Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#950229 por ricardojcarvalho
18 Abr 2014, 15:59
Tracklog completo do percurso:
http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=6566345

Álbum de Fotos Completo no Panoramio e Google Earth
http://www.panoramio.com/user/6483509/tags/Travessia%20Parelheiros-Itanha%C3%A9m%20Via%20Vale%20do%20Rio%20Branco

A Travessia do Rio Branquinho é uma das mais antigas trilhas do Estado de São Paulo. Aberta pelos indígenas, antes mesmo do descobrimento, ela era utilizada pelos índios como ligação entre o planalto e o litoral. A trilha inicia-se no Extremo Sul da cidade de São Paulo, no Distrito de Parelheiros, e termina no município de Itanhaém, no Litoral Sul do Estado, atravessando todo o Vale do Rio Branco, totalizando 60 quilômetros.

O acesso à trilha do Rio Branquinho é, "em tese", proibida por dois motivos: Primeiro porque cerca de 10 quilômetros do trajeto total da trilha se dá por meio da Estrada de Ferro Sorocabana, uma ferrovia administrada pela concessionária ALL, por onde trafegam trens de carga que escoam a produção de grãos e outras mercadorias do Interior do Estado e da Região Centro-Oeste do pais até o Porto de Santos, e, também, por que a trilha "adentra" a Reserva Indígena do Rio Branco, Terra Protegida pela União por intermédio da FUNAI. Mas isso não impede que grupos de mochileiros, inclusive eu, organizem expedições para o local com o objetivo de percorrer esse caminho histórico.

Desde quando comecei a caminhar pelas trilhas do Parque Estadual da Serra do Mar, no ano de 2011, essa sempre foi uma travessia que me chamou muito a atenção: Tanto pelas belezas escondidas no interior da Mata Atlântica do Núcleo Curucutu quanto pelo fato desta ser considerada uma das trilhas mais "difíceis" do Estado, devido ao grande número de pessoas que se perdem por ela (os principais motivos se dão por imprudência e falta de preparo dos grupos).

Por falta de oportunidades e de um planejamento efetivo, passaram-se 3 anos até decidirmos percorrer essa trilha. Meu amigo André, parceiro de todas as trilhas, e eu estávamos com essa trip marcada para o feriadão prolongado de 4 dias (Sexta-Feira da Paixão e Tiradentes, na sexta-feira e na segunda respectivamente). Porém para a semana anterior a este feriadão, nos tínhamos marcado inicialmente fazer um pedal em Iguape pela Praia da Juréia. Porém nossos planos mudaram de última hora devido a um evento no Facebook criado pelo Eduardo Loures: Na semana em íamos pedalar ele marcou uma expedição para a Trilha do Rio Branquinho. Fomos convidados pelo Daniel Trovo, um amigo, com quem eu nunca tinha trilhado antes, mas que meu amigo já trilhara anteriormente. Sendo assim, não pensamos duas vezes e confirmamos presença no evento. Outro ponto que impactou em nossa decisão é o fato de fazer essa trilha em grupo, porém não muito grande, onde podíamos ter uma maior segurança.

Cerca de 50 pessoas foram convidadas para o evento e destas 7 confirmaram presença: Seis homens e uma mulher. Um grupo relativamente bom, que não atrasaria tanto a trilha e que iria nos proporcionar uma excelente experiência. A logística do evento foi muito bem organizada: O André, o Daniel, a Tatiane (a única mulher do grupo) e eu, marcamos de nos encontrar no Terminal de Diadema às 20:30 da noite de sexta-feira, onde pegaríamos o tróleibus para a Estação Berrini para encontrarmos os demais membros do grupo: O Eduardo, Carlos e Marcos, às 21:30. Nós, que vínhamos de Diadema, chegamos na Estação de Trem as 21:15. Entramos na estação e quando chegamos na plataforma da Linha 9 - Esmeralda, sentido Grajaú, o Carlos já estava lá nos esperando. Ele nos informou que em 20 minutos o Eduardo e o Marcos chegariam à Estação, o que se concretizou no tempo previsto.

Quando os vimos no trem, nós entramos e nos apresentamos. O André e eu não os conhecia pessoalmente. Mas pelo site mochileiros.com já tivemos a oportunidade de ler um relato em que o Eduardo desceu, recentemente, a Cachoeira da Torre em São Bernardo do Campo até o Parque Ecológico do Perequê, em Cubatão. Após a breve apresentação, começamos a conversar no trem sobre o trajeto que iríamos fazer. Existem duas formas de acessar à ferrovia para chegarmos a entrada da trilha: Por meio do Distrito de Marsilac ou por meio do Bairro Barragem, pegando a Estrada Evangelista de Souza. O André e eu achávamos a segunda opção mais viável pelo fato do trajeto entre os trilhos começar apenas próximo à Estação Evangelista de Souza. O Eduardo conhecia o trajeto por Marsilac e até então este era o percurso que estava previsto para nós realizarmos.

Chegamos ao Terminal Grajaú, por volta de 22:15 e pegamos o ônibus para o Terminal Varginha, onde chegamos por volta de 22:40. Lá estávamos nos dirigindo para a plataforma onde pegaríamos o ônibus para Marsilac. Porém o Daniel, o André e eu resolvemos pedir informações sobre os horários de circulação dos ônibus com destino ao Bairro Barragem. Os funcionários do terminal nos informaram que o ônibus passava até 2:50 da manhã. Portanto seria mais vantajoso iniciar a trilha pelo Bairro Barragem. Sendo assim, não pensamos duas vezes. Mudamos nosso roteiro e decidimos pegar o ônibus sentido Terminal Parelheiros onde chegamos às 23:15. Quando entramos no terminal o ônibus para a Barragem já tinha dado entrada na plataforma. Pegamos o ônibus e chegamos ao nosso primeiro destino exatamente às 00:00.

Com o objetivo de ganharmos tempo, decidimos caminhar pela ferrovia até o Viaduto do Túnel 24, onde iríamos acampar na primeira noite. Fomos caminhando pela Estradinha de Terra que sai do Bairro Barragem, entramos na primeira bifurcação à direita e começamos a andar pela Estrada Evangelista de Souza. Apesar da madrugada, o clima estava bem agradável e uma linda lua iluminava nosso caminho. Caminhamos por aquela estrada por exatamente 1 hora até chegarmos à linha férrea. O Pátio Ferroviário estava totalmente escuro e tivemos que utilizar lanternas em muitos momentos. Fomos caminhando pela estradinha que acompanha a Ferrovia até chegarmos à antiga Estação Evangelista de Souza, por volta da 01:25 da manhã. Tiramos algumas fotos por lá, inclusive em cima de uma locomotiva que estava estacionada na linha.

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Após esta rápida pausa para as fotos, decidimos iniciar a caminha pelos trilhos. Andar a noite na ferrovia requer muita cautela devido as diversas armadilhas presentes no percurso, como buracos entre os dormentes, pés de soja e milho crescendo no meio aos trilhos, cobras e, claro, riscos constantes de atropelamentos, pois os trens descem e sobem a serra 24 horas por dia. Por esta razão é de suma importância andar com lanternas potentes a afim de não cair em nenhuma destas armadilhas. Apesar dos riscos e da escuridão aos quais estávamos expostos, o trajeto foi relativamente tranqüilo. Às 02:55 da manhã chegamos ao Túnel 27, onde algumas pessoas pararam para pegar água em uma bica bem próximo à sua entrada. Cruzamos o túnel rapidamente, pois não queríamos ser surpreendidos por um trem. Quando chegamos do outro lado do túnel um belo luar em meio as Escarpas da Serra do Mar foi alvo de nossa atenção. Todos nós paramos para contemplar aquele belo visual e fotografar aquele momento.

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Continuando a caminhada, cruzamos o Túnel 26 às 03:25 da manhã, sem maiores problemas. Quando estávamos a 200 metros do Túnel 25, às 03:45, ouvimos a buzina um trem descendo a serra e rapidamente nós deixamos a linha e corremos para o canto direito da via. Logo na seqüência, saiu de dentro do túnel um outro trem, desta vez na via ascendente então tivemos que aguardar cerca de 5 minutos a passagem dos dois trens para continuamos a caminhada. Após esse momento um pouco tenso do trajeto, continuamos a pernada e finalmente chegamos à ponte do Túnel 24 às exatas 04:00 da manhã. Quando descemos a pequena trilha que dá acesso à parte inferior da ponte, onde iríamos acampar, nos deparamos com diversas aranhas, como viúvas negras e armadeiras. Para que elas não nos incomodassem durante a noite, o Eduardo ascendeu uma "tocha" que espantou não apenas as aranhas, mas também os mosquitos.

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Começamos a montar nosso acampamento, pois como o local é plano e coberto poderíamos contar com a proteção da ponte caso chovesse durante a noite, o que não ocorreu. Cansados após percorrermos 16 quilômetros a noite em meio a estrada de terra e a via férrea, resolvemos ir dormir, pois amanha teríamos que acordar cedo, visto que ainda tínhamos um longo trajeto pela frente além da previsão do tempo informar que no sábado e no domingo poderíamos ter chuvas durante o dia. Apesar do terreno ser plano, dormir debaixo da ponte não é uma coisa muito agradável pois cada vez que o trem passava o barulho era tremendo e acabava acordando o pessoal. Como eu tenho o sono pesado, o barulho não me incomodou tanto, porém alguns de nossos amigos como a Tatiane e o Carlos se queixaram que não conseguiram dormir devido a movimentação dos trens durante a madrugada.

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"No dia seguinte", por volta de 6:30, 7:00 da manhã os primeiros integrantes do grupo começaram a acordar. O André foi um dos primeiros. Ele levantou, escovou os dentes e lavou o rosto no Rio Branco de Cima, que fica sob a ponte onde estávamos acampados, e foi logo fazer uma das coisas que ele mais gosta: Fotografar a paisagem iluminada pelos primeiros raios de sol. Logo em seguida o pessoal começou a acordar e assim todos desceram para escovar os dentes. O Eduardo fez o café e serviu para todos nós.

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Arrumei as minhas coisas rapidamente e aproveitei enquanto o pessoal terminava de se preparar para partir, e subi para a ferrovia para tirar algumas fotos do amanhecer no Vale do Rio Branco e da linha férrea. O visual nesse ponto da Serra é realmente espetacular.

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Iniciamos a caminhada naquela manhã de sábado, por volta de 8:30 da manhã. Cruzamos o Túnel 24 e fomos avançando em meio à ferrovia. Enquanto andávamos pela linha, ouvimos o barulho de um trem na via ascendente, exatamente onde estávamos. Nesse momento sentamos na mureta de proteção da Ferrovia enquanto aguardávamos o trem passar. O André queria deixar a camera entre os trilhos para filmar a passagem do trem. Como o trem que passou era de bitola métrica, dele conseguiu deixar a câmera no trilho que estava sobrando e registrou a passagem. Após a passagem deste trem, continuamos o trajeto rumo a entrada da trilha, foi quando um outro trem, desde vez na via descendente, surgiu na linha. O Daniel acenou para o maquinista e o foi retribuído por ele.

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Às 9:00 da manhã, chegamos à Entrada da Trilha, que é marcada por algumas bananeiras e uma Placa da FUNAI, indicando que aquela é uma Terra Protegida pela União. Notamos que existia entulho bem na entrada da trilha. O Eduardo que esteve lá cerca de dois meses atrás nos disse que aquela montanha de entulho não estava lá na última vez que ele visitou o local. Bom seja lá qual tenha o sido o objetivo da sujeira depositada no inicio da trilha, pegamos a picada à direita que vai descendo a Serra gradativamente, aplainando em alguns pontos e descendo novamente em outros. A trilha possui algumas bifurcações, mais deve-se ignorá-las e seguir sempre a trilha principal.

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Às 10:00 da manhã, a trilha começou a margear o chamado "Rio Branco de Cima". Nesse momento, também, o Eduardo e o Daniel encontraram um pacote fechado de milho para pipocas no meio da trilha. Pelo estado de conservação, dava para ver que era novo. Sendo assim, eles não pensaram duas vezes, pegaram o pacote e guardaram na mochila e continuaram a caminhada. Às 10:15 chegamos a uma bela piscina natural de águas verdes que foi alvo de uma merecida parada para descanso e lazer. Cerca de 20 minutos depois, o Eduardo e a Tatiane, estavam ascendendo o fogo para fazer as pipocas para a galera.

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Após esse momento de relax, às 10:50, decidimos continuar a pernada. Nosso planejamento inicial era cruzar o primeiro trecho da trilha do Rio Branco até a Aldeia Indígena antes do anoitecer para que pudéssemos acampar na Cachoeira das Três Quedas, que fica cerca de dois quilômetros após a Reserva dos Índios. Outro ponto crítico era a possibilidade de mudança no clima, pois não queríamos correr o risco de ter que atravessar o rio durante um período chuvoso. Seguimos pela trilha que saiu em uma clareira onde vimos vestígios de acampamento recente. A trilha terminou em um novo patamar exuberante do rio, às 11:00 da manhã. Esse trecho foi alvo apenas de fotos, pois logo em seguida retomamos a caminhada.

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Uma dica importante para quem vai fazer esta travessia é que como o trajeto do percurso é praticamente plano após a chegada no Poço Verde, as clareiras na mata podem confundir um pouco o trajeto. Caso você tenha dúvidas de onde está e para onde está indo, é importante que você acompanhe sempre o curso do rio, que vai estar correndo sentido litoral. Às 11:10 chegamos em um novo patamar do rio onde vimos uma "espécie de ilha" em meio ao seu trecho pedregoso. Claro que esse local foi alvo de uma bela foto de toda a galera juntos.

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O percurso dessa trilha cruza, por diversas vezes, o Rio Branco e enquanto avançamos, somos premiados com as belas paisagens proporcionadas por ele. Às 11:55 chegamos a mais uma bela Piscina Natural que foi alvo de mais uma parada para apreciar a natureza, fazer um lanche e tirar muitas fotos.

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Às 12:50 prosseguimos nossa trajetória, contemplando a bela Mata Atlântica cercada por árvores centenárias e algumas bromélias, sem contar os poços dos patamares inferiores do rio que são realmente muito bonitos. Caminhamos quase ininterruptamente por cerca de uma hora, até que, às 13:50, começamos a ver por entre as frestas na mata que estávamos próximos à Confluência dos Rios Capivari e Branco, onde às águas torrenciais do Rio Capivari se encontram com as águas calmas do Rio Branco, deixando a correnteza deste mais forte.

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Fizemos uma rápida parada pra fotos do encontro dos dois rios. Às 14:00 horas, retomamos a caminhada. O trajeto até a chegar à confluência se dava, em grande parte, pela margem esquerda do rio (pela trilha). Após este ponto é necessário cruzar o rio, novamente, até a outra margem onde continuaríamos a caminhada. Conforme dito anteriormente, a correnteza do rio, neste ponto, é mais forte, portanto é necessário muita cautela para cruzá-lo, principalmente se você não estiver com um calçado apropriado ou esteja carregando muito peso. Meu tênis tem calçado antiderrapante porém, ainda sim, tive que tomar cuidado para não escorregar nas pedras, mas consegui passar sem problemas. Os demais membros do grupo também não tiveram problemas. Apenas a Tatiane estava com dificuldade para atravessar, então o André ajudou-a durante a travessia.

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Após esse momento de fúria do rio, demos continuidade a pernada, agora pela margem direita do rio, porém, sempre curtindo o visual a nossa volta, rodeado de poços esverdeados e corredeiras que sempre são alvos de nossa atenção. Às 14:45 chegamos, agora, em uma pequena queda d' água onde o Trovo e a Tatiane, fizeram uma rápida parada para uma foto.

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Continuamos o trajeto avançando sem problemas por entre a mata. Eu estava andando a frente do grupo, a Tatiane e os demais membros vinham em seguida. Em um ponto da trilha, que passamos às 15:40, tive que contornar uma mata caída e não tive quaisquer problemas, porém quando a Tatiane passou pelo local, ela foi atacada por um enxame de vespas. Tomou cerca de 20 picadas (ela contou as marcas pelo corpo). O André foi picado duas vezes, o Marcos e o Trovo uma vez cada. Após o ocorrido, a Tatiane começou a queixar-se de muita dor e um incomodo tremendo devido as picadas. Por sorte, o Marcos tinha compridos de AAS em sua mochila, e ele deu um comprido para aliviar um pouco a dor. Não podemos negar que isso acabou comprometendo um pouco a velocidade do trajeto, pois a caminhada tornou-se torturante para a Tatiane que não conseguia mais carregar nem sua própria mochila. O Carlos e o Marcos em vários momentos carregavam a "cargueira" dela, a afim de ajudá-la e evitar que ela fizesse mais esforço ainda, desnecessariamente.

Após esse ocorrido, continuamos a caminhada. A trilha cruza diversos riachos e afluentes do Rio Branco. Em muitos trechos somos premiados com a bela paisagem enquanto o rio percorre seu curso sinuoso rumo ao Litoral.

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Durante o trajeto fizemos algumas paradas para que a Tatiane pudesse descansar, afinal ela estava cansada e cheia de picadas de mosquitos. Felizmente, ela não passou mal por causa disso, e confesso que isso havia nos deixado preocupados. Após mais de uma hora depois de paradas e caminhadas, finalmente chegamos a primeira Aldeia, às 17:00, onde nos deparamos com uma "oca" e uma pequena construção de alvenaria (acredito ser um banheiro).

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O Daniel e o Eduardo encontraram, coincidentemente, na aldeia alguns amigos deles que eles já não haviam a algum tempo: O Fábio, seu pai e outro amigo. Eles eram amigos de um índio da aldeia, já um senhor de idade, chamado Henrique. O índio foi super receptivo quando nos viu. Nos ofereceu uma jaca e a galera mandou ver. A preocupação dele era tamanha, que ele nos falou por diversas vezes para descansamos por lá. Falamos para ele, que estávamos apenas de passagem e que iríamos acampar na Cachoeira das Três Quedas, que fica após a reserva dos índios. Como já estava ficando tarde resolvemos nos despedir do pessoal, para podermos montar o acampamento.

Após sairmos da primeira aldeia, seguimos pela trilha principal que nos faz cruzar o rio pela última, agora, em um trecho bem tranqüilo, com água batendo nos joelhos. Após cruzar o rio, andamos cerca de 5 minutos e às 17:35 finalmente chegamos na aldeia principal, onde as casas de palha deram lugar a casas de alvenaria com eletricidade e até parabólica.

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O Trovo, André, Marcos e eu fomos na frente e passamos muito rapidamente pela aldeia, pois o nosso objetivo era de montarmos o nosso acampamento o quanto antes, para podermos descansar bem, pois na noite anterior não tínhamos dormido quase nada e no dia seguinte teríamos um percurso de mais 30 quilômetros para percorrer, caso não arrumássemos nenhuma carona. O Carlos e o Eduardo acompanharam a Tatiane, pois como ela estava meio "debilitada" devido as picadas, eles resolveram ajudá-la. Combinamos de nos encontrarmos na entrada da trilha e assim fomos. Chegamos próximo à entrada da trilha onde o córrego da Cachoeira das Três Quedas, corta a Estrada de Terra, bem ao lado de uma residência. Ficamos esperando o pessoal chegar em banquinho que fica na frente da casa. Às 18:00 o pessoal chegou, e a Tatiane, pediu para fazer uma pausa para que ela pudesse descansar um pouco. Quinze minutos depois, às 18:15, decidimos entrar na trilha. A entrada da trilha fica cerca de 50 metros da residência e é demarcada por uma placa azul do Núcleo Curucutu da Serra do Mar.

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Essa foto foi tirada durante o dia, e foi colocada aqui para servir de referência para a localização da entreda da trilha.

Como já estava escuro, tivemos que utilizar lanternas. A trilha inicialmente cruza o rio até a outra margem e avança cerca de 200 metros até que temos que cruzá-lo novamente. Nesse ponto existe uma piscina natural conhecida como Lagoa Azul. Como já estava muito escuro, e para chegar a cachoeira teríamos que subir algumas pequenas pirambeiras e cruzar o rio mais algumas vezes, resolvemos ficar neste local mesmo, onde também havia uma área de acampamento e locais próprios para armar as redes. Começamos a trabalhar e montar o nosso "hotel", afinal merecíamos um bom descanso. O André e eu armamos nossa barraca e o restante do pessoal estavam armando a rede deles e cobrindo a área com lonas. Cerca de uma hora depois de termos chegado no local, o tempo virou e uma chuva desabou sobre nossas cabeças. Como o André e eu estávamos com barraca de camping montamos nosso acampamento rapidamente. O pessoal que estava com rede tiveram mais trabalho para preparar tudo quando começou a chover, mais conseguiram. Com a forte chuva que caía, a rede da Tatiane acabou molhando então chamei a Tatiane para dormir na minha barraca, ainda mais sabendo que ela tinha passado por tudo aquilo que ela passou. Como nós somos todos magros, acabou dando para acolher todo mundo, sem problemas. Afinal de contas, isso é ser mochileiro: Temos sempre que cooperar uns com os outros. A chuva que caia era muito forte, porém como estávamos super cansados, acabamos "capotando" e não vimos que horas era parou.

No dia seguinte, alguns membros do grupo acordaram antes mesmo do sol nascer: Às 05:30 da manhã o Trovo já estava de pé. Acordei, quando ouvi a voz dele conversando com o pessoal, porém resolvi dormir mais um pouco. Às 7:00 da manhã resolvi levantar, pois apesar da chuva que caiu na noite anterior, estava super abafado na barraca, então acabei suando um pouco. Fui até o rio escovar os dentes e tomar um banho (gelado obviamente), mas confesso que isso me fez super bem. Fiquei muito mais disposto após o banho. Aos poucos o pessoal também foi acordando para escovar os dentes e tomar café. Às 8:00 da manhã, o Trovo, o André e eu decidirmos ir até a cachoeira tirar algumas fotos. Para chegar até ela, o desnível é mínimo e a trilha é bem óbvia, o permite alcançá-la após 10 minutos de caminhada. Apesar de eu já a ter visitado em outras ocasiões, confesso que sempre me chama a atenção a beleza daquela queda d'água . Obviamente que o Trovo não deixou a oportunidade passar, então ele deu uns 3 "tchibum" no poção da base da cachoeira.

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Após esse momento de diversão, resolvemos voltar e começar a arrumar tudo para continuar a pernada rumo à área urbana de Itanhém. Desmanchamos nosso acampamento, retiramos as lonas e o lixo (sim, deixar a trilha como encontramos é dever de todos). Antes de irmos embora, o Trovo, o Marcos e o Daniel resolveram dar mais alguns mergulhos, só que agora no Lago Azul. Após mais alguns "tchibum", pegamos nossas coisas, recolhemos o lixo e saímos da trilha. A Tatiane e o Marcos resolveram ir na frente, enquanto o Carlos, o Eduardo, o Trovo, o André e eu deixávamos o lixo em um local onde ele pudesse ser recolhido. Aproveitamos, também, para passar protetor solar, devido ao mormaço daquela manhã de domingo. Protegidos contra os raios UV, começamos a caminhar por aquela interminável estrada de terra, onde só víamos o babanal a nossa direita, a estrada à nossa frente e as encostas serranas à nossa esquerda.

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O André e eu andamos junto com o pessoal pelos 5 primeiros quilômetros, até fazermos uma breve pausa para pegar água em um pequeno córrego e fazer um lanche. Quando retomamos a caminhada, acabamos pegando embalo indo na frente, passando até mesmo a Tatiane e o Marcos que tinham começado a caminhar bem antes de nós. Apesar de estarmos indo na frente, sabíamos que teríamos que nos reunir novamente na frente do Bar do Zé Pretinho, que está localizado já na estrada de asfalto. Como eu já havia dito anteriormente, aquela estrada de terra parece que não tem fim, o que a tornaria muito monótona caso não pudéssemos apreciar em alguns momentos o curso do Rio Branco à nossa direita ou os carros e bicicletas que de vez nunca passavam por nós enquanto estávamos andando. Às 12:55, faltando cerca de 2 quilômetros para chegarmos ao asfalto, escutamos um carro buzinando para nós. Quando olhei para trás era uma Courier, de um simpático casal, que estava levando o pessoal na carroceria. Rapidamente o André e eu, pulamos para dentro e comemoramos essa carona que nos fez economizar o restante do trajeto a pé pela estrada de terra. Fizemos uma vaquinha e oferecemos 15 reais ao casal como gratificação pelo favor que eles haviam nos feito, mas eles negaram o dinheiro, se despediram de nós e se foram. Quando chegamos ao asfalto o Eduardo e eu fomos nos informar no bar do Zé Pretinho sobre os horários do ônibus que tem como destino o centro da cidade. Ele havia nos informado que o próximo ônibus passaria somente as 17:30. O Eduardo disse a ele que estávamos em um grupo de 7 pessoas, tínhamos saído de São Paulo e que tínhamos descido a Serra. O Zé Pretinho disse que, se quiséssemos, ele poderia nos levar até o centro e que cobraria R$50,00. O Eduardo achou o preço meio caro, e decidiu perguntar ao pessoal o que eles achavam. O Trovo sugeriu dar uma chorada, e o preço acabou caindo para R$ 30,00. Todos aceitaram a segunda oferta, e o Zé Pretinho foi preparar o carro para nos levar até a cidade. Enquanto ele ajeitava as coisas, nós resolvemos tirar uma foto juntos para comemorar o sucesso de nossa travessia pela Trilha do Rio Branquinho.

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Quando tudo estava pronto, subimos na pickup do Zé Pretinho, às 13:21, e seguimos pela Estrada de Asfalto (Estrada Francisco Paniquar Filho, seu nome original) até um Posto de Gasolina que fica às Margens da SP55 - Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, onde chegamos às 13:45. Como o Eduardo já era conhecido dos frentistas do posto, ele pediu se eles permitiriam que nós deixássemos nossas mochilas numa salinha por lá, para que pudéssemos ir até a praia e eles autorizaram. Cruzamos a rodovia caminhamos cerca de 600 metros e chegamos à Praia Satélite, onde tiramos mais uma foto de todo o time reunido.

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Pouco depois, o tempo começou a dar sinais de que iria mudar novamente, então voltamos ao posto rapidamente antes da chuva começar. Pegamos nossas mochilas, nos despedimos dos frentista e do Carlos, pois como sua mãe mora na região, ele iria ficar para visitá-la. Cruzamos novamente a Rodovia e pegamos uma Vam, às 15:30, com destino ao Terminal Jabaquara, que acabou subindo a Serra pela Rodovia dos Imigrantes. O Trovo e a Tatiane foram os primeiros a se despedir, pois eles desceriam no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo. Logo em seguida foi a minha vez e do André de nos despedirmos e descer, só que agora em Diadema. O restante do pessoal seguiu para o Terminal Jabaquara para poder pegar o metrô e retornar à suas casas.

Apesar do longo trajeto e da força de vontade necessários para concluir todo o percurso posso afirmar, sem sombras de dúvidas, que esta é uma travessia única, não apenas pela sensação de superação, mas principalmente por podermos estar em contato com a natureza rica e preservada escondida no interior Vale do Rio Branco.

Ricardo Carvalho
Editado pela última vez por ricardojcarvalho em 12 Ago 2014, 21:26, em um total de 1 vez.

#953359 por naboman
28 Abr 2014, 11:53
Fala Ricardo!
Parabéns pelo relato!
Fomos no dia 18, usamos seu tracklog e tbm nos ferramos com as vespas :(

vídeo resumo:
phpBB [video]


Fotos + relato:
https://www.flickr.com/photos/explorado ... 349261495/

Abração
#953986 por ricardojcarvalho
29 Abr 2014, 21:08
naboman escreveu:Fala Ricardo!
Parabéns pelo relato!
Fomos no dia 18, usamos seu tracklog e tbm nos ferramos com as vespas :(

vídeo resumo:
phpBB [video]


Fotos + relato:
https://www.flickr.com/photos/explorado ... 349261495/

Abração


Fala cara, beleza?

Fico feliz que meu relato e tracklog o ajudaram. Excelente o seu vídeo.

Abraço!

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