao bairro do Frade a qual o GPS não estava conseguindo apontar com precisão, descemos de volta e chegando na pequena clareira vi a trilha saindo para a direita (sudeste) e seguindo bem nítida. Para quem sobe da Gruta dos Alemães ela fica à esquerda e não aparece tão nítida como para quem vem de cima, o GPS ainda dava uma diferença de uns 30 metros, mas quando eu vi a trilha meu instinto disse: É aqui que vocês entram!
Aqui também ouvimos vozes animadas vindas lá da Gruta dos Alemães, ao menos duas eram masculinas e uma feminina, mais um grupo fazendo a trilha que tinha acabado de chegar.
Entramos na trilha que ruma ao bairro do Frade e nos primeiros 50 metros ela passa em frente a mais uma grande gruta sob uma enorme pedra arredondada, porém menor que a dos Alemães, depois a trilha pega um trechinho de crista, passa por entre um bambuzal e começa sua descida serra abaixo, uma descida íngreme. (Como a altimetria desta trilha apresenta um acentuado grau de declive para melhor localizar a maioria das referências irei colocar suas cotas de altitude e distâncias percorridas).
Ao alcançarmos a cota 1130 de altitude, 920 metros percorridos chegamos em um córrego, o primeiro de vários pelos quais passamos ao longo da descida.
A trilha segue descendo sem bifurcação na primeira hora, ao alcançarmos a cota 866 com 2140 metros percorridos passamos pelo que parece ser um leito seco de riacho e a seguir chegamos em um ponto com vestígio de bifurcação, porém o caminho da esquerda parecia ter sido varrido por uma enxurrada ou não era a trilha principal. Seguimos descendo reto onde o caminho estava mais desgastado e alguns metros abaixo passamos sobre uma árvore caída e ladeamos uma grande pedra, passando pela pedra ouvimos barulho de água e logo avistamos um córrego do lado direito com uma mangueira fazendo capitação de água. Mais um pouco abaixo na trilha avistamos também alguma coisa construída no meio da mata.
Nos aproximamos com cuidado ao reconhecer que era um abrigo de caçadores. Não havia ninguém, o abrigo está bem consolidado construído acima do solo sobre uma grande pedra e encostado em um barranco, com estrutura feita com pequenas árvores e bambus do entorno e revestido com lonas plástica nas laterais e cobertura. Possui um pequeno fogão a lenha feito com pedras cimentadas, duas camas com colchonetes de espuma distantes do chão, água encanada até uma pequena pia de plástico e alguns utensílios de cozinha como panelas e talheres. Também encontramos um machado escondido e algumas peças de roupa.
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Abrigo de caçadores
O local está conservado, panelas limpas, não há lixo acumulado, na pequena clareira em frente a vegetação não está crescendo e uma parte da cobertura é de plástico trocado a pouco tempo, o que denotam um uso regular da cabana.
Abaixo da clareira sai uma trilha a qual o Fábio explorou um pouco para ver se era a trilha que deveríamos tomar, porém ela seguia um rumo paralelo e se afastando da direção que deveríamos seguir. Voltamos então uns cinquenta metros a cima até aquele vestígio de trilha que parecia ter sido varrida por uma enxurrada, nos primeiros metros ela segue tortuosa por entre algumas árvores e ao lado de uma grande pedra do lado esquerdo, mas logo ficou claro que estávamos no caminho certo, pois a trilha volta ficar bem demarcada. Atentem também aqui alguns pedacinhos de plástico amarrados em troncos finos de árvores.
Cruzamos mais um córrego e após umas 3 horas de descida voltamos ouvir vozes na mata e nos deparamos com outro grupo subindo a trilha, paramos para conversar, eram 6 amigos cariocas subindo bem equipados para pernoitarem no cume do Pico do Frade. 5 deles com cargueiras pesadas e um deles com uma de ataque, ele era o “guia” e havia estado no pico a alguns anos. O mais interessante é que ele estava marcando o caminho com a “técnica Joãozinho e Maria”, mas no lugar das migalhas de pão o que usava era papel picado, levava em uma das mãos folhas sulfite que ia rasgando em pedaços pequenos e soltando a cada 2 passos.
Perguntamos se eles haviam pegado o acesso pelo Hotel do Frade ou algum caminho que viesse pelo braço de serra ao lado dele, algo que eu imaginava existir devido a informação de que o acesso pelo hotel ser proibido a alguns anos e pela grande quantidade de trilhas abertas por caçadores na região. Esta idéia eu havia comentado com o Carlinhos que me confirmou a existência do caminho paralelo ao hotel. Os rapazes disseram que haviam vindo por este outro caminho, então nos despedimos desejando uma ótima subida à eles e prosseguimos em nossa descida. A partir daqui foi só seguir o rastro de papeizinhos serra abaixo.
Ao chegarmos na cota 800, 2513 metros percorridos passamos do lado direito de uma grande pedra onde é possível se fazer bivaque junto a sua base e após 100 metros abaixo passamos por outra grande pedra.
Na cota 734, 2813 metros percorridos passamos por um leito de riacho, na cota 681 e 3 km percorridos passamos por mais um riacho e depois pegamos o caminho da esquerda.
Na cota 426, 4 km percorridos passamos por outro riacho. Cota 377 com 4360 metros percorridos seguimos reto na bifurcação.
Chegando na cota 348, 4631 metros percorridos seguimos o caminho da direita na bifurcação, na cota 319, 4780 metros percorridos ouvimos o barulho forte de uma cachoeira do lado direito que nos acompanha por um longo trecho mas não chegamos a vê-la, nem passamos pelo seu rio.
Na cota 234, 5322 metros percorridos pegamos à direita na bifurcação descendo e após 190 metros na cota 219 seguimos reto ao passarmos em mais uma bifurcação.
Na cota 203, 5756 metros percorridos passamos por uma pequena cascata, o lugar mais bonito da descida, tendo a beleza poluída apenas por uma série de mangueiras e tubulações que captam água na parte de cima; como observamos do alto do Pico do Frade que a parte plana do vale que estávamos descendo é ocupada exclusivamente pelas dependências do hotel eram evidências que estávamos chegando nele.
A trilha segue ganhando alguns metros de elevação e ao alcançamos a cota 208 após 6 km percorridos saímos em uma curva de uma estradinha, mas ainda no meio da mata, aqui também acabaram os “marcadores de trilha” do Joãozinho.
Pro lado direito a estrada segue descendo tomada quase que completamente por uma planta de folhas grandes, verdes e mancha arroxeada na parte central chegando na altura dos joelhos, entre elas segue uma trilha. Este lado da estrada termina nas dependências do hotel.
Seguimos pro lado esquerdo em que a estrada segue subindo para ultrapassar uma pequena elevação (aquele braço de serra), a subida é um lance de uns 100 metros apenas e pouco íngreme, no meio da subida vemos que estamos caminhando ao lado de linhas de transmissão de energia e ao chegarmos ao alto a descida do outro lado também se apresenta suave, após mais uns 100 metros a estrada tem uma bifurcação à direita na qual entramos e depois de uns 40 metros uma à esquerda fazendo 180 graus onde seguimos e passamos ao lado de 3 torres das linhas de transmissão de energia que vêm da usina nuclear.
A estrada faz uma curva para a direita e aponta de vez pra baixo, a partir daqui seguimos uma longa descida ignorando 2 ou 3 bifurcações, a estrada volta fazer algumas curvas, mas seguindo pra baixo até alcançarmos as primeiras casas de um bairro. Adentramos por uma viela e logo pudemos avistar ainda distante um campo de futebol onde acontecia uma festa.
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Chegando no Bairro do Frade
Descemos por entre as casas até chegarmos em uma rua que nos levou até o campo de futebol onde viramos à direita e seguimos por esta rua 800 metros para alcançarmos a Rodovia Rio - Santos (BR-101) onde chegamos ás 17:30h. após pouco mais de 8 km percorridos.
No encontro com a rodovia existe uma pracinha e um bar/lanchonete onde paramos para brindar o término de mais uma ótima travessia na companhia de bons amigos.
Ali também existem dois pontos de ônibus, do lado de cá passam ônibus que seguem para Parati e atravessando a rodovia os ônibus que seguem para o centro de Angra dos Reis, a média de intervalos entre os ônibus são de 30 minutos.
Para finalizar seguimos para Parati onde eu, a Vivian e o Fábio optamos pernoitar em um hostel e o Danilo resolveu pegar um ônibus para São Paulo ainda aquela noite.
Deixamos nossas mochilas no hostel, fomos jantar em um dos restaurantes do centro histórico e depois fomos nos despedir do Danilo na rodoviária.
No domingo pela manhã após o café fomos passear pelo centro histórico e ficamos curtindo a praia do Pontal de onde podíamos vislumbrar ao longe o Pico do Frade se destacando no alto da serra entre nuvens. Almoçamos em outro restaurante e no meio da tarde pegamos o ônibus para São Paulo.
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Pico do Frade entre nuvens visto da Praia do Pontal – Parati
Análise e considerações finais sobre a travessia
Desde o início a única coisa que nos preocupava nesta travessia era encontrarmos trechos completamente fechados pela vegetação como o Augusto encontrou e apesar de levarmos facões não sentimos necessidade em utilizá-los mesmo nos poucos trechos que encontramos vegetação atrapalhando a passagem. Conforme o Carlinhos nos disse: nos últimos anos a trilha tem sido cada vez mais frequentada não só por caçadores de animais e palmitos como também por trilheiros que tem ido até o Pico do Frade e isso obviamente vem retardando o mato de fechá-la completamente e deixando o solo mais demarcado.
Outro obstáculo pelo qual passamos muito são árvores caídas, de vários tamanhos, algumas passamos por cima, outras por baixo e algumas temos que contorna-las reencontrando a trilha adiante.
Em alguns pontos o GPS parece se perder um pouco na recepção do sinal ou apresenta uma margem de erro que pode chegar a 50 metros, o que para uma trilha desse perfil se torna ineficiente para uma orientação confiável. Segundo o Carlinhos nos alertou isso ocorre em razão de entrarmos em um perímetro de segurança militar por causa da Usina Nuclear de Angra dos Reis alguns quilômetros dali, mas em muitos pontos ele foi fundamental para não pegarmos um caminho errado.
Por ser uma região onde há caça de animais redobre a atenção onde pisam e apóiam as mãos para não se acidentarem em armadilhas.

Suporte
Pousada Brejal
http://www.pousadabrejalbocaina.com.br/
http://cabbananal.com/brejal/

Transporte Kombi
Gordo: (012) 9778-5587
Ele está cobrando atualmente R$ 200,00 da rodoviária de Barra Mansa até a Pousada Brejal.

Carta Topográfica
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SF-23-Z-A-V-3.jpg

Tracklog compartilhado pelo Hugo
http://www.clubedosaventureiros.com/central-downloads/tracklogs-gps/tracklogs-da-serra-da-bocaina/travessia-bananal-x-vila-do-frade-via-pedra-do-frade-de-angra-rj-(ca)/


Imagem Abraços.
Editado pela última vez por Sandro em 27 Jul 2013, 00:44, em um total de 3 vezes.

#864021 por dhiancs
27 Jul 2013, 15:15
Show de bola esta travessia!

Parabéns........

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