{"id":6496,"date":"2001-02-23T15:00:24","date_gmt":"2001-02-23T18:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/?p=6496"},"modified":"2013-05-16T12:17:06","modified_gmt":"2013-05-16T15:17:06","slug":"entrevista-com-tito-rosemberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mochileiros.com\/blog\/entrevista-com-tito-rosemberg","title":{"rendered":"Entrevista com Tito Rosemberg"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;A viagem real n\u00e3o consiste em buscar novas paisagens, mas em buscar uma nova forma de ver&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>Marcel Prost.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 a abertura da se\u00e7\u00e3o biografia do site oficial do viajante (ou tecno- n\u00f4made, como j\u00e1 foi chamado) jornalista, fot\u00f3grafo e documentarista, Tito Rosemberg. Com 54 anos de idade, muitos dedicados ao surf, o carioca que hoje vive em Roma, conhece 80 pa\u00edses e continua a se aventurar por a\u00ed. Pra se ter uma id\u00e9ia, Tito fez parte da primeira equipe brasileira do Camel Trophy 1985, em Born\u00e9u, na Indon\u00e9sia, onde recebeu o pr\u00eamio de &#8220;melhor esp\u00edrito de equipe&#8221;! O cara tem muito pra contar, acompanhe:<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Como come\u00e7ou o interesse pela aventura e qual foi sua primeira grande viagem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Tudo come\u00e7ou com as revistas estrangeiras que meu pai, jornalista, trazia para casa. Vendo fotos de pa\u00edses ex\u00f3ticos, eu, ainda garoto, comecei a pensar em conhece-los em primeira m\u00e3o. Quando fiz 18 anos comecei a conhecer as cidades perto do Rio de Janeiro. Mais tarde fiz umas viagens pela Am\u00e9rica do Sul com meu pai.<\/p>\n<p>A primeira grande viagem foi com amigos argentinos, quando sa\u00ed surfando do Rio at\u00e9 o Uruguai, que naquela \u00e9poca, parecia para mim do outro lado do mundo, mas com 23 anos j\u00e1 estava pronto para sair pelo mundo por conta pr\u00f3pria. Em 1969 vendi tudo que tinha e fui lavar pratos em Londres. Dali em diante as coisas foram ficando cada vez mais f\u00e1ceis, pois a estrada j\u00e1 n\u00e3o me assustava mais.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Em algumas de suas entrevistas voc\u00ea cita que seu pai teve grande influ\u00eancia sobre sua &#8220;vida n\u00f4made&#8221;. De que maneira isso ocorreu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Meu pai tinha uma agencia de material para imprensa, e representava um mont\u00e3o de jornais e revistas europeus e norte americanos, por esta raz\u00e3o ele viajava muito, e me acostumei a v\u00ea-lo partir para ficar meses fora. Desde cedo tive que aprender a ver as pessoas queridas ficando longe. N\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que suas viagens me influenciaram muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Qual foi o primeiro &#8220;impacto&#8221; de sua primeira viagem? (nacional e internacional)<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> A coisa que mais me preocupava quando comecei a viajar era o estar longe da fam\u00edlia, do apoio que ela me oferecia. O contato com um mundo estranho, cheio de pessoas desconhecidas, e \u00e0 milhares de quil\u00f4metros das coisas que conhecia, foi a barra mais dif\u00edcil de superar. Estar longe dos amigos, ou melhor, sem amigos, foi dif\u00edcil de superar, e um verdadeiro desafio o come\u00e7ar a fazer novas amizades.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas que quer partir pelo mundo pensa sempre neste detalhe dif\u00edcil: aprender a viver e estar sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Para voc\u00ea, as viagens a trabalho e as n\u00e3o t\u00eam alguma diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Nunca viajei sem pensar como jornalista. At\u00e9 mesmo quando n\u00e3o estava \u00e0 servi\u00e7o de nenhum jornal, eu fotografava, anotava dicas e sugest\u00f5es, colecionava os mapas para pr\u00f3ximas viagens e tinha minha cabe\u00e7a inteiramente dedicada a registrar tudo que via, como se pudesse me comunicar com outras pessoas atrav\u00e9s do jornalismo.<\/p>\n<p>Por isto nunca minhas viagens se diferenciavam entre as de trabalho e as de prazer, tudo sempre foi uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Qual foi sua grande viagem a trabalho e a que n\u00e3o foi feita &#8220;profissionalmente&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Acho que a \u00fanica viagem &#8220;profissional&#8221; que fiz, foi a participa\u00e7\u00e3o no Camel Trophy, pois eu n\u00e3o tinha o direito de ir e vir, devendo obedecer os hor\u00e1rios e roteiros estabelecidos por outros, no caso a organiza\u00e7\u00e3o do evento. Por esta raz\u00e3o n\u00e3o tinha a liberdade usual de mudar de id\u00e9ia quando me desse na cuca.<br \/>\nTodas as outras viagens foram por prazer, podendo reverter em reportagens ou n\u00e3o. Ali\u00e1s, a maioria das minhas viagens nunca viraram reportagens.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Hoje existem destinos que s\u00e3o &#8220;mecas dos mochileiros&#8221;: Machu Picchu, Torres del Paine, Chapadas brasileiras etc. Quando come\u00e7ou a viajar existia uma &#8220;rota obrigat\u00f3ria&#8221;? Qual era? Se chegou at\u00e9 ela, o local atingiu suas expectativas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> As mecas dos viajantes alternativos da \u00e9poca em que inicie na estrada, era Timbuktu, no M\u00e1li, \u00c1frica, Katmandu, no Nepal e Machu Pichu no Peru. Destas a\u00ed, s\u00f3 cheguei a Machu Pichu. As outras ainda est\u00e3o na lista. Com o passar dos tempos fui adquirindo novos objetivos, e os fui pesquisando um a um. Guethary na Fran\u00e7a, Hawaii, Calif\u00f3rnia, Marrocos, Senegal, e sempre o Sahara, que at\u00e9 hoje me fascina. Todos tinham suas belezas particulares, e se em algumas n\u00e3o tive uma viagem ou uma estadia f\u00e1cil, foi por incompet\u00eancia minha, que ainda hoje estou aperfei\u00e7oando.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; O que acha dessas &#8220;rotas obrigat\u00f3rias&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Uma ilus\u00e3o! Cada um deve descobrir o que lhe d\u00e1 tes\u00e3o. Pode ser o contato com o passado, que pode ser encontrado na Europa, pode ser o conv\u00edvio com o mundo organizado, que pode ser encontrado nos Estados Unidos, ou com a natureza em estado preservado, que se encontra na Amaz\u00f4nia, ou o exotismo, que se encontra no Sahara.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Qual a dica que d\u00e1 para um mochileiro de primeira viagem: rumo \u00e0s rotas ou rumo a lugares menos convencionais? Pode citar algo sobre alguns que visitou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Mochileiro que se preza n\u00e3o pode ir na onda dos outros, o que pode at\u00e9 se tornar perigoso, e raramente traz o verdadeiro prazer da descoberta individual. Antes de mais nada quem quer que deseje se tornar um viajante deve primeiro tentar conhecer um pouco sobre seus pr\u00f3prios sonhos e desejos. Quem parte influenciado por outros corre mais riscos de quebrar a cara. Um mochileiro surfista pode querer primeiro ir em busca de ondas em pa\u00edses ex\u00f3ticos. Um montanhista poderia come\u00e7ar pesquisando picos do outro lado do mundo, e assim em diante.<\/p>\n<p>Acho que uma viagem bem caretinha \u00e0 Europa ou USA, tipo um m\u00eas fora, pode ser um trampolim para tantas outras mais radicais que a principio talvez nem tiv\u00e9ssemos a coragem de enfrentar. \u00c9 muito mais seguro e natural come\u00e7armos devagarinho e depois ir expandindo o raio de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; O que voc\u00ea busca em suas viagens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Satisfazer minha curiosidade e conhecer o mundo em primeira m\u00e3o. Lendo livros ou vendo document\u00e1rios na televis\u00e3o n\u00f3s percebemos o mundo como outras pessoas o experimentaram. Quantas vezes vamos ver um filme que a cr\u00edtica acha maravilhoso e n\u00f3s achamos muito chato, e vice versa? Adoro ver estes document\u00e1rios na televis\u00e3o, porque me d\u00e3o mais ou menos a id\u00e9ia do que existe l\u00e1 em termos f\u00edsicos, mas quando estamos l\u00e1 em carne e osso, \u00e9 dez vezes mais legal do que qualquer document\u00e1rio, porque tem cheiro, tem terceira dimens\u00e3o, tem gente ao vivo, e emo\u00e7\u00f5es que telinha nenhuma pode passar para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Viajo em busca de experi\u00eancias, conhecimento e expans\u00e3o dos meus horizontes.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas (grandes atrativos dos destinos), nesses mais de 30 anos de estrada, voc\u00ea deve ter encontrado v\u00e1rias figuras interessantes. Tem alguma que n\u00e3o se esquece?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Conheci e tive o prazer de conviver durante 3 anos com Maxwell Clark, um senhor de 82 anos que morava perto de mim no Estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos. Eu trabalhava dirigindo tratores em fazendas que plantavam milho, mostarda e ervilha, e ele plantava flores e vendia sementes delas. Era um g\u00eanio: humilde, espirituoso e cheio de conhecimento da vida, mesmo que nunca tivesse sa\u00eddo do seu estado, nem ter jamais viajado. Seu conhecimento foi fundamental para meu desenvolvimento, porque ser feliz e jovem aos 82 anos n\u00e3o \u00e9 para qualquer um. N\u00f3s sa\u00edmos para jantar, ir ao cinema, passear pelo campo, foi um grande amigo, que morreu um ano depois da minha partida de l\u00e1. Antes de partir, j\u00e1 temeroso pela sua sa\u00fade, perguntei a ele se podia me dizer alguma coisa que sintetizasse toda sua experi\u00eancia de vida. Ele pensou alguns segundos e me disse, do alto dos seus 82 anos, &#8220;Se eu soubesse como a vida seria, n\u00e3o teria me preocupado tanto&#8221;. Nunca mais me esqueci disso.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Com rela\u00e7\u00e3o aos costumes. Tem algum fato inusitado para nos contar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Todos os dias nos reservam grandes surpresas quando viajamos com a mente aberta. Aprender a entender e aceitar os h\u00e1bitos de culturas diferentes \u00e9 uma ferramenta que serve em todos os momentos da vida. Ver como os \u00edndios dividem a comida, como os \u00e1rabes oferecem o ch\u00e1 de menta, como os esquim\u00f3s pescam as baleias \u00e0 m\u00e3o, como h\u00e1 duzentos anos atr\u00e1s, como os italianos se relacionam com a comida, ou os franceses com os vinhos, s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es que servem para fortalecer nosso car\u00e1ter. N\u00e3o me lembro de nenhum costume em espec\u00edfico, que tenha me impressionado individualmente, mas ver a paz e a alegria habitual dentro de uma aldeia ind\u00edgena brasileira longe do que chamamos de &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de boa vida.<\/p>\n<p>Mochila Brasil &#8211; Existe algum lugar em que voc\u00ea n\u00e3o colocaria mais o p\u00e9? Qual e por que?<\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Tenho p\u00e9ssimas lembran\u00e7as da Col\u00f4mbia, que \u00e9 pior na vida real do que nos relatos dos viajantes ou manchetes dos jornais. O n\u00edvel de criminalidade \u00e9 t\u00e3o alto, que viajar chega a ser um risco calculado.<\/p>\n<p>Mas por outro lado, conhe\u00e7o colombianos que s\u00e3o gente fin\u00edssima.<\/p>\n<p>Acho que na maioria das vezes, se n\u00e3o gostamos de algum lugar \u00e9 porque n\u00e3o tivemos a capacidade de entende-lo. Assim, chego a exagerar dizendo que devo sempre voltar aos lugares que n\u00e3o gostei at\u00e9 um dia aprender a gostar dele, provando que consegui ver mais do que via antes. Nenhum lugar \u00e9 totalmente horr\u00edvel, como nenhum \u00e9 totalmente fant\u00e1stico. Todos os lugares tem coisas boas e ruins, alguns mais coisas boas, outros mais coisas ruins, mas j\u00e1 encontrei pessoas que amaram lugares onde vivi verdadeiros pesadelos, como na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Existe algum lugar que voc\u00ea escolheria para viver? Qual e por que?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Muitos lugares me seduzem. As Ilhas San Juan, no Puget Sound, entre os USA e o Canad\u00e1, no Pac\u00edfico, s\u00e3o sonhos vivos, mas chove e faz frio. A natureza \u00e9 bel\u00edssima, as pessoas s\u00e3o legais, tem trabalho e ganha-se o bastante para viver bem, mas, como nada \u00e9 perfeito&#8230;<\/p>\n<p>Adorei a Big Island do Hawaii, Dakar, no Senegal, mas acho que ainda n\u00e3o estou capaz de escolher um lugar e ficar l\u00e1. Tenho diversas bases pelo mundo: Encinitas na Calif\u00f3rnia, Guethary na Fran\u00e7a, B\u00fazios no Brasil, e hoje Roma.<\/p>\n<p>Adoro o Brasil, o pa\u00eds mais rico, com gente fina e linda, musicalidade divina, clima deslumbrante, mas que est\u00e1 t\u00e3o mal administrado que tornou-se um risco. Pouco trabalho, e mal pago, n\u00e3o ajuda a dar vontade de viver em lugar nenhum.<\/p>\n<p>Hoje afirmo que sou um auto-exilado, j\u00e1 que o destino me deu a possibilidade de viver assim. Auto-exilado da corrup\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia e da falta de seriedade que parecem estar querendo transformar nosso pa\u00eds numa Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Voc\u00ea que viajou mais de 80 pa\u00edses, deve ter constatado que no mundo muitas pessoas (ou a maioria delas, at\u00e9 idosos) viajam independentemente, de mochila nas costas e p\u00e9 na estrada e gastando pouco. Comparado a outros pa\u00edses, o Brasil ainda est\u00e1 &#8220;engatinhando&#8221; nessa cultura viajante. Na sua opini\u00e3o, por que isso se d\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Porque nossa sociedade est\u00e1 dividida em duas: poucos tem muito e muitos tem pouco. Quem tem muito, vira exibido, pedante, esnobe, e quer viajar para os lugares da moda, Miami, Nova Iorque e Paris. Vai de avi\u00e3o e classe executiva, que custa o dobro da classe econ\u00f4mica. Fica em hot\u00e9is e adora circular e tirar foto na frente dos monumentos que depois vai exibir para os amigos do clube.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o tem grana, n\u00e3o consegue nem pagar as contas, quanto mais viajar. E se viaja \u00e9 rumo \u00e0s cidades onde h\u00e1 empregos.<\/p>\n<p>N\u00f3s brasileiros vivemos num pa\u00eds com muita mis\u00e9ria, e por isso, quem tem grana viaja mais como uma forma de mostrar que tem grana, que n\u00e3o \u00e9 pobre, que \u00e9 uma pessoa de &#8220;sucesso&#8221;. Os &#8220;malucos&#8221;, que existem em todas as classes sociais, conseguem perceber que h\u00e1 outros mundos al\u00e9m do exibicionismo. Percebem que com a mochila nas costas conseguem fazer viagens longas e incr\u00edveis gastando em um m\u00eas o que os magnatas gastam por dia nos hot\u00e9is de luxo. Hoje \u00e9 gozado ver como enquanto os ricos de um pa\u00eds pobre como o Brasil querem ir para Miami, todas as pessoas, ricas e pobres, dos pa\u00edses desenvolvidos, querem visitar as dunas do Maranh\u00e3o, a floresta amaz\u00f4nica e o Pantanal. Acho que santo de casa n\u00e3o faz milagre.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Como planeja suas viagens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Sempre da mesma forma: come\u00e7o vendo uma reportagem em alguma revista ou document\u00e1rio. Se a curiosidade desperta, vou entrando mais fundo: compro mapas da regi\u00e3o, leio alguma coisa sobre o local, dou uma olhada em guias de viagem e converso com quem j\u00e1 foi l\u00e1. No mapa escolho e marco bem os lugares que me interessam, depois escolho o caminho mais interessante para ir de um ao outro. Fa\u00e7o as contas para ver quanto custar\u00e1, se a grana vai dar e quanto tempo demorar\u00e1 para ir e voltar. Se tudo estiver concordando, escolho a \u00e9poca certa do ano, para evitar a temporada de chuvas ou furac\u00f5es, as grandes secas, ou o inverno nevado.<\/p>\n<p>Com um bom planejamento pode-se evitar muitos problemas durante a viagem.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; J\u00e1 usou a Internet para planejar alguma viagem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Poucas vezes. Em bibliotecas encontro mais informa\u00e7\u00e3o e mais facilmente. Prefiro ir a grandes livrarias e folhear os livros e guias de viagem sem compra-los. Depois de uma ou duas visitas, escolho aqueles que creio serem mais \u00fateis e compro. Mas ler sobre os lugares onde se quer viajar, nunca pode ser demais.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Como v\u00ea as fontes de informa\u00e7\u00e3o para o viajante independente brasileiro? (Para ilustrar, poderia fazer um comparativo com as que conhece no exterior?)<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Quem mora em cidades grandes encontra alguma informa\u00e7\u00e3o nas boas livrarias, mas quem mora no interior, ou descobre na Internet ou vai sem saber muita coisa. Mesmo assim, as livrarias brasileiras tem pouqu\u00edssimas op\u00e7\u00f5es, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do Rio e de S\u00e3o Paulo. Nos USA e na Europa as livrarias e as bibliotecas s\u00e3o muito bem equipadas e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil descobrir o caminho das pedras. Nas boas livrarias de Roma encontrei at\u00e9 5 guias de viagens especializados no Brasil, com dicas at\u00e9 de onde dormir em Ibitipoca e quanto custa um passeio de barco no alto Rio Negro. Assim \u00e9 mais f\u00e1cil viajar, porque ao contr\u00e1rio de que se pensa, uma viagem bem planejada n\u00e3o diminui nenhuma emo\u00e7\u00e3o, s\u00f3 as frias em que se entra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Orlando Villas Boas, no livro A arte dos paj\u00e9s, citou alguns casos de quando viveu entre os \u00edndios, de fen\u00f4menos sobrenaturais. Voc\u00ea viajando pelos mais diferentes lugares, por toda parte do mundo, passando em todos tipos de lugares e paisagens&#8230; j\u00e1 aconteceu algo do g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Quando se fala em coisas sobrenaturais, as pessoas pensam logo em fantasma ou coisa parecida.<\/p>\n<p>Todos os lugares tem sua energia particular. Uns fazem voc\u00ea ficar super \u00e0 vontade, outros d\u00e3o vontade de sair correndo. Tive belas experi\u00eancias m\u00edsticas em desertos, por isso retorno sempre a eles. A solid\u00e3o, o sil\u00eancio, os grandes espa\u00e7os vazios, todos favorecem experi\u00eancias espirituais, enquanto numa rua de Nova Iorque a zorra faz a gente s\u00f3 pensar em sobreviver. Caminhar na Trilha Inca \u00e9 muito forte, caminhar na floresta amaz\u00f4nica, longe das grandes cidades, pode dar um barato muito legal sem precisar de droga nenhuma. Mas devemos nos abrir para que estas coisas aconte\u00e7am. Quem n\u00e3o cr\u00ea n\u00e3o v\u00ea nada.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Lendo suas entrevistas, percebemos uma preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o da consci\u00eancia ambiental e pol\u00edtica e n\u00e3o poder\u00edamos deixar de perguntar: Como foi sua conviv\u00eancia com o per\u00edodo da ditadura no pa\u00eds? Como era o clima da \u00e9poca? Como era colocar a mochila nas costas e o p\u00e9 nas estrada em meio a AI-5 e coisas do g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Quando houve o golpe dos militares, em 1964, eu tinha 18 anos e trabalhava numa revista da Manchete, a Fatos e Fotos, e estava muito envolvido com pol\u00edtica e ainda n\u00e3o tinha come\u00e7ado a viajar, a n\u00e3o ser nos arredores do Estado do Rio, em busca de ondas para surfar. Nunca achei que precisava ser burro para ser surfista, e aprendi logo a conciliar pol\u00edtica, carreira e prazer. De 1964 a 1968 eu trabalhava como jornalista e n\u00e3o pensava em viajar. No final de 68, at\u00e9 Ipanema, que eu freq\u00fcentava, e o Leblon, onde morava, j\u00e1 estavam perigosos para quem odiava os ditadores militares. Alguns amigos desapareceram, enfiando-se na luta armada, outros foram torturados por coisas bobas. Prevendo que em breve entraria em alguma fria por falar &#8220;demais&#8221;, achei melhor o auto-ex\u00edlio, como hoje.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 69, vendi meus trecos e fui lavar pratos em Londres, onde acabei viajando por toda a Europa e Escandin\u00e1via, com mais 3 amigos argentinos mochileiros. Compramos um carrinho pequeno e velho, botamos nossas mochilas dentro e sa\u00edmos pelas estradas, cantando nas ruas para fazer uma grana. Um dia chegamos at\u00e9 \u00e0 Istambul, na Turquia. Da\u00ed em diante todos os problemas passaram a ser f\u00e1ceis de serem resolvidos, com calma, paci\u00eancia e sabendo esperar, tudo vinha.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; O que \u00e9 Ecoturismo pra voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> \u00c9 uma coisa nova mas muito interessante. Pena que muito trambique est\u00e1 sendo vendido como &#8220;turismo ecol\u00f3gico&#8221;. Caso o viajante n\u00e3o esteja aprendendo nada, o &#8220;ecol\u00f3gico&#8221; n\u00e3o existe. Somente estar num lugar natural , como tomar sol numa praia do Cear\u00e1, n\u00e3o \u00e9 nada ecol\u00f3gico, \u00e9 s\u00f3 prazer. Se voc\u00ea estiver acompanhado de um guia especializado, aprender sobre a cultura, as caracter\u00edsticas do meio ambiente, o sistema de chuvas, a ind\u00fastria da seca, as peculiaridades da vegeta\u00e7\u00e3o, a\u00ed ser\u00e1 uma viagem ecol\u00f3gica de verdade, pois se n\u00e3o estiver aprendendo nada a viagem n\u00e3o pode ser chamada de ecol\u00f3gica, mesmo que voc\u00ea esteja caminhando sozinho na floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; O Brasil pratica o verdadeiro turismo ecol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Muito pouco, mas com raras e honrosas exce\u00e7\u00f5es. Quem estiver interessado deveria conhecer a associa\u00e7\u00e3o que re\u00fane a categoria, que tem bons sites na internet.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Como foi trabalhar com turismo ecol\u00f3gico na Calif\u00f3rnia? Comparando-se o potencial brasileiro e o americano, qual trabalha melhor o conceito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Os americanos em geral s\u00e3o muito ligados \u00e0 natureza, talvez porque suas cidades est\u00e3o cada vez mais organizadas e sem espa\u00e7o para a natureza. O potencial americano e brasileiro s\u00e3o imensos porque ambos s\u00e3o pa\u00edses de dimens\u00f5es continentais, e por coincid\u00eancia, quase do mesmo tamanho e com muita natureza preservada. Nos USA h\u00e1 uma rede de parques nacionais de fazer cair o queixo, j\u00e1 o Brasil \u00e9 um para\u00edso natural mas que est\u00e1 sofrendo um agressivo processo de devasta\u00e7\u00e3o. Enquanto os americanos protegem os parques nacionais como se fossem j\u00f3ias preciosas, no Brasil eles est\u00e3o abandonados, invadidos, com funcion\u00e1rios desmoralizados e desmotivados, entregue aos donos de hot\u00e9is, operadores de turismo de massa e v\u00e2ndalos, como acontece atualmente na Chapada dos Guimar\u00e3es, que \u00e9 um horror e mereceria mais aten\u00e7\u00e3o dos brasileiros.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Voc\u00ea, um veterano do surf, o que tem a dizer sobre os esportes de aventura com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 somat\u00f3ria com o Ecoturismo. Isso ajudar\u00e1 na conscientiza\u00e7\u00e3o (e conseq\u00fcente preserva\u00e7\u00e3o)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Detesto a express\u00e3o &#8220;No Fear&#8221; ou &#8220;No Limits&#8221;, porque acho-as cretinas. Todos sentem medo e sempre h\u00e1 limites. Esta moda \u00e9 uma coisa inventada pela juventude urbana, distante dos rituais da natureza, e que usa estes esportes suicidas ou masoquistas como um rito de passagem da adolesc\u00eancia ao mundo adulto, mas sem o perceber. Correr risco s\u00f3 pela emo\u00e7\u00e3o, \u00e9 como enfiar o dedo na tomada s\u00f3 para sentir o barato. N\u00e3o leva a nada, e traz muita chance de interromper sua vida ali mesmo. Eu uso o medo como forma de auto-prote\u00e7\u00e3o, para me preservar de riscos in\u00fateis. Atravessar o Sahara d\u00e1 medo, mas planejando com cuidado podemos faze-lo sem morrer, e depois teremos aprendido muitas coisas sobre as culturas que habitam no local. Agora subir at\u00e9 o alto da montanha e saltar de bungee-jump \u00e9 t\u00e3o legal quanto fazer roleta russa, e se aprende tanto quanto, ou seja nada! E por esta raz\u00e3o n\u00e3o tenho certeza se estas pessoas que est\u00e3o enfrentando a Mata Atl\u00e2ntica em competi\u00e7\u00f5es, ou escalando o Aconc\u00e1gua ser\u00e3o mais humanos depois do feito. Se o objetivo for o desafio puro, vai ficar s\u00f3 nisso. Acredito que devemos nos fazer melhores, porque s\u00f3 assim marcaremos nossa passagem pela vida. Fazer piruetas at\u00e9 macacos fazem, mas ajudar o mundo a resolver seus problemas \u00e9 muito mais dif\u00edcil e por isto mesmo torna-se o verdadeiro desafio.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Acha que os Esportes de Aventura hoje s\u00e3o um &#8220;modismo&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> N\u00e3o duvido. Tem toda a cara de ser mais uma &#8220;novidade&#8221;, como as festas rave, que em breve desaparecer\u00e3o dando espa\u00e7o \u00e0 mais outra moda importada, mais &#8220;moderna&#8221;. Pode ser que algumas cabe\u00e7as legais saiam de l\u00e1, mas acho dif\u00edcil, porque o objetivo n\u00e3o \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o e sim sentir o &#8220;barato&#8221; da testosterona, da adrenalina. Nunca fui esportista e muito menos aventureiro. Considero-me um viajante, que para satisfazer sua sede de conhecimento tem que enfrentar dificuldades, que podem se assemelhar \u00e0 aventura, e muitas vezes o s\u00e3o, mas s\u00f3 como circunstancia e n\u00e3o como o objetivo final. N\u00e3o pratico off-road, viajo em lugares onde s\u00f3 ve\u00edculos 4&#215;4 conseguem chegar, em busca de novas experi\u00eancias, de conhecimento. Nunca fiz passeios de fim de semana com um jipe pela floresta, para depois voltar na segunda feira e gastar uma grana consertando o jipe para o pr\u00f3ximo passeio.<\/p>\n<p><strong>Mochila Brasil &#8211; Qual ser\u00e1 sua pr\u00f3xima &#8220;mochilada&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Tito]:<\/strong> Parto em algumas semanas para um m\u00eas pelo sul da Tun\u00edsia, que \u00e9 um canto do Sahara que n\u00e3o pude conhecer bem quando estive l\u00e1 em 1988 numa viagem que quase acabou sendo de &#8220;turismo&#8221;. Vou com a mochila no meu Land Rover e sempre acampando, pois n\u00e3o \u00e9 por viajar de carro que deixamos de ser mochileiros, que para mim \u00e9 mais um estado de esp\u00edrito que significa, viajar modestamente, em contato \u00edntimo com os elementos, a natureza e os nativos, em busca de cultura, de experi\u00eancias espirituais, sem a tradicional arrog\u00e2ncia dos turistas em seus \u00f4nibus, hot\u00e9is e &#8220;souvenirs&#8221;, tudo de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>O tempo passa, o equipamento muda, mas alguns de n\u00f3s mudamos pouco: uma vez mochileiro, sempre mochileiro, mesmo se hoje com o laptop e a c\u00e2mera digital dentro dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O registro dessa entrevista e outras mat\u00e9rias antigas do Mochila Brasil, feitas no tempo em que ainda n\u00e3o existiam ferramentas como o WordPress voc\u00ea encontra no <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"http:\/\/web.archive.org\/web\/20001206211100\/http:\/\/www.mochilabrasil.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Web Archive<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A viagem real n\u00e3o consiste em buscar novas paisagens, mas em buscar uma nova forma de ver&#8221;. Marcel Prost. Assim \u00e9 a abertura da se\u00e7\u00e3o biografia do site oficial do viajante (ou tecno- n\u00f4made, como j\u00e1 foi chamado) jornalista, fot\u00f3grafo e documentarista, Tito Rosemberg. 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