Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#1199550 por divanei
02 Jul 2016, 15:59
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águas verdes
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TRAVESSIA EXPEDICIONÁRIA VALE DO ITARIRU
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cachoeira mãe do itariru
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“É numa tarde fria de outono que dois farrapos humano caminha pela estradinha gramada e pontilhada por palmeiras Jussara de grande porte. Olhos esbugalhados pela fome, roupa rasgada, pele dilacerada, pés calejados, mãos cravejadas de espinhos, costela trincada, músculos destruídos. Os dois trapos de gente nem olham mais para trás, não querem mais nem ver o vale selvagem por onde cruzaram nos últimos quatro dias. Mesmo assim, parecem não se conterem de tanta felicidade, sabem eles que acabaram de realizar um grande feito, não para a humanidade, que nem sabe que o tal vale existe, mas para eles mesmos. Lutaram bravamente, escaparam do que poderia ter se transformado numa grande tragédia, saíram vivos porque juntaram suas habilidades, uniram forças contra as adversidades, botaram a faca nos dentes e no final, cumpriram com o objetivo do qual se propuseram a fazer: O Vale do Itariru foi desbravado e vai continuar selvagem como sempre foi, mas agora não poderá mais se gabar da sua intransponibilidade porque três seres humanos já desvendaram seus mistérios e seus segredos.”
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Rio Itariru
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O rio Itariru nasce no planalto paulista de Juquitiba, percorre uns 15 km rasgando a Serra do Mar até atingir a planície litorânea de Itanhaém. É um grande rio, talvez o mais selvagem de todos os rios desse porte do Estado de São Paulo, que descem a serra. Foi esse cenário que nos levou a empreender estudos sobre mapas de satélite, cartas topográficas, site de parques, blogs de orgãos ambientais, consultar velhos exploradores, revirarmos a internet de ponta a ponta e nada foi possível encontrar. A única referência dava conta de um aventureiro que, 15 anos atrás, acessou o meio do vale se valendo de uma trilha antiga, onde ele entrou por um dos seus afluentes até quase se encontrar com as grandes cachoeiras uma semana depois, mas mesmo esse cara jamais liberou essas informações, o que nos levou a termos que nos debruçar sobre o Google Earth na tentativa de localizar um ponto de partida. Um grande poço no meio da selva foi tudo que conseguimos, tínhamos que localizar a sua nascente, de onde tentaríamos partir. Foram destacados quatro do nosso grupo para a primeira incursão partindo do Bairro das Marrecas, área rural de Juquitiba. Esse primeiro grupo realizou um excelente trabalho, localizaram um pequeno córrego e o percorreram por quase duas horas mata à dentro. Quando voltaram e jogamos as coordenadas no mapa, descobrimos que era sim possível que aquele riozinho de um metro de largura, poderia ser um dos afluentes do Rio Itariru e então montamos uma grande expedição com mais de 10 integrantes para tentarmos tirar aquele vale do anonimato. Percorremos o córrego e para nossa surpresa, aquele não era só um afluente do Itariru, mas era a própria nascente principal do rio. A expedição foi bem organizada porque juntou boa parte da nata de exploradores com experiência em Serra do Mar, mas não contávamos que fossemos nos deparar com uma grande cabeça d’água, onde um dos integrantes por pouco não perde a vida. Diante disso não nos restou outra coisa se não enfiar o rabo entre as pernas e abandonar de vez aquela travessia.

Voltamos para casa frustrados, tivemos que engolir um fracasso monstro, dois anos de expectativas, trabalhos, ansiedade, tudo foi por água abaixo. Mas não havia tempo para chorar pitangas, eu estava decidido que aquele vale deveria entrar no mapa antes do inverno e o meu sentimento parecia ser o sentimento de todo o grupo, então marcamos para retornar em dois meses, tempo suficiente para juntarmos os cacos e reorganizarmos o grupo.

Tudo parecia correr bem, alguns integrantes da primeira expedição simplesmente não poderiam ir porque tinham compromissos já assumidos, então fomos obrigados a refazer o grupo, com membros que já há muito tempo frequentavam outras travessias selvagens, gente tão experiente quanto os outros do grupo. Mas aí, como é da raça humana, começam surgir às picuinhas de relacionamento, desgastes antigos que vinham aflorando há muito tempo, coisa que eu não tive competência para resolver, muito porque, eram circunstâncias que fugiam da minha capacidade de conciliação. Conversas desencontradas, panelinhas desnecessárias, acabaram por rachar o grupo, na verdade, pulverizou, transformou em escombros aquilo que parecia ser sólido. Três dias antes da data marcada só havia restado três integrantes, que logo viraram dois porque um alegou medo da chuva, do frio, na neve, do tornado, do ataque alienígena. Aliás, são impressionantes as desculpas esfarrapadas que alguns deram, mas como eu sempre digo: cada qual tem a responsabilidade e a liberdade de tomar suas decisões, mesmo porque não estamos falando de ir passear no parque, estamos falando de coisa séria e grande, onde a vida de cada integrante vai estar sempre em risco e é bom que cada qual se jogue na aventura focado e ciente que ele será o único responsável se algo lhe acontecer. Mesmo assim eu estava disposto a prosseguir até que o último homem tombasse e foi aí que apareceu o Rodrigo Ligado, justamente um dos caras que era o estopim da discórdia. Bom, pra mim que não tinha nada a ver com a tal confusão pouco me importava, mesmo porque ele ofereceu seu jipe para viabilizar novamente a expedição e eu já muito puto com o que vinha acontecendo, já que eu não tinha nada a ver com aquelas picuinhas todas, aceitei a ajuda, me juntei ao Luciano Lourenço e decidimos que havia chegado a hora, naquele feriado de finados o Vale do Itariru sairia do anonimato.

Resolvemos nos encontrar na casa do Luciano no Capão Redondo, um bairro paulistano e de lá partiríamos no jipe do Rodrigo para o bairro das Marrecas, em Juquitiba. Esse esquema só foi possível porque o Rodrigo Ligado persuadiu sua namorada Tati Coral a seguir com a gente até aquele fim de mundo e depois trazer o veículo de volta. Partimos então do Capão só depois da meia noite, pegamos a BR 116, fizemos o retorno na entrada de Juquitiba e quando avistamos o grande portal do Viva Parque, antigo Parque do Gugu, entramos na estrada de terra e lama e a seguimos por uns 13 km até um lago e depois do lago, andamos mais alguns minutos até a próxima saída a esquerda e quando a estradinha destruída fez uma curva de quase noventa graus para a esquerda, passando justamente enfrente ao sítio de onde partimos na primeira tentativa. Estacionamos o 4x4 na beira da estrada, já numa madrugada fria e embaçada, onde resolvemos nos esparramar num lugar qualquer para esperar o dia amanhecer.

Conforme o combinado, a Coral se despediu da gente, assumiu o volante do jipe e foi se perder de volta para São Paulo e a gente botou as mochilas às costas e seguimos pelo menos mais 1 km na estradinha e antes mesmo de chegarmos a um sítio com vário lagos a esquerda, subimos o barranco a direita para tentarmos achar a trilha que tínhamos explorado na primeira tentativa. Acontece que não sei por que cargas d'água eu imaginava que a trilha partia ao lado de um coqueirinho isolado no alto de um pequeno morrote, quando na verdade se tratava de um pinheirinho. Começamos a rodar para tudo quanto é lado e nada de eu achar esse pinheiro, porque pensava ser um coqueiro e os dois nem podiam ajudar porque era a primeira vez que eles estavam ali, já que da primeira expedição, não estavam. Depois de um tempo, segui por um vestígio de uma estradinha abandonada e finalmente ela me levou ao lugar que eu queria e foi aí que descobri a confusão toda. Achado o pinheirinho, faltava agora achar a trilha que saia a direita deste caminho, mas eu também não me lembrava de que a tal trilha saia uns 100 m abaixo da árvore e fiquei rodando um tempão até me dar conta disto. Quando a encontrei respirei aliviado e naquele momento eu tive certeza de que não haveria mais como voltar atrás, a expedição estava mesmo prestes a começar.

Enfiamos-nos na trilha selva adentro num mato cerrado, mas é uma trilha até um pouco nítida porque deve ser usada por alguns palmiteiros e caçadores. Em menos de meia hora ela nos leva para um rio de leito arenoso, águas cristalinas e de não mais de uns três metros de largura e meio metro de profundidade. Surpreendentemente esse é nada mais nada menos que o próprio Rio Itariru e olha que por intercepta-lo mais de uma hora e meia de onde não passa de meio metro de largura, essa trilha que pegamos, nos fez ganhar uma boa quilometragem. Foi mesmo um grande achado que fizemos na primeira expedição. A trilha atravessa o riacho e se afasta um pouco dele, mas não mais que uns 50 metros. Eu me lembrava de que da outra vez essa mesma trilha seguia para outro vale paralelo ao rio, mas como da outra vez achei que essa trilha estava bem fechada, resolvi pegar uma bifurcação e seguir por outro vestígio de trilha que ia sempre margeando o rio, coisa que nem percebemos da outra vez. Claro que poderíamos ainda nos enfiar no meio do rio e seguir pelas suas águas rasas, mas andar fora é sempre mais rápido e com menos esforço.

A trilha nas margens do rio às vezes desaparecia, então tínhamos que nos valer de alguns vara-mato, pouca coisa, só até voltarmos a reencontrá-la novamente, mas uma hora depois ela sumiu de vez e como o rio ficou cheio de pedras, pulamos para dentro dele e fomos seguindo por dentro até que resolvemos fazer uma parada para um café da manhã. Em mais meia hora de caminhada, sem nem percebermos, tropeçamos no GRANDE POÇO DO ITARIRU, o primeiro ponto que se pode avistar pelo satélite. Quando passamos por aqui há dois meses com tempo chuvoso, esse poço era escuro e sombrio e hoje podemos ver um poço raso e com águas claras. A chegada ao Poção marca simbolicamente o começo do rio Itariru, o início do grande vale selvagem e nós gastamos desde o início até ali, não mais que duas horas de caminhada, a metade do que havíamos gastado na primeira tentativa. O rio Estava baixo, mas mesmo assim optamos por continuar por uma trilha lateral até que em uns 15 minutos à frente, ela acaba de vez e a partir de agora o nosso único caminho é mesmo o leito do rio. Vamos descendo tranquilamente e ao chegarmos a uma pequena ilha, eu encontro o local que acampamos da outra vez e mais abaixo nos deparamos com o segundo grande poço, com uma linda cachoeirinha e um lago enorme, mas por ser sedo de mais e faltar sol, ninguém se animou a mergulhar.
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Poção do Itariru
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Nosso trajeto segue pela esquerda da cachoeira e em menos de um minuto desce aos pés dela e mais à frente encontra outro poço, onde o ligado tenta passar pela sua margem rochosa e já despenca de vez na água, e já que está molhado mesmo acaba por atravessa-lo nadando mesmo. Eu não quero nem saber de cair naquela água fria e tento a qualquer custo me manter seco, pelo menos da cintura para cima. Mais uma cachoeirinha é descida e logo em seguida outra e no pé dessa, é a vez do Luciano jogar sua mochila na água e pular atrás dela, junto com o Rodrigo. Eu prefiro cortar mato pela direita e escalar suas paredes rochosas de baixa inclinação e esperar os caras no fim do lago de águas cristalinas. A próxima queda conseguimos descer facilmente pela direita também, mas logo em seguida nos deparamos com umas cachoeiras mais altas e aí foi minha vez de puxar a fila num vara mato por uma paredinha rochosa até nos postarmos os três junto ao lago onde mais essa queda despencava. O incrível é que essa cachoeira na outra expedição que fizemos, se transformou em uma só diante do enorme volume de água que o rio despejava e desta vez eram três quedas distintas.
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começo do vale
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Pulando de pedra em pedra, não demorou muito para a gente chegar numa rampa gigante, onde toda a água do rio foi se desviando pela esquerda, formando um tobogã liso e perigoso. Deitei-me na pedra e fui usando meu corpo todo para conseguir uma boa aderência e cada centímetro parecia fazer diferença e ajudava para que eu não fosse parar no abismo logo a baixo. Cada metro conquistado era comemorado porque via aquele martírio ir chegando ao fim. Engraçado é que eu não lembrava por onde a gente havia descido aquela desgraça da outra vez e só fui perceber o que realmente estava acontecendo quando cheguei ao pé daquela queda e, ao olhar do meu lado esquerdo , ver o afluente em que havíamos ficado travados na primeira expedição. Sem perceber, acabamos descendo pela parte onde um dos integrantes da primeira vez quase foi carregado pela cabeça d’ água. Havíamos vencido o primeiro desafio e para marcar território, resolvemos chamar essa cachoeira de TOBOGÃ DO CÃO, que foi o nome dado pelo Luciano diante da dificuldade e do perigo da descida.
Agora estávamos prestes a deixar o mundo conhecido para adentrarmos em terras nunca dantes navegadas. A partir de agora íamos nos jogar num lugar que, com certeza absoluta, jamais viu pegadas de palmiteiros, caçadores, pescadores e índios, porque é preciso desmistificar de vez isso. Essas pessoas jamais, mas jamais mesmo se aventuram por cânions e gargantas perigosas, tanto que nesses vales, palmeiras Juçara morrem de velhas à beira do rio, antas gordas desfilam despreocupadas, tudo está como sempre esteve e se depender destes homens, continuará assim para sempre. Mas antes de eu começar a contar a história daqui para frente, é preciso abrir um parêntese para descrever os três homens que iriam empreender essa grande aventura e não vou aqui ficar listando os grandes adjetivos de cada um, muito porque já estou convicto de que essas habilidades fazem uma grande diferença quando é um grupo grande, mas um grupo de apenas três exploradores, o que pode levar a um grande fracasso é sem dúvida suas fraquezas e seus defeitos. Começo a esculhambação por mim mesmo. Homem de meia idade, 46 anos, 56 kg de peso. Minha maior dificuldade foi sempre com as grandes torrentes de água, basta uma correnteza mínima para eu ser arrastado pelo rio, por isso mesmo, apesar de nadar muito bem, sempre estou munido com um colete salva-vidas e um capacete. Meu outro grande problema é a resistência a baixas temperaturas, qualquer água muito fria é motivo para me derrubar, aniquilar minha energia e mesmo munido de uma camisa de neopreme, com a água muito gelada, eu nunca me dei bem. Ao contrário de mim, o Luciano Lourenço é um exímio nadador, quando tem água, ele é um dos primeiros a se jogar nas corredeiras e deslizar feito um pato pela correnteza, mas o Luciano escala muito mal e anda muito devagar sobre as pedras, eu diria que antes de pisar de uma rocha para outra, ele primeiro faz uma análise de carbono 14 para depois saltar, isso acaba por atrasar muito o ritmo da caminhada, essa dificuldades nas partes rochosas do rio realmente quebra ele ao meio, já que seus 110 kg de peso, deixa-o lento feito uma sucuri com uma capivara no estômago. Já o Rodrigo Ligado é muito bom em subir paredes à beira do rio, ótimo em se jogar nas corredeiras e tem uma grande resistência na água gelada do rio, mas e tem sempre um, mas, é totalmente sem noção. Pula no rio de cima das pedras como se tivesse num parque de diversões, sem medir nenhuma consequência com isso. Se atira no rio à beira de grandes abismos, sem analisar os possíveis riscos e isso apesar de momentaneamente poder agilizar a travessia, pode por tudo a perder se um acidente acontecer num lugar onde não ha a mínima condição de acionar qualquer socorro. Alem disso, não carrega um equipamento de segurança, não carrega uma faca, uma capa de chuva, uma bússola, um mapa, nada de primeiros socorros, corda, não carrega comida descente, apenas se fiando em pacotes de miojo e mais nada. Sua mochila não pesa mais de 5 kg, enquanto as nossas pesa uns 20 kg molhada, alem de ter uma personalidade totalmente instável, que pode sem dúvida acabar prejudicando toda segurança do grupo.
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cachoeira da Desistência
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Então uma pergunta poderia ficar no ar: Por que ariscar a vida numa travessia expedicionária tão complicada e perigosa como essa, com um grupo tão pequeno e com tantos defeitos, com um tempo totalmente instável, com possibilidade de temperaturas baixíssimas? A resposta é simples e aprendi isso depois de mais de dois anos de várias expedições como esta. Para poder por uma grande aventura desse porte em prática é preciso encontrar os caras que queiram se jogar, que estejam comprometidos com o desejo de fazê-la, é preciso de gente que sinta as pernas tremer com a possibilidade de uma grande aventura inédita, é preciso ver os olhos do cara brilhar quando ouve a palavra travessia selvagem, é preciso ter exploradores que botem realmente a faca nos dentes e tenha apenas em mente o grande desejo de ir fazer historia, fazer sua própria história, aquela que ele ira contar para os netos e bisnetos quando suas pernas não puder mais se levantar, mas mesmo assim ele poderá bater no peito e dizer: aquela terra de ninguém já recebeu meus passos um dia. Naquele fim de mundo perdido nos confins selvagens da Serra do Mar, onde poucos pisaram, tive a honra de ser um dos pioneiros.

Estando, portanto, na entrada do vale e junto ao afluente que havia nos parado da outra vez, começamos a descida para dentro das gargantas. A primeira descida é justamente aos pés de uma bela cachoeira, que hoje se encontra totalmente mansa, se comparada ao que presenciamos da outra vez. O Ligado e o Luciano, que já estavam molhados há muito tempo, não se fizeram de rogados, saltaram na corredeira e despencaram já no grande poço aos pés da CACHOEIRA DA DESISTÊNCIA. Já eu estava mais que resoluto a me manter bem seco, então optei por ir escalando a parede meio lisa do lado esquerdo, na intenção de passar por mais aquele poço sem ter que me enfiar naquela água fria. No começo me senti feliz porque via que todos os meus movimentos de escalador de rio estavam dando certo , mas logo vi que aquilo não poderia ir muito longe quando pisei em um limo e quase me vi despencar de qualquer jeito para dentro da pequena garganta. Diante do susto, resolvi não ariscar mais e me encaminhei para perto do rio, me engatinhando e usando o freio traseiro (minha bunda) para evitar a queda. Joguei minha mochila na água e pulei atrás dela e foi aí que senti a minha alma deixando o corpo. Quando emergi, mal sabia onde estava, apenas nadei para a direção da rocha onde se encontrava os outros dois, me catapultei para fora do rio bem a tempo de recuperar minha alma que já estava de malas prontas para picar a mula daquela água mais gelada que fiofó de foca.

O dia já se aproximava das duas horas das tarde quando abandonamos de vez a cachoeira da desistência, que logo foi precedida por uma grande garganta, onde os caras pularam na água e eu pulei na parede e fui passando bem longe daquela água fria e essa seria o tom dado daqui para frente, eu só pularia na água se fosse inevitável e para o meu azar, não passávamos nem meia hora sem que eu tivesse que me pinchar para dentro de um poço de águas congelantes. Íamos vencendo as gargantas uma a uma, hora nos atirando nas corredeiras, hora varando mato e subindo por paredes, nos segurando em bromélias, cipós, samambaias espinhudas e nos escorregando de volta para o rio, até termos que voltar a cruzar novamente por cima de barrancos perigosos. Mas chegou uma hora que mais nada disso foi mais possível, então foi a vez do Ligado pular de cima de uma grande rocha para dentro do rio e atravessá-lo para o outro lado, correndo o risco de ser arrastado garganta a baixo. Instalou uma corda para que a gente pudesse passar. Não gosto dessas travessias complicadas de rios, onde um só descuido pode custar a vida de alguém ou ao menos se transformar num acidente muito grave e por isso quando isso tem que ser feito, fico muito tenso, sempre pensando mesmo se aquilo é necessário e como sempre é, me atiro na correnteza e nado mais rápido do que qualquer recordista de 50 m olímpicos e só paro quando eu e minha mochila nos encontramos bem seguros na outra margem do rio.

Ao chegarmos a umas cachoeiras de maior altura, descemos escorregando por dentro delas, nos valendo de umas fendas laterais, onde em um lance era preciso descer por uns três metros travando o corpo na rocha. Descemos eu e o Ligado, mas o Luciano teve problemas, então tive a infeliz ideia de mandar que ele pisasse no meu ombro, enquanto eu ia me abaixando para deixa-lo em segurança mais abaixo. Foi uma ação totalmente mal planejada e desastrosa porque o peso do Luciano, a pedra totalmente molhada e lisa e sem nenhum apoio para as mãos, fez com que nós dois fossemos nos fuder no chão, fazendo com que o Luciano se esborrachasse numa rocha, quase quebrando o cotovelo. Daquele momento em diante fiquei bem esperto com essas ações e sempre que isso era possível, eu sempre procurava uma solução com menos risco. Nessa época do ano a noite cai rápida no meio do vale e as cinco da tarde a temperatura também despencou de vez e como já ameaçava chover, meia hora depois resolvemos jogar nossas mochilas ao chão e darmos por encerrado aquele longo dia de caminhada.

Aquele era um local estúpido para acampar. Umas árvores tortas em meio a grandes rochas e um piso totalmente irregular. Montamos nossas redes como deu e fomos cuidar do jantar, mas antes nos livramos das roupas molhadas que nos roubava calor. Como estávamos somente em três, achei que não haveria problemas em cozinhar para todo mundo e como sempre gosto de comer uma comida mais elaborada na janta, me demorei mais nesse ofício, enquanto que o Luciano ficou testando sua arte de mateiro, tentando construir uma rede de cordas, apesar de ter trazido uma e o Rodrigo foi mesmo tirar uma soneca até que o rango ficasse pronto.

Choveu a noite toda, apesar disso, dormimos bem, mas ao amanhecer meu saco de dormir e minha rede estavam encharcados e isso seria um problema que eu carregaria até o fim daquela expedição. Quando o dia amanheceu não havia nem sinal que teríamos sol, mas não chovia. Eu havia traçado um objetivo de acamparmos junto ao grande afluente que havia localizado pelo mapa, porque achei razoável, mesmo sem saber se conseguiríamos alcançar esse tal afluente naquele segundo dia de travessia.

A nossa travessia por esse vale selvagem continuou com as mesmas dificuldades do dia anterior. Hora pulando nas gargantas, hora tendo que subir alguma parede ou varar algum mato. Mas de vez enquanto o rio nivelava por alguns minutos e os grandes lagos de cor verde surgiam para nos maravilhar e é claro ,para me mostrar que o rio continuava com suas águas tão frias como nunca. Mas eu ainda tentava fugir o quanto podia, mesmo me ariscando em escaladas perigosas, enquanto que os meus amigos já se jogavam naquelas águas incríveis e ganhavam território rapidamente. Cada vez que era preciso que eu me jogasse na água, fazia isso o mais rápido possível e saindo da água fria, acelerava o passo para me aquecer rapidamente. Às onze e trinta da manhã nos deparamos com um grande cotovelo no caminho. Cotovelo esse que se enfiava numa grande garganta, onde quase não havia a possibilidade de varar mato algum. Resolvemos então atravessar para o lado esquerdo do rio, na tentativa de escalarmos uma parede rochosa para tentar um vara-mato. A travessia do rio até que foi tranquila, mas ao tentarmos escalar a parede inclinada, vimos que tínhamos dado com os burros n’ água.

O Ligado tentou subir, mas ficou totalmente travado. Resolvi então tentar uma investida na diagonal até alcançar uma arvore tombada sobre a rocha. Fiz um esforço monstro com a mochila nas costas e quando agarrei aquele tronco, me pendurei nele até conseguir uma maneira de me elevar e me por de pé. Segurei numa raiz que estava ali somente para aguentar o meu peso porque assim que eu subi o barranco até a vegetação mais acima, a raiz se quebrou e me senti feliz de não estar mais pendurado nela. O ligado finalmente conseguiu se esgueirar até agarrar uns cipós e também chegou à linha de árvores, mas o coitado do Luciano quase se deu mal. Ao tentar seguir o caminho que eu acabara de fazer ele deu uma titubeada, balançou, desequilibrou na rocha molhada e se não fosse a árvore caída, tinha desabado no vazio para dentro da cachoeira. Pendurado no tronco, feito siri no pau, o Luciano só fazia ficar estático e mal respirava para não cair. Rapidamente (nem tão rápido assim) desenrolamos a corda e jogamos uma das pontas para ele, que a agarrou , passou em volta da cintura e se puxou para onde estávamos.

Agora em segurança, fomos tentando contornar a grande fenda até ver se conseguíamos descer usando uma linha de árvores, mas ao chegarmos a meio caminho, um grande paredão de uns 90 graus de inclinação nos fechou a passagem. Sem ter o que fazer, retornamos novamente para o rio e sem ter alternativa, decidimos que desceríamos pendurados uns 20 metros usando a corda. Qualquer um sabe que descer uma altura dessas apenas contando com a força do braço não é fácil para ninguém, ainda mais com corda molhada e num lugar onde ninguém sabe o que irá encontrar. O Ligado jogou sua mochila em um poço logo a baixo e se jogou na corda, deslizando até que, a corda terminou a uns 2 metros do destino e sem ter como voltar, se jogou no poção e se esborrachou mais abaixo, voltando à tona sem se machucar. O Luciano estava apreensivo e ficou perguntando se eu não sabia uma técnica de rapel sem equipamentos, coisa que eu até sabia, mas na adrenalina do momento quase que nem dei atenção a ele. Agarrei-me na corda e fui travando o corpo em tudo que é fenda e quando fenda não havia, já tava quase usando os dentes para diminuir a altura do barranco, até que sem ter mais o que fazer, pulei naquele diabo daquela água fria e fiquei feliz quando vi que minha perna não encontrou nenhuma pedra no fundo do rio. O Luciano veio logo em seguida e igual a mim, desceu raspando a cara na rocha e agora sabendo que era possível pular no rio, pulou .

Estando de voltas ao rio, que fez um grande cotovelo, seguimos nos enfiando nas gargantas e escalando paredes pelo resto do dia, até que lá pelas três da tarde finalmente o rio nos deu uma trégua e nivelou um pouco, onde grandes lagos e poços tinham que ser cruzados a nado, e sem as paredes para eu escalar e sem querer ficar quebrando mato no peito, eu não tinha outra coisa a fazer se não saltar das pedras e nadar, nadar e nadar. Às quatro da tarde nos chama a atenção um afluente do lado direito do rio. Não era um rio muito grande, mas o suficiente para descobrirmos que se tratava do rio que foi usado pelo Renato Trench na única expedição que se tem notícia. Foi justamente através daquele riacho de montanha que o cara acessou o meio do vale e mesmo sem ele ter feito toda a travessia do Vale do Itariru, vindo do leste por uma trilha conhecida, esse foi também um grande feito, digno do nosso respeito. E para homenagear esse grande explorador do passado, resolvi chamar esse rio de AFLUENTE TRENCH, uma homenagem mais do que merecida. Logo à frente mais dificuldade nos atravessa pelo caminho e como a temperatura havia baixado muito, resolvi tentar me manter o máximo possível fora da água e enquanto o Ligado e o Luciano continuavam a se jogar nos poços gelados, eu me metia a escalar grandes paredes, andando pelas suas laterais e foi numa delas que me encontrei com um acidente que poderia ter me custado muito caro.
Com a mochila às costas fui escalando a rocha praticamente na aderência, me segurando em agarras minúsculas, indo no limite do limite do que meus pés poderiam aguentar. As pernas tremiam o tempo todo e quando eu pensava que ia despencar, bastava encostar o corpo à rocha para que eu ganhasse mais um fôlego para recomeçar novamente o meu martírio. Quando tudo parecia que iria dar certo, eis que a água que escorria das minhas botas molhada se juntou ao limo da pedra nua e crua e foi aí que o chão sobre meus pés deixou de existir. Despenquei no vazio e fui quicando pela parede até cair com as costelas numa pedra, três ou quatro metros abaixo de mim. Bati na rocha e em seguida me precipitei para dentro das águas geladas do rio e fui obrigado a nadar para fora na correnteza até me encontrar em segurança num patamar rochoso. Quase sem poder respirar, me livrei da mochila e fui espiar o que havia acontecido com minhas costelas. Uma dor terrível, mas graças ao colete salva-vidas, não me pareceu ter fraturado nenhuma delas. Não havia tempo para chorar e nem para reclamar da sorte, muito porque os dois amigos de expedição já estavam a quase 100 metros de distancia de mim e era preciso me adiantar para alcançá-los. Mas como nem tudo é tão ruim que não possa piorar (minha citação preferida), me joguei novamente nas águas frias e nadei até a outra margem do rio e quando tentei pular de uma rocha para outra, meu pé direito passou reto numa pedra mais lisa que barriga de bagre e então mais uma vez me vi com a cabeça enfiada no fundo do rio : FILHA DA PUTA DOS INFERNOS, soltei vários palavrões só para disfarçar minha incompetência e quando me levantei, já tinha decidido que era hora de acampar. Daquele jeito, todo lascado, com fome, com frio e urrando de dor, eu não iria mais a lugar nenhum e como os caras também já estavam com a mesma ideia que eu, juntei a fomo com a vontade de comer.

Não havia chovido durante o dia, mas o final de tarde, já quase noite, já começava molhado. O Rodrigo montou sua rede numa árvore à beira do rio e quando o Luciano lançou a ideia de fazermos um abrigo em um pequeno espaço de areia, não pensei duas vezes, já deslumbrando a possibilidade de termos uma noite mais quente e mais confortável, já que meu saco de dormir estava muito úmido, quase beirando ao molhado. Cortamos umas folhas de palmeira e forramos o chão, perfazendo uma cama fofinha. Com três troncos o Luciano fez uma cabana e cobriu com uma lona plástica, meio que parecendo com uma tenda de índio americano. Ficou um lugar muito aconchegante, bem propício a segurar o calor do corpo e nos aquecer durante a noite. Enquanto ele fazia os últimos ajustes fui cuidar do jantar e já que o Ligado havia se recolhido faz tempo, resolvi cozinhar para nós três. Arroz, carne seca, azeitonas verdes, queijo ralado e suco de laranja, foi o cardápio.
Tudo parecia perfeito, mas a chuva veio e veio com gosto. A água começou a escorrer por baixo das folhas de palmeira e meu saco de dormir, que já não estava seco, empapou de vez. Fiquei ali naquele abrigo tosco olhando para escuridão da noite e pensando no isolamento em que nos encontrávamos. Naquele momento, muito provavelmente, não haveria ninguém mais isolado que nós em todo o Estado. Estávamos encravados no centro selvagem de um vale perdido a sei lá quantos dias da saída, sem sinal de telefone ou qualquer outra comunicação. Estávamos em um mundo perdido, um mundo em que nem mesmo nós sabíamos nossa localização exata e se ao mesmo tempo isso era desolador, também não deixava de ser encantador, um sentimento de que estávamos testemunhando o que poucos ou quase ninguém ainda havia testemunhado, uma natureza selvagem como sempre foi e nós éramos parte disso agora.

Quando o dia clareou, tratamos logo de nos levantar e ficamos felizes por ver que a chuva havia cessado, mas isso também pouco importava já que tínhamos que enfrentar a difícil tarefa de colocarmos aquelas roupas molhadas de volta ao corpo. Tai algo que é capaz de derrubar o meu humor nessas travessias: Ninguém merece ter que acordar e enfiar aquela roupa encharcada e nojenta no corpo logo pela manhã. É um sentimento de desgraça que passa pela minha cabeça, uma sensação de que já não tenho mais idade para passar por um sofrimento daqueles, mas quando lembro que eu mesmo escolhi estar ali, me resigno a minha condição, visto minha “armadura de aventura” e já que estou no inferno, dou logo um abraço no capeta, jogo a mochila às costas e junto com meus companheiros de expedição, me jogo naquele rio lindo e damos o start para mais um dia de aventuras.

Atravessamos o Itariru e nos posicionamos do lado direito do rio a fim de vencer mais uma curva, 100 metros à frente. Ao virarmos o cotovelo, a grande surpresa foi nos apresentados sem um aviso prévio: Um grande rio, tão grande quando o Itariru, vindo do lado esquerdo, se juntava a ele e a junção destes dois espetáculos formava um grande lago verde esmeralda que se esparramava por todos os lados. Não havia dúvidas, aquele era o grande afluente que esperávamos acampar às suas margens e para nossa felicidade, conseguimos cumprir com o roteiro estabelecido. Mas eu não esperava encontrar um rio tão fascinante e espetacular como aquele e sem dúvida, estávamos diante de um dos mais belos rios de toda a Serra do Mar Paulista e por falta de alguém que se propusesse a escolher um nome apropriado para esse afluente, vou chama-lo previamente de RIO DAS ESMERALDAS, em alusão ao grande lago que se formou na sua foz, no encontro com o Itariru.
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Afluente das Esmeraldas
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O caminho que se seguiu após o encontro dos rios eu nem poderia descrever com a beleza que ele merece ser descrito. Uma sequência de grandes poços verde-esmeralda, onde tínhamos que atravessar a nado e mesmo com as águas ainda frias, era uma grande satisfação poder estar ali naquele lugar, mas foi uma hora e meia depois de partirmos do local onde encontramos o Grande Afluente das Esmeraldas, em uma outra grande curva do rio que eles apareceram : Lá estavam eles, homem e mulher. Seminus, apenas uma folha de parreira cobriam suas vergonhas. Estavam sentados sobre uma duna de areia de rio, onde as suas costas se descortinava uma floresta exuberante e o rio formava dois grandes poços, quase dois lagos esverdeado, intercalado por uma língua de rocha. Ao ver aquele cenário deslumbrante, estacionamos imediatamente até que o atordoamento daquele espetáculo pudesse se curar. Claro que o casal nu com uma parreira foi uma expressão que eu usei para retratar a beleza paradisíaca daquele lugar. Lugar aliás , que guardarei na minha mente para o resto da vida.
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lago das Dunas
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Depois do trecho dos Lagos da Duna, voltamos a ter mais dificuldades pela frente e pequenas gargantas começaram a surgir novamente e quando o Luciano começava a diminuir o ritmo, lá vinha novamente o Rodrigo para botar pilha para que ele se adiantasse e isso começou a deixar o Luciano cada vez mais irritado e com toda razão porque não me parecia certo toda aquela correria por parte do Rodrigo Ligado, já que estávamos perto de começarmos a nos jogar nas derradeiras gargantas que nos levaria as grandes cachoeiras do Rio Itariru.
Passada essa dificuldade me adiantei para ver o tamanho da encrenca que nos esperava. Fui escalando uma parede lateralmente, enquanto que o Rodrigo se jogou na água para ganhar terreno mais rápido, mas sem perceber que a correnteza era mais forte que ele imaginava, tratou logo de nadar para fora do rio e quando fez isso a corda que ele carregava amarrada à sua mochila se soltou e desabou garganta a baixo. Quando vi a cena já me deu logo um frio na barriga. Se o Ligado não conseguisse resgatar novamente nossa corda estaríamos mesmo ferrados. O Ligado rapidamente desceu por alguma lateral, muito provavelmente se jogando de qualquer jeito e contando com a sorte para não se arrebentar todo. Digo provavelmente porque não presenciei o fato porque estava preocupado em ajudar o Luciano que vinha logo atrás da gente. Quando eu e o Luciano nos posicionamos a beira do abismo, foi que vimos realmente o tamanho da encrenca que tínhamos pela frente: Sem corda realmente seria impossível para a gente descer ali. Tentamos de tudo que foi jeito, mas descer ali com segurança era quase impossível. Claro que eu poderia ter pulado, me jogado em umas pedras três ou quatro metros abaixo para tentarmos adentrar de vez dentro da garganta, mas sabíamos que ali não era lugar para um acidente. Começamos a gritar pelo Rodrigo para saber por onde ele havia descido, mas não recebemos nenhuma resposta. O Rodrigo sumiu de vez, desapareceu e diante da situação não tivemos alternativa senão tentarmos um vara-mato escalando umas paredes laterais. Era uma parede muito íngreme e para chegar até a linha de árvores foi um grande sofrimento para o Luciano e eu sem corda não podia fazer nada. Já no alto, fomos arrebentando a vegetação no peito e gritando e apitando para vermos se fazíamos contato novamente com o Rodrigo Ligado.
Na minha cabeça começou a passar um filme, um filme de horror. O Ligado havia sumido de vez, estávamos somente eu e o Luciano sem um metro de corda para descer as gargantas e cânions e a minha preocupação era ainda maior por saber que a pior parte ainda estava por vir. Foi um sentimento ruim, um sentimento de que as coisas pareciam estar saindo do controle e foi inevitável lembrar-se do fato ocorrido há um ano quando um dos companheiros perdeu a vida justamente porque o grupo se separou devido a um acidente. Sempre chamando pelo companheiro desparecido, fomos descendo na diagonal até conseguirmos novamente voltar ao rio, nos valendo de uma linha de arvores e cipó. Ficamos novamente no meio de uma garganta, tentando avançar e tentando nos juntar novamente ao Rodrigo. Eu apitava sem parar e em um intervalo escutamos os gritos do dito cujo. Infelizmente era impossível saber se ele havia ficado para trás ou estaria na nossa frente. A garganta em curva e barulho das quedas d’ água não nos deixava saber onde ele se encontrava. Não tivemos outra opção senão a de avançar, porque voltar atrás já não era mais possível. Fomos descendo como dava e acabamos por correr riscos desnecessários. Quando chegamos à curva do cânion a menos de uns 100 metros à frente, foi que conseguimos saber que o Ligado estava mais acima, já havia escalado o grande paredão e estava pendurado na linha de árvores.
Todo esse tempo em que ficamos separados levou quase duas horas e eu fiquei meio puto de ter havido essa separação, mas o Luciano já estava para explodir porque o Ligado ainda continuava botando pilha na cabeça dele por causa do atraso e para piorar a coisa, a subida daquela parede com a mochila nas costas, estava quase impossível de vencer e enquanto a gente tentava achar uma solução, o Rodrigo ainda continuava boquejando lá de cima. Nessa hora achei forças sabe-se lá de onde e me puxei para cima, voltei e ajudei o Luciano a vencer o obstáculo. Quando estávamos todos reunidos e nos segurando em um terreno inclinado, achei que não havia mais tempo para esperar: juntei todo mundo e disse que daqui em diante a gente teria que nos unir mais ainda ou essa expedição corria risco de dar merda. Estávamos sem corda e tínhamos o pior dos terrenos pela frente porque as grandes gargantas estavam prestes a começar e se a gente quisesse sair daquele vale vivos e sem nenhum acidente, não haveria outra opção senão a de juntarmos força e conhecimento.

Não sei, o Rodrigo estava meio estranho, querendo se adiantar num roteiro onde correria só tende a gerar acidentes e mesmo eu dizendo para ele que estávamos dentro do planejamento inicial, ele insistia em querer correr, tanto que chegou a supor que a gente abandonasse o rio de vez e começássemos a varar mato pela crista até atingirmos as grandes quedas. Claro que isso para mim estava totalmente fora de cogitação e que a minha intenção era percorrer aquele vale sempre pela margem do rio Itariru, afinal de contas haviam sido quase dois anos de planejamento para isso e eu não estava a fim de jogar isso fora. Mas naquele momento já estávamos bem perto da crista para tentarmos escapar de umas gargantas impassável e fomos seguindo arrastando novamente mato no peito, descendo por paredes usando sempre alguma vegetação que pudesse nos dar alguma sustentação e não demorou muito, nos vimos totalmente distantes do rio. Pois foi a partir daí que o Ligado viu que aquela ideia dele era totalmente inviável porque perdemos muito tempo no mato e não chegamos a lugar nenhum. Rapidamente tomei a dianteira e fui descendo por um pequeno afluente e me dirigi imediatamente na direção do rio e quando estávamos de novo no seu leito, desta vez plano e fora das gargantas, todo mundo se sentiu aliviado de não estar mais no meio daquela floresta densa e quase que intransponível.

O rio voltou a ficar plano novamente e por quase uma hora caminhamos e nadamos sempre nos livrando de pequenas gargantas, onde hora descíamos por dentro, hora subíamos pelas paredes varando mato. Quando nos deparamos com grandes abismos e gargantas colossais, paramos imediatamente para estudarmos o melhor caminho a seguir, mas já cientes de que descer por dentro da água era impossível, mesmo se corda tivéssemos. Mas ali não havia muito que pensar, era se meter no mato pela direita e tentar ir perdendo altura até tentarmos chegar aos pés daquela grande queda. Escalamos a parede e subimos até onde era possível mais ou menos em nível para podermos ir descendo na diagonal. Não era um mato fácil de transpor porque sempre à frente aparecia um abismo e aí era preciso voltar a ganhar altura para nos livrarmos da ribanceira. A todo o momento íamos correndo o risco de escorregarmos ou mesmo fraturar uma perna nas fendas que se escondiam por baixo da vegetação. Tentamos fazer umas curvas no terreno, mas foi aí que a gente se viu sem saída à beira de um paredão. O Rodrigo se precipitou e desceu escorregando sem se dar conta de que estava num beco sem saída. Quando vi que o caminho proposto por ele não daria em lugar nenhum, simplesmente procurei por alternativa e como o Luciano ainda não havia descido onde eu estava, pedi para que ele ficasse ali mesmo parado enquanto tentávamos ver um novo caminho. O Ligado sofreu horrores para conseguir subir de volta porque não tínhamos mais nenhuma corda para poder ajuda-lo. Quando finalmente ele venceu o desnível, conseguimos decidir seguir por uma rampa que poderia nos levar novamente para o rio.
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cachoeira alta do Itariru
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Essa rampa que pegamos não era um caminho fácil, mas era a única solução. O Rodrigo ainda estava tresloucado querendo avançar mais rápido do que a nossa segurança permitia. Fui à frente escorregando como dava e usando todo o meu corpo e minha mochila para não ir parar nas pedras mais abaixo e logo consegui acessar, não o rio, mas a água de uma das cachoeiras. Na verdade não conseguimos chegar aos pés da cachoeira, chegamos bem no meio do monstro aquático despencando no vazio. Peguei minha câmera para bater uma foto e quando o Luciano se juntou a nós para se maravilhar com aquele espetáculo, o Ligado já botou a mochila nas costas e se aproveitando de uma língua de mata, foi à frente e nos deixou a sós com nossa contemplação. Estávamos no meio da grande garganta das cachoeiras do Itariru e eu sabia que a maior queda ainda estava por vir, só não sabia como iríamos descer sem uma corda para nos auxiliar. Tomamos o mesmo caminho que o Rodrigo, mas logo vimos que era um caminho sem futuro, tanto que mais abaixo fomos travados pela altura da parede e tivemos que achar outra solução. Fomos tentando ganhar terreno pela direita e ao invés de descermos, ganhamos altura para podermos contornar um vale gigante. Vi uma linha de árvores onde achei que poderia ser mais seguro para começar a perder altura, mas quando dei uma bobeada, perdi o chão e para não acabar parando no fundo do abismo, tive que abrir as pernas e frear com as bolas, isso mesmo, parei no tronco de uma árvore, na verdade uma samambaia Açu gigante e espinhenta, onde alem de me arrebentar com as partes baixas, destruiu toda as minhas mãos, enchendo de um milhão de espinhos. Mas não era hora e nem lugar para choradeira. Descemos a piramba escorregando até chegarmos a um pequeno afluente, onde seguimos até sair no rio e desta vez bem aos pés da GRANDE CACHOEIRA MÃE DO ITARIRU.
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Cachoeira do Itariru
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Quando bati os olhos naquele acidente geográfico em forma de cachoeira não tive a menos dúvida: Aquela era a grande cachoeira que estávamos buscando. Era o grande símbolo daquela travessia, era o espetáculo que a quase dois anos sonhávamos em ver e sabíamos naquele momento que estávamos diante daquilo que quase ninguém havia visto e que muito provavelmente, daria para contar nos dedos das mãos o numero de seres humanos que já haviam estado ali. Enquanto eu e o Luciano fazíamos o registro da grande cachoeira, o Ligado seguiu enfrente e se afastou uns 100 metros da gente. Eram duas horas da tarde e o Rodrigo havia nos dito algo que me deixou ainda mais preocupado. Ele contou que seguramente aquela cachoeira não era nem de perto a maior cachoeira daquele rio. Contou-nos que uma vez ele havia visitado aquele rio no litoral e que era possível avistar uma queda gigante despencando do topo da serra do mar. Fiquei desorientado porque na minha cabeça e pelos estudos do mapa, tudo levava a crer que aquela sim era a última grande queda d’água do Itariru e que depois dela o rio ia melhorando aos poucos até nivelar de vez. Bom, paciência, teríamos que dar um jeito para vencer mais esse desafio.
Mas, e sempre tem um, mas, aquilo que eu jamais pensava que poderia um dia acontecer, aconteceu. Como eu disse enquanto eu e o Luciano fazíamos o registro das quedas, o Rodrigo se adiantou e foi sentar-se uns 100 metros de onde estávamos. Estávamos subindo um barranco liso para voltarmos para a caminhada quando ouvimos o Ligado dar um grito de onde estava. Como não era possível ouvir o que ele dizia, eu apenas acenei e disse que já estávamos a caminho e só vi quando ele deu um tchauzinho e saiu andando. Imaginei que ele fosse nos esperar em um lugar mais confortável, bem na curva que nos sucedia. Quando eu e o Luciano chegamos até a curva e vimos que ele havia simplesmente sumido, desaparecido, escafedido, foi que a ficha caiu. Olhei para o Luciano sem saber o que dizer, sem saber o que falar, não era possível que aquilo estava acontecendo. O Rodrigo Ligado havia nos abandonado sem ao menos se despedir, sem ver se a gente precisava de algum alimento, alguma coisa que estava com ele. Foi embora sem mesmo ter havido qualquer briga, desentendimento, sem nada que justificasse uma retirada às pressas.
Eu em um primeiro momento fiquei desolado, mal tinha o que dizer para o Luciano. Fiquei momentaneamente perdido, sem rumo. Já éramos um grupo muito pequeno e agora nem um grupo éramos mais. Sem corda e tendo a nossa frente ainda grandes abismos para passar, a gente estava mesmo ferrados. E não era só isso, ainda tinha as deficiências minhas e do Luciano, um com dificuldades para passar em grandes torrentes de água e outro com dificuldades para escalar paredes íngremes. E ainda para piorar, tinha o próprio Ligado sozinho pelo vale, correndo o risco de fazer uma besteira e se lascar todo sem ter alguém para oferecer socorro. Tudo, mas tudo mesmo se encaminhava para uma tragédia de agora em diante. Até a minha costela voltou a dor. O Luciano ficou na dele, não disse nada, ficou com quem estava resignado com a situação, mas eu não tinha como esconder a minha frustração com aquela situação, mas sem ter também nada mais o que fazer, jogamos as mochilas às costas e partimos para a aventura.
Pra nossa sorte o rio Itariru continuava com pouco desnível e quando chegávamos a alguma curva e víamos que o rio continuava ainda plano por mais duzentos ou trezentos metros, comemorávamos muito por saber que avançaríamos mais um pouco sem termos que enfrentar grandes gargantas. Às vezes a correnteza do rio ficava forte e aí era hora do Luciano se jogar e ganhar terreno, enquanto eu me virava escalando paredes e varando mato. Mas havia horas que não tinha jeito, tinha que me jogar nas torrentes e nadar rapidamente para fora do rio para evitar morrer de frio. Quando a margem propiciava, avançávamos rápido pulando de pedra em pedra e foi numa dessas caminhadas mais tranquilas que meu pé foi quase parar na boca de uma cobra de mais de um metro de comprimento. Tomei um grande susto, mesmo estando com uma perneira. Em um primeiro momento pensei que fosse uma jararaca, mas logo o Luciano chamou a atenção para o formato do rabo, que ia ficando fino aos poucos, características de cobras não peçonhentas, mas eu não estava nem um pouco convicto e quando o Luciano pegou o bicho na mão, teve que ouvir umas esculhambações pela sua ousadia desnecessária e ainda piorou quando ele deixou a serpente dar vários botes na perneira dele, provando que mesmo sendo um bicho muito grande, seu bote é sempre rasteiro e que as perneiras realmente servem para aquilo que são feitas.

Deixamos as cobras largadas a sua própria sorte e adiantamos o passo, sempre nos alegrando quando ao chegarmos às curvas, não encontrávamos nenhuma garganta gigante pare descermos. Minha preocupação de nos depararmos com alguns cânions ainda era grande e quando os ponteiros do relógio marcaram cinco da tarde, passamos por uma pequena ilha e deixamos uma cachoeirinha para trás e vendo que a noite poderia nos pegar no meio dos abismos, resolvemos dar por encerrado mais aquele dia de caminhada. Minha costela estava em frangalhos e quando o Luciano novamente lançou a ideia de um abrigo no chão, desconversei e fui montar minha rede e meu toldo num pé de pau qualquer. Saco de dormir encharcado, rede molhada, roupas úmidas e uma noite fria, foi a combinação perfeita para mais uma noite desgraçada. Para piorar , quando o Ligado picou a mula nos deixando sozinhos no vale, levou também o gás e parte da comida. Sobrou-nos apenas um mísero pacote de maçarão instantâneo e um restinho de gás e nos preocupou a possibilidade de não conseguirmos sair do vale no dia seguinte. Seria um dia de cão, mas antes desse dia chegar, era hora mesmo de enfrentar o cão da noite mesmo.
Quando o dia nasceu, dei graças por estar vivo. O dia finalmente nasceu lindo, com possibilidade de sol. Seria um dia decisivo para gente, se essas grandes gargantas existissem mesmo, seria logo pela manha que iríamos enfrentá-las. Nem começamos a caminhar e olha só, já tivemos que pular na água fria para atravessar um grande poço e não era um poço qualquer, era um praticamente um lago onde eu tentei escapar pelas paredes, mas como vi que a tarefa era inútil, me resignei e me joguei atrás do Luciano que já tava imitando um biguá do brejo faz tempo.
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Rio plano
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Comecei a desconfiar que a tal cachoeira gigante que ainda existiria não passava de pura lorota do Rodrigo Ligado, porque cada vez mais o rio Itariru ia ficando com pedras menores e com margens planas, tanto que já conseguíamos caminhar pelo mato sem muito trabalho. Mas foi só lá pelas dez horas da manhã que nós tivemos a confirmação que faltava ao vermos um nítido galho cortado com facão. Não havia mais dúvidas, alguém havia passado por ali vindo das bandas da planície litorânea e logo nos deparamos com uns vestígios de trilha para confirmar de vez nossas desconfianças. Em seguida o grande rio se dividiu em dois e formou uma grande ilha e nos valendo de experiências anteriores, pulamos para essa ilha e seguimos por ela em ritmo acelerado, já que esse tipo de acidente geográfico costuma ser bem plano e com vegetação rasteira bem rala. Nossas andanças por essa ilha levou bem uns 40 minutos e nos rendeu quase um quilometro de pernadas, até que ela acabou e fizemos uma pausa para um descanso e para comemorar a possibilidade de estarmos perto da civilização.
O Itariru havia aplainado de vez e agora não passava de um grande remanso de meio metro de profundidade, com fundo de areia dourada. Continuamos seguindo pelo mato, mas quando nos deparamos com uma lama impassável, resolvemos atravessar para a margem direita, onde encontramos uns pés de banana largados no mato. Tentamos encontrar alguma estradinha, mas não obtivemos êxito. Chamou-nos a atenção uma linha de alta tensão cruzando por cima do rio e logo à frente entramos a direita no que parecia um final de estrada, mas que na verdade não passava de caminho de água, que nos devolveu novamente ao rio, onde paramos para estudar os mapas. Estava mais que na cara que a tal estrada que procurávamos estava do lado esquerdo do rio. Então tomamos a decisão de cruzarmos para o outro lado e varar mato o quanto fosse possível até interceptarmos o caminho procurado. Foi isso que fizemos, atravessamos e fomos varando mato no peito até que, quase quatro dias depois de darmos inicio a nossa jornada, avistamos a primeira habitação humana, que não passava de uma velha choupana, um casebre abandonado e caindo aos pedaços e junto dele uma estradinha gramada, pontilhada por centenas de palmeiras Juçara, e mais à frente outras casinhas. Enfim de volta ao mundo dos homens.
Uma hora da tarde e a gente sem comer nada, mesmo assim estávamos felizes de termos conseguido chegar à planície litorânea em segurança. Não podíamos negar que estávamos destruídos fisicamente, tínhamos atravessado todo aquele vale e havíamos pagado o preço por tanta ousadia, porque é impossível mesmo sair interiro depois de uma jornada dessas. Quando avistamos dois seres humanos nós arrastamos pela estradinha até eles para ficarmos sabendo que se tratavam dos netos do dono /administrador da fazenda Itariru. Os meninos nos indicaram o caminho a seguir e sem ter muito que fazer, fomos trocando passos até que mais à frente, antes do caminho se tornar um brejo em meio a uma floresta, encontramos mais um parente do dono da fazenda que estava com um trator e gentilmente nos confirmou novamente o caminho e quarenta minutos depois de abandonarmos o Itariru, passamos por cima de uma ponte e interceptamos uma grande estrada junto a placa que indicava o nome da fazenda : FAZENDA ITARIRU.
Pela estrada longa e que nunca chega ao fim, alcançamos o Rio Preto, mais um rio totalmente limpo e como o nome mesmo diz, de águas negras, onde cruzamos por cima de sua ponte e meia hora depois chegamos a um amontoado de casas onde, pasmem, havia uma linha férrea . Pois é, uma linha de trem no meio do sertão da Serra do Mar, construída para escoar a produção de banana e palmitos. Não chegamos ver a locomotiva que puxa os “vagões” de madeira e até pensamos que estaria desativada, mas depois ficamos sabendo que ainda é uma linha utilizada, o que não deixa de ser um espanto, muito porque, não consegui saber nada sobre essa linha férrea, nem mesmo na internet.
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Rio Preto
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Como não existe nenhuma travessia e nenhum caminho que não chegue ao fim, as duas e quarenta da tarde chegamos à entrada da fazenda, no caso saída para nós, onde fomo recebidos pelo porteiro ou caseiro que em alto e bom tom disse que jamais poderíamos estar ali em uma propriedade particular e que só sairíamos dali com a autorização do “patrão”. Foi aí que notamos que a tal Fazenda Itariru, na verdade eram duas bem distintas, sendo que essa última pertencia a outro fazendeiro, e dos bravos. Antes mesmo de nos preocuparmos com essa tal autorização para ganharmos as ruas definitivamente, perguntamos do Rodrigo Ligado e o caseiro nos disse que ele havia saído na noite anterior e aí ficamos felizes de ele ainda estar vivo. Vendo que nós não passávamos de dois coitados aventureiros, todos fudidos e já sucumbindo de tanta fome o homem não fez mais nenhuma frescura, tratou logo de abrir a porteira da fazenda e nos enxotar para fora.
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Trem do Itariru
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Ganhamos a rua e bem a tempo de descobrirmos que a porcaria do ônibus para o litoral havia acabado de partir e que o próximo, somente perto das oito da noite. A vontade era de sentar e chorar porque até Itanhaém eram uns 15 km de caminhada. Mas como isso pouco adiantaria, levantamos a cabeça, mais não muito e seguimos resignados com a nossa condição. Não demora muito passa por nós, em uma moto, um dos parentes do seu Vicente, o dono da fazenda Itariru, justamente quem a gente tinha encontrado logo quando saímos do Grande Rio. Vendo o nosso sofrimento que não queria chegar ao fim, ele nos oferece uma carona em um trator da fazenda que vinha logo atrás. Foi uma carona de apenas uns 4 km, já o suficiente para nos deixar na própria casa do dono da fazenda, junto à escola do bairro. No local também funcionava um armazém e para nossa surpresa, fomos convidados pela família do seu Vicente para um belo de um almoço e logo depois de enchermos o bucho até quase não podermos mais andar e de trocarmos de roupa, ainda nos levaram para o litoral e não importa o tempo que passar, sempre seremos gratos a essa gente que. sem nunca ter visto nossa cara, nos acolheu e nos fez voltarmos a acreditar na raça humana.
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Fim glorioso
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Foi numa madrugada quente de verão que, juntamente com uns amigos, resolvi voltar meus olhos para esse vale. Naquela noite, ao analisar os mapas, nos pareceu um rio fácil para ser vencido, mas o tempo me mostrou que aquele vale perdido do mundo não estava a fim de ser vencido facilmente. Hoje posso dizer que ele caiu, mas deixou um rastro de destruição que será difícil de ser revertido. Um grupo foi destroçado, quase perdemos um amigo na primeira tentativa e foi preciso abrir mão da nossa preciosa segurança para que esse roteiro pudesse sair definitivamente do papel e virasse realidade. Por hora esse é o primeiro e único relato público de um grupo que atravessou todo aquele mundo de gargantas, vales, despenhadeiros e cânions. Foi sem dúvida uma das travessias mais difíceis desde quando começamos com esse projeto de expedições selvagens na serra do Mar, do qual resolvi chamar de EXPEDIÇÕES SELVAGENS AO LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA, os lugares aonde ninguém vai e praticamente não sabem que existe. Quanto ao lugar posso garantir que é um dos rios mais espetaculares de todo o Estado e não deve em nada a nenhum outro lugar do Brasil e vencê-lo foi uma honra. Foi como reencontrar mais uma terra prometida, foi o mesmo que botar os pés num passado distante, onde tudo parece estar como sempre esteve. O Vale do Itariru se escondeu do mundo por muito tempo e pela dificuldade de acesso, estará muito bem protegido por muito mais tempo ainda. Nós fomos, vimos com nossos próprios olhos, sobrevivemos aos seus perigos e voltamos vivos para contar a façanha, mas nada que dissermos poderá expressar as belezas das fantásticas paisagens que presenciamos naquele vale, onde os rios são de águas verdes e as pegadas humanas não passam de meia dúzia.
Divanei Goes de Paula – maio /2016


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