Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#946421 por divanei
06 Abr 2014, 21:56
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TRAVESSIA CANYONS DO PEREQUÊ: Rio Grande da Serra x Cubatão Fotos :

Impossível! Pouco provável! Nem pensar meu camarada! Você tá louco, já viu o tamanho daquele abismo? Foram estas as respostas que pessoas, amigos virtuais ou reais e outros desbravadores experientes me deram quando os consultei sobre uma possível descida à pé do topo da CACHOEIRA DA TORRE até sua base. E foi com estas respostas na cabeça que, em uma manha totalmente cinzenta, chegamos à borda deste espetacular planalto, tendo a nossa frente um colossal Canyon , onde o mundo acaba sob nossos pés.

Nenhum de nós havia estado ali antes e a minha primeira impressão foi: Puta que o pariu, olha só no que a gente veio se meter! Estava claro no olhar de cada um, ninguém precisava dizer nada, a empreitada parecia mesmo impossível. Eu mesmo achei que teríamos que colocar o rabinho entre as pernas, traçar um plano “B” e irmos nos divertir em outras paragens. O tempo ruim desaconselhava qualquer tentativa de descida. Seguir enfrente era assinar um atestado de irresponsabilidade e de completa insanidade. Quem em sua sã consciência tomaria tal decisão, ainda mais já calejado pelo tempo e já sabedor que aventura e responsabilidade devem sempre caminhar junto. Pois é, falar é muito fácil, ainda mais quando se está em casa, na segurança do seu lar. Mas quando se está lá, com adrenalina na veia, invadindo todo o seu corpo, a coisa muda de figura. A aventura é um “espírito” que te aliena, te desconcerta, ela te chama, ela te envolve de uma tal maneira que você não tem como escapar. Eu estava com medo, eu não queria ir, mas uma força me impulsionava despenhadeiro a baixo. Atravessei o rio e encontrei uma abertura na mata. Não era uma trilha, mas uma floresta menos densa. Chamei o Eduardo e vi nos olhos dele que a aventura também o havia possuído e quando ele disse: -Vamos ! Naquele momento eu já sabia qual seria o nosso destino. O Dema topou na hora e o Lindolfo? Bom esse já era voto vencido. À beira do vazio onde estávamos reunidos, perguntei se todos tinham ciência da furada que estávamos prestes a entrar e antes que a resposta viesse, fizemos pose para uma foto, todos com as mãos sobrepostas, selando um pacto pela aventura que estava prestes a começar.

A minha vontade de descer o Rio Perequê desde o planalto até o litoral, nasceu logo após termos realizados a emocionante Travessia do Vale da Morte, (travessia-quinto-dos-infernos-t88441.html ) travessia que desce por todo o Rio da Onça e finaliza no Rio Mogi. Mas tinha um grande problema, não encontramos nenhuma informação de que alguém já houvesse realizado tal feito, nem relato, nenhuma menção, nenhum mapa e se alguém tivesse atravessado aquele vale, com certeza seria usando equipamentos de escalada. É muito provável que já tenham feito, mas se isso aconteceu, não divulgaram para ninguém. Muita gente vai à Cachoeira da Torre partindo da portaria que da acesso à calçada do Lorena( antiga estrada velha de Santos), mas a dificuldade de encontrar ônibus noturnos que vá até lá e a extrema burocracia que se tem que enfrentar para passar pela tal portaria , me fez procura uma rota alternativa. Olhando o Google Earth, vi um possível caminho partindo do norte, onde poderia ser alcançado vindo direto de Rio Grande da Serra, em uma caminhada de uns 10 km.

É com um imenso prazer e com meia hora de atraso, que volto a rever meu primo Lindolfo e meu amigo Eduardo. Encontramo-nos na estação do Brás, de onde partiríamos com o trem para Rio Grande da Serra e desta vez eu estava acompanhado com meu amigo Dema, amigo de infância, vizinho e companheiro de outras várias aventuras ao longo dos tempos. Mal acabamos de chegar ao Brás, o trem partiu e antes que colocássemos o papo em dia, já estávamos estacionados em uma padaria em Rio Grande da Serra para uma janta improvisada. Logo depois pegamos o ônibus para Paranapiacaba e antes que ele andasse uns 4 km, saltamos no meio da noite, em um local bastante conhecido pela galera que se aventura em direção ao famoso lago Cristal, uns dos atrativos turísticos das redondezas. O caminho que pegamos é na verdade uma estradinha, que muito provavelmente serve para manutenção dos tubos enterrados ( petróleo, gás ? ) e também para manutenção das dezenas de torres de alta tenção que desfilam por ali em todas as direções. No início do caminho trombamos com um amigo virtual do Eduardo, que nos orientou como poderíamos chegar até o Rio Perequê, mas a única coisa que eu consegui guardar foi : chegando ao rio, suba o barranco e encontrará a trilha. Seguimos enfrente madrugada à dentro, caminhando por aquela agradável estradinha, num sobe e desce, sob a luz clara da lua. Pouco mais de uma hora a caminhada nos levou até a Ponte dos 7 furos e em mais 20 minutos cruzamos com o Rio das Garças. Procurávamos um lugar para acampar e ali me pareceu ser um bom lugar, já que contava com água e uma clareira por perto, mas a galera resolver esticar um pouco mais a pernada. E por mais uma hora caminhamos naquela estrada, passando por algumas chácaras( chácaras Colina ?) e quando a estradinha chega ao que parece ser um ponto de ônibus, uns 50 metros antes de passar por debaixo da linha de transmissão, pegamos uma estradinha que saia na perpendicular à esquerda. Aliás, estradinha fácil de identificar, pois no início dela existe uma placa amarela dizendo que é proibido a passagem de jipes e motos pelo terreno carpido que acompanha outra rede de transmissão de energia. Seguindo enfrente logo damos de cara com uma grande porteira que nos fecha o caminho e que indica que a partir de agora estaremos caminhando em área do Parque estadual da Serra do Mar – Núcleo itutinga Pilôes.

Chegando, portanto, nesta porteira que nos fechava o caminho, onde a placa dizia ser proibido o trafego de motos e jipes e não dizia nada sobre ser proibido pular a porteira, pulamos. Pulamos e continuamos pela estradinha de terra em meio à mata e logo chegamos a uma ponte, onde os meninos, que já não se aguentavam mais de sede, resolveram descer até o riacho para pegar água. Já era 02h30min da manhã e a gente já estava batendo cabeça de tanto sono e quando chegamos aos pés de uma grande torre à beira da estrada, não tivemos dúvida, jogamos nossas mochilas no chão e tratamos logo de providenciar um bivac improvisado, já que não havia como montar nossas redes. A grande torre fazia um barulho desgraçado e dava medo ficar embaixo dela, mas o sono era tão grande que meia hora depois, não havia mais ninguém acordado para contar história.

O dia amanhece embaçado, mas sem chuva. Às 07h00min horas da manhã já estávamos de pé e enquanto a galera tentava preparar um café, fui investigar para onde deveríamos seguir. Junto a torre havia dois caminhos a seguir: Um para a direita, acompanhando uma fileira de torres, o outro em frente, também acompanhando outra fileira de torres. Descartei logo o da direita e segui enfrente, sempre descendo, até que a estradinha se bifurcou. Peguei para a direita, que é o caminho menos batido onde possivelmente os jipes não sobem mais por estar muito destruída e porque o caminho da esquerda talvez vá dar em um mirante, afastando-se muito do Rio Perequê. Subi a estradinha, que logo começou a descer e quando ouvi o barulho do rio, me dei por satisfeito e voltei para a torre para também tomar o meu café. Alimentados, botamos as mochilas nas costas e tomamos o caminho que eu havia investigado e em menos de quarenta minutos chegamos ao rio. Obviamente aquele não era o rio Perequê e sim o Rio do Ouro, onde o amigo do Eduardo havia nos dito para atravessa-lo e subir o barranco de um metro à direita. Fizemos isso e realmente encontramos a tal trilha que nos levaria até o Rio Perequê. A trilha entra na mata e vai margeando o rio do Ouro e em 20 minutos demos de cara com o Rio Perequê. Aqui temos duas opções: Atravessar o rio com a água na altura da cintura ou se ariscar a pular de uma margem a outra, usando as muitas pedras escorregadias. No meu caso eu poderia ter usado qualquer rota porque acabei caindo na água mesmo. Atravessamos o rio e pegamos a trilha para a esquerda, descendo o rio. A trilha logo desce um barranco de uns dois ou três metros, onde nos aproveitando de uma velha corda, logo estávamos novamente no seu leito. Seguimos pela margem, pulando para cá e para lá, desescalamos uma pequena cachoeira e ficamos só admirando os poços profundos, mas sem coragem de dar um mergulho, já que ainda não passava de nove horas da manhã. A caminhada segue tranquila e sem nenhum percalço até que de supetão chegamos à cachoeira da Barragens. Pequena cachoeira formada por uma barragens artificial, de onde logo descemos e seguimos enfrente caminhando ora por uma margem , ora por outra, já que o rio era plano. Não mais que uma hora depois de entrarmos no Rio Perequê, chegamos a um grande poço, onde uma corda o atravessava vinda de cima de uma árvore, formando uma grande tirolesa. É um local agradável por conter uma pequena clareira de acampamento. O Eduardo foi o primeiro a se ariscar na descida da corda, depois vieram o Dema e o Lindolfo. Eu relutei um pouco, pois a água ainda estava um pouco fria, mas logo não teve jeito, fui mais um a cair na água e a adorar a brincadeira. Agora molhados, seguimos sem frescura por dentro da água e logo o rio faz uma curva para a direita, depois para a esquerda e é nesse momento que a GRANDE TORRE aparece á nossa frente e então nos damos conta de que o nosso caminho chega ao fim, pelo menos por enquanto.

Não demos nem bola para os maravilhosos poços que antecedem a grande queda da CACHOEIRA DA TORRE, corremos logo para apreciarmos o grande abismo à nossa frente. Seguramente, uns 200 metros de desnível até a sua base. Além de alguns palavrões já descritos anteriormente, ninguém disse mais nada. Cada um olhava para aquele vazio sem fim e tinha a quase certeza de ser impossível continuar aquela expedição. Tentamos até dar uma investigada em um vestígio de trilha pela esquerda, mas ela não deu em nada, morria à beira de um paredão sem fim. Sem querer tocar muito no assunto, subimos até a grande torre para podermos ver o litoral e a vista lá de cima é realmente deslumbrante. Da torre de alta tensão sai uma pequena estradinha, justamente o caminho usado para quem tenta chegar até a Cachoeira da Torre, vindo lá do “Caminhos do Mar”. Descemos de novo para beirada da grande cachoeira para resolvemos definitivamente qual seria o rumo que tomaríamos.

Tomar uma decisão como essa não é fácil. O tempo ruim e uma previsão pior ainda, nos indicava que o melhor a fazer seria não descer de jeito nenhum aquela pirambeira. Olhávamos para baixo e não tínhamos a menor noção de como poderíamos conseguir chegar ao pé daquela cachoeira gigante. O estudo preliminar nos dizia, que pelo lado direito as chances eram zero e pelo lado esquerdo era suicídio, pelo menos seguindo pela borda da queda. Eu já estava convicto que todos já haviam decidido tomar outro caminho, deixar aquele Canyon pra lá, tomar outro rumo e ir gastar nossas energias em outras trilhas alternativas pelas redondezas. Claro, estávamos todos frustrados por termos proposto um roteiro e ter descoberto que demos com os “burros na água”, mesmo assim atravessei o rio para o seu lado esquerdo e fui investigar se não havia alguma trilha subindo floresta à dentro. Não havia, mas havia uma abertura na mata onde, se quiséssemos, poderíamos varar mato a perder de vista, contornando toda a cadeia de montanhas e talvez tentar descer em algum ponto que pudesse nos levar ao leito do rio, abaixo da Cachoeira da torre. Mas diante das circunstâncias já descritas, de modo algum eu proporia tal loucura, não seria eu o responsável por jogar todo o grupo numa aventura que parecia não ter a menor chance de dar certo. Pois é, sempre há alguém mais sem noção que a gente ( rsrsrsrsrsr) e é aí que surge à minha frente o Eduardo, com uma cara de pidão, quase que implorando para que a gente se metesse naquela enrascada. O ímpeto do Eduardo foi o empurrão que faltava para a gente despencar no buraco. Não precisou que ele me chamasse outra vez. Corri logo e fui confabular com o Dema e ver se ele estaria de acordo e o “desgraçado” topou também, rsrsrsr. Faltava convencer o Lindolfo, mas como disse o Dema: “ele é voto vencido” ! Então ele apenas foi notificado que acabara de ser convocado para ser mais um a “se larcar todo” por um caminho que nenhum de nós sabia onde iria dar.

Sem nenhuma certeza que aquela loucura poderia dar certo, mas convicto que aventura não ia faltar, passamos para o outro lado do rio e entramos na mata uns 10 metros antes que o rio despencasse cachoeira abaixo. O Eduardo foi á frente, pois era dele o facão que nos abriria o caminho, tirando da nossa frente os cipós impertinentes. No começo a subida até que é tranquila e logo chega-se ao cume do pequeno morro e então surpreendentemente se avista o próprio Rio Perequê, bem onde o rio faz a grande curva. Vê-se logo que estamos bem no topo do morrote e a ideia é virar para a direita e varar mato e pirambeira até que possamos resolver tentar ir descendo de novo em direção ao rio. Virando, portanto, para a direita, fomos rasgando a mata sem dó nem piedade, enfrentando todas os espinhos, ortigas, mato cortante, pedra solta, bambus grudentos e toda sorte de outros empecilhos que aquela floresta fechada pudesse nos jogar à cara. Passamos por uma canaleta seca e seguimos enfrente até que outra canaleta, agora muito maior que a anterior aparecesse. Ali tomamos a decisão de descer pela canaleta, ao invés de voltar a subir novamente por outra montanha. Fomos descendo de vagar pela canaleta seca, até que começaram a surgir pequenos riachinhos que desaguavam onde estávamos e a cada pedaço percorrido , mais água surgia pelo caminho e não demorou muito, já estávamos caminhando por dentro de um riacho. Vez ou outra tínhamos que abandonar o riacho e seguir por sua margem, nos livrando das inúmeras cachoeirinhas que iam surgindo pela frente. Logo o tamanho das cachoeiras foi ficando cada vez maior e já temíamos que poderíamos chegar à beira de uma grande laje e isso poderia inviabilizar nossa descida até o Rio Perequê. Quando as cachoeiras se tornavam muito perigosas, usávamos a corda para nos dar apoia à descida. O ritmo de caminhada era muito lento, mas depois o riacho começou a nivelar e então todo o nosso sofrimento acabou e aquilo que a princípio pareceu ser impossível materializou-se à nossa frente : A descida da Cachoeira da Torre até a sua base acabará de ser consolidada, havíamos chegado ao Rio Perequê.

Já passava das 14h30min e logo quando chegamos ao rio, abandonamos nossas mochilas e saímos correndo para ver como seria a grande queda da Cachoeira da Torre. Menos de 15 minutos, foi esse o tempo que gastamos para subindo o rio para nos maravilharmos com a majestosa queda de água. Pois é, quantos já tiveram o privilegio de ver a “Cachu da Torre” daquele ângulo? É uma queda livre impressionante e em sua base um poção deslumbrante. O Dema não se fez de rogado, já chegou e pulou com roupa e tudo e foi nadando até embaixo da queda. Eu e o Eduardo ficamos fora da água, mas boquiaberto com o espetáculo que se descortinava à nossa frente. “Chegar aos pés da Cachoeira da Torre já valeria qualquer passeio e se há alguma trilha que venha de outro lugar até aqui, muito provavelmente é desconhecida e raramente frequentada, já que não há qualquer sinal de passagem humana por aqui e para falar a verdade, procuramos por vestígio de alguma trilha e não encontramos nada.” Abandonamos a cachoeira e voltamos para onde havíamos deixado nossas mochilas, bem no encontro do riacho com o Rio Perequê e ali , para marcar nossa passagem, empilhei umas pedras e fiz um totem, onde nos sentamos e fomos apreciar um pedaço de rapadura, cedido gentilmente pelo Lindolfo, já que havíamos, com toda aquela correria, nos esquecido de comer.

A caminhada vai seguindo pelo leito do rio, agora meio plano, onde grandes pedras são puladas ou decidas e onde não faltaram poços para dar um belo mergulho, mas logo outra queda de água nos fecha a passagem, nos obrigando a entrar na mata para podermos descer ao rio mais abaixo. E ao chegar à outra cachoeira, essa muito maior que a anterior, atravessamos o rio e nos valendo de uma língua de pedra do lado esquerdo, jogamos uma corda, que foi amarrada em um grampo e descemos por ela com muita dificuldade, já que o espaço era muito pequeno entre a rocha e o abismo da cachoeira. Depois da cachoeira, escorregamos por uma rampa de pedra e alguns minutos de caminhada pelo rio nos levou ao que seria um dos maiores poços de toda a caminhada. Hora de parar, sentar-se e comer mais uma rapadura.

Andar por dentro de um rio corrente não é tão fácil como parece, é preciso escalar muito, tomar a decisão certa, ver onde se coloca o pé e ir o tempo todo tomando cuidado para não escorregar e acabar sendo levado pela correnteza rio abaixo. Tem horas que um pulo mal dado, mal calculado, acaba te jogando com mochila e tudo na água e é nessa hora que os amigos têm que ficar atento para sempre poder esticar a mão e salvar o desafortunado e estabanado caminhante, antes que ele se afogue sem ter tempo de soltar a mochila e nadar até a outra margem ou agarrar em uma pedra qualquer até que o socorro chegue.

Depois de muitos pulos, muitas quedas na água, outros tantos escorregões, mais uma vez somos surpreendidos por uma garganta a nos fechar a passagem. É uma garganta tão ou mais impressionante que aquela do Vale da Morte. Na verdade é uma sucessão de várias gargantas, aonde nos vimos totalmente sem saída, sem um lugar para passar, a não ser nos enfiar garganta à dentro e ver no que iria dar. Descemos pela direita passando pela mata, beirando um abismo perigo e logo tivemos novamente de jogar nossa curta corda para poder baixar até o rio. Agora a única solução seria atravessar o rio e passar de novo para o lado esquerdo. Mas aí tinha um problema, a correnteza era forte e três metros à frente o rio se precipitava em outra garganta, um erro ali poderia ser fatal. Poderia, porque o erro realmente aconteceu: O Eduardo estava à beira da correnteza com sua mochila às costas, tentando tomar impulso para pular para o outro lado do rio. Eu já estava me cagando todo de medo só de olhar aquela cena e duvidava que desse para passa por ali, é que em se tratando de correnteza eu sempre fico com um pé atrás, já que pesando o que eu peso, até a correnteza de mijo de vaca é capaz de me levar embora( rsrsrsrsr). E o Eduardo ficava naquela, salto ou não salto, eis a questão. E a questão foi que o nosso amigo escorregou e caiu na correnteza. Fiquei paralisado na hora, sem nenhuma reação. Não consegui dizer uma palavra, minhas pernas bambearam e na minha cabeça passou rapidamente uma cena em que o Eduardo era arrastado para o precipício e jogado garganta abaixo. O Eduardo caiu na água e instantes depois já veio à tona, desesperado, segurou em uma pedra do outro lado e pulou para fora do rio. Ufa, essa foi por pouco. Fiquei assustado com o acontecido e vi que era hora de abandonar aquelas gargantas imediatamente, mas para isso ainda seria preciso atravessar o rio. Os meus amigos foram passando um a um, agora com a ajuda do Eduardo, que já estava do outro lado. Eu não quis nem saber, amarrei a corda ao meu redor e só pulei na correnteza quando tive certeza que os meninos não a soltaria de jeito nenhum. O Dema até tentou encontrar um caminho mais à baixo para continuarmos pela garganta, mas a forte correnteza, e o psicológico abalado, principalmente o meu, me fez lembrar de uma frase de um filósofo contemporâneo : Nem a pau Juvenal ! Com aquele tempo prometendo desabar sobre nossas cabeças, o melhor a fazer seria se embrenhar no mato e tentar cortar volta daquelas gargantas. Mas por onde, já que estávamos emparedados por um morro gigantesco? A única opção que havia era nos pendurarmos nas raízes e pequenos arbustos e escalar aquela parede do nosso lado esquerdo. E foi isso que fizemos. De raiz em raiz, de cipó em cipó, travando as mãos no próprio terreno e de vez enquanto se esquivando das pedras que rolavam em nossa direção, vindas dos companheiros à frente. Fomos ganhando altura e quando vimos que já havíamos subido o suficiente pegamos para a direita e fomos mais uma vez estraçalhando mato e avanço metro a metro até novamente encontrarmos uma canaleta seca e segui-la até que ela também começasse a se transformar em mais um riacho e foi por ele que fomos descendo e descendo até pararmos à beira de uma cachoeirinha para mais uma rodada de rapadura.

A noite já estava quase chegando, mas a chuva já havia chegado de vez. A temperatura caiu consideravelmente e como já estávamos todos molhados, não víamos a hora de montar acampamento. Mesmo assim continuamos descendo e desescalando cachoeiras cada vez maiores, até que uma grande rampa de pedra nos fechou o caminho mais uma vez. O Eduardo largou a mochila e foi investigar mais à frente para ver se o rio estava próximo. Ele avistou uma grande cachoeira, que logo pensamos ser a famosa cachoeira do Perequê ( Véu de Noivas). O Eduardo queria porque queria chegar até a cachoeira antes de acamparmos. O Dema e o Lindolfo, tremendo de frio, já ensaiavam a abertura de uma pequena clareira para montar as redes. E eu? Eu queria era a minha mãe. Cansado, todo molhado, mal alimentado e sem nenhuma coragem de montar minha rede naquele lugar horroroso que o Dema e o Lindolfo haviam escolhido para acampar, topei logo quando o Eduardo insistiu mais uma vez para a gente seguir enfrente. Os meninos, mesmo que fazendo beicinho, foram convencidos por nós dois a seguir enfrente. Viramos à direita e começamos a subir por dentro da mata, para podermos chegar ao alto daquela cachoeira, já que havíamos saído bem no meio da queda e a intenção era acampar no seu alto. A noite caiu rapidamente e quando chegamos a uma parede que teríamos que descer com corda, o Dema e o Lindolfo se rebelaram, fizeram um motim. “Vai se foder a gente vai acampar por aqui mesmo”! Gritaram os dois , já putos da vida. Mas logo o Eduardo, que havia descido com a corda, começou a gritar que havia chegado ao rio e que era para a gente descer. Estávamos à beira de um barranco de uns 10 metros de altura e com mais uns 40 metros de outro barranco para chegar até o rio. Eu não estava enxergando mais nada e não conseguia localizar onde o Eduardo havia amarrado a corda para começarmos a descida. Somente quando um facho de lanterna apareceu, foi que vi a dita cuja enrolada em uma raiz. Peguei minha mochila, me pendurei na corda e fui deslizando barranco abaixo, torcendo para aquela angustia acabar logo. Atrás de mim veio o Dema e logo depois o Lindolfo. Chegamos ao rio Perequê, onde uma estrondosa cachoeira despencava uns 70 metros no vazio. O rio já estava cheio e infelizmente não havia nenhuma clareira onde pudéssemos passar a noite. O único lugar confortável era uma toca seca junto ao rio, aonde logo nos veio à mente, sentarmos dentro dela e varar a noite ali mesmo, sem tomar mais chuva na cabeça. Ideia que não vingou, ainda bem, se não teria sido o nosso fim. O Eduardo foi até onde a cachoeira despenca e logo localizou um espaço medíocre, onde daria para amarrarmos a rede, medíocre sim, mas era o único a salvo de uma possível subida repentina do rio.

Cortamos alguns arbustos e alguns cipós e abrimos espaço para podermos armar nossas redes. A chuva não cessava e qualquer trabalho por mais insignificante que fosse, tornava o ofício muito penoso. No final montamos nossas redes e as cobrimos com os plásticos de proteção e antes mesmo que pensássemos em preparar nossa janta, o Lindolfo e o Dema já haviam se jogado para dentro do abrigo. Mas foi mesmo um serviço feito nas cochas e não demorou muito, a água começou a escorrer pelas árvores e pela corda que segurava a tenda de proteção, redes e sacos de dormir ficaram totalmente encharcados. Pronto, estava montado o cenário perfeito para passarmos uma noite de cão. Com toda aquela molhadeira, eu e o Eduardo ainda tivemos forças para preparar uma janta improvisada, que não passou de um creme de purê de batatas acrescido com sardinha e um pouco de macarrão instantâneo. O Lindolfo estava tão cansado que não tinha força nem para comer e o Dema recebeu seu quinhão na rede, comeu e voltou a dormir na sua cama aquática. Mal tive forças para subir na minha rede e quando consegui fazer isso, vi logo que a noite não seria das melhores. O vento batia no plástico e o levantava, jogando encima de mim uma atmosfera de água. A noite vai passando e o sofrimento vai aumentando. Cada minuto que passa me deixa mais com frio e pregar o olho era impossível. Olho para o rio e vejo que a água está cada vez mais alta e suponho que atravessá-lo pela manhã será impossível. Mexo para cá e para lá e o que era um grande desconforto já se torna insuportável e vejo logo que se eu não fizer algo vou acabar sucumbindo de hipotermia. Tomo coragem, levanto-me imediatamente. Caio no chão em meio aquela lama e mato encharcado. Acendo minha lanterna de cabeça e procuro imediatamente um saco de lixo de 200 litros que o Dema havia trazido. Tiro a minha roupa molhada e coloco uma seca, entro no saco de lixo, visto o saco de dormir totalmente molhado e como não havia lugar para deitar no chão, sento em um isolante térmico e encosto-me a uma árvore e essa foi então mais uma noite para eu acrescentar na minha lista de noites miseráveis que passei na vida.

O sol demorou três dias para nascer e quando nasceu, veio acompanhado de mais chuva. Os quatro miseráveis se levantaram e lamentaram a má sorte que o dia parecia lhes oferecer. O rio Perequê estava bufando de cheio. Na outra margem não havia nenhum sinal de trilha e a altura da parede, denunciava que aquela cachoeira não era a famosa Cachoeira do Perequê, mas não era mesmo. Um rio Amazonas despencava cachoeira abaixo, era um espetáculo de dar medo. Medo foi o que senti quando tivemos que tomar a decisão de subir toda a montanha que havíamos descido a noite. Tomamos um café reforçado, colocamos nossas roupas molhados, recolhemos tudo e partimos. Mas invés de voltarmos a subir, olha só, fomos apenas bordejando o vale em nível até que depois de cruzarmos muito mato, conseguimos chegar novamente ao riacho que havíamos abandonado no começo da noite anterior. Passamos por cima do riacho e subimos a montanha verdejante a nossa frente, mais uma vez nos aproveitando de pequenos arbustos e outras infinidades de galhos e pedras. Subimos, subimos até chegarmos ao topo e depois decidimos ir descendo na diagonal, escorregando por onde desce até que mais uma vez, demos em outro riacho e como das outras vezes havia dado certo, descemos por este, desescalando mais e mais cachoeiras, nos dependurando em corda quando era preciso e quando a fome apertava, sempre havia um pedaço de rapadura para nos salvar.

Num ritmo vagaroso, mas constante, parando de vez enquanto para esperar o Lindolfo, que já se arrastava, fomos seguindo enfrente, nos enfiando naquele estreito vale, até que às 13h30min conseguimos avistar o Rio Perequê. Saímos bem abaixo das cachoeiras e agora o grande rio, corria manso, ainda cheio, mas manso. Como não havia ainda como atravessá-lo para tentar localizar alguma trilha do outro lado, continuamos descendo por ele, usando sua margem esquerda como caminho e não demorou muito avistamos umas grandes pedras pintadas, denunciando ser ali, o melhor local para cruza-lo. Cruzamo-lo com certa dificuldade, principalmente eu. Do outro lado localizamos a grande e larga trilha do Parque Municipal do Perequê. Comemoramos muito naquela hora, pois sabíamos que dali para frente era só passeio no parque. Deixamos o Lindolfo descansando e cuidando das mochilas e pegamos a trilha subindo o rio para tentarmos chegar até a cachoeira do Perequê. Logo acima chegamos a grandes poços profundos, que em tempos sem chuva, fazem a alegria da turistada. Vendo que a trilha ainda subiria muito até chegar à cachoeira, resolvemos voltar e deixar para visitá-la em outra ocasião. Voltando as mochilas, seguimos enfrente pela trilha larga do parque até que ela cruzasse novamente o rio, nos devolvendo para sua margem esquerda.
Aí foi só seguir por mais alguns minutos e adentrar a área do parque, onde apenas uma família queimava alguns pedaços de animais mortos, ao som de alguma música de gosto duvidoso. Mais à frente, uns 200 metros antes da portaria do parque, paramos à beira do rio e aproveitamos para tomar um bom banho, tirar a lama das mochilas e colocar roupas secas e limpas. Limpos e cheirosos, cruzamos pela portaria em silêncio, para evitarmos qualquer interrogatório por parte dos administradores, Imaginem a cara deles quando disséssemos que havíamos descido por dentro do rio. Do lado de fora do parque, junto à placa de identificação, nos reunimos mais uma vez para uma última foto dessa travessia e se eu pudesse legendar essa foto a legenda seria essa: QUATRO AMIGOS SOBREVIVEM À TRAVESSIA DOS CANYONS DO PEREQUÊ, MAS ESTÃO LOUCOS PARA COMER QUALQUER COISA QUE NÃO SEJA RAPADURA. rsrsrsrsr

Divanei Goes de Paula -
Anexos
DSC01863.JPG
Vale do Perequê - 2014.jpg
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#957983 por gvogetta
10 Mai 2014, 21:41
Olá Divanei!


Belo relato, pernada de responsabilidade. Dei uma olhada nos mapas da áres e, pelas fotos e relatos da região é realmente uma área que merece respeito, tanto pela beleza quanto pela imponência do relevo e pelos riscos envolvidos. É prá quem gosta e sabe o que está fazendo (ou não, rsrs! hehe! ...).

De qualquer maneira, uma pernada das boas. Parabéns!

Abração!
#958212 por divanei
11 Mai 2014, 20:22
Fala Getúlio !
Realmente o desnível é descomunal, não encontramos ninguém que tem descido sem equipamentos de rapel por lá, mas isso não quer dizer que nunca tenham descido, apenas podem ter ido por outros caminhos. É uma travessia que tenho certeza, em pouco tempo vai se tornar viável, já que tem muita gente me perguntando sobre ela e sinalizando com a vontade de ir. É perigosa e se não for feita por gente com um mínimo de responsabilidade pode ser extremamente perigosa. Mas é linda, desafiadora, e no quintal de casa dos paulistanos e arredores e sem nenhuma muvuca. Deixemos que o tempo diga o rumo que essa caminhada tomará. O vale da morte é tão difícil quanto, e felizmente ainda é trilha para meia dúzia pela sua dificuldade, QUE MARAVILHA !!!!!! A serra do Mar paulista está cheia destas joias, como a serra do Mar paranaense, é questão de se aventurar e explorar com responsabilidade. Abraços.
#958213 por divanei
11 Mai 2014, 20:23
Fala Getúlio !
Realmente o desnível é descomunal, não encontramos ninguém que tem descido sem equipamentos de rapel por lá, mas isso não quer dizer que nunca tenham descido, apenas podem ter ido por outros caminhos. É uma travessia que tenho certeza, em pouco tempo vai se tornar viável, já que tem muita gente me perguntando sobre ela e sinalizando com a vontade de ir. É perigosa e se não for feita por gente com um mínimo de responsabilidade pode ser extremamente perigosa. Mas é linda, desafiadora, e no quintal de casa dos paulistanos e arredores e sem nenhuma muvuca. Deixemos que o tempo diga o rumo que essa caminhada tomará. O vale da morte é tão difícil quanto, e felizmente ainda é trilha para meia dúzia pela sua dificuldade, QUE MARAVILHA !!!!!! A serra do Mar paulista está cheia destas joias, como a serra do Mar paranaense, é questão de se aventurar e explorar com responsabilidade. Abraços.

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