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Exibindo conteúdo com a maior reputação em 01-09-2019 em todas áreas

  1. 2 pontos
    Era para ter publicado este relato faz um tempinho , pois fui para o Peru no dia 04/06/2019 , tinha feito um lindo relato diretamente no site , mas infelizmente na hora de publicar deu falha e perdi tudo , mas minha vontade voltou , e desta vez fiz pelo word antes de publicar , meu primeiro mochilão foi em 2018 para Bolívia , e nesse mesmo mochilão conheci um pouquinho de Arequipa e Puno no Peru , foi incrível , decidi naquele momento que faria o Peru no proximo ano com mais calma , fui sozinho e voltei com muitas amizades , para este ano resolvi buscar por companhia , encontrei algumas pessoas , passei uma peneira e montamos um grupo no whatsapp , foram um pouco mais de 3 meses de planejamento , e durante este tempo conheci a Sheylla , Uma porto-riquenha que mora na Bahia e está há 10 anos no Brasil , muito alegre , divertida ,humilde , e que aos poucos fomos tendo mais intimidade , eu não estava a procura de ter um relacionamento , e ela também não , até aconteceu umas flertadas , mas eu sempre fugia , então finalmente chegou o grande dia , as meninas chegaram no dia 03 , eu e o Renan chegamos no dia 04 , sendo eu o último a chegar , já havia lido umas dicas sobre os táxis do aeroporto de Cusco para o centro histórico , que não chegava a 10 soles , eles cobravam 25 , 30 , 40 soles , que foi o que o Renan pagou , Uber cobra 20 soles , sai para a rua e andei um pouco e paguei 10 soles , mas no final cobrou 15 soles , pois demos varias voltas para encontrar o hostel , ficamos no Black Hostel , não recomendo , tivemos alguns problemas bem chatos por lá , quando cheguei estavam todos na recepção Sheylla , Fran , Renan e Talita , a Sheylla veio correndo e me deu um forte abraço , eu estava morto , pois não havia dormido direito , mas foi ótimo conhecer a todos , alias foi uma viagem incrível , com belas novas amizades , eu resolvi sair para fazer câmbio , a sheylla resolveu me acompanhar , e nessa caminhada ela acabou me dando um selinho , pronto resolvido , quebrou o gelo , dali para frente não largamos mais , ela já havia mudado o roteiro e gastou uma grana por isso, para fazermos todos juntos , mas acredito que valeu a pena , o Peru também é um pais incrível , lindo , muito o que se ver , claro tem os lugares mais visitados e famosos como Machu Picchu , mas tudo é muito lindo , comidas maravilhosas , povo muito alegre , muita cor e alegria , no segundo dia já fizemos a Laguna Humantay , até que foi bem tranquilo , até escorreguei em uma pedra e molhei minha bota , parece uma pintura de tão lindo , a estrada achei bem mais perigosa do que para hidrelétrica , talvez por termos feito de micro ônibus , acho bem mais seguro com van , não é aquela segurança , mas é bem melhor , pois as estradas são bem perigosas , devem ter 3 Mts de largura , que com um veículo maior acaba se tornando mais perigoso , apesar do perigo tem belas paisagens , no terceiro dia houve uma manifestação e não estavam saindo para tours , resolvemos conhecer melhor Cusco , tem muito o que se ver , provar , foi bem legal, uma bela cidade , muita cultura , muita cor , no dia seguinte começou nossa aventura rumo a Machu Picchu , iniciamos o tour para o vale sagrado , começamos por Moray , Maras e Ollantaytambo , onde passamos a noite , pois cometemos um erro , mas o importante é que deu certo e ollantaytambo é incrível demais , eu particularmente achei muito lindo , lugar incrível , por termos passado a noite por lá , pudemos aproveitar mais o passeio , pois os tours são muito rápidos , é o tempo de subir e descer , acaba sendo cansativo e não aproveitado , a paisagem daquele lugar é incrível , muito rico em ruinas , a noite eu e a Sheylla fomos jantar e resolvemos provar um hambúrguer de Alpaca , melhor escolha , muito bom de verdade , assim como eu , a Sheylla adora provar comidas diferentes , umas das qualidades dela que me conquistou , pois comer foi o que mais fizemos por lá , achamos uma padaria bem pequena próxima ao mercadão que tinham pães deliciosos , alguns recheados de queijo , o mercadão também é um bom lugar para comprar algumas coisas , fomos comprar algumas frutinhas diferentes , esses mercadões são muito bons , você encontra de tudo por lá , no dia seguinte seguimos rumo a tão sonhada e esperada Machu Picchu , a maioria do pessoal passou mal no caminho , eu fiquei tranquilo , achei mais perigoso a parte asfaltada do que a de terra , pois os cara pisa mesmo , todos os passeios tem os seus riscos , eu por ter conhecido a Bolívia , já estava esperando por essa aventura , chegamos na hidrelétrica , se resolverem comer por lá antes de iniciar , andem uns 10 minutos rumo a Águas Calientes que vão encontrar um preço melhor , infelizmente o Renan chegou passando mal , passou mal o caminho todo , algo que comeu não caiu bem , então ele acabou indo de trem , o resto de nós fomos caminhando , o caminho é bem tranquilo e muito bonito , quando chegamos no letreiro de Machu Picchu ficamos muito felizes , mas ainda tinha que caminhar um pouco até Águas Calientes ( Macchu Picchu Pueblo ) , quando finalmente chegamos fiquei de queixo caído , achei que iria ser uma cidade feia , mas não , também é muito lindo , hotéis e restaurantes de alto padrão , mas tem para todos os bolsos , se procurar certinho come bem e barato , vale a pena passar um dia a mais naquela cidade , aquele rio cortando a cidade é muito maneiro , aquelas montanhas gigantesca que nada mais é que a parte de trás de Machu Picchu é muito lindo , muito louco , o céu também é muito lindo por lá , pegamos tempo bom em todos os passeios , nem neblina pegamos em Machu Picchu, passamos a noite e de madrugada eu e a Sheylla saímos rumo subir Machu Picchu , o resto do pessoal foi de ônibus , que custa 12 dólares , eles liberam a partir das 05:00 , compramos o primeiro horário , pois faríamos Huayna Picchu , somente eu e a Sheylla , acho que deu para perceber o companheirismo né kkk , eu sinceramente achei que seria tranquilo , pois altitude não era alta , fizemos os outros passeios tranquilos , mas para mim foi bem difícil , as escadas parece que foram feitas para gigantes , força bastante , passei mal , parava bastante , mas conseguimos subir em 1 hora certinho , eu quase chorei , segurei na verdade , mas valeu muito a pena , que lugar lindo , incrível , parece de mentira de tão lindo que é , ver o sol nascer ali não tem preço , ainda mais ao lado de alguém que se tornaria minha namorada , tiramos algumas fotos e partimos para Huayna Picchu , foi tranquilo a subida , tem que ir com cuidado e calma , pois algumas partes se você cair , vai se juntar aos Incas , mas valeu a pena o esforço , vista incrível de Machu Picchu , voltamos tiramos mais algumas fotos , e resolvemos voltar de ônibus , pois minhas pernas estavam até tremendo , ainda tínhamos que caminhar 12 km para voltar para hidrelétrica , sofri um acidente de moto em 2018 , justamente pegou minha perna , voltando a trabalhar somente em janeiro deste ano , por isso não estava 100% , mas deu tudo certo , almoçamos , e seguimos de volta para hidrelétrica , na volta resolvemos tomar um Dramin para dormir , deu certo , acordei rapidamente somente duas vezes em uma freada brusca e na parada , no dia seguinte iriamos fazer nosso ultimo passeio juntos para Montanha Colorida ( Rainbow Mountain ) , pois Renan , Fran e Talita seguiriam para Bolívia , e nós para Huaraz , é uma caminhada até que tranquila , é muito linda também , feito o passeio nos despedimos das belas amizades que fizemos , foi muito divertido , pessoas do bem , no dia seguinte eu e claro a Sheylla pegamos um voo para Lima , onde queríamos passar uns 2 dias , mas resolvemos não ficar , tem sua beleza , mas não curtimos muito ficar na cidade cinza , lá foi o melhor câmbio que encontramos , tanto para o Real quanto para Dólar , no final deixo gastos e roteiro , fomos até o terminal de ónibus para comprar as passagens para Huaraz , tem poucos horários , vários preços , a melhor companhia é a Cruz del Sur , mas tem algumas muito boas também , fomos de Linea , que sai do terminal norte , foi uma viagem tranquila , a cidade é bem grande e movimentada , muitos gringos , muitos mesmo , ficamos no Black Mountain , gostamos bastante , fechamos os passeios com eles , tem uma agência no próprio hostel , preço bom também , fizemos apenas Laguna 69 e Glaciar , o caminho para Laguna 69 é lindo demais , parece realmente cenário de filme , O senhor dos Anéis por exemplo , lembra muito , foi tranquilo a caminhada , no finalzinho quando estamos chegando pesa um pouco , mais vale a pena todo o esforço , lindo de se ver , o Glaciar infelizmente no máximo daqui 5 anos não terá mais nada , devido ao aquecimento global , é muito triste ver o derretimento acelerado daquela beleza , voltamos para lima e seguimos para Arequipa , umas das cidades que a Sheylla queria conhecer ,eu havia conhecido , mas não fiz tour , então foi uma nova oportunidade , também foi um dia especial , pois era o aniversário dela , aproveitei levei ela para jantar em um restaurante bacana e aproveitei e pedi em namoro também , fizemos o passeio para ver o voo dos condor e descemos o Canyon de Colca que foi uma bela caminhada , uma experiência incrível , lugar lindo , voltamos para Arequipa , conhecemos um pouco mais , provamos bastante comidas claro , principalmente o Cuy ( Porquinho da índia ) e infelizmente nos separamos , pois meu voo saia de Cusco e o dela de Lima , voltaríamos a nos ver em São Paulo , antes dela partir no dia seguinte para Porto Seguro e eu de volta para o interior de São Paulo , em Cusco conheci mais dois Brasileiros bem legais , um não lembro o nome , mas tinha a Ariane que mora em Franca e estava sozinha , mostrei alguns lugares para eles , dei dicas , eu fiz uma correria o dia todo atrás de lembranças e por ultimo as alianças , pois estava tendo desfile de Corpus Christis a cidades estava lotada , até por que estava perto da famosa Festa do Sol , de volta ao Brasil esperei ela com um par de alianças que comprei com a trilogia Inca , claro que guardei segredo , e consegui pegar o tamanho sem que ela percebesse , os Incas foram nossos cupidos , nada mais justo que selar esse novo amor com a trilogia Inca , foi uma viagem inclivel , com muita alegria , amizade , amor , experiência , paisagens de tirar o folego , viajar sem duvida é a melhor coisa a se fazer no mundo , havia decidido a dar um tempo para mim mesmo , viajar , sem se preocupar de estar sozinho , pois já havia sofrido muito com relacionamentos , e já não me importava de estar solteiro , até gostava muito , mas em umas dessas viagens encontrei alguém parecido comigo em muitas coisas , ela acabou me conquistando , e resolvi dar mais uma nova chance ao amor , que nunca deixei de acreditar , mesmo com tantas decepções , na minha opinião o segredo é não procurar , é primeiramente se amar antes de tudo , dar valor para você mesmo(a) , e quando menos esperar , não importa onde estiver , o amor vai pedir uma nova chance , mas quem ira decidir se aceita ou não , é você(a) , encontrei uma companheira para viagens , uma aventureira , que assim como eu , quer conhecer o máximo de lugares possíveis no mundo , agradeço mais uma vez ao Mochileiros.com , pois minhas aventuras começaram graças a esse site , desejo a todos força , coragem e amor em suas viagens por esse mundão , e que deus proteja a todos nós , quem quiser ver mais fotos ou tirar duvidas , meu insta é JoãoFalanque , até mais pessoal... Roteiro Peru 2019 São Paulo x Cusco = 04/06 Laguna Humantay = 05/06 Cusco Tour = 06/06 Vale Sagrado = 07/06(Moray , Maras , Ollantaytambo ) Águas Calientes = 08/06 Machu Picchu= 09/06 Montanha Colorida = 10/06 Cusco x Lima = 11/06 Lima x Huaraz = 11/06 Huaraz / Laguna 69 = 12/06 Huaraz / Pastoruri = 13/06 Huaraz x Lima = 14/06 Lima x Arequipa = 14/06 Arequipa = 15/16/17/18 = Cânion de Colca / voo do condor / tour cidade Arequipa x Cusco = 18/06 Cusco = 19/06 Cusco x São Paulo = 20/06 Passagem Aérea = São Paulo x Cusco = 1.415 = Tem conexão em Lima Gasto Viagem = 3.100 Reais Câmbio = 1 real = 0,85 a 0,90 = Soles= Lima foi o melhor Câmbio Dólar = 1 dólar = 3, 30= Soles é possível reduzir uns 20% do valor gasto..
  2. 1 ponto
    Fala Viageiros!!!!! Voltei de uma viagem sensacional para a Patagônia e vou compartilhar aqui com vocês um pouco dessa experiência! Mas antes, quem puder, segue a conta do meu blog no Instagram: @profissaoviageiro E vai lá no www.profissaoviageiro.com que tem mais detalhes e fotos desse rolê! Segue lá no blog que sempre tem coisa nova por lá!!!! Bom, hoje além de passar minhas impressões de Torres del Paine, vou tentar deixar algumas informações básicas para quem quer ir e ainda está cheio de dúvida, como eu estava quando ainda planejava a viagem. Tem coisa que parece óbvia quando se conta de uma viagem para as outras pessoas, mas que no fundo se você não sabe o funcionamento das coisas no lugar, fica impossível saber se seu roteiro vai dar certo ou não… E foi nisso que eu esbarrei na montagem do roteiro. Como sempre em meus roteiros, eu tenho pouquíssima margem de erro e isso me fez perder um bom tempo na pesquisa. Vou tentar deixar algumas informações aqui para quem quer visitar esse lugar maravilhoso! Vamos lá! O que é? O Parque Nacional de Torres del Paine foi criado em Maio de 1959 e está localizado na Pataônia Chilena, na região de Magallanes. As suas torres principais dão nome ao parque, que são imensas torres de granito modeladas pelo gelo glacial. Mas as belezas do parque não se resumem a suas torres. O lugar inteiro é sensacional! Como chegar? Existem dois aeroportos próximos de Torres del Paine: – Um fica em Puerto Natales, que é a cidade base para a maioria das pessoas que visitam Torres del Paine. A cidade está localizada a 80km do Parque. O problema é que só existem voos para Puerto Natales no verão, e mesmo assim não é todo dia. Isso faz com que contar com um voo para lá seja praticamente descartado logo de cara. – A melhor opção então é voar para Punta Arenas. Existem voos regulares de Santiago para Punta Arenas. Inclusive, se não me engano, lá é destino mais barato para se chegar na Patagônia (Argentina ou Chilena) Eu fiz isso. Saí de São Paulo em um voo com conexão em Santigo e chegada em Punta Arenas. Tudo bem tranquilo! -Para quem não for utilizar avião, tenha Puerto Natales como sua referencia de destino. Onde ficar? – Punta Arenas: A porta de entrada da maioria das pessoas que vão para TdP via o próprio Chile (Muitas outras pessoas vão para TdP via El Calafate, na Argentina) Cidade grande, com vida própria. Possui muitas atrações turísticas, shoppings, hotéis, hostels, restaurantes e tudo mais. Fica a 3 horas de ônibus de Puerto Natales. – Puerto Natales: Cidade pequena que gira em torno do turismo de TdP. Muitos turistas o ano inteiro por lá, consequentemente muitos restaurantes e vendinhas para as compras da galera que vai fazer os trekings. Como já falei é a base para a maioria das pessoas, pela sua proximidade e preços acessíveis. Comparado às hospedagens dentro ou ao lado do parque é muito mais barato ficar em Puerto Natales. – Hospedagens dentro do Parque: Existem muitas opções de hospedagem dentro do Parque, desde áreas de camping onde você é responsável por ter com você absolutamente tudo que vai usar e comer, até luxuosos hotéis com vistas deslumbrantes. Tudo dentro do parque é caro. Transporte, hospedagem, comida… Tudo! São três “empresas” que possuem hospedagens dentro do parque, e para dormir lá dentro você precisa ter reservado antes de chegar (mesmo que esteja levando todo equipamento com você e queira apenas reservar um espaço de camping), pois não se pode entrar sem reserva prévia. As empresas são: CONAF; Fantástico Sur; e Vertice. Quando ir? Torres del Paine pode ser visitado o ano inteiro, mas a alta temporada é no verão, quando as temperaturas estão mais agradáveis e as paisagens mais coloridas. Eu fui na primavera. Dei muita sorte com o tempo e achei que valeu muito a pena. Não estava lotado e não passei nenhum perrengue de frio ou vento a ponto de transformar algum rolê em algo penoso. Se tem alguma coisa que eu mudaria no meu rolê para deixar ele ainda mais perfeito, é que eu preferia ter visto o lago no Mirador Base de Torres del Paine descongelado. Quando eu fui ainda estava congelado. Não que eu ache isso um problema, mas acho que descongelado seria muito lindo também. Quanto custa? Caro! Não é um passeio barato. Mesmo fugindo o máximo que pude das hospedagens dentro do parque, é um passeio caro. Mas não é nada que não se possa dar um jeito. Aqui alguns exemplos de preços aproximados: – Entrada no Parque, válida por 3 dias de entrada: US$ 35,00 (se já estiver dentro do parque, não tem problema, pode ficar mais que 3 dias) – Aluguel de barraca completa no parque: US$ 70 – para 2 pessoas, por noite – Catamarã para Paine Grande: US$ 35,00 por pessoa, por trecho (Comprando ida e volta junto fica um pouquinho mais barato). IMPORTANTE: Não aceita cartão! Só dinheiro. – Ônibus interno do Parque: US$ 10,00 ida e volta – Ônibus Puerto Natales – Torress del Paine: US$ 25,00 ida e volta E por aí, vai… O que fazer??? Bate e volta, Circuito W, ou Circuito O? Eu escolhi o W! – No circuito W estão as principais atrações do parque na minha opinião. Claro que quem faz o Circuito O vê muito mais coisa, mas para isso é necessário muito mais tempo e preparo, pois as partes do parque que estão fora do W, são bem menos estruturadas, então depende muito mais de você e do equipamento e mantimento que você carrega. – No bate e volta de Puerto Natales, você consegue fazer o Mirador Base, que é a vista mais famosa de lá, mas depois que se faz o W, você vê que aquilo é só um pequeno pedaço das belezas daquele lugar. Também dá para fazer o lado do Glaciar Grey, ou até um trecho da trilha beirando o lindíssimo Lago Nordenskjold. IMPORTANTE! Nesses casos de bate e volta, você sempre vai ter seu tempo limitado ao horário dos transportes internos do parque, seja do ônibus ou do catamarã. Então controlar o tempo e seus objetivos no dia será algo muito importante. Os horários são fixos e limitados, não deixando margem para erros. – Uma outra opção, que eu jamais faria, é um bate e volta de El Calafate, como muitas agências de lá oferecem… Me parece um grande programa de índio. – Fazer um mix disso tudo aí também é possível! É só estudar direitinho o roteiro e partir para cima!!!! Bom, esse é o básico. Vou contando agora como foi o meu rolê e tentando explicar como tudo funcionou para mim! Vamos lá!!!!!!!! Dia 1: Bom, eu decidi fazer o W da seguinte forma… Fazer as 2 pernas externas no esquema de bate e volta, e a parte central do W dormindo uma noite no camping Francês. Dessa forma faria o rolê em 4 dias, que é bem puxado. A maioria das pessoas faz em 5 dias o W, que depois eu entendi o por quê! Como a entrada do parque vale por 3 dias, eu fiz as 2 pontas primeiro, e depois a parte interna, que daria certinho os 3 dias de entrada no parque. Para mim não fazia diferença por onde começar, então deixei o dia que a previsão do tempo estava melhor para fazer o Mirador Base e fui no primeiro dia, que o tempo estava pior, na perna do Glaciar Grey. E a parte interna eu fiz saindo de Las Torres e chegando no outro dia em Paine Grande. No final, deu tudo certo!!!! Como comentei, eu cheguei em Puerto Natales vindo de Punta Arenas. Como não sabia da estrutura da cidade, acabei fazendo compras do que iria comer no parque no dia seguinte em Punta Arenas mesmo. A viagem de ônibus entre Punta Arenas e Puerto Natales demora 3 horas. A passagem é bem fácil comprar. Os ônibus que fazem esse trajeto têm seus terminais no centro da cidade e todo mundo lá sabe indicar onde ficam esses terminais. Existem diversos horários de saída, então não precisa de stress quanto a reserva antecipada ou qualquer coisa. Em Puerto Natales as coisas são perto da rodoviária. A maioria dos lugares nem precisa de taxi… Dá para chegar andando. Já aproveitei que estava na rodoviária na chegada e comprei a passagem de ônibus para o dia seguinte de ida e volta para o parque. São algumas empresas que fazem o trajeto e todas fazem mais ou menos no mesmo horário, pois os transportes internos no parque são sincronizados com as chegadas dos ônibus de Puerto Natales. O horário de saída é por volta das 7 da manhã e o retorno por volta das 7:30 da noite saindo da Laguna Amarga (entrada do parque). São quase 3 horas de trajeto entre o parque e Puerto Natales. No dia seguinte estava lá bem cedinho na rodoviária aguardando meu ônibus sair. Chegando em Torres del Paine, a primeira coisa a se fazer é comprar o ticket de entrada. Havia uma pequena fila mas não demorou muito todo o tramite. Eles aceitam Pesos Chilenos e Dólares. Talvez aceitem Euros também, mas não tenho certeza. Depois é aguardar o ônibus interno que vai te levar para o Refúgio Las Torres (De onde sai a trilha para o Mirador Base e também a trilha em direção ao Refúgio Francês) e depois segue para Pudeto, de onde sai o Catamarã para Paine Grande (Onde começa a trilha para o Glaciar Grey). Como fui em direção ao Glaciar Grey nesse primeiro dia, segui no ônibus até Pudeto. Cheguei lá por volta das 10:30 e o catamarã só sai as 11hs. Assim aproveitei e tomei um reforço do café da manhã por lá enquanto aguardava a saída para Paine Grande. O catamarã é espaçoso e possui um deck em cima para quem quer ver a paisagem e tirar umas fotos. Duro é aguentar o frio, mas vale a pena! O trajeto é curto e em pouco mais de 20 minutos já estava em Paine Grande Muitas pessoas se hospedam no refugio, então já entram para seu check in. Eu não ia ficar lá, então só me arrumei, usei o banheiro e saí. Primeiro grande desafio da viagem: Aprender a usar os sticks de caminhada! Eu sei que parece ridículo, mas no começo é difícil coordenar! Mas depois de alguns minutos, vai que vai! Não sei como eu consegui voltar a andar sem eles quando voltei de viagem! Esse treco é bom demais!!!!! Bom, foi nesse primeiro dia que eu entendi por que a maioria das pessoas faz o W em 5 dias e não em 4… É porque o refúgio Grey é longe que dói! Eu tinha o meu tempo de trekking limitado pelo horário do catamarã. Não podia estar de volta depois das 18:30hs, que é o último horário de saída do catamarã no dia. As pessoas normalmente dormem no refúgio Grey e depois voltam no dia seguinte. Ou também vão até o refugio Grey e voltam para dormir em Paine Grande, sem grandes compromissos com o horário. Aí tudo faz mais sentido. No meu caso eu tive que ir até onde o relógio permitiu, e não consegui chegar até o refugio. Mas isso não tem muita importância… Pude apreciar a beleza do glaciar durante minha trilha sem nenhum problema! A trilha desse trecho não foi das piores do W. Existem outras partes com muito mais subidas e descidas. Isso foi bom, pois estava ainda aquecendo os motores! Eu que já tenho dois joelhos completamente destruídos, que me impedem de fazer algumas coisas, estava, para piorar, vindo de uma lesão no ligamento. Consequentemente minha condição física não era das melhores, vindo de um período de um mês sem poder exercitar minhas pernas. Bora caminhar!!!! A primeira parada, já para o almoço, foi na Laguna Los Patos. Uma lagoa bonita, que apesar do nome, não tinha tantos patos assim quando passei por lá! Sigo então em direção ao glaciar, tentando aproveitar o máximo essa paisagem linda! Daí a recompensa… O Glaciar Grey!!! Encontro um lugar para parar e apreciar essa vista! Depois de um tempo por lá o relógio me lembra que era preciso voltar, sem grandes possibilidades de paradas. A volta foi bem tranquila e cheguei a tempo inclusive de fazer um lanche e tirar umas fotos antes de embarcar Na fila do embarque percebo esse cara indo para um mergulho bem tranquilo nesse lago de degelo!!! Um mergulho com uma vista dessa não é nada mal!!!! Daí foram só mais uns 30 minutos de catamarã até Pudeto e já o imediato embarque no ônibus para Laguna Amarga. Dalí peguei o ônibus de volta para Puerto Natales. Chegando em Puerto Natales, foi só o tempo de passar em uma vendinha para comprar os mantimentos para o dia seguinte e correr para tomar banho, comer e dormir, pois sobram poucas horas de sono para quem tem que pegar o ônibus no outro dia as 7 da manhã!!! Dia 2 E lá vamos nós!!!! Acorda de madrugada, toma banho, toma café, corre para a rodoviária e tenta descansar um pouco no ônibus no caminho… No parque foi só mostrar que já tinha o ingresso e aguardar pela saída do ônibus para Las Torres. Lá em Las Torres se faz um breve registro de entrada para controle e já pode sair para a caminhada. Esse dia era o primeiro grande desafio. São 20km ida e volta, com muita montanha, incluindo um trecho matador no último quilômetro que faz você pensar seriamente que não vai conseguir! Mas consegue!!!! A caminhada começa com 2km bem tranquilos e planos ainda em uma área dentro do complexo de Las Torres. Depois…… Bom, depois é bom estar com a saúde em dia, porque não é fácil a brincadeira. O que sempre te dá forças em um lugar como esse são as paisagens… Elas vão nos lembrando por que estamos lá!!!! Vale cada gota de suor! E vai subindo… Subindo… Subindo mais… Até que chega no Km 9 e eu já estou esgotado, com muita dor e cansaço. E aí o negócio começa a ficar sério. A subida é bem no limite entre caminhar e escalar, inclusive passando pelo espaço onde a água do degelo desce, para ajudar ainda! Pelo menos quando dava sede era só abaixar e beber água! Eu acho que eu bobeei… Acho que tem um lugar para deixar o peso extra ali no km 9 antes de começar a subida. Eu não fui atrás disso e acabei subindo com tudo nas costas… Foi treta! Como eu não tinha forças nem para tirar foto, tenho poucos registros desse dia. Uma pena, porque o lugar é maravilhoso. Essa subida é terrível, e quando se acha que acabou você descobre que ainda falta um tanto! Todos os lugares por lá são assim… Você acha que chegou no final, mas não chegou!!!! Para de reclamar e continua andando!!!!! Realmente nem acreditei quando cheguei lá!!!! Mas o visual vale qualquer esforço!!! Infelizmente cheguei lá 15 minutos depois do horário que tinha que iniciar a descida! Isso limitou muito o quanto eu pude aproveitar lá em cima. Foi o tempo de comer alguma coisa, tirar meia dúzia de fotos e sair desesperado para baixo, quase com a certeza que não daria tempo. Isso foi a pior parte do rolê… Não consegui aproveitar quase nada a descida, forcei meus joelhos de um jeito que não poderia ter forçado e fiquei horas no stress de não ter ideia do que iria fazer se perdesse o transporte. Não sei explicar como, arrumei forças não sei da onde para sair em uma disparada nos últimos 2 quilómetros para tentar chegar no ônibus… E não é que consegui!!!!!!! O pessoal já estava quase todo embarcado! Aí pedi para o motorista para esperar uns 2 minutos até a Tati chegar e ele falou que beleza! Nossa, foi por pouco! Eu sentia tanta dor no meu corpo depois disso que nem sei explicar… Doía pé, tornozelo e principalmente meus joelhos… Achei que tinha comprometido todo o rolê… Chegando em Puerto Natales foi só a correria para deitar logo, depois do mercadinho, banho e janta. Dia 3 Esse dia tinha a ideia que seria mais tranquilo, pois além da distancia a se caminhar ser menor, não precisava me preocupar com horário, pois poderia chegar a qualquer hora no Camping Francês. Mas eu me enganei… Foi mais um dia puxado que no final minhas pernas já estavam esgotadas. Já no refugio Las Torres, comecei a caminhar para o Acampamento Francês. O inicio é tranquilo e ainda estava com a sensação que seria um dia de recuperação, e não de grandes esforços. Começo a encontrar alguns morros, mas nada de mais… A caminhada ainda está sob controle. Passados alguns quilômetros eu encontro um novo caso de amor!!!!! Se trata do Lago Nordenskjöld! Que visual maravilhoso! Andar com esse lago ao seu lado o dia inteiro foi lindo demais! As paradas para comer sempre eram em pontos estratégicos para comer apreciando aquele azul espetacular! O problema é que esse trecho tem muita montanha, subindo e descendo toda hora… Eu fui me cansando e já ficava perguntando pra galera que cruzava no caminho se estava muito longe ainda! Isso é claramente sinal de desespero!!!! E então já no final do dia chego no Acampamento Francês! O acampamento é bem bacana. O banheiro é bom e a água para tomar banho bem quente! Isso foi maravilhoso! Lá eles também têm um pequeno restaurante e uma “vendinha” que você pode comprar um refrigerante, por exemplo. Na recepção do camping eles tinham ovos para vender. Não estava tão caro. O problema é que eu não tinha onde cozinhar os ovos, pois não estava carregando um fogareiro comigo. A menina que estava lá foi bem gente boa e ofereceu de cozinhar os ovos para nós no fogareiro dela! Então já fechei negócio e consegui comer algo quente nessa noite, que estava programado apenas comida fria. Então depois de um ótimo banho já fui jantar meu sanduíche, ovos e um vinho que estava carregando para saborear na noite! A barraca estava montada. Não tive trabalho nenhum. É chegar, pular para dentro do saco de dormir e até amanhã!!!!! Dia 4 Depois de uma boa noite de sono que não passei nenhum tipo de problema na barraca, me preparei para partir. Nesse dia os objetivos eram Mirador Francês, Mirador Britânico e a chegada em Paine Grande para tomar o catamarã de volta no final da tarde. Então tomei meu ziriguidum e pé na estrada! Até o acampamento Italiano o caminho é curto mas já com algumas subidas chatinhas. No acampamento Italiano você pode deixar seu equipamento para fazer a subida para o Mirador Francês e Britânico só com o necessário. A subida até o Mirador Francês é de um nível médio… Dá para ir na boa. Acabei me perdendo um pouco no caminho… Ainda bem que olhei para trás e vi umas pessoas passando por outro lugar. Percebi que o errado era eu e voltei para a trilha certa! Lá é um lugar bem interessante. Existe uma geleira com pequenas avalanches a cada 10, 15 minutos… É muito legal ficar um tempo por lá vendo as avalanches e principalmente escutando os estrondos do gelo se rompendo. É um barulho de trovão bem alto! Muito bacana! Fiquei lá um tempo, fiz meu lanche e olhei para o caminho do mirador Britânico………… Que caminho???? O tempo fechou e não dava para ver nada lá para cima….. Então após algumas considerações decidi desistir de ir até o mirador Britânico. Ainda faltava uma boa pernada até lá e eu não queria gastar esse tempo e essa energia para ir até um mirador de onde não haveria nada para “mirar”. Bom, com isso pude desfrutar mais algum tempo no mirador Francês e fazer meu caminho de volta sem stress por conta do horário do catamarã. De volta ao acampamento Italiano não estava muito bem… Não sei bem o que era, mas preferi ficar por lá um tempo até me recuperar. Daí peguei minhas coisas e segui… O caminho a partir de lá é bem mais tranquilo. Não me lembro de ter nenhuma montanha bizarra para subir e descer depois de lá. Isso foi ótimo… Já estava cansado! (Calafate) Um dos pontos altos desse trecho da caminhada é o Lago Skottsberg! O mirador do lago tem uma vista que chega a ser indecente! Depois dessa parada, já estamos quase lá! É um trecho cheio de emoções boas! De que consegui cumprir o objetivo… De que vou completar o W! Isso parecia tão longe na minha vida há 6 meses atrás…. Pensar em cada pedra, cada montanha, cada arbusto, cada pássaro, cada lago, cada pessoa que cruzei, cada parte do meu corpo que doía, cada gole de água de cachoeiras de degelo, e cada sentimento delicioso de conquista com o visual que se abria na minha frente por tantas e tantas vezes nesses dias…….. Foi bom demais! Então a última parada antes da chegada triunfante! Dessa vez para admirar o Lago Pehoé, a poucos metros de chegar em Paine Grande. Não tem lugar melhor para comemorar a vitória!!!!!! E então a chegada! Exausto; Com dor; Realizado!!! Consegui, po**a!!!!!! Daí foi o roteiro já conhecido… Catamarã de Paine Grande para Pudeto, ônibus interno de Pudeto para Laguna Amarga (com parada em Las Torres), ônibus para Puerto Natales, pousada e cama! Hora de descansar, mas não muito, porque no dia seguinte embarcaria para El Chaltén pela manhã. Mas essa história fica para depois! É isso!!!! Quem quiser qualquer ajuda, pode escrever aqui que vou ajudar com todo prazer no que for possível! Críticas e elogios também são bem vindos!!!!! Não esqueçam de seguir lá no Instagram! @profissaoviageiro Valeu!!!!!!!!!!!!! Abraço, Felipe
  3. 1 ponto
    Estou planejando para maio de 2020 minha ida a Lima - Cusco e talvez uma passada na Bolivia. quem quiser parceria estamos ai !!!
  4. 1 ponto
    @fhdotti Foz do Iguaçu também é uma boa pedida. Além das Cataratas, sua criança iria adorar o parque das aves, tem parque aquático que funciona durante o verão, o parque dos dinossauros... Acho que é um destino para toda a família.
  5. 1 ponto
    Na lista das maiores companhias aéreas do mundo, a Air China é a 10ª colocada, e presença quase onipresente na Asia, com milhares de voos para praticamente todo lugar da Asia e todas as maiores cidades da Europa. A Air China também opera no Brasil, num voo Beijing x Madrid x São Paulo x Madrid x Beijing, 2 vezes por semana. Eu já peguei 2 vezes o voo da Air China entre São Paulo e Madrid, quase sempre é o mais barato, eu não tenho nada a reclamar, o atendimento e conforto na classe econômica sempre foi bom, no padrão de qualquer outra companhia aérea. A única observação que eu faria, é que nem todos os comissários falam ou entendem inglês fluentemente, alguns comissários tem um pouco de dificuldade em entender inglês se você já não falar inglês muito bem, mas não é nada que impeça você de viajar. Outra coisa, a comida a bordo já é meio no estilo chinês ou oriental, com temperos fortes, e algumas pessoas não gostam muito deste tipo de comida ou tempero, mas como você vai para o Japão, já uma boa opção para ir se acostumando com as comidas orientais, rs... Agora em relação ao Travelgenio, como qualquer passagem comprada em uma agência de viagens/site de terceiros, em 99,999% dos casos dá tudo certo e não tem nenhum problema. O problema é se você for uma daquelas 0,001% das pessoas azaradas que precisam cancelar ou alterar alguma coisa na passagem em cima da hora. Toda passagem emitida por um site de terceiro ou uma agência de viagens, só pode ser alterada pela própria agência de viagens/site que emitiu a passagem, a companhia aérea não pode mudar nada. Isto não é um problema se você for alterar ou cancelar a viagem com antecedência, quando ainda está no conforto da sua residência, mas pode ser uma dor de cabeça caso você esteja lá no aeroporto de Beijing ou Tokyo e precise alterar o seu voo as 2:00 da madrugada. Por ser uma passagem emitida por agência, geralmente a companhia aérea não vai poder mexer uma vírgula, geralmente você tem que pegar o telefone e ligar para a agência/site que emitiu a passagem, e pedir para eles fazerem a alteração, e claro, torcer para alguém da agência/site atender o telefone as 02:00 da manhã. Então, se possível, sempre tente comprar direto da companhia, para não colocar um terceiro no meio da história. Mas se o preço comprando pela travelgenio estiver realmente mais barato do que comprando direto, eu compraria sim pelo Travelgenio, pois estas situações que eu citei acima são exceção, na grande maioria absoluta dos casos dá tudo certo, é só para você ficar ciente de que ao comprar por um terceiro, pode ser complicado resolver algum problema com o voo lá no aeroporto as 02:00 da madrugada...
  6. 1 ponto
    @fhdotti Tem vários lugares, estude sobre Santa Catarina, tem Serra, praia, caminhos, o parque do Beto Carrero(vcs vão curtir muito), apesar de ser verão vc encontará bons preços e diversão garantida.
  7. 1 ponto
    Vanessa, seu relato esta rico em detalhes...Parabens, pretendo em breve realizar esta aventura.
  8. 1 ponto
    Faz tempo que não voo com a Volotea, mas na Ryanair a tolerância tem sido zero! É um único volume de 40 x 20 x 25 Cm e pronto, e ele tem que caber embaixo do assento! Eles tem implicado até mesmo com as bolsas das mulheres. Existem centenas de modelos de mochilas que atendem estas dimensões, mas são mochilas pequenas, de 25 ou 30 Litros, se passar só uns 3 ou 4 cm, geralmente costuma continuar a caber embaixo do assento se não estiver muito cheia. Das mochilas deste link, grande parte delas atendem estes requisitos, mas são mochilas pequenas, não são mochilas onde cabem as suas coisas para uma viagem de 20 ou 30 dias. https://www.netshoes.com.br/mochilas?mi=hm_ger_mntop_H-ACE-mochilas&psn=Menu_Top
  9. 1 ponto
    https://rotasetrips.blogspot.com/2019/08/visitando-passo-fundorio-grande-do-sul.html De chega a cidade já surpreendeu, pela educação dos motoristas, pessoas parando nas faixas para os pedestres passar, sem haver nenhum sinal luminoso, ou apito para isso. Ficamos de boca aberta! Nem sabia que existia isso, ainda vindo de Caxias, onde o transito é uma selva. A tarde de sol estava bonita, e pedia por um walking tour. Nossa primeira parada foi a bela Praça Tamandaré ou Praça dos Plátanos. Passo Fundo possui belas praças, e a limpeza das mesmas da gosto de ver. A praça possui belos plátanos, e convida a um passeio, ou a sentar para tomar um mate e ver a tarde passar. Mais adiante fica a avenida central, onde encontramos o Museu de Arte: Lugar interessantíssimo, com uma curiosa exposição de bonecas, trajadas tipicamente, fazendo referencia a todos os estado brasileiros, e muitas de outros países. Existem diversos artefatos antigos, mas o que mais chama atenção, são as obras de artes e exposições. Então fica a dica de um lugar obrigatório numa visita a PF. Em frente ao museu a Estatua do Teixeirinha, o famoso musico gaúcho, talvez o mais famoso de todos os tempos, que embalou muitas gerações com suas canções tradicionalistas. Orgulho Passo-fundense, apesar de muitos dizerem que ela é natural de Rolante, aí fica a disputa entre as cidades, como Argentina e Uruguai disputam a origem de Carlos Gardel. Continuando nossa caminhada pelo centro, chegamos a Praça Marechal Floriano, mais conhecida como Praça da Cuia, onde fica o monumento da Cuia e a Catedral: Caminhando um pouco mais chegamos ao Parque da Gare. onde existe mais uma bela praça, e a gare da estação férrea revitalizada. Um baite lugar. Ainda mais que o local esta todo revitalizado, com estacionamento, e diversos restaurantes bem descolados, oferecendo pizza, comida mexicana, cerveja artesanal dentre outros. onde a gurizada vai fazer a noite. O lugar esta bem badalado, e é uma ótima opção para curti a noite. Pena fechar cedo, tipo meia noite. Passo Fundo tem ainda boas opções de Shopping como o Bella Cittá e o Passo Fundo Shopping, esse ultimo mais novo, e muito bonito, onde encontramos uma loja da Polo Wear, com ótimas promoções, então foi impossível não fazer umas comprinhas, bem em conta. Para curtir o domingo, fomos ao Parque Banhado da Vergueiro, que fica no centro, e a principal atração é ver uma quantidade enorme de Preas pastando. Um bom lugar para relaxar e levar as crianças. Além disso Passo Fundo tem muitas outras atrações, como o Muzar - Museu Zoobotânico Augusto Ruschi, e o Parque da Roselândia, onde encontramos o Pórtico de Botas e Chapéu, Museu Tradicionalista CTG Lalau Miranda, Chafariz da Mãe Preta, Marcos do Pulador, e muitas outras a sua escolha. Fotos:
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    Boa noite pessoal! Irei em agosto de 2019 para machu Picchu e a grande dúvida é: compro o ingresso pra entrada antecipadamente ou compro la quando chegar? Ficarei 4 dias em Cusco, então gostaria de ter alguma flexibilidade qto as datas, já que farei o trajeto via hidrelétrica. Podem me ajudar?
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    Não vim falar muito sobre o roteiro em si, mas encorajar os casais que assim como nós, optaram em fazer algo diferente, personalizado e econômico. Embora Uruguai e Chile estejam realmente muito caros, gastamos pouco para 23 dias de viagem (entre 6 e 7 mil reais) fazendo vários passeios, comendo em lugares legais algumas vezes e sem ficar em quarto compartilhado. E com certeza essa foi uma viagem inesquecível que deu início a nossa vida a dois. Independente de ser um destino nacional ou internacional, dá pra fazer uma viagem legal, agregadora, econômica de acordo com o que agrada a cada um. Espero que meu relato ajude aos casais que estão com dúvidas. Procurei alguns relatos desse estilo e só encontrei relatos de mochilões de mel mais longos, que são igualmente legais, mas inviáveis para quem é empregado e precisa usar as férias para fazer as coisas. Estou disponível para auxiliar em caso de dúvidas!
  12. 1 ponto
    Parte 10 - Enfim, o fim do mundo "É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós." O conto da ilha desconhecida, José Saramago A Terra do Fogo é uma ilha localizada no extremo sul da América do Sul. A população total da ilha é menor que 300 mil habitantes (contando tanto a parte chilena quanto argentina). O clima na ilha é bastante instável e por estar localizada muito próxima da Antártida é de se imaginar que o frio é dominante na ilha. Então, por que um lugar que é tão frio se chama Terra do Fogo? Voltamos ao passado novamente. Antes do contato com os europeus, a América era inteiramente populada de norte ao sul. Isso não era diferente na Terra do Fogo. Existiram alguns povos que viveram por lá e todos eles faziam fogueiras permanentes para sobreviver ao frio intenso da região. Assim, navegadores europeus que margeavam a ilha avistavam uma infinidade de fogueiras. Consequentemente, a ilha foi batizada de Terra do Fogo. A principal atividade econômica da Terra do Fogo (parte argentina) é a extração de gás natural e petróleo, mas há também diversas empresas de eletrônicos, principalmente em Rio Grande, que conseguem competir no mercado nacional graças a incentivos fiscais. Hoje o turismo é parte importante da economia local, principalmente para as cidades de Ushuaia (Argentina) e Puerto Williams (Chile). A ansiedade de chegar em Ushuaia era muito grande. Nem consideramos o convite do Desiz de passar mais tempo em Rio Grande. Queríamos estar em Ushuaia. Acordamos cedo e nos despedimos do Desiz. Saímos caminhando rumo a saída da cidade. Desiz tinha nos informado para pegar um ônibus circular que nos deixaria a uns 15 km de Rio Grande num posto da YPF, bem na união das duas pistas que leva-se a Ushuaia. Então, era o melhor lugar a se pedir carona. Fomos até um ponto de ônibus e esperamos. Quando parou o ônibus, o Matheus conversou com o motorista e explicou aonde queríamos chegar. Enfim, a conversa foi desencontrada, pois o motorista nos deixou na entrada da cidade. O dia tinha começado mal. Voltamos a caminhar. Caminhamos e caminhamos. A ideia de começar a caronar cedo tinha ido pro espaço. Nisso um carro parou, o motorista veio conversar conosco. Ele já viveu uma vida de mochileiro também e se solidarizou com a nossa caminhada. Falou para entrarmos no carro e disse que nos levaria até o posto da YPF. O nome dele é Javier e trabalha como engenheiro de petróleo na cidade. O tempo com o Javier foi bem curto, mas muito agradável. Chegamos no posto da YPF, nos despedimos do Javier e ele já acelerando o carro disse sua última palavra para nós: "Suerte". Ficamos na saída do posto da YPF (pra variar!). O fluxo de carros estava bem baixo. A aposta dessa vez era que um caminhão seria o nosso salvador, pois na Argentina não havíamos conseguido até então uma carona de caminhão. Quando chegamos na pista eu tinha a certeza que essa carona seria a mais fácil de todas, pois agora todos veículos que passavam por ali, certamente, iriam para Ushuaia. Então, era só esperar. Foto 10.1 - Matheus se esforçando em segurar a plaquinha no vento de Rio Grande Na teoria não tinha como dar errado pedir carona ali. Porém, a prática sempre vem colocar à prova a teoria. Os carros e caminhões que passavam nem esboçavam uma carona para nós. E assim foi, erguíamos o dedão da esperança a todo carro que passava, mas sem nenhum sucesso. O pior que dessa vez estava tão frio e ventava tanto que nossa abordagem se resumia em segurar a plaquinha e erguer o dedão. Rio Grande é conhecida como a cidade dos ventos. Nos meus dias de Patagônia a única coisa que não faltou foram ventos fortes a todo momento. Entretanto, nada se compara aos ventos de Comodoro Rivadavia, Rio Gallegos e Rio Grande. Ficar no relento nesses lugares é uma prova de resistência. O vento chega a machucar. Neste dia em Rio Grande era tão forte o vento, que você tinha que fazer força para ficar parado. Não estava nada gostoso ficar ali esperando. Para melhorar começou a chover depois de algum tempo. O mais difícil nos ventos patagônicos é mijar ao ar livre. É preciso conhecer um pouco de física para realizar um simples ato (risos). Se você não analisar a direção do vento, a chance de tomar um banho nada higiênico é grande. O problema fica mais difícil porque o líquido viaja por muitos metros antes de espatifar-se pelo chão. Então, é importante analisar todo o entorno antes de realizar o ato, senão você pode fazer cosplay de São Pedro e criar uma chuva passageira. Ficamos umas quatro horas pedindo caronas. Não estávamos mais aguentando ficar no relento. Estava muito frio e o vento era insuportável. A chuva fina que caía mais parecia uma tempestade somada ao vento. Um pingo de chuva que acertava o rosto era como uma pedrada. Decidimos que não valia a pena ficar mais tempo naquela situação. Assim, começamos a caminhar no sentido contrário, ou seja, de volta para Rio Grande. Continuávamos a pedir caronas para os carros que passavam por nós, mas sempre caminhando. Como de costume para todo carro que refugava a parada, nós cumprimentávamos e desejávamos boa viagem. Em um desses casos, minutos depois o carro retornou e o motorista veio falar comigo. Ele disse que podia nos levar até Tolhuin. Eu nem sabia da existência dessa cidade, mas o motorista disse que ficava no meio do caminho entre Rio Grande e Ushuaia. Então, entramos no carro. Conhecer o Beto foi o último grande presente da busca pelo fim do mundo. No começo da carona ele falava um espanhol incompreensível para mim e com o passar do tempo, a confiança dele em nós foi aumentando e o seu falar foi se transformando. Creio que ele estava nervoso com nossa presença, era a primeira vez que dava carona e não sabia o que iria encontrar. Beto é um nativo da Terra do Fogo, nasceu e mora em Toulhin. Ele trampa para a prefeitura da cidade, atendendo as ocorrências que acontecem na Ruta 3. O início da viagem foi tranquila e sem muitas conversas. O Beto parou no posto da YPF, comprou água quente e mate. Ainda parados no posto, ele preparou o mate. Agora em movimento compartilhávamos o mate e as conversas, timidamente, começaram a surgir. Fomos parados por uma fiscalização policial, tinha alguma coisa errada com o carro do Beto. O policial estava dando o maior sermão nele, ele se explicava dizendo que era o primeiro carro dele e que não sabia dessas coisas. Enfim, o policial nos deixou prosseguir viagem. Eu perguntei pro Beto quantas vezes ele tinha usado aquela desculpa, ele caiu na risada. Depois disso, tudo ficou mais fácil entre nós três. Foto 10.2 - Beto no volante e eu com a garrafa térmica Foto 10.3 - La ruta Foto 10.4 - Quase o fim da Ruta 3 Foto 10.5 - Não chove não! Foto 10.6 - O trajeto A chuva estava intermitente, aparecia e desaparecia. A música dentro do carro era boa demais, mas eu não conhecia nenhuma. De repente, o Beto parou o carro no meio da pista e desligou o som. Fiquei sem entender. Ele saiu do carro e foi até uma cruz que estava na beira da pista. Ajoelhou-se e começou a rezar. Depois de alguns minutos, voltou para o carro e sem falar nada acelerou o carro. Percorremos alguns quilômetros em silêncio. Beto quebrou o silêncio e nos explicou o porquê daquilo. Anos antes, seu tio estava dirigindo sentido Rio Grande quando teve uma parada cardíaca. Assim, o carro capotou e seu tio não resistiu aos ferimentos. Ele tinha muito apreço pelo tio, disse que era como um pai. Agora, toda vez que passa por ali, ele reza em memória do tio. Confesso, que foi uma cena bem bonita de presenciar. Foto 10.7 - A chuva que cai Foto 10.8 - As montanhas começam a aparecer Já viajei bastante por ai e das coisas que mais gosto de ver é a transição de vegetação pelo caminho. Nesse sentido essa viagem é bizarra, pois não há uma transição do deserto patagônico para a região verde. O que acontece é que num segundo você está no deserto e no outro está numa região completamente verde e cheia de montanhas em volta. Isso me chamou muita atenção. É como se houvesse um corte, de um lado é deserto e do outro floresta. Foto 10.9 - Chegando perto de Tolhuin Foto 10.10 - O entorno Foto 10.11 - O verde que surge após o deserto Chegamos em Tolhuin, a viagem tinha sido bem boa. Muita conversa e mate. Devia ser umas duas da tarde, o horário que o Beto entra no serviço é as cinco. Ele resolveu não parar em Tolhuin, perguntou se queríamos conhecer um mirante da cidade. Como de praxe, dissemos "Buera". Entramos num parque com estrada de terra. O entorno é lindo demais, demais mesmo. A boa música no carro do Beto continuava. Acho que a música alternava entre Reggaeton e Cumbia. Chegamos. Depois, fomos caminhando até o mirante. O céu estava carregado de nuvens, o que deixou o cenário meio melancólico, mas belo do mesmo jeito. Foto 10.12 - Sobe, sobe Foto 10.13 - O verde de Tolhuin e o lago Fagnano ao fundo Foto 10.14 - Lago Fagnano Foto 10.15 - Beto e Matheus Foto 10.16 - O verde Foto 10.17 - Matheus no mirante Foto 10.18 - Beto tirou uma foto do Matheus, mas também flagrou eu tirando uma foto Foto 10.19 - O registro oficial, Matheus, Beto e Diego Depois retornamos a Tolhuin. Beto nos levou as margens do encantador Lago Fagnano. Estava frio, mas o vento ali já era mais agradável e, consequentemente, suportável. Ficamos um bom tempo naquele canto, conversando e dando risadas. A timidez inicial do Beto, não existia mais, ele nos contava histórias e mais histórias. Dessas histórias a que eu mais me lembro é em relação aos cachorros da ilha. Ele disse que existem muitos cachorros na região de Tolhuin, a população não comportou todos eles e muitos viraram de rua. Na busca por comida esses cachorros foram afastando-se da cidade e nas florestas, como no livro do Jack London o Chamado Selvagem, foram tornando-se selvagens. Hoje eles são um "problema" para a cidade, pois invadem criação de ovelhas e matam boa parte do rebanho para se alimentarem, além de ter registros de ataque a humanos também. Foto 10.20 - As margens do Lago Fagnano Foto 10.21 - As ondas do lago Foto 10.22 - Beto e o celular Foto 10.23 - Matheus e o lago Foto 10.24 - O entorno Foto 10.25 - Matheus e o Beto Foto 10.26 - Das fotos que eu mais gostei Fomos até a padaria de Tolhuin, que é considerada, pelo próprio dono, a padaria mais famoso do mundo. Na entrada vê-se o tamanho da fama da padaria, fotos de diversas celebridades que passaram por ali. A padoca é bem bonita e cheia de doces. Cada um comeu um churros, que estava mais do que bom. Já era quase cinco horas, o Beto tinha que trabalhar. Assim, ele nos deixou na Ruta 3, aonde tentaríamos a sorte novamente. Agradecemos muito ao Beto por ter nos dado a oportunidade de conhecermos sua cidade. Matheus presenteou-o com a sua última fitinha do Senhor do Bonfim. O Beto é outro cara que chamo de irmão. Não tenho palavras (como sempre!) para agradecer o que ele fez por nós nesta viagem. Ele nos salvou quando já tínhamos desistido de pedir caronas, íamos seguir de ônibus. Depois, em pouco mais de uma hora de viagem ele se sentiu confortável em mostrar toda a gentileza de sua pessoa. Nos levou a lugares que nunca conheceríamos se ele não tivesse surgido em nosso caminho. Nos contou histórias que eu nunca haveria de ouvir. Ele foi o primeiro nativo da Terra do Fogo que conheci. O que fica é a lembrança da sua generosidade fora do comum. Por isso, o que me resta é dizer muito obrigado ao Beto. Espero que ele esteja agora do jeito que mais gosta, em cima de um cavalo cavalgando pelas pradarias patagônicas. Menos de cinco minutos na estrada e conseguimos uma carona até Ushuaia. Era a carona mais rápida da nossa história. Uma caminhonete do hospital de Tolhuin passou por nós e erguemos o dedo. A caminhonete avançou mais uns cem metros e parou. Corri para falar com o motorista, antes de eu chegar ele já fez sinal que era para irmos juntos. Voltei e peguei minha mochila, junto com o Matheus segui correndo. A única coisa que me lembro de falar foi "Caralho, man! Conseguimos.". A felicidade em nós era visível. A busca pelo fim do mundo estava prestes a terminar. Foto 10.27 - Lugar que pedimos carona em Tolhuin (Ushuaia tava tão perto) Entramos na caminhonete. Conhecemos os dois funcionários do hospital: José e Rodrigo. Eles estavam a trabalho e não saiam do rádio amador, por isso quase não conversamos com eles. Aproveitei para dar uma cochilada e ver o belíssimo caminho até Ushuaia. Foto 10.28 - O caminho para Ushuaia [1] Foto 10.29 - O caminho para Ushuaia [2] Dentro da caminhonete pensei muito sobre caronar e elaborei minha teoria final sobre o assunto. Pensemos naquelas experiências científicas (leia-se experiências toscas) com ratos, choques e queijos. Onde o rato na busca pelo queijo passa por um caminho onde ele toma diversos choques. O caminho é sofrido para o rato. Porém, a experiência final, a de comer o queijo, é tão boa que ele esquece o caminho árduo pelo qual passou e com isso, faz ele começar tudo de novo, sempre. Acho que caronar é exatamente isso. Sem querer romantizar nada, ficar na beira de estrada não é nada legal, ainda mais em condições naturais extremas. Porém, quando você consegue uma carona, parece que todo o processo de espera é esquecido pela vitória da ocasião. Assim, horas ou dias depois de dizer que nunca mais faria aquilo, está você se contradizendo e voltando na margem da pista somente com a memória das caronas bem sucedidas. Foto 10.30 - O caminho para Ushuaia [3] Foto 10.31 - O caminho para Ushuaia [4] Foto 10.32 - O caminho para Ushuaia [5] Foto 10.33 - O caminho para Ushuaia [6] Foto 10.34 - O caminho para Ushuaia [7] Chegamos em Ushuaia era um pouco mais de seis da tarde. Paramos bem na entrada da cidade. Nos despedimos do Jose e do Rodrigo. Seguimos caminhando em direção ao centro. O tempo estava meio esquisito, parecia que a qualquer momento começaria um temporal. Fomos em direção a orla. Só queria chegar logo naquela placa que diz "Ushuaia fin del mundo". Não estávamos mais pedindo caronas, mas um carro parou. O motorista era o gente boa do César que disse que nos levaria até o local. Entramos no carro, ele todo orgulhoso de sua cidade nos deu várias dicas do que fazer sem gastar dinheiro. Anotei tudo. Falamos de futebol e do seu time, o Rosário Central, que havia acabado de ser campeão da Copa da Argentina. Chegamos próximo ao nosso destino, com um aperto de mão nos despedimos do César. Foto 10.35 - Eu caminhando em busca da placa de fim do mundo Foto 10.36 - Caminhando se chega Creio que caminhamos mais uns duzentos metros até avistar a placa que é o simbolo de que havíamos concluído o nosso objetivo de chegar até o fim do mundo. Os passos foram lentos. O cansaço dos dias era evidente nas nossas caras. Quando eu avistei a borda da placa, fui tomado por uma sensação de dever cumprido. Apesar, de não haver obrigação nenhuma de estar ali. Depois de distribuir centenas de abraços ao longo da viagem, pela primeira vez abracei o Matheus e agradeci por ele ter topado estar ali comigo nessa viagem maluca. Foto 10.37 - O fim do mundo Foto 10.38 - Matheus, no fim do mundo Foto 10.39 - Eu, e o fim do mundo Quando decidi que o objetivo principal da viagem seria chegar no "fim do mundo", não tinha um motivo específico de querer chegar lá. Na Patagônia tinha dezenas de lugares que eu tinha mais vontade de conhecer primeiro que Ushuaia. Acho o que me levou a decidir pelo lugar foi o sex appeal de ser a cidade mais austral do mundo. Assim, seria o lugar mais longe que chegaríamos rumando ao sul. No meu inconsciente essa deve ter sido a motivação. Enfim, eu sei que é clichê, mas o que vale num destino é o caminho que se percorre. Então utilizando a seguinte frase do Saramago "Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver." parafraseio-a para "Quero encontrar o fim do mundo, quero saber que sou eu quando nele estiver.". Esse foi o espírito da viagem que nos propomos a fazer. O Diego que chegou no fim do mundo, foi um cara bastante diferente do que saiu de casa um mês antes. Um cara, novamente, esperançoso com as pessoas, cheio de gratidão, com novas histórias pra contar, sorridente e mais dono do seu próprio destino. Por fim, agora me permito a falar do Matheus. Quando a insegurança bateu e decidi que precisava de uma companhia para percorrer este caminho, sabia que a única pessoa que toparia algo do tipo era o Matheus. Ele estava numa vida diferente e nova em Piracanga. Porém, estável. Só o fato dele dar uma pausa nessa nova vida para seguir comigo, significou muito para mim. Depois, veio os dias na estrada. No início eu era uma bomba relógio, não sabia como eu iria digerir tudo o que havia acontecido comigo nos dias que antecederam a viagem. Assim, respeitando as nossas diferenças fomos indo. Tudo foi fluindo da melhor maneira possível. Ele sempre com sua positividade, nunca desanimou ou me deixou desanimar nas horas e horas de espera na estrada, até mesmo com as incertezas da viagem. Com certeza, a minha melhor decisão foi chamar meu irmão Matheus para que juntos chegássemos ao fim do mundo. Poder compartilhar com ele tudo o que aconteceu e assim, ter a chance de conhecer outra visão e percepção dos acontecimentos, também foi incrível. Bom, falei e falei, mas o que eu quero dizer é mais simples e honesto. Quero agradecer ao Matheus por ter encarado essa viagem comigo, muito obrigado por estar presente quando mais precisei. Muito obrigado de verdade e de coração. Tamo junto. Foto 10.40 - Enfim, o fim do mundo O abrir de uma porta é o simbolismo desta etapa da viagem. Portas se abriram a todo momento. Algumas portas eram de casas, que se abriam para que pudéssemos dormir seguramente e ainda tivemos a chance de conhecer novas famílias e, de algum modo, fazer parte destas famílias por alguns dias. Outras portas eram de carros/caminhões, que surgiam para nos salvar de horas e horas de espera para que assim, chegássemos mais perto do nosso destino. Quantas histórias surgiram destas portas abertas. Como o destino foi bom conosco, colocou em nosso caminho as melhores pessoas de cada lugar. Como não ficar feliz com tudo isso? Queria que naquele momento da chegada ao fim do mundo, surgisse um portal ali, e desse portal saísse todas essas pessoas que nos ajudaram pelo caminho. Assim, poderíamos compartilhar com todos aquele momento, pois sem essas pessoas nada disso seria possível. Depois, sairíamos para tomar umas cervejas. Leandro, Capitão, José, Brunê, Mel, Rose, Pini, Leandra, Ailton, Karine, Mário, Wagner, Guilherme, Jadir, Mathias, Silvina, Carlota, Carlos, Ana, German, Micaela, Carlos, Luciana, Facu, Cynthia, José, Juan Carlos, Rosio, Martin, Desiz, Javier, Beto, José, Rodrigo e César, obrigado por confiar em nós e fazer do nosso destino algo palpável. Muito obrigado a cada um de vocês. Espero reencontrá-los. Um beijo na alma e muita vida em suas vidas. Bom, chegamos ao fim do mundo. Agora é hora de explorar o sul da Patagônia Argentina com mais calma..
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    Parte 9 - Cruzando o Estreito de Magalhães com San Martin "Sim, às vezes o pensamento mais louco, o mais impossível na aparência, implanta-se com tal força em nossa mente que acabamos acreditando em sua realidade… Mais ainda: se essa idéia está ligada a um desejo forte, apaixonado, acabamos acolhendo-a como algo fatal, necessário, predestinado, como algo que não pode deixar de ser nem de acontecer! Talvez ainda haja mais: uma combinação de pressentimentos, um extraordinário esforço de vontade, uma autodireção da própria fantasia, ou lá o que seja – não sei." O Jogador, Fiódor Dostoiévski A viagem até Rio Gallegos foi tranquila, dormi na maior parte do trajeto. Quase não vi o caminho que percorremos. Chegamos na rodoviária e fomos ver os horários de ônibus para Ushuaia. Não havia mais ônibus com destino a Ushuaia naquele dia. Na verdade só tem um ônibus que faz o trajeto Rio Gallegos/Ushuaia, esse ônibus sai as 9 horas da manhã diariamente. Era quase dez horas manhã. Saímos caminhando pela cidade. Todas as pessoas para quais pedíamos informações davam respostas desencontradas que nos faziam caminhar pra lugar nenhum. Lembro de uma cena engraçada. Fui pedir informação para uma garota. Queria saber por qual caminho teríamos que seguir pra chegar na Ruta 3 sentido fronteira com o Chile. Abordei ela na rua, educadamente. Ela olhou para mim e eu disse que precisava de uma informação. Nesse momento ela saiu correndo, literalmente. Fiquei sem entender a principio o porquê daquilo. Depois me veio a ideia que eu devia estar num estado visual de calamidade (risos). No entanto, Rio Gallegos é mesmo um lugar difícil de se conseguir informações, e quando se consegue geralmente são informações desencontradas ou erradas. Foto 9.1 - Rio Gallegos Encontramos uma senhora que enfim nos deu a direção correta. Caminhamos e caminhamos. Passamos pelo exército. Paramos em frente de um memorial de Gauchito Gil e começamos as pidanças por caronas. Ficamos um bom tempo ali. O fluxo de carros era bem pequeno. O vento era insano, muito insano na verdade. Queríamos cruzar o Estreito de Magalhães naquele dia. Então, o negócio era suportar o vento, ficar na estrada e esperar. Foto 9.2 - Treinamento em Rio Gallegos Foto 9.3 - Gauchito Gil Foto 9.4 - Gauchito Gil Foto 9.5 - O pedinte Foto 9.6 - Uma carona, por favor! Avistamos um cara vindo de bicicleta cheio de alforjes. Pedimos carona para o ciclista. Ele parou e falou para subirmos. Para nossa surpresa era um brasileiro. Seu nome é Hugo, natural de Santos, e estava viajando desde Curitiba até Ushuaia de bike. Hugo é um cara muito gente boa e malucão. Conversamos um pouco. Hugo também queria chegar na fronteira com o Chile naquele dia , mas estava sofrendo com o vento contra, mal saia do lugar quando pedalava. Depois de alguns minutos conosco, Hugo subiu em sua bike e seguiu com sua viagem. Foto 9.7 - Matheus, eu e o maluco do Hugo Mais um tempo se passou, até que um carro passou por nós e depois voltou de ré ao nosso encontro. A mulher do carro disse que aquele lugar não era um bom lugar para pedir carona, que o ideal seria a uns dez quilômetros a frente, em um ponto de encontro entre a Ruta 3 e o desvio que os caminhoneiros fazem para não entrar em Rio Gallegos. Ela se ofereceu a nos levar até esse ponto. Entramos no carro da moça. Ela se chama Rosio e é do norte do país, veio a alguns anos tentar a vida no sul. No carro também estava seu filho, um gurizinho de uns 5 anos que ficou todo curioso com nossa presença. Rosio é uma gentileza de pessoa, ela falou da dificuldade de deixar o norte onde é fácil ter amigos, mas quase não há empregos, para morar no sul onde se ganha muito, mas amigos e contato humano é coisa rara. Uns vinte minutos de viagem e chegamos no nosso ponto. Demos um toque de mão no garotinho, um forte abraço na Rosio e seguimos caminhando. Rosio seguiu de volta para Rio Gallegos. Caminhamos alguns metros e avistamos um casal pedindo carona de uma forma bem tímida. Eles estavam atrás de uma placa de trânsito enorme (para se proteger do vento) e quem passava por eles nem conseguia vê-los direito. Fomos ao encontro do casal. Eles são de Rio Gallegos mesmo, o cara é tatuador e tinha que estar naquele dia em Punta Arenas no Chile para um festival de tatuagem, mas não havia mais ônibus saindo nesse dia. Assim, eles vieram para a rodovia tentar a sorte e seguir de carona. Os dois são bem gente boa. Demos as dicas para eles da melhor maneira de se pegar carona. Assim, como eles estavam primeiro ali, demos a preferência e o melhor lugar para eles pedirem carona. Eles ficaram num ponto bem visível, onde os veículos passam numa velocidade baixa. Eu e o Matheus ficamos uns vinte metros atrás deles. Foto 9.8 - 2616km percorridos dos 3079km da Ruta 3 O calor que nos acompanhou pela Patagônia até aqui, não existia em Rio Gallegos. Estava frio, muito frio e o vento era igual de Comodoro Rivadavia. Tive que vestir luva e touca. Um ambiente completamente diferente. Ficar na pista esperando foi bem difícil. Depois de umas três horas de espera, um caminhão parou para o casal, achei que eles haviam conseguido, mas o caminhão continuou sem levar eles. O caminhão parou na nossa frente, disse que podia levar apenas um de nós até a fronteira com o Chile. Fiquei numa dúvida cruel, queria que o Matheus fosse, depois eu tentaria sozinho e nos reencontraríamos na fronteira. Por fim, resolvemos não entrar. Confesso que na hora me arrependi, mas o futuro iria dizer que aquele teria sido a melhor decisão a se fazer. Minutos depois surgiu uma mini van em velocidade bem baixa. Parou e falou com o casal que estava logo na nossa frente. A mini van seguiu viagem. Erguemos o dedo no momento que ela passou por nós. A mini van parou. Logo pensei que seria igual ao caminhão, que ele falaria que só poderia levar um, imaginei que esse teria sido o motivo do casal não ter entrado. Nisso já bateu o arrependimento de ter refugado a carona solo com o caminhoneiro. Enfim, fui derrotado falar com o motorista. Ele perguntou onde iriamos e respondi que o objetivo era chegar em Ushuaia, mas se ele nos deixasse na fronteira já estaria bom. Ele disse que iria até Rio Grande, que é uma cidade na Terra do Fogo e fica a 200km de Ushuaia. Quando ele disse isso, perguntei se podíamos seguir com ele, com seu jeito característico ele sorriu e disse para entrarmos. Um detalhe importante que vale a pena destacar neste ponto do relato é a conversa que o casal teve com o Martin, o motorista da mini van. Logo que entramos no carro o Martin perguntou se éramos amigos do casal que estava ali na rodovia. Dissemos que tínhamos conhecido eles algumas horas antes ali mesmo na Ruta 3. Explicamos que era a primeira vez que eles estavam pedindo carona e que tentamos ajudá-los de alguma forma. Com isso o Martin falou que iria dar carona para o casal, mas que só não deu porque o casal sabendo do destino final, do Martin, pediu para que ele levasse eu e o Matheus. (Punta Arenas fica no continente, então a carona para eles seria até a fronteira, que ficava uns 70km do ponto que estávamos, pois o Martin atravessaria o Estreito de Magalhães e seguiria pela Terra do Fogo). Cara, isso é do caralho. É do tipo de coisa que me deixa muito feliz. Aquele casal, que mal nos conhecia, abriu mão de algo que ajudaria-os para nos ajudar. Seguimos com o Martin. Nos primeiros minutos de viagem avistamos o ciclista Hugo parado na rodovia se protegendo do vento, atrás de uma placa de trânsito. Tentei gritar, mas não consegui abrir o vidro do carro. Ficamos sentados os três no banco da frente do carro, na parte de trás tinha uma infinidade de bolsas e as nossas mochilas. Martin é o único representante de vendas na região da Patagônia de marcas esportivas como: The North Face, Caterpillar, Patagônia e muitas outras. Então, ele está sempre viajando pela Patagônia para vender os produtos. Como ele dizia: é um trabalho fácil, pois as marcas já se vendem sozinhas. Martin nasceu na cidade de Viedma e, atualmente, mora em Puerto Madryn. Aqui está outra carona que é muito difícil escrever sobre ela. Dessa vez pelo motivo contrário do Juan Carlos. Martin é um cara que eu gosto demais, demais mesmo. A viagem com ele teve uma sinergia fora do comum. Como nos divertimos dentro daquele carro. Ele é um cara interessado por tudo, acho que as intermináveis horas que ele passa dirigindo fez ele ter essa sensibilidade. Ele se diverte com qualquer coisa que ele vê pelo caminho. Enfim, Martin é um cara gente boníssima e de coração enorme. A viagem seguiu bem leve. Martin nos serviu Sprite. Contamos um pouco das nossas vidas, Martin também contou bastante sobre a sua vida. Nos contou que conhecia o Brasil, já tinha visitado o Rio de Janeiro e Porto de Galinhas, e agora estava prestes a viajar com a namorada para passar o final de ano em Nova York. Essa seria sua última viagem a trabalho do ano, depois férias nos Estados Unidos. Ele viaja quatro vezes por ano para a Terra do Fogo, e ele faz isso a mais de dez anos. Então, ele conhece bem aquela região e nos deu diversas dicas sobre toda a Patagônia. Foto 9.9 - A viagem que segue Chegamos na aduana chilena. Martin pediu para declararmos se tivéssemos algum tipo de alimento que a entrada é proibida no Chile, assim evitaríamos transtornos para ele. Ele fez todos os trâmites necessários para entrar de carro em outro país e ainda nos orientou com a nossa papelada. O Chile é um pouco mais burocrático que os outros países da América do Sul. Declaramos as lentilhas, que levávamos em nossas mochilas, que prontamente proibiram. Deixamos as lentilhas na aduana e seguímos por solo chileno com destino ao Estreito de Magalhães. Martin sempre observava que o asfalto em solo chileno era bem melhor que em solo argentino. Foto 9.10 - Em terras chilenas Foto 9.11 - A ótima pista Você deve estar se perguntando: "Por que diabos ele foi para o Chile, se ele quer chegar em Ushuaia que fica na própria Argentina?". Senta que lá vem história. Primeiro vou falar um pouco da divisão da Patagônia. Após a independência das colônias espanholas, liderada por San Martin na parte sul do continente, a Patagônia virou terra de ninguém. Chile e Argentina aos poucos foram avançando em direção ao sul e se auto denominando donos das terras patagônicas. Isso gerou um impasse, pois não era possível determinar qual território era chileno e qual era argentino. No decorrer da história vários tratados foram acordados entre os dois países, mas nenhum dos países saía satisfeito dos acordos. Argentina e Chile compartilham mais de 5 mil quilômetros de fronteira (a terceira maior fronteira terrestre do mundo) e é meio que óbvio que o Chile reclame parte do território argentino e vice-versa. Esse é o principal ponto da rivalidade histórica entre Chile e Argentina. O último episódio dessas disputas foi no ano de 1978, onde a briga em questão estava nos territórios próximos do canal de Beagle (extremo sul da ilha da Terra do Fogo). A guerra foi evitada por intervenção do Papa João Paulo II que mediou um acordo entre os dois países. Porém, na Guerra das Malvinas o Chile se declarou neutro, mas permitiu que os ingleses instalasse uma estação de radares, em terras chilenas, para monitorar a movimentação argentina na guerra. Os argentinos até hoje não perdoaram esse episódio, que na palavras deles foram uma traição por parte chilena. Em um destes acordos a Terra do Fogo foi a questão. No acordo dividiram a Terra do Fogo ao meio por meio de um meridiano, o lado oeste ficou para o Chile e o leste para Argentina. Até ai tudo bem. O problema é que quase todo o território que margeia o Estreito de Magalhães é chileno. (O Estreito de Magalhães é uma porção de mar que separa fisicamente a América do Sul da Terra do Fogo). A Argentina tem uma pontinha deste território e que fica em alto mar, bem distante da Terra do Fogo. Tendo que navegar em alto mar em latitudes altas é bem perigoso e que em um determinado trecho o estreito mede quatro quilômetros. O mais conveniente quando se está com veículo terrestre pela Argentina e queira-se avançar até a Terra do Fogo, é adentrar em território chileno, atravessar com a balsa até a Terra do Fogo, dirigir por solo chileno e depois deixar o país na divisa entre os dois países na Terra do Fogo. É um baita rolê e o que mais cansa é a burocracia de entrar e sair dos países diversas vezes em um trecho minúsculo. Chegamos no Estreito de Magalhães e havia uma fila de carros. O Martin estacionou no último lugar da fila e saímos do carro para conhecer o entorno daquele lugar tão místico e importante para a história da humanidade. Ficamos um tempo admirando a orla. Nisso os carros começaram a entrar na balsa para cruzar o estreito. Depois de alguns segundos que fomos entender que também deviríamos estar entrando na balsa. Saímos os três correndo em direção ao carro, fazia tempo que não corria daquele jeito. Entramos no carro e caímos na risada. Martin acelerou o carro e entramos na balsa. Foto 9.12 - A chegada no Estrecho de Magallanes Foto 9.13 - Que belezura Foto 9.14 - A chegada da balsa Foto 9.15 - A chegada da balsa Foto 9.16 - Um pouco mais do estreito Martin estacionou o carro, saímos do carro para conhecer a balsa e a visão do estreito que ela proporciona. Ficamos na parte de cima, meio que sem acreditar que estávamos ali. A cor do mar é mais que demais, o céu também colaborava. Martin contou que em dias de tempo ruim, forma-se ondas que passam por cima da balsa. Avisou para termos cuidado ali na beira. Também falou que quando o mar está muito brabo, pode ser que as balsas fiquem paradas, então é tipo uma roleta russa a travessia, como pode ser muito rápida, mas também você pode ficar parado ali por horas ou até dias. Estava de bobeira no parapeito da balsa, até que uma onda gigante veio molhando eu e o Matheus, o Martin correu antes de se molhar. Outra coisa interessante e meio que óbvio também, é que quando a balsa transporta caminhões-tanque (que carregam gasolina) de um lado para outro do Estreito, só pode haver dentro da balsa caminhões-tanque e nada mais. Depois de mais de meia hora de viagem de balsa atracamos na Terra do Fogo. Foto 9.17 - Adeus, continente Foto 9.18 - A balsa vizinha Foto 9.19 - Os carros na balsa Foto 9.20 - Cada vez mais longe do continente Foto 9.21 - A felicidade dos caras que não acreditam que estavam ali Foto 9.22 - Rumo a Terra do Fogo Foto 9.23 - Outra foto dos carros Foto 9.24 - A frente da balsa A importância histórica do Estreito de Magalhães é notável. Pois, por mais de quatrocentos anos foi a principal passagem entre Oceano Atlântico e Oceano Pacífico. Apesar do Estreito de Magalhães ter uma largura pequena para navegação e suas águas serem ameaçadoras, o Estreito era a principal rota comercial que conectava países de Europa, América e Ásia. Existiam outras opções de navegação, por exemplo: Cabo da Boa Esperança e a Passagem de Drake. Entretanto, são dois dos piores lugares de navegação existentes. O Estreito de Magalhães perdeu sua importância comercial com a inauguração do Canal do Panamá. Particularmente, atravessar o Estreito de Magalhães era um sonho. Fernão de Magalhães e sua inaugural circum-navegação por anos estiveram no meu imaginário. Quase quinhentos anos atrás Magalhães navegou entre o continente americano e a Terra do Fogo, essa passagem que hoje leva seu nome provou que navegando tanto para leste quanto para oeste era possível chegar as Índias. Enfim, a prova prática que a Terra é redonda. Estar ali em um lugar tão importante para história me encheu de alegria, pois uma coisa é você ler e imaginar um lugar, outra coisa é você viver e sentir esse mesmo lugar. Seguimos a viagem em solo chileno. Martin se divertia em buzinar para as ovelhas que víamos pelo caminho. Ele buzinava e elas saíam todas correndo. Mesmo quando estávamos entretidos numa conversa, ele não esquecia de azucrinar as ovelhas. Ele dava risada com isso. Para os guanacos e as vacas ele não buzinava, dizia que de nada adiantava, que esses animais só o encaravam. Foto 9.25 - Eu, Matheus e o Martin Uma história que o Martin contou que me chamou muita atenção e resume muito bem o quanto esse cara é gente boa. Em uma de suas viagens de mini van pela Patagônia, ele estava saindo de Bariloche e avistou um caroneiro e deu carona. Logo depois, avistou um casal de caroneiros e deu carona também. E assim, foi indo. Quando ele foi ver já tinha sete caroneiros dentro do carro. Pelo que eu lembro o tempo tava ruim nesse dia, estava chovendo. No meio da viagem ele viu um ciclista e colocou o ciclista e a bike dentro do carro. O carro foi lotado para Ésquel. Ele disse que foi uma farra só essa viagem. Todos viraram amigos. Quando chegaram em Ésquel todos os caroneiros compartilharam o mesmo quarto de hostel. Foto 9.26 - Viajando pela Terra do Fogo Foto 9.27 - Chile Futebol, como é de praxe na Argentina, foi um dos assuntos na viagem. Martin é fanático por futebol, torce para o Independiente. Discutimos o eterno dilema: Quem é melhor Cristiano Ronaldo ou Messi. Obviamente, Messi ganhou. Discutimos sobre a Copa do Mundo e a final da Libertadores. Martin disse que tem certeza que a final da Copa América 2019 vai ser entre Brasil e Argentina. Falou que vai vir pro Brasil para assistir os jogos da Copa América. Foto 9.28 - O caminho para o fim do mundo Foto 9.29 - O deserto patagônico Passamos pela aduana. Estávamos, novamente, na Argentina. A vegetação na Terra do Fogo pelo caminho que estávamos percorrendo é parecido com a vegetação patagônica que vimos no continente. A diferença está na arquitetura das casas, do lado chileno da ilha as construções são todas do mesmo estilo trazendo uma harmonia bem bacana no ambiente, quando cruza-se para o lado argentino é notável a diferença e a desarmonia arquitetônica das construções. Foto 9.30 - Beleza de lugar Foto 9.31 - A viagem tem que continuar Matheus havia conversado com o Desiz pelo couchsurfing, que aceitou nos receber em Rio Grande. Porém, fazia dias que não tínhamos internet. Martin sabendo disso, quando o sinal do telefone voltou, ligou para o Desiz para avisar que estávamos a caminho de Rio Grande, mas o Desiz não atendeu. Eu não estava preocupado se teríamos teto ou não naquele dia, estava feliz demais em estar avançando num ponto tão próximo de Ushuaia. Qualquer coisa acamparíamos em algum posto da cidade. Foto 9.32 - Os guanacos Foto 9.33 - De vola a Argentina Depois de quase oito horas de viagem, chegamos em Rio Grande. Fomos direto para o hotel que o Martin tinha reservado para si. Enquanto o Martin subiu no seu quarto para arrumar suas coisas, aproveitamos para usar a internet no saguão e avisar as nossas famílias que estávamos vivos. Nada do Desiz responder. Martin desceu animado, nos convidou para tomarmos umas brejas. Dissemos "Buera". Fazia quatro dias que eu não tomava banho, e ainda estava vestido com uma camiseta segunda pele na cor verde marca texto, que chamava pouca atenção. Matheus estava sujo igual. Martin era o contrário de nós. Fomos para o único bar aberto da cidade. Entramos. Todos no bar estavam bem apresentáveis, éramos a exceção. Foda-se, queríamos comemorar. Pedimos as cervejas e brindamos pelo bom dia maluco que tivemos. Foto 9.34 - Os sujismundos e o Martin Já era quase onze horas da noite, mas olhava para fora e ainda estava claro. Não tínhamos comido quase nada durante o dia, só algumas bolachas no caminho. A fome era muita. Pedimos uma pizza. Martin, sempre carismático, fez amizade com boa parte do pessoal que estava a nossa volta. A pizza chegou e segundos depois não havia mais nenhum pedaço para contar história. Depois ficamos conversando e dando risadas. Nessa noite batizamos o Martin de San Martin, o salvador de caroneiros. Foto 9.35 - A mesa do bar O bar fabrica sua própria cerveja, são quinze tipos diferentes de cervejas produzidas neste lugar. Existe no cardápio a opção de degustação de todos estes tipos. O lógico a se fazer é pedir o combo de degustação no início para decidir as cervejas que se irá tomar no resto da noite. Mas como nada faz sentido nesse mundo maluco, pegamos a degustação no fim da noite quando já tínhamos tomado nossas cervejas. O garçom ficou sem entender. No fim, vale muito a pena, pois na degustação ao todo tem 1,5 litros de cerveja num preço honesto, sendo muito mais barato que pedir três copos de 500 ml. Foto 9.36 - A degustação do fim da noite Ficamos mais um pouco no bar dando muita risada. Finalmente, o Desiz respondeu, disse que estava dormindo e falou que não havia problemas em ficarmos na casa dele nessa noite. Já era tarde, resolvemos partir. Na hora de pagar a conta, o Martin resolveu pagar tudo e disse que era presente. Não achamos justo aquilo, queríamos ratear o valor. Assim, o Martin pegou uma nota de baixo valor minha e outra do Matheus, e disse sorrindo "Agora nós três dividimos a conta, fim da discussão.". Martin nos deixou na frente do apartamento do Desiz. Ficamos mais um tempo conversando. Sabíamos que aquela despedida não seria a final. Afinal, ele tinha negócios por Ushuaia. Combinamos de nos encontrarmos por lá. Com um abraço forte e um "Até Breve!" nos despedimos do Martin. Depois subimos as escadas do condomínio. Conhecemos o Desiz na porta do apartamento. Eu estava sonolento, pouco conversei com ele. O Matheus ficou tempo falando com o Desiz. Eu fui tomar banho. Caraca! Como era bom tomar banho depois de tanto tempo e de tanta sujeira acumulada/alojada. Abrir o chuveiro e sentir as primeiras gotas de água no corpo é libertador. Estava muito cansado. Lembro de dizer "buenas noches" para o Matheus e o Desiz, que continuavam conversando. Depois disso, fui para a cama e capotei. Esse dia foi muito bom e maluco ao mesmo tempo. Viajamos mais de 700km de Comodoro Rivadavia até Rio Gallegos pela madrugada. Depois conhecemos a doçura da Rosio e o doido do Hugo. Ajudamos e fomos ajudados por aquele casal (queria recordar seus nomes) de bom coração. Passamos muito frio nas rodovias, muito mesmo. Reconheci meu irmão, Martin. Viajamos mais de 400km em sua ótima companhia. Depois fomos comemorar, sem saber o que comemorávamos. Me diverti como a tempos não me divertia. E no fim, ainda teve a camaradagem do Desiz. Mesmo que eu tentasse inventar algo para reclamar desse dia, eu não conseguiria. Agora quero terminar esta parte do relato falando do meu irmão Martin. Qualquer palavra que eu usasse para descrever o quão bom ele foi para nossa viagem, não seria suficiente. Ele nos proporcionou um dia incrível, cheio de boas conversas, paisagens lindas, risadas e companheirismo. Acho que a palavra companheirismo é a que chega mais perto da veracidade sobre o Martin. Ele mergulhou na nossa viagem como se fosse mais um integrante. As nossas diferenças sociais e culturais só serviram para nos aproximar mais. Já cansei de agradecer ele pessoalmente, mas quero mais uma vez fazer isso, agora por aqui. Martin, meu irmão, muito obrigado por ser esse cara do bem, cheio de alto astral, gentil e dono de um coração do tamanho da Patagônia. Espero te reencontrar mais vezes nessa vida maluca. Mais uma vez, muito obrigado de coração Martin, e que sua vida seja cheia de vida. Forte abraço, irmão.
  14. 1 ponto
    Parte 8 - O anjo do carro vermelho "Qual é a sua estrada, homem? - a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?" On the Road, Jack Kerouac Conversamos com os caminhoneiros parados, nenhum sucesso. Fomos para a saída do posto da YPF, por ali erguemos o dedão e ficamos. Era um domingo bem cedo em Puerto Madryn, quase não havia fluxo de carros e caminhões. Estávamos animados e nos divertíamos ali na estrada. Os minutos passavam e o que eu mais via eram motoqueiros viajando no sentido contrário. Possivelmente, eles estavam voltando de Ushuaia. Caminhamos um pouco mais avante, quem sabe não daria sorte um novo lugar. Depois de mais alguns minutos um ônibus vazio passou por nós, ergui o dedão com um sorriso no rosto. O ônibus parou e o motorista nos convidou a subir. Foto 8.1 - Tentando carona na Ruta 3 na saída de Puerto Madryn José, o motorista, nos avisou que iria até Trelew, uma cidade vizinha a quase 70km ao sul de Puerto Madryn. Sentamos no ônibus vazio. José logo passou seu tereré com suco de laranja. Caralho, como estava bom aquele tereré. Logo ele nos explicou que estava indo buscar os engenheiros da Aluar que vivem em Trelew para um dia mais de trabalho. A Aluar é uma empresa de alumínio argentina, sua filial em Puerto Madryn é a principal geradora de empregos da cidade. Ele falou que é prestador de serviço da Aluar e os seus dois ônibus trabalham diariamente na rota Puerto Madryn/Trelew transportando os funcionários da empresa. Foto 8.2 - A visão do Matheus no ônibus O José é um cara bacana demais. Como eu gostei dele, sei lá, ele transmite uma buena onda. Ele já foi caminhoneiro por muitos anos, morou no Paraguai e Itália, e conhecia a Argentina toda. O tereré era herança dos seus dias de Paraguai. Ele gostava de falar sobre o vento patagônico, dizia "Aqui venta forte 330 dias por ano". O vento de Puerto Madryn era forte até, mas me abstenho de falar dos ventos por enquanto. Toda vez que José falava, ele falava sorrindo. Ele começou a nos contar sobre os dinossauros da Patagônia. Disse que os maiores dinossauros que existiram viveram pelas terras patagônicas. Enfim, a Patagônia é a terra dos gigantes, primeiro os dinossauros gigantes e depois os homens gigantes que assustaram Fernão de Magalhães. Falava com orgulho dos dinossauros, disse para visitarmos o Museu Paleontológico de Trelew. Quase na chegada de Trelew tem uma estátua de tamanho real de um Titanossauro, o maior dinossauro de que se tem notícia, com mais de 20 metros de altura e 40 metros de largura. José parou o ônibus para que pudéssemos conhecer o maior dinossauro já descoberto. Foto 8.3 - Titanossauro Foto 8.4 - Titanossauro por outro ângulo (Não ter ninguém ao lado do Titanossauro não dá a noção exata do seu tamanho gigantesco) Depois seguimos viagem até chegarmos em Trelew. Já era quase a hora dele recolher os funcionários e voltar para Puerto Madryn. Mesmo assim, o José cortou toda a cidade e nos deixou no posto da Axion na saída para Comodoro Rivadavia. A porta do busão se abriu, nos despedimos do José com um abraço. Pulamos para a fora do ônibus, com uma buzinada o José se despediu pela última vez. Foto 8.5 - Eu, Matheus e o José O tempo com o José foi curto, não mais que uma hora e meia, mas foi daqueles momentos que depois que passam você diz "Mano, que cara gente boa da porra!". Não bastou ele dar uma carona pra gente, ele desviou o caminho para conhecermos o Titanossauro, depois foi até a saída da cidade para facilitar a nossa vida. Tenho quase certeza que ele chegou atrasado para buscar os funcionários da Aluar. Sabendo disso as atitudes dele se tornam muito mais especiais para mim. O objetivo agora era conseguir uma carona para a próxima cidade que era Comodoro Rivadavia, distante a 400km de Trelew. Começamos pelo começo e fomos conversar com os caminhoneiros que estavam estacionados no posto. Algumas boas conversas surgiram disso, mas nenhum êxito em relação a carona. Fomos para a saída do posto e ali começamos o revezamento de dedões erguidos. Meia hora cada um a beira pista. Só tinha nós pedindo carona. A rodovia estava meio deserta. Os poucos carros que passavam, paravam logo adiante num campeonato de futebol infantil que estava tendo naquela tarde. Eu tinha certeza que um carro vermelho nos daria carona naquele dia e repetia isso toda hora. Foto 8.6 - As mochilas na saída do posto da Axion em Trelew Nessa tarde começamos elaborar algumas teorias sobre as caronas para passar o tempo na beira da estrada. A primeira delas é que toda pessoa que não pode mesmo dar carona faz questão de expor isso de alguma forma, acho que isso alivia um pouco a consciência. Tipo uma pessoa com carro cheio faz o gesto com a mão que está cheio ou uma pessoa que vai parar logo adiante indica com o dedo que vai parar logo ali. Ninguém tem obrigação de parar o carro, mas ver pessoas precisando de ajuda e saber que não pode mesmo ajudar deve fazer bem para o ego, mesmo não tendo a intenção de ajudar se pudesse. Já as pessoas que realmente poderiam dar carona e não tem a intenção de dar evitam olhar para os pedintes de beira de pista. A segunda teoria boba que elaboramos é que caminhonetes nunca param para caroneiros. Depois fizemos uma lista de tipo de carros que eram mais propícios a parar, mas para mim, desde a Península Valdés, que eu tinha certeza que algum carro vermelho nos salvaria. Elaborar essas bobeiras e conversar sobre elas faziam a longa espera ser mais leve na quente Trelew. As horas passavam. O dia era muito quente, quem não estava pedindo carona ficava dentro do posto se escondendo do sol e tentando a abordagem direta. Esse dia era o dia da final entre River x Boca em Madrid. O posto começou a se encher de torcedores dos dois times. Pensei por um momento abortar a tentativa de carona, por um tempinho, para ver o jogo, mas decidimos melhor continuar. De vez em quando eu ia espiar o placar. Na hora do jogo a deserta pista ficou mais deserta ainda. Raramente, passava alguém pela Ruta 3. No máximo algumas pessoas correndo ou pedalando. Aliás, toda pessoa que passava por nós dizia "Suerte", era bem bom ouvir isso. Todo carro que erguíamos o dedão, ao saber que o carro não pararia, cumprimentávamos o motorista com um sinal de mão. Essa era outra forma de deixar mais leve as horas pedindo carona. Já estávamos torrados de sol. Nesse dia não desanimamos por nenhum momento, mesmo com fome. Já era quase sete horas da noite, resolvemos sair dali, mas não sabíamos se iriamos armar acampamento no posto ou caminhar pela cidade ou tentar seguir de ônibus. Decidimos colocar nossas mochilas e fazer qualquer coisa diferente, pois ali já nenhum carro passava mais. Estávamos tranquilos, tínhamos tentado por todo o dia seguir de carona. Apenas não tinha rolado. Coloquei a mochila nas costas. Quando comecei andar, surgiu um carro vermelho na minha frente. Por que não tentar? Ergui o dedo pela última vez naquele dia. O carro parou. Corri até o motorista, ele perguntou "Vas a Comodoro Rivadavia?" e eu sem acreditar disse "Si, si, si". Incrédulos e meio estabanados tentávamos colocar nossas coisas no carro, o senhor achando graça da situação disse "Calma, calma, no me voy sin los dos". E assim, o carro vermelho (leia-se anjo vermelho) da minha premonição veio nos salvar naquele dia. Não consigo traduzir a alegria daquele momento. Como aconteceu na Península Valdés, novamente éramos salvos no último instante possível. Parecia até uma pegadinha do além ou uma provação qualquer. Nos últimos dias tinha enchido tanto o saco do Matheus com a história do carro vermelho e agora ver nós dois em movimento dentro de um carro vermelho era no mínimo curioso. Não tinha sonhado e nem tido visão nenhuma, comecei a falar do carro vermelho sem pretensão alguma. Acho que era uma forma de manter a esperança da carona viva. Assim, ficava sempre a espera do carro vermelho. A espera tinha acabado e fiquei meio abobado com a força do pensamento. Sentei no banco da frente, o Matheus ficou na parte de trás. O motorista logo se apresentou como Juan Carlos, e começou perguntando se estávamos a muito tempo ali esperando, eu disse que fazia quase oito horas que estávamos ali na beira da pista. Ele disse que escolhemos um dia ruim, que domingo era difícil mesmo. Ele estava voltando de uma visita a um amigo. A conversa seguiu ou melhor a partir dali começou o monólogo do Juan. Foto 8.7 - Juan e Eu Falar deste trecho é meio complicado para mim, pois é complexo demais falar dessa carona, em especifico do Juan Carlos. Toda vez que me recordo desses momentos junto do Juan vivo um dilema. Sou muito grato a tudo o que ele fez por mim e pro Matheus, mas ao mesmo tempo não consigo gostar dele. Me sinto mal por falar isso, pois dá a impressão de ingratidão da minha parte. Pelo contrário, como disse sou grato demais ao Juan, mas ficar na sua companhia por quase cinco horas foi das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Juan é soldador subaquático, dono de uma vinícola em Mendoza, ex militar que lutou na Guerra das Malvinas e se dizia um caçador de mão cheia, sempre repetia "Não morro de fome em lugar nenhum, aqui mesmo se eu for caminhado por qualquer canto, horas depois te trago comida". As falas do Juan se estendiam por muitos minutos, no início ele nem percebeu que eramos estrangeiros, assim falava num espanhol rápido e de difícil compreensão. Ele não pausava entre um raciocínio e outro, emendava tudo e não dava espaço para nós falarmos. Creio que ele tinha uma necessidade de mostrar quem era o Juan e qual era sua visão de mundo antes de tudo. No início era interessante isso, mas passado uma hora minha cabeça estava para explodir. O Matheus estava tranquilo atrás, mas eu tinha estar ali atento nas frases que eram ditas rapidamente e a todo momento. Manter a atenção exigiu muito mentalmente de minha pessoa. O pior foi quando eu comecei a compreender com mais clareza seu espanhol atropelado e consegui entender sua visão turva de mundo. Bom, vou me abster de tentar reproduzir suas falas intermináveis que eram carregadas de muito preconceito e tentar resumir mais ou menos o Juan. Pra começar digo que ele é um cara com uma visão simplista de tudo e um tanto contraditório. O maniqueísmo é forte em seu pensar, então tudo é dividido entre bem e mal, não existe meio termo pra ele. Assim, ele divide as pessoas em úteis e inúteis. Repetia quase sempre que o problema da Argentina era que a maioria da população era composta de inúteis. Ele enchia o peito para se dizer nacionalista, mas ao mesmo tempo só denegria a imagem de seu país para nós, o famoso complexo de vira-lata. Ele contou a sua versão da higienização social que ocorreu na Coréia do Sul, onde fizeram uma limpa nos corruptos e bandidos antes de reconstruir o país. Emendou com a seguinte frase "Agora no Brasil vai acontecer o mesmo, vocês escolherem um bom presidente.". Era a primeira vez que topávamos com algum argentino que era favorável a decisão tomada no Brasil. Falava com saudosismo da ditadura militar argentina e da Guerra das Malvinas. Porém, pediu baixa do exército, assim que acabou a guerra. Perdeu muitos amigos ali no campo de batalha. Pelo que eu entendi, ele foi totalmente contrário de a maior parte do soldados argentinos que foram para a guerra serem do norte do país e em sua maioria garotos. Na Guerra das Malvinas, a maior parte dos soldados não estava acostumado com o frio patagônico. Assim, frio, vento e fome mataram mais soldados argentinos que as armas inglesas, importante frisar que o exército nem cedia roupas adequadas a esses soldados. Enfim, os fazedores da guerra (os engravatados) não estavam nas trincheiras e quem morria era a população pobre do norte do país. Esse tipo de pensamento do Juan que me deixava confuso. Ele era favorável do extermínio de parte da população para "reconstruir" um "país melhor", mas logo depois se solidarizava com os pobres coitados que foram jogados em uma guerra para defender um país que nunca deu bola para eles. Se solidarizou a ponto de largar o exército. Eu me considero um sujeito meio contraditório, mas ao conhecer o Juan passei parar de achar isso de mim mesmo. Lembro que, em algum momento, tentei desviar o assunto para algo mais leve, disse uma frase do tipo "A mulherada aqui na Argentina é show de bola né?". Antes mesmo de eu terminar a frase ele já emendou "Algumas até que são bonitas, mas são tudo burra. Não dá pra conversar com mulher na Argentina.". Logo ele fez uma mea culpa e disse "No Brasil é diferente né? As mulheres são mais inteligentes, não são umas portas como aqui.". Dei um sorriso amarelo nesse momento. Ele continuou com sua linha de raciocínio, dizendo: "Só dei caronas para vocês porque são homens, se fossem mulheres não daria não. Com homem da pra ir conversando a viagem toda, assim como nós estamos conversando. Se fosse mulher não dava pra conversar não". Imaginei comigo, devo ter dito umas dez palavras ao todo até agora (risos). A misoginia era evidente nele. Pensei em abrir a porta do carro e me jogar diversas vezes. Na verdade eu só pensava nisso em determinado momento. Eu ficava olhando a velocidade do carro e tentava calcular o quão machucado sairia daquela queda. Depois de mais de duas horas e meia de viagem, paramos em um posto. Aproveitei para dar uma mijada. Depois fui na loja de conveniência para ver qual tinha sido o desfecho do jogo. River campeão. Eu e o Matheus fomos sentar numa mesa do lado de fora. Logo depois o Juan chegou com uns pacotes de bolacha e uns lanches para nós comermos. Juan estava feliz com o resultado do jogo. Pela primeira vez comemos a bolacha Macucas, que depois seria nossa companheira diária. Nessa hora a conversa foi bem mais agradável e menos unilateral. O Juan se propôs a ouvir um pouco. Até então ele não tinha tido a curiosidade em saber sobre nossas vidas, de onde viemos ou mesmo o que fazíamos. Nessa hora ele perguntou sobre tudo, falamos quem era Diego e Matheus. Depois quis chutar quantos anos tínhamos. Ele me deu 19 anos (risos). Falou da sua cirurgia que tinha feito pouco tempo antes e que os médicos desacreditavam que ele sobreviveria. Mostrou a cicatriz gigantesca nas costas que é a marca que ele carrega da operação. Falou da sua filha com bastante orgulho, ela faz mestrado em Mendoza. Disse que estava feliz que sua mulher pela primeira vez, depois de mais de trinta anos de casados, foi acompanha-lo numa pescaria. Parecia que o cara que estava ali não era o mesmo que estava dirigindo o carro minutos antes. Ele ainda foi comprar água quente para preparar um mate. Fizemos uma roda de mate e conversamos um pouco mais. Eu fiquei preocupado que ele nos associa-se na sua divisão de mundo com os inúteis e nos deixasse ali. Pelo contrário, agora ele parecia mais um pai cheio de conselhos e entendia a nossa necessidade de viajar mesmo que com pouco dinheiro. Confesso que essa parada no posto foi muito agradável. Voltamos a pista e o Juan voltou a ser o que era. Voltou com suas filosofias erradas de vida (isso no meu entender). Não consegui não associar ele com aquele episódio do Pateta que se transforma ao entrar no carro. Pateta é todo tranquilão e respeitoso, mas quando entra no carro vira um nervosão, briguento e mal educado. Sei que pode ser inocência minha, mas pode até ser que o Juan queria passar uma imagem de machão incorrigível, apesar de não acreditar muito nisso. A viagem prosseguiu. O legal do trecho Trelew/Comodoro Rivadavia é que ele é um pouco diferente de todo o resto da Ruta 3. Por este trecho tem algumas curvas sinuosas, no caminho é possível se avistar cânions e tem muitas elevações na rodovia. A natureza é muito bonita em volta também, é possível avistar um montão de guanacos e alguns zorros pelo caminho. O Juan era bom em avistar zorros, mesmo os bichinhos estando longe ele conseguia identifica-los. Já os guanacos ficam em bandos a beira da pista, e com isso tem muitas acidentes, creio que vi uns três guanacos atropelados neste trecho. Foto 8.8 - O caminho até Comodoro Rivadavia Foto 8.9 - Mais um pouco do caminho Cada vez que descíamos mais pela Argentina o sol se punha mais tarde. Em Claromecó o sol se escondia um pouco depois das nove da noite. Em Puerto Madryn e Trelew isso acontecia quase as dez da noite. Agora indo para Comodoro Rivadavia já tinha passado das dez da noite e ainda o céu estava claro. A viagem continuava. Eu tinha muito sono, não conseguia mais dar muita atenção ao Juan. Ouvimos rádio por um tempo. Escureceu. A viagem prosseguia. Juan continuava com suas afirmações erradas sobre tudo. Eu só queria chegar, a cabeça estava a ponto de explodir. Quando chegamos em Comodoro Rivadavia o Juan disse que era de uma cidade chamada Caleta Olivia, uns 70 km mais ao sul. Deixou a opção de nos deixar ali em Comodoro ou em Caleta Olivia. Preferimos ficar em Comodoro. Ele foi bastante bacana em nos deixar em um posto mais seguro possível para acamparmos. Paramos num posto da Petrobras, já era madrugada. Entramos na loja de conveniência e o Juan pegou um café pra ele. O Juan voltou a ser aquele cara bacana da outra parada. Conversou sem pretensão de impor seus pensamentos. Foi gentil ao passar seu telefone caso tivéssemos problemas no decorrer da viagem. Ainda quis pagar uma janta para nós, mas recusamos, pois ele já havia feito muito por nós. Deu a impressão que ele não queria ir embora, queria ficar ali conversando conosco. Não sei ao certo, mas acho que ele estava bastante carente de conversas e de amigos. Nos despedimos do Juan com alguns abraços. Antes de partir ele ainda tomou outro café. Depois fomos montar a barraca para dormir atrás do posto. O vento que estava naquela noite, naquela cidade era surreal de tão forte. Comecei a montar a barraca, mas não tinha como, a chance dela voar para longe era muito maior de eu ter sucesso na montagem. Depois de algum tempo conseguimos montar a barraca. Eu estava capotado, só queria dormir. Usei o banheiro da loja de conveniência e em seguida capotei na barraca. Foto 8.10 - Eu, Juan e o Matheus Agora aqui em casa, relembro toda a trajetória com o Juan e não sei o que achar dele. A sua visão de mundo é totalmente contrária da minha. Me chateou bastante ficar ao lado dele ouvindo um monte de baboseiras e não poder falar nada, uma porque ele não dava espaço pra eu falar e outra porque tinha receio de falar algo que ele não gostasse e perder aquela carona que tanto precisávamos. Me senti um merda por isso. Por outro lado, me senti injusto em certos momentos em não aceitá-lo e ver nele um cara carente que queria falar, conversar e ter contato com outras pessoas. Ele sentia muita necessidade em falar. Também tem que ele conosco foi muito bom mesmo. Foi a única pessoa que confiou na gente e parou seu carro. Percebeu que não tínhamos comido, não hesitou em compartilhar sua comida. Também se preocupou com nossa segurança passando por diversos postos, analisando qual seria o mais seguro para nós pernoitarmos. Sei lá, é tudo muito confuso para mim. Me pego muitas vezes pensando nesse trecho da viagem. O anjo do carro vermelho não tinha nada de anjo, na verdade esse carro vermelho tornou-se uma pegadinha ou qualquer coisa do tipo, pois foi a parte de maior complexidade da viagem. Mas e ai? O que pensar quando uma pessoa com ideias esquisitíssimas te ajuda a ponto de você questionar a si próprio? De qualquer forma, sou muito grato ao Juan e a sua carona salvadora. Acordamos assim que o sol nasceu. Desfiz a barraca, mas foi muito difícil dobra-la, o vento era intenso. Usei o banheiro do posto para me limpar um pouco e escovar os dentes. Fomos pedir água para fazer o mate e percebemos que tínhamos perdido nossa bomba. A atendente nos deu água quente, ainda nos presenteou com uma bomba novinha. Foi bem legal isso. Tomamos o mate e comemos um último pacote de bolacha que tínhamos. Seguimos caminhando para a saída da cidade. A caminhada durou mais ou menos uma hora até um bom ponto para pedir carona na Ruta 3. Paramos e começamos a pedir carona. Enquanto, um pedia carona o outro tentava se proteger das rajadas de areia que o vento não cansava de criar. Passamos horas e horas ali. Nada de caronas. Ficar ali era uma prova de resistência, ainda mais com fome. Tentamos e tentamos. No meio da tarde eu já não estava mais aguentado aquele misto de calor insuportável, ventos fortíssimos junto com terra e areia. Minha cara estava áspera de tanta terra que tinha grudada nela. Matheus estava só o pó também. O dia anterior tinha sido pesado fisicamente e mentalmente. Então, resolvemos ir para rodoviária e seguir aquele trecho de ônibus. Foto 8.11 - Caminhando até um ponto bom para pedir carona em Comodoro Rivadavia Foto 8.12 - Ruta 3 Foto 8.13 - Enfim, um ponto que todos os carros seguiriam para o sul e passavam devagarinho Foto 8.14 - Revezamento, vez do Matheus pedir carona Foto 8.15 - Revezamento, minha vez Chegamos na rodoviária, compramos passagens para Rio Gallegos, o ônibus só sairia pela madrugada. Fomos caminhar pela cidade. Comemos um choripan na rua. Nesse dia quase morri de lombriga. No lugar em que comemos o choripan, tinha um lanche que eles chamam de lomito que tava bonito demais, mas era muito caro. Olhei as pessoas comendo o lomito e fiquei com muita lombriga de comer aquilo, mas me segurei e comi o choripan que era infinitamente mais barato. Depois achamos uma sombra na orla de uma praia, ficamos o resto do dia por ali. Foi bem gostosa essa tarde, fazia tempo que não ficávamos debaixo de uma sombra só descansando, pois os últimos dias tínhamos sido torrados pelo sol nas rodovias. Depois fomos no mercado, vimos a bolacha Macucas que o Juan havia dado para nós. Um pacote de bolacha na Argentina gira em torno de 3 e 4 reais, mas a Macucas era menos de um real e mais gostosa. Compramos um monte de pacotes de Macucas para o restante da viagem. Foto 8.16 - Centro de Comodoro Rivadavia Foto 8.17 - A avenida Foto 8.18 - A orla da cidade Foto 8.19 - O outro lado da orla Voltamos para rodoviária e conhecemos o caroneiro Sergio. Ele é argentino da cidade de Corrientes e estava trabalhando de garçom por todas as cidades que passava. Agora iria pra Puerto Madryn de ônibus, depois seguiria de carona até Corrientes, tinha esperança de chegar antes do Natal para passar com a família. O que me chamou atenção do Sergio foi que ele tava viajando de carona com mais dois brasileiros. Eram três. Eu já achava difícil viajar de carona em dois. Imagine eles em três. Os dois brasileiros tinham acabado de seguir pro Brasil. Sergio tava sem comida, demos uns pacotes de bolacha Macucas para ele e subimos no ônibus. Comodoro Rivadavia foi a única cidade da qual eu não gostei nessa viagem. O vento é muito forte, do tipo que quando eu estava andando e ao erguer o pé de apoio para caminhar, senti como se fosse um chute na perna, virei xingando o Matheus "Porra, por que tá me chutando?", vi que ele estava a uns vinte metros de distância. O vento havia me "chutado". A cidade é toda envolta de areia e terra. A mistura de terra e vento é terrível, a cada cinco minutos tirava uma bolota de areia da minha orelha. O ambiente na cidade é bem esquisito também, não sei se é por causa de ser uma cidade petroleira. Entretanto, das cidades da Patagônia, Comodoro Rivadavia é o único lugar que eu não me senti cem por cento seguro. José e Juan Carlos, duas caronas e duas pessoas completamente diferentes. O José me identifiquei com ele mesmo antes dele começar a falar, o Juan até hoje não sei o que sentir por ele. Uma viagem foi rápida, tranquila e leve, a outra foi longa, demorada e pesada. Enquanto um era só sorrisos, o outro não sorria nunca. Duas caronas distintas, mas as duas tiveram a mesma importância e nos deixaram mais próximos do final do mundo. Enfim, o resumo da estrada é isso: você nunca vai saber quem irá abrir a próxima porta. Assim, algumas experiências vão ser bem legais, outras nem tanto. No fim, tudo é aprendizado.
  15. 1 ponto
    Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn "A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa." O Outro Pé da Sereia, Mia Couto Fomos para a saída do posto da YPF em Tres Arroyos na Ruta 3. Ficamos com o dedão erguido por pouco mais de uma hora. Até que escutamos alguém gritando, olhamos para trás e tinha um carro parado, uma moça quase saindo pela janela fazia sinal para irmos com eles. Pegamos nossas coisas e saímos correndo rapidamente com medo que o carro partisse sem nós. Entramos no carro e conhecemos o German e a Micaela, pai e filha. O Matheus logo se ofereceu para preparar o mate. Olhei do lado e ele tinha derrubado um monte de erva no carro, era a primeira vez que preparava mate numa carona. Depois que a cuia passeou por todos nós e recebemos a aprovação do mate, a conversa começou. Foto 7.1 - Mochilas em Tres Arroyos Os dois estavam indo pra Bahia Blanca, a Micaela tinha acabado de se formar em bioquímica e estava indo buscar seu diploma. Mal começou a conversa e a pergunta já veio "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Demos risada, afinal todo mundo perguntava isso. A conversa prosseguiu e descobrimos que o German é educador físico. Ele faz todo tipo de esportes e é torcedor do River Plate. O assunto girou em torno de futebol por um tempo. A Mica é torcedora do San Lorenzo. Depois falamos o que fazíamos da vida e explicamos a nossa viagem, German ficou bastante curioso com a inteligência artificial. A Micaela nos contou sobre a sua viagem caronando pela Patagônia antes de entrar na faculdade. Falaram dos planos de conhecer o Brasil, em especifico Balneário Camboriú (Balneário faz muito sucesso na Argentina). German gosta de subir montanhas e no final de ano ia subir um vulcão perto da divisa com o Chile. Foto 7.2 - German, Matheus, Micaela e Eu O German sempre buzinava quando passava na frente de uma mini estátua cercada de aparatos e bandeiras vermelhas na estrada. Como a curiosidade é grande perguntei o porquê daquilo. Ele contou que a estátua se referia ao Gauchito Gil, esse gaúcho é tipo um santo protetor (ou companheiro) de quem está dirigindo na estrada. A adoração é visível, em todos os lugares a beira pista tem esses santuários e todos os motoristas buzinam ao ver a imagem de Gauchito Gil na estrada. Foto 7.3 - Gauchito Gil (Foto tirada em Rio Gallegos, coloquei aqui só pra ilustrar) Depois de quase três horas de viagem e de boas conversas, chegamos em Bahia Blanca. A Micaela desceu do carro para ir em busca do seu diploma. Só deu tempo de falar tchau. Nós seguimos com o German que foi mais avante na cidade para facilitar nossa vida. Demos um abraço bem forte no German e o Matheus presenteou-o com duas fitinhas do Senhor do Bonfim. Nos despedimos do German e seguimos caminhando até a Ruta 3 novamente. Caminhamos por mais de uma hora para chegar numa bifurcação que diziam que era o melhor caminho para pedir carona. Era um ótimo lugar, pois tem um posto da Axion gigante e tinha centenas de caminhões parados ali. Tinha certeza que seria fácil prosseguir dali. A ideia era seguir adiante, não importava qual cidade iríamos ser deixados, desde que fosse caminho para o sul. Assim, fomos primeiro conversar com os caminhoneiros parados. Recebemos um monte de não. Uns diziam que o caminhão era rastreado. Outros diziam que iam no sentido contrário, mas minutos depois seguiam rumo ao sul. As conversas só renderam com os caminhoneiros que realmente seguiriam sentido Buenos Aires. Fizemos amizade com um caminhoneiro que a mulher dele é brasileira. Depois fomos para a pista, havia umas três pessoas que também tentavam seguir pro sul. Ficamos um pouco ali, mas como fizemos fila a nossa chance era pequena. Voltamos para o posto e tentamos a abordagem direta novamente. O curioso que tinha um caminhoneiro maratonista no posto, ele saiu do caminhão de shortinho e tênis de corrida e ficava correndo em círculos no posto. Não entendi bem porque ele andava em círculos, ele poderia seguir pela pista e depois voltar, mas ele rodava como dentro de um autorama. Era engraçada essa cena. Continuamos com as abordagens e não obtivemos sucesso. Logo começou uma chuva bem forte, o que nos forçou a continuar por ali dentro do posto. A chuva prosseguiu por toda a tarde. Já era quase noite e resolvemos desistir das caronas e prosseguir de ônibus. Nesse ponto é importante fazer algumas reflexões. Eu acredito muito em energia, dessas que você sente ao estar do lado de uma pessoa. Quando fomos para a pista pedir carona, tinha um cara lá pedindo carona também. Conversei um pouco com ele e senti que ele transmitia uma energia muito ruim. Não quis ficar perto dele e por isso abortamos pedir carona na pista, pois ele meio que seguia a gente. Quando a chuva veio com força ele se abrigou dentro do posto também, mais uma vez conversei com ele e dessa vez me senti pior ainda ao lado dele. O Matheus disse que sentiu o mesmo. Não gosto de fazer diferença com ninguém, mas aquele cara me passava algo muito ruim. Eu e o Matheus tínhamos combinado que dormiríamos ali mesmo no posto naquele dia. Tinha um monte de caroneiro ali, ninguém conseguiu sucesso naquela tarde e já estava pra escurecer. Assim, as chances de prosseguir com carona eram mínimas. Não quis dormir no mesmo lugar que aquele cara e decidimos ir para rodoviária e seguir de ônibus noturno para Puerto Madryn. O pouco de dinheiro que tínhamos nos tornou conservadores naquele momento. Esse nosso conservadorismo fez ficarmos frustados no caminho até a rodoviária. Talvez tenha sido a maior frustração da viagem, pois sabíamos que dali uma hora a carona ia surgir. Era questão de tempo apenas. Mas nessa hora resolvemos deixar a racionalidade de lado e ouvir o coração. Coração que dizia pra sairmos correndo dali. Chegamos na rodoviária e tivemos sorte, pois compramos a passagem para Puerto Madryn com outro super desconto. Depois fui no mercado comprar uns pães para comermos de janta. Voltei e sentamos para comer num lugar isolado da rodoviária. Uns cachorros gigantes vieram conosco. Dava uma dó comer em volta dos pidões. Cada mordida que eu dava eles avançavam um pouco mais em minha direção. Pareciam esfomeados. Então, joguei pão para eles, mas se mostraram frescos por não ter quase recheio e não comeram (risos). Foto 7.4 - Dois dos famintos Foto 7.5 - Moço dá um pedaço O ônibus chegou já era quase uma hora da manhã. Subimos no ônibus e segundos depois de me sentar na poltrona já estava dormindo. Acordei era noite ainda. Olhei o céu pela janela e o céu estava estrelado demais. Que maravilha. Paramos em Viedma para mais passageiros entrar. Agora oficialmente estávamos na Patagônia. A viagem prosseguiu. Depois de passarmos por Las Grutas o dia já se anunciava. O busão acelerava e agora só ia no sentido sul. Pela janela via guanacos correndo pela paisagem. Eram muitos guanacos. No meio da manhã o ônibus estacionou na rodoviária de Puerto Madryn. Enfim, pisei com meus próprios pés na tão esperada Patagônia. Foto 7.6 - A Ruta 3 pela janela frontal do ônibus A Argentina é um país dividido em vinte e três províncias (semelhante aos estados brasileiros) e mais a cidade autônoma de Buenos Aires. Cinco dessas províncias estão localizadas na Patagônia e são elas: Rio Negro, Néuquen, Chubut, Santa Cruz, Tierra del Fuego. O território patagônico corresponde a metade do território argentino. Quando passamos por Viedma e Las Grutas cortávamos a província de Rio Negro, ao cruzar para Puerto Madryn ingressamos na província de Chubut. A Patagônia tem esse nome por causa do Fernão de Magalhães. Como se sabe Fernão de Magalhães foi o homem que planejou circum-navegar o globo terrestre. Essa viagem foi a primeira circum-navegação da história da humanidade. Porém, Fernão morreu antes de terminar essa façanha, faleceu nas Filipinas. Entretanto, foi o primeiro homem a navegar pela Patagônia e posteriormente pelo Estreito de Magalhães. Quando atracou na Patagônia (ainda não tinha esse nome a região) pela primeira vez, avistou os ameríndios da região e pensou que fossem gigantes (pois a média européia naquela época era de 155 cm e os ameríndios da patagônia mediam mais de 180 cm). Ao escrever essa experiência para a coroa espanhola, descreveu aqueles seres como patagão, ou seja, aqueles que tem pés grandes. E assim, foi que a região foi batizada como Patagônia, a terra dos gigantes ou a terra do pé grande. A rodoviária de Puerto Madryn é muito bonita e organizada. Estava um calor do cão. Ficamos sentados um pouco nos bancos, planejando os próximos passos. Precisávamos de internet e o wifi da rodoviária estava fora do ar. Caminhamos até o shopping. Antes caminhamos pela orla da cidade. Que mar maravilhoso, uma das colorações mais bonitas que já vi. Chegamos no shopping e conseguimos acessar a internet e mandar mensagem para o Carlos avisando que havíamos chegado. O Carlos estava pelo centro e falou que já passava pra nos buscar. Cinco minutos depois ele parou com o carro na frente do shopping. Entramos no carro e logo começamos a conversar. Ele nos levou para o mirante da cidade, bem bonito por sinal. Depois nos levou para a casa dele. Ele teria que trabalhar pela tarde. Foto 7.7 - O mirante Foto 7.8 - As bandeiras Encontramos o Carlos pelo couchsurfing, fazia alguns dias que estávamos em contato com ele. Não sabíamos o dia exato que iriamos chegar, mas por sermos brasileiros ele sempre foi muito solicito. Não tínhamos 3g no celular, então depois que saímos de Claromecó não conseguimos mais falar com o Carlos. Ele sabia que podíamos chegar a qualquer momento. Nisso ele hospedou uma francesa sob a condição se nós chegássemos ela teria que procurar outro lugar pra ficar. Só fui saber disso depois. A francesa partiu para um hostel e nós chegamos. Ao menos ela ficou na casa do Carlos por alguns dias. Carlos é professor de inglês do ensino público. Ele é um cara que já morou em tudo que é lugar da Argentina, desde do extremo sul da argentina (Ushuaia) até o norte, na realidade ele é do norte argentino. Ele é o cara mais apaixonado pelo Brasil que já conheci. Os programas televisivos que assiste são brasileiros, as músicas que ouve são brasileiras, as comidas que mais gosta são do Brasil. Ele fala muito bem português e o motivo principal de ter nos aceitado em sua casa era pra treinar o seu português. Pela tarde fomos caminhar pela orla. Levamos nossa térmica e ficamos boa parte da tarde mateando a beira mar. Depois fomos até o cais, onde os cruzeiros atracam. Tava rolando um protesto com algum desses navios, mas eu não entendi o porquê do protesto, queria ter compreendido aquela situação. Depois fomos até o Museu Oceanográfico. O museu é todo organizadinho e cheio de boas informações da rica fauna marítima de Puerto Madryn. A cidade é o principal ponto de estudo da baleia franca no mundo, pois nessa região é onde ocorre o acasalamento desses mamíferos, em consequência disso a baleia franca é o grande símbolo da região. Uma coisa que me chamou atenção nesse museu é que dizia que o aumento de lixo, aumentou o número de gaivotas cocineras por ali e com o aumento dessas gaivotas começou a diminuir o número de baleias francas. Fiquei uns minutos tentando adivinhar o porquê disso. Não achava uma relação entre gaivotas e baleias. Desisti de encontrar as resposta por mim mesmo e li a explicação. O motivo era que as gaivotas atacavam as baleias causando ferimentos que infeccionam e levam essas baleias ao óbito. Nunca iria imaginar isso. Diziam que quando era poucas as gaivotas elas bicavam as baleias mortas somente, para retirar algum nutriente, mas com o excesso da população de gaivotas elas começaram a atacar as vivas também. Achei bizarra essa situação, nem na minha imaginação fértil iria supor que uma população de gaivotas colocaria em risco a sobrevivência das baleais franca na Terra. Foto 7.9 - O lado B de Puerto Madryn Foto 7.10 - A orla de Puerto Madryn Foto 7.11 - Eu e o mar Foto 7.12 - A visão do cais Depois fomos olhar os preços dos rolês mais famosos de Puerto Madryn. Tudo caro demais. Acho que o lugar mais caro da Patagônia. Os dois passeios mais famosos são Península Valdés e Punta Tombo. Peninsula Valdés é uma reserva ambiental onde a fauna é riquíssima e concentra todo os tipos de animais da região, além de ser o principal ponto de observação das baleias francas. Punta Tombo é um local que abriga uma gigantesca colônia de Pinguins de Magalhães, onde vivem mais de um milhão de pinguins em determinada época. Por agências não havia chance de nós conhecermos nenhum dos dois lugares. O interessante de Puerto Madryn é que tem bandeiras do País de Gales por todo o canto da cidade. A cidade foi colonizada e fundada por galeses, assim como as cidades vizinhas Trelew e Rawson. Voltamos para a casa do Carlos já era noite. Carlos apresentou sua playlist de música só com músicas brasileiras. Tocou desde É o Tchan até IZA. Ele prefere as músicas mais animadas. Ivete Sangalo quase sempre aparecia na lista. Enquanto a música rolava, eu e o Matheus começamos a preparar a lentilha para a janta. Carlos ficava meio tímido em falar português, mesmo sabendo a palavra que usar ele nos perguntava antes para ver se tava certo. Sempre tava certo. Ele conhece gírias que nem eu conheço. A lentilha ficou pronta. Carlos comeu conosco e elogiou bastante a comida. E tava muito boa mesmo. Comemos muito nessa noite. Depois falamos com o Carlos sobre os altos preços das agências. Ele nos aconselhou a tentar a sorte por carona. Decidimos ir até a entrada da Península Valdés no dia seguinte e ficar ali esperando uma carona. A península é gigantesca e só tem como fazer de carro, pois de um ponto para outro tem mais de cem quilômetros. Para chegar na Península Valdés é necessário ir até Puerto Pyramides uma cidadela distante cem quilômetros de Puerto Madryn. Ainda era noite quando caminhamos rumo a rodoviária. Seis horas da manhã e já estávamos partindo para Puerto Pyramides. Dormi boa parte do trajeto. Uma hora o guarda me acordou para eu pagar o valor da entrada, por estar adentrando numa reserva ambiental. Seguimos até o ponto final em Puerto Pyramides. Caminhamos até a orla e água tinha uma cor lindíssima. Conseguia ser mais bonita que de Puerto Madryn. Depois ficamos sabendo que teríamos que voltar muitos quilômetros para a bifurcação que leva na Península Valdés. Caminhamos de volta. O sol estava muito quente. Não havia nuvens no céu. Continuamos a caminhada. Erguíamos o dedão da esperança pra quem passava de carro. Depois de caminhar por mais de meia hora a Luciana parou seu carro. Ela achava que estávamos indo para Puerto Madryn, explicamos que queria irmos pra entrada da península. Ela é muito simpática. Depois de alguns minutos nos deixou na bifurcação. Despedimos-nos da Luciana e fomos tentar a sorte ali, na esperança que alguém se solidarizasse conosco e assim, teríamos a oportunidade de conhecer a Península Valdés. Foto 7.13 - O início do dia em Puerto Pyramides Foto 7.14 - Caminhando no sentido contrário de Puerto Pyramides Ficamos postados na frente da placa que indica o início da península. O calor estava insuportável, mas o vento estava muito forte. Assim, não dava para tirar o corta vento. Os carros que passavam por ali eram poucos. Alguns carros até paravam para conversar, mas nada de sucesso. O misto de calor e vento tava infernal. Para amenizar a espera, ficávamos imaginando qual seria o carro que pararia para nós. Eu tinha certeza que seria um carro vermelho. Todo carro vermelho que passava eu ia com mais gana pedir carona, mas nada. Com o tempo aquela famosa frase "O não você já tem, só falta a humilhação" fez valer. Tentávamos de todas as formas (nem todas, risos) chamar a atenção dos motoristas para conseguir uma carona. Foto 7.15 - A cara da derrota O passeio na península é demorado, precisa de no mínimo umas seis horas. Já era quase meio dia e o fluxo de carros ali já não existia mais. Decidimos ir pra orla Puerto Pyramides e aproveitar o resto do dia na praia. Quando estávamos saindo avistamos um motorhome vindo em nossa direção. Tentamos uma última vez. Para nossa surpresa eles pararam. Antes de falarmos algo, o motorista perguntou se queríamos seguir com eles. Não me contive de felicidade naquele momento. Agora pela primeira vez viajaria em um motorhome. Foto 7.16 - A serenidade no olhar de quem viajaria de motorhome pela primeira vez O casal dono do motorhome é o Facu e a Cynthia. Facu é argentino e a Cynthia alemã, se conheceram em Santigado do Chile enquanto a Cynthia tirava seu tempo sabático e viajava o mundo, e Facu trabalhava por lá. Depois disso ela voltou algumas vezes para Argentina para rever o Facu. Quando o dinheiro acabou foi a vez do Facu ir pra Alemanha ver a Cynthia. Depois disso nunca mais se separaram. Eles já viveram em diversos países por quase todos os continentes. A forma deles viajar é trabalhar por um tempo, ajuntar dinheiro e depois viver outro tempo viajando. Agora estavam iniciando uma viagem de motorhome (recém comprado) que sairiam da Patagônia e terminaria na Península de Yucatán, no México. Tem um terceiro integrante nessa casa ambulante, é o Chihuahua Seymour. Eu e o Matheus estávamos animados de estar ali. Facu e Cynthia são gente boa demais. O Facu estava dirigindo bem devagarinho, pois era a primeira vez que o motorhome era posto num terreno daquele. Assim, fomos devagarinho e conversando. O cenário em volta pouco mudava. Vegetação rasteira por todos os lados. De vez em quando avistávamos alguns guanacos no caminho. Quando isso acontecia a Cynthia ficava toda animada. Depois paramos, pois o Facu queria testar seu drone. Acho que não pode drone ali, mas mesmo assim o Facu ergueu voo. Foto 7.17 - Facu e Cynthia Foto 7.18 - O caminho Foto 7.19 - O olhar, do gente boa, do Seymour Foto 7.20 - Eu fazendo amizade com o Seymour e a Cynthia Foto 7.21 - Facu levantando voo Foto 7.22 - A foto aérea Foto 7.23 - Matheus e o motorhome Foto 7.24 - Hahahaha Foto 7.25 - Viagem que segue A viagem continuou. Lembro de uma cena bacana demais. Estávamos todos quietos e a Cynthia começou gritar para o Facu parar. No primeiro momento achei que tinha acontecido algo, mas logo que saímos a Cyhthia apontou para um montão de aves (parecido com avestruz) correndo. Subimos em cima do motorhome para ver melhor. Aquele momento me lembrou aquele cena de Jurassic Park que os dinossauros correm pelo parque. Foi demais aquilo. Foto 7.26 - Facu, Eu, Matheus e Cynthia (Eu e o Matheus parecemos dois cachorrinhos, horrível a foto) Depois de mais de uma hora de viagem chegamos a Punta Delgada. A entrada fica do lado de um restaurante. Quando começamos caminhar com o Seymour, veio uns guardas falar que não era permitido cachorros. Foi uma choradeira até permitirem a entrada do Seymour na condição que ele sempre estaria no colo de alguém. Fomos até o mirante. Aquele mar é magnífico. Hoje olho para as fotos daquele lugar e de forma alguma as imagens conseguem descrever a beleza que tenho guardada nos olhos. Colocando o óculos de sol do Facu o cenário ficava mais encantador ainda, tudo ficava fluorescente. Foto 7.27 - O caminho Foto 7.28 - Punta Delgada Depois seguimos viagem. No interior do motorhome não tinha ventilação e toda areia que entrava no carro ficava alojada por ali, então viajávamos num poeirão. Vimos mais um monte de guanacos pelo caminho. Pouco tempo depois chegamos na Punta Cantor. Saímos para conhecer o lugar. Fiquei junto com o Seymour e ficamos bem amigos, algo que surpreendeu a Cynthia, pois ele era bem grudado com ela. Não tivemos sorte em relação as baleias, não conseguimos ver nenhuma. Por dezembro elas seguem para a Antártida e começam a voltar para Puerto Madryn entre junho e julho. Foto 7.29 - Punta Cantor Continuamos a viagem e uns cinco minutos depois chegamos em uma Pinguinera. A Cynthia estava maluca para ver pela primeira vez os pinguins, na verdade acho que todos nós estávamos. Conseguimos chegar bem pertinho deles, era possível ver eles dentro das tocas. O jeito de caminhar do Pinguim de Magalhães é bem engraçado e ver aquilo ao vivo é demais. Lembro que um pinguim chegou pertinho de um grupo de turistas e todos os turistas ficaram se derretendo por ele, o pinguim se agachou, virou a bunda pra cima e deu um cagão que mais parecia um tiro. Dei muita risada. A sensação de estar ali naquela natureza intocada, vendo a vida selvagem em seu esplendor é de encher os olhos. Eu era só risos e sorrisos ali. Foto 7.30 - A Pinguinera Foto 7.31 - Pinguins ao fundo e a natureza do lugar Foto 7.32 - Outra visão do lugar Foto 7.33 - O pinguim Foto 7.34 - A chegada do pinguim Foto 7.35 - Matheus na Pinguinera Foto 7.36 - A pose do pinguim Ficamos por ali perto e comemos. Tava quente demais, a sorte que eles tinham muita água gelada, pois a nossa água já tinha acabado fazia um tempo. Esse dia estava lindo, não havia nem sinal de nuvens no céu. Eu procurava nuvens e não encontrava, dos céus mais bonitos que já vi na vida. Descansamos um pouco e antes de partimos de volta para Puerto Pyramides tiramos a foto oficial do grupo. Foto 7.37 - Seymour, o motorista Foto 7.38 - Eu, Seymour, Facu, Cynthia e Matheus A volta foi tranquila. Facu nos disse que só costuma dar carona para pessoas que não têm cara de maluco, mas que no nosso caso abriu uma exceção (risos). Chegamos em Puerto Pyramides e era hora de se despedir desse trio que nos proporcionou um dia fora de série. Já nos referíamos um ao outro como irmão ou hermano. E foi com um "Gracias, hermano!" que abri os braços para dar um forte abraço no Facu. Ele ainda disse "Viajero ayuda viajero, siempre!". Depois fui dar o forte abraço na Cynthia. Por fim, fui me despedir do meu parceirinho Seymour. Facu e Cynthia iriam ajeitar suas coisas, pois partiriam no outro dia cedo para Esquel e depois Bariloche. Nós seguimos para aproveitar um pouco da praia de Puerto Pyramides. Foto 7.39 - Puerto Pyramides Foto 7.40 - A praia Foto 7.41 - O mar Foto 7.42 - Puerto Pyramides de frente Foto 7.43 - Belezura de lugar Voltamos para Puerto Madryn e os efeitos do sol já era visível em nossas peles. Não havíamos passado protetor solar. O Matheus estava rosa. Descobri que a exposição solar na Patagônia é muito mais danosa do que em outros lugares. A Patagônia está localizada sob um grande buraco na camada de ozônio. Assim, quase não existe proteção natural contra raios ultra violetas. Os índices de pessoas com câncer de pele na Patagônia Argentina é muito maior do que nas outras partes do país. Nesse dia nunca vou me esquecer do presente que o Carlos me deu. Pela noite queria sair até a orla para fugir da iluminação e assim conseguir ver as estrelas na Patagônia. Carlos olhou meio cético dessa minha ideia. Ele tinha planejado sair com uns amigos nessa noite. Por diversas vezes ele disse que levaria nós de carro até a praia, não queria que ele mudasse seus planos pra seguir uma ideia boba minha. Enfim, acabamos cedendo e entramos no carro do Carlos. Visitamos toda a orla de Puerto Madryn e para minha surpresa a orla é mais iluminada que o interior da cidade, ai entendi o ceticismo do Carlos. Foi bem legal ver a orla e observar que toda a cidade vai para lá nas noites de calor. Já era onze horas da noite e tinha centenas de rodas de mate por toda praia, famílias inteiras reunidas, crianças brincando, muita conversa e risadas por todos os cantos. Foi bonito de se ver aquilo. A população aproveitando a cidade. No carro o som que nos acompanhava era do Queen. Depois o Carlos seguiu pela rodovia, cada vez mais o escuro ficava mais escuro. Tocava Radio Ga Ga e aumentamos o som no máximo. Não fazia ideia para onde estávamos indo, mas a energia do momento estava boa demais. Mais alguns minutos cortando o escuro de carro e o Carlos parou o carro no meio do nada. Não entendi direito o porquê daquilo. Ai ele me disse para sair. Quando sai nada entendi, não via nada. Até que eu olhei pro céu. Tinha até me esquecido das estrelas. Que belezura de cena. O céu tava tão tão povoado. O Carlos ainda teve a sensibilidade de desligar o som do carro. Fiquei por alguns minutos ali de cabeça pra cima olhando o céu estrelado. Tão bonito tudo aquilo. Dei um abraço no Carlos como forma de agradecimento e voltamos pro carro. O Queen voltou a tocar no rádio e o volume foi no máximo. Agora enquanto avançávamos na pista as luzes de Puerto Madryn ficavam mais intensas. Voltamos pra casa. Carlos se arrumou e ainda deu tempo de encontrar seus amigos. Fui dormir felizão. Na manhã seguinte o Carlos comprou faturas para comermos de café da amanhã. Faturas são como os nossos pães doces, mas com uma variedade maior e vem tudo misturado os sabores. Fizemos café que havíamos trazido do Brasil para complementar o desayuno. Ele nos contou que quando morava num apartamento a beira mar ali em Puerto Madryn, na estação das baleias era possível escutar o esguichar das baleias por toda a noite. Deve ser demais vivenciar aquilo. O dia estava muito quente e decidimos passar a tarde na praia. Fomos pro mercado comprar umas cervejas, gelo e uns salgadinhos. Seguimos para uma praia fora da cidade, a preferida do Carlos. Chegamos e tive uma surpresa em ver que a praia toda era de pedras e pra completar tinha um navio naufragado na nossa frente. Primeira vez que estava num lugar como aquele. Foto 7.44 - Eu, Matheus e o Carlos (nunca imaginei que tiraria uma foto no supermercado rsrs) Foto 7.45 - O caminho da praia Foto 7.46 - O caminho da praia [2] Colocamos nossas cadeiras de praia no lugar. Havia muita gente. O legal é que cada pessoa se protegia de um jeito. Muitas pessoas levavam barracas pra se proteger do sol e do vento. Outros ficavam dentro das cabines das caminhonetes. O sol castigava, devia estar uns quarenta graus. Nunca imaginei que estaria sentado numa cadeira de praia num sol tipico brasileiro no meio da Patagônia. Ai fui pro mar, molhei os pés e congelei. Desisti da ideia do mar e voltei a sentar. Pouco tempo depois o Matheus foi pra água, com mais coragem ele mergulhou naquele mar glacial. Meio segundo depois ele se levantou e saiu correndo do mar. Não parava de tremer. Dizia que doía até os ossos. Eu só dava risada com aquela cena e me senti o espertão em abortar o mergulho. Foto 7.47 - A chegada na praia Foto 7.48 - A praia e o náufrago Foto 7.49 - Nós e a praia Horas depois chegou uma família amiga do Carlos. Um casal com três crianças. Eles trouxeram uma bebida bem boa, era tipo uma ice de limão e vodka muito comum na Argentina, mas não me recordo o nome. Com gelo ficava melhor ainda. Ficamos ali trocando ideia por muito tempo e a temperatura cada vez ficava mais quente. De repente o tempo mudou completamente. Uma tempestade de areia começou. O vento era forte demais. Juntamos nossas coisas e nos protegemos no carro. A tempestade durou uma hora mais ou menos. Naquela hora fiquei feliz que aquela praia era de pedras, pois nas praias de areia no centro de Puerto Madryn aquela tempestade deve ter sido terrível. Seguimos de volta. Paramos no topo de um morro onde avistamos toda a praia por ângulo diferente. Chegamos na casa do Carlos e ficamos de bobeira pelo resto da noite. Foto 7.50 - Matheus e a praia de pedras Foto 7.51 - A praia Conversamos com o Facu uns dias depois e descobrimos que eles estavam na estrada no momento daquela tempestade. O motorhome saiu da pista. Eles ficaram bem assustados com a situação e decidiram que aquele carro não estava preparado para os ventos da patagônia. Abortaram a ida para Esquel e Bariloche, estavam retornando para Buenos Aires. De lá começariam a subida para o México. Fiquei triste em saber disso. Facu e a Cynthia estavam animados com a Patagônia e deve ter sido difícil para eles tomarem essa decisão. Porém, a viagem tem que continuar. Era uma segunda-feira, acordamos e comemos o resto das faturas. Fizemos as plaquinhas de papelão para os nossos próximos destinos. Tomamos mate e café. Terminamos de arrumar as mochilas. Carlos nos deu uma carona até o posto YPF na saída de Puerto Madryn. Demos um abraço forte no Carlos e mais uma vez eramos nós e a estrada. Recordar este trecho da viagem é muito bom para mim. Tanta coisa aconteceu nesse intervalo de poucos dias. Primeiro tivemos a oportunidade de conhecer e viajar com o German e a Mica. Quanta gratidão por isso. Em seguida, assumimos os riscos (mesmo que imaginários) e não bancamos os cabeçudos, deixamos a viagem flexível e mais uma vez mudamos os planos. Adentrar a Patagônia para mim era pagar uma dívida com o passado. Muitas vezes tinha planejado e me imaginado ali, mas agora realmente pude colocar os meus pés na terra dos ventos. E que bom que foi nesse momento. Conhecer o Carlos e seu coração gigantesco foi demais. Não tenho palavras para agradecer tudo o que ele fez por nós e por ter sido nossa companhia em nossos dias em Puerto Madryn. Depois no 45 minutos do segundo tempo na Península Valdés apareceu o trio Cynthia, Facu e Seymour. Tento não ser repetitivo, mas quanta gratidão por tudo isso. Pela primeira vez (sei que digo isso toda hora!) me desconectei de todo o passado recente e fui só presente. Presente no presente. Esses dias foi um presente do presente. Na pista novamente eu compreendi o que estava escancarado desde o início, as pessoas que estavam surgindo no caminho eram as melhores de cada lugar. E tinha que ser assim, quebrando a cara num momento para ser presenteado com o melhor depois. German, Mica, Carlos, Cynthia e Facu muito obrigado por tudo, um beijo na alma de cada um de vocês. Para o pequeno Seymour desejo uma vida cheia de carinho em forma de cafunés.
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    Parte 6 - O começo da Ruta 3 e o mar de Claromecó "Exageramos sempre as coisas que não conhecemos." O Estrangeiro, Albert Camus Quando convidei o Matheus a encarar essa viagem comigo, ele ainda estava na ecovila em Piracanga. Nessa ecovila moram alguns argentinos e já passaram outros diversos hermanos por lá. Assim, os argentinos da ecovila sabendo da viagem, que o Matheus logo iniciaria, resolveram ajudar com contatos pela Argentina. A Silvina conversou com sua mãe e tivemos hospedagem em Buenos Aires. Depois o pessoal passou contato de um casal, Carlos e Ana, que haviam morado na ecovila e que hoje moram em Tres Arroyos. Pegamos o ônibus com destino a Tres Arroyos, pagamos bem baratinho pela passagem. Tres Arroyos fica a quase 500 km de distância de Buenos Aires, seria uma longa viagem. Entramos no ônibus e agora sim a nossa busca pelo fim do mundo tinha começado. Quando pela janela do bus eu avistei pela primeira vez a quilometragem da Ruta 3 o coração disparou. Até então a viagem estava sendo boa demais, demais mesmo, mas eu sentia que estávamos adiando o nosso principal objetivo e agora o adiamento tinha terminado. A Ruta 3 nos levaria para Ushuaia e agora viajávamos sobre ela. A Ruta 3 é uma rodovia que tem 3079 km de extensão. A rodovia se inicia nos arredores de Buenos e termina na Bahia de Lapataia em Ushuaia. Ela corta toda a Patagônia Argentina margeando o Oceano Atlântico. A Ruta 3 é uma (a outra é a Ruta 40) das duas mais importantes rodovias da argentina. A Ruta 3 se caracteriza por ser reta e plana em quase todo o trajeto. A viagem foi tranquila, ganhamos uma caixinha com alguns doces de café da tarde. Tinha um alfajor de morango sensacional. Uma guria que estava sentada do nosso lado ao ver nossas caras de esfomeados deu sua caixinha para nós. Depois fiquei a olhar pela janela do ônibus. O sol estava descendo na direção da minha janela. Peguei o sol de frente toda viagem, mas mesmo assim não parava de ver aquela belezura dos pampas. Eu vejo muita beleza na imensidão, e o pampas é isso, uma imensidão de mesmos cenários por milhares de quilômetros. Mas que lindeza é o descer do sol nesse lugar. Sol que se pôs apenas as nove horas da noite. Quando a noite tomou conta, já não sentia mais meu rosto que estava todo queimado de sol. Pouco depois de escurecer totalmente chegamos em Tres Arroyos. Foto 6.1 - Os Pampas pela janela do ônibus Foto 6.2 - A Ruta 3 Foto 6.3 - Um pouco mais da vista do ônibus Foto 6.4 - Mais um pouco Foto 6.5 - O descer do sol nos pampas argentinos No dia anterior o Carlos por mensagem tinha nos perguntado se queríamos conhecer Claromecó, uma cidade praiana perto de Tres Arroyos. Respondemos "Bora" ou melhor, como estávamos na argentina tivemos que adaptar e respondemos "Buera". Assim, chegamos em Tres Arroyos e conhecemos o Carlos, já em seguida entramos na sua caminhonete e partimos para Claromecó. O Matheus e o Carlos conversavam na frente. Eu me desconectei do mundo ao avistar pela janela da caminhonete o mar de estrelas no céu. Que lindo estava aquele céu. Fazia algum tempo que não via um céu tão bonito. Das coisas que mais gosto de fazer é ficar paralisado olhando o céu. A paixão surgiu na adolescência quando eu queria ser astronauta, ficava imaginando eu sendo o explorador daquele montão de desconhecido. Depois o céu foi a forma que encontrei de matar a saudade das pessoas que não estão mais entre nós. Assumi aquela história que é contada na infância como verdade e passei a acreditar que quando uma pessoa amada se vai ela vira uma estrelinha. Quantas boas lembranças me veio naquele momento. Os olhos marejaram e fiquei com vontade de ter um corda de tamanho infinito pra puxar de volta aquelas estrelinhas que tanta falta faziam para mim. Depois de quase uma hora de viagem chegamos na casa do Carlos e da Ana em Claromecó. Com um sorriso gigante e um abraço apertado a Ana nos recebeu. Não tinha como não sorrir com aquela alegria que ela estava ao nos receber. Ela tinha preparado uma jantar de recepção. Não tínhamos comido o dia todo, além daqueles doces no ônibus. Então, comemos como dois cães famintos. Só depois as conversas se reiniciaram. Carlos e Ana são terapeutas holísticos e vivem entre Tres Arroyos e Claromecó. Eles atendem nas duas cidades, mas preferem a calmaria de Claromecó. São seguidores do Prem Baba e apaixonados pelo Brasil, já estiveram diversas vezes pelo país e moraram em Piracanga por uma temporada. Até então estávamos alheio as notícias do mundo, de propósito por sinal. Nesse dia perguntei aonde seria a final da Libertadores da América e fiquei surpreso em saber que foi Madrid a cidade escolhida para o épico River x Boca. O campeonato de futebol do nosso continente, que em seu nome homenageia nossos libertadores do colonialismo europeu, teria seu maior capítulo na capital espanhola ou seja a capital dos colonizadores. San Martin e Simon Bolívar devem ter se revirado em seus túmulos. Parecia uma piada de mal gosto essa escolha. Carlos era pontual em dizer: "Não tem mais graça essa final". Ficamos até altas horas conversando e tomando mate. Fiquei surpreso em saber que os dois eram fãs do Porta dos Fundos. Conversamos sobre o vídeo do Porta, que tinha saído a pouco tempo, que satiriza o então candidato a presidência (que naquele dia já era presidente eleito) que acredita que os africanos foram os únicos responsáveis pela época da escravidão. O vídeo fez a conversa seguir para o tema do racismo no Brasil e a Argentina. Concluímos que a propagação dessas teorias absurdas sobre a escravidão brasileira mostram o quanto vivemos num país com um racismo enraizado e ao mesmo tempo velado. Sempre acreditei que a escravidão na Argentina foi feita em sua grande maioria com indígenas, mas o Carlos explicou o passado do seu país. A Argentina chegou a ter 50% de população negra, mas com a abolição da escravatura os negros foram usados como "bucha de canhão" na Guerra do Paraguai, depois foram largados a margem da sociedade e hoje são apenas 3% da população argentina. Diferente do racismo velado do Brasil, na Argentina o racismo é mais explícito. A ironia de toda essa história é que o símbolo da cultura argentina, o Tango, foi inventado pelos negros. No outro dia já no café da manhã começamos as conversas. Ficamos um bom tempo na mesa batendo papo sobre tudo. O assunto desse momento que me vem a memória é sobre a paixão incondicional dos argentinos pelos seus ídolos. Na verdade essa paixão exacerbada sempre me encantou, não existe meio amor lá. Carlos não gosta muito desse amor todo, dizia que tira um pouco da racionalidade. Evita, Che, Mafalda, Maradona e agora o Papa Francisco são os ídolos master desse país chamado Argentina. Mas me diz, como o Maradona não seria "Dios" aqui? Em 1982 a Argentina declarou guerra contra a Inglaterra, nesse momento o país era uma ditadura e o nacionalismo tomava conta da população. Assim, o governo achou que era hora de recuperar a posse das ilhas Malvinas, que estavam sob o domínio inglês. A guerra não durou 2 meses e a Argentina saiu derrotada. Em 1986, quartas de final da Copa do Mundo, Argentina e Inglaterra estão frente a frente novamente. Agora no campo de batalha do futebol. Talvez esse é o único campo de batalha que os sulamericanos lutam de igual pra igual com os europeus. Nesse jogo épico Maradona se transforma em Deus. Primeiro faz um gol de mão e logo em seguida dribla o time todo inglês pra fazer o gol mais emblemático de todos os tempos. No final do jogo ao ser perguntado sobre o gol de mão, resumiu em "Foi a mão de Deus" (risos). Dando a entender que aquele fato era um reparação histórica, só não da pra entender se quando ele se referia a Deus era sobre ele mesmo ou sobre o divino. Foto 6.6 - Nosso novo lar Saímos para caminhar pela orla. Primeiro passamos em frente do Castillo de Claromecó. Essa é uma construção que lembra um castelo medieval, mas por falta de recursos o dono não terminou a construção. O Carlos contou que o Castillo foi uma prova de amor do dono com a mulher, ele queria que a mulher vivesse como uma rainha. Porém, o dinheiro acabou antes da esposa virar uma nobre. O Castillo é todo bonitão e quebra a paisagem da orla de Claromecó composta de uma infinidade de areia. Foto 6.7 - A lateral do Castillo de Claromecó Foto 6.8 - O Castillo de Claromecó Foto 6.9 - O Castillo na paisagem Depois caminhamos horas e horas pela orla. As conversas seguiam. A Ana precisava fazer um atendimento e nos deixou no meio da caminhada. Continuamos o caminhar. Era a minha primeira vez em uma praia argentina. Molhei os pés e água estava congelante. A praia é toda charmosa e não tinha quase ninguém. Claromecó é como uma cidade fantasma, fica vazia quase todo o ano, e somente no verão a galera vai para lá, mas em dias ensolarados a Ana disse que a cidade de Tres Arroyos se muda inteira para Claromecó. Foto 6.10 - O mar Foto 6.11 - Ana e Carlos Foto 6.12 - O farol Foto 6.13 - Matheus, Ana e Carlos Foto 6.14 - A orla Enquanto caminhávamos pela areia da praia de Claromecó surgiu um cachorro todo engraçadinho. Ele não tirava os olhos dos nossos pés. O Carlos já o conhecia e disse que ele gostava de comer areia (risos). Ai o Carlos foi lá e chutou um pouco de areia pra cima, o dog ficou maluquinho e pulou em direção da areia voadora com a boca aberta. Eu chorei de dar risada. E assim ele nos acompanhava na esperança que chutássemos areia pro alto. Chutei várias vezes e o bichinho não cansava. A melhor parte foi quando sai correndo chutando areia e ele veio atrás como louco, só fomos parar com a correria na água gelada do mar, e põe gelada nisso. Foto 6.15 - O cachorro maluquinho Foto 6.16 - A praia Uma coisa que Carlos nos contou que me chamou a atenção foi que a maior paixão do argentino é o automobilismo e não o futebol. Não sei o quanto isso é verdade, mas nunca tinha prestado a atenção nisso. Nos contou sobre os diversos eventos de automobilismo que ocorrem no país. Disse também que em determinada época o país se dividia entre GM versus Ford, tamanha era a rivalidade dos amantes de automobilismo. E toda vez que saímos para caminhar mostrava os Claromachines, que são carros adaptados que não podem circulam nas cidades, mas circulam em lugares como Claromecó. Os Claromachines são como as gaiolas aqui no Brasil, mas tem uma diversidade muito maior, principalmente esteticamente falando. Tinha uns bem engraçados. Foto 6.17 - Claromachine Foto 6.18 - Outro Claromachine No fim da orla a Ana estava nos esperando de carro. Entramos no carro e fomos conhecer a reserva florestal de Claromecó. O lugar é bem bonito, mas dois anos antes teve um incêndio que quase exterminou a floresta. As marcas são bem visíveis ainda hoje. Depois do incêndio a prefeitura liberou a população a cortar madeira na região morta da floresta. Essa madeira é utilizada pela população para abastecer o sistema de calefação das casas. Foto 6.19 - A floresta de Claromecó Foto 6.20 - Mais um pouco da floresta Foto 6.21 - Un pouquito más Voltamos para casa. O Carlos e a Ana prepararam um almoço vegano sensacional. Foi demais aquela comida. Logo depois eles foram tirar a famosa "siesta". Eu e o Matheus voltamos pra praia e ficamos por lá o resto da tarde. Ficamos trocando ideia a beira mar. Depois subimos até o farol da cidade, lugar que se tem a melhor vista da cidade. Foto 6.22 - De frente ao farol Foto 6.23 - O farol e eu Foto 6.24 - Claromecó Foto 6.25 - O pôr do sol Foto 6.26 - Matheus e o mate No caminho de volta estávamos conversando distraídos. Passamos por um ônibus e depois de uns 10 segundos olhei de novo para o busão e me recordei do filme Na Natureza Selvagem. O ônibus lembrava muito o "Magic Bus" do filme. Só pensei naquela hora em tirar a foto característica do Chris McCandless vulgo Alex Supertramp. Foto 6.27 - O Magic Bus Foto 6.28 - Foto referência Na Natureza Selvagem Voltamos e as boas conversas continuaram. A noite chegou e estava frio. As madeiras queimando na lareira iluminavam o ambiente. A essa altura já estávamos viciados em mate argentino e o Matheus já dominava a arte de preparar o mate. Ficamos o resto da noite assim, tomando mate e conversando sobre tudo. Desde de temas complexos até bobeirinhas do cotidiano. Ana e Carlos falaram sobre a volta de Piracanga até Tres Arroyos de carro. Carlos tem descendência holandesa e nessa viagem quis passar por Holambra para conhecer um pouco mais de suas raízes. Holambra fica cerca de cem quilômetros da minha cidade, é tão pertinho, mas eu não conheço. Eles gostaram bastante de Holambra. Depois seguiram para região de Blumenau para a Ana conhecer um pouco mais de sus raízes alemã. Ela ficou feliz em saber que as tiaras floridas que ela usa por achar bonito, era algo tradicional da cultura alemã. Depois tiramos uma foto todo mundo junto e fomos dormir. Foto 6.29 - Carlos, Ana, Matheus e Eu Acordamos cedo e a Ana preparou um bom café da manhã. Tomamos mate. Arrumamos as mochilas e colocamo-as na caminhonete. Entramos no carro e seguimos para Tres Arroyos. Dentro do carro o silêncio tomava conta. Agora conseguia ver o caminho que dias antes tinha percorrido no escuro. Tudo muito bonito por sinal. O Carlos chamou a atenção pelo fato que na Argentina os terrenos a beira pista não são colados na pista como no Brasil. As cercas se iniciam mais ou menos a uma distância de quinze metros da rodovia. Depois notei que por toda a Argentina é assim. Ele não soube explicar o porque daquilo. Talvez seja pensando numa futura ampliação das rodovias. Chegamos em Tres Arroyos e o Carlos nos deixou num posto da YPF na saída da cidade sentido Bahia Blanca. Ana e Carlos iriam trabalhar pela cidade em seguida. Despedimos dos dois com abraços apertados. Ana não parava de sorrir. Assim, eles se foram e ficamos mais uma vez em companhia da estrada. Claromecó é um lugar que nunca imaginei conhecer, na realidade nem sabia de sua existência. Estar ali em suas ruas vazias me fez pensar o quão bom é não ter planos. A falta de planos tinha me levado ali, e estava muito feliz em poder conhecer aquele lugar mágico na companhia da Ana, Carlos e do Matheus. Como eu gostei de estar ali. Tenho muitas saudades daqueles momentos. O Carlos sempre pontual em suas observações, me fez refletir sobre muita coisa. Ele é um cara inteligente demais e com uma visão aberta de mundo. Ana se destaca por sua alegria e por sempre estar sorrindo, me fez sentir em casa. Conhecer um pouco mais da história argentina pelo olhar da Ana e do Carlos me enriqueceu bastante. Buenos Aires, Tres Arroyos e Claromecó são três cidades que tive a oportunidade de conhecer por causa da distante Piracanga. Nesses primeiros dias de Argentina, ouvi quase sempre o nome de Piracanga. Fiquei com muita vontade de conhecer o lugar que de alguma forma estava conectando nossa viagem em terras argentinas.
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    Parte 5 - Buenos Aires, la capital "Há algumas coisas que não se pode aprender rapidamente, e o tempo, que é só o de que dispomos, cobra um preço alto pela aquisição delas. São as coisas mais simples do mundo, e porque leva a vida inteira de um homem para conhecê-las, a pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é a única herança que ele poderá deixar." Morte ao Entardecer, Ernest Hemingway Chegamos em Buenos Aires. A cidade estava sitiada, pois era dia do início do G20 e tinha sido declarado feriado. (O G20 é um grupo formado pelas dezenove maiores economias do mundo (África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia) mais a União Européia. Esse grupo representa 90% do PIB mundial e tem como intuito facilitar o comércio mundial.). A rodoviária do Retiro estava fechada e descemos na rodoviária Liniers. Caminhamos na direção da estação de trem. Ao chegar descobrimos que as estações de trens e os metrôs estavam fechados, além da diminuição de frequência dos ônibus circulares. Precisávamos chegar no bairro da Recoleta, lugar que é bem próximo de onde estava sendo a reunião do G20. Entramos no ônibus e descobrimos que não se aceita dinheiro vivo como pagamento, tem que ter o cartão SUBE para utilizar os transportes públicos. O motorista nos deixou subir mesmo assim. Depois de um bom tempo de bus descemos em algum lugar do centro. O Matheus já havia estado em Buenos Aires e sabia se locomover um pouco pela cidade, no meu caso era a primeira vez na capital argentina. Fomos caminhando em direção da nossa hospedagem com o auxílio do Maps.me. Precisávamos de wifi para avisar a pessoa que ia nos receber que havíamos chegado. Avistamos uma cafeteria aberta e o Matheus entrou para pedir se podíamos usar por um momento a internet. Mathias, o garçom, com uma amabilidade fora do comum passou a senha do wifi para nós. Logo depois, ele trouxe quatro medialunas e dois cafés. Nesse momento pensei comigo "Nos ferramos vamos ter que pagar esse café da manhã nesse lugar caro.". Comemos e usamos a internet. O Mathias ainda trouxe água para nós. Na hora que perguntamos quanto tinha ficado o Mathias deu risada e disse que era por conta da casa. Ele ainda perguntou se queríamos levar umas medialunas para comer depois. Não levamos as medialunas para viagem, mas ficamos conversando um pouco com o Mathias enquanto a cafeteria continuava vazia. Depois de uns minutos nos despedimos do Mathias e seguimos nosso caminho. Foto 5.1 - Os cafés e as medialunas Foto 5.2 - Mathias, o gente boa Esse episódio do Mathias é muito importante para mim. Parece algo simplório, mas não é. Minha primeira reação ao ver ele trazendo o café e as medialunas foi duvidar da sua índole e pensar que ele havia dado a senha do wifi em troca de consumirmos aquilo. Como esse pensamento me torturou depois, me senti um hipócrita. Mathias foi coração puro e eu no meu pré conceito criei uma falsa imagem desse cara gente boa demais. Chegamos no nosso destino. Silvina com seu sorrisão veio nos receber. Ela mora há quatro anos em Piracanga, na mesma ecovila que o Matheus morava antes da viagem. Estava de férias e veio rever a família, tinha chegado no dia anterior em Buenos Aires. Nos próximos dias ela faria um curso de ioga em uma cidade vizinha, então esse seria nosso primeiro e único contato com ela na nossa estadia em Buenos Aires. Silvina apresentou sua mãe, Carlota, e sua casa. Tomamos mate. Minutos depois a Carlota inaugurou a pergunta que iria nos acompanhar por todos os nosso dias na Argentina. A pergunta foi "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?" (risos). Tomamos banho e logo fomos caminhar. A Silvina nos acompanhou por um tempo, depois quando já era hora dela seguir pro curso nos despedimos da Silvina e seguimos. Foto 4.3 - Silvina e o mate argentino Foto 4.4 - Matheus, Silvina e Eu (A despedida) Caminhamos em direção ao Obelisco. Não era possível caminhar próximo do Obelisco, tinha muita polícia em todo o lugar. Assim, resolvemos sair daquela muvuca e fomos na direção do cemitério da Recoleta. Nunca tinha entrado num cemitério como atração turística. Ouvi dizer que esse cemitério é o segundo mais visitado do mundo. As lápides são gigantes e cheias de luxo, é um lugar diferente e bonito. Muitas celebridades e presidentes argentinos estão enterrados nesse cemitério, mas a principal atração é o túmulo de Evita, a mãe dos pobres. Foto 4.5 - A entrada do cemitério Foto 4.6 - O caminho para as lápides Foto 4.7 - A lápide de Eva Perón, a Evita Depois passamos o resto do dia caminhando pelos arredores de Palermo e seus muitos parques. Conhecemos a incrível Florales Generica. Passamos pelo lindíssimo Planetário. No Planetário vi uma cena inédita na minha vida, sentei e parei para ver diversos youtubers brasileiros gravando vídeo naquela belezura de lugar. Eles davam diversas dicas de como ganhar dinheiro, ser rico, de viver viajando. Enfim, tinham fórmulas prontas pra tudo. Achei meio bizarro tudo aquilo. No resto do dia ficamos caminhando pelos parques de Palermo, e confesso é um mais bonito que o outro. Foto 4.8 - Florales Generica Foto 4.9 - O planetário Foto 4.10 - Arredores de Palermo Foto 4.11 - Em um dos parques de Palermo Foto 4.12 - Arredores de Palermo No dia seguinte, acordamos e partimos para o bairro de La Boca para conhecer o Caminito. Caminito é um lugar bacana demais, cheio de música, dança e comida. As cores fortes dão um charme a mais ao lugar. Depois seguimos pela linha do trem e fomos conhecer a frente do estádio do Boca, a La Bombonera. Na verdade queria mesmo era ter assistido um jogo naquele caldeirão. Na volta pro Caminito avistei um grafite do Riquelme. Talvez o Riquelme seja o jogador que mais gostei de assistir. Ver o Riquelme em tintas na mesma pose em que comemorava seus gols, não teve como não lembrar das Libertadores de 2000, 2001 e 2013 (risos). Antes de irmos embora comemos um choripan (pão e linguiça). Foto 4.13 - O Caminito Foto 4.14 - O Papa Francisco Foto 4.15 - As cores de La Boca Foto 4.16 - A espera do Tango Foto 4.17 - Mais cores Foto 4.19 - As lojas Foto 4.19 - La Bombonera Foto 4.20 - Riquelme Na sequência seguimos de ônibus para Puerto Madero. Descemos em um lugar esquisito, depois de caminhar uns dois quarteirões percebi que estávamos numa região de prostituição. Cheio de gente mal encarada. Andamos por algum tempo meio sem saber pra onde íamos. Chegamos numa rua movimentada e nos localizamos. Caminhamos bastante. Chegamos em Puerto Madero. Em Puerto Madero tem diversas estátuas de símbolos do esporte argentino como: Juan Manuel Fangio, Ginóbili, Lucha Aimar, entre outros, mas o que chamou a atenção foi que estátua do Messi estava inteiramente depredada, não sei se isso foi depois da Copa. Outra coisa que chamou a atenção em Puerto Madero foi os carrinhos de choripan e as muitas pombas. Vimos uma cena que as pombas comiam as linguiças de um desses carrinhos enquanto a dona do carrinho fazia outras coisas. Deve ter dado um bom tempero para os próximos choripans (risos). Foto 4.21 - Ônibus em Buenos Aires No outro dia, um domingo, partimos para conhecer a feira de San Telmo. A feira é incrível. Tem muita coisa legal pra ver. Tem boa música por todas as partes. Tem tango também. Muito doce de leite. Acho que nesse dia comemos meio quilo de doce de leite só de experimentarmos as amostrinhas das lojas. E ainda tem a Mafalda sentada num banquinho. Eu sou fã da Mafalda, para mim foi legal tietar ela ali. Não tem como descrever as sensações de estar ali na feira de San Telmo, com toda certeza foi a melhor parte de estar em Buenos Aires. Foto 4.22 - A feira de San Telmo Foto 4.23 - Miguelito, Mafalda, Eu e o Manoelito Foto 4.24 - A feira de San Telmo Foto 4.25 - Melhor maneira de se locomover com os filhos Foto 4.26 - O tango não tem idade Foto 4.27 - Matheus modelando, novamente Foto 4.28 - O teto de guarda-chuva Pela tarde conhecemos a Casa Rosada e seus arredores. Caminhamos solitários por caminhos que normalmente estariam entupidos de gente e carros. Avançamos até perto do Obelisco. Seguimos caminhando pela Avenida 9 de Julio. Encontramos um grupo de pessoas dando abraço grátis. Abraçamos o grupo todo. Foto 4.29 - A Casa Rosada Foto 4.30 - O vazio que o G20 trouxe Foto 4.31 - Um prédio Foto 4.32 - Ao lado da Casa Rosada Foto 4.33 - Outra vista da Casa Rosada Foto 4.34 - A praça Foto 4.35 - A cidade vazia Foto 4.36 - Obelisco Foto 4.37 - Eu e a Buenos Aires vazia Na Recoleta tem uns bancos distribuídos pelo bairro que parecem sofás. Fiquei diversos dias imaginando como aqueles sofás nas ruas eram chiques, mas ao mesmo tempo fiquei pensando como aquilo deveria ser fedido e um caos quando chovia. Em nenhum momento, tive a curiosidade de sentar nesses sofás. Nesse dia a curiosidade falou mais alto e sentei no banco. E a surpresa e uma sensação de burrice me contaminou. O banco é de pedra, uma pedra toda esculpida para parecer um sofá, mas é de pedra (risos). Ai fiquei dando risada sozinho de como tinha sido juvenil em achar que aquilo era um sofá de verdade. Outra coisa que me chamou a atenção em Buenos Aires foi os sinaleiros. O sinal amarelo acende antes do verde, o que dá uma impressão da largada de uma corrida. E o sinal de pedestres fica verde junto com o de carro, explicaram que a preferência é do pedestre, mas sempre me embananava ao atravessar a rua. Depois encontramos a Brown, uma amiga do Matheus que estava morando em Buenos Aires. As conversas sempre voltavam para a política. Ela nos contou que sempre que conhecia um argentino ouvia a mesma pergunta "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Conosco era o mesmo. A Brown falou uma coisa que me chamou a atenção. Ela disse mais ou menos assim: "Brasil e Argentina são dois países parecidos, onde politica é tratada como futebol. Os dois países estão divididos. A única diferença que eu vejo é que aqui ninguém discute Direitos Humanos, todos entendem como conquistas inalienáveis. Já no Brasil ainda discutimos Direitos Humanos.". Foto 4.38 - Matheus, Eu e a Brown Acordamos um pouco mais tarde hoje, era o dia da partida. Conhecemos o Dani, que tinha pernoitado na casa da Silvina também, ele estava viajando por poucos dias e estava no Uruguai, atravessou o Rio da Prata para rever a Silvina, eles moraram juntos em Piracanga anos atrás. Ele já seguiria de volta pro Uruguai no mesmo dia. Tomamos café da manhã com a Carlota nesse dia. Conversamos bastante. Pela primeira vez tivemos a oportunidade de ter uma conversa de longo prazo com a Carlota. Descobrimos que ela é psicóloga e socióloga. Uma mulher cheia de opiniões e uma boa visão de mundo. Foi muito boa essa conversa e ficou aquele gostinho que devíamos ter feito isto antes. A Carlota ainda ensinou o Matheus a preparar mate. Já era mais de meio dia, demos um abraço apertado na Carlota e seguimos para a rodoviária do Retiro. Foto 4.39 - Dani, Matheus, Carlota e Eu. Os dias, na capital argentina, foram tranquilos. Apesar de não querer passar por cidades grandes, me surpreendi com a beleza da cidade. Sua arquitetura toda harmônica é uma beleza pra vista. O G20 esvaziou o centro da cidade, e isso se mostrou bom para nós que pudemos caminhar tranquilamente por todos os pontos turísticos da cidade. Caminhamos muito, muito mesmo, mas sempre devagarinho. Saíamos cedinho da casa da Carlota e voltávamos no meio da noite. A calmaria, desses dias, foi muito boa e ainda tive a sorte de conhecer a tão badalada capital argentina. E muito obrigado para Silvina e Carlota por nos acolherem. Muchas gracias y besos!
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    Parte 4 - Do Brasil para a Argentina "Oh! Oh! Seu Moço! Do Disco Voador Me leve com você Pra onde você for Oh! Oh! Seu moço! Mas não me deixe aqui Enquanto eu sei que tem Tanta estrela por aí" S.O.S, Raul Seixas Logo que chegamos no posto já fomos sondar os caminhoneiros que haviam pernoitado por ali. Vinte minutos depois fui conversar com um caminhoneiro que estava escovando os dentes em frente ao seu caminhão. Me apresentei e expliquei rapidamente a viagem. Quando ele começou a falar só vi um monte de pasta de dente voando na minha direção. Tentei desviar. Porém, fui derrotado e como prêmio recebi uma enxurrada de saliva misturada com creme dental no rosto. O sangue subiu, mas quando eu ouvi o caminhoneiro dizer "Estou partindo agora, se quiser ir tem que ser já" engoli o orgulho e abri um sorriso, e respondi "Bora". Corri chamar o Matheus. Ajeitamos nossas coisas na cabine e partimos rumo a Itaqui. Foto 4.1 - Os arredores do posto Foto 4.2 - O caminhão vermelho no fundo foi o que viajamos O início da viagem foi esquisito demais. Wagner, o caminhoneiro, fazia diversas perguntas que mais se parecia com uma entrevista de um sequestro. "Vocês tem dinheiro ai?", "Alguém de suas famílias sabem que vocês estão aqui agora?", "Precisa ter muito dinheiro pra viajar assim!", "Vocês sabem que tem muito louco pela estrada!", "Já sofreram algum tipo de violência com um caminhoneiro?". Essas foram algumas das frases que me lembro, mas foram meia hora desse tipo de conversa. O Matheus ficou mudo, não dizia nada. Por alguns segundos pensei em pular do caminhão (risos). Aos poucos fui tentando levar a conversa pra outro rumo. Até que começou a tocar Raul Seixas. Caralho! Tinha até esquecido do quanto eu gostava de ouvir aquelas músicas. Comecei a cantar. O Wagner também começou a cantar. O som da música foi para as alturas. A cara carrancuda do Wagner começou a esboçar os primeiros sorrisos. Quando começou tocar S.O.S. e troquei o trecho "Oh! Oh! Seu Moço! Do disco voador me leve com você pra onde você for" por "Oh! Oh! Seu Moço! Do caminhão me leve com você pra onde você for" ele deu risada e nesse momento as conversas tomaram um rumo diferente. E assim, começamos a conhecer as teorias de Wagner. Foto 4.3 - O caminho A primeira teoria ele nos explicou quando tocava Cowboy Fora da Lei, no trecho que diz "Oh, coitado, foi tão cedo. Deus me livre, eu tenho medo. Morrer dependurado numa cruz" o Wagner logo emendou "Foi brincar com o Homem e logo morreu, claro que tem ligação!". Depois começamos falar de política (assunto perigoso quando se é caroneiro!) e ele começou a introduzir sua frase típica, pra qualquer político ele sempre dava mesma resposta: "O Lula aquele Zé Buceta! Nem sabe que eu existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito.", "O Bolsonaro aquele Zé Buceta! Nem sabe que eu existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito.". Depois foi a vez do futebol, e ele era assertivo na sua frase: "Jogadores de futebol são tudo Zé Buceta! Nem sabem que eu existo, pra que vou torcer se vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito." (risos). A sua opinião de mundo se resumia nisso "Zé Buceta! Nem sabe que existo, vou ter que continuar trabalhando do mesmo jeito", confesso que é uma boa visão de mundo, mas tornava o Wagner previsível até então. Foto 4.4 - Mais um pouco do caminho Quando começou tocar Quando Acabar o Maluco Sou Eu, o Wagner começou se autodenominar como maluco, mas logo fez uma mea culpa falando que era o único da família assim. E assim, começamos a conhecer o Wagner de verdade. Disse que tinha muitos irmãos e que a maioria era estudado e falava com orgulho de um irmão que morava e trabalhava na Alemanha. Depois, contou a história de sua mãe e como ele sentia ter perdido ela tão cedo. Falou da sua esposa e da sua filhinha. Disse que jogou futebol e foi da base do Santos junto com o Robinho. Seu pai era da aeronáutica e por agora ele estava tirando brevê de voo, mas logo emendou com a seguinte frase "Aqueles Zé Buceta cobram caro demais por aula! Ai tenho que trabalhar muito mais". Disse também que quase não parava na sua casa e que estava trabalhando muito, emendando uma carga na outra. E nos contou de quando era caminhoneiro em outra empresa e viajava pela Argentina rumo a Terra do Fogo. Ele não gostava de argentinos de jeito nenhum, não entendi o porque, mas toda vez que ele falava de argentinos ele se referia como aqueles Zé Buceta (risos). Quando acabou as músicas do Raulzito, começou a tocar Astronauta de Mármore do Nenhum de Nós e nesse momento ele disse "Vocês não tem fome não, sobe ali e pega um pacote de bolacha pra nós comermos.". Foto 4.5 - O carro vermelho no caminho Comemos. A distração do Wagner é buzinar pra pessoas distraídas na pista. Ele dava risada com isso e eu também. Nos cagamos de dar risada quando o Wagner disse "Olha que vaca rica!" ao vermos uma vaca sozinha num pasto imenso. Agora nós três eramos bons amigos e as conversas rolavam naturalmente. A partir daqui o tom das conversas foi mais para as brincadeiras e risadas, e a música acompanhou, nesse momento começou tocar só música de balada. Wagner deixou o volume no máximo. Tocou até Harlem Shake e seu "Con los terroristas". Foi engraçada e perplexa toda aquela situação. Confesso, que estava curtindo aquela balada ambulante pela qual viajávamos. Ai o caminhão parou, ele nos disse que ali deixaria nós. Era a entrada de Itaqui (cidade distante 100km de Uruguaiana). Ele seguiria para a Camil carregar o caminhão com arroz. E assim, nos despedimos dessa figura que é o Wagner e voltamos para a rodovia. Wagner foi um cara que lembraríamos por toda a viagem. Seu jeito esquisito no início deu lugar a um cara gente boa demais. A sua maneira ele é um cara de coração grande. Tanto que para mim a música tema dessa viagem é S.O.S. do Raul Seixas, toda vez que eu tinha uma chance eu colocava essa música durante a viagem. Creio que seu jeito esquisito de início foi uma defesa natural por dar carona para dois caras, ele estava em desvantagem naquela situação. Se nos sentimos em perigo por um momento, ele também deve ter se sentido em perigo também, apesar de nossas caras de bobos (risos). Gosto de gente como o Wagner, de fala fácil, sem papas na língua e que sai do comum e fala o que pensa (mesmo que isso resuma o resto do mundo em Zé Buceta). Depois seguimos caminhando pela rodovia. Toda vez que um veículo passava por nós erguíamos o dedão da esperança. E assim fomos até chegar num posto rodoviário. O movimento de caminhões e carros era baixo. Sondamos os caminhoneiros parados, mas a maioria iria carregar o caminhão de arroz ali perto. Tava quente demais. O Matheus deu uma olhada no BlaBlaCar e tinha um carro saindo por aquela hora para Uruguaiana. Era baratinho, acho que estava dez reais e resolvemos seguir de BlaBlaCar. Uns minutos depois do meio dia o Guilherme parou no posto rodoviário e seguimos viagem com ele. Foto 4.6 - A saída do posto Fiquei na parte de trás esmagado pelos mochilões. Matheus dessa vez tomou a dianteira das conversas. Eu pouco conversei e só ouvia a conversa dos dois. Guilherme é um ex militar que agora é vendedor da Convex. Estava se acostumando com essa nova vida. Tinha descoberto o BlaBlaCar no dia anterior, que sorte a nossa. E seguia para Uruguaiana para tentar fazer algumas vendas e fechar melhor o mês de novembro. Geralmente, eu não falava sobre o meu mestrado, mas nesse dia com o Guilherme eu descobri que falar o que eu fazia criava uma confiança entre a pessoa que nos dava carona, além de criar uma curiosidade e deixar a pessoa meio sem entender porque viajava daquele jeito. Enfim, fiz mestrado em inteligência artificial. Guilherme ficou bastante curioso conosco e sua conversa com o Matheus fluía bem. O caminho ao redor não muda nada de São Miguel das Missões até Uruguaiana. Muitos silos e plantações de arroz pelo caminho. Guilherme falou bastante sobre sua vida no exército. Ele é um cara articulado e fala muito bem, acho que a profissão de vendedor tem tudo haver com ele. Falou das suas muitas viagens e missões como militar. O curioso que ele se autodenominava ex milico, sempre achei que milico era um termo pejorativo pra militar. Ele é viajante também e está preparando uma viagem de moto até Ushuaia. Estava com saudades da mulher e da filha e depois de Uruguaiana seguiria direto pra sua cidade rever as duas. Atravessamos uma ponte com sinaleiro, onde só da pra passar carros por apenas um sentido por vez. Depois disso nos aproximamos de Uruguaiana. A viagem foi bem legal, o Guilherme é um cara gente boa demais. Ele nos deixou próximo a casa de câmbio e nos explicou por onde teríamos que seguir para atravessar a fronteira. Demos um abraço de despedida no Guilherme e seguimos nosso caminho. Foto 4.7 - A tal ponte Cambiamos parte do nosso dinheiro. A ideia era levar todo o dinheiro em espécie para melhor controlar ele e saber o momento de voltar. Assim, com uma parte em pesos argentinos e outra em reais, para cambiar no futuro, seguimos para a fronteira. Estávamos com fome e no meio do caminho paramos pra comer um lanche. Aproveitamos e compramos um adaptador universal para carregar os celulares na Argentina. Ficamos sabendo que não se pode cruzar a pé a ponte que une Brasil e Argentina. Quando eu conversava com o tiozinho do lanche para pegar mais informações das maneiras possíveis de atravessar a fronteira, um senhor veio falar comigo. Seu nome é Jadir e se ofereceu para nos levar até a aduana argentina. Colocamos as mochilas na caçamba e entramos na sua caminhonete. O trecho não durou dez minutos, mas deu pra conversar bastante com o Jadir. Ele é representante de produtos hospitalares e ficou bastante preocupado com a nossa viagem, dizia que a Argentina era um país muito perigoso atualmente. A conversa foi boa e ele no final parecia nosso pai, cheio de conselhos sobre segurança e ainda deixou seu cartão comigo caso precisássemos de algo por aquele dia ou no futuro. Que satisfação conhecer o Jadir, que ao ver nós com uma necessidade não hesitou em nos ajudar. Demos um tempo na aduana antes de cruzar a fronteira, pois ainda tínhamos internet no celular. Cruzar a fronteira foi bem tranquilo. Enfim, estávamos na Argentina. Agora caminhavamos por Paso de los Libres e assim, seguimos para a rodoviária da cidade. A cidade parece mais um bairro. Ouvimos dizer que a cidade é violenta, não sei ao certo, mas a cidade é bem pobre. Chegamos na rodoviária e todos guichês estavam fechados. Esperamos mais um pouco e logo os guichês começaram a abrir. Pesquisamos os preços dos ônibus para Buenos Aires. Na Argentina tem-se desconto pagando em dinheiro e somado que naquele final de semana começaria o G20 na capital (e ninguém queria estar na sitiada Buenos Aires), conseguimos um desconto de quase 50% no valor da passagem. Ficamos horas e horas na rodoviária da diferente Paso de los Libres. Com o passar das horas já estava acostumado com o espanhol. No meio da noite chegou o nosso ônibus. Agora a viagem seguiria para Buenos Aires. Esse dia foi um bom dia. Conseguimos duas caronas e uma carona por BlaBlaCar, além de pagar bem baratinho para chegar até Buenos Aires. Percorremos muitos quilômetros em companhia de diferentes pessoas e de muita conversa. Estar na Argentina era simbólico para nós, pois parecia que só agora a busca pelo fim do mundo tinha começado. Nesse momento o frio na barriga começou a me dominar. Agradeço de coração ao Wagner, Guilherme e Jadir pelas caronas. E como falei muito do Raulzito nessa parte, queria terminar com um pedaço de sua música Por Quem os Sinos Dobram (nome tirado do livro de mesmo nome do Ernest Hemingway): "Nunca se vence uma guerra lutando sozinho Cê sabe que a gente precisa entrar em contato Com toda essa força contida e que vive guardada O eco de suas palavras não repercutem em nada É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro Evita o aperto de mão de um possível aliado, é Convence as paredes do quarto, e dorme tranqüilo Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem, eu sei que você pode mais" Por quem os sinos sobram, Raul Seixas
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    Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões “Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.” Guerra e Paz, Leon Tolstoi Quando ainda estávamos em Urubici decidimos cruzar a fronteira entre Brasil/Argentina por Uruguaiana. Com isso quis passar por São Miguel das Missões. Eu já conhecia a cidade (e curto demais esse lugar), mas o Matheus não conhecia ainda. Assim, quis colocar uma cidade histórica no roteiro e de alguma forma presentear o meu amigo que parou sua vida na Bahia para me acompanhar nessa aventura aleatória até o fim do mundo. O problema que eu não tinha nenhum contato em São Miguel, somente em cidades vizinhas das quais não queria parar por agora. Tentei couchsurfing e nada. Resolvi entrar em contato com uma das pessoas cadastradas pelo facebook. Mandei uma mensagem explicando nossa viagem e pedindo um quintal no qual poderíamos acampar. Recebi uma resposta com o nome de um casal que poderiam nos receber. Entrei em contato com o casal e o inesperado aconteceu, eles iriam nos abrigar na nossa estadia por São Miguel. Confesso que fiquei com receio de usar essa tática do facebook e a pessoa me entender errado. Em contrapartida, fiquei mais feliz da conta com essa inesperada hospedagem. Chegamos em Lages pelo meio da tarde. A rodoviária é bem organizada e espaçosa. Um bom lugar para se dormir. Iriamos pegar um ônibus de madrugada para Vacaria. Então, passaria meu aniversário dentro da rodoviária de Lages. Sai caminhar pela cidade, enquanto o Matheus cuidava das mochilas. Lages impressionou pela quantidade de pessoas bonitas. Quando eu voltei o Matheus estava sendo interrogado pelo chefe de segurança da rodoviária. Queriam saber quem eram nós e o que era aqueles isolantes térmicos que carregávamos, depois que viram que tínhamos passagens deram uma sossegada. Logo, eu fiquei cuidando das mochilas, enquanto era a vez do Matheus caminhar pela cidade. Fiquei deitado num canto da rodoviária e por todo aquele tempo um segurança não tirava os olhos de mim. Achei engraçada essa higienização dentro da rodoviária e assim tirar baderneiros, indigentes ou pessoas que perturbem a "paz" da rodoviária, só deixar quem for embarcar. Não vou entrar no mérito se é certo ou errado. O que chamou a atenção foi um acampamento indígena Kaingang (acho que eram Kaingang, mas podem ser Xokleng) na parte de fora da rodoviária. A cidade faz um grande esforço para manter a ordem num espaço público como a rodoviária, mas fecha os olhos para um problema real como a dos indígenas que vivem no relento na fria Lages. Assim, preferem sitiar a rodoviária para que os índios não perambulem ou durmam por lá do que realmente resolver o problema. Já vi esse tipo de situação em diversas cidades do oeste de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Não sou muito fã de fazer aniversário. Pra mim estar ali aguardando na rodoviária e esquecer que fazia aniversário era o ideal. Quando a noite chegou o frio veio junto. As duas da madrugada seguimos para Vacaria. Chegamos era quatro horas da manhã. Na hora que sai do ônibus senti o maior frio da minha vida. Chegava a doer. A rodoviária de Vacaria estava fechada e não estava com a vestimenta mais adequada. Que frio da porra. Já não conseguia mais raciocinar. Até que achamos um hotel/bar que estava aberto e fomos até lá para nos abrigar. Pedimos um café e ficamos sentados tremendo. Permanecemos no local até quase oito horas da manhã. Depois fomos para a rodoviária e pegamos o ônibus para Santo Ângelo. A viagem foi tranquila. Pela janela ou eu via pastos ou eu via plantações de arroz. No fim da tarde chegamos em Santo Ângelo e seguimos para São Miguel das Missões. São Miguel das Missões é uma cidadela de quase dez mil habitantes. A cidade teve origem nas reduções jesuíticas presentes na região pelo século XVII conhecidas como os sete povos das missões. Os setes povos das missões são São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Lourenço, São João, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo. Esses setes povos são o berço da colonização do Rio Grande do Sul. São Miguel das Missões abriga o sítio arqueológico de São Miguel do Arcanjo, que é um patrimônio mundial declarado pela UNESCO, que acomoda as ruínas das reduções jesuíticas daquela época. Chegamos em São Miguel já era mais de sete horas da noite. Caminhamos rumo a casa da Karine e do Mário. Passamos pelas ruínas. A casa deles ficam muito perto da entrada das ruínas. Batemos na casa e o quarteto de cachorros veio nos recepcionar. Todos latiam. Logo a Karine chegou com seu sorriso característico. Sentamos pra conversar e nos conhecer. O quarteto peludo foi apresentado, são três shitzus (Marley, Maia e Zeca) e a poodle Laica. Gostei de todos, mas o Zeca é um cachorrinho especial, ele é amoroso, companheiro, farrista, engraçadinho e quando você está sentado ao bater palmas ele pula no seu colo e fica só no chamego. A conversa com a Karine foi bem boa. Ela contou sobre a sua história e explicamos melhor nossa viagem. O tempo estava meio chuvoso e a previsão era que para o dia seguinte seria chuva o dia todo. A Karine disse para aproveitarmos e já ir assistir o espetáculo Som e Luz nesse mesmo dia. Então, fomos. O espetáculo Som e Luz é algo realmente diferente, é uma belezura de espetáculo. Todos os dias pela noite é contada a história das missões jesuíticas na região com apenas luzes apontadas nas ruínas e com narração da Fernanda Montenegro. Tudo isso ao ar livre. Saber um pouco mais sobre a relação de dominação dos jesuítas com o povo guarani e depois a resistência guarani com os colonizadores é de encher os olhos. É a verdadeira história do nosso país contada de uma forma magistral e bela. Gosto demais da forma que é contada, alçando verdadeiros heróis da nossa história como o índio Sepe Tiaraju, o líder da resistência guarani. Vou copiar aqui o trecho que explico melhor o motivo da guerra, esse texto fiz no outro mochilão que passei por São Miguel. "A ruína na verdade é o sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (patrimônio mundial da UNESCO), na época das missões jesuítas foram instauradas várias "comunidades" onde viviam os evangelizadores (jesuítas) com os ameríndios, que nesse caso foram os Guaranis, com propósito de impor a crença cristã e os costumes de vida do europeu. Vale a pena dizer que nessa época esse território era espanhol, e depois de dezenas de anos vivendo em "harmonia" (jesuítas e guaranis), os espanhóis queriam restaurar o domínio de Colônia do Sacramento e assim "trocaram" a região das missões por Colônia com os portugueses, assim as comunidades teriam que ser esvaziadas. Os guaranis não aceitaram sair de onde, agora, eram suas terras. Guerra-pós-guerra os portugueses dizimaram os guaranis da região e reassumiram a "ordem", mas não sem antes criar um herói entre os guaranis, Sepé Tiaraju, líder da resistência guarani. As guerras também foram às responsáveis por deixar em ruína o lugar." Caminhando por quase todo o Brasil, Uruguai e um pouco de Venezuela em seis meses de estrada, Diego Minatel Foto 3.1 - O espetáculo Som e Luz no sítio arqueológico São Miguel de Arcanjo Voltamos já era quase onze horas da noite. Conhecemos o Mário, marido da Karine, e o filho do casal, o João que tinham acabado de voltar do futebol. Nessa noite a pacata São Miguel teve um capítulo que tirou a tranquilidade da cidade. Enquanto eu, Matheus, Karine e Mário conversávamos pela noite, os vizinhos do lado bebiam mais além da conta e ficaram badernando a noite toda. O problema que um deles saiu de carro bêbado e atropelou uma senhora e saiu sem prestar socorros. No outro dia só se ouviu falar sobre esse acontecimento pela cidade. Acordamos cedo (já virou redundante escrever isso). Dormimos no ateliê do Mário. Mário e Karine são artesões e boa parte dos artesanatos vendidos nas lojinhas que ficam em frente da entrada do sítio arqueológico são feitos por eles. O Mário ainda trabalha como segurança nas ruínas pelas noites. Ou seja, eles tem uma relação direta com as ruínas, mas isso é história pra depois. Nesse dia, ao acordar o Marião já veio com sua térmica do Internacional e com a cuia de chimarrão. Fizemos uma roda de mate ao som de música gaúcha. Gosto de música gaúcha. Ficamos ali conversando mais um pouco e se conhecendo melhor. Acho interessante a função social do chimarrão. As pessoas se reúnem em volta dele e aproveitam para colocar a conversa em dia. Enquanto tem água na térmica a conversa continua. E a roda de chimarrão é feita várias vezes ao dia. Gosto de chimarrão, mas gosto mais de estar numa roda de chimarrão jogando conversa fora. E foi numa dessas rodas de chimarrão com o Mário que ele se mostrou um cara todo participativo na vida da cidade. Ele é treinador de futebol de salão da garotada da cidade e também na comunidade indígena. Ainda é presidente de associação de turismo de São Miguel. Acompanha o grupo de dança do centro de tradições. Eu e o Matheus brincávamos com ele dizendo que ele seria o próximo prefeito da cidade, mas de verdade, seria uma boa. Depois fomos para as ruínas. A entrada custa quatorze reais. Não vou falar muito sobre as ruínas, vou deixar as imagens falarem por si. É uma belezura de lugar. A energia que o lugar transmite é demais. Apesar do passado relacionado as missões jesuíticas, as ruínas de São Miguel das Missões também é um símbolo da resistência guarani contra os colonizadores. E isso que me encanta. Afinal, máximo respeito aos guaranis. Foto 3.2 - As Ruínas de São Miguel das Missões ou Sítio Arqueológico de São Miguel de Arcanjo Foto 3.3 - Que belezura Foto 3.4 - Tentando o enquadramento perfeito Foto 3.5 - Sou a resistência, todo respeito ao povo guarani Foto 3.6 - A vista do interior Foto 3.7 - A minha foto favorita Foto 3.8 - Matheus e as ruínas Foto 3.9 - A porta Foto 3.10 - O fundo Foto 3.11 - O topo Foto 3.12 - Outro ângulo Foto 3.13 - Minha cara amassada e a beleza das ruínas Não fomos os primeiros viajantes que a Karine e o Mário hospedaram. Por incrível que pareça eles hospedaram por duas oportunidades pessoas que também estavam viajando para Ushuaia. Nessas duas ocasiões eram casais que viajavam de Kombi. Porém, foram situações diferentes de hospedagem. No nosso caso fomos cara de pau ao extremo entrando em contato no facebook. Com esse pessoal de Kombi a Karine conheceu pela cidade enquanto os mesmos turistavam e assim, trouxe-os para casa. Karine tem um coração gigantesco. O curioso é que essas duas viagens de Kombi tiveram problemas mecânicos no meio da viagem, com isso os viajantes tiveram que desistir de Ushuaia e voltar pra casa ou mudar o rumo da viagem. Confesso que fiquei com um pouco de medo desse histórico da Karine (risos). Brincávamos que tiraríamos essa zica dela. Depois de voltar das ruínas almoçamos com a Karine. Conversamos mais um pouco com ela. Sempre bom conversar com a Karine. Um tempo depois caminhamos para conhecer a fonte missioneira. Fomos caminhando devagarzinho. Chegamos na fonte e ficamos trocando ideia por bastante tempo. Quando estávamos voltando veio um temporal. Tomamos muita chuva. Encontrávamos abrigo, secávamos e quando achávamos que dava pra seguir, chuva novamente. E foi assim, tomamos chuva umas quatro vezes. Nesse dia a Karine nos contou a história dela e do Mário. Quando ela era estudante do ensino médio em Constantina/RS veio numa excursão escolar conhecer as ruínas em São Miguel das Missões. Nessa viagem ela conheceu alguns meninos da cidade de São Miguel e um deles, chamado Lucas, se encantou por ela e ficou todo o dia pentelhando ela. Eles acabaram se beijando e trocando telefones. Por meses trocaram cartas, mas depois veio um hiato de mais de um ano. Num dia o Lucas ligou para Karine convicto que queria voltar a vê-la. Ele viajou até Constantina e conheceu toda sua família. Assim, os dois foram estreitando as relações. Em um dia foi a vez da Karine ir visitar o Lucas em São Miguel. Nesse dia ela descobriu que ele não se chamava Lucas, e sim Mário (risos). Mário quando era moleque aproveitava o fluxo de turistas nas ruínas para paquerar as gurias de outras cidades, e sua tática em conjunto com os amigos era trocar de nome ao se apresentar pras gurias, e Lucas foi o usado com a Karine. Ele só não imaginou que se apaixonaria naquele dia. E depois continuou com a mentira para não se passar por mentiroso (risos). No fim, ele se explicou para a Karine e se acertaram de vez. E estão juntos a quase vinte anos e são o casal símbolo das ruínas de São Miguel. Foto 3.14 - Karine e Mário, o casal das Missões (foto que peguei no facebook da Karine) E o mais curioso de tudo é que naquele dia faziam exatos vinte anos que os dois se conheceram. Eles iam sair numa noite romântica, mas no inicio da noite o Mário nos chamou pra tomar umas cervejas. Fiquei meio encabulado a principio. No fim, eles decidiram passar essa noite conosco. Que honra a nossa. Na frente da casa tomamos umas brejas, e eu não parava de rir com o Mário contando a sua versão da história do Lucas. O Mário é um cara gente boa demais. Depois saímos de carro, ao som de Raça Negra e do desafinado coral dentro do carro conhecemos um pouco mais do interior da cidade. Raça Negra une os povos (risos). Foi bom demais esse momento. Depois voltamos e comemos umas pizzas pra comemorar. No final do jantar, eu e o Matheus agradecemos a Karine e ao Mário por aqueles dias mais que especiais. Na verdade, não há palavras para agradecer tudo que eles fizeram por nós, mas tentamos. Terminamos o dia assistindo o final do jogo do Atlético Parananense contra o Fluminense pela semifinal da sulamericana. Antes de dormir eu e o Matheus conversamos sobre como tudo aquilo tinha sido bom demais. Estávamos atraindo coisas melhores que imaginávamos e tínhamos certeza que no dia seguinte as caronas aconteceriam. Foto 3.15 - João, Mário, Laica (no chão), Karine, Zeca (escondido entre a Karine e o Matheus), Matheus, Marley, Maia e eu. Antes das sete da manhã saímos de São Miguel das Missões. O Mário nos deixou no posto que fica no trevo que dá acesso a cidade (mais ou menos 15km). Nos despedimos pela última vez do Marião e agora outra vez iriamos tentar seguir nosso caminho por meio de caronas. Nunca imaginaria que voltaria para São Miguel tão cedo. Três anos depois estava eu lá, novamente. Da outra vez foi só uma visita, já dessa vez vivi um pouquinho a cidade e tive o prazer de conhecer o casal que as ruínas uniu. Karine e Mário, não consigo traduzir em palavras o que vocês significaram para mim nessa viagem ou o quanto gosto de cada um de vocês. Nada do que eu falar vai equiparar o quão bom vocês foram, o que eu tenho que fazer é aprender com o exemplo de vocês e tentar ser um cara melhor daqui pra frente. Muito obrigado por tudo, de coração.
  20. 1 ponto
    Parte 2 - A Serra Catarinense vista por Urubici “Nunca temamos com os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos, esses são os ladrões; os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?! Preocupemo-nos apenas com o que ameaça nossa alma.” Os Miseráveis, Victor Hugo Ficamos a manhã toda na rodovia em Indaial na tentativa de pegar uma primeira carona pra Ibirama. Caminhamos pela rodovia a procura de um bom lugar pra pedir carona, esse lugar não surgiu. A estrada estava entupida de caminhões. A primeira vista parecia que seria fácil conseguir, mas era só impressão. No fim da manhã começou a chover e vimos que não seria fácil chegar em Urubici nesse mesmo dia. Não queria perder o couchsurfing, tinha muita vontade de conhecer Urubici. As palavras do Luis estavam frescas na memória e parecia mais uma premonição, então decidimos desistir das caronas e ir de ônibus. Figura 2.1 - O insucesso das caronas em Indaial Uma coisa que me irrita um pouco tanto em Santa Catarina como no Rio Grande do Sul é a falta de informação de linhas e horários de busões pelo estado, além dos atendentes também não saberem informar nada mais do que os horários de saída na própria cidade. Assim, as únicas informações que tínhamos pra chegar em Urubici era por Floripa. Eu sabia que se seguíssimos para Ibirama a chance de termos sucesso e pegar algum ônibus que chegasse próximo de Urubici era grande, mas a falta de informação nos tornou conservadores e optamos de ir por Floripa, isso faria a gente dar uma volta bem maior. Voltamos pra Blumenau e de lá conseguimos um BlaBlaCar até Floripa. O interessante nesse ponto da viagem é que a guria que nos levou até Floripa faz um tipo de Uber nesse trajeto Blumenau/Floripa pelo BlaBlaCar. Ela coloca dois horários fixos todos os dias neste trajeto e se dá um número mínimo de pessoas ela segue viagem. Não sei bem o que acho sobre isso, porque a chance dela desmarcar a viagem é grande demais. A viagem foi engraçada, a moça só falava de tragédias que havia acontecido naquela rodovia, só estava eu e o Matheus como passageiros. Rezei para a lei da atração não se fazer valer (risos). As rodovias por Santa Catarina nunca decepcionam e este trecho é lindo demais. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a guria da direção. O valor que ela cobra por pessoa neste trecho é de trinta reais, sendo que por trecho ela pode receber um valor bruto de cento e vinte reais. Em um dia ela faz duas viagens Blumenau/Floripa, o que equivale a quatro trechos, o que dá um valor bruto de 480 reais por dia. Isso parece uma boa grana, mas quase nunca o carro vai cheio e o maior agravante é que o carro não é dela. Ela aluga o carro por um valor de 120 reais o dia, fora o seguro, pedágio e a gasolina. Sai do carro naquele dia com a impressão que aquele negócio dela não era uma boa ideia. Anos antes quando eu fiz meu mochilão pelo Brasil não consegui couchsurfing e refuguei conhecer a serra catarinense, e acabei indo para a região dos cânions na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com isso, a serra virou um assunto mal resolvido. Queria muito estar lá. Por isso, deu um certo alívio chegar na rodoviária de Floripa e ter a certeza que manteríamos o combinado com a Leandra e chegaríamos naquele mesmo dia em Urubici. Urubici é uma pequenina cidade de pouco mais de dez mil habitantes situada na serra catarinense. As principais atividades da cidade são o turismo e a produção de frutas. A cidade se destaca por ter registrado a temperatura mais fria da história de nosso país (-17,8 graus registrado no Morro da Igreja no ano de 1996). Chegamos em Urubici já era quase meia noite, saímos caminhando pela cidade a procura da casa da Leandra. Mesmo com o horário, a Leandra nos recebeu com o sorriso no rosto, já a Kalyssa nos recebeu com suas lambidas e mordidas intermináveis. Conversamos bastante antes de dormir e a Leandra se mostrou muito alegre e alto astral. Faz pouco tempo que a Leandra está no couchsurfing, mas o que me chamou a atenção foi que ela estava meio desacreditada com a plataforma até então, porque vinha diversos pedidos de hospedagem para ela onde a galera (geralmente casais) fazia exigências pensando que a casa dela era um hotel. Não sei bem ao certo o que as pessoas acham o que é o couchsurfing, mas me entristece ver isso, porque uma má experiência para quem hospeda pode ser motivo da pessoa sair da plataforma e assim, tirar a oportunidade de muitas pessoas de conhecer um lugar por uma ótica diferente. A casa da Leandra é uma belezura de lugar. Hoje em dia ela ganha a vida alugando dois quartos de sua casa no Airbnb. Recentemente ela reservou um quartinho para disponibilizar no couchsurfing. A casa é toda aconchegante. A ideia da Leandra com o Airbnb é de se dar a oportunidade de viver viajando no futuro. Ela sente muita necessidade de sair de Urubici para conhecer novos lugares e novas pessoas. Acredito que ela esteja naquela fase de amarras e insegurança, e que falta apenas um impulso para sair viajando. Ela virou mãe muito cedo e teve que ralar muito pra criar os filhos. Hoje seus dois filhos já vivem suas próprias vidas. Creio que as amarras se foram, mas ainda é preciso superar a insegurança pra partir. Vou falar um pouco da minha experiência de partida. Só fiz meu primeiro mochilão com 27 anos, mas desde os 16 ou 17 anos sentia vontade de mochilar, principalmente para Machu Picchu. Os anos foram passando e sempre colocava outra coisa na frente da mochilada. Primeiro foi uma olimpíada do conhecimento, depois o trabalho, mais tarde o vestibular, graduação e trabalho novamente. Na graduação tive um descolamento entre pensamentos. Eu era muito convicto do que queria pra mim, pois sou de família humilde e ouvi a minha vida inteira que só estudando seria alguém na vida. Então, o que eu fiz foi estudar. Estudei muito. Tive muitas oportunidades com o estudo, mas ao mesmo tempo conforme ia ampliando o conhecimento técnico eu sentia um vazio dentro de mim. Estava ganhando muita coisa de um lado e de outro estava perdendo muitas outras coisas. A balança da vida é algo complicado. E esse vazio começou a desaparecer quando comecei a participar dos projetos sociais, como o Projeto Rondon e a TETO. A causa social que sempre esteve junto a mim ganhou prioridade e aquilo me fazia bem. Comecei a me contextualizar dentro da sociedade e queria de alguma forma ajudar. Estar no interior do Brasil ou dentro de favelas, me fez ser uma pessoa melhor, pois me fez perder diversos preconceitos. Ahh, como esses projetos me faziam bem. Quando a graduação terminou e me distanciei destes projetos, sentia a necessidade de viver o diferente novamente, de injetar vida em minha vida e a forma que encontrei foi mochilando. Por isso para mim, mais importante que viajar é como se viaja. Demorei dez anos para conseguir partir, agora pra mim a partida é fácil, pois quando vejo que endureço com a vida é hora de lembrar a quantidade de coisas boas que existem no mundo e o quanto que tenho a aprender com essa legião de boas pessoas que te ajudam sem mesmo saber quem é você. Não sou hipócrita de achar que essa é a única forma, para mim é a que funciona hoje, mas certamente num futuro próximo terei que buscar outras formas de não deixar a vida se escapar de mim. Acredito que cada pessoa que anseia mochilar, ao menos uma vez, terá que enfrentar seus próprios medos e encontrar a sua maneira de vivenciar esse mundo louco, mas cheio de belezas humanas e naturais. Acordamos cedo, como de costume. Pegamos umas dicas de lugares pra conhecer com a Leandra e decidimos seguir a pé para a cachoeira do Avencal. A cachoeira fica distante uns 8km da casa da Leandra. O acesso se dá na rodovia que liga Urubici com São Joaquim. Caminhamos na esperança de conseguir uma carona até a entrada do parque onde fica a cachoeira. O dia estava quente demais. Caminhamos e caminhamos. Para todo veículo que passava nós esticávamos o dedão na esperança de conseguir uma carona. Que saudades das Chapadas nessa hora, que mesmo sem pedir as pessoas ofereciam carona. A frase do Luis estava na cabeça e decidimos seguir caminhando sem pedir carona, e foi muito bom apesar do sol. Existem dois parques para avistar a Cachoeira do Avencal, fomos direto pro segundo, conforme conselho da Leandra. No primeiro mirante se paga cinco reais para entrar e se tem uma visão bem ruim da cachoeira. Sorte que a Leandra nos preveniu. No segundo mirante, que é o mais antigo, se paga sete reais na entrada e se tem uma bela vista da cachoeira. Ficamos um bom tempo ali, comemos nosso lanche e voltamos caminhando. Na volta o caminho é só descida e a visão da serra é lindíssima. Foto 2.2 - O início da caminhada Foto 2.3 - Na esperança de uma carona Foto 2.4 - Subindo Foto 2.5 - Não entre nessa Foto 2.6 - Quase lá Foto 2.7 - A cachoeira do Avencal Foto 2.8 - A cachoeira do Avencal Foto 2.9 - A cachoeira do Avencal Foto 2.10 - Para além da cachoeira Voltamos para a casa da Leandra, ainda era meio da tarde. Ela nos emprestou duas bicicletas e partimos para o Morro do Campestre. A pedalada foi boa. Tivemos que acelerar algumas vezes por causa de cachorros que estavam louquinhos para morder nossos pés. É possível avistar o morro de longe e quanto mais se aproxima mais lindo ele vai ficando. Depois de pouco mais de uma hora de pedalada chegamos ao pé do morro. Pagamos acho que dez reais de entrada e deixamos as bikes na entrada para subir a pé. Mais vinte minutos de caminhada e chegamos. Exploramos todo o morro. Pela tarde o tempo começou a fechar e as nuvens pintaram o céu. Por muito tempo foi somente eu e o Matheus no Morro do Campestre. Que belezura de lugar Foto 2.11 - .A subida de a pé até o Morro do Campestre Foto 2.12 - O bonitão do Campestre se anunciando Foto 2.13 - Matheus fazendo seu desejo após atravessar o portal Foto 2.14 - O cenário visto do topo do Morro do Campestre Foto 2.15 - Eu e o portal Foto 2.16 - E o céu se fechou Foto 2.17 - Explorando um pouco mais Foto 2.18 - Eu e a pose de sempre Na volta pedalamos mais tranquilamente. Caraca, como é bom pedalar. Cheguei a pensar em fazer essa viagem de bicicleta, foi a ideia que mais ficou em minha mente, mas não foi dessa vez, entretanto só de estar ali pedalando aquele trechinho a sensação de liberdade e autonomia era grande demais. Chegamos e cozinhamos um macarrão com atum, ficou meio bosta, mas a Leandra mentiu dizendo que estava bem bom. O dia foi bem corrido, bem cedinho já estávamos dormindo. Foto 2.19 - Matheus e a volta de bike Acordamos e vimos que chovia muito e a previsão era que choveria o dia todo. Assim, tiramos o dia pra tentar ajeitar alguma carona no futuro. Neste dia conversamos com muitos frentistas, donos de restaurante, etc. Todos diziam que seria muito fácil se fosse pelo meio de dezembro, na época de colheita das frutas, mas que por agora seria difícil. Fizemos o nosso dever de casa, tentamos. Era um sábado, dia de final de libertadores e eu e o Matheus estávamos muito afim de assistir o épico River x Boca. Foi difícil demais achar um boteco para ver o jogo. Sentamos e ficamos acompanhando a história do apedrejamento do ônibus do Boca. Fiquei bem chateado com tudo aquilo, queria demais que rolasse aquele jogo. Voltamos para casa da Leandra e o Matheus cozinhou uma lentilha bem encorpada. Ficou boa demais. Dessa vez a Leandra elogiou com razão. O Aílton irmão da Leandra jantou conosco nesse dia também. Foto 2.20 - A Catedral de Urubici A Leandra sabia que nossa principal intenção na cidade era conhecer o Cânion Espraiado. O Cânion fica mais de 40km do centro da cidade, então não daria pra ir caminhando. Caronas seria quase impossível, a cidade estava vazia naquele final de semana e os poucos que trafegavam por lá não se mostraram muito receptivos em oferecer carona. Neste sábado a Leandra conseguiu um carro emprestado para o dia seguinte nos levar até a entrada do Espraiado. O Aílton se prontificou de ir dirigindo, pois nem eu, nem Leandra e Matheus dirigem. Cara, nesse dia fui dormir mais que feliz, ver a Leandra e o Aílton se mobilizando para que nos dois tivéssemos a oportunidade de conhecer o Espraiado é das coisas mais bonitas que aconteceu nessa viagem. Acordamos cedo e partimos para o Espraiado. O dia se anunciou todo ensolarado, com pouquíssimas nuvens no céu. O caminho até a entrada é bem bonito, primeiro pega-se um rodovia asfaltada e depois um pista toda de terra. A Kalyssa foi junto e fez a festa dentro do carro. Chegamos cedo na entrada da trilha, nesta parte seguiu somente eu e o Matheus. A Leandra e o Aílton voltaram pra Urubici e combinamos um horário pra nos encontrarmos no mesmo lugar. Deste ponto até o Espraiado são 8km, e seguimos caminhando. O caminho é uma belezura, todo envolto de montanhas, árvores, flores e um rio para embelezar ainda mais o cenário. A caminhada foi tranquila. Quando chegamos no ponto mais alto era possível avistar o Cânion Espraiado. Quando eu o avistei sai correndo. A neblina estava subindo e começando a esconder o Espraiado. Pela minha experiência com cânions, sabia que era questão de minutos para que a neblina tomasse conta de todo o cânion. Enfim, corri. Chegamos na borda do cânion e ainda era possível ver o seu contorno. Seguimos caminhando pela borda. Como tinha chovido no dia anterior, o terreno parecia um brejo e atolamos umas duas vezes pelo caminho. A neblina dominava. Sentamos para comer. Quando terminamos tudo estava encoberto por neblina, não era possível enxergar mais que um metro na frente. Nessa hora o respeito a natureza tem que existir, e assim cuidadosamente seguimos o caminho para longe da fenda do cânion. Ainda ficamos um tempo no topo de uma cachoeira. No inicio da tarde iniciamos a trilha de volta ao ponto de encontro. A volta foi tranquila. Quando avistamos o ponto de encontro a Kalyssa estava junto da Leandra caminhando. Foto 2.21 - O ponto inicial Foto 2.22 - Que belezura! Foto 2.23 - Matheus caminhando Foto 2.24 - Eu e essa beleza de lugar Foto 2.25 - Matheus e essa foto show Foto 2.26 - O caminho pro Espraiado Foto 2.27 - O momento que decido correr Foto 2.28 - O Espraiado e a invasão de nuvens Foto 2.29 - A chegada na fenda Foto 2.30 - Eu e o Espraiado Foto 2.31 - Uma pose desnecessária Foto 2.32 - A nuvem Foto 2.33 - Matheus desaparecendo na neblina Foto 2.34 - O único lugar que não estava tomado por neblina Foto 2.35 - Que agora estava começando a ser tomado pela neblina Foto 2.36 - O topo da cachoeira Foto 2.37 - A cachoeira vista de cima Foto 2.38 - O caminho de volta Foto 2.39 - O caminho de volta [2] Foto 2.40 - Leandra e Kalyssa No caminho de volta pra casa da Leandra paramos na Gruta Nossa Senhora de Lourdes. A gruta abriga uma mini igreja ao ar livre com direito a uma cascatinha que deságua do lado do altar. Coisa linda de se ver. Nunca tinha visto nada parecido. Depois eu e o Matheus fomos para o mercado e compramos os ingredientes para fazer cachorro quente e também umas cervejas, afinal meu aniversário era no dia seguinte. Pela noite comemos e bebemos. Demos risadas e a despedida já marcava o tom da conversa. Foto 2.41 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes Foto 2.42 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes Foto 2.43 - Eu, Matheus, Kalyssa, Leandra e Thayran (filho da Leandra) Acordamos cedo, fizemos uns lanches para levar na viagem. Resolvemos seguir de ônibus até o nosso próximo destino. Nos despedimos da Leandra e seguimos para Bom Retiro e depois Lages. Essa etapa da viagem foi das mais importantes. Eu e o Matheus conversamos bastante sobre como estava dando certo a viagem até aqui e que só faltava encaixar algumas caronas para tudo ficar perfeito. Nos dias em Urubici também conversamos muito sobre a necessidade de ter raiz em algum lugar e tentar fazer algo por esse lugar, e de alguma forma retribuir as oportunidades que tivemos nessa vida. Outra coisa da qual filosofamos um pouco foi que era fácil encontrar beleza em qualquer lugar enquanto se é viajante, mas que o principal desafio é ter essa mesma perspectiva no lugar em que estamos no dia a dia. Leandra, como eu te disse pessoalmente, muito obrigado por ter me dado a oportunidade de conhecer sua cidade e essa beleza que é a serra catarinense. Espero, de coração, que você consiga realizar esse seu sonho de conhecer novos lugares, de conhecer a visão de mundo de novas pessoas e de caminhar pelo desconhecido. Espero também que nunca perca sua alegria e que deixe as coisas acontecerem no seu devido tempo, mas quando partir for uma necessidade insuportável, apenas vá. Afinal, haverá diversas Leandras por ai de coração aberto para te ajudar em seu caminho. Novamente, obrigado e um beijo na alma.
  21. 1 ponto
    Parte 1 - De Rio Claro até Timbó: o mesmo início de outra vez "Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram." Religião e Repressão, Rubem Alves Desde que comecei o mestrado, eu sabia que no final iria viajar pela patagônia. Em duas oportunidades havia planejado conhecer a terra dos ventos e nessas duas vezes refuguei para ver outros lugares. Dessa vez não tinha como fugir, seria a patagônia. Porém, não sabia como seria essa viagem. Não havia nada planejado, somente recordações de planejamentos passados. Depois do turbilhão, pelo qual passei, contatei o Matheus e disse somente: - Bora viajar até Ushuaia com pouca grana?. Não fazia ideia de como seria, nem sei mesmo se tinha certeza da viagem, mas ele topou e agora tinha que ir. Matheus é um amigo que conheci na graduação. A proximidade entre nós veio a partir de trabalhos sociais dos quais participávamos. Depois disso, fizemos estágio na mesma empresa, dividimos um apartamento e fizemos o nosso primeiro mochilão juntos após o fim da faculdade. Depois cada um seguiu sua vida em lugares distintos do Brasil. Antes da viagem o Matheus estava morando em uma ecovila em Piracanga na Bahia. Costumeiramente, toda sexta-feira noite o pessoal de casa toma umas cervejas em frente de casa. Numa destas sextas o Leandro e Flávia pararam para conversar. A Flávia trabalhou muitos anos com minha mãe e o Leandro é caminhoneiro. Conversando com o Leandro, ele disse que estava sempre fazendo o trajeto até Joinville. Na hora já perguntei se teria como dar carona pra duas pessoas. Prontamente, ele disse que sim, mas que não necessariamente seria ele o caminhoneiro que iria nos levar. Assim, de maneira inusitada a viagem ganhou forma. Iriamos começar por Joinville. Depois de definido a primeira parada da viagem, veio em mente um destino que eu sempre tinha muita curiosidade em conhecer, a Serra Catarinense. Dei uma pesquisada rápida no couchsurfing e entrei em contato com a Leandra. Desde o princípio ela mostrou-se disposta a nos receber e, consequentemente, marcamos a data da nossa chegada em Urubici conforme a disponibilidade da Leandra. Entre a data de chegada em Joinville e o início dos dias em Urubici tinha cerca de quatro dias. Precisava preencher esses dias. Anos antes tinha iniciado meu mochilão solo pelo Brasil por Timbó, uma pequena cidade próxima de Blumenau, e tinha sido muito bem recebido pela família Nasato nesses dias, além de ter sido muito feliz ao lado deles. Tinha saudades daqueles dias. Assim, entrei em contato com a Brunê e expliquei a minha nova viagem que se iniciava e da minha vontade de estar ali de novo. Ela topou nos receber também. Agora o início do mochilão estava definido, sabíamos que iriamos pra Joinville, Timbó, Urubici e em algum momento Ushuaia. Era um domingo, dia 18 de novembro, acordei cedo e arrumei a mochila. Fiquei a manhã toda ouvindo música, pois sabia que sentiria falta disso. (Nas minhas viagens não levo música no celular e muito menos fones de ouvido. O motivo disso é porque gosto de estar em contato em todo momento com o lugar que estou, observando cada detalhe.) Almocei e fiquei aguardando o Matheus chegar de Piracicaba. Creio que era umas duas horas da tarde quando o Matheus chegou junto a seu pai. Nos cumprimentamos e ele parecia muito animado pela viagem que se anunciava. Depois de uns vinte minutos o Leandro chegou. O Leandro não seria o caminhoneiro que ia conosco até Joinville, mas ele veio nos buscar para levar até a empresa que sairia o caminhão. Colocamos nossas mochilas no carro, me despedi da minha mãe e partimos. Chegamos na transportadora e logo o Leandro nos apresentou ao Capitão, o caminhoneiro que iria nos levar. Ficamos um tempo conversando. Ajeitamos nossas mochilas junto a carga. O Matheus nunca havia viajado de caminhão e estava todo animado com tudo aquilo. Subimos na gigantesca cabine do caminhão e pela janela demos o último adeus para o Leandro. Foto 1.1 - A transportadora Acho que o Leandro é o personagem mais importante desta viagem. Se não fosse ele e seu pontapé inicial, talvez nem tivéssemos saído de casa. Mesmo não viajando por aquela rota nesses dias, ele foi atrás de alguém que faria o trajeto e conseguiu nos colocar naquele caminhão. Nos dias que antecederam a viagem eu e o Matheus pouco nos falamos, pois eu estava recluso pela perda da minha vó. Apesar de ter fechado passar por Timbó e Urubici, a partida não era certa. Quando recebi a ligação do Leandro com a confirmação do caminhão, senti que tinha que partir e deixar a estrada me levar. Só nesse momento tive a certeza que partiria. Leandro, muito obrigado por tudo e por fazer acontecer essa viagem. Estamos na estrada e vamos percorrendo a Washington Luís. Logo seguimos pela Anhanguera sentido São Paulo. A excitação de todo começo de mochilada me contamina. O clima dentro do caminhão é muito bom. Seguimos o caminho dando risadas. O Capitão é um cara gente boa demais, mineiro que há muito tempo vive em Rio Claro, é chamado de Capitão por causa do futebol, diz ele que fala bastante durante o jogo e sempre é o capitão dos times que joga. Os assuntos orbitavam entre futebol e mulheres. Clima leve, pista sem congestionamento. Entramos na Régis Bittencourt e, em seguida, paramos pra tomar um café e aproveitamos pra ver um pouco do jogo do tricolor. Seguimos na estrada. Chovia muito. Paramos pra outro café e comemos a torta feita pela minha mãe. Antes da meia noite chegamos em Curitiba. Paramos em um galpão da transportadora e arrumamos nossas coisas pra dormir ali, lá pelas quatro/cinco da manhã pegaríamos carona com outro caminhão até Joinville. Foto 1.2 - A estrada Quase não dormi nessa noite, até ali estava sem isolante térmico e dormi direto no chão e estava frio, mas não foi esse o motivo de eu não pregar o olho. Tinha uma cadela no cio no galpão e com isso uns vintes cachorros estavam na frente do galpão do lado de fora. A algazarra era grande. Eles ficavam se batendo no portão, enquanto a cadela uivava. Quando o silêncio tomou conta do galpão, já era hora de partir. Nos despedimos do Capitão e pegamos carona com o José. José é um cara muito tranquilo e que gosta muito de música sertaneja. Apesar de estar com muito sono, consegui conversar bastante com o José. Gostei bastante dele. A viagem foi tranquila. Foto 1.3 - O galpão Chegamos em Joinville e nos despedimos do José. Fomos até a rodoviária e checamos que não havia mais linhas que faziam Joinville/Timbó, com isso teríamos que ir pra Blumenau e depois Timbó. Compramos nossas passagens para o início da tarde e fomos até a Decatlhon comprar algumas coisas que faltavam. Comprei uma calça e uma camiseta segunda pele e também o isolante térmico. Na rodoviária vimos ônibus saindo para a cidade de Doutor Pedrinho (risos), já vi muitos nomes ruins de cidade, mas acho que Doutor Pedrinho é o pior deles, se alguém me falasse que era de Doutor Pedrinho (antes de saber da existência da cidade) eu ia achar que ela morava em um clínica ou estava de favor na casa do Pedrinho. Fomos pra Blumenau e chegando na rodoviária já estava saindo o bus para Timbó. Entramos no ônibus. No final da tarde estávamos em Timbó. Saímos caminhando pela cidade e todo carro que passava por nós buzinava ao nos ver com aquelas mochilas. Imaginamos naquele momento que seria muito fácil pegar carona, ledo engano. Sentados no meio fio esperando a Brunê (que estava voltando de um camping) viramos atração turística e os carros continuavam com o buzinaço. Depois de um tempo a Brunê surgiu na rua, que saudades eu estava. Foto 1.4 - Única foto de Joinville que tiramos Brunê é uma guria cheia de talentos. Hoje em dia junto com a Mel, comanda um restaurante vegano em Timbó chamado Aruanda. Ela está sempre sorrindo e coloca em prática quase todas as ideias que tem, enfim, ela tem atitude. Seguimos pra casa dela e fomos recepcionados pela Mog e suas lambidas. De longe vi a Rose (mãe da Brunê) e eu abri o sorriso nesse momento, parece clichê ou repetição, mas tinha muitas saudades. Na outra vez que estive na casa dos Nasatos, passei boa parte do meu tempo conversando com a Rose, é muito fácil ficar horas jogando conversa com a Rose. Dei um abraço forte e logo estávamos conversando na mesa da cozinha. Em seguida o Pini (pai da Bruna) apareceu também pela cozinha. Pini é um cara gente boa demais e logo que soube que nossa próxima parada seria Urubici tentou verificar com seus contatos se havia algum caminhão que podia nos levar pra lá. Não havia nenhum caminhão, mas só a atitude dele querer ajudar me deixou muito feliz naquele momento, fez eu ter mais certeza que tinha tomado a decisão correta de ter partido. Foto 1.5 - Grafite mais que bacana no quintal da casa da Brunê Timbó é uma cidade de pouco mais de quarenta mil habitantes. A maioria dos seus habitantes dormem com o portão aberto e quase não há problemas de violência na cidade. Apesar de ser pequena, Timbó tem um importante polo industrial com diversos tipos de industrias. Diferentemente do restante do Brasil, a cidade tem empregos de sobra e a saúde familiar instaurada no município funciona muito bem. Resumidamente, é um lugar calmo e cheio de oportunidades, e com certeza eu moraria ali. Foto 1.6 - Belezura de casa em Timbó No outro dia, acordamos cedo e fomos para o centro de Timbó. Resolvemos a questão de banco para o restante da viagem e sacamos o dinheiro que levaríamos em espécie. Depois compramos uma panela com tampa para cozinhar na estrada. De resto ficamos na frente do rio Benedito apreciando o cartão postal da cidade, que é uma ponte que atravessa o mesmo rio. No meio da tarde fomos pra Aruanda apreciar a gastronomia das meninas. Que comida boa. Nesse dia tinha um feijão com beterraba que era mais que bom. Depois voltamos para casa dos Nasatos e ficamos proseando com o Pini pelo resto da noite, ele ainda nos apresentou a iguaria pão com presunto, queijo e picles. Gostei bastante. Foto 1.7 - Cartão Postal de Timbó Foto 1.8 - Rio Benedito e a casa enxaimel Foto 1.9 - Matheus modelando No dia seguinte o Matheus acordou cedo e foi ajudar as meninas no restaurante. Ele trabalhou um pouco com gastronomia vegana na ecovila que ele morava e havia comentado sobre uma receita de lasanha que conhecia, as meninas gostaram da ideia e resolveram colocar no cardápio neste dia. Enquanto Brunê, Matheus e Mel trabalhavam no restaurante, eu fiquei na casa e coloquei a prosa em dia com a Rose, ficamos quase a manhã toda conversando e depois fui para a Aruanda almoçar. Aruanda é uma quebra de paradigma em Timbó, pois numa cidade onde há dois grandes frigoríficos e pouca gente conhece a alimentação vegana é um negócio arriscado abrir um restaurante vegano, mas as meninas abraçaram a ideia e abriram o primeiro restaurante vegano de Timbó. E nos dias que fiquei pelo restaurante muita gente comeu por lá, parece que está dando muito certo. Foto 1.10 - Entrada da Aruanda Foto 1.11 - Aruanda Foto 1.12 - Aruanda Foto 1.13 - Aruanda Foto 1.14 - Aruanda Depois do almoço eu e o Matheus fomos caminhar até o jardim botânico da cidade. O lugar é bem longe do centro da cidade. Paramos por um momento pra tomar o primeiro Laranjinha da viagem. Sou viciado nesse refrigerante que mais se parece com um líquido radioativo e que só acho por Santa Catarina. O jardim botânico é um lugar bem bonito e como é de se esperar cheio de verde. Esse dia estava muito quente. Passamos boa parte da tarde ali e voltamos para a Aruanda. Foto 1.15 - Jardim Botânico de Timbó Foto 1.16 - Jardim Botânico de Timbó Foto 1.17 - Jardim Botânico de Timbó Na volta para a Aruanda, a Brunê perguntou se queríamos ir para Rio dos Cedros, pois ela iria levar uns equipamentos no centro holístico de lá. Dissemos "Bora". Aqui pela primeira vez minha vista ficou encharcada de tanta beleza nesta viagem. O caminho entre Timbó e Rio dos Cedros é lindo demais, cheio de morros, rios e verde, é coisa de cinema. Fiquei em silêncio e como um cachorrinho coloquei a cabeça pra fora do carro pra ficar admirando aquela belezura de caminho. Chegamos no centro holístico, caminhamos um pouco pelos arredores e conhecemos o Luis. Foto 1.18 - Matheus, Mel, Brunê e eu (foto tirado momentos antes de irmos para Rio dos Cedros) Foto 1.19 - Centro holístico em Rio dos Cedros Luis é um uruguaio de uns quarenta e cinco anos (um chute!) e que vive no Brasil desde o segundo Rock in Rio. Ele é um artista plástico que utiliza materiais recicláveis em suas obras. Sua história com o Brasil é meio maluca. Ele viajou para o Brasil de carona para assistir o Rock in Rio. Chegando em Porto Alegre ele teve algum problema e não conseguiu viajar para o Rio, e teve que ver numa televisão o show. Depois seguiu até Santa Catarina de carona, ao cruzar o estado ele ficou uns três dias na pista sem conseguir carona, ele queria chegar em Balneário Camboriú. De saco cheio resolveu ir caminhando e depois de trinta dias ele chegou em Balneário e é onde está até hoje. Ele enfatizava que caminhava 7km a cada período, ou seja, 7km pela manhã, 7km a tarde e 7km de noite, todos os dias. Luis é um sujeito peculiar e nos cantou a bola dizendo: - Aqui em Santa Catarina é muito difícil conseguir carona. Foto 1.20 - A belezura de casa em Rio dos Cedros Foto 1.21 - Matheus, Brunê e Luis Foto 1.22 - Eu camuflado no verde de Rio dos Cedros Foto 1.23 - O centro holístico Ficamos a noite vendo as obras do Luis. Confesso que fiquei fascinado por uma que era o desenho de uma rua comum cheia de casas em volta, mas com a diferença que a faixa de pedestre ocupava toda a rua. Quando ele explicou que a intenção da obra era dizer que a rua é dos pedestres e não dos carros, nesse momento eu só podia sorrir. Na volta paramos em um bar no centro de Timbó. Bebemos umas brejas, filosofamos sobre a vida e a situação política do país, e demos muitas risada também. Chegamos de madrugada na casa dos Nasatos, arrumamos nossas mochilas, pois queríamos sair bem cedo para a rodovia. Tinhamos que chegar em Urubici no dia seguinte e a ideia era fazer o trajeto de carona, então decidimos sair o mais cedo possível. Acordamos bem cedo e seguimos para Indaial. Saímos sem se despedir da Rose e o Pini (eles estavam dormindo), isso me deixou meio mal. A Brunê nos deixou na pista. Acho que dei uns três abraços de despedida nela. Agora era eu, o Matheus e a rodovia. Nesta parte da viagem eu ainda estava meio travado por tudo que havia me acontecido. Não conseguia aproveitar com plenitude a viagem, mas estar junto da família Nasato me fez mais que bem. As conversas com a Rose me fizeram pensar muito sobre como encarar toda aquela bagunça na qual estava minha mente. Sou só gratidão a Brunê, Rose e Pini por ter me recebido mais uma vez e dessa vez com o Matheus. Muito obrigado de coração, e espero que tenham muita vida nessa vida maluca. Um beijo na alma.
  22. 1 ponto
    DIA 1 – ESTRADA + SÃO RAIMUNDO NONATO/PI Petrolina/PE é a cidade base mais comum para quem quer conhecer a Serra Capivara com aeroporto mais próximo do que Teresina. Vale a pena tirar um dia da viagem, antes ou depois, para aproveitar um dia na bela região do Rio São Francisco. São 2 opções de trajeto: via Remanso/BA com 45km de estrada de terra e via Queimada Nova/PI que foi o que fizemos. Não sei informar como está o percurso via Remanso, mas disseram que é mais curto e rápido. De Petrolina seguimos por ~ 120km até Afrânio/PE onde almoçamos a R$ 20,00 a vontade no restaurante do posto Petrobras (Restaurante Reis). Seguir por mais ~ 21km até o Posto Fiscal de Pipocas onde acessa-se a estrada local Rod. Dom João Kot I à esquerda em condições razoáveis até Queimada Nova/PI; daí pega-se a PI-459 num percurso de ~ 170km até São João do Piauí onde vira-se à esquerda na BR-020 por mais 98km até SRN. De Petrolina a São Raimundo: ~ 410km, ~ 6h. O percurso entre o posto fiscal de Pipocas e São João do Piauí está em condição mediana a razoável e é um atrativo a parte. São curvas, serras e animais que obrigam a reduzir a velocidade, mas a paisagem árida compensa. A sensação é de estar viajando no tempo, numa região esquecida, de casinhas abandonadas e vida pacata para quem ficou. A terra é vermelha e pedregosa. Trechos com chão rachado. Vegetação cinzenta e seca. Árida. Para quem quer experimentar a caatinga de verdade vale a pena viajar por aqui. Fauna “Nativa” – Sertão do Piauí – Caatinga – Semiárido Casinhas Abandonadas – Sertão do Piauí – Caatinga – Semiárido Entrada da Cidade – Seriema – São Raimundo Nonato/PI A Pousada Ninho da Siriema fica colada na rodoviária e na entrada da cidade para quem vem de São João do Piauí. Combinamos com o guia, que foi até a Pousada, 2 dias de passeio e saímos para uma volta pela cidade. São Raimundo tem infraestrutura para turismo com bancos, pousadas, bares e restaurantes, mas nenhum atrativo que compense pagar mais caro para ficar no centro da cidade. Sacamos dinheiro, compramos lanche, visitamos a Igreja de Santa Luzia e a feirinha do lado dela. Comemos sanduíche (R$10) na praça movimentada em frente a Pousada Zabelê e caminhamos pela cidade até a Praça do Relógio, passando pela feira livre que estava fechada. DIA 2 – PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CAPIVARA: CIRCUITO DESFILADEIRO DA CAPIVARA + FÁBRICA DE CERÂMICA TRADICIONAL + SÍTIO DO MEIO + MIRANTE ALTO DO BOQUEIRÃO DOS RODRIGUES O acesso ao Circuito do Desfiladeiro da Capivara é muito fácil. Seguimos pela BR-020 por 40km de SRN sentido São João até a Guarita da BR-020, com várias placas de indicação do acesso. Não tem erro. Saímos da pousada às 7:30. Circuito do Desfiladeiro da Capivara: Mapa – Detalhe – Parna Serra da Capivara Pagamos ingressos na portaria com lojinha, entramos com o carro em uma estrada do tipo one way (sentido único), de terra em boas condições. Circuito do Desfiladeiro: One Way – Macaquinhos – Parna Serra da Capivara As atrações ficam ao longo ou a poucos metros de caminhada da estrada. É só parar o carro, descer e apreciar. Infelizmente nosso guia não quis nos levar até as atrações que exigiam mais do que 20 minutos de caminhada. As pinturas são da Tradição Nordeste e da Tradição Agreste, Subtradição Várzea Grande, Estilo Recuado, Estilo Serra da Capivara e Estilo Serra Talhada. Tem figuras antropomorfas (humanos) e da fauna e flora, em cores vermelho, amarelo e branco acinzentado. Atrações Vistas no Circuito Desfiladeiro da Capivara bem próximas à estrada: Toca do Pajaú, Toca da Entrada do Pajaú, Gruta Inferno, Toca do Barro, Toca da Entrada do Baixão da Vaca (antropomorfo) e Toca do Paraguaio (vestígios de duas ossadas). Todas têm acesso fácil, algumas com acessibilidade. As inscrições rupestres são um atrativo adicional pois toda a geomorfologia, as grutas, a infraestrutura, a fauna (mocó, macacos, lagartos, etc) e flora (mandacaru, facheiro, xique-xique), tudo é belíssimo. Atrações que NÃO visitamos: Toca Pequena da Areia, Toca Nova da Estrada, Veadinhos Azuis, Mulundu, Eminhas Azuis, Toca do Deitado, Gameleira do Baixão da Vaca, Fundão do Baixão da Vaca e Boqueirão do Paraguaio. Circuito do Desfiladeiro: Toca do Pajaú – Pinturas – Tradição Nordeste – Estilo Recuado Circuito do Desfiladeiro: Gruta Inferno – Sem Pinturas – Microclima Fresco – Mata Alta Circuito do Desfiladeiro: Toca do Barro – Pinturas Minúsculas – Infraestrutura Circuito do Desfiladeiro: Toca da Entrada do Baixão da Vaca – Pinturas – Festa Circuito do Desfiladeiro: Toca da Entrada do Baixão da Vaca – Subida – Mirante Circuito do Desfiladeiro: Toca do Paraguaio – Mocó (roedor ruminante) – Pinturas Finalizado o Circuito do Desfiladeiro pela manhã, saímos pela Guarita do Desfiladeiro e seguimos por estrada de terra em boas condições por ~ 8km até o restaurante do Albergue Serra da Capivara (sede da fábrica de cerâmica e do hostel). Almoço muito bom a preço fixo (R$ 24). Lotado. É preciso pedir ao guia para reservar com antecedência para o grupo. Somente dinheiro. Após o almoço fizemos uma visita guiada com um dos ceramistas para conhecer o processo de fabricação da lindíssima cerâmica tradicional da Serra da Capivara (vendida a preço de ouro em lojas como a TokStok). A fábrica emprega mais de 40 pessoas do entorno, entre homens e mulheres e produz um volume considerável de cerâmica, inclusive para exportação. São belíssimas. Ao lado da fábrica fica a loja com bons preços e tem uma sessão com peças “defeituosas” ou fora do padrão com preços promocionais. Cerâmica da Serra da Capivara – Fábrica – Visita Guiada Cerâmica da Serra da Capivara – Fábrica – Visita Guiada Seguimos por ~ 6km em estrada de terra em boas condições do Albergue até a Guarita Boqueirão da Pedra Furada (BPF) onde ficam os circuitos Boqueirão da Pedra Furada (mais famoso e visitado), Sítio do Meio e Baixão das Mulheres. Circuitos: BPF, Sítio do Meio e Baixão das Mulheres: Mapa – Detalhe O ingresso pago de manhã na Guarita da Br-020 vale para o dia todo. Apresentamos na Portaria do BPF e seguimos reto pelas atrações do início até uma bifurcação à direita que levou ao Sítio do Meio. Só visitamos 2 atrações no Circuito Sítio do Meio: a Toca da Escadinha e a Toca do Sítio do Meio, bem próximas e ambas com acesso muito fácil a partir do estacionamento. Destaque aqui para os Mandacarus gigantes. A Toca do Sítio do Meio tem infraestrutura de pesquisa instalada e vestígios de agricultores que viveram já na modernidade nas grutas e tocas da região. As pinturas são complexas. Foi uma das primeiras áreas de pesquisa na década de 70 e é um dos sítios mais importantes para a arqueologia mundial. Outros sítios que NÃO visitamos no circuito do Sítio do Meio: Toca da Ponta da Serra, Jurema da Ponta da Serra, Entrada do Baixão do meio, Toca do Sítio do Meio de Cá, Toca da Guabiraba, Pau D’arco e Caldeirão do Sítio do Meio. Circuito Sítio do Meio: Toca do sítio do Meio – Vestígios de Agricultores – Século XX Circuito Sítio do Meio: Toca do sítio do Meio – Infraestrutura de Pesquisas Circuito Sítio do Meio: Toca do sítio do Meio – Pintura Famosa – “Siri” Do Sítio do Meio seguimos, em trilha moderada, com partes íngremes e um pedacinho de escalaminhada em rocha rumo ao Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues. Para quem tem medo de altura, pode ser problemático. Mas a vista compensa. Companhia de macacos no caminho. Da ponta do mirante temos vista para: vastidão da planície de caatinga à frente, Pedra Furada à direita e paredões de arenito multicores à esquerda. É de tirar o fôlego e ótimo para ver no final do dia. Na descida do mirante paramos para conhecer a Toca do Boqueirão do Pedro Rodrigues, com pinturas. Trilha para o Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues – Mandacarus Gigantes Trilha para o Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues – Após Escalaminhada – Segue Subindo Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues: Imensidão de Caatinga – Vista Geral da Planície do Parque Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues: Paredões de Arenito – Erosão Natural Mirante Alto do Boqueirão dos Rodrigues: vista ao longe da Pedra Furada Dali retornamos para o carro e por ~ 8km de estrada de terra boa, passando pelo povoado de Sítio do Mocó, até a BR-020 e mais ~ 21km até SRN. DIA 3 – PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CAPIVARA: CIRCUITO BOQUEIRÃO DA PEDRA FURADA + PARTE DO CIRCUITO CHAPADA (Caldeirão dos Rodrigues) Novamente saímos do hotel 7:30 e seguimos por 28km, via povoado Sítio do Mocó, até a Guarita Boqueirão da Pedra Furada (BPF). Pagamos novo bilhete e seguimos para a parte mais conhecida do Parque. De manhã passamos direto pelas atrações iniciais e fomos até o mirante Vista Panorâmica, de acesso fácil por trilha com pequena subida. Todas as demais atrações do Circuito BPF ficam ao longo ou a poucos metros de caminhada da estrada. É a parte mais acessível e mais cheia de visitação de todo o parque. É só parar o carro, descer e apreciar. Pegamos um dia cheio de visitação escolar. Atrações que visitamos no Circuito Boqueirão da Pedra Furada pela manhã: Vista Panorâmica, Tocas da Fumaça I, II e III, Pedra Furada, Toca do Cajueiro da Pedra Furada, Toca do Carlindo II, Toca da Rancharia do Baixão do Macário e Boqueirão da Pedra Furada. Atrações que não visitamos no Circuito BPF: Toca da Fumaça II, Tocas do Carlindo I e III. Destaque aqui para a Pedra Furada, um dos principais símbolos da Serra da Capivara e onde são realizados shows, festivais, peças de teatro, espetáculos de dança e onde são desenvolvidos projetos culturais junto às comunidades do entorno. Tem infraestrutura de palco e jogo de sons e luzes. Anualmente é palco do Festival de Ópera da Serra da Capivara. Aqui já se apresentaram nomes da música como Lenine, Hermeto Pascoal, Academia da Berlinda, Cidade Negra, dentre outros. No dia que visitamos tivemos a sorte de conhecer o trabalho incrível da coreógrafa brasileira, nascida no Piauí e residente na Alemanha, Lina do Carmo que vem anualmente à Serra da Capivara desenvolver espetáculo de dança com as crianças de uma das escolas públicas do entorno do Parque. Projeto belíssimo de alto impacto positivo para a comunidade. Mirante Vista Panorâmica – Circuito BPF – Estratos das rochas e Caatinga Circuito BPF: Toca da Fumaça I – Pinturas Cinza e Branco (Tradição Serra Branca: mais recente) Circuito BPF: Sítio Toca do Carlindo II – Caldeirão da Escuridão Circuito BPF: Pedra Furada – Marco Cultural do Parque Nacional Circuito BPF: Pedra Furada – Ensaio com crianças da região – Coreógrafa Lina do Carmo Da Pedra Furada seguimos para o Sítio do Boqueirão da Pedra Furada, principal sítio arqueológico que deu início às pesquisas na região e à criação do Parque. Foi mapeado por uma missão franco-brasileira em 1973 sob comando da Niéde Guidon. É um paredão gigantesco que possui mais de 1.100 pinturas de vários estilos, cores e momentos super preservadas. É surreal. Tem estrutura de escadarias e passarelas que facilitam a visitação. Dá para sentar, ir descobrindo as várias pinturas e viajando no tempo. Circuito BPF: Boqueirão da Pedra Furada – Paredão com mais de 1.100 pinturas Circuito BPF: Boqueirão da Pedra Furada – “Capivara” símbolo do parque Circuito BPF: Boqueirão da Pedra Furada – Mistura de cores, estilos e tempos Almoçamos novamente no restaurante Albergue Serra da Capivara (R$ 24) e seguimos à tarde para o Circuito Chapada (Caldeirão dos Rodrigues), cujo acesso fica dentro da Portaria do Circuito BPF. Este circuito é conhecido como a parte funda do parque. Fica numa parte mais isolada, de trilhas com maior nível de dificuldade, quase sem gente e com pinturas situadas em partes altas e íngremes. Local com prática de escalada, escalaminhada e outros esportes de aventura. Caminhamos dentro de um vale por uns 800m até o paredão onde visitamos o abrigo Fundo do Baixão da Pedra Furada com vestígios de fogueira e pinturas de “emas” em sequência. Depois subimos por uma “escadaria” improvisada por barras de ferro cravados direto na pedra, em dois lances. Procurei a informação de quantos degraus são, mas não achei. O guia falou em 178 degraus. Ao contrário de todos outros sítios e trilhas, não recomendo esse passeio sem equipamentos de segurança, como nós fizemos, ou por pessoas que tenham medo de altura e/ou não tenham familiaridade com trekking em altura. Depois descobrimos que essa parte de escada não é usada por caminhantes comuns e que existe uma trilha massa de ~ 4h para conhecer essa parte específica da Chapada sem ter que subir pela escadaria de metal e sim por outra escada de alvenaria. Porém o nosso guia mala preferiu arriscar e subir pela de metal porque teria que caminhar e era algo que definitivamente ele não estava afim. Na parte alta do chapadão visitamos sítios isolados e com pinturas diferentes e mirantes. Atrações que visitamos no Circuito Chapada à tarde: Fundo do Baixão da Pedra Furada e Tocas do Caldeirão dos Rodrigues. Atrações que não visitamos no Circuito Chapada: Baixão das Andorinhas, Toca da Perna I a X, Toca Baixão da Barriguda, Trilha do Perigoso, Trilha do Pitombi. Circuito Chapada: Fundo do Baixão da Pedra Furada – pinturas quase ao nível do solo que ajudaram pesquisas sobre mudanças climáticas Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – Escadaria de metal – subida tensa em dois lances de escadas com barras de metal cravadas na rocha Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – parte alta da chapada com vegetação mais seca e clima mais quente Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – parte alta da chapada – Toca do Caldeirão do Rodrigues I – pinturas raras com cenas cotidianas Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – parte alta da chapada – Toca de Cima do Fundo do Boqueirão da Pedra Furada – pinturas raras com coloração muito nítida Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – topo da parte alta da chapada Circuito Chapada: Caldeirão dos Rodrigues – parte alta da chapada – Mirante com vista para o vale e os chapadões A descida da escadaria de metal foi pavorosa. Os cabos estão frouxos na rocha. Pedimos ao guia para descer por outro caminho mas ele nos enrolou e disse que não dava. Mas descobrimos depois que era mentira e a descida era facilmente alcançada pelo lado oposto do paredão que estávamos. Por isso, dentre vários outros motivos, não recomendo o guia Mário Filho. Após a descida retornamos para o carro e por ~ 10km de estrada de terra boa, passando pelo povoado de Sítio do Mocó, até a BR-020 e mais ~ 21km até SRN. DIA 4 – PARQUE NACIONAL DA SERRA DAS CONFUSÕES Saímos de SRN por volta de 7:30 da manhã rumo à cidade de Caracol pela PI-144. Foram 92km por asfalto razoável mas com muitos quebra-molas gigantes que destruíram o cano de descarga do carro e fez a viagem durar ~2h. Caracol é uma cidade pequena e precária com pouca ou quase nenhuma opção de atendimento turístico. Combinamos com o guia Naldo, indicação do guia Mário Filho, por telefone no dia anterior e o encontramos na sede do ICMBio, situada na Rua João Dias. Neste dia havia um incêndio de grandes proporções numa área isolada ao norte do parque (longe da portaria de Caracol), por isso havia uma grande movimentação de brigadistas, carros e pessoas na sede do Icmbio. O guia Naldo era brigadista voluntário e disse que nossa visita teria de ser corrida porque ele não poderia nos acompanhar o dia inteiro. Concordamos e saímos 10h rumo ao centro de visitantes da Portaria Caracol. O Parque Nacional da Serra das Confusões é gigantesco, a maior unidade de conservação do nordeste; possui quase 1 milhão de hectares de caatinga preservados. É pouquíssimo visitado. Ainda vivem comunidades remanescentes dentro dele. É um tesouro bruto a ser explorado, belíssimo, com beleza cênica única e de tirar o fôlego de uma forma completamente diferente da Serra da Capivara. Se tem uma coisa que posso recomendar seguramente para quem vai a Serra da Capivara é: conheçam a Serra das Confusões. Na Portaria de Caracol tem os seguintes percursos para visita: Trilha Cores da Caatinga, Mirante Janelas do Sertão, Gruta Riacho do Boi e Olho d’água Escondido. Visitamos todas essas atrações em um único dia. Assim que saímos da cidade pegamos a PI-470 não asfaltada por ~ 18km até a Portaria de Caracol. Estrada em condições medianas com vários bancos de areia fácil de atolar. Foi um sufoco com carro comum, 6 pessoas dentro, cano de descarga estragado, mas deu..hehehe. Não atolamos. O centro de visitantes da Portaria de Caracol tem ótima infraestrutura instalada que foi construída pelo projeto Brasil Próximo, parceria com o Governo da Itália (inusitado, não?!). Tem auditório, um pequeno museu, biblioteca e portaria mas estão abandonados e degradando após encerramento do convênio com os italianos. Deixamos o carro na portaria e iniciamos a jornada. Primeiro percorremos a Trilha Cores da Caatinga que sai e retorna à portaria. A trilha é bem demarcada, sem grandes declives, com percurso total de 5km (2,5 km ida/volta). Só não é mais fácil porque o sol escaldante castiga. Como o próprio nome indica, ela permite contato com a variação e riqueza vegetal e animal da caatinga. Serra das Confusões: Centro de Visitantes – Museu abandonado Serra das Confusões: Trilha Cores da Caatinga – sol que castiga Quando a trilha vai chegando ao final a paisagem vai se abrindo para uma paisagem lunar com maciços de arenito multicores que inspiraram o nome do parque (Confusões porque as rochas vão “mudando” de cor ao longo do ano de acordo com a chuva ou seca). Chegamos ao final no Mirante Janelas do Sertão (ou mirante do terraço). A partir daqui temos uma pequena noção da dimensão gigantesca do parque. Vimos a vegetação típica da caatinga nas chapadas e nesgas de vegetação verde típica de mata atlântica nos vales. É de encher os olhos d’água de tanta beleza. E ermo, completamente ermo e parado no tempo. Serra das Confusões: descida para o Mirante Janelas do Sertão Serra das Confusões: paisagem lunar e emoção no Mirante Janelas do Sertão Serra das Confusões: Mirante Janelas do Sertão – arenitos multicoloridos que dão nome à Serra das Confusões e vegetação de Mata Atlântica no vale Retornamos pela trilha Cores da Caatinga ao centro de visitantes onde lanchamos coisinhas que levamos (não existe restaurante ou lanchonete dentro do parque) e seguimos por estrada calçada pelo interior do parque por ~ 3 km. Serra das Confusões: Estrada calçada dentro do parque muito usada pelas comunidades rurais da região Estacionamos o carro numa lateral da estrada, próxima a um mirante, e seguimos por trilha pelas rochas até a entrada da Gruta Riacho do Boi. O caminho é deslumbrante e muito quente, com uma descida por escada instalada na encosta. Acesso fácil. Serra das Confusões: Trilha de acesso a boca da Gruta Riacho do Boi Serra das Confusões: Escadaria de acesso ao vale onde fica a boca da Gruta Quando descemos a escada e entramos no vale a mudança climática é drástica. Passamos para uma deliciosa sombra e umidade com vegetação de grande porte. Um alívio. A Gruta Riacho do Boi é a principal atração da Portaria Caracol. Não se trata de uma caverna de relevo cárstico. É formada por uma falha morfoestrutural e sedimentar no arenito, como um canyon aberto em algumas partes e fechado como uma caverna em outros, com paredões de mais de 20m de altura. Serra das Confusões: boca da Gruta do Riacho do Boi – entrada do canyon Serra das Confusões: Gruta do Riacho do Boi, paredão A gruta possui extensão de mais de 1km com o chão arenoso em uns pontos e rochoso em outros. Percorremos toda a extensão da Gruta com água em alguns pontos, passando por bichos (sapos, aranhas, morcegos, andorinhas e outros) e chegamos ao final no Jardim, uma espécie de claraboia onde finaliza a formação da Gruta e tem uma floresta úmida exuberante. Quase sentimos frio...rsrs Serra das Confusões: Gruta do Riacho do Boi – Jardim, claraboia no final da Gruta Retornamos para a boca da Gruta por pouco mais de 1km e seguimos por trilha em lado oposto, pelo leito do mesmo rio rumo ao Olho d’água Escondido, uma pequena cachoeira que permanece perene mesmo no auge da seca. Seguimos por trilha fácil ~ 3km, subindo e descendo, com bastante calor até alcançar o rio com água. A vegetação transita entre grande porte e de caatinga. É bem interessante. Quase não dá para acreditar que no meio de tanta secura há água. Não deu para tomar banho porque a água não estava muito limpa. Mas deu para molhar os pés, se refrescar no pouquinho de água que caía e lanchar à sombra pra encarar a volta. Serra das Confusões: Trilha para o Olho d’água Escondido Serra das Confusões: Olho d’água Escondido com pequena cachoeira, sombra e água fresca Retornamos ~ 3km até a escadaria de acesso ao vale da Gruta do Boi e mais ~ 1km em trilha pela rocha até a estrada onde o carro ficou estacionado encerrando nosso dia pela Serra das Confusões as 15h. Pudemos ver ainda do mirante da estrada as queimadas castigando o parque. Voltamos pela Portaria de Caracol, deixamos o Naldo na cidade, tomamos um sorvete e refizemos o caminho de volta a São Raimundo com direito a um incrível pôr do sol típico da caatinga. Serra das Confusões: Estrada entre Caracol e São Raimundo – pôr do sol Chegamos tarde e muito cansados em São Raimundo. Jantamos na Paulinho Pizzaria. DIA 5 – MUSEU DO HOMEM AMERICANO + CIRCUITO SERRA BRANCA Nesse dia, 2 integrantes do grupo iriam embora para Teresina a tarde. Por isso, fomos para Museu do Home Americano logo cedo. Atração imperdível. O Museu é um dos mais incríveis, organizados e modernos que já vi dentro e fora do Brasil. Chega a ser estranho aquela estrutura dentro de um contexto social tão precário. O museu é mantido pela Fundham (Fundação do Homem Americano) que também mantem a estrutura do parque da Serra da Capivara. O acervo inclui objetos encontrados no parque, ossadas, descrição das pesquisas, histórico do homem sob a terra e mídias interativas. É uma viagem no tempo e essencial para entendimento de onde viemos e para onde vamos. Está situado meio fora da cidade e vi que tem moto-táxis que levam até lá. A visita feita com calma, passando pela livraria e lojinha leva 2h. Museu do Homem Americano – Entrada Museu do Homem Americano – Sala de mídias interativas Museu do Homem Americano – Urna infantil em perfeito estado de conservação Museu do Homem Americano – Crânio zulu, esqueleto de 9920 anos semelhante ao tipo africano Museu do Homem Americano – Ferramentas Museu do Homem Americano – Enterramento de homem adulto Almoçamos no Self-service da Pousada Zabelê na praça central de SRN e seguimos para a pousada. Dois companheiros foram embora e ficamos três. Negociamos com o guia Bruno meia diária por 75% do valor da diária inteira para conhecer o Circuito Serra Branca, o mais afastado de São Raimundo situado na zona noroeste do Parque e menos visitado de todos. Saímos por volta de 13h e seguimos pela PI-140, rodovia asfaltada em ótimas condições por ~ 37km, onde tem placa de acesso para a Portaria Serra Branca e daí por estrada de terra ~ 3km. Pagamos ingresso e seguimos para a último mirante e fomos voltando. Não havia ninguém e o parque ficou inteiramente para nós. A área foi a última a ser anexada ao parque e tem vestígios dos maniçobeiros (trabalhadores que extraiam goma látex da maniçoba). Muitas pessoas viveram nos abrigos e tocas, misturando-se pré-história e história recente do início de 1900. É muito interessante. Mas sem romantismo, constatamos o quanto a população da região, e principalmente os maniçobeiros, sempre foi abandonados à própria sorte e viveram na miséria. O parque, de alguma forma, trouxe desenvolvimento e renda para as pessoas, apesar de haver problemas com os processos de indenização para desapropriação até hoje. Atrações visitadas no Circuito Serra Branca em uma tarde: Toca do Vento, Tocas do Mulungu I, II, III e IV, Olho d’água da Serra Branca, Vista Panorâmica, Toca do Juazeiro, Toca do Forno, Toca do João Sabino, Toca do Caboclo e Toca Extrema II. Atrações não visitadas no Circuito Serra Branca por falta de tempo e não por falta de vontade do guia: Toca da Igrejinha, Tocas da Mangueira do João Paulo I e II, Toca da Velha Mulata e Salustiano, Tocas do Firmino e da Laura, Toca do Caboclinho, Toca do pica-pau, Toca Nova de Inharé, Tocas do José Ferreira e Pinhãozinho, Toca do Conflito, Toca da Pedra Solta, Toca do Veado, Toca do João Arseno, Toca do Nilson, Toca do João Arsena, Toca do Veado, Toca do Nilson, Toca do pau d’óia, Toca do Pinga da Escada, Tocas do Sobradinho I e II, Toca do Giordano e Toca do Mário, Tocas do Candu I e II, Toca do Pinga Boi, Tocas do alto do Pinga Boi I, II, III e IV, Toca da Rancharia, Toca do Pinga do Nicolau, Toca do Morro do Castigo e Toca da Passagem. Circuito Serra Branca: Fotografia – Família de maniçobeiros que viviam nos abrigos da região Circuito Serra Branca: Toca do Vento com pinturas desaparecendo por causa da ação natural do sol e vento Circuito Serra Branca: Toca do Mulungu II – pinturas nas paredes e restos de casas onde chegaram a viver 3 famílias Circuito Serra Branca: Toca do Mulungu IV – petroglifos Circuito Serra Branca: cemitério moderno Circuito Serra Branca: Olho D’água da Serra Branca, barragem de água que abastecia famílias no entorno Circuito Serra Branca: Vista Panorâmica – lunar, lembra paisagem da Serra das Confusões Circuito Serra Branca: Toca do Juazeiro Circuito Serra Branca: Toca do Forno Circuito Serra Branca: Toca do João Sabino onde se realizava anualmente tradicional festejo de São João Circuito Serra Branca: Toca do Caboclo – localizada no alto da chapada, com pinturas e petroglifos Circuito Serra Branca: Vestígio – Pegada de onça Circuito Serra Branca: Toca Extrema II com enorme quantidade de pinturas e petroglifos Retornamos para SRN com sensação de quero mais e vontade de estudar sobre nossa origem, nossos ancestrais e nossa trajetória por aqui. DIA 6 – ESTRADA Dia de despedida do Ytamar e da Ivete com direito a um delicioso café da manhã. Pegamos a estrada rumo a Picos e de lá rumo a Juazeiro do Norte para dar continuidade a nossa aventura de volta pra casa (João Pessoa/PB)
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    Lembro no meu íntimo quando assisti pela primeira vez Na Natureza Selvagem. Na época, eu era um balde transbordando sonhos. Nunca antes tinha me aventurado. Viagens só aconteciam por trabalho ou férias familiares. A vida era uma linha a ser seguida. Nunca antes um filme tinha me perturbado tanto. A minha primeira reação foi admirar a beleza das imagens. A cena dele correndo na orla da praia ou entre os cavalos é de uma boniteza sem tamanho. Meus olhos suam nestes momentos do filme e ainda tem a trilha sonora do Eddie Vedder. O Sean Penn é de uma sensibilidade sem tamanho neste filme. Tudo é belo. Porém, ao me deitar neste dia as perguntas vieram na minha cabeça. Porque essa porra de Alasca? Porque não o deserto de Mojave? Porque não o Himalaia? Porque não qualquer floresta? Acordei apressado no dia seguinte, revi o filme e nada de respostas. Voltei a assistir ao filme várias vezes. No fim a pergunta sempre voltava na minha cabeça: - Porque essa porra de Alasca? Volta e meia essa pergunta retornava. Anos depois comprei o livro de mesmo nome para tentar responder essa maldita pergunta que tanto me perturbava. O livro é escrito por Jon Krakauer que é jornalista e montanhista. Ele é autor do livro No Ar Rarefeito que conta a história de uma trágica subida ao Monte Everest, na qual ele estava presente. No Ar Rarefeito, na minha opinião, é um livro muito melhor que Na Natureza Selvagem. No entanto, ler na Natureza Selvagem foi um misto de sentimentos. O livro é um trabalho jornalístico onde o autor tenta entender os passos e os porquês do Alex. O livro de nada tem de poesia e de beleza como visto no filme. Alex era um leitor assíduo e conhecer um pouco das suas preferências literárias ajuda entender um pouco suas atitudes. David Thoreau, Jack London, Leon Tolstoi, Mark Twain eram de seus autores favoritos. Fácil perceber a influência de Thoreau e Tolstoi na sua negação do status quo e do seu rompimento inevitável com seu cotidiano. Porém, a pergunta do Alasca ainda não estava respondida. Para isso tive que conhecer Jack London, autor que nunca havia lido anteriormente. Jack London na sua vida viveu algumas aventuras e viajou para o Alasca na época da febre do ouro. Enfim, uma pista. Em um dos seus livros mais famosos, O Chamado Selvagem, London conta a história do cachorro Buck. Buck era um cão doméstico que vivia na quente Los Angeles cheio de mimos e facilidades. Num dia qualquer foi roubado e levado para o gelado Alasca para trabalhar como cão de trenó na corrida pelo ouro. Com o tempo Buck vai se transformando e voltando as suas origens. Perdido no Alasca precisa se sustentar e evocar seus instintos primitivos para conseguir sobreviver em terras desconhecidas e selvagens. Esse processo elimina todo o seu passado domesticado e o torna um selvagem, ou em outras palavras um lobo. Alex via no Chamado Selvagem um chamado para ele. Se Buck o cão doméstico do livro se tornou um lobo porque ele também não se tornaria um selvagem vivendo nesse mesmo Alasca? Buck era feliz em sua ignorância. Creio que Alex também era feliz em sua ignorância de mundo. Buck resgatando sua origem selvagem também resgatava a vida que não havia vivido até ali. Alex acreditava que isso aconteceria com ele também. No momento, em que ele começou a negar a sua vida atual, ele se apegou no Buck e consequentemente no Alasca para sua salvação. Fez como Thoreau e Tolstói e largou a comodidade de sua vida para viver com quase nada e assim, viveu histórias de aventuras como nos livros de Mark Twain para que no fim encontrasse a ruptura final, do seu antigo-eu para o seu novo-eu, no Alasca, como o Buck de London. A não ser que você seja o Paulo Coelho no caminho de Santiago de Compostela onde tudo que acontece é um significado para reforçar seu pensamento de mundo. Em Diário de um Mago, Paulo Coelho percorre o Caminho de Compostela para recuperar sua espada e tornar-se um mago. Todos os seus dias no caminho são cheios de significados e aprendizados que só servem para reafirmar seus pensamentos. Alex não era um mago. E como toda pessoa comum que vai em busca de respostas, ele encontrou mais perguntas que respostas. E as respostas encontradas são sempre para questionar as certezas que temos. Alex ao chegar no Alasca não tinha mais certeza de torna-se lobo, ao olhar para seu caminho ele questionou a sua busca, mas a tragédia da vida não deixou-o saber se aquele Alex, que escreveu em seu leito de morte "A felicidade só é real quando compartilhada", era o Alex que ele buscava para si. Antes via o Alex como um messias mochileiro, uma inspiração. Hoje revejo Na Natureza Selvagem e ainda vejo muita beleza no filme. Porém, não sei ao certo o que pensar. Às vezes acho o Alex um tanto quanto egoísta em sua inflexibilidade. Outras vezes acho ele muito foda. A intermitência de sentimento deve-se muito ao meu estado de espírito. Entretanto, nunca mais questionei o porquê do Alasca. Não por ter encontrado uma explicação plausível para o significado do Alasca para ele. E sim, porque na busca por entender o Alasca, entendi que nos apegamos em uma coisa qualquer para poder percorrer um caminho. O Alasca foi o caminho do Chris para torna-se Alex. Um dia Machu Picchu foi meu Alasca, em outro dia foi o Roraima e cada dia surge novos Alascas. Para algumas pessoas o Alasca é Aurora Boreal, para outras é o Caminho de Santiago de Compostela, para outras a Disney, para muitas outras é o Nepal ou a India. A inspiração pode surgir na literatura, numa fotografia, numa conversa ou num filme. Agora ao terminar de ver o filme, a pergunta que fica é: - Se Alex estivesse vivo, qual seria o próximo Alasca que ele iria buscar?
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    Boa Tarde, Vanessa. Ontem fiquei até 01 hora da manhã lendo o seu relato. Muito bem produzido, riquíssimo em detalhes, retratou com perfeição o que você passou. Me senti junto com você em alguns momentos. Bom... eu pretendo ir ao Aconcágua em fevereiro de 2019. Não tenho experiência alguma em montanhismo, nem em trekking... , mas sou determinado, e quando coloco algo na cabeça, é difícil alguém tirar. Iniciei treinamento com musculação em janeiro, e comecei a correr agora no final de março.. canelas e joelhos já doeram, mas parecem que estão dando uma trégua... então espero que até o ano que vem eu esteja preparado fisicamente. Minhas perguntas são: 1. porque vc escolheu o mês de dezembro para a acensão? Pq não em janeiro, na alta temporada? 2. em relação a sua preparação física, você teria feito diferente se pudesse voltar atrás, teria se preparado melhor? 3. Na sua opinião, valeu a pena adquirir alguns equipamentos ou hoje você teria alugado tudo? (eu moro no norte do Estado de Mato Grosso, onde o clima nunca fica frio e o montanhismo não será um hobby frequente para mim) Desde já agradecido. Geraldo. Ps. Muito provavelmente no decorrer deste ano vou voltar a tirar dúvidas contigo . Muito obrigado!
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    Olá, Vanessa! Eu estava na seção de relatos de viagem pela Argentina, procurando informações sobre Mendoza, e vim parar no teu relato. E é simplesmente uma das me-lho-res coisas que já li aqui no Mochileiros! Apesar de adorar ler relatos de viagem, nunca tinha lido nenhum do fórum "Trilhas e Montanhas". Comecei a ler o teu e não consegui parar até terminar! Obrigada pelo relato excelente e parabéns por essa experiência incrível, pela determinação, pela superação, pela força! Abraço!
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    hahaha ao contrário do que dizem, quem bebe mta cerveja tem memória boa! (mas eu rascunhei uma boa parte logo que cheguei, enquanto tava com os pés pra cima esperando desinchar rss). Se lembrar de alguma coisa que eu não mencionei me fala pra eu completar o relato!! O Carlo escreveu um diário dos primeiros dias mas até hoje não deixou eu ler! Vale repetir que o cume não é o mais importante, e vc esteve na maior parte da expedição, e merece os mesmos aplausos tenho certeza que vc teria chegado ao cume tbm se não fosse o infeliz problema dos olhos. Obrigada por toda a parceria!
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    Meo ! Como vc conseguiu lembrar de tantas coisas ?!?!?!?!? Que relato bacana ! Me fez voltar no tempo e sentir as fortes emoções de estar numa das montanhas mais importantes do mundo e também lembrar que ainda tenho que voltar e conquistar o cume do Aconcágua. Foi uma expedição incrível. Aprendi muito com meus erros e acertos. Parabéns Van ( Nossa Capitana ) você foi muito guerreira. Ao contrário do que você humildemente disse no final do relato, subir o Aconcágua é difícil tarefa. PARABÉNS !!!!
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    Guria, nem sei o que falar desse relato... e dessa viagem... To aqui arrepiada! Show, show, show! parabens pela tua força! Déia
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    Abaixo a lista de equipamentos Barraca 4 estações (levei a azteq himalaya, seria ótimo uma mais leve e compacta, mas não foi ruim ter o conforto do espaço desta); Saco de dormir de pelo menos -15°C conforto (eu fui com um Deuter -2 conforto; -8 conforto limite e -26 extremo, senti um pouco de frio em algumas noites, mas nada que me fizesse arrepender de ter levado esse saco, mas não é o recomendado!); Fogareiro + isqueiro (fósforos umedecem e falham. O isqueiro funcionou bem em todos os acampamentos e temperaturas. Usei o fogareiro azteq spark, ultra leve. Pra derreter neve os modelos tipo jetboil são melhores, mas vi eles falharem pra acender e manter aceso algumas vezes); Botas duplas boas (aluguei a koflac e tive início de congelamento nos dedos. Mas o frio tava mesmo demais naquele dia..); SD de emergência alumínio (não usei, mas é importante); Isolante térmico bom (pode ser de PE, pelo menos 1 cm de altura. Mas se precisar montar a barraca sobre o gelo/neve, o frio pode passar por ele. Infláveis são mais confortáveis mas tem risco de furar e são mais pesados); Lanterna de cabeça + reserva (resistente a água); Panela/talher/caneca de plástico; Gás isobutano/propano, de rosca (5 cartuchos de 230g são suficientes, provavelmente vai sobrar. É recomendado o pequeno) Garrafa térmica (muito útil, mas não completamente essencial) 3 garrafas leves e resistentes para comportar no mínimo 3 litros de água Capas térmicas de neoprene pras garrafas de água (de qualquer forma várias vezes tava tudo congelado de manhã, mas ajuda um pouco...); Garrafa pra xixi (obs: a garrafa de gatorade costuma vazar!); Duffel bag entre 80 e 120L (se for usar mulas até o acampamento base); Bastão de caminhada (1 é suficiente); Óculos de sol e goggles (os óculos precisam de proteção lateral (importantíssimo). Os meus não tinham e improvisei com silver tape. Funcionou bem. Não usei goggles, mas podem ser necessários dependendo da sensibilidade dos seus olhos, ou pra nevascas); Crampons; Gaiters/polainas; Tapa ouvido para dormir (tem noites que o barulho do vento é muito forte); Travesseiro inflável (pode improvisar com roupas); Anorak; Calça corta vento/impermeável; Calça e blusa segunda pele; Calça e blusa fleece; Camada de aquecimento para dia do cume (eu usei um casaco de penas simples e um grosso de enchimento sintético); Luva impermeável, luvas quentes e luvas que deem pra manusear objetos; Mittens; Balaclava; Gorros de lã; Meias; Diamox (acetazalamida), Aspirina (ácido acetilsalicílico), Imodium (pra diarréia), Ibuprofeno; Clorin (não usei); Protetor solar fator alto; Papel higiênico, desodorante, lenços umedecidos, álcool, etc.; Manteiga de cacau (passei até no nariz quando começou a rachar do frio seco...não levei nenhum hidratante, mas é uma boa levar); Escova/pasta de dente; Micropore; Soro fisiológico; Colírio; Câmera; GPS (precaução. Se pegar um white out vai precisar); Baterias e pilhas extra; Chinelo até acampamento base (se for usar mulas. Se não for, é um peso que pode ser cortado); Sacos para lixo, saco mais forte para recolher neve, sacos para manter coisas secas, sacos individuais para cocô, pra depois jogar no saco oficial do parque; Boné; Cordeletes pra fixar mais a barraca (dependendo da barraca... A minha já tinha suficiente); Aquecedores químicos de mãos e pés (pro dia do cume).
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    De volta a Mendoza e a surpresa do frostnip... Chegamos a Mendoza meia noite. Um último esforço pra carregar toda a tralha até o ponto de táxi do outro lado da rodoviária. Nos despedimos do Philipp que de manhã já pegaria o voo de volta pra Berlim. Ainda encontraria com Andre e Ravi no dia seguinte para comemorar a virada do ano, e com a Eileen, que também estava em Mendoza ainda. Cheguei ao hostel (Windmill) por volta de 00:40, torcendo pro Zaney estar lá! Se ele não estivesse, não sei como eu faria pra levar as coisas dele pro Brasil. Mas ele estava, ufa! O pessoal do hostel me ajudou a levar as coisas pra dentro e me disseram que o Zaney tinha saído pra comer, mas estava hospedado lá sim, e já estava com os olhos recuperados . Agora era o momento do tão esperado banho depois de 19 dias! Pensa num cheiro de cachorro molhado que não saía do cabelo por nada! Quando o Zaney chegou, cozinhamos um macarrão que tinha voltado sem querer na bolsa dele, e comi enquanto nos colocamos a par dos acontecimentos. Já havia passado das 03:00 quando mandei notícias pra minha mãe e amigos e fui deitar. Logo que acalmei os ânimos e comecei a pegar no sono, senti os dedos dos pés latejando um pouco, mas nem dei bola e dormi. Dia 31 de dezembro, acordei a tempo do café da manhã. O pessoal estava preparando a decoração da festa de réveillon que teria à noite. Percebi que meus pés estavam um pouco inchados, e os dedos vermelhos. Ainda estava pensando que a dor e o vermelho nos dedos eram por causa da descida do cume com as botas duplas. Já o inchaço no pé começou a me lembrar de quando subi o Pisco no Peru e de como meu pé inchou por causa, supostamente, da altitude. Fui devolver as botas duplas e mittens que tinha alugado. Voltando para o hostel, senti o inchaço aumentando, e o chinelo já não estava cabendo direito no pé. À noite encontrei com o pessoal e fomos celebrar a virada, e o inchaço e dor aumentando... até que chegou um momento que eu já não aguentava a dor nos dedos. Até o tornozelo estava inchado igual um pão, emendando com a canela. Voltei pro hostel e tentei dormir. Mas os dedos tavam latejando muito, como se tivesse acabado de chutar a quina do sofá com cada um deles . Tomei um anti-inflamatório, que não ajudou muito, e passei a noite meio acordada, entre cochilos e aquela dor pulsante. Acordei e estava muito mais inchado. Peguei o ônibus pra Santiago às 10:30. E no caminho continuava a dor pulsante. Cheguei no hostel em Santiago no fim da tarde, e meu voo pro Brasil era na manhã do dia seguinte (2 de jan). À noite já estava doendo o pé inteiro, principalmente pra pisar, e tava ainda mais inchado, e aí eu tive certeza que a situação tava pior do que foi o inchaço de setembro depois do Pisco. Conversei com duas pessoas experientes em doenças de altitude, expliquei os sintomas e mostrei fotos. A conclusão foi de que eu tinha tido um início de congelamento, chamado de frostnip, que é o 1º estágio de um frostbite. Isso explicava a dor e o escurecimento das unhas (algumas foram escurecendo mais até ficarem pretas e soltarem, outras soltaram sem ficar pretas). Quanto ao inchaço, também acontece nos casos de frostnip, mas geralmente não tanto quanto aconteceu comigo. Existe outro sintoma de altitude que é o edema periférico, mas acomete mais as mãos e o rosto. Dada a minha experiência prévia com esse sintoma nos pés, suponho que tenha sido isso. Outra explicação pro inchaço teria sido o sangue ter engrossado muito por causa da aclimatação, atrapalhando a circulação nas pernas. Ou a junção de todos os fatores. Enfim, esse campo ainda não foi suficientemente estudado pra se ter certeza das causas apenas pela descrição de sintomas. De qualquer forma, a recomendação era anti-inflamatório, evitar bebida alcoólica (porque desidrata), beber muita água, e, principalmente, manter os pés quentes. De volta a Belo Horizonte, dormi com os pés pra cima pra ver se ajudava a desinchar. De manhã pareciam melhor, mas ao longo do dia, enquanto eu estava no trabalho, foram inchando de novo mais e mais, e à noite aquela dor. E foi assim por mais dois dias. Chegando do trabalho eu fazia compressa com água quente e deitava com os pés pra cima na parede. E de manhã tava melhor, mas piorava ao longo do dia. Até que aos poucos foram voltando ao tamanho normal. O sintoma mais preocupante, e que confirmou o frostnip, veio depois. Quando o inchaço reduziu, percebi que não estava sentindo o dedão direito. Completamente dormente. Aí fui outra vez consultar os experientes, e me disseram que era comum e que provavelmente a sensibilidade começaria a voltar depois de um mês, e poderia demorar até seis meses pra voltar totalmente. E esse dedo vai ficar pra sempre mais sensível ao frio e mais suscetível a congelamentos de altitude . Umas três semanas depois comecei a sentir formigamento e umas fincadas, e a sensibilidade foi voltando... Em dois meses estava praticamente normal, mas ainda sinto ele meio estranho às vezes. Ficou o aprendizado. Não sei dizer com certeza se o problema foi a bota dupla que não era quente o suficiente pro frio daquele dia, mas com certeza vou ficar mais atenta numa próxima vez. Aquele frio realmente não estava pra brincadeira, e o Andre também teve o frostnip, mesmo com a cautela dele de subir acelerado pra aquecer. Com exceção do pé inteiro inchado, ele teve os mesmos sintomas, mas inchou bastante só o dedo mais atingido, que depois ficou dormente pelo mesmo prazo que o meu. Ficaram duas lições: 1 - levar aquecedores químicos, inclusive uns pares extra pra se falharem; 2 – não é normal ficar sentindo os pés frios se estiver com calçado adequado. Se isso acontecer, faça algo pra resolver, volte, desista do cume... Não vale a pena arriscar. No meu caso foi só um frostnip, mas daí pra um frostbite não falta muito. Se estivesse mais frio, ou se o cume fosse mais acima, eu teria continuado, sem saber o risco que estava correndo. Junho de 2017 Demorei pra escrever este relato, pela correria do dia a dia... e só terminei mais de cinco meses depois de descer da montanha. Tenho um problema quando conto ou relembro aventuras, e esse problema tem a ver com uma teoria que eu acredito: depois que passa um tempo, lembramos melhor das coisas boas que das coisas ruins. Não que a gente esqueça que coisas ruins aconteceram, mas o sentimento que tal coisa causou na época vai se esvaecendo com o tempo, e depois não parece que foi tão ruim assim. Já as lembranças boas continuam despertando as mesmas sensações, a euforia daqueles momentos e o brilho nos olhos ao lembrar. Bom, pelo menos pra mim é assim que acontece. Mas eu chamei de problema porque às vezes é importante lembrar também das partes ruins, principalmente na hora de planejar outra aventura. Eu sei que tiveram momentos no Aconcágua em que rolou aquele “o que eu tô fazendo aqui?”, ainda que momentâneo... E cá estou eu me equipando pra outra “diversão” em alta montanha em julho . Por causa dessa mania da minha memória de me enganar, logo que voltei do Aconcágua escrevi uns relatos soltos das “partes ruins” da expedição, pra não esquecer, ou do contrário este relato aqui pareceria um conto de fadas kkk. Lendo essas partes agora, mesmo não tendo passado tanto tempo, já não parece que foi tão ruim... já esqueci que algum momento foi difícil e sofrido. E se me perguntar agora, é capaz de eu dizer que subir o Aconcágua foi fácil e que faria tudo de novo sem pensar duas vezes! kkk Não foi fácil, mas faria de novo mesmo! @vanessa.mb88
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    Em uma montanha dessas, dizem que 80% da força que você precisa é mental, e só 20% é força física (não leve tão ao pé da letra). Pra parte da força mental, experiência prévia conta.. bastante. Eu já tinha certa experiência em trekking longo, travessias, chuva, comida precária, carregar peso... etc. Mas o frio extremo do Aconcágua seria novidade. Ficar uns 15 dias sem tomar banho (19 no meu caso rs), também. E fazer xixi na garrafa... cocô no saquinho... E a altitude extrema. O mais alto que eu já havia chegado fazendo trilha era uns 4.600 m na Salkantay, em uma situação bem mais confortável que o ambiente agressivo do Aconcágua. Surgiu uma promoção de passagens pra Lima, e decidi passar uma semana no fim de setembro na Cordillera Blanca, pra ganhar um pouco de experiência em gelo e maior altitude. Daria pra escrever um longo relato sobre essa outra aventura (seis dias na cordilheira fora de temporada, nenhuma estrutura de apoio, sozinha, carregando quase 20 kg durante os trekkings entre três e cinco mil metros de altitude... levei um tombo no segundo dia e fiz um “buraco” na minha canela , e continuei, com chuva, neve, frio, vento e paisagens surreais) mas por agora vou me ater a dizer que no último dia cheguei ao meu primeiro cume em alta montanha : Pisco, 5.752 m. O ataque ao cume começou às 00:20 e cheguei lá às 05:45, na expectativa de ver o sol nascer e presenciar umas vistas mais bonitas da cordilheira, já que esse nevado está bem no centro da cadeia. Mas a fama de que o clima nos Andes é instável não é sem motivo... No meio do caminho começou uma neve fraca, mas contínua, e tudo ficou branco pra todos os lados. Não deu pra enxergar nada. Mas a experiência foi válida. Vi que meu corpo respondeu bem à exposição a essa altitude. A aclimatação funcionou bem e não senti dor de cabeça com o ganho de mil metros de altitude em um só push no ataque ao cume. O único sintoma foi que depois da descida meus pés incharam e, como estava com minha bota no tamanho exato dos pés, eles ficaram meio apertados, e a falta de circulação fez surgir um hematoma bem roxo na lateral de um dos pés. Por isso comprei uma bota em tamanho maior pro Aconcágua, e tive cuidado também na escolha das botas duplas que usaria mais acima na montanha. Com base nesses dias de trekking em altitude, concluí também que o peso que teria que carregar seria um sofrimento. Em altitude, 20 quilos são DEMAIS pra mim. Esse seria um problema no Aconcágua, e precisei reduzir o peso que eu carregaria. LOGÍSTICA Comprei passagens pra Santiago, pois estava mais barato que ir direto pra Mendoza, cidade argentina onde são autorizadas e emitidas as permissões de ascenso ao Aconcágua. O trajeto de Santiago a Mendoza seria de ônibus pela famosa “Ruta 7”, assim como o retorno de Mendoza para a entrada do parque, que fica mais perto da fronteira com o Chile do que de Mendoza... Desembarquei em Santiago no dia 8 de dezembro. Com a mochila cargueira nas costas, mochila pequena na frente, e arrastando a duffel bag gigante com o resto dos equipamentos de montanha, fiquei ainda me questionando se eu conseguiria levar tudo aquilo montanha acima, mesmo com a ajuda da mula até o acampamento base. Na rota normal, a montanha tem um acampamento intermediário (Confluência 3.390 m), um acampamento base (Plaza de Mulas 4.370 m) e três acampamentos de altitude (camp 1: Plaza Canadá 5.050 m, camp 2: Nido de Condores 5.560 m e camp 3: Cólera 5.970 m). Há outros pontos onde é possível acampar, mas hoje em dia quase não são utilizados. Entre comida, roupa, barraca e equipamento técnico, as pessoas levam cerca de 40 kg para a expedição. Eu estava levando 30 kg. Para o trajeto até o acampamento base, cerca de 28 km, contratamos o serviço mínimo de mulas para carregar parte do peso. Com isso, se ganha direito a um alto desconto no custo da permissão de ascenso e, no meu caso, ganhei a capacidade de chegar ao acampamento base, carregando nas costas 17 kg (14 kg + 3 litros de água) em vez de 30. Esse peso era ainda mais de 30% do meu peso corporal, e, com os efeitos da altitude, não foi fácil chegar até lá. A partir de Plaza de Mulas, são realizados porteios: vc sobe um dia carregando parte do equipamento e desce pra dormir; no outro dia sobe definitivamente com o restante do peso. Esse processo é importante também pra aclimatar à altitude. No dia 09/12 eu e Carlo fomos de Santiago pra Mendoza. O tempo previsto para o trajeto de ônibus já conta com umas 2 horas extra para a aduana. Se a aduana estiver vazia, o tempo de viagem será umas 6 horas, e não 8 horas como é informado. Tirando os contratempos como eu ter esquecido minha identidade no hostel e voltado às pressas pra buscar quase na hora do ônibus, ou o fato do ônibus ter atolado ao fazer um retorno na beira da estrada e termos perdido um tempão parados lá, chegamos bem em Mendoza. Greison já estava no hostel, e Zaney chegaria no dia seguinte. No dia 10 de manhã fomos trocar moeda, contratar a mula e conseguir a permissão de ascensão. O procedimento é ir primeiro à secretaria de turismo preencher e imprimir os documentos e o boleto de pagamento; ir até um “pago fácil” pagar o boleto; depois ir à empresa contratar a mula e pegar um carimbo pra ter direito ao desconto; voltar à secretaria de turismo com o boleto pago e o carimbo da empresa de mulas. Aí eles emitem e te entregam a permissão. Parece que o melhor lugar pra trocar moeda em fins de semana é uma agência da Western Union que fica dentro de uma galeria. Fica aberta em horário que outras já estão fechadas, e a cotação era a mesma que estava sendo anunciada pelos cambistas de rua. À tarde fomos alugar o equipamento que faltava (no meu caso as botas duplas e as mittens) e fazer compras. À noite passamos algumas horas organizando tudo pra levar. O cansaço do dia ficou por conta do calor e foi difícil pegar no sono... (Mendoza é muito quente no verão! ) No dia 11 pegamos o ônibus da Buttini na rodoviária de Mendoza para Los Penitentes (6 dólares), onde descemos para entregar à Lanko Expediciones as coisas que iriam na mula. Lá fomos recebidos por José. Pesaram as bolsas e nos entregaram um recibo. Nos passaram também os nomes do pessoal da Lanko que nos orientaria em Confluência e Plaza de Mulas, e em seguida José nos levou até o hostel El Nico, em Puente del Inca, que reservamos pra passar aquela noite. Puente del Inca é um povoado que fica bem próximo à entrada do parque. Chegamos ao hostel antes das 16 horas. Tudo preparado para no dia seguinte começar o percurso de aproximação. José nos buscaria no hostel e levaria até a entrada do parque, nos esperaria passar pela portaria e em seguida nos levaria ainda até o começo da trilha, na segunda portaria (essa mordomia é “brinde” pra quem contrata mula). Iríamos até o acampamento Confluência, onde passaríamos uma noite, e no outro dia o longo percurso até o acampamento base. O plano inicial era passar duas noites em Confluência, e fazer uma caminhada de aclimatação até o mirante da face sul, sentido Plaza Francia. Porém, o dono do hostel, Cesar, nos aconselhou a não ficar mais que o mínimo necessário em Confluência, por causa da alta concentração de magnésio na água disponível lá (magnésio não faz mal, mas pode causar diarreia). Seguimos o conselho. Puente del Inca está a pouco mais de 2.700 m de altitude, e aí já se inicia o processo de aclimatação. Antes de encerrarmos o dia, fizemos uma caminhada de 1,5 km até o cemitério dos andinistas. É triste e emocionante ver as homenagens deixadas ali aos montanhistas. "Lo que se puede deveras es tan poco, que hay que hacerlo una vez aunque sea; subir una montaña, aunque subir cueste, aunque la cuesta sea pesada, aunque respirar cueste... porque respirar se acaba" (mensagem grafada em uma das lápides) Voltando ao hostel, descobrimos que o Zaney estava com uma infecção aguda no pé, e que, segundo Cesar, não o deixariam subir a montanha daquele jeito. Diante disso, Cesar o levou ao hospital mais próximo em Uspallata. Enquanto isso, preocupados, tentamos pensar em um plano B caso ele tivesse que desistir e nós tivéssemos que seguir em um trio em vez de duas duplas. Eles retornaram no meio da madrugada e no dia seguinte Zaney estava melhor (ufa!), mas ainda precisaria de repouso e de tempo para os antibióticos fazerem efeito. Decidimos seguir e aguardá-lo em Confluência, pra irmos nos aclimatando e não gastar mais uma noite de hostel. Foi uma boa decisão, pois o Zaney era bem mais forte que nós e no dia seguinte conseguiu fazer direto o trajeto de Horcones até Plaza de Mulas, que nós dividimos em dois dias.
  34. 1 ponto
    Apesar da existência de muitas informações sobre viagem na Internet, gostamos de ter livros de viagem. Não para enfeitar a estante, mas sim para consultar sobre as cidades/ países que formos visitar. São informações bem organizadas e com boas dicas de passeio. Quando fomos para Londres a última vez compramos muitos e muitos livros de viagem, porque o preço de lá era muito melhor que o daqui (na conversão de libra para real.E porque aqui no Brasil esses livros são caros. Um livro pode sais de R$80,00 a R$120,00. É muita grana! Para comprarmos, entretanto, tivemos que escolher qual livro de viagem nos ajudaria mais. Existem vários guias de viagem, porém os mais famosos são Lonely Planet, DK( traduzido pela Folha de São Paulo) e Coleção Top 10 (também da DK, mas em versão mais enxuta). Lonely Planet: Perfeito para quem quer informações mais práticas, um guia para levar na viagem e utilizar quando precisar de uma informação. Tem poucas fotos em comparação aos outros guias. É menos visual e mais textual. Tem como qualidade trazer a informação dos preços das atrações e preços aproximados de transporte e de passeios. Se você já sabe o que vai fazer em seus destinos, Lonely Planet pode ser uma boa opção para você. Ele terá uma seção de informações mais robusta que os livros da DK, por exemplo. Outro detalhe é que a Lonely Planet possui livros de uma variedade de países maior que os da DK. Exemplo disso são os livros do Nepal/ Himalaya, do Vietnã/Cambodia/Laos/Norte da Tailândia e até da Antárctica! A DK não realizou essas edições ainda. Nos parece que a DK dá mais atenção aos países mais turísticos e deixa algumas regiões e países do mundo descobertas. Os livros da Lonely Planet em média custam de R$50 a R$70, mas os valores podem variar bastante. Continue lendo em : http://filosofiadeviajante.com.br/2017/04/11/como-escolher-seus-livrosguias-de-viagem/ Facebook: www.facebbok.com.br/filosofiadeviajante Instagram: @blogfilosofiadeviajante
  35. 1 ponto
    Olá para todos... vi este tópico, li as poucas mensagens, e resolvi deixar uma dica minha... eu conheço a estante virtual, e sim recomendo. Em se tratando de guias para viagens (adoro ler estes guias, é quase uma mania mesmo), não tenho nada contra os Rough Guides (tenho 4: Argentina, Chile, Peru e Bolívia), mas recomendo os guias da coleção "O Viajante"... do Zizo Asnis. Há da Europa, América do Sul, Chile, Argentina, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Desta coleção, eu tenho os da Argentina, América do Sul e da Europa e, pelo menos pelo que procuro nas minhas viagens, eles foram extremamente úteis. Linguagem simples e agradável, dicas muito boas, realmente abordam o que um mochileiro precisa e quer saber. Só tenho elogios. Caso queiram comprar somente um guia, recomendo esta coleção. Para mim, eles são a melhor opção para se planejar e levar. Para quem quer investir mais, eu também gosto daqueles da Publifolha, os chamados "Guias Visuais"... daí há uma infinidade de opções. Eu tenho Reino Unido, Inglaterra, Europa e Argentina. São muito bonitos, as informações são boas... mas o preço é bem salgado. Além disso, o estilo de viagem que eles abordam seria mais um "médio-alto". Eles são mais clichê, digamos. Em suma, minha sugestão seria: 1) guias "O Viajante"; 2) guias "Rough Guide" e 3) guias "Publifolha - guias visuais". Além disso, o pessoal d´O Viajante tem um site também, http://oviajante.uol.com.br/ . Super recomendo. Bom, é isso... claro que não preciso nem dizer que não tenho nada a ver com o pessoal d´O Viajante, não ganho nada com a propaganda... mas acho que não custa nada recomendar algo que eu gostei muito, e que deu muito certo pra mim! Qualquer coisa, entrem em contato!
  36. 1 ponto
    Antes de qualquer comentário ou bloqueio do post, informo que não tenho nenhum tipo de relação com o site que irei informar e não estou fazendo qualquer tipo de propaganda. Apenas estou passando uma dica, que achei interessante a todos viajantes. Recentemente me foi indicado o site Estante Virtual http://www.estantevirtual.com.br por um colega de trabalho, que é a maior rede virtual de sebos (lojas de livros usados) do Brasil. Como pretendo viajar para o Chile em meados de 2011.. procurei sobre guias de viagem e achei várias opções a venda, com preços muito abaixo dos produtos novos. Há várias opções de Rough Guide (da Publifolha) e do Lonely Planet, ambos de diversas partes do mundo. Já comprei 2 livros lá e ambos chegaram em perfeito estado, muito rápido, e muuuuito barato. Pra vocês terem uma idéia, comprei o Rough Guide do Chile, e ele está em melhor estado do Rough Guide do Peru, que eu já possuo. Então fica a dica pra que necessitar e estiver interessado. Abraço
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