NORTE DA ÍNDIA DE JEEP (A estrada da morte de Spiti Valley) || FOTOS

Relatos de Viagens nos países do Subcontinente Indiano: Índia, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka
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aculpaedofuso
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12 Jul 2016, 03:32  

CIRCUITO KINNAUR - SPITI: UMA VIAGEM PELAS ESTRADAS MAIS PERIGOSAS DA ÍNDIA (E DA ÁSIA)

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Spiti Valley || FOTO: Clarissa Ferreira
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Considerada uma das melhores road trips da Ásia, o CIRCUITO KINNAUR-SPITI, no norte da Índia, atrai, verão após verão, motociclistas, mountain bikers e motoristas off road de todo mundo. A estrada, que corta os profundos vales das montanhas do Himalaia na fronteira com o Tibet, encabeça a lista das mais traiçoeiras do mundo e é a porta de entrada para uma das regiões mais remotas do país. A influência budista acompanha toda a viagem - das coloridas bandeiras de mantra aos monastérios centenários que brotam no alto de penhascos - e as vilas medievais que hospedam os visitantes são uma janela para antigas comunidades que há séculos encaram a dura vida acima dos 4 mil metros.

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O circuito tem duas cidades principais que servem de base para a partida ou chegada dos motoristas, dependendo da direção do circuito. São elas SHIMLA, antigo refúgio dos ingleses para os meses quentes do verão em Delhi, e MANALI, o paraíso dos mochileiros no norte da Índia. Nestas duas cidades é possível alugar e comprar motos ou fechar uma expedição completa de 4x4 com motorista experiente e guia local para quem for realizar trekkings pelo caminho. Aos que vão encarar o percurso de forma independente e mais em conta, existem mini ônibus ligando as vilas principais, mas eles partem apenas uma vez por dia e podem deixar sua viagem ainda mais lenta (a melhor solução para quem está com orçamento baixo é tentar fechar um grupo para rachar um jeep)

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Saindo de Shimla, a estrada vai gradativamente ganhando altitude… e se deteriorando. A partir dali começa a emblemática Hindustan - Tibetan Road, rodovia que começou a ser construída na encosta vertical das altas montanhas do Himalaia em 1850 com o objetivo de facilitar o transporte de mercadorias até o Tibet e, como é de se esperar, custou a vida de muitos operários. Com suas curvas fechadas, desfiladeiros, túneis precários e constantes deslizamentos de terra, a estrada não é feita para motoristas inexperientes nem passageiros de coração frágil. Para compensar os momentos de sufoco - na direção ou no banco do carona - o visual que acompanha a viagem é de tirar o fôlego. Lá embaixo, o vale verde exala ares de verão depois de um longo e tenebroso inverno e o rio Spiti corre rápido com a força das águas do degelo da neve das montanhas. Os maciços do Himalaia estão tão perto, que é possível identificar as gigantescas geleiras no topo dos picos nevados despontando contra o céu azul.

À noite, viajantes cobertos de pó e cansados da estrada se cruzam nas vilas de contos de fadas que parecem congeladas no tempo com suas casas de pedra, templos centenários, ovelhas, vacas, idosos trabalhando no campo e crianças tímidas. Pousadas e homestays estão preparadas para recebê-los com simplicidade e a sempre deliciosa gastronomia local. Estamos no verão e ainda assim a temperatura é negativa durante a noite, o que faz pensar como é a vida nas montanhas quando o inverno chega e isola aquelas comunidades do resto do país soterrando a já precária estrada de neve. Para chegar e sair, apenas com helicóptero do exército.

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Dia após o outro, jeeps, motos e algumas poucas bicicletas se cruzam pelo caminho trazendo viajantes que buscam os tesouros escondidos do Vale do Spiti como, por exemplo, o monastério de Tabo, o mais antigo da Índia e um dos mais antigos do mundo fundado em 996 DC. Para esticar as pernas e dar um tempo na estrada, há uma infinidade de trilhas que levam a templos, vilas, picos e lagos. O sagrado Chandratal Lake está no fim de uma dessas trilhas e marca a última noite dos viajantes que começam o cricuito em Shimla. O pernoite aos 4270m em um acampamento no coração do Himalaia é uma despedida a altura da aventura. No dia seguinte, o exaustivo trecho final de estrada leva a Manali, um oásis mochileiro onde os viajantes podem encontrar pousadas confortáveis, boa comida, cerveja gelada e wifi, este último ítem absolutamente ausente ao longo dos quase dez dias percorrendo o vale do Spiti.

--->> Para quem se animou com essa história de penhascos, curvas perigosas, picos nevados e monastérios centenários, se liga no passo a passo desse circuito que é considerado uma das mais belas e perigosas roadtrips da Ásia e comece a planejar essa viagem!

CIRCUITO KINNAUR - SPITI, PASSO A PASSO:

O circuito completo pelo Vale do Spiti leva no mínimo 6 dias, mas nós recomendamos pelo menos 8 dias para poder percorrer as estradas sem pressa e também ter tempo de fazer trilhas, explorar vilas e templos.

Nós levamos 9 dias de jeep, saindo de SHIMLA e chegando em MANALI, e o circuito ficou assim:

DIA 1: de Shimla a Sarahan
O primeiro dia na estrada é um dos mais tranquilos, com asfalto bom, pouca poeira no ar e muita disposição. No meio do dia, parada para uma trilha de aclimatação até o Hatu Peak, a 3400m. O pernoite foi na pequena vila de Sarahan, porta de entrada de Kinnaur, onde chegamos a tempo de fazer uma visita ao belo templo Bhimakali e comer os primeiros, de muitos, momos.

DIA 2: de Sarahan a Chitkul
Sarahan foi o ponto de partida para mais uma trilha, dessa vez até Bashal Peak. O trekking é puxado com subidas bastante íngremes, mas o caminho é bonito e percorre uma densa floresta de pinheiros onde cruzamos com pastores e famílias nômades da montanha. De volta a estrada, penhascos e curvas de gelar o sangue até chegar a Chitkul, a última vila antes da fronteira com o Tibet. A vila é uma das mais belas de todo o percurso e fica ainda mais bonita no por do sol.

DIA 3: de Chitkul a Kalpa
O dia começa com uma parada em Sangla para visitar o antigo Kamru Fort e o pitoresco Bering Nag Temple. De lá seguimos para um trekking ao Kanda Peak, 3600m. A trilha, apesar de fácil, é bastante demorada e o vento seco carregado de poeira deixa a subida bastante cansativa. O pernoite foi em Kalpa, outra vila deliciosa de se percorrer no fim de tarde.

DIA 4: de Kalpa a Nako
Gastamos um tempo da nossa manhã para conhecer a vila de Kalpa e tomar um preguiçoso café da manhã, afinal ninguém tem pressa nas montanhas. Precisamos fazer uma parada estratégica em Reckong Peo para emitir o INNER LINE PERMIT obrigatório para cruzar o Vale do Spiti. Chegamos a Nako a tempo de admirar mais um por do sol. Do heliponto é possível ver as casas ao longe no vale junto às plantações (obs: logo ao lado há uma Wine Store, o que na Índia quer dizer "lojinha que vende cerveja"). O pernoite foi no Lake View Hotel, o mais confortável de todo o percurso.

DIA 5: de Nako a Tabo
Em Nako fizemos o trekking mais bonito de todos, acompanhando as encostas áridas adornadas por uma infinidade de bandeirinhas budistas coloridas. A imensidão do Himalaia já se faz presente com força neste trecho do percurso. Ao longo do caminho também paramos para ver a estranha múmia do monastério de Giu, mas o ponto alto do dia foi o sereno e ao mesmo tempo poderoso monastério de Tabo, o mais antigo da Índia. Aos que meditam, vale a pena investir um tempo neste lugar.

DIA 6: de Tabo a Kaza
Pela manhã, visitamos as cavernas de meditação nas encostas que cercam a vila de Tabo. No caminho para nosso destino final, uma parada no incrível Dhankar Monastery, construído no topo de penhascos. Ainda foi possível fazer uma trilha ao Dhankar Lake próximo dali. Ao cair da tarde, chegamos em Kaza, a capital da província mas, ainda assim, uma pequena e charmosa vila. Lá encontramos as melhores opções de restaurante e o primeiro wifi de todo o percurso (mas bastante precário).

DIA 7: Kaza
Como o plano era dormir mais uma noite em Kaza, tiramos o dia para explorar os arredores, como o monastério de Key (ou Kee) e a vila de Kibber. Aproveitamos as noites em Kaza para comer nos dois restaurantes da Ecosphere, instituição que procura preservar o turismo sustentável na região. Além da causa nobre, a comida é fantástica.

DIA 8: de Kaza a Chandratal
O oitavo dia passa lento na estrada, que neste trecho está em condições bastante precárias. Prepare-se para ainda mais poeira, mas também para os cenários mais incríveis do trajeto. O ponto final é o acampamento que fica a 3km do lago sagrado de Chandratal, a uma altitude de 4300m. Os últimos quilômetros são percorridos a pé por uma bela trilha pelo vale até chegar ao belíssimo lago cercado pelas gigantes montanhas do Himalaia. O pernoite no acampamento é confortável, com barracas em bom estado, comida surpreendentemente boa e um céu estrelado digno de uma noite de despedida.

DIA 9: de Chandratal Lake a Manali
O último dia na estrada é puxado, apesar da distância percorrida ser curta. A estrada é péssima e o ritmo é muito lento. O lado bom? Além da bela paisagem, a birosca no meio da estrada serve o melhor Thali de toda a viagem. Chegamos em Manali por volta das 18h bastante cansados e aproveitamos os próximos dias para descansar nesse oásis mochileiro, que é imperdível.

DICAS ÚTEIS:

- Dinheiro: apesar de ser uma região isolada, encontramos caixas eletrônicos em vilas como Sangla, Reckong Peo e Tabo.

- Comida: como horas seguidas são passadas dentro do carro em lugares muito ermos, não conte com uma loja de conveniência na estrada. Abasteça a mochila nas vilas onde fará o pernoite, a maioria delas tem pelo menos uma vendinha com batatas, chocolate e algum biscoito. Na hora das refeições, não tenha medo de encarar a culinária local, pois ela será a mais fresca e saborosa do cardápio.

- Água: Spiti aboliu as sacolas plásticas, mas ainda precisa lidar com as garrafas pet. Para diminuir a venda na região, muitas pousadas e restaurantes oferecem refil de água mineral aos turistas. Mas como água é um assunto sensível na Índia e pode rolar uma desconfiança da procedência do galão, pastilhas de clorin vão garantir o seu sossego. Outra opção é o life straw, que vimos a venda em diversas cidades da Índia.

- Higiene: A poeira será seu maior companheiro nessa viagem, então lencinhos umidecidos são indispensáveis para se limpar ao longo do dia. Álcool em gel é necessidade, não apenas nesse trecho, mas durante toda a viagem. Papel higiênico é fundamental, já que nenhum hotel em que paramos disponibilizava um. Hidratante e filtro solar também não podem faltar, pois o clima seco e sol forte da montanha vão fazer um estrago na sua pele. Para os males da altitude, um bom remédio para dor de cabeça faz diferença.

- Roupa: Durante o dia faz bastante calor, então uma bermuda / legging e camiseta seguram o rojão. Para as trilhas, lembre-se sempre de ter um anorak corta vento a mão e botas de trekking nos pés. Para a viagem de carro, chinelos são confortáveis e práticos. A noite pede casacos e roupas térmicas, pois as temperaturas caem abaixo de zero e as hospedagens não oferecem aquecedor. E lembre-se: mantenha as roupas "de descanso" bem guardadas dentro da mochila, depois que a viagem começa, a poeira toma conta do carro.

- Comunicação: Conseguimos wifi apenas em Kaza e mesmo assim bastante precário. Quem quiser continuar conectado ao longo da viagem pode comprar um ship local uma vez que grande parte do trajeto tem cobertura 3G. (Mas a experiência de ficar dez dias sem contato com o mundo "lá fora" foi bem interessante...)

(ARTIGO ORIGINAL NO SITE http://WWW.ACULPAEDOFUSO.COM)



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