Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#591537 por divanei
25 Mai 2011, 14:44
Dando prosseguimento as explorações na região de Campinas, relato abaixo trilha que parte do seu ponto culminante.

TRILHA CAMINHO DAS CABRAS

Quando estou de bobeira, sem nada pra fazer, pego minha filha e minha barraquinha e vou acampar no Pico das Cabras. Para quem não conhece ou é de fora da região metropolitana de Campinas, o Pico das Cabras é o ponto culminante do município, com 1.100 m de altitude e se localiza no distrito de Joaquim Egídio, lugarejo pacato, cercado de muito verde e pequenas montanhas. Para alcançar a montanha basta pegar a estradinha em direção ao observatório de Capricórnio, pois o pico fica enfrente.

Quando me sentava na Pedra Mor, que é a principal formação rochosa do local, ficava imaginando se não haveria uma trilha que pudesse nos levar até o fundo do vale, correr para leste e depois voltar a subir por dentro da floresta e reencontrar novamente a Pedra mor. Quem olha lá de cima da pedra vê uma grande extensão de mata fechada que toma toda a face sul da montanha. Eu até tentei descer uma ou duas vezes pela trilha que parte para o sul, que nada mais é do que uma antiga estradinha desativada a muito tempo do qual a floresta não tarda em tomar de conta, mas por estar acompanhado sempre da minha filha, ainda muito pequena para agüentar uma trilha mais inclinada, nunca passamos de pouco mais de uma hora de caminhada. Perguntando para o pessoal da região nunca consegui nenhuma informação que esta tal trilha realmente existisse. Comecei então a vasculhar no geogle heath para ver se conseguia localizar uma possível rota, mas quando chegava à parte que tinha que atravessar a floresta montanha acima, nenhum caminho possível eu encontrei. Então decidi pegar minha bússola e ir lá investigar e se fosse preciso, atravessaria aquela floresta no peito, encontraria um caminho de qualquer jeito.

Como tem gente que acredita até em Papai Noel, convidei um amigo do trabalho para me acompanhar, dizendo que iria fazer uma caminhadinha domingueira, só pra aliviar o stress. Até então o único mato que o Fábio havia visto na vida, era a samambaia da sua mãe. Havia convidado também um casal de amigos que sempre estão acostumados a caminhar comigo, mas como que já prevendo a furada em que iam se meter, desistiram na última, casalzinho esperto esse. (rsrsrsrsr)

Conforme o combinado, às sete horas da manhã peguei o Fábio e rumamos para Joaquim Egídio e as oito horas encostamos o velho NIVA no estacionamento do Pico das Cabras, onde funciona hoje um pequeno centro de eco turismo , que nada mais é do que um posto de cobrança de entrada para a área da montanha.. Com os cantis já cheios, não perdemos tempo e rumamos logo para o início da trilha que nos levaria até a Pedra Mor. A trilha sai atrás do centro, passa por um pequeno mato burro azul, no qual o meu amigo Fábio passa com cuidado para não perder a vida, e segue em nível. Passamos por uma enorme pedra a esquerda, chegando a uma bifurcação. A trilha da direita segue para a Pedra da Águia e a esquerda, conforme indica a placa, segue para a Pedra Mor. Seguimos, portanto para a esquerda subindo por uma grande língua de pedra em direção a matinha, onde atravessamos a clareira que serve de acampamento. Pegamos a trilhinha em frente e em mais um minuto já estamos encima da Pedra Mor. A visão lá de cima é muito legal, avistando parte da cidade de Itatiba. Fizemos uma pausa para apreciar a visa e estudar o tosco mapa que eu tinha tentado montar consultando o terreno pelo satélite.

Seguimos caminhando por cima da pedra no rumo oeste, ou seja, pela direita. Reencontramos a trilha que desce da clareira de acampamento e descemos a esquerda. A trilha é bem batida, pois é muito usada. Ela vai descendo e em alguns minutos encontramos uma bifurcação à esquerda, que nos levará até a parede rochosa que é usada pela galera do rapel. Voltamos de novo à trilha e em mais cinco minutos desembocamos na larga trilha, que na verdade já foi uma estradinha. Caminhamos agora no sentido sul por dentro da mata. Mata muito exuberante, onde com um pouco de sorte é possível avistar vários macacos e diversos pássaros. È uma delícia caminhar por esta paisagem extremamente verde e úmida com ar puríssimo. O caminho é tranqüilo e só vez ou outra é preciso desviar pela lateral para escapar dos atoleiros, onde tatu de chuteira atolaria. Não demora muito, interceptamos o riacho de águas cristalinas onde fizemos uma parada para matar a sede e fazer um lanche. Pouco tempo depois a trilha vira para a esquerda, sobe mais um pouco e então chegamos a um vestígio de porteira, dizendo ser proibido a entrada, mas como nós estamos saindo, não temos com que nos preocupar. A mata acabou e agora caminharemos em área de reflorestamento, mas antes será preciso localizar o caminho por dentro do mar de eucalipto.

Seguimos por mais uns 10 minutos tentando localizar a bendita estrada, mas não encontramos nada. Então resolvi subir o barranco a nossa direita na esperança de conseguir ver alguma coisa. Avistei um pedaço de terra desnudo ao longe e decidimos chegar lá varando mato no peito, nos guiando pela bússola. Guinchei meu amigo Fábio barranco acima e fomos cortando por dentro do eucaliptal até chegarmos a uma área com mato onde tivemos que sacar o facão da mochila e dar início a desgraçada travessia por dentro do capim gordura. Eu odeio capim-gordura! Aquele negócio grudento vai colando na roupa da gente e emporcalhando tudo. Caminha-se muito devagar, pois o pé vai enroscando no capim e não é raro você acabar com a fuça no chão. Levamos um bom tempo pra sair daquela quiçaça, mas finalmente encontramos a estradinha que eu havia avistado lá de cima do barranco. É uma estradinha bem aberta, mas totalmente isolada, que provavelmente só é usada quando o eucalipto tem que ser cortado e o fato de não a termos encontrado quando saímos da mata é porque muito provavelmente ela não tem nenhuma ligação com a outra estradinha lá embaixo. A estradinha abandonada vai subindo e quando chega ao alto é possível avistar toda a imponência da Pedra Mor, local de onde partimos pela manhã. Então a estradinha vira a direita e começa sua grande descida até a sede da fazenda. Nossa caminhada prossegue muito devagar, quase parando, pois vamos estudando bem o caminho, tentando decidir qual o melhor caminho a pegar, em direção a montanha, ou seja, para o norte-nordeste. Quando passamos por eucaliptos jovens, pulamos uma porteira de arame da própria estrada por onde caminhávamos e logo á frente, 300 metros antes da estrada acabar em outra bem maior, viramos a direita até chegarmos à outra porteira de arame. Passando a porteira, a estrada acaba em outra e então viramos a direita, já que para a esquerda sairíamos na estrada principal da fazenda.

Bom, nosso passeio terminou daqui pra frente o caminho seria uma incógnita, teríamos que encontrar um caminho que pudesse nos levar de volta ao topo da Serra, mas precisamente na direção da Pedra da Águia. Mas como? Por onde? Que caminho tomar? Que rumo seguir? Com o tosco mapa nas mãos só tinha uma coisa a fazer, seguir a direção da bússola. Teríamos que nos apegar àquele rústico instrumento inventado a mais de mil anos e não nos separarmos dele até atingirmos o nosso objetivo. Azimutei o treco para 25 graus e seguimos enfrente pela estradinha e então viramos a esquerda no próximo caminho mais aberto, passamos pelo riacho e na próxima bifurcação seguimos para a direita até chegarmos a uma trifurcação. Apontei a bússola para a direção desejada e escolhi o caminho do meio. Esse caminho deve ter sido a muitos anos uma estrada, mas hoje não passa de uma trilha com mato de dois metros de altura.Do lado esquerdo mata fechada , do direito eucalipto. Fomos seguindo, abrindo caminho a facão e então chegamos ao que parecia ser um cemitério de vaca. O tamanho do mato aumentou e alguns minutos depois chegamos a uma cerca com arames caído no meio da trilha. Olhei para cerca e conferi a bússola. Ela seguia direto para norte. Não pensamos duas vezes, tomamos a decisão de acompanhar aquela decrépta cerca enquanto ela fosse para a direção que nos interessava. Ás vezes a cerca desaparecia e era preciso farejar algum vestígio para não perder o caminho no meio da mata fechada. A cerca foi construída usando uma rampa natural no meio da mata, onde dois vales corriam ao seu lado.
O coitado do Fábio, desacostumado com caminhadas montanha acima, sofreu nessa subida. Suava em bicas e se apoiava em um pedaço de pau, que ele usou como cajado. A caminhada então segue muito lenta com paradas constantes para retomar o fôlego. Quase uma hora depois de começarmos a subir, localizamos um marco divisório de propriedade e logo em seguida outros foram surgindo. A cerca sumia e desaparecia constantemente, pois em alguns pontos os arames já haviam sido carcomidos pelo tempo ou estavam enterrados por baixo da vegetação. Umas 2 horas depois começaram a aparecer grande matacões, parecendo que estávamos muito perto do topo, mas foi aí que a nossa querida amiga cerca começou a tomar um rumo totalmente diferente do nosso. Pensamos em abandoná-la e varar mato no peito na direção indicada pela bússola, mas felizmente logo à frente ela voltou a segui para o norte, pra nossa sorte.

A subida arrefece um pouco e até da uma descidinha quando passa por alguns pés de coqueiros, vira a esquerda e logo desemboca em um caminho bem aberto. Saímos em mais uma estrada abandonada, que virou trilha. Pegamos para a direita, sempre seguindo o sentido da bússola. A trilha-estrada vira novamente para a direita, passa por uma língua de pedra que parece um concreto e volta a subir fortemente. Passamos então por cima de muito mato que interdita de vez a estrada e em mais alguns minutos avistamos um poste de uma casa, denunciando nossa chegada á civilização.

Quando chegamos a cerca da casa tivemos uma grande surpresa. Depois de vagarmos por mais de 3 horas no meio do mato, sem sabermos realmente onde estávamos, fomos sair bem enfrente a Pedra da Águia, juntamente no local que eu havia marcado no mapa, nem um metro a mais nem um metro a menos. Foi uma navegação perfeita, se tivéssemos com um GPS, não teria sido melhor. Ficamos felizes de termos conseguidos nosso objetivo. Estava estabelecida uma conecção ente o vale e a Pedra da Águia, a trilha que faltava havia sido encontrada. Havíamos estabelecido uma nova caminhada para um dia inteiro, coisa que estava faltando nessa região tão carente do que fazer e ainda abrimos a possibilidade de descer por esta estradinha de volta ao vale aumentando ainda mais o percurso. Pode até ter sido uma grande sorte ter encontrado a trilha lá embaixo no vale subindo a serra por dentro da mata. Mas a nossa atitude de ir lá investigar sem nunca terem nos dito nada não tem nada a ver com sorte, o nosso faro de exploração foi o que realmente contou.

Voltando ao ponto em que paramos, ainda faltavam uns 200 metros para chegar a Pedra da Águia e depois mais um 200 m para voltarmos a Pedra Mor. Pulamos a cerca e passamos em silêncio para não chamar a atenção dos moradores da casinha branca. Cruzamos pelo abandonado campo de futebol até chegarmos à cerca, já aos pés da Pedra da Águia. Pulamos a cerca e em mais 5 minutos estacionamos nosso esqueleto cansados na famosa formação rochosa. Uma pedra mais baixa junto a laje de pedra, da nome a formação, uma cabeça de águia, basta ter um pouco de imaginação.

Da Pedra da Águia tomamos o trilho nítido em direção a Pedra Mor, mas ao invés de irmos até lá, viramos a esquerda e fomos comprar uma coca-cola no centro de turismo e só então voltamos para a Pedra Mor para comemorar nossa conquista. O Fábio estava claramente destruído, mas é mais que compreensível, já na sua primeira vez teve que enfrentar um perrengue daqueles. Sinceramente não sei se ele voltará a me acompanhar de novo, mas com certeza se lembrará por muito tempo do dia em que resolveu abandonar a medíocre civilização e se lançar em um mundo novo, de contemplação e encontro com sigo mesmo, de encontro com a mais pura das liberdades, do encontro com o fascinante mundo das montanhas.

Divanei Goes de Paula maio/2011

fotos : http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid= ... 1306146800

#591615 por divanei
25 Mai 2011, 17:06
Opa , fala Otávio !!!
Infelismente não o mesmo privilégio que você tem de morar tão perto da Serra do mar, junto a estas montanhas fabulosas, quase coladas a Curitiba e então tenho que me virar com o que tenho perto de casa , aí eu aproveito pra brincar no quintal , rsrsrsr. Um abraço
#621848 por gvogetta
09 Ago 2011, 19:41
Olá Divanei!

Bacana a região. Já andei por Campinas e imediações e nunca havia ouvido falar nessa área... Achei as vistas mostradas nas fotos bem legais.
Muitas vezes nos surpreendemos com passeios simples e bacanas que podemos fazer bem perto de nossas casas, praticamente sem custo e com poucos deslocamentos.
Parabéns pelo espírito "bandeirante" e pelo relato bacana de sempre.

Abraço,
#622839 por divanei
12 Ago 2011, 16:12
É Getúlio,
Joaquim Egídio é uma ilha de tranquilidade , realmente nem parece que pertence a Campinas, que é uma das maiores metrópoli do Brasil. Existe muitos lugares escondidos, as vezes fechados por alguma fazenda particular, mas como na maioria das vezes as sedes destas fazendas ficam a quilometros dos lugares a serem explorados e sempre ha alguém muito curioso pra saber o que tem la dentro..............você já sabe no que vai dar né ? rsrsrsrsrsr
Imagem
#919864 por Zé Medelin
21 Jan 2014, 16:48
Boa tarde!

Se alguém for, favor me avise!!! Estou muito afim de conhecer tb! Sou de Campinas

Abraços!

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