Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#715683 por nelsonpef
11 Mai 2012, 20:13
Pessoal, com relação ao contorno de Ilhabela eu gostaria de acrescentar o meu relato. Terei que puxar do fundo da memória já que estas experiências ocorreram por por volta de 85-86. Eu não cheguei a realizar a volta completa, mas trechos da mesma e em ocasiões diferentes. Minhas primeiras experiências na Ilha foram a travessia até Castelhanos e a exploração da baia. Para o lado sul, conhecemos as praias Mansa e Vermelha, que podem ser alcançadas sem grande dificuldades pois são trilhas bastante utilizadas pelos caiçaras, se não me engano há até uma escola no trajeto.

Ao norte conhecemos a Praia do Gato e a cachoeira do Gato, noutra oportunidade escalamos a cachoeira por uma trilha lateral e curtimos um belo poço que existe lá em cima. Sempre é preciso ressaltar que todo cuidado é pouco, pois a cachoeira tem uma queda de uns 30~40m ou mais.

Bom, agora relatarei uma de minhas maiores travessias na Ilha. Esta durou cerca de três dias, fomos em três pessoas eu(Nelson), meu colega de faculdade o Roberto e um amigo que conhecemos na própria Ilha numa oportunidade anterior, o Aloysio. Fomos de ônibus eu e o Roberto de São Paulo até São Sebastião, não me lembro ao certo o horário, mas programamos uma travessia noturna até Castelhanos. Na manhã seguinte nos encontramos com o Aloysio em Castelhanos que nos aguardava na casa da dona Catarina, uma caiçara que nos dava apoio. Descansamos por algumas horas em nossas redes que armamos numa casinha de taipa que estava vaga no terreno da dona Catarina. Nosso equipamento era leve, dispensamos barraca. Fomos equipados com redes, saco de dormir + cobertura para eventual chuva. No mais, uma boa quantidade de comida desidratada o que incluia alguns luxos como gelatina e pudins que dispensam refrigeração e ovos desidratados.

Depois do descanso, partimos para a nossa segunda etapa. Partimos na direção sul pela trilha que leva à praia Vermelha, atravessamos toda a extensão da praia. O Aloysio já havia feito uma exploração "solo" da região e nos levou ao início da trilha para a praia da Figueira. Esta trilha começa passando por baixo do paredão de pedra que tem na praia Vermelha, na ocasião, perdemos um dos poucos instrumentos de navegação que tínhamos que era um pedômetro(se alguem passar lá e achar..., kkkk). A trilha segue pelo sopé do morro com vegetação baixa mas subindo até entrar na mata, inclusive a entrada na mata se deu depois de escalarmos a muito custo uma rampa de barro bem inclinada e escorregadia, onde tivemos que usar fação ou qualquer outra coisa que pudessemos enfiar no solo para obter apoio. Olhando hoje pelo Google Earth(pena que na época o melhor que tínhamos era um mapa topográfico 1:10000, enorme, por isto levávamos apenas algumas das folhas mais ou menos 1x1m cada uma num plastico impermeável) vê-se que a trilha passa pelo vale entre o morro do paredão e o próximo morro à esquerda. Não me lembro de muitos detalhes da trilha, exceto que não tinha visão alguma exceto o mato, porém era possível caminhar sem ter que cortar o mato constantemente.

Não demorou muito, menos de uma hora, tivemos a primeira visão da praia da Figueira e das Ilhas Calhetas. Lembro que neste ponto, olhando para trás e esquerda, via-se um enorme paredão rochoso vertical, a partir dali a trilha desce por um sapezal até a praia. Não me lembro bem da praia da Figueira, não é muito longa e na época não havia muitas casas caiçaras. Estávamos mais preocupados em encontrar a próxima parte da trilha. Lembro vagamente que em rápida conversa com os caiçaras os mesmos estavam incrédulos do fato de termos vindo de Castelhanos pois a trilha há muito não era usada. Aproveitamos para dar uma descansada, encher os cantis e partirmos novamente. Andamos por cerca de meia hora em vegetação baixa beirando um riacho, paramos e preparamos uma refeição. Me lembro bem que fizemos um delicioso omelete com os ovos desidratados, acho que foi o melhor de minha vida, para acompanhar o tradicional Tang limão(a bebida oficial das nossas caminhadas) emfim, um banquete, rsrs.

Algumas fotos da travessia estão no seguinte link:
http://www.flickr.com/photos/9058836@N0 ... 506918757/

Continuamos a "trilha" pela mata fechada, para se ter uma idéia, apesar de ser um dia ensolarado mal se via o céu por entre as copas, não obstante, ao nível do solo o terreno era relativamente limpo. Não havia muita coisa em termos de pontos de referência, pela bússulo, estávamos caminhando basicamente na direção oeste e aos poucos virando para o sul. Como uma orientação geral estávamos contornando os picos(saímos da praia da figueira em direção oeste seguindo o riacho, ganhamos altitude e contornamos próximo ao topo seguindo então ao sul e descemos por uma crista). Um obstáculo interessante com o qual nos deparamos próximo ao topo foi uma passagem estreita por uma fenda num enorme bloco de pedra. Para passar tivemos que ir empurrando as mochilas à frente, nos arrastando por uns 4m, eu apenas torcia para não topar com uma cobra ou algum dos grandes aracnídeos que existiam em grande quantidade pelo caminho.

Logo depois desta fenda teve início a descida ao longo de uma crista. Saímos da mata e estávamos novamente num sapezal. Quando voltamos a ver o céu não gostamos nada do que vimos. Estava escuro, e não devido ao horário e sim a densas nuvens que cobriam todo o céu. Nos apressamos, a medida do possível, na descida. Logo foi possível ver a praia de Indaiatuba. Percorremos a praia e ao final, encontramos a trilha para a praia das Enxovas facilmente. A partir daquele ponto as trilhas seguem seguindo a costa, não há muito o que errar. Nossa idéia era pernoitar na praia das Enxovas à qual chegamos rapidamente, apesar de já estarmos no bagaço àquela altura. A praia das Enxôvas é pequena e bastante pedregosa. Avistamos a praia ainda da trilha e já sonhávamos com o acampamento.

Emfim chegamos e já olhávamos à procura do local para o acampamento quando fomos recepcionados por um "jagunço" portando uma espingarda e que "gentilmente" nos convidou a sairmos dalí!!! Explicamos que tínhamos vindo de Castelhanos e que já estávamos no osso. Ele desconfiado não se comoveu com a nossa situação. Ele estava querendo que voltássemos por onde tínhamos vindo(fala sério!!!) o Aloysio queria bater boca, mas eu só prestava atenção à espingarda. Com muita diplomacia, conseguimos que ele nos escoltasse através da praia até a trilha para o Bonete. A esta altura, o Roberto já estava sendo torturado por uma bolha no pé. A trilha até o Bonete foi percorrida em péssimas condições, exaustos e ainda por cima já tinha anoitecido. Felizmente, aquela tempestade que havia se armado enquanto estávamos na mata não se precipitou. Finalmente, depois de vários percalços chegamos ao Bonete. A trilha chegava à praia e cruzava o rio, que aquela altura era bastante largo embora não muito fundo, o volume de água era muito grande, deve ser o maior rio da Ilha. Escolhemos umas árvores próximas à areia e montamos nosso acampamento. Fiz uma "cirurgia de emergência" no pé do Roberto e montamos as redes. Não me lembro de muito mais coisas, nem sei se comemos. Lembro apenas de sentir o vento que sopra constantemente lá no Bonete deitado em meu "sleeper" sobre a rede.

A manhã seguinte foi "tradicional" acordamos com o sol na cara e os tradicionais borrachudos ávidos pelo seu "breakfast", providenciamos o nosso, demos uma andada pela praia e levantamos acampamento. Retomamos a trilha rumo ao Simão, não lembro bem em quanto tempo a percorremos, mas àquela altura já estávamos andando por inércia, chegamos ao ponto final do ônibus e por sorte foi em cima da hora, pois havia um quase saindo, tomamos a condução que carregou nossos "despojos" de volta à civilização. Lembro que naquele dia, que era um domingo, teve corrida da F1 e o Brasil fez dobradinha com o Piquet vencendo e o Moreno em segundo, bons tempos aqueles da nossa F1!

Este foi o relato da nossa exploração do quadrante sul da Ilha. Fizemos outras explorações ao norte partindo de Castelhanos até a praia da Caveira, em breve vou escrever o relato. Até lá, espero que tenham gostado. Eu pelo menos curtí escrever e registrar estas lembranças. Abraços.


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