Troca de informações e relatos de trilhas e travessias na região sudeste do Brasil. Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
#791846 por Kássio Massa
01 Jan 2013, 20:31
Trip realizada nos dias 29 e 30 de Setembro de 2012
Com:: Thiago Furtado e Fernanda F. / Funiculeiros

Confira a galeria de fotos completa desta trip!


"Desconhecido e temido, o Vale, finalmente vencido..."

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As inúmeras vezes em que pisei nos caminhos da região também conhecida como Serra do Meio, remota, compreendida entre Santo André e Cubatão, se resumiram a bate-e-voltas os quais agora posso considerar como exploratórios "picados", mas que por isso me permitiu situar de maneira interessante parte de uma expedição maior por aquelas bandas. Isto mesmo, ainda havia muito a ser desbravado por mim, fato já esperado, uma vez que estamos nos referindo ao Rio da Onça, sinuoso, que rasga a encosta serrana impiedosamente, até dar de encontro com o famigerado Rio Mogi, já em seu trecho mais brando, na planície, resultando assim numa magnífica e desafiadora travessia, conhecida por muitos como "Vale da Morte", com água em abundância em suas corredeiras e abismos, contrariando sua irmã árida californiana.

O Vale

Não é mito que esta é considerada pelos locais e por praticamente qualquer um que tenta desbravar os caminhos das matas de Rio Grande da Serra, Paranapiacaba e Cubatão como a travessia mais complicada, arriscada, desafiadora, e proporcionalmente bela e emocionante daquela região da Serra do Mar, mas não por isso seu sugestivo nome nasceu de seus obstáculos ou de acidentes e tragédias que hora ou outra vieram a ocorrer em seus cânions vertiginosos. Originalmente, o apelido "Vale da Morte" estava relacionado à tamanha devastação decorrente da atividade petroquímica desenfreada e não regulamentada desenvolvida no município de Cubatão, no sopé da Serra do Mar, que assim sendo, transformou boa parte da área referente ao Vale do Rio Mogi e também o Vale do Rio da Onça, o atual "Vale da Morte" em questão, num imenso corredor de natureza morta, um cenário em época quase apocalíptico que, felizmente, veio a se recuperar de forma surpreendente ao longo das décadas que se passaram.

O plano

Diversas investidas pela região me renderam certo conhecimento dos possíveis caminhos e variantes, no entanto, várias datas furadas devido a condições climáticas desfavoráveis ou mesmo compromissos extraordinários acabaram por engavetar esta travessia por tempo indefinido. Assim, fiquei sem pisar nas trilhas da Serra do Meio durante um hiato de quase um ano, até tomar conhecimento, por meio dos amigos Maycon E. e Tiago Furtado, de que os Funiculeiros (grupo de trilheiros do qual participam, originado em Paranapiacaba, que realiza incursões pela Serra do Mar e outras regiões e que busca manter viva a memória do trecho ferroviário abandonado da antiga São Paulo Railway, que outrora ligou Paranapiacaba a Cubatão, utilizando um sistema funicular para vencer o grande desnível serrano) também estavam traçando planos de realizar a descida da serra pelo Vale, e para esta fui convidado de antemão. Sem pensar uma segunda vez, acatei o convite de imediato, pois era o ponta-pé que me faltava para, finalmente, encarar o "suprassumo" das trilhas daquela extensão natural! ::hahaha::

A data fora marcada, com certa antecedência, para o final de Setembro daquele ano, e ainda viriam algumas tripzinhas básicas antes da aclamada data, tais como minha segunda travessia do Vale do Rio Mogi, a investida ao Vale do Rio Sorocaba e a escalaminhada da Cachoeira dos Pretos, todas realizadas com uma estratégica segunda intenção de treinar para o que poderia me aguardar naquele fim de mês.

Chegadas as vésperas do "dia-D", a euforia era grande entre os membros Funiculeiros e os não-membros na rede social. Havia uma espécie de tensão, muitas vezes, atenuada ou confundida com empolgações e expectativas, afinal, apesar de alguns ali, como Hassan, Fabrício e Paulinho, já terem vencido a travessia antes, uma grande parcela do pessoal não tinha sequer ouvido falar sobre tal região. Mas mesmo os mais conhecedores do Vale eram afetados por uma sutil insegurança, afinal, é uma região em constante formação, sujeita às ações do tempo, da água, do crescimento e do desaparecimento da vegetação local, enfim, na natureza nada é fixo, e esta é uma das principais lições para qualquer um que se disponha a encará-la.

Pouco a pouco, cada um foi se despedindo e se desligando da rede, afinal, já faltavam poucas horas para que todo aquele pessoal se jogasse, enfim, em meio à Mata Atlântica da Serra do Mar Paulista.

A partida

Psicológica, física e tecnicamente preparado, despertei-me às quase 5h daquela tímida manhã de Sábado e logo resolvi os últimos detalhes antes de me jogar pelas ainda escuras ruas de meu emergente bairro periférico. Um trajeto de ao menos uma hora, envolvendo ônibus e metrô, me separava do Furtado e de sua então parceira Fernanda, com os quais havia combinado de iniciarmos a trilha separados do restante do pessoal, que pretendia pisar na mata apenas no meio da tarde. Estava um tanto empolgado, já que planejamos iniciar a jornada por um caminho o qual ainda não havia tido oportunidade de conhecer, ou seja, desceríamos o Rio das Pedras, pelas quedas da Cachoeira da Fumaça, para acessar o "Portal", local de encontro entre este rio, o da Solvay e o Vermelho, e início definitivo, por consequência, do Rio da Onça. Como já pude relatar, já tive acesso ao início do Vale da Morte em meados de Novembro de 2011, quando desci aquele rio até um pouco depois da profunda Garganta do Diabo, mas naquela ocasião, o acesso ao tal rio teria sido feito pelo Rio da Solvay.

Às 6h10, devido a um pequeno atraso de minha parte ::bad:: , recebi um SMS do Furtado, alegando que tanto ele quanto a Fernanda já estavam no local combinado, a plataforma onde estaciona o trem da Linha 10-Turquesa, com sentido a Rio Grande da Serra, na Estação Brás, da CPTM. Felizmente, eu também já estava me dirigindo à plataforma, pois havia acabado de desembarcar do trem do Metro e feito a transferência para a ala da CPTM. Alguns poucos minutos depois, conseguimos nos encontrar e embarcamos no primeiro trem a vir a partir daquele momento. Após uma rápida, mas bem conversada viagem a bordo daquele confortável trem de fabricação espanhola, datado da década de 1970, chegamos à estação final da linha, Rio Grande da Serra, às 7h da manhã.

Sem muita pressa, caminhamos em direção ao ponto de ônibus da EMTU, onde embarcamos, após algum tempo de espera, no coletivo da linha 424TRO-Paranapiacaba, que nos deixou numa solitária parada em meio à Rodovia SP-122, estrada que conecta Rio Grande da Serra a Paranapiacaba. Por sorte, a pretendida "Trilha da Cachoeira da Fumaça" teria seu acesso logo ao lado daquela parada. Parece estratégico?! ::otemo::

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TRILHA DA FUMAÇA (AMARELO) / PONTO DE ÔNIBUS 100 APÓS
A ENTRADA DA TRILHA / R. G. DA SERRA A NOROESTE E PARANAPIACABA A LESTE

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Mata adentro

De forma ágil, mas descompromissada, avançávamos por aquele trecho inicial da Trilha da Cachoeira da Fumaça, também conhecido como "Trilha dos Tênis" devido aos diversos calçados pendurados em torres e antenas os quais o caminho, sempre empoçado e alagadiço, costura. De forma quase despercebida, o caminho ia se tornando cada vez mais "arrebentado", estreito e encharcado. Minha sorte é que, desta vez, contava com minha recém inaugurada bota tática, que poderia, talvez, me garantir alguma sequidão em meus pés. Bem, não foi o que aconteceu, fui pego por uma poça de água barrenta, com quase 30 centímetros de profundidade, que praticamente atolou meu pé direito ali. Beleza, o "perrengue" acabara de começar, mas bora nessa! ::putz::

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Em pouco mais de meia-hora de caminhada pelo trecho inicial quase pantanoso da trilha, o cenário já começava a mudar. A partir deste ponto, a trilha parecia se misturar organicamente com grandes lajeados rochosos que margeavam o leito por enquanto raso do Rio das Pedras - sim, já estávamos nele! -, chegando a até mesmo nos forçar a cruzarmos o rio de um lado para outro, sempre nos atendo às pedras de diferentes tamanhos que compunham seu fundo. Passamos pelo primeiro marco de referência, a Prainha da Fumaça, que tem seu nome justo devido a um vasto banco de areia que neste local acolhe as águas calmas e cristalinas do rio. A partir deste ponto, optamos por ignorar a trilha e seguir somente pela água, que já naquele horário, encontrava-se irresistível! E assim fomos, com água até a altura dos nossos joelhos, enfrentando uma série de obstáculos que, eventualmente, resultavam em inesperados "banhos forçados pela gravidade". :mrgreen:

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A Cachoeira da Fumaça

Já estávamos a quase uma hora e meia longe da "civilização" quando, finalmente, pudemos avistar o que parecia ser o fim daquela aparentemente interminável pulação de pedras fluviais. Pois, era! Ali, logo à frente, estava o mirante referente à cabeceira da Cachoeira da Fumaça. Saltamos pelos últimos metros daquele curso d'água e logo fomos prestigiados pela impressionante vista que agora tínhamos daquele topo de serra. De lá, podíamos avistar perfeitamente o caminho que nos aguardava, bem como toda a região metropolitana da Baixada Santista, em segundo plano, e por fim, quase se perdendo no horizonte, Oceano Atlântico! :o

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Eu, Furtado e Fernanda arranjamos um local propício para sentarmos e comermos algo, pois já eram 9h30 e havíamos vencido a primeira parte da travessia. O clima de tranquilidade daquele lugar só pairou sobre nós quando um numeroso grupo de escoteiros deixou o local do qual compartilhávamos naquele momento, e seguiu em nossa frente, para também descer a cachoeira. Portanto, fizemos mais alguma hora ali e jogamos papo fora, até que o grupo se distanciasse o bastante para que iniciássemos nossa descida tranquilamente e sem farofa desnecessária.

Uma hora depois, decidimos que era tempo de darmos continuidade à pernada. Arrumamos nossas mochilas e subimos uma ladeira à esquerda do rio, de onde uma trilha íngreme se projeta em direção ao fundo do vale e desce vertiginosamente a encosta serrana, sempre paralela às quedas d'água, audíveis a todo momento, hora á nossa direita, hora à nossa esquerda. Não nos preocupamos nem um pouco quanto ao horário, pois dispúnhamos do restante da manhã e de todo o período da tarde para chegarmos apenas até o cânion da Garganta do Diabo, onde faríamos nossa pernoite. Sendo assim, paramos em cada uma das sete principais quedas que compõem a Cachoeira da Fumaça, todas acompanhadas de refrescantes e cristalinas piscinas naturais formadas a partir de suas bases. Em algumas de nossas paradas, acabávamos alcançando os escoteiros que estavam à nossa frente, mas nem por isso a contemplação e a curtição do local ficava comprometida. A todo instante, era possível avistar o Rio da Solvay à nossa frente, nos aguardando cada vez mais próximo de nós, e acima dele, o majestoso Morro do Careca se impunha sobre toda aquela paisagem exuberante!

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Alcançando o "Portal"

Mergulhando de queda em queda, nos vimos, às 16h30, no encontro dos rios das Pedras, da Solvay e Vermelho, local também conhecido como Portal do Vale da Morte e início definitivo do Rio da Onça. Novamente, nos deparamos com o numeroso grupo que, praticamente, desceu a Cachoeira da Fumaça conosco. Porém, estes não prosseguiriam pelo mesmo rumo nosso, pois retornariam para a estrada pelo Rio da Solvay, enquanto nós seguiriamos no sentido oposto, descendo o rio até a Garganta do Diabo.

Ficamos durante algum tempo no Portal, onde finalmente preparamos um prato um pouco mais decente - miojo -, em uma humilde panela trazida pelo Furtado. Bem, refeições teríamos de sobra, pois todos nós estávamos bem munidos quanto a isto.

Após o breve pit-stop, demos seguimento à nossa descida de rio, agora descendo ligeiramente as pedras maiores do Rio da Onça, e não demorou muito para encontrarmos um pessoal que estava acampando encima de uma rocha um pouco mais plana na beira do rio. Inesperadamente, fui reconhecido por um deles, Renan Prado, até então, amigo de rede social, que disse estarem la para atacar a Garganta do Diabo no dia seguinte ::cool:: . Conversamos com seu pessoal por mais alguns minutos, mas nos despedimos em seguida, pois o Sol já apresentava sinais de que queria nos deixar na mão, e quando isso acontece num lugar como onde estávamos, é bom ficar esperto!

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A Garganta do Diabo

São menos de 600 metros de água, rocha e areia que separam o Portal da Garganta do Diabo, um trecho relativamente curto, mas que ainda assim é vencido em pouco mais de meia-hora. A Garganta do Diabo, finalmente alcançada, é um grande abismo cavado pela força das águas em meio à rocha maciça, deve ter algo em torno de 50 metros de profundidade. O rio é tragado repentinamente, retomando seu curso no fundo desta fenda, após uma queda d'água vertical ::hahaha:: . É impressionante observar como a natureza flui de forma tão espontânea e ao mesmo tempo artística. Objetivo do dia cumprido? Não necessariamente...

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Pernoite na Garganta

Já eram 18h passadas, e aparentemente, havíamos chegado ao nosso destino. Mas precisávamos, ainda, nos estabelecer nalgum local para pernoitarmos. Felizmente, na encosta que se ergue à direita do cânion, há uma precária trilha que corta uma clareira ampla, frequentemente usada como ponto de camping. Para alcançarmos a tal trilha, tivemos que escalar uma parede de rocha à direita do poço que antecede a queda da Garganta, onde agora existe uma corda amarrada, o que facilitou bastante nossa ascensão Caminhamos pela trilha durante menos de 5 minutos e, ao depararmos com a tal clareira, ainda sob os últimos resquícios de claridade do dia, sacamos nossas lonas e cordas e improvisamos um quase luxuoso abrigo com capacidade para nós três. Em seguida, eu e o Furtado fomos em busca de água para o jantar e para nosso suprimento naquela noite, água esta que só foi possível coletar num poço abaixo da Garganta, o mesmo onde encerrei meu último bate-e-volta ao Vale, no ano anterior.

Ao retornarmos, com apenas uma pequena parte da água que havíamos coletado, pois o acidentado caminho de volta nos rendeu alguns tombos, dá pra adivinhar com quem nos deparamos? Claro, toda a galera prometida para a trip acabara de chegar também! Um a um surgia da trilha e logo se acomodava como podiam ali naquela clareira que agora se tornava cada vez menor e disputada. Felizmente, todos conseguiram se ajeitar, uns em redes, outros em abrigos improvisados, outros em barracas. Ainda tinham uns mais loucos que decidiram, àquela hora, saltar no poço da Garganta - sim, é possível esta façanha! ::hahaha:: - , a partir de uma laje na encosta rochosa, de onde se tinha fácil acesso da clareira, quase dois segundos no ar até se espatifarem na gélida água!

Conforme a calmaria da noite abraçava a todos, a fome também vinha de brinde e como nossa busca por água havia sido quase um fracasso, relutamos em repetir a mesma peregrinação em busca do dito líquido, sob o risco de voltarmos, novamente, com as mãos abanando. Mas eis que uma ideia brilhante veio à tona - afinal, agora contávamos com várias cacholas pensando ao mesmo tempo - , a de "pescar água" no poço da Garganta, no mesmo local onde alguns saltaram minutos atrás. Com isso, estávamos prontos para preparamos nossa merecida janta!

Satisfeitos, fomos, aos poucos, nos recolhendo em nossos abrigos. Fui um dos primeiros a apagar, ao som harmônico de Bob Dylan, que naquela ocasião, combinava perfeitamente com o clima local.

Despertar no Vale

Passada uma noite até bem dormida por mim, pois mesmo com a friaca de 7º C naquela madrugada, estava protegido com um saco de dormir feito em alumínio, usado geralmente em situações emergenciais. Alguns poucos que iam acordando, gritavam para que os próximos acordassem tambem, pois já eram 6h da manhã, e o céu já se mostrava ligeiramente claro. "Pescamos" um pouco mais de água para lavarmos nossas panelas, fiz algumas fotos da área de acampamento e da Garganta ao amanhecer, na tal "plataforma de saltos", e perto das 7h, partimos para encarar o que o Vale tinha a nos presentear naquele dia.

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Em poucos minutos, chegamos ao poço após a Garganta, onde eu e o Furtado havíamos estado no dia anterior, mas o ignoramos e demos seguimento à trip.De fato, a Garganta do Diabo é apenas uma amostra quase grátis do que se segue adiante. O primeiro desafio era vencer uma encosta rochosa quase sem agarras, escorregadia, que beirava uma corredeira erodida pelas turbulentas águas deste trecho do rio. Em alguns trechos, uma porção de vegetação nos garantia certa firmeza ao avançarmos, no entanto, sempre era preciso prestar atenção em certos troncos e galhos que estavam tomados por formigas.

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Vencido o escorregadio trecho na rocha e um pequeno paredão onde valeu uma quase escalada, passávamos pela Cachoeira do Véu, na forma de cascata, não muito alta, mas com sua beleza única! Fizemos a primeira transposição do leito do rio naquele dia, pois na margem direita já se mostrava impraticável qualquer tentativa de avanço.

Rapel

Uma vez na margem oposta, escalaminhamos a encosta, desta vez, coberta por rica vegetação densa, onde beiramos o cânion por aproximadamente 100 metros - inclusive, passando despercebidamente pelo incrível "Poção do Vale da Morte", uma cratera onde despencam duas enormes quedas d'água, formando uma enorme piscina natural em seu interior - , até um ponto onde preferimos retornar ao fundo do vale, por onde julgamos que nosso avanço seria mais eficiente, mesmo que, para tal, tivéssemos que descer dois lances verticais do paredão, na corda! E assim, com o auxílio do Hassan, que também havia trazido todo o aparato de rapel, um a um, fomos "aterrizando", novamente, no leito pedregoso do rio. Todo o procedimento nos custou quase 2 horas da travessia, mas ainda assim, não poderíamos considerá-lo nem a melhor opção ou a pior, visto que não sabíamos o que poderia nos aguardar caso optássemos por continuar pela encosta do morro. No mais, todo este tempo foi uma boa oportunidade para que eu pudesse me enturmnar de vez com o grupo. Enquanto aguardava minha vez de descer, trocava assuntos com Maycon, Kátia e mais uma galera que estava conosco a respeito de profissões relacionadas á área industrial e aeronáutica (tudo a haver!).

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Pé de Limão

Dando continuidade à caminhada, agora pelo leito do Rio da Onça, novamente, avançamos de pedra em pedra, de poço em poço, num ritmo desimpedido, e em menos de 20 minutos de fácil pulação de rochas, chegamos ao patamar superior da Cachoeira do Pé de Limão, que foi facilmente identificada por mim pela sua sua queda de 15 metros de altura seguida de um grande maciço rochoso a partir de sua base, que se estendia até um patamar mais abaixo, onde o curso do rio mudava sua direção bruscamente para a esquerda. A descida desta cachoeira foi feita, inicialmente, pela direita, onde havia uma ladeira não muito íngreme que permitia fácil acesso à sua base. Uma vez na base da cachoeira, transpusemos cautelosamente a correnteza, a fim de alcançarmos a margem esquerda novamente, e assim, prosseguirmos pela encosta, que agora, se mostrava um pouco mais generosa que antes.

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Mais mato, mais ladeiras, mais poços, mais cachoeiras

E assim avançávamos por aquele vertiginoso cânion em meio à Serra do Mar, enfrentando obstáculo por obstáculo, usando cordas quando requisitados pela natureza, ou simplesmente saltando, escalaminhando, escalando, nadando, varando mato no peito e no braço. Haviam partes em que cada um seguia pelo caminho que mais achava conveniente, haviam outras em que nos era oferecido apenas uma ou duas alternativas.

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E assim avançamos vale abaixo, por mais quase 3 horas, até que atingimos a confluência do Rio da Onça com um grande afluente seu à sua esquerda, do qual desconheço o nome, e que encontra seu "irmão maior" na forma nada mais elegante que a de uma enorme cascata. Mas espere... ainda estávamos no topo de um imenso bloco basáltico, que só nos apontava uma única direção: para baixo, 30 metros quase verticais! Obviamente, a corda se fez necessária novamente, mas de maneira não tão sofisticada quanto antes, devido à inclinação do paredão, que permitia o não uso dos demais equipamentos de rapel. Cuidadosamente, vencíamos os lances íngremes e limosos daquele grande pedaço de rocha, que outrora nos separava do patamar onde os dois rios finalmente se encontravam. O encontro dos dois rios formava uma piscina natural onde em sua margem sul havia um banco de rochas e areia, no qual pretendíamos descansar e almoçar. ::cool::

Finalmente alcançado o patamar inferior, ainda era preciso transpor, novamente, o rio, para que chegássemos a um ponto mais seguro e amplo para todos. Devido à considerável profundidade deste trecho do rio, tivemos que transportar nossas mochilas em nossas cabeças, com água na altura do peito. Felizmente, todos conseguiram atravessar com êxito e nenhuma mochila foi "estreada" ::lol4:: !

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Cada um se acomodou como podia nas inúmeras pedras que formavam aquela bela margem de rio, e enquanto o almoço não ficava pronto, alguns curtiam as duas cachoeiras presentes ali, uma pertencente ao Rio da Onça e outra ao seu afluente. Rapidamente, preparei meu miojo e logo me vi por satisfeito. Às 15h30, recolhemos nossos pertences e demos continuidade à trip, mais uma vez, vencendo lagos, poços, cachoeiras menores, alguns barrancos e encostas.

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Podemos dizer que a partir da grande confluência, a travessia passa a ser mais leve, porém, conforme os obstáculos naturais subsequentes iam se tornando cada vez menores e menos desafiadores, estes eram cada vez mais monótonos, o que tornava este trecho final um tanto quanto enjoativo, ao meu ver, talvez até mesmo, devido à própria ausência dos desafios maiores. Pelo fato de o rio agora portar-se mais brando e com declividade visivelmente menor, os poços passavam a ser cada vez mais intransponíveis dada sua profundidade - alguns chegavam a não dar pé, nos obrigando a contorná-los pelas beiradas.

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Reta final, a conquista do Vale

Às 16h30, finalmente, abandonávamos o Rio da Onça e, com ele, o Vale da Morte, na confluência deste com o principal rio da região, o Mogi. Naquela hora, eramos cativados uma inexplicável sensação de missão cumprida e de vitória, afinal, acabávamos de vencer o que muitos consideram como a travessia mais difícil da Serra do Mar! Sendo assim, com todos reunidos, não pudemos deixar de registrar este momento na forma de nostálgicas fotos de todos os guerreiros que sobreviveram a mais esta grande trip. ::otemo::

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De volta à civilização

Não bastante, ainda tínhamos ao menos uma hora e meia pela frente, seguindo pelo leito raso e tranquilo do Rio Mogi até a altura da Estação Raiz da Serra, onde o abandonamos em favor de uma picada em sua margem esquerda que nos deixaria em frente à tal estação e de cara nos trilhos do Sistema Cremalheira, da MRS Logística. Já eram 18h e o breu já tomava conta de toda a paisagem. Acompanhamos a estradinha de serviço do pátio ferroviário por uns 3 km, até interceptarmos o viaduto referente á Rod. Domênico Rangoni (vulga Piaçaguera-Guarujá), onde ao lado deste situa-se a humilde casa da Dona Anésia, antiga residente da região, e que já foi importunada pela concessionária da ferrovia, pois seu lar, construído bem antes de a área ter sido concedida, estaria, agora, dentro de uma área de serviços. É cada uma... ::putz::

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Por fim, antes de tocarmos rumo a São Paulo, passamos na casa da simpática senhora, que é amiga de longa data de muitos membros do grupo, e que nos acolheu alegremente. Realmente, era possível me sentir em casa naquele lugar ::cool:: . Um clima amistoso e bem aconchegante.

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Às 21h, nos despedimos e seguimos para o ponto de ônibus localizado na rotatória da Usiminas, já bem próxima dali. Era tarde, e os ônibus já estavam escassos, mas mesmo assim, tivemos sorte de conseguirmos chegar à rodoviária de Santos, onde embarcamos no veículo da Viação Cometa que seguiria para São Paulo.

Não se pode negar que o Vale merece todo o respeito que tem. Este mostra-se exuberante, mas igualmente feroz. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais belas obras de arte, rabiscada, pintada e esculpida de forma singular pelas forças naturais das quais nós, meros humanos, podemos não mais que pertencer.

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IMPORTANTE: ::prestessao::

- A Travessia do Vale da Morte é considerada de grande dificuldade, mesmo para trekkers mais experientes. Apresentam-se, ao longo de praticamente todo o trajeto, paredões, encostas, mata fechada, trechos acidentados no leito do rio, com grandes blocos de pedra a serem vencidos, ladeiras íngremes e escorregadias, cachoeiras e poços naturais. Não é recomendada a realização desta e de outras trilhas e travessias que envolvam trechos feitos em rios em épocas chuvosas, pois há grande risco de ocorrer o fenômeno chamado "cabeça d'água", caracterizado pelo aumento repentino da vazão e do nível das águas.

- Em épocas propícias, as águas do Rio da Onça são límpidas, potáveis e propícias para banho, mergulho.

- É sempre recomendável o uso de calçados e roupas adequadas para lidar com trechos feitos no rio e nas encostas. Cordas e equipamentos para pernoite, mesmo que emergenciais, são itens praticamente indispensáveis.



INFORMAÇÕES ADICIONAIS

Seguem abaixo as tabelas com os horários, itinerários e tarifas das linhas de trem e ônibus utilizadas no trajeto:

LINHA 10 - TURQUESA (CPTM)
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Site oficial da CPTM

LINHA DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL 424TRO / RIO GRANDE DA SERRA - PARANAPIACABA (EMTU/RIBEIRÃO PIRES)
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LINHA DE ÔNIBUS INTERMUNICIPAL CUBATÃO (USIMINAS) - SANTOS (EMTU/PIRACICABANA)
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LINHA DE ÔNIBUS RODOVIÁRIO SANTOS - SÃO PAULO (JABAQUARA) (VIAÇÃO COMETA)
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Site oficial da Viação Cometa
Editado pela última vez por Kássio Massa em 17 Jan 2013, 08:32, em um total de 15 vezes.

#791918 por Kássio Massa
02 Jan 2013, 00:03
MOCHILEIRO PEREGRINO escreveu:estas de parabens "massa" ::cool::
bonito roteiro, bela trip irmao ::otemo::

confesso que nao eh o tipo de terreno que busco hj, mas nao posso negar que gostei do local .


Valeu Gabriel! É isso aí, sempre em busca de um caminho próprio, aquele para qual coração mente apontam a seta! Trilhando sempre...! Abraço! ::otemo::
#792111 por gvogetta
02 Jan 2013, 15:07
Grande Kássio!


Show de bola a aventura!!! ::otemo::

Já havia lido relatos do Jorge Soto cortando essa região toda, realmente uma grande aventura. Fico feliz de ver você e outros trilhando estes belos e desafiadores caminhos! A região é espetacular, de uma beleza selvagem e com as dificuldades e desafios que são peculiares a estes adjetivos. Meus sinceros parabéns!

Como já disse antes, até mesmo comentando relatos do grande mestre jedi-caminhante citado, já passei inúmeras vezes naquelas rodovias que cortam a Serra do Mar paulista, entre Cubatão, Guarujá e Bertioga e sempre imaginava caminhadas naquelas belas paragens cobertas pela verdejante mata atlântica e aquelas imponentes "dobras" de terreno... Até a origem do nome "Vale da Morte" que eu sempre questionei (contraste enorme com a beleza que sempre vi ali) você explicou... Não havia me ocorrido a ligação com a história de poluição e deterioração ambiental ligada à Cubatão dos anos 70. ::putz::

E que final poético hein?!

Kássio Massa escreveu:Não se pode negar que o Vale merece todo o respeito que tem. Este mostra-se exuberante, mas igualmente feroz. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais belas obras de arte, rabiscada, pintada e esculpida de forma singular pelas forças naturais das quais nós, meros humanos, podemos não mais que pertencer.



Grande abraço!
#792304 por Kássio Massa
02 Jan 2013, 22:07
gvogetta escreveu:Grande Kássio!


Show de bola a aventura!!! ::otemo::

Já havia lido relatos do Jorge Soto cortando essa região toda, realmente uma grande aventura. Fico feliz de ver você e outros trilhando estes belos e desafiadores caminhos! A região é espetacular, de uma beleza selvagem e com as dificuldades e desafios que são peculiares a estes adjetivos. Meus sinceros parabéns!

Como já disse antes, até mesmo comentando relatos do grande mestre jedi-caminhante citado, já passei inúmeras vezes naquelas rodovias que cortam a Serra do Mar paulista, entre Cubatão, Guarujá e Bertioga e sempre imaginava caminhadas naquelas belas paragens cobertas pela verdejante mata atlântica e aquelas imponentes "dobras" de terreno... Até a origem do nome "Vale da Morte" que eu sempre questionei (contraste enorme com a beleza que sempre vi ali) você explicou... Não havia me ocorrido a ligação com a história de poluição e deterioração ambiental ligada à Cubatão dos anos 70. ::putz::

E que final poético hein?!

Kássio Massa escreveu:Não se pode negar que o Vale merece todo o respeito que tem. Este mostra-se exuberante, mas igualmente feroz. Trata-se, sem dúvidas, de uma das mais belas obras de arte, rabiscada, pintada e esculpida de forma singular pelas forças naturais das quais nós, meros humanos, podemos não mais que pertencer.



Grande abraço!


Fala Getúlio! Tudo bem?

É mesmo muito interessante ver como, mesmo tão pisoteada pelo homem, a natureza ainda consegue se reerguer da forma como ocorreu nesse caso de Cubatão! Hoje, quem resolve se aventurar pelos caminhos molhados da serra, entre Cubatão e Paranapiacaba, não imagina o que foi aquela paisagem toda ha poucas décadas. Mesmo o outro lado da serra, onde funcionava o sistema Funicular, era uma enorme encosta totalmente descampada e repleta de construções das quais poucas restam atualmente.

Ehr...Poxa, ainda estou treinando estes desfechos de relato mais líricos :mrgreen: . pode ser que num futuro incerto eu resolva publicar um livro ::lol4::
Mas para mim a natureza realmente é uma arte, sem ressalvas, ela é completa por sí só! ::cool::

Forte abraço e um ótimo início de ano!
#795137 por Frida_ssa
09 Jan 2013, 11:49
Aventura fantástica!!! show!!!
#795545 por Jorge Soto
10 Jan 2013, 07:23
oia o guri..parabens! by the way, o Vale da Morte ta se tornando carne de vaca em Paranapiacaba ultimamente... quero ver agora vc subir o Rio Claro, descer o Quilombo inteirinho ou até mesmo o Itatinga, apenas pra citar os mais proximos da urbe 9e menos conhecidos)... aventura q nao deve nada ao Vale da Morte..
#796309 por Kássio Massa
11 Jan 2013, 19:38
Frida_ssa escreveu:Aventura fantástica!!! show!!!


Valeu, Frida! Teremos mais este ano! ::hahaha::

Jorge Soto escreveu:oia o guri..parabens! by the way, o Vale da Morte ta se tornando carne de vaca em Paranapiacaba ultimamente... quero ver agora vc subir o Rio Claro, descer o Quilombo inteirinho ou até mesmo o Itatinga, apenas pra citar os mais proximos da urbe 9e menos conhecidos)... aventura q nao deve nada ao Vale da Morte..


Opa! expandir horizontes, sempre! Os próximos que estou mirando por aqui são certamente o Itapanhau, e também o circuito Capivari/Branquinho>Branco! O Itatinga ainda quero averiguar de perto tambem, pelo menos a parte da barragem...

Não sou muito adepto a repetir trips, com exceção de algumas poucas. A exemplo do Vale da Morte, faria algums variantes dele, mas não sei se voltaria a descê-lo por completo, pelo menos não está em meus plano. rsrs Quanto ao Rio Claro... este é um caso a parte. Como já havia conversado contigo naquele dia, é um objetivo nobre para mim! Só não sei se o farei tão logo...

Araço e boas empreitadas por aí! ::otemo::
#811554 por Jhonnymarco77
24 Fev 2013, 11:21
Cara fui ate o cachoeirão....eu estava sem equipamento para escalada....vou agora final de semana dia 02/ março...quero fechar essa Trip até o final....tenho mesmo que escalar e descer os paredões ? não tem trilha nas pirambeiras...?qual o tempo de trilha da cachu do véu até a confluência com o rio Mogi...? Aliás já fui muito na tia Anézia em trips na região... http://www.youtube.com/watch?v=OKzgw-UR ... QA&index=1
ela é maravilhosa abç e bela trilha Kássio...responda urgente preciso de informações...
#811631 por Kássio Massa
24 Fev 2013, 14:41
Jhonnymarco77 escreveu:Cara fui ate o cachoeirão....eu estava sem equipamento para escalada....vou agora final de semana dia 02/ março...quero fechar essa Trip até o final....tenho mesmo que escalar e descer os paredões ? não tem trilha nas pirambeiras...?qual o tempo de trilha da cachu do véu até a confluência com o rio Mogi...? Aliás já fui muito na tia Anézia em trips na região... http://www.youtube.com/watch?v=OKzgw-UR ... QA&index=1
ela é maravilhosa abç e bela trilha Kássio...responda urgente preciso de informações...


Olá, João Marcos, td bem?

Muito bacana o vídeo, e o pessoal lá da Dona Anésia é realmente muito simpático e acolhedor, é uma simpática senhora! ::otemo::

Mas quanto à travessia, não existe um caminho específico para descer este vale. É possível ir pelas pirambas também, assim como fazer rapel nos paredões e ir direto pelo rio. Além disso, existe a possibilidade de as chuvas de verão terem modificado a paisagem. Concluindo: cada vez que se faz a travessia do Vale da Morte é uma experiência nova!

Quando fizemos a travessia, desde a Garganta do Diabo até a Confluência dos rios da Onça e Mogi, levamos cerca de 14h.

Abç e boa trip! ::hahaha::

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