Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#399699 por Jorge Soto
04 Set 2009, 16:42
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http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/7

TRILHA DO PINHAL: O DESCAMINHO DO PLANALTO
Ao contrario da Bocaina e suas muitas “Trilhas do Ouro” dando no litoral, a Mantiqueira sempre teve poucas picadas q ligassem a vasta planicie do Vale do Paraiba ao planalto de Itatiaia. Principalmente devido à restricoes do parque homônimo, q limita este acesso apenas à “Trilha Rui Braga” (q sobe ate o abrigo Rebouças), há tb outra picada paralela q sai de Engº Passos e leva igualmente aos campos de altitude do ilustre parque. É a “Trilha do Pinhal”, antiga vereda q fora roçada (e cunhada deste nome) pelo Sergio Beck devido ao fato de acompanhar o vale ascendente do Ribeirao do Pinhal. Assim, movidos pela curiosidade em buscar vestigios deste antigo carreiro, resolvemos explorá-lo este fds galgando as encostas serranas apenas até onde os limites do parque nos permitiram. Resultado: constatamos q uma bela opcao de bate-volta trekkeiro está relegada ao descaso e sem fiscalização alguma, pois tornou-se território de transito livre e irrestrito de outro tipo de “andarilhos”. Caçadores.

O dia estava perfeito qdo deixamos a Dutra em direcao à Engº Passos, onde nos deparamos com a gde muralha imponente da Mantiqueira silhuetada pelo ceu azul daquele sabado promissor. Mesmo sonados por madrugar pra render na ardua caminhada q teriamos pela frente, o visual inspirador da montanha imediatamente nos revigorava. Assim, após cortar pra estradinha da Faz. Sta Helena, deixar o carro na frente da porteira da bucolica Faz. Rio das Pedras e alongar o corpo mole, eu, Mamute, Roberta e Báh (Barbara) damos inicio efetivo à pernada, pontualmente as 8:20. O gps aponta exatos 830m.
Cargueiras nos ombros, bastou aqui tocar estrada acima, por sua vez ornada de belas maria-sem-vergonha, em suave aclive. Num piscar de olhos deixamos os morros desnudos de pastagens p/ ganhar a outra encosta da montanha, acompanhando efetivamente o verdejante Vale do Ribeirao do Pinhal no frescor matinal da mata, como seu ruidoso riacho correndo serra abaixo, à nossa esquerda. Deixamos pra tras qq vestigio de fazendas e sitios e nos vemos numa precaria estrada envolta de muito mato, onde esbarramos com um matuto local. “Vão la pra cima? Cuidado com a onça!”, nos alerta.

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A estrada entao emerge brevemente da mata num descampado de araucarias, sentido nordeste, e nos brinda com um belo visual do Pico das Prateleiras, reluzindo pequenino no alto. Olhando pra tras, a silhueta acidentada da Serra Fina recortando o céu azul deixa a Báh louca pra um dia se ver percorrendo sua famosa crista. Mas hj nosso destino é outro e novamente a estrada se enfia na mata. Após cruzar uma precaria ponte de troncos, pela qual o Rio Pinhal passa embaixo pra agora nos acompanhar pela direita, nos enfiamos numa discreta picada em meio à mata, à direita, enquanto a estradinha desvia p/ esquerda, as 9:15, na cota dos 1100m.
Envoltos no frescor da mata, a picada sobe suavemente (p/ leste) a encosta direita ao mesmo tempo em q o som do rio se perde aos poucos, la embaixo. Após contornar alguns bambus e troncos caidos no caminho, nos vemos numa bela crista florestada, galgando cocoruto tras cocoruto. A partir daqui, a picada eventualmente torna-se menos batida e pouco obvia, mas prestando atencao e tendo algum farejo, ela ressurge logo adiante, p/ felicidade geral. Aqui tb o q ajuda (e muito) são algumas marcacoes de fitas na vegetacao, q comecam a aparecer indicando o sentido a seguir.
Após descer um selado desta crista ascendente, a picada sobe forte ate ganhar desta vez a encosta esquerda da montanha e dali andar em nivel durante um tempo. As 9:50 esbarramos com um pequeno córrego, q molha nossa goela ressequida, pra dali continuar pela crista florestada supracitada. O caminho comeca a apresentar bifurcacoes e algumas derivacoes laterais, mas basta manter-se na principal e, ao dar numa pequena clareira marcada por uns pequenos frutinhas no chao, tomar a ramificacao da direita.
Um pequeno trecho de brejo antecede uma nova e puxada subida, q vencemos aos ziguezagues, ate derivar novamente pra encosta direita serrana. Ao atingir a cota dos 1430m, o desuso da trilha e a presenca de alguma mata tombada ou invadindo o caminho torna-se regra, gerando duvidas e muitas paradas pra farejo da mesma, as 10:20. Desde pequenas roças de urtigas, voçorocas de bambus das quais desviamos ou passamos por cima delas, até uma gigantesca arvore caida no caminho, q é contornada com relativa dificuldade. Mas com bom senso e mta paciencia, a picada é novamente reencontrada logo adiante. Tênue, porem presente, principalmetne pela presenca das benditas fitas, já carcomidas pelo tempo. Pra sanar isto, vamos deixando novas marcacoes pra principalmente não termos dificuldade na volta. Destaque pra fitas em forma de “lacinho” deixados pelas meninas.

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Uma breve piramba frontal repleta de lama é vencida aos ziguezagues, as vezes com auxilio das maos, mas q nos despeja novamente pra encosta direita da serra. E assim sucessivamente. Mas nos idos dos 1600m a trilha arrefece, pra alivio das pernas. Mas pra suplicio das costas, surgem os medonhos tuneis e voçorocas de grossos bambus e finas taquarinhas, q nos obrigam a agachar e engatinhar por largos trechos. Emergindo daquele emaranhado de obstaculos, a picada torna-se mais amena e agradavel, sempre em meio à floresta e derivando novamente pra encosta esquerda da montanha, onde ouvimos claramente a algazarra de macacos no fundo do vale. No caminho, varias embalagens de racao de cachorro acusam a presenca de caçadores na regiao. Estariamos proximos de algum acampamento? Vejamos..
Ao meio-dia ganhamos o alto dos 1720, onde a picada nivela e bordeja a encosta direita da crista, alternando suaves sobe-desce. A mata já não é tao densa e se mostra relativamente reduzida como bem ressequida, excecao feita apenas as enormes e belas araucarias, q surgem em profusao, e de onde um jacu maroto sai voando apenas pra nos dar um susto. Eventuais frestas na vegetacao nos revelam belas panoramicas tanto dos contrafortes serranos do entorno como de td extensao do Vale do Paraiba, ao sul. Meia-hora após cruzamos com um discreto corrego escondido nos arbustos, e na duvida se encontrariamos agua mais adiante, enchemos nossos cantis como garantia pro nosso pernoite, seja ele onde fosse.

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Ainda bordejando desimpedidamente a encosta forrada de araucarias desta bela crista, surgem mais evidencias de caçadores: vestigios de arapucas e “jiraus de espera”, com providencial escada de paus amarrados rusticamente entre dois troncos proximos. Porem, mais adiante surge uma bifurcacao, com a ramo da direita barrada por fitas amarelo-preto. Porem, como nosso sentido era justamente este ultimo, ignoramos esta fita e tocamos em frente. Não tardou e após andar por breve tunel de bambus descobrimos o motivo da sinalizacao proibindo o acesso até ali: ao lado de um bem-vindo corrego, uma clareira escondia um pequeno acampamento de caçadores! Pra evitar sermos recebidos c/ chumbo no alto dos 1800m, batemos palmas pra anunciar nossa presença, mas felizmente o dito cujo tava vazio. Uma lona de plastico cobria uma rustica tenda, com algum material pessoal, roupa e alguma comida ensacada, alem de um fogao de pedra bem simples.
Voltamos entao a bifurcacao anterior e tomamos a ramificacao da esquerda, onde descemos um tanto apenas pra breve marcha nos despejar noutra clareira abandonada com restos de parecia ser outro acampamento de caçadores, onde uma reliquia de lampiao pendurado na arvore indicava q ali já houvera alguma “ infra” maior. Porem, dali nascia outra picada q ao inves de subir, descia, sentido norte. Caminho errado. As 13:40 as duvidas qto a continuidade da trilha surgem, e ali mesmo nos damos um pit-stop pra descanso e lanche, alem de traçar alguma estrategia p/ seguir em frente. Duro mesmo era se manter parado, pois nuvens de moscas não nos davam sossego tal qual praga biblica, atestando a presenca de alguma carniça, embora nossas narinas não sentissem mau odor algum.

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Decidimos entao voltar ao acampamento anterior e dali azimutar a bussola na direcao desejada (nordeste) e tocar adiante, abrindo mato no peito, ate reencontrar vestigios da picada.Entretanto, bastaram poucos minutos de suada ralaçao pra perceber q essa não era a opcao mais inteligente, e dali optamos por buscar alguma picada saindo dali q contornasse as vossorocas gigantescas de bambus e taquaras ressequidas q bloqueavam nosso avanco. Bingo. Numa das extremidades da tenda partia, discretamente, outra trilha em meio ao bambuzal q bastou acompanhar e, com dificuldade inicial, nos levou a uma picada mais roçada onde o avanço era desimpedido e tranquilo.
Ao atingir a cota dos 1800 desembocamos noutro “ jirau de espera”, com varias trilhas q caiam noutros restos de acampamentos! Pelo jeito, aquela crista era dominada por caçadores! Entretanto, uma dessas picadas estava assinalada por uma fita vermelha carcomida q, dividindo o tronco com um belo exemplar de bromelia, era uma das remanescentes fitas do Sergio Beck, q passamos a acompanhar nos levando a galgar mais um degrau daqueles contrafortes serranos. Nossa prioridade era sair dali, pois não desejavamos topar com os “senhores” daquele pedaço, principalmente pelo fato do Mamute ter tido uma experiencia nada agradavel com os mesmos noutra ocasiao, com direito a espingarda apontada na cabeça na frente de uma queixada pendurada com as visceras expostas, nalgum lugar q pelo q se recordava era proximo dali.

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Após cruzar o mesmo corrego do acampamento anterior, porem bem mais acima contornando o taquaral medonho, a trilha ganha declividade consideravel ate vencer um novo e amplo cocoruto de serra. Dali bastou seguir a picada obvia cujo sentido era reforçado pelas antigas e opcas fitas depositadas nos galhos das poucas arvores avulsas, agora nos idos dos 1900m. Entretanto, percorrendo a picada não tardou pra ela sumir ou o mato em profusão bloquear nosso avanço. Refizemos o trajeto dos últimos 50m umas 4 ou 5 vezes até terminar entregando os ptos, sem encontrar vestígios da continuidade da dita cuja. Mas certamente a mesma ressurgiria mediante alguma ralaçao, sem duvida! Afinal, nos restavam menos de 800m pra sair da mata e ganhar a crista rochosa, já na base oeste de Prateleiras, onde meros 4km nos separavam do Refúgio Massenas, em linha reta. Mas é aqui q estacionamos em definitivo e com a devida sensatez, quase as 17hrs. Não pelo fato da picada se ver obstruida pelo espesso mato, mas pq a partir daqui estariamos (se já não estávamos) dentro dos limites do PARNA Itatiaia, segundo a plotagem grosseira e aproximada q traçamos de um mapa oficial, no gps. A olho nu, diga-se de passagem. Portanto, fim da linha. Mas daqui tb era possível encantar-se com as janelas na mata emoldurando o imponente Pico das Prateleiras reluzindo ao sol de final de tarde, à apenas 2km de onde nos encontrávamos, alem dos alvos paredões verticais do Morro do Couto. Isto é, a pernada ate ali já havia valido a pena.
Pelo fato do terreno apresentar-se levemente inclinado, nossa única opção de pernoite foi de bivaque em rede, so assim conseguimos dividir o escasso espaço livre c/ arvores de pequeno porte, bambus e enormes troncos de araucarias. Fico imaginando o chão nos meses de abril e maio, forrado de pinhão! Pois bem, fatigados tanto pela noite anterior mal dormida como pela pernada ate ali, nos recolhemos cedo a nossos respectivos aconchegos após beliscar alguma coisa, c/ destaque pro Mamute e Roberta, q ansiavam por estrear suas redes. A Báh mal montou a dela e sumiu em meio ao seu saco de dormir, tal qual uma lagarta, know-how adquirido no Pico da Neblina.

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A noite caiu e trouxe consigo uma queda brusca de temperatura, q nos obrigou a trajar tds os abrigos q dispunhamos. Dormi relativamente bem, apenas p/ mudar de posicao diversas vezes como pra ensacar meus pés, q estavam pra lá de gelados, alem de despejar uma lagarta, q desejava dividir leito comigo! O belo luar era filtrado esplendorosamente pela vegetacao como tb iluminava os contrafortes serranos opostos em tons argenteos diversos. Os sons da noite, por sua vez, se limitavam ao misto do piado de uma coruja com o das fortes rafagas de vento sacudindo o arvoredo.
O domingo amanhece igualmente espetacular, as 6hrs, mas o friozinho matinal ainda nos prende por mais um tempo a nossos casulos suspensos. So comecamos a nos mexer qdo os primeiros raios do sol, nascendo explendorosamente atras das Prateleiras, adentraram na mata e aqueceram nosso espirito. Td mundo tinha algo a contar daquela experiencia noturna: O Mamute dormiu profundamente, mas jurou ter ouvido queixadas na mata; a Roberta prometeu não dormir mais em rede pelo desconforto, alem de ter escutado um chamado da Báh; esta, por sua vez, nem viu a cor da noite, pois desabou por 12hrs seguidas, embora tenha sentido algum frio.
Assim, após um rapido desjejum arrumamos nossas coisas e empreendemos o caminho de volta, as 7:50. Pois bem, já logo de cara tivemos alguma dificuldade e perdemos um tempinho buscando a picada de volta. O forte vento da noite anterior havia despejado mais mata seca sobre a vereda, q o dia anterior estava perfeitamente visivel! Voltamos alguns metros e nos separamos entao na busca da dita cuja, naquela crista florestada onde a perda do senso de direcao era bem facil. Felizmente as marcacoes deixadas foram fundamentais pra não ficar dando voltas em circulos.

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Encontrada a trilha, bastou descer desimpedidamente o resto, as vezes tomando picadas erradas, mas logo retomando a certa. E mesmo com os perdidos e recolhendo o lixo (na medida do possivel) deixado pelos caçadores, a descida terminou sendo mais rapida q a subida. As 9:10 alcancamos a bifurcacao obstruida com fita pelos caçadores, as 10hrs cruzamos a gde arvore tombada e as 11:10 caimos outra vez na estrada, quiça apressados por irritantes e inconvenientes mutucas q insistem em se banquetear conosco.
Chegamos no carro pouco antes do meio-dia, sob forte calor num sol de rachar, totalizando quase 20km de pernada e mil metros de desnivel! Ali tb conversamos com o simpatico Seu Maurelio, proprietario da Faz. Rio das Pedras q, preocupado em ver nosso veiculo largado, recomendou deixa-lo em sua propriedade e não na estrada, por segurança. Nos contou q sempre aparece trilheiro q se hospeda em sua fazenda pra empreender a travessia (proibida, claro) ate Mauá, mas q sempre terminam retornando frustrados, em fçao da picada confusa ou do mato caido já logo no inicio. Simpatizante de montanhistas, Seu Maurelio não poupa queixas aos caçadores, um problema daquela serra datado de muito tempo. Contou tb q já barrou a entrada dos mesmo trocentas vezes, mas q sempre terminam retornando por outros acessos. Lamenta o sumiço de muitas especies por conta disso, como tatus e aves q antigamente costumavam dar as caras em sua varanda.

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Nos despedimos do Seu Maurelio p/ tomar o asfalto de volta pra sampa, mas não sem antes passar em Engº Passos afim de comer e tomar algo, as 12:30.Chegamos na Terra da Garoa bem cedo, por volta das 15:30, ainda com tempo suficiente pra pegar um cineminha no final do dia, apenas p/ constatar q trouxera carrapatos a tiracolo, “souvenir” q vem se tornando comum das ultimas trips empreendidas.

Voltando à analogia da Serra da Bocaina, cujos vários descaminhos ligando a planície ao litoral serviam apenas pra contrabandistas burlarem a fiscalização da Coroa portuguesa, este outro descaminho ate o planalto de Itatiaia q atende pelo nome de “Trilha do Pinhal” hj tb parece burlar qq tipo de fiscalização (inexistente), já q caçadores circulam livremente com direito a acampamento fixo numa área, em tese, de preservação ambiental. Em contrapartida, montanhistas sequer são cogitados dentro dos limites do parque, tendo seu acesso rigorosa e sumariamente proibido.Travessia ate Mauá, nem pensar. Dessa forma, mais uma interessante opção de agradável caminhada ligando a planície à parte alta do mais famoso e antigo parque do Brasil é relegada ao descaso, largada aos caprichos de espingardas. A vereda poderia mto bem ser resgatada p/ uso montanhista, numa dupla missão de recuperação: da historia da mesma, pois certamente deve ter sido outrora largamente utilizada pelos “ desbravadores” do planalto; como de preservacao da natureza ao redor, longe de arapucas. E quem sabe assim a “Trilha do Pinhal” tenha seu chão - alem de forrado com o dito cujo - mais pisado de forma legal e consciente. Dessa forma, sob novas perspectivas, possamos um dia apreciar a beleza dos contrafortes serranos deste recanto privilegiado e deslumbrante da Mantiqueira sem receio algum.


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