Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#978311 por divanei
09 Jul 2014, 17:03
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Extrema-MG x Vargem-SP : PICO DO LOPO À PEDRA DA GUARAIÚVA.



Já era fina de tarde e o sol agonizava no horizonte quando ascendemos à Pedra da Guaraiúva. Éramos dois homens esfarrapados e acabávamos de sermos triturados e cuspidos pela floresta, que, sem dó e nem piedade, nos mostrou quem mandava por ali. Era como se ela nos apontasse o dedo e nos dissesse: TOMA ISSO SEUS DESGRAÇADOS E NÃO VOLTEM NUNCA MAIS !

Várias foram às vezes em que estive em Extrema para passear e acampar na Pedra das Flores (1.666 m) e subir o Pico do Lopo (1.780 m). Para chegar ao topo do Lopo( lúpus em latim, lobo) necessita-se apenas de menos de duas horas de caminhada, já que se pode chegar ao alto da serra motorizado. Estando no topo do Lopo sempre fiquei admirado com a extensão da serra e me angustiava saber que não havia uma trilha que pudesse percorrer toda cadeia de montanha até o final, nos dando uma grande Travessia na região. A tão falada e pouco usada Travessia Extrema x Joanópolis sempre me pareceu tímida de mais por percorrer quase nada da cadeia de montanhas e logo abandoná-la para descer para baixas altitudes e enfrentar enfadonhas e modorrentas estradas até o final.

Pois bem, na vida parece que tudo tem sua hora e nesse último feriado resolvi que havia chegado o momento de ir lá e curar minha angustia de anos. Mas para isso eu precisava chamar alguém que não tivesse medo de enfrentar toda amargura que uma floresta quase que impenetrável pudesse nos jogar às costas, alguém que na hora que o bicho pega de verdade, arregace as mangas, cerre os punhos e meta a faca nos dentes e principalmente, que tivesse o mesmo nível de retardamento mental que o meu (rsrsrsrsr). Esse cara não poderia ser outro, ele mesmo, meu velho amigo de sempre: o super professor DEMA.

Outra coisa que vou revelar aqui, pra surpresa de muitos, é que montanhistas também tem mulher e filhos. Alguns chegam a afirmar que essa raça nem pai e mãe teria, pensam que são seres alados, gente de outro planeta. Alguns, acho, que são mesmo (rsrsrsrsr), mas como não é o nosso caso, resolvemos aproveitar metade do feriado para acamparmos com as meninas e usar o outra metade para a citada travessia. Motorizados subimos ao alto da serra de Extrema e caminhamos por pouco mais de uma hora até à Pedra das Flores, onde montamos nossas barracas e levamos as garotas para um deslumbramento das alturas das montanhas locais.
Conforme o combinado, no outro dia levamos as meninas de volta ao centro de Extrema e depois de um almoço juntos, elas voltaram de carro para casa e nós seguimos para o começo da Travessia, aliás , travessia que se inicia na própria cidade de Extrema. Estando de frente da igreja Matriz, pega-se a rua do lado direito e segue-se até o final e é na rua, bem no reservatória da companhia de abastecimento de água, reservatório horizontal , que parte a Trilha do Pinheirinho. No início da trilha, que vai nos levar de volta ao alto da serra há uma placa dizendo que é necessária a contratação de um guia, ignoramos as recomendações um tanto absurdas e avançamos pelo pasto adentro nos valendo de uma trilha larga. Já passava das 15 horas e dez minutos , a trilha entra na mata e vai ganhando altura aos poucos e logo à frente tropeçamos no Bicão, uma cano que em tempos de abundância deve verter água, mas que por hora se encontrava seco por causa da estiagem. Pegamos água que corria entre as pedras e seguimos a passos largos, pois como eu havia dito, deixamos nossa barraca e nossas coisas na Pedra das Flores e não estávamos carregando mochila nessa parte da caminhada. Com meia hora de caminhada desde o início, paramos em uma grande clareira de acampamento, junto a uma enorme pedra com inscrições “rupestres” fosforescente, um ótimo local para quem chegou a noite e precisa dar uma descansada no esqueleto. Mas logo nos apressamos, não queríamos ser pegos pela noite no meio da floresta. Subimos a grande rampa enfrente e fomos ganhando altura rapidamente e 15 minutos depois uma grande pedra à beira do caminho nos convida a apreciar as largas vistas da cidade. Talvez essa pedra seja a tal Pedra da Sacerdotisa, mas não tenho certeza, não me pareceu com nada ou talvez eu precisasse de mais imaginação. Mais à frente saímos em uma laje de pedra e pegamos para esquerda e metros à frente chegamos a um riachinho, mas a trilha está uns metros antes. Pega-se para a direita e depois em seguida para a esquerda, passa por uma área de camping e depois nivela, vira para a direita e desemboca nas Antenas da Embratel, junto a uma estrada de terra. Gastamos lá de baixo até aqui encima uma hora e dez minutos, mas com mochila imagino que teríamos levado umas duas horas.

Pegamos a estrada de terra e descemos por mais alguns minutos até que ela cruzou com a estrada que vem de Extrema. Seguindo para a esquerda pode se ir à Joanópolis, pegamos enfrente, que é a direção da Rampa de Asa Delta e das montanhas. A estradinha calçada vai subir por meia hora até as rampas e 15 minutos após chega ao portal de entrada de algumas propriedades, onde pode-se deixar os veículos. A trilha oficial começa bem aqui, à esquerda. Entra dentro de uns bambuzinhos e vai descendo até chegar a uma arvore caída, onde pega-se para a direita e vai quase que seguindo em nível, passando quarenta minutos depois pela Pedra dos Cabritos( 1.611 m), onde se tem uma espetacular visão da Pedra das Flores e do pico do Lopo. Desce até a um riachinho, sai da mata e passa por uma laje exposta e em menos de meia hora desde o riacho, chega à área de camping. Esse foi o caminho que fizemos no dia anterior, mas como eu também conhecia um atalho, ao invés de entrarmos a esquerda no portal, passamos por ele e seguimos descendo e depois de passarmos por duas propriedades, pegamos uma estradinha à esquerda e seguimos mata adentro até que a estrada acabasse em uma trilha que em alguns metros volta a reencontrar a trilha principal, passa pela Pedra dos Cabritos e desce até o riachinho. Paramos no riachinho para pegarmos alguns litros de água para a travessia no dia seguinte. A noite já havia caído e tivemos que seguir o restante da trilha até o acampamento no escuro. Ao todo com as paradas e tudo, gastamos menos de 3 horas desde Extrema até a Pedra da Flores, uma caminhada tranquila e sem nenhum percalço.

Uma névoa espessa tomava conta do lugar e somente Eu e o Dema estávamos acampados por ali. Ficamos batendo papo, jogando conversa fora até que os assuntos de esgotaram e então entramos na barraca para nos aquecermos em nossos sacos de dormir. Uma hora depois começamos a ouvir passos na floresta e nos demos conta de que havia alguém chegando. Nessa hora foi inevitável não nos lembrarmos da história contada pelo nosso amigo Adriano Alves de Americana-SP, amizade virtual que acabara de se materializar no dia anterior quando nos encontramos no início da trilha, de onde ele saia com sua mulher. Ele nos reconheceu de imediato e eu começo a dar razão ao meu amigo Dema, ou a gente é muito estereotipado ou é a nossa falta de beleza que não nos deixa passar incólume ( rsrsrsrss) . Contava o Adriano que um dia chegando a uma área de camping chamou pelos campistas que estavam dentro da barraca e ouviu a seguinte resposta: “-Em nome de Jesus, quem tá aí ? Vocês não estão armados não né ? Pelo amor de Deus não faz nada com a gente !”. Ao lembrarmo-nos desta história eu e o Dema caímos na gargalhada. Abrimos a barraca e vimos dois caminhantes de primeira viagem que pareciam recém-chegados de Woodstock. Levantamo-nos e fomos auxiliá-los na montagem da barraca e na preparação do rango. Rafael e Silvio nos pareceu umas figuraça e como os meninos eram “ marinheiros” de primeira viagem, os convidamos para que subissem conosco pelo menos até o Pico do Lopo na manhã seguinte.

O dia amanhece “nevoeirento” e só lá pelas nove horas Eu e o Dema nos animamos a levantar. Desmontamos as barracas, pegamos três litros de água por pessoa e jogamos as mochilas às costas e partimos. Dois minutos depois passamos pela Pedra das Flores de onde não podia se ver nada, ainda bem que havíamos garantido algumas fotos quando estávamos acampados com as meninas . Por causa do nevoeiro demos uma bobeada e demoramos para achar a trilha para o Lopo, mas não há segredo, ela esta mesmo seguindo na reta do pico, depois das lajes de pedras, entrando na matinha. Segue por dentro da mata, passa por uma pequena laje exposta, passa por uma saída de trilha à direita. Aliás, essa trilha a direita, onde deixei uma fita para marca-la, é uma alternativa que desce até a Fernão Dias, ou 4 km antes. Ouvi dizer que está fechada por falta de uso, já que o proprietário das terras interditou a passagem de quem quer subir por ela, mas quem for descer talvez não tenha problemas , pois sair é sempre mais fácil que entrar. Mas é uma alternativa curta e sem quaisquer atrativo que valha a pena, relatei aqui apenas para constar. Passamos reto por essa saída e tomamos a trilha enfrente rumo ao estirão final até o Lopo. Começamos a subir, depois descemos um pouquinho e subimos de vez até passarmos por um abrigo junto a uma grande pedra. Viramos a direita até chegarmos a uma escalaminhada, onde uma fenda exige que se eleve o corpo para poder atingir mais um platô acima e depois escalaminhar mais um pouco e se ver nas alturas expostas da pedra. Estamos a 1.780 metros de altitude e a vista daqui de cima é realmente soberba, com 360 graus de visão. O Pico do Lopo é daquelas montanhas fáceis de subir, mas que cativam qualquer pessoa pela beleza impar da região. Apesar de agonizando, o sistema Cantareira com suas lagoas de águas azuis é encantador. Infelizmente para azar dos novos montanhistas que subiram com a gente, hoje não se pode ver muita coisa por aqui. Somente quando uma rajada de vento atingi o topo se renova a esperança de que o tempo poderá abrir mais tarde. Mas nós não podemos esperar, é hora de nos despedirmos dos nossos amigos e partir.

Sempre me perguntei de onde sairia a tal trilha do topo e que seguiria para oeste e daria continuidade na cadeia de montanhas e foi só numa terceira vez que fui ao cume que realmente eu acabei a encontrando. Ela realmente existe e sai depois do cume a direita, quase uma canaleta e que agora para que ninguém deixe de encontra-la, deixei uns totens de pedra bem visível. E foi por ela que abandonamos o cume descendo por um minuto, com muito cuidado, e depois virando à esquerda e caminhando rente a rocha até darmos de cara com uma grande fenda, onde passamos nos espremendo, mas sem termos que tirar as mochilas. Depois viramos à direita e alguns metros à frente é preciso rasgar uns três metros de arbusto no peito para sair na grande rocha exposta, uns 20 metros abaixo do cume.
Eram 10h30min da manhã, o nevoeiro ainda reinava absoluto e a decisão de continuar aquela travessia às cegas parecia ir contra todas as recomendações do bom senso do montanhismo. Íamos nos aventurar por um caminho que possivelmente há décadas não recebia nenhum montanhista. Seríamos dois cavaleiros andantes sem cavalo a se aventurar por terras estranhas, Dom Quixote e San Chupança a procurar por um reino perdido do outro lado da serra, que atendia pelo nome de Pedra da Guaraiúva.

Quem olha a extensão da cadeia de montanhas, não consegue enxergar a Pedra da Guaraiúva porque ela está bem no fim da serra e por isso mesmo é difícil apontar o nariz para ela e varar mato até o destino final. A priori nós pensávamos em seguir sempre pela crista da montanha, ir seguindo de pedra em pedra até efetivamente conquistar nosso objetivo, mas nesta travessia querer não é poder, como verificaríamos mais à frente. Bom, havíamos conseguido chegar mais abaixo do cume e agora teríamos que reencontrar a trilha de acesso. Percorremos a parte exposta da pedra e fomos descendo com cuidado, usando a aderência de nossas botas até chegarmos à matinha mais abaixo, onde localizamos um possível vestígio de trilha e ali também deixei uma fita. Essa deve ser a trilha da tal Travessia Extrema x Joanópolis, mas como verificamos, faz muito tempo que não é usada e praticamente já desapareceu de vez, pois alguns metros depois a mata toma conta de tudo. No início passamos por baixo de alguns bambuzinhos, depois fomos nos arrastando por baixo de cipós e uns quinze ou vinte minutos depois chegamos a uma grande pedra, onde me parece que saia a trilha que descia para Joanópolis. Procuramos essa tal trilha, mas não a encontramos, o que leva a crer que desapareceu mesmo e é uma pena que mais uma caminhada acabe sendo varrida do mapa por causa da falta uso. Mas nosso caminho não é para aquele lado mesmo e estávamos decididos a seguir enfrente mesmo sem encontrarmos qualquer vestígio de trilha que pudesse nos fornecer um corredor para nos levar para o final da serra.
Contornamos a tal pedra pela nossa esquerda e fomos avançando mato adentro como dava, hora nos arrastando, hora nos jogando por cima da vegetação e em mais alguns minutos de caminhada, voltamos a encontrar mais uma grande rocha quase plana, onde subimos para nos aliviarmos do sufocante emaranhado verde. O tempo ainda se mantinha com um nevoeiro espesso e pouco se podia avistar de lá, era como se estivéssemos em uma banquisa, cercados de um mar de floresta a perder de vista. A coisa estava feia, havíamos avançado muito pouco e logo percebemos que seria impossível nos mantermos pela crista da montanha, porque na verdade não era uma crista rochosa como aparenta de longe. Era uma crista de muita floresta e algumas pedras sobressalentes. Mas eu e o Dema estávamos resolutos a seguir enfrente, batemos no peito, respiramos fundo e fomos enfrente, abandonamos a Pedra da Banquisa e caímos novamente no mato.

O avanço continuava muito lento. Bambus, cipós, vegetação rasteiras e outras tantas plantas espinhudas e grudentas iam minando as nossas forças, até que resolvi tirar da minha mochila o facão. Que pouco adiantou diante da secura da mata, onde os cipós secos não se deixavam cortar facilmente e faziam com que o trabalho se tornasse muito penoso. E além do mais, o meu bastão de caminhada, que havia abandonado para manusear o facão, começava a enroscar em tudo que era mato. Guardei de novo o facão e eu e o Dema fomos nos revezando no ofício de abrir caminho na raça, como desse e até usávamos os dentes para cortar cipós menores. Logo tropeçamos em mais um grande monólito e então resolvemos escalá-lo até o topo para ver em que direção seguíamos, já que não tínhamos a menor noção de onde estávamos.

O Dema foi à frente, segurando em tudo que era raiz e vegetação para tentar atingir o topo da pedra e eu fui logo atrás, no seu encalço e ao chegar ao topo descobrimos que foi mesmo uma escalada inútil, pois nada podíamos ver e ainda para piorar, tinha a desgraça da descida, porque subir até que é fácil, mas descer sem saber onde se põe o pé é de lascar e aí vem aquela pergunta inevitável que nos vazemos nesses momentos difíceis: Por que eu fui subir nessa merda?
Nessa hora resolvemos que diante da situação era hora de nos agarrarmos em algo mais confiável do que no nosso senso de direção, era hora de apelar para uma invenção milenar, a bússola. Eu sabia, analisando o mapa de satélite, que a Pedra da Guaraiúva estava a 245 graus do topo do Lopo e de agora em diante era para essa direção que deveríamos seguir, já que havíamos notado que não havia mesmo nenhum corredor que pudesse nos levar sem sofrimento para o nosso destino. Ajustei minha bússola, calculei o azimute e fiz os descontos da declinação magnética, que na região é de mais ou menos uns 20 graus e voltamos a enfiar a cara no mato. A sequência da caminhada era o de sempre. Afasta bambu, afasta cipó, cai no buraco, levanta, se arrasta, trepa em pedra, desce da pedra e assim foi, sempre tentando corrigir o rumo dado pela bússola, mas havia horas que tínhamos duvidas da direção dado pelo instrumento e então seguíamos mesmo o nosso instinto, tentando não perder altura e nos mantendo sempre perto do que achávamos que seria a crista da serra. Às 13h20min chegamos a um pequeno descampado, onde uma pequena língua rochosa e um coqueiro solitário nos dava um ótimo local para acampar, mas ainda era muito cedo para isso.

Seguimos enfrente, como sempre rasgando mato, até chegarmos a um amontoando de enormes pedras, onde fomos contornando pela nossa direita até que, para nossa surpresa, darmos de cara com uma gigantesca rocha chanfrada, com um acampamento de caçadores em sua base. É mesmo um alívio encontrarmos sinal de civilização depois de vagarmos por um bom tempo por lugares selvagens, mas a visão de um lugar tão macabro quanto é um acampamento destes, acaba por nos chocar em um primeiro momento. Um amontoando de milho espalhado pelo chão, outro tanto de espigas penduradas em um varal e uma cabana de plástico preto, formam o cenário de horror. Em um primeiro momento, quando avistei o tal acampamento, já fiquei em alerta, pois poderia haver algum caçador por perto e eu nós não queríamos ser confundidos com uma anta, um javali ou um cateto, por isso tratamos logo de fazer barulho. Mas para nossa sorte não havia ninguém e se ainda não fosse muito sedo, com certeza teríamos acampados por lá.

Da Pedra do Caçador, partia uma trilha, ainda que fosse um tosco caminho, estávamos certo que era mesmo uma trilha, mas havia um problema, a direção para onde ela seguia, saia um pouco da direção que havíamos planejado, mas diante do enrosco que estávamos encontrando para avançar, resolvemos encarar esse caminho e depois caso ele se desviasse muito, o abandonaríamos e seguiríamos para alguma direção mais favorável. Passado a barraca do acampamento, descemos à esquerda e nos enfiamos nesta trilha, que vez ou outra desaparecia e tínhamos que usarmos nossas habilidades e olhos bem treinados para voltarmos a reencontra-la e meia hora depois, aí sim, ela desapareceu de vez ao chegar a mais um acampamento, junto a um jirau de caça. Vimos que ao nosso lado direito corria uma linha de grandes árvores e imaginamos que poderia ser a crista, então fomos avançando paralelo a estas árvores, por um caminho que parecia mais aberto e com pouca vegetação rasteira e para nosso espanto, logo acima encontramos uma trilha bem nítida, que talvez seja a trilha que venha da Pedra do Caçador e que nos passou despercebida. Seguimos alguns minutos pela trilha e logo saímos no aberto com vistas deslumbrante, junto a uma grande rocha exposta, onde subimos e nos sentamos para um descanso e um analise do caminho.

A trilha descia para noroeste, em direção as terras baixas e não nos serviria mais e como o tempo finalmente estava aberto, conseguimos avistar nosso grande objetivo, a Pedra da Guaraiúva, que estava a uns 2 km de distancia. Mas ao invés de o Dema se alegrar com a visão espetacular de toda a serra, fez uma cara de horror e foi logo dizendo: “- Divanei, estamos lascados, do jeito que está difícil de caminhar por essa vegetação, a gente não termina essa travessia nem amanhã !” A nossa frente, havia uma cadeia de montanha longa, com um topo de uma grande rocha que se sobressaia em meia a floresta e a partir desta rocha, do lado esquerdo se formava outra cadeia de montanha e bem no seu final, se erguia imponente, a Pedra da Guaraiúva, imponente e solitária, com uma antena e um cruzeiro em seu topo.
Como não havia tempo para se lamentar, decidimos que a única coisa a fazer, seria caminhar em direção a tal pedra, do qual víamos apenas o topo e depois quebrar a esquerda, descer ao vale e subir até a crista da outra montanha e caminhar até o seu final, nos encontrando em definitivo com a Guaraiúva. Só que desta vez não podíamos dar bobeira, não poderia haver erro de direção ou corríamos o risco de nos vermos perdidos naquela imensidão de floresta. Apontei minha bússola para a tal Pedra Brilhante e li 260 graus e nem levei em conta a declinação magnética e então disse para o Dema que nada poderia nos tirar desse rumo. Descemos da grande rocha exposta do jeito que deu, nos valendo da sua aspereza e nos enfiamos de novo na mata, que para nossa surpresa, estava mais fácil de passar. Seguimos enfrente, enfrentando no peito tudo que ia aparecendo e quando às vezes o Dema se desviava um pouco da rota eu já o corrigia, pois estava o tempo todo com a bússola à mão e não desgrudava os olhos dela. Menos de quarenta minutos depois, demos de cara com uma grande rocha, bem no meio da floresta e ficamos na dúvida se aquela poderia ser ou não a tal rocha que procurávamos, aí o Dema teve a ideia de subir em uma árvore para saber se deveríamos continuar ou já era hora de abandonarmos aquela serra e passarmos para a outra. De cima da árvore ele não avistou mais nenhuma grande rocha e foi aí que tivemos a certeza que havíamos atingido o nosso objetivo, foi uma navegação perfeita.

Desta tal pedra, viramos radicalmente para a esquerda e fomos perdendo altura por dentro da floresta, até que do nada demos de cara com um cerca e um vestígio de trilha. Como o caminho seguia para onde desejávamos, sul - sudoeste , resolvemos segui-lo, até que o tal caminho sumiu, sem deixar vestígio. Como já estávamos aos pês da outra serra, resolvemos subi-la e quando chegamos ao que nos pareceu ser o seu topo, viramos para a direita e seguimos em definitivo para oeste. Passamos por mais uma pedra exposta, onde tivemos a primeira visão da Pedra da Guaraiúva e nos animamos a acelerar o passo e tentar chegar antes do anoitecer. Já era quase 17h00min e praticamente não havíamos comido nada e pouca água havíamos tomado. Estávamos um bagaço e eu já começava a ter câimbras porque o esforço que vínhamos fazendo era descomunal. Em minhas mãos não havia mais lugar para furos, meu pescoço havia sido cortado por um tipo de cipó que mais parece um velcro, quando pega gruda e aí sai rasgando a pele. O estirão final até o pé da Guaraiuva até que não foi muito demorado. Chegamos às costas da rocha, passamos por uma trilha que sai a direita e que no dia seguinte seria a trilha que usaríamos para descer. Seguimos enfrente e pegamos uma trilha para a esquerda e fomos subindo por uma canaleta, até nos encontrarmos com uma escada de ferro, subi-la e alcançarmos de vez o cume da Pedra da Guaraiúva ( 1.669 metros)

Ainda era dia e o sol se pondo no horizonte dava um charme todo especial ao cume. Não fazia frio, a temperatura era agradabilíssima e depois de algumas fotos junto ao cruzeiro, descemos e fomos explorar o outro cume, já que o topo na verdade é composto por duas grandes rochas. Descemos a escadinha, contornamos a pedra pela nossa direita e chegamos ao cume onde se encontra uma mini capelinha com uma santa, Nossa Senhora das Alturas, mas como o Dema disse :”- Meu, isso aí é santo que outros inventam !” Pesquisando na net não encontrei nada sobre essa santa, parece que meu amigo matou de primeira, rsrsrsrsr. O certo é que a visão de cima da Guaraiúva é realmente arrebatadora e dela é possível ver o estrago que a seca deste ano tem feito com a Represa do Jaguarí. O Dema não cansava de elogiar as belezas que a vista lá de cima do cume nos proporcionava, mas antes que o sol acabasse de morrer de vez, peguei minha mochila e fui para meio das duas pedras, onde praticamente não ventava e tratei logo de ferver uma água para uma sopinha básica, antes mesmo que eu começasse a fazer o jantar. Armamos nossa barraca em um lugar bem abrigado e fomos tratar de fazer o rango, com direito a carne seca com batatas e um macarrãozinho bem temperado. Comemos e nos metemos na barraca e de lá não saímos mais até que o sol de um novo dia viesse nos acordar.

Desmontamos tudo e partimos. Pegamos a trilha que saia atrás do cume da pedra com o cruzeiro. Pegamos agora para a esquerda e fomos descendo, às vezes usando a própria pedra como trilha e mais abaixo entramos na matinha e quando passamos de novo pela rocha nua, a atravessamos e reencontramos novamente uma trilha larga, que logo virou uma estrada e minutos depois desembocou em outra estrada mais larga, onde pegamos para direita . Passamos em seguida por um abrigo de montanha abandonado, junto a plantação de eucaliptos. Mais à frente uma estrada para a esquerda levará até a sede da fazenda e como não pretendíamos ficar dando explicações do porque estávamos em área com acesso restrito, antes de chegarmos nessa estrada, pegamos para a direita em uma estradinha de terra com eucalipto à direita e uma matinha à esquerda. Claro que não tínhamos a menor ideia se esse caminho nos levaria até a estrada asfaltada que liga Vargem à Joanópolis, mas caso isso não ocorresse, iríamos enfrentar um pouco de mata no peito para chegarmos até ela. Essa estradinha acabou em uma casa abandonada e depois de procurarmos um pouco, descobrimos que ela continuava depois de passarmos por uns metros de mato. Pulamos a cerca e entramos neste caminho abandonado e fomos descendo até chegarmos a umas duas casas, onde passamos sorrateiramente até que pulamos uma porteira e saímos na estrada asfalta. Pronto a travessia estava estabelecida. Pegamos para a direita e por quase uma hora caminhamos até chegarmos ao próprio Bairro da Guaraiúva, pertencente ao município de Vargem, já no estado de São Paulo. No posto de gasolina tomamos um ônibus às onze da manha, para Bragança Paulista e de lá pode se ir para qualquer lugar do mundo, no nosso caso para Campinas e depois Sumaré-SP.

E assim, depois de muitos anos de especulação, conseguimos estabelecer essa Travessia, que se não é inédita, porque até as terras da lua o homem já pisou, servirá de inspiração para outros corajosos aventureiros se animarem a irem lá e ajudar que um novo caminho possa se estabelecer de vez. É preciso que se continue a palmilhar por estes caminhos para que estas terras não se tornem terras de bandoleiros, caçadores, madeireiros, porque como sempre dizemos: Aonde não vai o montanhista se estabelece o vigarista.
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Divanei Goes de Paula – junho / 2014
Anexos
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