Viagem de ônibus à Buenos Aires e Bariloche

Relatos de viagens pela Argentina


Viagem de ônibus à Buenos Aires e Bariloche

Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 08 Fev 2006, 07:25

<font face="Arial">Nas férias deste ano resolvi fazer uma viagem de ônibus de São Paulo ao parque nacional chileno de Torres Del Paine, que fica bem ao sul da América do Sul, quase no estreito de Magalhães. Essa decisão foi tomada no meio do mês de novembro e como saí no dia primeiro de janeiro de 2006, não houve muito tempo para planejar os detalhes, isso foi ótimo, porque não gosto mesmo de planejar detalhes. Nas minhas férias o mais importante sempre é escolher, no momento, os detalhes que desejo viver ou deixar que as coisas ocorram por si mesmas. Nesses momentos me torno um passageiro do acaso e vou onde der certo.
Embarquei no ônibus no terminal do Tietê às 0:00 e foram gastas exatas 32 horas na viagem, assim como havia sido prometido pela empresa de ônibus argentina. O carro era muito bom, semi leito (com poltronas mais largas) o que fazia com que, mesmo tendo dois andares, a quantidade de passageiros fosse a mesma de um ônibus comum. No preço da viagem (uns R$240 ou pouco mais de US$100) estavam inclusos dois cafés da manhã e um jantar. O padrão de atendimento e as quantidades são semelhantes aos oferecidos na classe econômica de uma boa companhia aérea: quem gosta de comer muito não iria se satisfazer, mas para o meu gosto, estava na medida certa. Ainda exibiram quatro filmes, com as legendas fraternalmente divididas entre português e espanhol (mui justo).
Para sair do Brasil foi muito fácil, nem precisei deixar o ônibus, fiquei sentadinho no meu lugar, bastou que o motorista apresentasse uma relação com os nomes dos brasileiros e tudo bem! Somente os estrangeiros precisaram se apresentar no posto de fronteira de Foz do Iguaçu (se eu fosse o Beira Mar, não teria problemas para deixar nosso país). Já na Argentina, a história é diferente: todos desceram do ônibus (argentinos e estrangeiros), se apresentaram no posto de fronteira, passaram todas as bagagens pelo raio X, pisaram numa espuma molhada para espantar os maus espíritos (controle sanitário de doenças) e alguns quilômetros à frente, fomos inspecionados novamente, mas o objetivo neste momento, era procurar drogas. Após os cães fungarem no nosso cangote, aí sim: bem vindos à terra do Maradona!
Antes de viajar, estava preocupado se chegaria a Buenos Aires em condições de enfrentar uma nova viagem de ônibus (com duração um pouco maior que a primeira), mas quando estava no meio dela já percebi que seria moleza e poderia embarcar no mesmo dia, rumo à terra do fim do mundo (sim, a pontinha da América do sul, era o meu destino). Por causa desta incerteza, não me preocupei em comprar a passagem para este, outro, grande trecho da viagem, mas quando desembarquei em Buenos Aires, percebi que nem tudo seria tão fácil quanto imaginava, afinal, além de nossos hermanos gostarem de viajar para caramba, ainda existiam "miles" de turistas visitando-os. Isso fez com que não conseguisse passagem para a cidade que desejava e nem para lugar algum. Fiquei por mais de 3 horas carregando minha mochila de um guichê para outro e quando meu saquinho estava começando a encher, com algumas vozes dizendo, dentro da minha cabeça, que deveria ter feito isso ou aquilo, mandei tudo mundo para aquele lugar e fui tomar um sorvete (se fosse um determinado amigo com o qual trabalho, certamente seria uma cerveja, mas neste caso, quem carregaria a mochila?). Na verdade pisei na bola, pois estava acostumado a sair de férias em meses de baixa temporada, assim ocorreu durante mais de dez anos e este é o motivo de considerar que transportes e hospedagens estariam à minha disposição, sem problemas.
Depois de pensar com calma, achei que a melhor solução seria pegar um táxi e me hospedar em um hotel. Para os que me conhecem, sabem que sou um homem simples e por isso pedi para que o motorista me levasse para um hotel simples (pero no mucho malo). Ele me levou a um hotel duas estrelas, muito próximo da rodoviária e das atrações do centro da cidade, portanto bem localizado. Paguei pela corrida 7 pesos (um pouco mais de 5 reais). Se fosse em São Paulo estaria perdido, dificilmente ocorreria algo semelhante, se ocorresse, teria que recomendar o taxista para canonização.
O hotel não era lá essas coisas, com seu estilo dos anos 60, mas tinha uma boa cama e um banheiro limpinho, com uma faixa dizendo: Higienizado. Era tudo que eu precisava e estava bom para os 70 pesos que estava desembolsando pela hospedagem (quase uns R$60 ou US$23). Depois de tomar um bom banho, tudo pareceu se normalizar: estava novamente em férias! Voltei à rodoviária, comprei uma passagem para Bariloche, dois dias à frente. Para a cidade que desejava inicialmente só existiria passagem para depois de sete dias e não achei uma boa idéia ficar tanto tempo esperando.
Fui dar umas voltas no centro da cidade para conhecê-la melhor. Na minha primeira visita que ocorreu à dois anos, também passei duas noites na cidade, mas não a conheci muito bem, pois como os táxis são uma opção barata, fiz deles o meu meio de transporte e desta forma, apesar de perceber que várias atrações não são distantes umas das outras, não sabia exatamente onde se localizavam. Somente quando eu caminho pela cidade, ou quando dirijo o automóvel, posso formar um mapa mental de suas várias partes.
Nesta viajem optei por caminhar pela cidade, observar e fotografar, pessoas e paisagens bonitas. Esse é o famoso turismo "canelinha", através do qual visitei atrações como o zoológico, o bairro da Recoleta, a Casa Rosada e o Obelisco. Tudo isso está a uma distância de quatro quilômetros entre os pontos mais distantes (Casa Rosada e Zoológico). Trata-se de uma cidade muito bonita, na qual as primeiras décadas do século XX foram muito generosas, de forma que se notam belíssimas construções deste período, com destaque para o bairro e o Cemitério da Recoleta.
Foram caminhadas agradáveis e tranqüilas, pois a cidade além de plana, parece ser muito mais segura que São Paulo (ou pelo menos foi essa, a minha impressão).
Minhas visitas incluíram pontos turísticos e "normais" como alguns supermercados (adoro supermercados). Gosto de andar pelas ruas e observar as pessoas, o que fazem e como fazem. Percebi que os Argentinos, assim como nós, gostam de namorar, pois é difícil achar uma praça que não tenha um casal "se pegando". É uma beleza! Viva o amor! Falando em pegar, eu não pego nada, mas estou cansado de ver as calcinhas das argentinas. Não sei como é a parte de baixo, mas a parte de cima é fácil de ver. Deve ser uma moda do tipo: vamos mostrar as "calçolas". O mais importante é que são "seres amistosos", o problema fica por conta de que não possuem a tecla SAP.
Eram tantos turistas não latinos espalhados pela cidade, que alguns argentinos pensavam que eu era da terra e, de vez em quando, me pediam alguma informação. Só mesmo quando notavam minha expressão de bocó, é que percebiam que estavam perdendo tempo. Os que não se enganavam nunca eram os pedintes de rua, que reconheciam minha "ginga brasileira" e me pediam "uma colaboração" em razoável português. Aqueles que gostam de competir não precisam ficar preocupados quanto a isso, pois nós brasileiros ganhamos em número e miserabilidade de pedintes (eles precisam melhorar muito neste quesito para poderem se comparar a nós).
Na primeira tarde de caminhadas urbanas, quando senti minhas perninhas cansadas, resolvi sentar em um banco de praça. Notei que meus olhos não estavam querendo ficar muito tempo abertos, sendo assim, resolvi voltar para o hotel e deitar. Eram 5 da tarde, quando me encontrei com o colchão. Dormi como uma pedra e acordei as 8h. Olhei para fora e vi que o dia ainda não estava muito claro, mas só quando desci, para tomar o café da manhã, é que percebi que estava pagando sapo: não eram 8 da manhã, mas sim 8 da noite do mesmo dia. Apesar de parecer ter dormido muito, foram apenas três horas de sono. Para desfrutar da noite que acabara de ganhar, resolvi sair para jantar. Apesar de preferir não comer carne, geralmente, aqui não resisto a um bife de chorizo (não sei se é assim que se escreve, mas tá valendo) por dois bons motivos: o primeiro porque é a carne mais deliciosa que já provei. Não entendo de carne, mas lembra uma picanha com generosa capa de gordura e o segundo é que não me faz engordar, pois em menos de 60 minutos ela já vai estar fora do meu corpo. Meu organismo considera a quantidade de gordura deste bife, demasiada, e isso faz com que ele se converta em um laxante natural.
Depois das duas noites de hospedagem, fechei minha conta no hotel e fui a pé até a rodoviária (apesar do táxi ser barato, a rodoviária ficava a pouco mais de um quilômetro). Na visita anterior, como havia comprado um pacote com tudo incluído, foi pura mordomia, pois incluía todos os traslados entre hotéis e aeroportos, mas me sinto mais seguro assim, sabendo que consigo fazer todas as coisas sozinho (cada louco com suas manias).
O ônibus chegou no horário correto, o único problema foi que ele poderia parar nas plataformas de 44 a 55 e só apareceu um que pertencia à empresa "Crucero del Sur", o correto seria "Crucero del Norte", mas como o padrão de cores era o mesmo, resolvi deixar de lado estas pequenas diferenças de direção e descobri que se tratava do "ônibus prometido". Ele era um pouco mais velho, mas o padrão de conforto era mesmo (semi leito). Tudo ótimo, até que comecei a sentir um "calorzinho", quando tem, ou deveria ter, ar condicionado, as janelas não se abrem e embora esta cidade fique ao sul do Brasil, o calor que faz por lá é digno de uma cidade nordestina.
Ainda quando estávamos na grande Buenos Aires, encostamos em uma parada "muquifinho" e tivemos que trocar de ônibus. Foi ótimo. O tempo foi suficiente para dois sorvetes e um gelado refrigerante de sei lá o quê, mas que era muito bom. O ônibus que chegou era novinho (consciência pesada), embarcamos, logo já serviram um lanchinho ninja e passaram um filminho (uma sessão da tarde). Eu já os havia perdoado (na verdade nem fiquei bravo, para mim tá valendo), mas de repente ouvi um som de lata de cerveja se abrindo. Não era miragem auditiva (se é que isso existe). SIN, HAY CERVEZA A BORDO! Estava muito bom, viva o Maradona!!!!
Esta viagem de ônibus durou 22 horas, Bariloche está a uns 1600km distante de Buenos Aires. Uma das curiosidades é que, como há serviço de bordo com todas as refeições incluídas, em nenhum momento houve uma parada para que os passageiros descessem. É contra a minha religião utilizar-me de banheiros que se movimentam, seja no ar, na terra ou no mar. Só faço isso quando é inevitável e foi este o caso, mas ele estava em ótimas condições, mesmo depois do meio da viagem.
Ao chegar em Bariloche, percebi onde estava o pessoal de Buenos Aires: lá! (um dos lugares). Foi difícil encontrar vaga nos hotéis, só consegui no terceiro que perguntei, ainda assim porque era bem ruizinho e caro (paguei 85 pesos). A única coisa boa (além das filhas loiras do dono) era que tinha banheira. Santa banheira! Ela não era grande: se meus pés estavam dentro d'água, os joelhos estavam fora e vice-versa, mas mesmo assim ela foi capaz de me revigorar em pouco tempo.
No mesmo dia resolvi pegar um ônibus urbano até uma das atrações da cidade: o Cerro Campanario. O pessoal do hotel já havia me indicado o número dele e onde passava (aqui a maior parte das linhas é por número e não por nome). Quando estava chegando ao ponto... Sorte! O ônibus pretendido parou no ponto, abriram-se as duas portas e pessoas desceram pela porta da frente. - Uso da lógica: se pessoas descem pela porta da frente, acreditei que deveria ser correto subir pela porta traseira. - Assim procedi, mas para minha surpresa não havia cobrador. Descobri que na Argentina, o motorista dirige, cobra, assobia e chupa cana, tudo ao mesmo tempo. Depois de perceber minha mancada, cheguei no motorista para pagar minha passagem e receber meu ticket (é assim que controlam), mas quando falei com ele, já levei uma comida de rabo. - Correção: ...assobia, chupa cana e dá comida de rabo. - Em resposta, fiz uma cara do tipo: "fazer o que? Sou um idiota mesmo!" A única vantagem de ser gringo, é poder ser um idiota oficial. É ótimo!
Fiz meu passeio sem nenhum problema e na volta à cidade, aproveitei para passar no Clube Andino Bariloche e me informar sobre as trilhas da região. Eles dão várias informações e vendem um mapa com a localização de todas as trilhas e abrigos da região. Na verdade a cidade está dentro de um parque Nacional, o Nahuel Huapi, e existem muitas trilhas que cortam as montanhas próximas. Quando se visita esta cidade, é comum se conhecer o Circuito Chico (pequeno) e o Circuito Grande, que são pacotes muito comercializados pelas agências locais de turismo. Realmente são muito bons, no entanto se você gosta de caminhar não deixe de "fazer" algumas trilhas, pois são bem sinalizadas e te levarão à paisagens deslumbrantes.
No dia seguinte fechei a conta no hotel, coloquei a mochila nas costas e fui pegar outro ônibus urbano, até o inicio da trilha. No ponto conheci duas garotas argentinas que iam fazer a mesma trilha. Beleza - pensei - vou colar nelas! Quando descemos do ônibus, eu parecia um daqueles cachorros de rua, no qual você faz um agrado e o desgraçado não te larga mais. Assim eu procedi em relação a elas, e quando estava ficando meio chato, decidi pedir a elas para fazermos a trilha juntos. É que sem combinar com elas, eu as estava seguindo meio de longe, mas depois percebi que elas estavam indo em direção a uma loja, e não ao início da trilha. Depois que conversamos elas até gostaram de ter uma companhia (também acho que não sou uma companhia tão ruim assim, ou pelo menos, minha mãe sempre gostou bastante de mim).
Foi divertido. Fomos caminhando e conversando, mas depois de umas duas horas, percebi que elas não paravam para nada (comer, beber, descansar, nada). É verdade que eu estava carregando uma mochila bem mais pesada do que a delas, mas do que será que elas eram feitas???? (Bem, também eu não chequei as mochilas delas, pois tem umas garotas que levam tão pouco peso que eu não me surpreenderia se dentro houvessem balões de ar). Chegou um momento (uma subida) que não teve jeito: tive que entregar os pontos e parar, mas elas foram boazinhas e esperaram que eu me recuperasse.
Neste dia, pela manhã, o tempo estava lindo. - Não vai chover! - Foi o meu pensamento. Lá pelas 10:00 parecia haver uma possibilidade remota de chuva. Meia hora depois, quando começamos a caminhar, já estava chovendo!!! Então tudo isso que relatei, ocorreu debaixo de uma chuva contínua. No momento em que elas foram à uma loja, fizeram isso para comprar capas de chuva. A chuva não era forte, mas estava aumentando a cada momento e já havia me deixado ensopado da cintura para baixo (apesar da minha capa de chuva).
Depois de umas quatro horas de caminhada chegamos numa estação de esqui, onde existia apenas um funcionário (sem neve, sem esqui, tudo fechado). Como esse lugar não estava em nosso mapa, decidimos perguntar qual era o caminho para o refúgio de montanha (ou abrigo).
Abrigo é uma casa na montanha, uma espécie de hotel, onde as pessoas podem se hospedar. Entenda hospedar como um local (geralmente no chão) onde você pode colocar seu saco de dormir, uma cozinha e um banheiro coletivos. Este é o máximo da comodidade em alta montanha.
Descobrimos que havíamos errado o caminho e estávamos no lado oposto da montanha, mesmo assim era possível chegar ao abrigo subindo 500m e descendo 300m do outro lado do Cerro Catedral, boa parte disso através de terreno coberto de gelo. Franguei na hora! O funcionário explicou que, se o nosso grupo fosse masculino, não haveria problema, mas com duas moças, ele não recomendava a travessia. Falou tudo isso olhando pra mim, como se eu fosse o líder. Bobinho!! Eu tinha deixado minha última reserva de macheza, à várias subidas atrás, mas sabe como é, descobri que a dignidade não é a ultima coisa que um homem perde: ainda me restava a aparência. Foi assim que respirei fundo e depois de parecer pensar um pouco, decidi:
- Meninas, é melhor voltarmos, para a sua própria segurança.
Ao descermos, encontramos o local de nosso erro: existia uma grande seta apontando o caminho correto, mas na verdade eu não estava nem um pouco preocupado com isso, afinal, com tão distinta companhia qualquer caminho é maravilhoso. Percorro as trilhas porque elas são agradáveis e chegar a algum lugar é apenas mais um prêmio, além daquele que já recebi durante todo o percurso. As meninas eram universitárias, dos cursos de arquitetura e direito, com vinte e vinte e dois anos, durante todo o trajeto conversamos sobre família, educação, sensibilidade e outros assuntos, apesar de tão pouco tempo juntos, sinto saudades de minhas amigas.
Percebemos que assim como nós, muita gente estava descendo da montanha. Com tempo chuvoso não dá para escalar e a temperatura fica próxima de zero grau naquelas altitudes (mesmo no verão). Um dos grupos que estava descendo era composto por três alemães. Um deles era normal, mas dois eram muito bonitos e um destes ainda falava espanhol. Essas argentinas não dão um tempo! Não podem ver um homem bonito, charmoso, inteligente e agradável que ficam dando em cima do cara!!! - Magoei - Não entendia direito o que falavam, mas as meninas tinham tamanho entusiasmo no tom de voz, que raramente vi na minha vida. O que denunciava o grande interesse pelo rapaz, no entanto, descobri que Deus não dá asa pra cobra, porque apesar de tudo ele não convidou elas para jantar ou outras cozitas mais, quando chegou o momento de se separar delas, só disse adeus e foi embora. Incrível!!! Esse cara não tinha nem mesmo uma gota de sangue latino.
Ao chegar no ponto de ônibus, já tinha bastante gente esperando e quando o dito cujo chegou, pareceu desafiar as leis de Newton, porque o bicho foi abarrotado (um verdadeiro cata louco). Nunca vi tanta gente espremida, nem gente tão feliz, afinal de contas aquilo era a nossa tábua de salvação. Isso é uma caminhada: possui a mágica de transformar algo horrível, na coisa mais maravilhosa do mundo. É algo fantástico.
Depois da tentativa de caminhada fracassada, fui com as meninas para o hotel em que elas estavam hospedadas e, graças a Deus, existia um quarto disponível. Era apenas por uma noite, na seguinte já havia reserva, mas era tudo que eu precisava naquele momento: um quarto de hotel (quentinho) e um bom banho (quentinho). Para melhorar mais, este era um hotel melhor e mais barato que o anterior (paguei 60 pesos). Depois de tomar banho e trocar de roupa (alívio), parou de chover e fez uma tarde ensolarada até quase as 22:00. Não dá para acreditar como o tempo muda tanto nesta cidade!
No dia seguinte consegui fazer a trilha (desta vez estava sozinho). É um caminho muito bonito e não há como se perder (quando se acha o início). Algumas coisas são diferentes por lá, uma delas é que as árvores parecem estar dentro da geladeira, de tão frias, outra é que caminhar não é um programa somente de jovens, mas também de senhores, senhoras e de famílias inteiras com seus filhos (de 10 até 20 anos de idade).
Ao contrário do anterior, este dia estava ensolarado, o único problema que tive foi de auto-estima, pois fui ultrapassado por 263.587 pessoas e um cachorro (durante as 5:30 de caminhada). Foi triste! A maior parte das pessoas caminha com mochilas leves, sem barraca e com comida para apenas dois ou três dias. Minha mochila estava pesada, com barraca e o dobro da comida que normalmente se leva (já que meu objetivo era fazer uma outra caminhada). No final da trilha, meu desempenho era semelhante ao de uma mulher grávida, caminhando para a sala de parto. Eu estava morrendo!
Quando chequei ao abrigo (refúgio Frey) fiquei radiante. O lugar é mesmo lindo! Está cercado por montanhas nevadas de quase todos os lados (menos pelo lado que se sobe) e tem um lago na frente. Foi duro, mas ainda bem que trouxe a barraca de camping, pois o abrigo estava tão lotado quanto a rua 25 de março, um final de semana antes do natal. Não cabia mais ninguém. O banheiro, que está engenhosamente disposto em outro prédio, deveria ostentar um aviso de "é proibido fumar", pois bastaria uma fagulha para mandar tudo aquilo pelos ares. A urucubaca era grande!!!
Passei duas noites acampado próximo ao refúgio (não muito próximo, pois vai que o vento sopra de lá para cá). Numa das noites choveu o tempo todo e a temperatura foi de 4°C, na outra não choveu, mas não era muito animador ficar lá fora, pois a temperatura foi a 0°C. Durante o dia até que era bom, pois fazia 10°C com sol e 6°C com chuva. Aí você me pergunta: como recolhi dados tão maravilhosamente precisos? Fácil: adquiri nas ruas de Bariloche por 5 pesos, minutos antes de embarcar para a primeira caminhada, uma bússola multifunção com apito, termômetro, régua, descascador de legumes, visão noturna, cortador de unhas, GPS e mais umas cinqüenta funções. Se você é como eu, um Rambo dos trópicos, não pode deixar de ter uma maravilha destas.
Durante o tempo em que permaneci acampado, tentei descobrir o caminho para chegar no próximo abrigo, mas não consegui. Os caminhos em alta montanha não são muito bem marcados. O treking não é um esporte perigoso, desde que você saiba qual é o seu limite, e atravessar campos de gelo em alta montanha, sozinho, está fora dos MEUS limites.
Voltei a Bariloche pelo mesmo caminho e consegui hotel por mais duas noites. Fui até a rodoviária para comprar passagens, poderia ser uns 4 lugares diferentes, mas o que mais combinou foi Puerto Iguazú (ao lado de Foz do Iguaçu).
O dia seguinte foi meu último dia, inteiro, em Bariloche. Decidi pegar o ônibus para a colônia Suíça, que seria o local onde eu terminaria minha caminhada (se tivesse conseguido ir até o fim). O tempo estava ótimo e como pretendia fazer um "dia turistão normal" e não iria caminhar, não estava levando capa de chuva. No entanto, quando estava no ponto de ônibus, conheci outras duas argentinas que iam fazer uma trilha: a mesma que eu deveria terminar. Tá no papo! Nada como conhecer uma trilha nova, em companhia tão agradável.
Conhecer os abrigos de Bariloche e suas trilhas, parece ser um programa universitário na Argentina. Deve ser do tipo: entre na facu e faça uma caminhada de aventura, porque minhas quatro amigas estavam no primeiro ou segundo ano (de cursos diferentes).
Caminhei por três horas com elas, lanchamos juntos, elas prosseguiram e eu voltei sozinho. Foi fantástico, pela companhia e pela trilha, o único problema é que na volta começou a chover e fiquei ensopado. Eu estava calçando aquele que era o meu tênis limpo (era). Dancei! Ao chegar no ponto de ônibus às 18:00, já tinha umas 40 pessoas esperando. Ele não demorou nem 5 minutos, mas quando passou estava abarrotado e nem parou no nosso ponto. Sacanagem! Tivemos que esperar na chuva por outro, sem ter a certeza de que haveria lugar.
Até aquele momento não estava sentindo frio, mas como havia parado de caminhar e estava molhado, não deu outra. Em Bariloche, mesmo quando havia sol, a temperatura era de uns 20ºC, mas o vento não perdoa e sem uma proteção para ele, a sensação térmica cai bastante. Neste momento não havia vento, mas era o entardecer e o frio estava começando a incomodar. O pior nessas horas é pensar em seu quarto de hotel te esperando: limpinho, quentinho e pago. E você não podendo chegar lá. É de cortar o coração.
A Colônia Suíça está a uns 24km da cidade. O pessoal da fila começou a se virar, uns conseguiram alugar uma caminhonete, uns poucos conseguiram carona (impossível para mim que estava completamente molhado) e a fila se dissipou um pouco. Eu estava com uma sede danada, mas enquanto a fila se mantinha, eu não arredava pé, afinal, vai que saio para comprar uma água ou refrigerante e ônibus passa. Não dá pra arriscar. Porém quando a fila foi se dissipando e a sede aumentando, resolvi caminhar 200m até um quiosque e tive sorte, pois quando terminei de comprar um refrigerante, o ônibus passou. Deu tempo de correr, pegá-lo (quase tive azar) e ainda sentei, pois só depois ele chegou ao ponto em que estava (e no qual estavam as outras pessoas). Apertou um pouco, mas teve lugar para todos.
Quando cheguei no hotel, eu estava literalmente batendo os dentes, mas tudo se resolveu com um banho e roupas secas.
No dia seguinte parti para Buenos Aires e de lá para Puerto Iguazú. Cheguei às 10:00 e a partida era às 20:00, sendo assim, foi possível deixar a mochila no guarda volumes da companhia de ônibus e passear, um pouco mais, pela cidade. Como sabia que não iria gastar nada durante a viagem, gastei meus últimos pesos com refeição, sorvetes e besteirinhas. Quando saí da Argentina, no dia seguinte, me sobravam apenas uns centavos de pesos, no bolso. Em Puerto Iguazú, pode-se utilizar dinheiro brasileiro para pagar o ônibus urbano, que circula entre as cidades das três fronteiras.
Me hospedei em Foz do Iguaçú, que estava com temperaturas em torno de 40ºC. Sair de Bariloche para lá, é como sair da geladeira para cair no forno. Não conhecia a cidade e valeu a pena por causa das Cataratas. Visitei também o lado paraguaio, mas não gostei do fato de que nada tem preço nas vitrines e este parece mudar de acordo com sua cara. Preferi não comprar absolutamente nada.
O pior de tudo ficou por conta da volta: comprei passagem na rodoviária com destino à São Paulo e participei, sem querer, do que eu chamaria de um "Moambabus". Até que é interessante acompanhar a ansiedade de boa parte dos passageiros, com relação à fiscalização que ocorre, ou poderia ocorrer, em qualquer parte do caminho, mas é uma viagem de péssima qualidade, já que o interesse dessas pessoas é trazer mercadoria para ser vendida no Brasil, o conforto é a última coisa, com a qual estão preocupados, fazendo com que a companhia de ônibus coloque péssimos carros nesta linha. O que me trouxe, tinha um problema na suspensão traseira, que fazia muito barulho. Parecia um "carroçabus".
Foram 17 dias de viagem, nos quais gastei uns U$600. Levei uma parte em reais, porém o melhor é comprar cheques de viajem, que além de mais seguros, ainda garantem uma troca mais vantajosa. Por incrível que pareça, converter seus reais em dólares (cheques de viagem) para depois convertê-los em pesos, lhe renderá mais (ou pelo menos ocorreu comigo) do que trocar reais por pesos, diretamente. Dê a benção para o Tio Sam, que você sairá ganhando!!!!</font id="Arial">
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Viagem de ônibus à Buenos Aires e Bariloche

Mensagem não lidapor Dete » 14 Fev 2006, 21:01

nnnnnnnnn
Editado pela última vez por Dete em 26 Jun 2006, 23:58, em um total de 1 vez.
Dete
 

Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 15 Fev 2006, 11:53

Ok! Eu gosto bastante de viajar, mas de fotografia gosto ainda mais. Então aí vão 3 fotos, uma próximo do Refúgio Frey em Bariloche, outra desta caminhada e uma foto de rua,de Buenos Aires.

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Mensagem não lidapor franpfeffer » 15 Fev 2006, 15:48

Cazu99,

Qual foi a empresa com a qual você viajou São Paulo-Buenos Aires?
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Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 16 Fev 2006, 06:58

Fran,

Viajei pela empresa argentina Crucero del Norte. Eu não sei se isso é uma regra, mas geralmente existe uma empresa brasileira e outra, do país de destino, que oferecem a mesma viagem. No caso de Buenos Aires, a outra opção é a Pluma(acredito que seja), que não conheço. Um detalhe que não sabia ser possível, é o de comprar em SP uma outra passagem de Buenos Aires para qualquer parte da Argentina.
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Mensagem não lidapor Vilma » 05 Mar 2006, 17:16

cazu99,

Parabéns pelo relato, fiquei aqui doida de vontade de conhecer as trilhas de Bariloche. Não se paga nada pra fazê-las? Quanto tempo é o ideal pra curtir todo o Parque?
Valeu...
Abs,
Vilma.
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Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 07 Mar 2006, 13:02

Olá Vilma,
Bariloche é uma cidade linda e possui belas trilhas. Pra dizer a verdade só conheço aquilo que relatei, o que é muito pouco. Com certeza dá para caminhar mais de uma semana só pelas trilhas, mas como somos gringos lá, sempre vamos fazer algumas outras atividades.
Eu adoro viajar mas também adoro voltar para casa, sendo assim não consigo passar mais que 20 dias fora, mas Bariloche e região tem capacidade de "ocupar" bem esses dias.
Quanto a pagar, não se paga nada para fazer as trilhas (embora tenha ouvido falar de um ticket de visitação, não sei onde comprá-lo, ninguém me pediu nada, então fique tranquila). Eu só adquiri um mapa no Centro Andino Bariloche, que fica próximo ao centro civico (pergunte que vc achará fácil), lá eles dão todas as informações.
Os argentinos são muito prestativos e simpáticos (ainda mais com as mulheres).
Vá que vale a pena!!! Não sei até quando o cambio ficará favorável para nós.

Um abraço,

Cazuza
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Mensagem não lidapor Vilma » 09 Mar 2006, 21:47

Cazuza,

Muito agradecida pela informação. Vou aproveitar mesmo o câmbio, mas vou começar por conhecer Buenos Aires, irei dia 20 pra Foz e depois pra Argentina, só tenho 9 dias, mas esse ano ainda chego até o Sul da Argentina, e acho que vou reservar 1 mês inteiro pras caminhadas.
Vilma - (S.Paulo-SP)
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Mensagem não lidapor Suelih » 10 Mar 2006, 10:09

Cazu99
Grande relato, Parabéns!
Adorei seu relato, descontraido, humorado, me envolvi na leitura e ate me senti trilhando também na floresta à medida que ia lendo.
Eu tambem adoro trilhas e agora com seu relato me interessei bastante pelas montanhas de Bariloche.
Quem sabe um dia.
Coloque mais fotos para a gente ver.!
(e conte mais aventuras tbem!)
um abraço.
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Mensagem não lidapor Samudil » 11 Mar 2006, 05:32

FALA CAZUZA!!! PUTS, NO MÍNIMO LOUCO SEU ROLÊ!!! PARABÉNS PELA SUA VIAGEM FOI OU NO MÍNIMO PARECEU SER BEM MOLHADA E BEM FRIA AO MESMO TEMPO Q BEM QUENTE.

Bom meu caro, eu preciso de algumas infos com vc, eu pretendo ir para bsas e fazer um mochiolao por algumas cidades da argentina em julho deste ano e se puder irei gostar se vc me ajudar com algumas infos
ah vc trocou dolar espécie ou aqueles travelcheck visa??

bom desde já agradeço!!
fala mais de bariloche, tô mto afim de ir lá tb!!
Samudil
 
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Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 13 Mar 2006, 10:43

Olá Nhioka,

Obrigado pelo elogio, na verdade gosto muito de lar os relatos de viagem deste site, que geralmente são muito bons, e como surgiu a oportunidade da viagem, resolvi relatar.
Não sei se disse no relato, mas o que acho mais legal de se viajar para outro país (além de voltar) são as mancadas que dou por lá, quando noto que estava dando uma de otário, saio rindo de mim mesmo. É muito legal.
Vou colocar algumas fotos mais (não as tenho aqui).
Gosto de escrever e vou escrever outros relatos, assim que os realizar, o que talvez demore um pouco (já que sou um mochileiro quase aposentado). Tenho alguns outros arquivos (não de viagem) em http://cazuza1234.zip.net

Olá Samudil,
Quando fiz a viagem estava mais vantajoso comprar cheques de viagem do que dinheiro. Se empatasse, eu já prefiria os cheques por causa da segurança.
Antes de ir, pensava que Bariloche era uma cidade "chique" demais para o meu estilo, mas além do pessoal que só gosta de olhar as vitrines, existe espaço para aventureiros também. Tenho certeza que vc vai gostar.
Não se esqueça de reservar hotel antes de ir ou então vá com barraca e saco de dormir apropriados para o frio, pois em temporada "o bicho pega" por lá. Outra opção é comprar o bilhete de B.A. para Bariloche em SP (certamente será um pouco mais caro, mas é garantido que viajará na data planejada).

Abraços,

Cazuza
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Mensagem não lidapor Oldemar » 13 Mar 2006, 18:08

Cazu,
Excelente relato, parabens!!!!

Axé!
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Mensagem não lidapor Suelih » 14 Mar 2006, 06:33

Grande Cazu99!

Gostei do seu estilo, deveria escrever um livro/
Continue escrevendo,
Editado pela última vez por Suelih em 11 Jun 2009, 18:58, em um total de 1 vez.
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Mensagem não lidapor Cazu99-EDT » 15 Mar 2006, 17:18

Tentei colocar mais fotos, porém não consegui. Acho que estou emburrecendo ou mudou alguma no site...
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Mensagem não lidapor anavenditti » 05 Abr 2006, 16:04

OI ADOREI SEU RELATO E AGORA MAIS DO Q NUNCA QUERO IR CONHECER BARI E BUENOS AIRES.....
GOSTARIA DE SABER QUAL A BARRACA QUE VC LEVOU PRA ACAMPAR NO GELO... QUERO COMPRAR UMA E ESTOU EM DUVIDA...

BJS
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