{"id":31111,"date":"2017-08-10T13:57:35","date_gmt":"2017-08-10T16:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/?p=31111"},"modified":"2020-12-12T15:42:57","modified_gmt":"2020-12-12T18:42:57","slug":"roadtrip-argentina-salta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/roadtrip-argentina-salta","title":{"rendered":"A Argentina muito al\u00e9m de Buenos Aires e do &#8220;fim do mundo&#8221;, d\u00ea um pulo em Salta."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Salta, &#8220;La linda&#8221; e muito gostosa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Irresist\u00edvel, prov\u00edncia do norte argentino esconde beleza \u00edmpar em estradas terr\u00edveis e relevo mutante<\/em><\/p>\n<p>A \u00faltima janela de um boteco na esquina da\u00a0<em>Calle<\/em>\u00a0C\u00f3rdoba com a Caseros \u00e9 testemunha ocular da devo\u00e7\u00e3o. Do lado de dentro no m\u00e1ximo nove mesas; um senhorzinho boliviano com tra\u00e7os de ar rarefeito no rosto largo serve empanadas e cerveja Salta. Trouxe-me um cop\u00e3o fosco e gelado com o adesivo que exprime o orgulho dos povos origin\u00e1rios nos quadrados coloridos de sua bandeira. Definitivamente, eu estava de volta aos Andes, com a minha garota escancarando suas p\u00e9rolas pra fora de uma bocona curvada e feliz pelo primeiro contato junto \u00e0 carne de uma cultura distinta de tudo que j\u00e1 havia vivido. Meu olhar carregava cansa\u00e7o e uma gritante satisfa\u00e7\u00e3o por t\u00ea-la arrastado at\u00e9 ali. Independente de uma vida eterna ao meu lado, aquilo a marcaria pelo resto de seus dias. E essa \u00e9 minha defini\u00e7\u00e3o para \u201clegado\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_31112\" style=\"width: 437px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31112\" class=\"wp-image-31112 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0131.jpg\" alt=\"\" width=\"427\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0131.jpg 427w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0131-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0131-313x468.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0131-13x20.jpg 13w\" sizes=\"auto, (max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><p id=\"caption-attachment-31112\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;La Tacita&#8221; bar<\/p><\/div>\n<p>\u201cLa Tacita\u201d \u00e9 o nome do bar. A noite \u00e9 de Natal. 24 de dezembro de 2016. T\u00e3o hist\u00f3rico pra mim, quanto para a fam\u00edlia de Jesus num est\u00e1bulo, quanto para os reis magos salpicados de areia durante a persegui\u00e7\u00e3o des\u00e9rtica \u00e0 estrela cadente de Bel\u00e9m. T\u00e3o hist\u00f3rico quanto a vit\u00f3ria do The Strongest no cl\u00e1ssico futebol\u00edstico de La Paz, frente ao Bol\u00edvar; a televis\u00e3o anunciava o fim da partida no pa\u00eds vizinho. A ceia armada ali, \u00e0 \u00faltima janela de um botequinho simples, de frente para a avermelhada Bas\u00edlica de San Francisco e o vai e vem de seus devotos. Os sinos badalavam por toda a capital da Prov\u00edncia de Salta, tinha missa na Catedral tamb\u00e9m, em frente \u00e0 pra\u00e7a principal, onde o com\u00e9rcio baixava as portas rumo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o familiar anual. Um toque de recolher sacro aos que tinham para onde ir. N\u00f3s \u2013 por sorte \u2013 n\u00e3o t\u00ednhamos.<\/p>\n<p>Devota Salta ind\u00edgena. Devota aos santos de uma imposi\u00e7\u00e3o europeia, hoje um pouco mais livre para cultivar de volta as ra\u00edzes de sua Pacha generosa Mama. Devota \u00e0 m\u00edtica lenda local: o Gauchito Gil, em sua cal\u00e7a folgada, len\u00e7o vermelho e chap\u00e9u. Salta, livre, Salta. Gra\u00e7as ao aclamado \u2013 e por que n\u00e3o? \u2013 santificado General G\u00fcemes, o grande l\u00edder do ex\u00e9rcito ga\u00facho; com seus ponchos vermelhos e la\u00e7os bailantes sobre cabe\u00e7as destemidas, cavalgando nos campos das prov\u00edncias nortenhas em nome de seu territ\u00f3rio. Revolu\u00e7\u00e3o lembrada hoje nas cores da bandeira honrada que traz o sangue dos bravos em seu belo tom bord\u00f4.<\/p>\n<div id=\"attachment_31113\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31113\" class=\"wp-image-31113 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/sem-tc3adtulo.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/sem-tc3adtulo.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/sem-tc3adtulo-300x235.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/sem-tc3adtulo-313x245.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/sem-tc3adtulo-20x16.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31113\" class=\"wp-caption-text\">As entranhas de Salta<\/p><\/div>\n<p><strong>Um hotel em Payogasta<\/strong><\/p>\n<p>Dali basta dar partida no carro e ir guiando pela Ruta 33, da\u00a0<em>Quebrada del Escoipe<\/em>\u00a0a\u00a0<em>Cuesta del Obispo<\/em>, margeando rios secos e pared\u00f5es de pedra; testemunhando a muta\u00e7\u00e3o da flora onde galhos folhados d\u00e3o espa\u00e7o a cactos verde-queimado, de muitos espinhos, coroados com poucas flores rosadas que desabrocham para surpreender. Cactos, ou \u201ccardones\u201d. Gigantes com 2, 3 metros enraizados na aridez de um parque nacional e especial, abrindo um corredor sem fim at\u00e9 a terra do piment\u00e3o e da p\u00e1prica: o acanhado vilarejo de Payogasta. A Ruta 40 cumpre o papel de principal avenida do povoado, com seus rar\u00edssimos dois quil\u00f4metros de asfalto margeados por casinhas simples, comedores, tendas e pequenos produtores de \u201cpiment\u00f3n\u201d exibindo seus frutos secos sobre lonas estendidas ao sol escaldante.<\/p>\n<div id=\"attachment_31114\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31114\" class=\"wp-image-31114 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0585.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0585.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0585-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0585-313x210.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0585-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31114\" class=\"wp-caption-text\">Parque Nacional de los Cardones<\/p><\/div>\n<p>Quase no beijo do pavimento com a poeira est\u00e1 o que talvez seja o \u00fanico hotel do lugar, o Sala de Payogasta \u2013 ocupando os dois lados da rodovia. \u00c0 direita de quem segue para o sul est\u00e1 o maior casar\u00e3o da cidade, remanescente dos tempos de batalhas provinciais. Adepto ao suspens\u00f3rio que escorrega sobre a pan\u00e7a pra segurar as cal\u00e7as, Don Julio, o herdeiro caolho de um ex combatente, \u00e9 quem hoje tem a miss\u00e3o de atrair escassos turistas para uma linda estrutura. Quartos de teto alto, cobertura de adobe sustentada por vigas em troncos de cacto e palha; portas com dupla abertura; janel\u00f5es com vista para um vasto campo verde e lil\u00e1s com cheiro de lavanda, vigiado por um grande planalto bege semelhante a uma mesa gigantesca onde os deuses palitam os dentes ap\u00f3s o banquete. Por falar em comida, a janta atravessa a \u201crua\u201d, vinda de uma janelinha com luz amarelada l\u00e1 de dentro. Paula e eu somos os \u00fanicos e especiais h\u00f3spedes. Os grilos regem uma sinfonia particular e rom\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Leandro, o recepcionista e tamb\u00e9m gar\u00e7om, \u00e9 o argentino de pele \u201cbugra\u201d e fala t\u00edmida que desarrolha a primeira garrafa do vinho produzido nos vinhedos que ficam atr\u00e1s da cozinha do pr\u00f3prio hotel. C\u00edtrico, alco\u00f3lico e com gosto de Payogasta. O anfitri\u00e3o se retira. Ele volta em poucos minutos carregado de p\u00e3es caseiros, salsas picantes, feij\u00f5es brancos gordos e o chimichurri meticulosamente triturado e inspecionado por Faustina, uma cozinheira de jeito e riso simples, e m\u00e3os refinadas. No prato principal, lascas de cabrito estufam tiras intercaladas de berinjela e queijo de cabra, poderia chamar aquilo de lasanha salte\u00f1a, mas devo admitir que, entretido num sabor singular, pouco me importei em anotar o nome da iguaria.<\/p>\n<div id=\"attachment_31115\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31115\" class=\"wp-image-31115 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0662.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0662.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0662-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0662-313x210.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_0662-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31115\" class=\"wp-caption-text\">Sala de Payogasta, um grande hotel.<\/p><\/div>\n<p>\u00c0s 23 horas Leandro e Faustina partem pela Ruta 40 at\u00e9 que a escurid\u00e3o consuma seus corpos numa bicicleta. O jovem pedala e ela vai sentada de lado na garupa. Ele apenas encosta a porta de entrada do hotel e nos deixa ali, sem chaves ou trancas; com um cachorro no p\u00e1tio quadrado ornamentado por uma pequena pra\u00e7a central que abriga uma lareira ao ar livre; nas colunas de sustenta\u00e7\u00e3o se abra\u00e7am parreiras de pequenas uvas verdes. N\u00f3s, as barrigas cheias, um frasco de chimichurri, o c\u00e9u estrelado e a intermin\u00e1vel sinfonia dos grilos. O que soaria soturno e dram\u00e1tico e assombroso para alguns, foi nossa noite naquele casario hoteleiro em Payogasta. As portas rangem, as molas de um imenso colch\u00e3o vibram. Amanh\u00e3 o caf\u00e9 da manh\u00e3 regional com marmeladas de cayote (uma esp\u00e9cie de ab\u00f3bora andina), estar\u00e1 \u00e0 mesa, encarando aquele campo de lavanda aos p\u00e9s da montanha.<\/p>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script>(function(d, s, id) {  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];  if (d.getElementById(id)) return;  js = d.createElement(s); js.id = id;  js.src = 'https:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/sdk.js#xfbml=1&version=v3.1';  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));<\/script><\/p>\n<div class=\"fb-video\" data-href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\/videos\/568901006637651\/\" data-width=\"740\">\n<blockquote cite=\"https:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\/videos\/568901006637651\/\" class=\"fb-xfbml-parse-ignore\"><p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\/videos\/568901006637651\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sala de Payogasta: un grande hotel.<\/a><\/p>\n<p>Onde mesmo que n\u00f3s estamos, querida?#argentina #payogasta #vallescalchaquies #trip #travel #viagem #viajar #viajando #backpacking #backpackers #mochilao #mochileiros #wanderlust #hotels #shouthamerica #latinamerica #latinoamerica #salta #ruta40 #vinho #vino #enoturismo<\/p>\n<p>Posted by <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mochila Cr\u00f4nica<\/a> on Tuesday, December 27, 2016<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Confira os conte\u00fados do Mochila Cr\u00f4nica tamb\u00e9m no Insta<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mochilacronica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">@mochilacronica<\/a>\u00a0<em>ou na fan page<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mochila Cr\u00f4nica<\/a>.<\/p>\n<p><strong>O melhor risoto do mundo n\u00e3o leva arroz<\/strong><\/p>\n<p>Resumir Cachi a uma tigela de barro fumegando risoto de quinoa n\u00e3o seria relaxo ou dem\u00e9rito a este povoado que est\u00e1 a cerca de 10 quil\u00f4metros ao sul de Payogasta, seguindo pela Ruta 40, que rasga a Argentina de norte ao extremo sul. \u00c9 que Cachi \u00e9 uma intima\u00e7\u00e3o \u00e0 gula prazerosa de caminhar por suas ruas pacatas com as m\u00e3os nos bolsos, vasculhando velhos armaz\u00e9ns de azeite artesanal, cervejas maltadas com cereais caracter\u00edsticos da terra, latic\u00ednios caprinos, as melhores empanadas da Argentina, tamales (um tipo de pamonha) de carne seca e claro, o melhor risoto do mundo. Tudo regado a vinho mais barato que \u00e1gua e \u00e0 cerveja local.<\/p>\n<p>Paula e eu cambale\u00e1vamos grogues e felizes, passeando pela pra\u00e7a central ap\u00f3s uns tragos e uns beliscos nos botecos ao redor da igreja. Insaci\u00e1veis e incontrol\u00e1veis, est\u00e1vamos \u00e0 procura de algo um pouco mais fervoroso; algo que continuasse cozinhando mesmo depois de mastigado, dentro de nossos est\u00f4magos jamais combalidos, extremamente metab\u00f3licos e, \u00e0quela altura, inundados de suco g\u00e1strico. Algo que continuasse vivo mesmo depois de uma providencial passada no banheiro. Aquelas mulheres do simpl\u00f3rio \u201cComedor Pueblo Hermoso\u201d conseguiram.<\/p>\n<div id=\"attachment_31116\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31116\" class=\"wp-image-31116 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1026.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1026.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1026-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1026-313x210.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1026-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31116\" class=\"wp-caption-text\">Em Cachi, fa\u00e7a este favor a sua alma<\/p><\/div>\n<p>Mar\u00eda, uma senhora de voz mansa quase inaud\u00edvel recepcionou-nos com seu olhar terno, cabelos de petr\u00f3leo amarrados; uma caneta e um caderninho de pedidos nas m\u00e3os. Perguntamos pelo prato mais vivo, o prato que poderia ser o prefeito da cidade e, qui\u00e7\u00e1, presidente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2013 Coma o risoto de quinoa \u2013 soprou um senhor que jantava com toda fam\u00edlia bagunceira em tr\u00eas ou quatro mesas coladas umas as outras.<\/p>\n<p>Era aquilo. A sugest\u00e3o de um leg\u00edtimo patriarca local, um manjar local, num modesto restaurante local de singelas toalhas de mesa. Em alguns minutos Mar\u00eda voltaria sorridente com a tigela do aguardado melhor risoto do mundo. Ela ent\u00e3o ancora ao meu lado e testemunha emudecida, at\u00e9 que eu desse a primeira colherada e posteriormente os sucessivos gemidos de prazer gastron\u00f4mico. Aquilo era t\u00e3o \u00fanico e espetacular que, mesmo se chamando \u201crisoto\u201d, descartava arroz e envergonhava italianos. Risoto de quinoa, o risoto andino. Um creme branco esverdeado salpicado de cereais vindo \u00e0 tona, got\u00edculas de salsa vermelha na superf\u00edcie. Uma mistura borbulhante de queijo, leite, cebola, alho e piment\u00f5es verdes; fatias de p\u00e3es chapeados numa s\u00f3 face vinham mergulhados \u00e0 borda.<\/p>\n<div id=\"attachment_31117\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31117\" class=\"wp-image-31117 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1009.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1009.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1009-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1009-313x176.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1009-20x11.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31117\" class=\"wp-caption-text\">Chupa, It\u00e1lia<\/p><\/div>\n<p>Invadi a pequena cozinha e cumprimentei tr\u00eas das melhores cozinheiras que j\u00e1 conheci. Modestas, nenhuma aguardava o \u00eaxtase de um estrangeiro no que deveria ser s\u00f3 mais um dia por ali. Mas eu precisava tocar aquelas m\u00e3os benditas e me curvar como quem pede um pouco daquela gra\u00e7a. Precisava coloc\u00e1-las num altar. E o fiz propositalmente na presen\u00e7a de seu patr\u00e3o debru\u00e7ado numa antiga caixa registradora, eu era o entusiasta puxando a saraivada de aplausos de uma plateia ensandecida dentro de mim. Aquele cara meio tristonho e desmotivado precisava saber do valor que sua cozinha escondia de afamadas Estrelas Michelin.\u00a0Havia gal\u00e1xias inteiras dentro daquelas panelas velhas e amassadas, encrustadas de comida e verdade.<\/p>\n<p><strong>O obelisco que voc\u00ea conhece \u00e9 uma c\u00f3pia<\/strong><\/p>\n<p>157 poeirentos, esburacados e abandonados quil\u00f4metros pela Ruta 40 ligam Cachi a Cafayate \u2013 cidade onde as bodegas e vinhedos se proliferam impulsionando a economia local. Mas antes disso, s\u00e3o oito horas subindo e descendo pela estrada que transforma viajantes em brita dentro de liquidificador. Comp\u00f5em a paisagem: manadas de bodes e seus pastores que cruzam o caminho; postos de gasolina com bombas secas e abandonadas, assim como as lanchonetes sem ao menos moscas, capelas sem sangue de Cristo nos c\u00e1lices e vilarejos completamente evadidos. A autoestrada pinta o cen\u00e1rio p\u00f3s-apocal\u00edptico de um ataque marciano fict\u00edcio, tornando assim dif\u00edcil para um casal n\u00e3o se imaginar como a \u00faltima esperan\u00e7a da ra\u00e7a humana na Terra.<\/p>\n<div id=\"attachment_31118\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31118\" class=\"wp-image-31118 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/g0278559.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/g0278559.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/g0278559-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/g0278559-313x235.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/g0278559-20x15.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31118\" class=\"wp-caption-text\">A \u00faltima esperan\u00e7a da Terra<\/p><\/div>\n<p>Esculpidas pela a\u00e7\u00e3o do vento e das \u00e1guas que ali flu\u00edam h\u00e1 milhares de anos, as rochas peculiarmente posicionadas e enfileiradas na diagonal ganharam semelhan\u00e7a a pontas de flechas. Motivo suficiente para batizar o vale como\u00a0<em>\u201cQuebrada de Las Flechas\u201d<\/em>. E a\u00ed a criatividade para nomes e apelidos aos brindes que a natureza promove \u00e0 beira da estrada se mostra indom\u00e1vel. Quando Cafayate definitivamente aparece com uma ta\u00e7a de vinho na m\u00e3o, a cidade faz do encontro da RN 40 com a 68 uma mistura de suco de uva com poeira. \u00c9 claro, depois de uns mergulhos em barris de carvalho, \u00e9 hora ent\u00e3o de retornar a Salta Capital pela RN 68. A via asfaltada que se enfia na\u00a0<em>\u201cQuebrada de Las Conchas\u201d<\/em>. Abruptamente as cores frias da RN 40 ganham tons quentes, com pared\u00f5es rochosos sanguinolentos e forma\u00e7\u00f5es que cultuam animais, Deus e o Diabo.<\/p>\n<p>Ainda que quase 1500 quil\u00f4metros distante da Avenida 9 de julho, em Buenos Aires, \u00e9 poss\u00edvel parar para um belo almo\u00e7o na companhia do nada, com vista especial para\u00a0<em>\u201cEl Obelisco\u201d<\/em>. Basta guardar algumas empanadas da noite anterior, invadir uma banca de artesanatos abandonada e se esbaldar entre goles do gargalo de garrafas de vinho quente, chimichurri e o visual para um monumento original entalhado pela pr\u00f3pria natureza. E dali pra frente aparecem grandes plataformas de pedra no horizonte, os \u201cCastelos\u201d; o Cerro das Tr\u00eas Cruzes, que insinua um calv\u00e1rio andino prestando condol\u00eancias \u00e0 morte na cruz, oferecendo uma das melhores paisagens para apreciar enquanto se morre de \u00eaxtase sem lan\u00e7as romanas nas costelas. Um pouco mais pra frente pode-se sentir tamb\u00e9m o bafo do Capeta, numa fenda rochosa pichada e mal conservada: a Garganta do Diabo, que de interessante mesmo s\u00f3 o nome.<\/p>\n<div id=\"attachment_31119\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31119\" class=\"wp-image-31119 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1960.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1960.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1960-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1960-313x210.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_1960-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31119\" class=\"wp-caption-text\">Mirador \u201cTres Cruces\u201d, RN 68<\/p><\/div>\n<p><strong>O \u00faltimo posto de gasolina da Argentina<\/strong><\/p>\n<p>Pouco antes dos primeiros raios de sol em La Silleta, comunidade rural de Salta Capital, \u00e9 preciso desviar de uma infinidade de sapos e r\u00e3s espalhados pelas passarelas de pedra que levam \u00e0 cozinha e recep\u00e7\u00e3o do albergue. Liga o carro. Passa a porteira e v\u00e1. V\u00e1 em busca do \u00faltimo posto de gasolina da Argentina. Completa, verifica o \u00f3leo, a calibragem dos pneus e v\u00e1. \u00c0s alturas, subindo por estradas p\u00e9ssimas e completamente abandonadas, com pouqu\u00edssimos e de funcionamento duvidoso, postes de S.O.S. V\u00e1 roubar o ar de Deus num dos\u00a0<i>pitstops<\/i>\u00a0de \u00cdcaro em sua fracassada peregrina\u00e7\u00e3o rumo ao sol. Voc\u00ea provavelmente ir\u00e1 encontrar um santo com dentes de cobre no sorriso.<\/p>\n<p>\u201cBienvenido a San Ant\u00f4nio de Los Cobres\u201d, diz o\u00a0<i>outdoor<\/i>\u00a0da Coca-Cola numa publicidade da d\u00e9cada de 70, com o desenho rechonchudo de uma\u00a0<em>\u201cchola\u201d<\/em>charmosa (a tradicional mulher dos Andes; de longos saiotes, chapeuzinho e tran\u00e7as no cabelo). No morro tamb\u00e9m, pedras brancas formam a sauda\u00e7\u00e3o casada ao nome do lugar. Estabelecimentos de portas fechadas, vento soprando poeira. Sil\u00eancio. Onde iria conseguir uma Coca-Cola naquela situa\u00e7\u00e3o? Nada que n\u00e3o pudesse ser rompido com uma passada no pequeno mercado de artesanal para comprar um saquinho de erva. Mu\u00f1a. Um odor fresco e forte que expande as vias a\u00e9reas e, segundo as tradi\u00e7\u00f5es locais, ameniza o mal estar causado pela altitude; ou como dizem os nativos: \u201cla puna\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_31120\" style=\"width: 682px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-31120\" class=\"wp-image-31120 size-full\" src=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_2023.jpg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_2023.jpg 672w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_2023-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_2023-313x210.jpg 313w, https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dsc_2023-20x13.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><p id=\"caption-attachment-31120\" class=\"wp-caption-text\">La Polvorilla<\/p><\/div>\n<p>Perto dali, a caminho do Atacama pelo des\u00e9rtico Paso de Sico, um trem que promete levar passageiros \u00e0s nuvens urra por trilhos a 4.200 metros de altitude. Ele serpenteia montanhas de cor morta que contrastam com o azul celeste. Seu ponto final n\u00e3o contempla nenhuma esta\u00e7\u00e3o fantasma cravada no fim de um mundo \u00e1rido, apenas uma ponte ferrovi\u00e1ria com estrutura de ferro. Um viaduto resistente que serve de mirante aos que desembarcam para fotografar e contemplar a vista. Depois disso e de mais um pouco de p\u00f3, lhamas, trilhos e casebres de barro abandonados, a Argentina mostra o seu peda\u00e7o de Atacama pela RN 51; n\u00e3o se cansando de mudar de relevo, abrindo as portas de uma nova fronteira com o desejo de \u201cvolte sempre\u201d soprado pela ventania bem nos dutos dos ouvidos de quem a desbrava.<\/p>\n<blockquote><p>Confira mais aventuras do Mochila Cr\u00f4nica no blog\u00a0<a href=\"https:\/\/mochilacronica.com\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">www.mochilacronica.com,<\/a>\u00a0pelo Insta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mochilacronica\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">@mochilacronica<\/a>\u00a0ou na fan page\u00a0<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/mochilacronica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mochila Cr\u00f4nica<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salta, &#8220;La linda&#8221; e muito gostosa Irresist\u00edvel, prov\u00edncia do norte argentino esconde beleza \u00edmpar em estradas terr\u00edveis e relevo mutante A \u00faltima janela de um boteco na esquina da\u00a0Calle\u00a0C\u00f3rdoba com a Caseros \u00e9 testemunha ocular da devo\u00e7\u00e3o. Do lado de dentro no m\u00e1ximo nove mesas; um senhorzinho boliviano com tra\u00e7os de ar rarefeito no rosto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1276,"featured_media":31122,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"googlesitekit_rrm_CAoiELM5mIOjYRN0nfylq3_9r-8:productID":"","_crdt_document":"","_daim_seo_power":"1000","_daim_enable_ail":"1","footnotes":""},"categories":[107,1186],"tags":[1027,2271,2788,1853,1070],"class_list":["post-31111","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argentina","category-america-do-sul","tag-buenos-aires","tag-o-que-fazer-em-buenos-aires","tag-payogasta","tag-salta","tag-viagem-de-carro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1276"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31111"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31111\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}