Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#1127579 por rafael_santiago
03 Out 2015, 16:51
ImagemCachoeira do Crioulo

Quando subi o Pico do Itambé pela primeira vez em 2012 (www.mochileiros.com/circuito-pelo-pico- ... 72513.html) a intenção era continuar a caminhada até o Rio Preto, realizando assim a travessia dos dois parques vizinhos. Mas o Parque Estadual do Rio Preto estava fechado para reformas e não me foi dada a autorização. O projeto ficou na gaveta por três anos e este foi o momento oportuno de realizá-lo.

A travessia entre os dois parques rasga todo o PE do Rio Preto no sentido norte-sul acompanhando o curso do Rio Preto até suas nascentes, que são protegidas por essa unidade de conservação. No meu roteiro, ao deixar a bacia do Rio Preto (e consequentemente o PE do Rio Preto) na direção sul, cruzei o pequeno bairro da Bica d'Água. Em seguida entrei na área do PE do Pico do Itambé, onde subi o pico pela face oeste e desci pela leste, visitando as cachoeiras a caminho de Santo Antônio do Itambé. A caminhada terminou no povoado de Capivari, após percorrer a Trilha dos Tropeiros.

ANTES DA TRAVESSIA: CONHECENDO O LINDO PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... acoMGMai15.

Deixei São Gonçalo do Rio Preto às 7h50 no táxi do Edmundo e, após 13km de estrada de terra em condições razoáveis, estávamos na portaria do Parque Estadual do Rio Preto às 8h19. Identifiquei-me para o funcionário e confirmei que iria acampar e fazer a travessia para o Parque Estadual do Pico do Itambé, tudo devidamente agendado por e-mail e confirmado pelo Tonhão, chefe do parque. Continuei no táxi mais 4,6km até o centro de visitantes, onde o Edmundo me deixou às 8h39. Assisti à palestra sobre o parque e resolvi pegar a saída das 10h para as cachoeiras para ver se aparecia mais alguém. Enquanto isso fui montar minha barraca na área de camping, a 350m dali. Havia cerca de dez outras barracas, mas todos estavam arrumando as coisas para ir embora pois era domingo, final de feriado prolongado. Ali comecei a me surpreender com a ótima estrutura do parque, por exemplo os banheiros adaptados para deficientes físicos, inclusive o chuveiro, algo que eu nunca tinha visto nem em camping particular. Além disso, são limpíssimos, têm sabonete líquido e papel higiênico. O caminho para a Prainha, a 150m do camping, também é acessível a deficientes. Aliás, foi o meu primeiro passeio, aproveitando os minutos que faltavam para a saída das cachoeiras. Um lugar encantador, a primeira das muitas praias de areia branquíssima que eu conheceria nas caminhadas ao longo do Rio Preto.

Da Prainha voltei ao camping e peguei um atalho de 450m para o restaurante, de onde saem os passeios monitorados. Lá chegando, conheci pessoalmente o Tonhão, que me disse que destacaria um funcionário para me acompanhar no dia seguinte até a casa da Chapada. Apesar de eu ter o caminho marcado no gps, ele não quis que eu fosse sozinho. Agradeci e lhe dei os parabéns pelo belo parque que gerencia.

Não apareceu mais ninguém para a caminhada das cachoeiras e saí sozinho com o monitor Valdir. A caminhada até a Cachoeira do Crioulo, a mais distante, é espetacular, pois caminha-se pela encosta da margem esquerda do Córrego das Éguas, bem acima dele, com linda vista do vale e das serras ao redor, inclusive com três mirantes de madeira onde se pode sentar e admirar a paisagem. O Morro Dois Irmãos, o Morro do Alecrim e o Morro da Serraria se destacam. Às 11h38 cruzamos o Córrego das Éguas e descemos em 10 minutos à Cachoeira do Crioulo, belíssima, com um grande poço de águas negras contrastando com a areia branca que o rodeia e acompanha o rio. Pausa para o lanche e às 12h25 retomamos a caminhada, agora mais difícil, sempre pela margem do rio. Apesar de um pouco mais difícil e demorada, a volta pelo rio reserva alguns recantos incrivelmente bonitos.

ImagemPoço do Veado

Cruzamos o rio por um tronco e continuamos pelas lajes inclinadas, com alguns pontos mais delicados, possíveis de se escorregar. Pegamos um trecho de trilha e descemos de volta às lajes do rio por uma escada rústica. Cruzamo-lo de novo num salto e chegamos ao alto da Cachoeira Deitada às 13h. Mais 20 minutos caminhando pelas lajes e descemos à Cachoeira Sempre-Viva, na minha opinião não tão impactante e encantadora quanto a do Crioulo mas muito bonita também, despencando diretamente nas grandes lajes abaixo, sem poço. Permanecemos apenas 7 minutos e às 13h27 deixamos o local descendo por outra escada de madeira e continuando pela margem direita. Atravessamos o rio algumas vezes de maneira fácil mas às 14h07, na Forquilha, precisamos tirar as botas para cruzar o Córrego das Éguas, que encontra o Rio Preto 50m abaixo, por isso o nome do local. Aliás outro lugar paradisíaco que merecia mais tempo para ser curtido. A trilha entrou na mata e 420m depois pegamos uma saída à direita para visitar o Poço de Areia. Reencontramos a trilha da ida numa bifurcação pouco antes de um riacho e chegamos ao restaurante às 15h05.

Como iria sair no dia seguinte cedo para a Chapada, corri para conhecer um outro grande atrativo próximo, o Poço do Veado. Fui sem o monitor. Do restaurante peguei a estradinha principal, passei pelo centro de visitantes (a 300m) e fui para a direita na bifurcação, como se fosse voltar à portaria do parque. Uns 40m depois da ponte sobre o Córrego das Boleiras entrei às 15h23 na trilha à direita, com placa mostrando a extensão (4,6km, mas no meu gps deu 6km ida e volta sem contar as saídas para os atrativos) e os atrativos da Trilha do Cerrado, todas ao longo do Rio Preto, sendo o Poço do Veado o primeiro deles. A trilha é larga e bem batida e com 950m uma placa indica a descida para o poço, que fica a 120m. Há um mirante de madeira na descida.

Até ali muita gente vai, inclusive cruzei com várias pessoas voltando. Mas a partir dali a trilha fica mais estreita e aparentemente menos pessoas se "arriscam". Eu não poderia deixar de explorar o local por completo (só depois vi que a placa do início diz que é obrigatório o acompanhamento de um condutor nessa Trilha do Cerrado).

O próximo atrativo sinalizado com placa foi o Rio Lento, apenas um remanso do Rio Preto a 540m da bifurcação do Poço do Veado. Mais 360m e chego a um outro local muito bonito e agradável, o Vau Bravo, onde a mansidão do rio se transforma em bonitas corredeiras. Continuando, cerca de 160m após a trilha entrar na mata uma outra sai à direita sem placa. É o caminho para o Poço de Pedra, onde entrei também. Ao sair da mata é melhor caminhar para a direita pelo leito seco e depois passar entre as pedras para chegar ao poço, que é gigante. Voltando à trilha principal há uma bifurcação 280m depois também não sinalizada. À direita se volta ao rio num local sem nada de especial. À esquerda, em mais 520m alcanço a placa que indica à direita o Vau das Éguas, com poção e pequenas cachoeiras. O que impressiona ali é ver a que nível o Rio Preto chega em época de chuva, como mostram os galhos e gravetos espalhados pela margem.

A trilha principal continua, meio fechada, mas já eram 16h42 e não havia mais tempo para explorações. Retornei pelo mesmo caminho e às 17h47 estava de volta à estrada.

A noite foi tranquila com o camping todo só para mim e não cheguei a ver ou ouvir o lobo-guará que faz visitas regulares ao local.

Altitude de 773m no camping.
Nesse dia caminhei 22km.
A maior altitude do dia foi 970m.

ImagemMorro Dois Irmãos

1º DIA DA TRAVESSIA: DA SEDE DO PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO À CASA DA CHAPADA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... GMai151Dia.

Desmontei acampamento e às 7h48 encontrei o Valdir, que seria de novo meu guia, mas só até encontrar outro funcionário do parque que sairia da base da Chapada para nos encontrar. Saímos às 7h54 na direção das cachoeiras, como no dia anterior, porém na bifurcação após o riacho tomamos a esquerda. No Poço de Areia cruzamos o Rio Preto facilmente pelas pedras e começamos a longa subida, que iria durar o dia todo praticamente. Às 8h33 cruzamos a ponte sobre o Córrego da Embira (segundo a carta) e 12 minutos depois fomos à direita na bifurcação pois a esquerda leva ao aceiro que é o limite leste do parque. Às 8h56 uma trilha sai à direita e leva às Corredeiras do Rio Preto, que é um passeio monitorado que sai somente às 10h. Logo depois encontramos com o funcionário que saiu da Chapada para nos encontrar, o Jaime, que estava num cavalo. Dali o Valdir voltou. Cruzamos uma tronqueira e às 9h29 entroncou uma trilha que vem da cidade de Felício dos Santos, com placa sinalizando. No riacho 280m depois (Córrego da Lapa) consegui achar um ponto onde pudesse atravessar num pulo, sem ter que tirar as botas. A subida deu uma trégua e atravessamos um grande platô, mas no final dele mais subida pelas lajes até cruzar uma porteira e chegarmos às 9h56 à Lapa da Santa. De lapa mesmo não há nada, é apenas um grande bloco de rocha com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida a seus pés e inscrições rupestres pichadas. Paramos para descanso e às 10h20 prosseguimos.

Às 11h02 outra lapa, a do Tropeiro, essa uma lapa mesmo, um abrigo rochoso, onde muita gente já morou na época de grandes colheitas de sempre-vivas. Ela fica 30m à esquerda da trilha. Mais 200m e cruzamos o Córrego Lapa do Tropeiro, continuando à direita na bifurcação. Às 11h29 a terceira e última lapa do caminho, a Lapa do Filó, a maior de todas, sob um enorme bloco rochoso. Nela há algumas pinturas rupestres em bom estado. Cruzamos um riacho pelas lajes (afluente do Rio Preto; o Rio Preto estranhamente aparece na carta topográfica do IBGE com o nome de Córrego Taioba) e nos aproximamos muito do Rio Preto, correndo a menos de 50m à nossa direita. Mais à frente avistamos uma casa, na verdade duas. Descemos um pouco, cruzei o riacho (outro afluente do Rio Preto) num salto e fomos na direção das casas pela trilha da direita. A primeira delas (12h16) eles chamam de Casa de Mozart, nome do antigo morador. A segunda, 300m à frente, era usada como base pelos guardas antes de eles se transferirem para uma casa mais próxima do limite sul do parque. Fizemos uma segunda pausa para descanso e comer alguma coisa. O sol resolveu mostrar a cara, e bem forte. Até ali o céu esteve encoberto, bom para caminhar mas ruim para as fotos. Quando as nuvens dissiparam pude ver e fotografar o Morro Dois Irmãos já bem mais próximo.

ImagemPlantas aquáticas num afluente do Rio Preto

Às 12h51 retomamos a caminhada pegando a trilha que sai na direção sudeste, logo cruzando um riacho (mais um afluente do Rio Preto) por uma pontezinha de madeira. Às 13h02 entroncou à esquerda a trilha que vem diretamente da Casa de Mozart. Com mais 11 minutos fomos à direita numa bifurcação mas é apenas uma variante que encontra a trilha principal de novo 60m depois. Apenas 15m depois, às 13h15, chegamos à bifurcação que leva ao Morro Dois Irmãos, onde o Jaime continuou em frente (direita) em direção à casa dos guardas e eu fui para a esquerda encontrar com o Miltinho e o Ereni, que me acompanhariam na subida da montanha. Encontrei-os poucos metros à frente e seguimos com uma visão já bem próxima e desafiadora do Dois Irmãos. Cruzamos dois riachos (também afluentes do Rio Preto) e pegamos um atalho pelo capim até o aceiro no limite do parque, onde uma longa cerca impede que o gado da fazenda ao lado entre. Deixei a cargueira escondida nas pedras e seguimos apenas 150m pelo aceiro na direção do pico, tomando logo uma trilha à esquerda como atalho. Mas logo abandonamos a trilha e subimos à direita pelo capim na direção da montanha, reencontrando o aceiro num ponto bem acima. Cruzamos a cerca às 14h34 e nos dirigimos por trilha à base à direita (leste) do pico, ponto mais fácil de subida pois é uma crista ascendente. A picada logo some e a subida do pico é feita sem trilha demarcada, porém sem dificuldade pois há caminho entre a vegetação. Atingimos o cume oeste do Morro Dois Irmãos às 15h, de 1830m de altitude, e de lá se vê que o cume leste é bem mais baixo, apesar de parecerem quase da mesma altura de longe. Dali é possível ver várias cidades, como Diamantina (a oeste), Felício dos Santos e São Gonçalo do Rio Preto (norte). Além das cidades, víamos o Morro Redondo, no limite do parque, e a 21,6km o Pico do Itambé, meu objetivo nessa travessia. A vista é magnífica! Iniciamos a descida às 15h27 e em 24 minutos estávamos de volta à cerca do aceiro. Pegamos o mesmo atalho sem trilha até o local onde deixamos a cargueira, andamos só mais 260m pelo aceiro na direção sul e o abandonamos para atalhar pelo capim na direção da casa dos guardas, que estava a sudoeste, aonde chegamos às 16h50.

A casa tem dois quartos com duas camas cada um, cozinha equipada e banheiro com ducha aquecida pelo fogão a lenha. Eles passam a semana toda lá, revezando com a outra equipe de três guardas toda segunda-feira. Pensei em acampar no quintal mas como havia uma cama vaga, dormi nela com o saco de dormir. E não recusei a gentil oferta da janta farta e deliciosa preparada por eles.

Altitude de 1563m.
Nesse dia caminhei 23,2km.
A maior altitude do dia foi 1830m, no Morro Dois Irmãos

ImagemPico do Itambé e Serra da Bicha

2º DIA: DA CASA DA CHAPADA À BICA D'ÁGUA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... GMai152Dia.

Deixei a casa dos guardas na Chapada às 7h44 e o Miltinho ainda fez questão de me acompanhar até a porteira que limita o parque. A neblina estava muito densa e não consegui ver o Morro Redondo mesmo passando ao seu lado. Nem mesmo avistar a nascente do Rio Preto, sinalizada por uma placa. Na porteira me despedi do Miltinho agradecendo a atenção toda e a disposição em me acompanhar na subida do Morro Dois Irmãos no dia anterior. A partir dali deixaria para trás a bacia do Rio Preto e caminharia basicamente na direção sul por uma crista descendente, com nascentes vertendo para leste e oeste, e nada de água na crista.

Caminhei pela estrada precária de terra descendo suavemente e quando a neblina dissipou parei para admirar a paisagem e visualizar o caminho até o Pico do Itambé, que demorou a sair de trás das nuvens. Mas eu não tinha pressa e esperei. Quando me dei conta tinha ficado ali 1 hora e 50 minutos, das 9h24 às 11h14! Continuei a descida pela estradinha sem entrar nos atalhos e às 11h58 surgiu uma fonte de água à direita que parecia um pequeno canal pois era muito reto. Aproveitei que ainda estava num local alto e abasteci os cantis.

Às 12h09 alcancei uma porteira com um cruzeiro de madeira ao lado e a placa de uma tal Fazendinha Chapadocia para a esquerda. Mas continuo em frente, cruzo a porteira e vou para a direita, descendo ainda. Passo a caminhar por estrada de terra batida (até aqui era uma estrada estreita e bem precária). Uns 200m abaixo da porteira a água daquele canal onde abasteci atravessa a estrada. Passei por uma placa que sinaliza que a estrada que entronca à esquerda vem de uma localidade chamada Santa Cruz e em seguida cruzei uma porteira. Uns 90m depois, às 12h24, uma bifurcação que causou alguma dúvida e me tomou um bom tempo. Sabia pelo gps que para a direita chegaria ao bairro da Bica d'Água, porém dando uma volta enorme por estradinhas. Desconfiei que à esquerda poderia encontrar um atalho e, contando sempre com a minha sorte nessas horas, apareceu um senhor a cavalo que não só me ensinou o caminho como me levou ao início da trilha. Ele era tio do Miltinho!

A propósito, o bairro aqui se chama Covão. Da bifurcação fomos então para a esquerda e esquerda pois o entroncamento ali forma um triângulo, como se tivesse uma "praça" central. Cerca de 900m abaixo passamos pela escola do bairro e 50m depois sai uma trilha para a direita. O homem repetiu as instruções sobre o caminho e seguiu pela estrada. Eu entrei na trilha às 13h16, cruzei uma tronqueira e entrei na sombra da mata. Na bifurcação com tronqueira à direita fui para a esquerda por uma trilha mais ruim, uma descida com pedras, e cruzei outra tronqueira. À direita, além da cerca, tenho os fundos da casa que se acessa pela direita na última bifurcação. O capim estava um pouco alto, sinal de trilha pouco usada. Outra tronqueira. Na bifurcação com porteira à direita fui em frente (esquerda), conforme as recomendações, e logo passei por uma tronqueira aberta. Após um outro trecho de capim alto, de novo dentro da mata, notei uma trilha saindo para a direita, mas continuei em frente pois logo depois essa mesma trilha entronca à direita, formando uma bifurcação, onde fui para a esquerda.

ImagemCórrego Bica d'Água

Na bifurcação seguinte a trilha mais aberta desce à direita e leva ao Sumidouro (14h13), local em que o Ribeirão Soberbo corre por baixo das pedras e dele só se ouve o ruído. Porém os blocos de pedra são muito grandes e há gretas fundas entre eles. Um escorregão nas pedras poderia me causar sérios problemas. Achei mais seguro procurar outro local para atravessar o rio. Subi de volta à última bifurcação e fui para a direita (lado da esquerda quando vim), menos batida. Cruzei uma tronqueira e passei ao lado de um barulho de motosserra, mas não vi quem estava ali. Outra tronqueira marca o final da mata e o início de um campo de samambaias. Do outro lado do rio vejo vacas pastando e casas. A trilha bifurcou na descida e acompanhei a cerca, indo mais para a direita e logo voltando ao Ribeirão Soberbo. Se tivesse pego trilhas à esquerda em meio às samambaias acredito que teria cruzado o rio num ponto ainda mais fácil. Nesse ponto do rio em que cheguei tive que tirar as botas, mas estava bem raso, na altura da canela. Peguei a trilha na outra margem mas ela prometeu bem mais do que cumpriu pois após a tronqueira ela sumiu no capim alto do pasto. O segredo aqui é subir suavemente pelo pasto na direção oeste, desprezando trilhas à esquerda que somem logo, até um curral, depois uma casa à esquerda e finalmente a estrada, bastante precária, aonde cheguei às 15h27.

Devo ter economizado alguns km nesse caminho, mas a maior vantagem mesmo foi ter conhecido mais uma trilha em lugar de andar só por estradas. Desci para a esquerda, passei uma porteira abaixo e começou a longa subida. Essa estrada corta o pequeno bairro da Bica d'Água, de poucas casas espalhadas, e praticamente termina na casa do Seu Santo, morador antigo que dá apoio aos trilheiros e ciclistas durante a travessia com alimentação, banho quente, pernoite e aluguel de mula a quem necessitar.

Às 15h46 uma estradinha à esquerda parece levar a uma cachoeira no Rio Soberbo, mas não fui conferir. Mais 500m e alcanço uma parte alta da estrada com bonita visão das montanhas, inclusive o Pico do Itambé. Após diversas porteiras de madeira e de arame, às 16h58 cruzei uma ponte de madeira, logo depois outra porteira (aberta) e cheguei à casa do Seu Santo às 17h04. É uma casa bege e verde à direita com uma placa de "Bem-vindo à Bica d'Água" e uma sequência de quedas e poços no Córrego Bica d'Água em frente (Córrego Serra da Bicha consta na carta). Fica aos pés da acidentada e bonita Serra da Bicha. A estradinha termina ali, depois é trilha. Chamei e quem me atendeu foi a Dona Maria. Mas não demorou ao Seu Santo chegar a cavalo.

Sua casa é coberta de folhas de palmeira, algo que encanta os visitantes pelo visual mas que ele mesmo não gosta pois não dura muito tempo. A energia vem de placas solares então não dá para ter nada mais do que um mero liquidificador. Portanto essa noite foi recheada de muitas conversas ao pé do fogão a lenha, ele me contando muitos "causos" locais de moradores e visitantes. Ele não é funcionário do parque mas sabe sobre todos os trilheiros e ciclistas que estão fazendo a travessia pois os guardas de ambos os parques entram em contato para avisar, mais por questão de segurança do visitante.

Jantei com eles e novamente não montei a barraca, dormi num dos quartos da casa.

Altitude de 1068m.
Nesse dia caminhei 17,5km (descontados os erros e explorações).
A maior altitude do dia foi 1642m, na porteira do limite sul do PE do Rio Preto

ImagemVale do Córrego Bica d'Água

3º DIA: DA BICA D'ÁGUA AO PICO DO ITAMBÉ

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... GMai153Dia.

Amanheceu com céu encoberto e logo veio a chuva, o que me segurou um pouco na casa do Seu Santo e da Dona Maria, a qual logo cedo já estava na casa de farinha ralando um montão de mandioca. Eu não deixei o local sem passar pelo pé de mexerica e encher uma sacola... rsrs... para consumo imediato e "para viagem".

Saí da casa do Seu Santo às 9h30 tomando a trilha em que se converte a estradinha por onde cheguei. Cruzei uma porteira e logo surgiu uma outra casa à direita, mas a Dona Maria disse que essas casas mais acima estão vazias pois todos se mudaram. Por 270m a trilha alargou como uma estrada, mas voltou a estreitar novamente. Cruzei dois riachos e duas tronqueiras e às 10h17 a paisagem à esquerda se abre para um pasto às margens do Córrego Bica d'Água, com vacas pastando. Mais 420m e aparece uma casa isolada à direita. Cruzei uma tronqueira aberta e a trilha me levou ao curral à direita. Esse local causa alguma dúvida pois há várias trilhas curtas próximas a um riacho e a continuação do caminho está camuflada pela vegetação. Não era necessário me aproximar do curral, simplesmente descer ao riacho quase sem trilha, atravessá-lo e subir a outra encosta tendendo para a esquerda. Mas antes disso a cobertura precária do curral me serviu de abrigo da chuva que voltou, logo depois de eu ter passado protetor solar por causa do sol ardido. Aproveitei também para ver de perto uma "casa" de folhas de palmeira que alguém construiu embaixo de uma enorme rocha, tal como nas lapas de antigamente vistas no Parque do Rio Preto. Para vê-la tive de cruzar uma cerca por uma tronqueira, à esquerda do ponto onde cheguei. Gastei ainda algum tempo ali procurando a tal da Cachoeira da Cortina, mas era preciso cruzar o Córrego Bica d'Água tirando as botas e não sabia a distância até ela. Como não conseguia avistá-la e não podia gastar muito tempo nisso resolvi prosseguir na travessia.

Cruzei o riacho próximo ao curral (e também uma tronqueira ao lado dele) às 11h39 e a trilha na outra encosta sobe até um ponto em que se vê a Cachoeira da Cortina lá embaixo. Foi aí que percebi como cheguei perto dela. Paciência... Ali no alto cruzei uma tronqueira, depois a trilha bifurcou (mas tanto faz o lado), atravessei um riacho e percebi que estava caminhando cercado de paredões por todos os lados, sinal de que as montanhas estavam próximas. Logo noto o Itambé me observando à esquerda. Após outra tronqueira cruzo um ribeirão de águas negras, com um incrível poço preto à direita. Segundo a carta esse é o próprio Córrego Serra da Bicha, chamado localmente de Córrego Bica d'Água. Todos os riachos que cruzei desde a casa do Seu Santo são afluentes dele.

ImagemPico do Itambé

A essa altura a chuva havia voltado. Às 12h39 alcanço uma porteira que me lança a um pasto, numa mudança brusca de vegetação e de ambiente. Logo surge a primeira casa, com curral na frente e ninguém para perguntar do caminho pois as trilhas de vaca estavam começando a me levar para diversos lugares errados, fugindo da rota. Não vi uma trilha a oeste da casa que me indicaram depois como sendo a ligação com o bairro do Poço Preto, a caminho de Capivari. Embaixo de chuva e sem ver essa trilha, resolvi seguir direto no rumo da trilha de subida do pico, a que vem do Poço Preto (roteiro que fiz em 2012). Para isso, ao passar pela casa, continuei para sudoeste até encontrar uma mata, que contornei pela direita. Após a tronqueira, no segundo riacho (afluentes do Córrego Serra da Bicha), resolvi subir o pasto sem trilha na direção sudoeste pois a trilha que encontrei não serviu (ela contornou o morro e sumiu logo). Nessa subida acabei encontrando um final de trilha que me levou a uma tronqueira e logo depois a uma casa com vários cachorros meio estressados, às 13h26. Ali encontrei o Lindomar, funcionário do Parque do Pico do Itambé, que me esperava pois a subida do Pico do Itambé estava agendada e confirmada. Descansei um pouco na sua casa (ao lado da casa dos cachorros) enquanto a roupa do corpo secava, assinei o termo de responsabilidade e às 14h34 retomei a caminhada, agora na companhia dele. Saímos da casa por uma trilha que em 400m interceptou a trilha de subida do pico que vem do Poço Preto. Comecei a ver as primeiras setas brancas de madeira para orientação, que não existiam em 2012.

Com apenas 380m de subida chegamos a uma porteira. O Lindomar me indicou um lugar próximo onde se encontra água e disse que iria ficar por ali. Eu continuei a subida, mas já avistava focos de chuva no horizonte. Cerca de 300m acima da porteira e 90m depois de uma placa "leve seu lixo", alcancei o ponto onde muita gente se perde. Fincaram no chão uma seta branca apontando para a direita exatamente onde se deve abandonar a trilha e subir a parede, mas sem dificuldade. O importante é não seguir em frente pela trilha pois não leva a lugar nenhum. Com 320m de subida chego à base do pico, onde se pode contemplar ele todo. Mas nessa hora a chuva me pegou. E estava frio, então o negócio era subir rápido para esquentar. Um totem e uma seta não deixam dúvida quanto ao caminho de aproximação do pico e às 15h43 começou a subida de verdade, mais inclinada, até com trechos de escalaminhada. Alcancei o primeiro buraco, bem estreito, e não quis tirar a capa e a cargueira para não ficar molhado de chuva, então me espremi todo e passei. Uns 70m depois o segundo buraco, ainda mais apertado, e arrisquei de novo ir de cargueira e tudo. Quase fiquei entalado, me contorci mais que lagartixa, mas consegui. Com mais uns 150m a subida suavizou, sinal de que atingi o platô que antecede o cume. Logo passei pela área de acampamento, alagada, de onde sai uma trilha à direita que leva a um ponto de água. Às 16h44 cheguei ao cume do Pico do Itambé, com neblina total, chuva e muito frio. Deixei a mochila na casa sem portas que há no topo e ainda tentei encontrar o ponto de água próximo ao acampamento, mas as trilhas terminavam no nada. Ela deve estar no fundo de algum buraco entre as rochas. Coletei água da chuva para beber. Com o acampamento alagado, só me restava montar a barraca dentro da casa, abrigado do vento gelado. À noite cheguei a ver as luzes de alguma cidade, quando a neblina se abriu um pouco.

Altitude de 2059m.
Nesse dia caminhei apenas 9km (descontados os erros e explorações), porém o desnível foi de 992m.

ImagemFlora abundante no Pico do Itambé

4º DIA: DO PICO DO ITAMBÉ À CACHOEIRA DA FUMAÇA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... GMai154Dia.

O dia amanheceu quase tão ruim quanto o final do dia anterior, mas pelo menos a chuva forte havia passado, restando uma garoa. O Lindomar apareceu logo cedo para ver se estava tudo bem.

O objetivo nesse dia era descer do pico pelo lado leste e dormir em Santo Antônio do Itambé. Esse é o caminho mais usado por quem sobe o Itambé, é mais longo mas menos íngreme que o lado oeste, por onde subi. Saí da casa às 9h08, passei pelo cruzeiro de concreto e comecei a descer. Descer com chuva foi bem pior do que subir pois as lajes de pedra estavam escorregadias, exigindo bastante cuidado. Muitas setas brancas orientam para não se tomar a direção errada nas lajes, principalmente no caso de neblina forte, como nesse dia. O Pico do Itambé tem formações rochosas bem interessantes, com formatos curiosos, além de diversas fendas profundas. Isso sem falar na flora, muito bonita e peculiar. Em alguns momentos o Itambé me lembra o Monte Roraima. Às 9h54 passei pela pedra do pato, uma das rochas de formato mais curioso, e às 10h19 cheguei à ponte do Rebentão, uma das fendas profundas. Depois atravessei um campo absurdamente florido, flores cor-de-rosa cujo nome ainda não descobri. Às 11h15 passei pelo riacho que, como alerta a placa, é a última água para quem sobe o pico (nascentes do Córrego da Serra). Mais 325m de descida e exploro rapidamente a Lapa do Morcego, à direita da trilha. É um abrigo natural sob um enorme bloco rochoso, assim como as lapas do Parque do Rio Preto. Segui pela trilha mais batida (ignorando as menores que foram surgindo) e às 12h21 alcancei a casa de taipa do sr Joaquim Moacir (antigo morador que foi retirado e indenizado). Há uma bica ao lado. Ali a trilha vira uma estradinha precária.

Com 1,1km de estrada surge à esquerda a placa que marca o início da trilha para a Cachoeira do Rio Vermelho, distante 2,6km dali (segundo o meu gps). Minha idéia desta vez era conhecer as três cachoeiras do caminho de descida do pico, mas pelo horário (12h47) eu precisaria apertar o passo já que a portaria do parque fecha às 17h. Entrei rapidamente então e mudei totalmente minha direção de leste para norte.

ImagemCachoeira da Água Santa

Essa trilha está bastante adaptada para facilitar o acesso à cachoeira. Há pontes, corrimãos e calçamento de pedra nas áreas alagadiças. Após uma tronqueira seguida de uma ponte deve-se subir à esquerda na bifurcação. Ao atingir o alto logo é possível avistar a cachoeira, enorme! E na encosta à sua direita a trilha que desce ao Rio Vermelho. Às 13h36 cheguei à parte alta dela, com uma ponte de concreto horrível que é vista até lá de baixo e enfeia a imagem da cachoeira. Cerca de 80m depois dessa ponte uma trilha sai à direita da principal e desce ao rio (como avistado na chegada). Uma vez no rio tive de varar alguns metros de arbustos para atingir um ponto de observação melhor, enquadrando a cachoeira inteira na câmera. Por incrível que pareça, até ali a neblina atrapalhou as fotos.

Às 14h15 retornei pelo mesmo caminho e em 43 minutos estava de novo na estradinha do parque, que aliás continua bem ruim para carros, com pedras soltas e valetas nas partes inclinadas. Às 15h19 entrei à direita na trilha sinalizada da Cachoeira do Neném, a 700m. Em 10 minutos cheguei à sua garganta. Uma trilha à esquerda leva à escadaria de 54 degraus que dá acesso ao seu grande e escuro poço. Subindo de volta a escada e continuando ainda por essa trilha, na direção rio abaixo, chega-se a um interessante sumidouro, onde as águas do Córrego Água Santa desaparecem sob as pedras para reaparecer na forma de uma cachoeira poucos metros depois.

Às 15h54 estava de volta à estrada e 27 minutos depois avisto Santo Antônio do Itambé, ainda bem distante. Depois passei pelo acesso a uma casa à direita, onde ainda há morador, próximo de uma antena de celular. Às 16h32 finalmente cheguei à trilha que leva à Cachoeira da Água Santa, à esquerda, e desci quase correndo os 550m em 11 minutos. A trilha termina no rio (Córrego Água Santa), com a cachoeira um pouco longe ainda, mas só dava tempo de ir até ali mesmo. A subida de volta foi dura! Na estrada foram só mais 3 minutos até a portaria, aonde cheguei às 16h56. Altitude de 851m, ou seja, desnível de 1207m desde o cume do Pico do Itambé. Os dois funcionários me esperavam e parei para um longo descanso. Um deles, o Reginaldo, me ofereceu hospedagem nos chalés da sua família, na Cachoeira da Fumaça. Ele é filho do sr Adair, que conheci na viagem anterior durante a travessia para Capivari, e que lamentavelmente faleceu no final do ano passado com apenas 48 anos.

Anoiteceu e não recusei a carona do Elias, o outro funcionário do parque, até próximo da casa do Reginaldo, onde fui recebido pela sua mãe, a Teresinha, que já preparava um delicioso jantar mineiro. O local se chama Recanto do Sossego.

Altitude de 796m.
Nesse dia caminhei 19,9km.

ImagemCachoeira da Fumaça

5º DIA: DA CACHOEIRA DA FUMAÇA À VILA DE CAPIVARI PELA TRILHA DOS TROPEIROS

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... GMai155Dia.

Pernoitar próximo à Cachoeira da Fumaça teve várias vantagens sobre dormir na cidade de Santo Antônio do Itambé. Primeiro, por estar na zona rural, no meio do mato mesmo, segundo por já me encontrar no caminho da Trilha dos Tropeiros, meu "passeio" de hoje, economizando 3,7km que caminharia por estrada desde a cidade. Isso sem contar a hospitalidade e simpatia da Teresinha e sua família.

Mais um dia de céu encoberto e um pouco de garoa. Após o farto café fui rever a Cachoeira da Fumaça, linda, logo ali nos fundos, a 430m, no Ribeirão Areia. Que privilégio! Às 9h47 me despedi de todos da casa e peguei o atalho para a parte alta da cachoeira junto à placa do parque. Esse atalho dispensa ter de subir de volta à estrada principal e caminhar até o acesso à parte alta da Fumaça, num trajeto com 2,1km a mais. Peguei à esquerda nas duas bifurcações do caminho e às 9h58 cheguei a uma cerca, que cruzei por baixo. A trilha que acompanha a cerca vem da estrada acima e desce à cachoeira. Desci portanto à esquerda e após uma escadaria de madeira cheguei à parte alta da Cachoeira da Fumaça. Pausa para fotos. Às 10h06 subi de volta margeando a cerca até uma passagem que dá acesso à estrada, mas ainda não é a estrada principal. Uma placa sob uma mangueira enorme aponta para a parte alta da cachoeira. Subi 13 minutos até alcançar a estrada principal, com placa indicando a Trilha dos Tropeiros, e fui para a esquerda (à direita iria para Santo Antônio do Itambé). Logo fui alcançado pelo Reginaldo, que já estava em serviço, fazendo a ronda do parque de moto. Às 10h42 a estrada termina e vira uma trilha. Logo depois cruzo uma porteira e mais à frente me deparo com uma casa com morador, onde se deve descer pelo pasto para a esquerda (antes da tronqueira da casa) e atravessar outra porteira. Uns 400m após essa porteira, às 11h, chego ao novo portal da Trilha dos Tropeiros, com a mesma placa dando informações sobre a trilha: 11.993m de extensão, grau de dificuldade alto, tempo aproximado de 7 horas e obrigatório o acompanhamento de condutor. Apenas 40m depois do portal uma bifurcação que vale a pena observar pois se você tomar a direita vai ter que tirar as botas para cruzar as águas negras do Córrego Palmito, se for para a esquerda não (da vez passada, fui para a direita sem saber disso). Dessa vez desci à esquerda e atravessei o córrego pelas pedras.

Logo depois dele começa uma subida que vai durar mais de uma hora, com pouca visão de paisagem por causa da mata. Logo no começo da subida notei a erosão que corrói a trilha a cada chuva. Mais acima apareceram as pedras molhadas e escorregadias, tornando o caminhar mais lento. Às 11h35 surge um ponto de água à direita da trilha, um riacho meio escondido. Mais à frente vou acabar cruzando-o, ainda subindo. É um afluente do Ribeirão Areia. Nesse momento a garoa voltou. Às 12h08 a trilha estabiliza um pouco depois de tanta subida, e às 12h17 começa a descida. A paisagem se abre à direita, mas a neblina não deixa ver quase nada. Atravesso uma curiosa e inusitada faixa de 140m de pura mata atlântica, com direito até a samambaiaçus. Logo depois, onde havia uma porteira, restando apenas os mourões da cerca, o caminho alarga e aparecem marcas de pneu de moto dos funcionários do parque. A paisagem abre um pouco mais, porém a neblina dificulta a visão. Ainda assim, consigo admirar uma extensa cachoeira que desce do morro rochoso à direita. Quando o panorama se abre ainda mais para serras à minha direita, desço até uma porteira que é o limite do parque, onde dois funcionários já me aguardavam, o Genésio e o Derlei, às 13h05. Parei para um dedo de prosa com eles e depois um lanche.

ImagemTrecho de mata atlântica na Trilha dos Tropeiros

Prossegui a caminhada às 14h cruzando a porteira e imediatamente tomando a esquerda na bifurcação pois a direita me levaria a uma estrada. Desci pelo campo de capim baixo até cruzar uma porteira e a seguir o Córrego Capivari Pequeno pelas pedras. Subi a outra encosta, ultrapassei um trecho de mata onde a trilha dá uma guinada para a esquerda (sul) e consigo ver finalmente o Pico do Itambé, porém bastante encoberto por nuvens. A trilha atravessa um campo onde vacas pastavam e cruza um alagado, voltando a subir. Duas trilhas de vaca entroncam à esquerda, onde uma seta branca foi colocada para orientar quem faz a travessia ao contrário. Atinjo o ponto mais alto do dia (1372m) e às 15h41 cruzo uma porteira e começo a descer. Visualizo bem distante o Pico do Raio, meu destino no dia seguinte a caminho de Milho Verde. Começa um trecho da travessia que acho muito bonito: um enorme vale se abre à minha direita e a trilha tem visão panorâmica dele, contornando toda sua extremidade sudeste. Logo depois de uma tronqueira à esquerda (que não cruzo, apenas sigo em frente) vou à direita na bifurcação pois a esquerda se fecha logo. Já na bifurcação seguinte, às 16h35, tanto faz a direita ou esquerda pois se juntarão poucos metros à frente. Ali há muitas formações rochosas estranhas e curiosas também, e a trilha avança por um corredor entre elas. Na bifurcação seguinte tanto faz descer à direita ou à esquerda também, e a visão se abre à frente para a vila de Capivari, distante ainda 2,6km (em linha reta).

Na descida, cruzo uma porteira e acompanho a cerca para a direita por cerca de 550m. Logo depois já vejo Capivari um pouco mais perto, descendo suavemente até a estrada, aonde chego às 17h15. Desço para a direita (conforme a seta branca indica) e atravesso um outro trecho com formações rochosas à beira da estrada, dos dois lados, estas bem altas. Às 17h40 passo pelas primeiras casas do povoado e em 3 minutos entronca uma estrada à direita, onde há um mata-burro e a estrada trifurca. Das três opções tomei a da direita, chegando às 17h50 ao "centro" da vila, onde procurei a casa do Renato pois ele tem receptivo familiar (http://www.turismosolidario.com.br). Podia ter ficado novamente na casa do Gonçalo e da Noeme, que me receberam muito bem da outra vez, mas quis conhecer e conviver um pouco com outra família. O Renato já foi funcionário do parque e é dono das terras onde fica a Cachoeira Tempo Perdido. Seu receptivo familiar é praticamente uma pousada, com os quartos independentes da casa e com banheiro privativo. O jantar ficou por conta de sua esposa Franciene, que mesmo de improviso, caprichou.

No dia seguinte fiz a travessia dali de Capivari a Milho Verde com um desvio para subir o Pico do Raio. Essa caminhada será relatada em breve.

Altitude de 1180m.
Nesse dia caminhei 15,1km.
A maior altitude do dia foi 1372m.

Total da travessia: 84,7km

ImagemTrilha dos Tropeiros

Informações adicionais:

Horários do ônibus de São Gonçalo do Rio Preto (Pássaro Verde - http://gabrasil.com.br/site):
. Diamantina-São Gonçalo:
seg e sex - 6h, 11h45, 14h45, 15h
ter, qua e qui - 6h, 11h45, 14h45
sáb - 6h, 11h45, 15h
dom - 6h, 15h, 16h
. São Gonçalo-Diamantina:
seg e sex - 6h55, 7h25, 10h45, 17h55
ter e qui - 6h55, 10h45, 17h55
qua - 6h55, 10h45, 17h55
sáb - 7h25, 17h55
dom - 7h25, 10h45, 11h25, 17h55

Horário do ônibus de Capivari (Transfácil - 38-3541-4091):
. Serro-Capivari: seg a sex - 12h30
. Capivari-Serro: seg a sex - 5h45
sáb, dom e feriado não há

O site oficial do Parque Estadual do Rio Preto é http://www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/196 e do Parque Estadual do Pico do Itambé é http://www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/206.

De São Gonçalo do Rio Preto à portaria do parque são 13km de estrada de terra, e dali mais 4,6km até o centro de visitantes, camping e restaurante.

Não há ônibus até a portaria do parque. O táxi custa R$70. Os contatos são: Edmundo - fone 38-9978-4551 e João - fone 38-9971-4456.

Em São Gonçalo do Rio Preto há vários hotéis e pousadas porém na noite que passei lá só a Pousada São Gonçalo estava funcionando. Fica na parte de cima de um sobrado onde há uma mercearia, e o dono de ambos é o Hermes. A diária é de R$30 com WC privativo e café da manhã.

Em São Gonçalo do Rio Preto e Capivari há o programa de receptivo familiar. Mais informações no site http://www.turismosolidario.com.br. Em Capivari o valor da diária é R$45 para hospedagem com café da manhã.

O Parque Estadual do Rio Preto funciona de terça-feira a domingo das 7h às 17h. Não abre às segundas-feiras (em feriados sim), mas quem está acampado ou hospedado dentro do parque pode fazer os passeios normalmente, inclusive com os condutores.

Os passeios curtos (Prainha, Poço do Veado, Poço de Areia e Forquilha) podem ser feitos sem condutor. Para as cachoeiras mais distantes (Crioulo, Sempre-Viva) e Corredeiras do Rio Preto é obrigatório o acompanhamento de um funcionário do parque e as saídas ocorrem às 9h, 10h e 11h (para as corredeiras somente às 10h).

O camping, o alojamento e a travessia do parque para a Chapada (limite sul) devem ser agendados com antecedência pelo telefone 38-9976-5621 ou e-mail antonio.almeida@meioambiente.mg.gov.br.

O Parque Estadual do Pico do Itambé funciona de quarta a segunda-feira das 8h às 17h. Para subir o Pico do Itambé é preciso solicitar autorização com pelo menos 24h de antecedência, seja com pernoite ou não, seja por Santo Antônio do Itambé ou por Capivari. O telefone é 33-3428-1372 e o e-mail é peitambe@meioambiente.mg.gov.br. Para fazer a travessia Santo Antônio do Itambé-Capivari pela Trilha dos Tropeiros também é necessário pedir autorização com 24h de antecedência. A única área de acampamento do parque fica no pico, por sinal bem pequena e com água de acesso meio complicado.

Ambos os parques são bastante monitorados e vigiados, e os funcionários se comunicam o tempo todo por rádio. No Rio Preto as trilhas longas são sempre acompanhadas de um condutor, no Itambé não, nem mesmo o pernoite no pico é mais acompanhado de um guarda. Mas independentemente disso eles sempre sabem onde você está e para onde está indo. Para quem não gosta de ser monitorado dessa forma, isso pode causar certo incômodo. Não é o meu caso. Apesar de costumar fazer trilhas sozinho e com roteiro próprio, não me incomodou essa situação. A beleza desses parques e da travessia em si compensa tudo.

Carta topográfica de Rio Vermelho: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -Z-B-I.jpg

As denominações de rios e serras usadas aqui foram extraídas das cartas topográficas do IBGE e podem não coincidir com as denominações dadas pelos moradores da região, ou podem mesmo estar erradas. O Rio Preto, por exemplo, aparece na carta com o nome de Córrego Taioba.

Rafael Santiago
maio/2015
http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

ImagemPercurso no PE do Rio Preto na carta topográfica


ImagemPercurso no PE do Rio Preto na imagem do Google Earth


ImagemPercurso do 1º dia na carta topográfica


ImagemPercurso do 1º dia na imagem do Google Earth


ImagemPercurso do 2º dia na carta topográfica


ImagemPercurso do 2º dia na imagem do Google Earth


ImagemPercurso do 3º dia na carta topográfica


ImagemPercurso do 3º dia na imagem do Google Earth


ImagemPercurso do 4º e 5º dia na carta topográfica


ImagemPercurso do 4º e 5º dia na imagem do Google Earth

#1128278 por rafael_santiago
06 Out 2015, 12:15
Grandes planos para esse final de ano, hein, Fábio! Essa é uma caminhada que merece ser feita mesmo, pois une dois lugares belíssimos do interior mineiro, um pico de grande destaque e um parque muito bem cuidado e pra lá de bonito.
Tomara que o relato seja útil.
Boas trilhas!

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