{"id":18680,"date":"2016-11-11T08:15:35","date_gmt":"2016-11-11T11:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/?p=18680"},"modified":"2017-07-30T19:28:18","modified_gmt":"2017-07-30T22:28:18","slug":"somos-passaros-que-amam-o-voo-mas-tem-medo-de-voar-por-rubem-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/somos-passaros-que-amam-o-voo-mas-tem-medo-de-voar-por-rubem-alves","title":{"rendered":"Somos p\u00e1ssaros que amam o voo, mas t\u00eam medo de voar (por Rubem Alves)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em>Texto de Rubem Alves<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De tudo o que Dostoi\u00e9vski escreveu em Os irm\u00e3os Karamazov; o que mais me impressionou foi o relato sobre o \u201cGrande Inquisidor\u201d. Jesus havia voltado \u00e0 terra e andava inc\u00f3gnito entre as pessoas. Todos o conheciam e sentiam o seu poder, mas ningu\u00e9m se atrevia a dizer o seu nome. N\u00e3o era necess\u00e1rio.\u00a0O Grande Inquisidor o observava de longe, no meio da multid\u00e3o, e ordena que ele seja preso e trazido \u00e0 sua presen\u00e7a. Ent\u00e3o, diante do prisioneiro silencioso ele profere a sua acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o h\u00e1 nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consci\u00eancia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada mais terr\u00edvel. E em lugar de pacificar a consci\u00eancia humana de uma vez por todas, mediante s\u00f3lidos princ\u00edpios, tu lhes ofereceste o que h\u00e1 de mais estranho, de mais enigm\u00e1tico, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as for\u00e7as humanas, a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Agiste, pois, como se n\u00e3o amasses os homens. [\u2026] Em vez de te apoderares da liberdade humana, tu a multiplicaste e, assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Grande Inquisidor estava certo. Ele conhecia o cora\u00e7\u00e3o dos homens. Os homens dizem amar a liberdade, mas de posse dela s\u00e3o tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade \u00e9 amedrontadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os homens s\u00e3o p\u00e1ssaros que amam o voo, mas t\u00eam medo de voar. Por isso abandonam o voo\u00a0e se protegem em gaiolas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-18682 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey.jpg\" alt=\"journey\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey.jpg 1024w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey-313x209.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/journey-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me recordo o nome do autor. Mas n\u00e3o importa. O texto vale por ele mesmo e n\u00e3o pelo nome daquele que o escreveu. Eu o reconto com as minhas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. L\u00e1 em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. T\u00e3o lindo! Mas era uma beleza que do\u00eda. O cansa\u00e7o das asas, o n\u00e3o ter casa fixa, o estar sempre voando, as espingardas dos ca\u00e7adores\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim que um pato selvagem, olhando l\u00e1 das alturas para essa terra de an\u00f5es aqui em baixo, viu um bando de patos dom\u00e9sticos. Estavam tranquilamente deitados \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, poupados do esfor\u00e7o de voar. E havia comida em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pato selvagem invejou os patos dom\u00e9sticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, desceu e passou a viver a vida que pedira a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim viveu por muitos anos at\u00e9 que de novo chegou o tempo da migra\u00e7\u00e3o dos patos. Eles apareciam, l\u00e1 no fundo do azul do c\u00e9u, forma\u00e7\u00f5es em \u201cV\u201d, grasnando, um grupo ap\u00f3s o outro. Aquela vis\u00e3o dos patos em voo, a mem\u00f3ria das alturas, aqueles grasnados de outros tempos come\u00e7aram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma saudade, uma nostalgia de belezas, o fasc\u00ednio do perigo e o vazio que se abria\u2026 At\u00e9 que n\u00e3o foi mais poss\u00edvel aguentar. Resolveu voltar a ser pato selvagem. Abriu as asas e bateu-se para voar, como outrora, mas n\u00e3o voou. Caiu, esborrachou-se no ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em seguran\u00e7a, protegido pelas cercas e triste por n\u00e3o poder voar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que Fernando Pessoa se sentiu um pouco como o pato. Pelo menos \u00e9 o que sinto ao ler esse poema:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, quanto vez, na hora suave<br \/>\nEm que n\u00e3o me esque\u00e7o,<br \/>\nVejo passar o voo de ave<br \/>\nE me entriste\u00e7o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que \u00e9 ligeiro, leve, certo<br \/>\nNo ar de amavio?<br \/>\nPor que vai sob o c\u00e9u aberto<br \/>\nSem um desvio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que ter asas simboliza<br \/>\nA liberdade<br \/>\nQue a vida nega e a alma precisa?<br \/>\nSei que me invade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um horror de me ter que cobre<br \/>\nComo uma cheia<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o, e entorna sobre<br \/>\nMinh\u2019alma alheia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um desejo, n\u00e3o de ser ave,<br \/>\nMas de poder<br \/>\nTer n\u00e3o sei qu\u00ea do voo suave<br \/>\nDentro em meu ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar \u00e9 preciso amar o vazio. Porque o v\u00f4o s\u00f3 acontece se houver o vazio. O vazio \u00e9 o espa\u00e7o da liberdade, a aus\u00eancia de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. N\u00e3o podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. <strong>As gaiolas s\u00e3o o lugar onde as certezas moram.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles n\u00e3o s\u00e3o livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade \u00e9 o oposto. <strong>Os homens preferem as gaiolas ao voo. S\u00e3o eles mesmos que constroem as gaiolas onde passar\u00e3o as suas vidas. (&#8230;)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Texto de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rubem_Alves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rubem Alves<\/a><\/strong><br \/>\n<strong> Introdu\u00e7\u00e3o do livro \u201cReligi\u00e3o e Repress\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas grandes cidades, no pequeno dia a dia<br \/>\nO medo nos leva a tudo, sobretudo \u00e0 fantasia<br \/>\nEnt\u00e3o erguemos muros que nos d\u00e3o a garantia<br \/>\nDe que morreremos cheios de uma vida t\u00e3o vazia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Muros e Grades &#8211; Engenheiros do Hawaii<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Rubem Alves De tudo o que Dostoi\u00e9vski escreveu em Os irm\u00e3os Karamazov; o que mais me impressionou foi o relato sobre o \u201cGrande Inquisidor\u201d. Jesus havia voltado \u00e0 terra e andava inc\u00f3gnito entre as pessoas. 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