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aninhablu

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  1. Olá! Gostei muito do seu relato e aproveitei as dicas quando montei o nosso para Bonito e região. Agradeço e deixo aqui o post no meu blog para quem quiser outras experiências - tomei a liberdade de usar uma das suas fotos do Anhumas, que ficaram INCRÍVEIS! Obrigada! Ana. http://mochilana.wordpress.com/brasil/mato-grosso-do-sul/bonito/
  2. Olá, amigos! Gostaria de divulgar um blog que comecei recentemente sobre uma viagem entre Venezuela e Argentina. Sou bem detalhista e tento passar os roteiros e passeios feitos, bem como informações sobre cada lugar. Abaixo, informo todas as cidades pelas quais passei, bem como o endereço da minha página na web e, dessa forma, convido a visitá-la todos os que tiverem interesse no itinerário. Ficarei em dar dicas para quem quiser! Abraço aos viajantes! BRASIL Boa Vista VENEZUELA Santa Elena de Uairén (Monte Roraima) Ciudad Bolívar Salto Ángel Caracas Los Roques Mérida Maracaíbo COLÔMBIA Maicao Santa Marta (Parque Tayrona) Cartagena Medelín Bogotá Cali Popayán San Agustín Ipiales EQUADOR Tulcan Quito Otavalo Baños Alausí Riobamba Guayaquil Galápagos Cuenca PERU Tumbes Trujillo Huaraz Lima Pisco Ica Nasca Arequipa Cusco (Macchu Picchu) Puno BOLÍVIA Copacabana (lago Titikaka) La Paz Sucre Potosí Uyuni (Salar de Uyuni) CHILE San Pedro de Atacama Santiago Pucón Valdívia Puerto Varas ARGENTINA Bariloche Blog: www.mochilana.wordpress.com
  3. aninhablu

    5 meses entre Venezuela e Chile!

    Agradeço a todos que já estejam lendo o blog. Fico super feliz! Obrigada! Ana.
  4. aninhablu

    5 meses entre Venezuela e Chile!

    Olá, Em 2010, eu postei aqui no site um relato sobre uma viagem que fiz ao Egito. As respostas que recebi foram sempre muito positivas e percebi que as dicas dadas ajudaram alguns mochileiros na elaboração de seus próprios roteiros. Através dos meus erros e acertos, quis dar aos outros a oportunidade de minimizar os problemas e maximizar a alegria, que toda a viagem traz. Assim, decidi começar a escrever sempre sobre minhas aventuras. Além do mais, relatar as jornadas é um modo de jamais nos esquecer de todos os seus detalhes; tudo de bom e até tudo de ruim que faz “viajar” ser a nossa paixão! Entre maio e outubro de 2012, com um companheiro encontrado aqui no “Mochileiros”, viajei entre a Venezuela e o Chile, voltando ao Brasil por Bariloche, na Argentina. Minha narrativa detalhada seria grande demais para ser postada aqui e, portanto, resolvi começar um blog. Abaixo, informo todas as cidades pelas quais passei, bem como o endereço da minha página na web e, dessa forma, convido a visitá-la todos os que tiverem interesse no itinerário. Abraço aos viajantes! BRASIL Boa Vista VENEZUELA Santa Elena de Uairén (Monte Roraima) Ciudad Bolívar Salto Ángel Caracas Los Roques Mérida Maracaíbo COLÔMBIA Maicao Santa Marta (Parque Tayrona) Cartagena Medelín Bogotá Cali Popayán San Agustín Ipiales EQUADOR Tulcan Quito Otavalo Baños Alausí Riobamba Guayaquil Galápagos Cuenca PERU Tumbes Trujillo Huaraz Lima Pisco Ica Nasca Arequipa Cusco (Macchu Picchu) Puno BOLÍVIA Copacabana (lago Titikaka) La Paz Sucre Potosí Uyuni (Salar de Uyuni) CHILE San Pedro de Atacama Santiago Pucón Valdívia Puerto Varas ARGENTINA Bariloche Blog: www.mochilana.wordpress.com
  5. aninhablu

    Duas Semanas no Egito - outubro 2010!

    Exatamente! Concordo com o que o Felipe diz! Carlos, espero que tenha recebido minha Mensagem privada! Ana.
  6. aninhablu

    Duas Semanas no Egito - outubro 2010!

    Olá, desculpe-me por não ter respondido antes. Não vi sua mensagem... Você já deve ter ido e voltado do Egito, né? Espero que tenha gostado... Ana
  7. aninhablu

    Duas Semanas no Egito - outubro 2010!

    Olá! Olha, 4 dias no Cairo são suficientes sim. Eu ficaria em algum lugar no Cairo, que fica mais fácil fazer passeios na própria cidade ou ir a Gizé, onde ficam as pirâmides. Pode tirar o visto lá sim, é facílimo! Se quiser ler o início do meu relato, dou várias dicas para o Cairo. Também fiquei lá por quatro dias. Você vai gostar! Abraços! Ana.
  8. aninhablu

    Duas Semanas no Egito - outubro 2010!

    olá! Obrigada por ter lido até agora! Na verdade, não tive tempo de terminar mesmo...as férias terminaram e meu trabalho toma 100% do tempo. Mas farei o possível para completar o relato nas próximas semanas! Obrigada! Ana.
  9. Pesquisando esse fórum, vi a lista de pérolas do usuário Xaliba para xavecar uma "pessoa gringa". ADOREI!!! Mas sendo mulher, venho aqui defender a classe e passo a minha pequena lista de respostas possíveis, caso o indivíduo xavecante - gringo - seja difícil de engolir: Desculpa amarela, pra se livrar sem ofender... Oh, you´re so sweet, but no thanks. – Você é uma graça, mas não obrigada. Sorry, I have a boyfriend. – Desculpe-me, tenho namorado. That´s cute, but I´m not alone. – Que gracinha, mas estou acompanhada. Sorry, I´m already leaving. – Eu já estou indo embora. Respostas grossas, se o cara estiver mesmo enchendo o saco: No, thanks. Live me alone. – Não, obrigada, me deixe em paz. Back off, you stupid jerk! – Cai fora, idiota! Bite me! – Vai pro inferno! Go away! – Vai embora! Kiss my ass! – idem Get lost! – Cai fora! I´ll call the Police! – Eu vou chamar a polícia! I´ll kick you in the nuts! – Eu vou te dar um chute no saco! You´re drunk. – Você tá bêbado. You´re a moron. – Você é um retardado. Stop nagging me! – Não me incomode! You wish! – Só nos seus sonhos! Don´t barf on me, asshole. – Não vomite em mim, imbecil. This is the worst line I´ve ever heard. – Essa é a pior cantada que eu já ouvi. Fuck you! – Vai se foder! Go fuck yourself! – idem Depois, passarei também frases prováveis para aceitar o xaveco, se o cara valer a pena!
  10. Ser turista é o que realmente me deixa mais feliz na vida! Infelizmente, viajar não é uma constante, já que esbarro nos motivos mais óbvios que dificultam qualquer planejamento mais audacioso: falta de tempo e de dinheiro. Entretanto, sempre que posso, estou na estrada e planejando a próxima viagem! Precisamente por isso, decidi escrever meu relato aqui no http://www.mochileiros.com, tentando ajudar outros viajantes, do mesmo modo como eu fui ajudada pelo site e suas valiosas dicas, na elaboração do roteiro da minha última aventura, duas semanas no Egito, em outubro de 2010. Pelas dicas dos mochileiros, consegui economizar algum dinheiro e trabalhar num roteiro conciso e objetivo, criando uma boa viagem. Ainda assim, se eu tivesse a oportunidade de refazê-la, certamente agiria de forma diferente em várias ocasiões. Por isso, repasso agora a minha própria experiência e espero que também seja de valia aos que, da mesma maneira, pretendam visitar o país dos faraós. Saí de São Paulo, dia 2 de outubro, no vôo da Air France, com escala em Paris. Chegamos ao Cairo somente dia 3, à noite, contando o tempo total de 16 horas de vôo, mais a espera no aeroporto da França. A minha primeira dica agora é: nem se preocupem em retirar o visto para o Egito no Brasil. Ao verificar essa possibilidade, percebi que tinha duas opções. Na primeira, eu gastaria R$ 290,00, preço que uma agência de turismo havia cobrado para intermediar a retirada do visto; na segunda, fazendo o processo sozinha, eu teria que enviar o passaporte, via sedex, a Brasília, assinando um documento que isentava de culpa o consulado, no eventual extravio do passaporte no envio de volta a Santa Catarina, minha casa, pelos correios, e ainda pagaria cerca de R$ 80,00 da taxa do visto, fora o sedex. Que complicação! Assim, aceitei o conselho do site e tirei o visto no Cairo, simplíssimo! Há somente que se entrar numa fila, saindo do avião, e pagar a taxa de 15 dólares, só isso! No mesmo lugar, já é possível também trocar dólares ou euros por Libras Egípcias, a moeda do país. Na imigração, nem sequer checaram meu certificado internacional de vacina, foto ou qualquer outro formulário; na verdade, mal me olharam! Só verificaram o visto que eu acabara de comprar e pronto, estava no Cairo. Claro que não aconselho ninguém a não levar a documentação necessária. Enfim, depois de pegar a minha bagagem, já comecei a sentir o efeito do que mais me irritou no Egito – e olha que, sendo turista, eu não me irrito com quase nada! – o assédio aos turistas e as benditas gorjetas! Não sou contra recompensar pessoas por bons serviços prestados, mas a gorjeta no Egito assumiu o valor compulsório. Damos gorjeta a qualquer um, por quase nada. Acostume-se a pagar simplesmente por pedir uma informação na rua ou usar um banheiro; do contrário, agüente os olhares feios, o assédio e as discussões. Disse-me um amigo que morava no Egito que ele sentia mais como se fizesse caridade, mas isso, de fato, me irritou. O que posso dizer é que tenham sempre moedas à mão, para esse fim. No aeroporto, fui ao banheiro e, ainda sem troco em Libras Egípcias, dei uma moedinha de um euro à atendente. Abaixo, algo que pode ajudar; uma média de quanto pagar de gorjetas. Os valores estão em Libras Egípcias: Em banheiros – 1,00 Em restaurantes – 10,00 (mesmo assim, também cobram a porcentagem de serviço) Carregador de malas – 2,00 a 5,00 Camareira – 5,00 a 10,00 Taxista – 5,00 a 10,00 Bem, estava no Cairo e a cidade é enorme – tem cerca de 15 milhões de habitantes. Como já era noite, fomos simplesmente direto ao hotel para descansar. Felizmente, um amigo americano me buscou no aeroporto e, nesse dia, me poupei de discutir preços. E, cabe dizer, sempre, sempre combinem o valor do percurso com o taxista de antemão, nunca deixem para depois e certifiquem-se de ter o valor específico acertado trocado, para não correr riscos de não receber o valor correto em troco de volta. O hotel, reservado no http://www.decolar.com,'>http://www.decolar.com, era o Middle East. Ah! Os hotéis! Penso ser bem conveniente discorrer um pouco sobre esse tema. Como eu disse anteriormente, muito pouca coisa me tira do sério enquanto estou viajando. O simples fato de ser uma viajante parece me deixar imune a qualquer tipo de chateação; tudo está bom pra mim; a partir do momento que eu embarco no avião, a singela idéia de que ele está me levando a lugares desconhecidos, cuja probabilidade de aventura, de diversão, de encontro com pessoas interessantes e de liberdade durante algum tempo é iminente faz com que a minha mente automaticamente se sinta leve. Ano passado, por exemplo, nosso carro recém alugado em Lisboa e sem mostrador de combustível ficou sem gasolina no meio da rua, precisando ser empurrado até o posto mais próximo. Se acontecesse no Brasil, no meio de um dia estressante de trabalho, eu certamente desenvolveria um mau-humor contagiante, mas, em Portugal, no meio de uma agradável viagem, o fato tomou ares de pitoresco e foi até divertido! Minha mãe diria que eu sou bem “cuca-fresca”. Bem, isso tudo para dizer que eu, realmente, não me importo com o lugar onde eu fico nas minhas viagens. Não sou uma pessoa de albergues, embora já tenha me hospedado em alguns, pois sempre necessitei de “um banheiro pra chamar de meu”; mas não tenho frescura. Na verdade, tendo sempre viajado com pouco dinheiro, nunca me dei ao luxo de escolher hotéis caros. Fico, sempre que é possível, na casa de parentes e amigos ou hotéis bem baratinhos; e, em último caso, em albergues. O fato é que eu não faço disso um problema... Só quero um lugar pra guardar as coisas, tomar banho e esticar o corpo no final do dia. Assim, no Egito, não foi diferente. Entrei em contato, recentemente, com uma interessante modalidade de viagem, no http://www.couchsurfing.com.org, comunidade cujos membros, ao redor do mundo, acolhem viajantes de graça, nas suas casas, pelo simples fato de conhecer novas pessoas e entrar em contato com diferentes culturas. Adorei! Mas, para o Egito, eu não considerei o “couchsurfing”, pois estaria com dois amigos que não aprovariam a idéia de ficar na casa de desconhecidos. Dessa forma, o que nos restou foram os mencionados “hotéis baratinhos”. Para minha felicidade, percebi, nos sites que utilizei (http://www.decolar.com e http://www.hoteis.com), que havia muitos hotéis bem em conta no país, dada a desvalorização da moeda local em relação à nossa e ao dólar. Como afirmei, já fiquei em lugares muito simples nos Estados Unidos e na Europa, e nunca tive nenhum problema. Entretanto, no Egito a equação hotel simples = hotel sujo é exata! Sujo a ponto de nos levar ao questionamento: “será que eu sento nesse vaso?”. Mesmo assim, isso jamais seria forte o suficiente para atrapalhar a alegria da minha viagem. Como disse anteriormente, eu não sou de frescuras e simplesmente resolveria uma situação dessas com muito papel higiênico e banho com chinelo de borracha! Mas o que me encheu mesmo foi a reação do meu amigo à imundície dos hotéis. Isso sim me estressou. Então, se você é como ele e se importa com o conforto e não está muito propenso a aceitar, de mente tranqüila, um certo grau de sujeira, comece por não se hospedar no Middle East! Na verdade, eu mais que entendo os argumentos dele: nós pagamos e, não é por ser mais barato, que não vamos esperar um serviço, no mínimo, decente; nós não temos mais 20 anos e não precisamos agüentar qualquer porcaria... Sim, eu compreendo e até apoiaria em outras circunstâncias, mas eu já me estresso tanto no me trabalho que, a última coisa que eu quero, é discutir com gerente de hotel enquanto estou a passeio. Além disso, devo confessar que não sou naturalmente um consumidor que reclame; deixo muita coisa passar e só luto com afinco por meus direitos quando eu ache que valha muito a pena. Enfim, o Middle East tem um pessoal muito simpático, mas é imundo, tem lixo pelos corredores, moscas nos quartos, mobília que ficaria melhor no poste da enchente, a Internet não funciona e o café da manhã servido dá nojo. Aqui sim, a minha segunda e valiosíssima dica: podemos não ter frescuras, mas quando o assunto é comer, todo o cuidado com higiene é pouco. Aqui sim, entendo que meu sistema digestivo passado dos trinta já não digere qualquer coisa tão facilmente. Adoro comer comidas típicas, mas devemos ter discernimento. Nosso organismo já tem muito trabalho adaptando-se às diferenças de temperos, horários, etc. Então, cuidem dele. Para não estragar suas férias no Egito, passem longe de ovos, embutidos, frutas mal lavadas, frutos do mar e tudo que esteja mal cozido ou pareça sujo. Comam com moderação! Uma Inglesa, vizinha do nosso quarto em Luxor, deve ter desejado mil vezes não ter comido os ovos do café, ao ser levada de ambulância para o hospital, soltando tudo que tinha direito por cima e por baixo. Um pouco antes de desmaiar e arruinar uma semana de férias, no mínimo, ela confessou à minha amiga enfermeira a ingestão fatal dos ditos ovos... Bom, assim iniciamos o relato do dia 4 de outubro, narrando uma passada mais que meteórica no restaurante do Middle East, só para confirmar que não comeríamos nada do que estava ali, nem a lingüiça suspeitíssima, nem a maçã bichada, ou o café fraco, o leite retirado com uma concha podre de suja, o feijão (feijão??? Sim! No café da manhã!), o queijo de ar duvidoso e tampouco os singelos pãezinhos nos quais todo o mundo metia a mão! Nos contentamos com biscoitos industrializados e fomos fazer os primeiros planos da manhã. Nesse dia, especificamente, meu amigo americano não dormiu no mesmo hotel. Na verdade, ele já estava em estágio de faculdade no interior do Egito já havia quase dois anos. Assim, ele foi para o Cairo, a capital, nos buscou no aeroporto no dia anterior e foi para a casa de outro conhecido passar a noite. Dia seguinte, 4 de outubro, ele tomou um táxi e foi para Gizé, onde estão as três pirâmides mais famosas – Quéops, Quéfren e Miquerinos – e o nosso querido hotel Middle East. A localização do hotel foi outro ponto de discussão. Quando fizemos a reserva no site, pensamos erroneamente estar no Cairo. Eu já sabia que Gizé, apesar de colada ao Cairo, como uma extensão da cidade, é uma região longe do centro e que não oferece muito além de, obviamente, as pirâmides. Assim, no meu roteiro, teria valido mais a pena ficarmos mais no centro do Cairo, onde passaríamos mais dois dias inteiros e não em Gizé, onde ficaríamos apenas um dia, para o passeio às pirâmides. Desse modo, como ficamos em Gizé, tivemos de enfrentar, nos outros dois dias, o trânsito caótico, enlouquecedor e lento do Egito para todos os outros passeios, no Cairo. Apesar disso, ficar em Gizé nos proporcionou um contato maior com a cultura local. A região é mais pobre e menos ocidentalizada. Em Gizé, a maioria avassaladora é muçulmana. Não sei, realmente, se, voltando ao Egito, escolheria ficar no Cairo ou voltaria a Gizé... Houve as vantagens, como disse, mas ficar no centro do Cairo certamente nos faria economizar tempo e dinheiro em transporte. Assim, no dia 4, nosso primeiro passeio contou com um atraso considerável, pois tivemos que esperar umas duas horas que o nosso amigo viesse do Cairo ao nosso hotel, em Gizé. Ele já chegou estressado com o taxista que havia se perdido, mas até aí, eu estava lépida e faceira! Do Middle East até as pirâmides era bem pertinho, dava até pra ir à pé, mas como o táxi já estava ali à disposição, pagamos mais 10 EGP (Egyptian Pounds) – preço médio para corridas pequenas, de 5, 10 minutos – e fomos de carro. Já passava do meio-dia. Difícil descrever a sensação ao ver, ainda do táxi, os primeiros contornos esfumaçados das pirâmides, erguendo-se, imponentes, no meio da cidade. Elas estavam bem ali, se aproximando, crescendo mais nitidamente, trazendo à lembrança todas as aulas de História Antiga do colégio e a paixão da minha professora Alzira, todo o mistério dos livros que nos contavam sobre os faraós e suas construções megalomaníacas, todo o misticismo e as maldições dos filmes de Hollywood. Por mais clichê que o passeio já seja, eu não pude deixar de sentir o friozinho na barriga! Elas estavam bem na minha frente, uma das Sete Maravilhas do Mundo que ainda persistem, as pirâmides! Estruturas de quase 5 mil anos, provando a grandiosidade do espírito humano e tudo que nós somos capazes de fazer. As pirâmides de Gizé impressionam mesmo! São enormes, cada pedra é maior que uma pessoa. Embora eu rejeite veementemente, chegamos até a compreender a teoria sobre óvnis cheios de ETs as terem construído. Prefiro acreditar na infinita criatividade do Homem e no seu poder de adaptação e de resolução de problemas, mas é impossível não questionar como, há tanto tempo e sem a tecnologia que dispomos hoje, eles tiveram a capacidade desse feito de engenharia mais que grandioso. Já vi diversos documentários, ilustrando as várias e prováveis formas de construção, mas, uma vez lá, diante das pirâmides, ainda ficamos surpresos e indagativos. O fator decepcionante fica a cargo do lixão aos pés de todo o complexo arquitetônico. Eu, de fato, não esperava vê-las perdidas no deserto; já sabia que a cidade está, há tempos, chegando cada vez mais perto das pirâmides, mas não tinha idéia que era tanto assim! Elas estão, de um lado, estranguladas por Gizé. O lixo depositado nos arredores e a falta de cuidado com todo o entorno foi, realmente, frustrante e surpreendente, uma vez que o Egito praticamente vive do turismo. No final da viagem, já estava entendendo melhor a cultura atual do país. Então, vimos que, de um lado, Cairo/ Gizé invade, impiedosa, e do outro, sim, o deserto, infinito e desolador, até onde a vista alcança. A região é enorme! Andar de uma pirâmide à outra leva tempo, muito pé e muito suor! Hidratem-se sempre! Muita água, protetor solar e chapéu. Eu só não uso óculos escuros, pois eles tiram totalmente meus reflexos! Mas também aconselho. Aliás, eu admirei muito a “melhor idade” presente nas várias excursões, pois jamais sugeriria o Egito como passeio para quem não está com um bom condicionamento físico. O calor no Egito é escaldante! Na previsão do tempo, provavelmente, o mapinha egípcio tem uns doze sóis em cima! Nas pirâmides, não paguem mais que 5 Pounds por uma garrafa d’água pequena e 10 por uma grande. Eles vão tentar cobrar até 30 por uma pequena. Barganhem, e se não der em nada, virem as costas... Sempre funciona, eles te gritam de volta e aceitam o preço. Percam o tempo pechinchando, pois vocês precisarão de muita, muita água! Vale dizer que outra coisa que acaba com a magia do lugar, além do lixo, são mesmo os vendedores! O assédio dos carinhas das charretes, dos cavalos, dos vendedores de chapéus, badulaques, fotos, lembrancinhas e afins enche muito o saco! Eles te seguem, te perseguem, te assediam mais que vinte vendedores de colar de coquinho do Pelourinho, num esforço conjunto! Eles andam com você por metros e metros, falando e repetindo os preços e, incrivelmente, barganhando os valores sem que você interaja de volta ou, pior ainda, com você negando fortemente a oferta! Mas é compreensível, quando entendemos que a única fonte de renda para aquelas famílias são os turistas. A pobreza no Egito, em nível de miséria, atinge 20% da população e o país só falha na redução desse índice. Como no Brasil, a corrupção é o pior inimigo. Tudo no Egito é movido a propina; em todas as camadas sociais, ela lidera! Deve até haver um equivalente “jeitinho egípcio” ao nosso amado tupiniquim. Logo na entrada das pirâmides, meu amigo já brigou com um rapaz que insistia em nos colocar numa charrete para andar pelo complexo. Começamos negando educadamente e até explicando que preferiríamos caminhar e, 10 minutos depois, ele já estava aos gritos afirmando que chamaria alguém se o dito cujo não se afastasse. Super mágico! Bom, depois do conturbado começo, conseguimos entrar no clima. Enfim, passamos cerca de 5 horas nas pirâmides, caminhamos, suamos litros, andamos de camelo. Minha amiga ficou com pena dos pobrezinhos, mas eu gostei! O passeio também já é lugar-comum, mas é divertido. Alugamos os camelos para ir apenas de uma das pirâmides para a Esfinge. Alguns metros no terreno tortuoso e cheio de pedras. É bem fácil perder o equilíbrio e cair, pois o animal é muito alto e cada vez que ele se inclina, é melhor se segurar bem forte! Pagamos 30 Pounds por cada camelo, mas podia ainda ser menos, se tivéssemos barganhado mais. Ao descer, os homens queriam mais dinheiro por terem tirado fotos nossas sobre os animais. Pagamos mais 10 Pounds pra sair logo da discussão, pois eles sabem ser bem chatos e persuasivos. Na verdade, ao discutir valores com os egípcios, é bom deixar claro que a gorjeta já está inclusa no serviço e que nada mais será pago ou, ao final do trabalho, eles ainda pedem mais ou não te dão o troco correto. Aprendi isso quase no final da viagem! E, portanto, espero que sigam meu conselho! Na verdade, há mesmo que se ter muita disposição para discussão se o objetivo for economizar dinheiro. Conversem muito, barganhem sempre. Outra coisa indispensável, fundamental mesmo, é falar inglês. Como fomos sem agência, fizemos todas as reservas e compras sozinhos pela Internet, no Brasil. Com isso, economizamos muito, mas também tivemos todo o trabalho de pesquisa e planejamento; até aí, o domínio da Língua é dispensável. Mas lá, já que não fazíamos parte de excursões prontas, tivemos que nos virar para entrar nos passeios, fazer compras e nos locomover. Vale muito a pena, no lado financeiro, mas é lógico que dá mais trabalho e o esforço e empenho são redobrados. Afinal, não temos ônibus com ar condicionado sempre nos esperando para ir de um lugar a outro e tudo lindamente controlado. Mas, ainda assim, é minha modalidade preferida de viagem (que, na verdade, não é opção!): Pobre, difícil e apaixonadamente cheia de emoção!!! Bom, tudo isso pra dizer que, de fato, se não houver o domínio do Inglês, escolham mesmo fazer parte de um grupo de excursão ou o seu passeio sairá o triplo do previsto ou coisa bem pior. Tenham em mente que os taxistas, vendedores, guias avulsos, etc. estarão sempre querendo nos engambelar. Meu Inglês é muito bom e ainda estávamos com um amigo americano, cujo árabe também é fluente e, mesmo assim, tivemos dificuldades! Assim, mochileiros, nós que adoramos viajar não devemos só nos preocupar com dinheiro e tempo, vamos investir em cursos de Inglês!!! Bom, além de andar nos camelos, outro bom passeio é entrar na Grande Pirâmide – a de Quéops. Na verdade, não tem nada lá dentro, além de uma sala vazia, mas o mais interessante é mesmo chegar a essa sala. Advirto aos claustrofóbicos que não o façam! Sério! Dá pra desmaiar no corredor íngreme, estreito e sufocante que nos leva de uma entrada quase na base da Grande pirâmide à sala interna. Nos primeiros metros, temos que ir agachados, quase com o teto batendo nas costas, como num túnel de ar condicionado; em seguida, abre-se um corredor estreito com o teto afunilando ao topo da pirâmide; os corrimãos são de madeira e a rampa – não são degraus – extremamente íngreme faz com que tenhamos que nos segurar pra não tropeçarmos. É tudo escuro, muito quente, claustrofóbico e apertado pra quem sobe e desce! Mas muito legal ver o interior da pirâmide e as paredes fechando-se no desenho tão tradicional. Uma vez dentro do corredor, não adianta reclamar, não é possível voltar no meio ou você vai levar consigo alguns chineses raivosos pela sua desistência. Na sala interna, não dá pra tirar fotos e, na verdade, não tem nem do quê. É claro que, em troca de alguns Pounds, você sempre pode persuadir o carinha que está lá e fará vista grossa para que você possa ter sua fotografia de má qualidade visual, tirada no escuro, com algumas pedras atrás. Assim, é jogar dinheiro fora. Bom, como havíamos chegado às pirâmides depois do meio-dia, com o café da manhã de biscoitos, e já eram umas 5 da tarde, estávamos famintos! O Café perto da Esfinge estava fechado e, assim, tínhamos que sair do complexo para comer alguma coisa e toda a região é bem desfavorecida de lanchonetes ou restaurantes com cara de limpos. Minha vontade (algo que ainda farei) era ficar e ver o pôr do sol e o anoitecer nas pirâmides, quando as luzes são acesas e dizem que é lindo, mas a fome venceu! Sinceramente, ainda volto ao Cairo só pra fazer isso! E tirar mais fotos. Eu sou tão desligada que não carreguei minha máquina pro primeiro dia de viagem e a bateria acabou no começo do passeio! Brincadeira, né? Só rindo! Saímos das pirâmides e resolvemos voltar à pé ao Hotel Middle East. Andar na ruas de Gizé é surreal pra qualquer um que venha de lugares com o mínimo de leis de trânsito. Pra começar, simplesmente não há semáforos, que dirá faixa de pedestres. A buzina é o segundo idioma oficial e atravessar um cruzamento é algo que exige mais que destreza e domínio do carro. Deve ser necessária uma imersão na cultura egípcia para entender, realmente, como eles evitam bater o carro ou serem atropelados a cada tentativa de atravessar a rua. Dado curioso: eu não vi nenhum, sequer nenhum carro, velho, novo, do ano, sem arranhões por todos os lados. No Brasil, um arranhãozinho no estacionamento do prédio já significa uma tarde na oficina para reparos e fazer o carrão brilhar novamente. No Egito, arranhões na lataria não querem dizer que você não seja um motorista muito hábil; eles só querem dizer que você dirige; não há como evitá-los, simplesmente. Para atravessar a rua, sempre aproveitávamos a “carona” de alguém local, víamos uma mulher de véu no meio fio e já nos colocávamos ao lado dela; eles usam o eficiente método do “ou pára ou me atropela” com perfeição. Simplesmente, sem nenhum pudor, colocam o pé na rua, no meio do trânsito, fazem sinalzinho de “pare” com a mão e continuam, como se estivessem andando no parque. Como nós não tínhamos esse poder, buscávamos essa ajudinha. Já na saídas das pirâmides, essa “ajuda” custou 2 Pounds. Incrível! Parece mentira, mas o que estou prestes a narrar é, sem nem exagero poético, a mais pura verdade: ao nos depararmos com um cidadão de farda branca da Polícia do Turismo, julgamos que fosse alguém apropriado para pedir uma simples informação. Perguntamos a ele onde era a rua do hotel; o rapaz não só nos informou como surpreendentemente tirou o revólver do coldre e, apontando para os carros, nos atravessou na avenida... Sinistro... Meu amigo, mais que prontamente, deu a ele 2 Pounds. Eu ingenuamente perguntei: “Ele é da Polícia do Turismo, a obrigação dele é ajudar, porque você deu dinheiro a ele?”. Ele me lançou um olhar e não disse uma palavra. Uns três quarteirões depois, o guardinha ainda nos seguia, sorrindo. Meu amigo cochichou algo do tipo “É...eu achei que me livraria dele com os dois Pounds”; mais adiante, outro rapaz se juntou a ele e os dois passaram a caminhar conosco, perguntando se ainda precisávamos de alguma coisa. Muito estranho! Ignoramos e eles eventualmente se afastaram. Interessante é que, em momento algum da viagem, eu senti medo ou qualquer receio que alguém me pudesse fazer algum mal. Eles só enchem o saco, querem se fazer úteis, de qualquer forma, para ganhar um pouco que seja. Isso é triste... No final das contas, como não conseguimos dar dinheiro a todo o mundo, pois também nós estamos viajando na pindura, acabamos sendo mal educados com alguns. O caminho até o hotel foi por ruas bastante pobres, muito lixo, muito esgoto, difícil crer que aquela paisagem está tão perto das pirâmides! A King Faisal Street, rua do hotel, é uma avenida enorme, uma das principais de Gizé. De fato, a área não oferece outros atrativos aos viajantes, a não ser, como disse, simplesmente o fato de ser autêntica e incitar à observação da vida local. Para não me prolongar, pois já citei os motivos, meu amigo não quis ficar conosco no Middle East. Pegamos, assim, a mochila que ele tinha deixado lá pela manhã e fomos para outro hotel, perto do nosso, pouco mais caro, mas de fato, muito melhor e bem mais limpo. Ele ainda protestou, queria que mudássemos de hotel, para algum no centro do Cairo, para que inclusive ficássemos todos juntos, mas frente à minha negativa – não queria gastar mais, pois não receberia reembolso pela reserva das 4 noites no Middle East – ele reservou um quarto em Gizé, no hotel The Horizon. A Avenida do The Horizon – Pyramids Street El Haram – era, realmente, mais atrativa; havia diversos restaurantes, pequenas mercearias, bares e até um shopping. Dava pra aproveitar mais a noite. Comemos algo por lá, nos despedimos do meu amigo e voltamos, já à noitinha, nós duas para o Middle East. Os hotéis ficavam relativamente perto um do outro, mas o trânsito doido de Gizé fazia o percurso parecer mais longo. Antes disso porém, à noite, a minha amiga e o americano acabaram, por fim, me convencendo a mudar de hotel, pelos motivos já tratados. Mas o que mais me persuadiu mesmo, pois eu teria continuado no Middle East sem problemas, foi o trajeto que teríamos que percorrer, idas e vindas de táxi, entre um hotel e outro nos próximos três dias, para que saíssemos juntos com o americano para os vários passeios. Assim, gastaríamos também bem mais em táxi. Não fomos para o Cairo, mas mudamos para o hotel The Horizon, junto com o americano, na outra área de Gizé. Devo confessar que foi mesmo mais confortável, o hotel é bem melhor. Minha amiga ficou mais calma! Eu só fiquei com pena de gastar mais dinheiro, mas, enfim, a vista do meu quarto compensou. De qualquer modo, ainda foi barato. No final desse relato, darei todos os preços das diárias de todos os hotéis. Incoerente foi que, se reservássemos o quarto duplo pela recepção, o preço seria de 80 dólares. Pela Internet, no site http://www.expedia.com sairia 50. Assim, nos sentamos na recepção, reservamos o quarto através do site e, no dia seguinte, fizemos o check-in. Seguem abaixo os gastos desse dia, para dar uma idéia mais precisa a todos. Prometo que para os próximos dias, tentarei ser mais breve e sucinta. Espero que meu relato ajude os viajantes, tanto quanto outros me ajudaram! Os valores estão em Libras Egípcias. Os valores de táxis são da corrida e não individuais, ou seja, ainda dá pra dividir entre os amigos que farão a viagem. Dica: em qualquer viagem, levem um bloquinho e anotem tudo o que gastarem, até uma bala. Dessa maneira, é possível ter exata noção do dinheiro que ainda se tem e evitar surpresas ruins, além de desagradáveis discussões com os amigos sobre quem pagou o que e quem deve pra quem, quando a viagem é em grupo. Anotem tudo!!! Dia 4: Pirâmides de Gizé • 10,00 Táxi do hotel Middle East em Gizé para as pirâmides • 60,00 Entrada complexo das Pirâmides • 100,00 Entrada no interior da Grande Pirâmide • 30,00 Passeio de camelo – individual • 20,00 Táxi do Middle East para The Horizon • 40,00 Almoço • 20,00 O que uma pessoa gasta em água • 18,00 Lanche à noite • 10,00 Táxi de volta ao hotel Middle East • Total do dia: 308,00 EGP Individualmente, eu gastei menos, pois as corridas de táxi foram divididas, mas indico os valores totais para dar a exata idéia do que gastar. O balanço do dia 4 foi positivo, mas poderíamos ter aproveitado melhor a parte da manhã e rendido mais, dessa forma, à tarde, mas tudo bem. O que mais posso dizer é que, fazer tudo por conta própria nos faz, realmente, economizar, mas também pode nos fazer perder mais tempo. Assim, planejamento é sempre bom. E dá pra fazer sozinho mesmo! O meu arrependimento nesse dia é que poderíamos ter feito algum outro passeio em Cairo, de modo a aproveitar mais o tempo. Assim, aconselho aos que estão fazendo o planejamento agora para começar realmente cedo e fazer as pirâmides de Gizé e algo no Cairo no mesmo dia. Mais que isso, como os taxistas tentarão vender é até possível, mas não vale a pena... Fazer tudo correndo é coisa de gente desesperada! Muita gente tentará vender pacotes de passeios aos viajantes. Vocês serão assediados assim que pisarem fora do hotel, ou mesmo na recepção, mas nunca aceitem os pacotes oferecidos pelo hotel, pois eles ganham um monte mesmo em cima dos taxistas. E esses passeios oferecidos pela recepção dos hotéis referem-se somente ao transporte; alimentação, entrada nos monumentos e gorjetas ainda têm que ser pagos a parte; então, só para transporte, é caro! Barganhando diretamente com o motorista sai bem mais barato! A comissão do hotel é absurda! Às vezes, o que é oferecido pelo taxista também é inviável; há que se pesquisar, pois eles passam, por exemplo, um valor para passar o dia inteiro com você, que é alto, mas depois pedem almoço, gorjeta e, talvez, até se enfiem no seu passeio, por sua conta! Ademais, muitas vezes, pegar esses pacotes do dia todo só faz com que corramos de um lado pro outro sem, de fato, aproveitar cada lugar. Como eu mencionei, achei que ainda passei pouco tempo nas pirâmides... No nosso primeiro dia, um taxista nos ofereceu 300,00 dólares para passar o dia conosco; mesmo dividindo em três, o valor é extremamente alto, mesmo fazendo mais passeios. Dia seguinte, ele já estava em 300,00 Libras Egípcias! Ainda caro! Mas impressionante a diferença! Que cara de pau! Pela quantidade de passeios que eles oferecem para o mesmo dia, pode até parecer sedutor e barato, mas, como mencionei, é sempre caro e, além disso, não é vantagem fazer tudo com pressa. As pirâmides e mais um passeio é mais que bom para um dia. Mesmo porque é muito calor e temos que tomar cuidado com a estafa e fadiga física. Cair doente pode comprometer toda a viagem! No dia seguinte, 5 de outubro, fizemos check-out no Middle East. Demos tchau e a última gorjeta ao nosso simpático carregador de malas que, no dia 3 à noite, tinha me olhado muito estranhamente quando eu recusei que ele colocasse os lençóis num sofá cama chechelento e afirmei que dormiria na cama de casal com minha amiga, e nos encaminhamos ao The Horizon. Nos acomodamos no novo hotel e logo saímos, de táxi, para o Museu do Cairo. Muito legal! O acervo de mais de 130.000 peças de antiguidade egípcia é maravilhoso! O próprio edifício que abriga o museu, em estilo neoclássico, já é belo e, tão lindo quanto ver as pirâmides, é se embasbacar com o tesouro de Tutankhamon, exposto nele. A máscara do importante faraó que morreu jovem e cuja tumba foi uma das maiores e mais ricas já encontradas é, de fato, lindíssima! Dos simples objetos do cotidiano às estátuas gigantescas, tudo no museu é uma super aula de história, das melhores. Impressionante também são as múmias e as caixas enormes onde parte dos tesouros dos faraós era guardada, dentro das tumbas, juntamente com os sarcófagos. Novamente, o que realmente decepciona é o relaxo do atual egípcio com sua própria história... Não dá pra entender como milhares de turistas, do mundo inteiro, visitam anualmente o Museu do Cairo, deixando milhares de dólares, mais do que em muitos outros museus no planeta e o Egito consegue administrar tristemente esse dinheiro e, conseqüentemente, conservar tão mal seu próprio acervo. Chega a ser constrangedor observar as ridículas fichas amareladas e ainda datilografadas à máquina que explicam algumas das peças – nem todas têm a devida explicação. Além disso, tudo está exposto sem qualquer ordem pré-estabelecida. São itens de épocas diferentes misturados, pelo chão, amontoados, empoeirando pelos cantos sem qualquer sistema de conservação. Ainda bem que o Egito é um país extremamente seco e conserva naturalmente essas peças. Do contrário, já estaria tudo perdido, com muita certeza. Observamos, assim, o relaxo do país e a falta de profissionalismo em relação ao turismo que, incoerentemente, o financia. Relaxo desde os hotéis horríveis até a conservação de seu patrimônio histórico. A poluição, a desorganização, a ganância e a pobreza infelizmente parecem relegar o Egito de hoje a uma categoria inferior... Tudo parece muito amador, bastante diferente do que os antepassados deles próprios construíram e que o resto do mundo aprendeu a reverenciar! O Egito está bem diferente... Mas olha, ainda vale a pena ir!!! No museu, me arrependi mais tarde de não ter pegado um guia. Caminhamos umas três horas dentro dele, estava bem cheio, lemos o que conseguimos, mas tenho certeza que um guia nos traria luz a peças que só passamos o olhar, nos levaria a perceber outras perspectivas mais interessantes, nos banharia de informações curiosas, enfim, não nos interessamos no momento, mas se fizesse a visita novamente, usaria o conhecimento de um guia. Descobri posteriormente que muitos são formados em arqueologia e são egiptólogos. Assim, aqui vai a dica: façam a visita ao museu com um guia. Eles estão por lá oferecendo seus serviços; é só pechinchar. Depois do museu, demos umas voltas nas ruas e paramos em um restaurante típico para almoçar. O Egípcio, apesar de nada profissional em relação ao turismo, como apontei acima, é um povo muito acolhedor e hospitaleiro. Mesmo sem nenhuma intenção, eles, obviamente observando que não somos do local, estão sempre cumprimentando, soltando um sonoro “Welcome to Egypt!” e querendo tirar fotos conosco. Depois de descobrirem que somos brasileiros, a coisa fica ainda mais efusiva, eles querem conversar e, claro, falar dos jogadores de futebol. Logo comigo, que nem sei quem está na seleção!!! Percebi, nessa viagem, o quanto o Brasil é bem quisto. Bom, pelo menos isso, né... Até meu amigo americano começou a se fazer passar por brasileiro, confidenciando humildemente: “O americano nunca é muito querido...”. Tadinho... Incrível dizer que uma cidade do tamanho do Cairo parece nos fazer sentir surpreendentemente seguros. Daí, das imediações do museu, nós tomamos o metrô, que custa só 1 Pound, e fomos até outra área da cidade. A intenção, à tarde, era ir ao Sítio Arqueológico de Sakkara, que fica a cerca de 40 km do centro do Cairo. Mas não há transporte público para a área. Entretanto, descobrimos essa informação – a localização do lugar – só depois que já estávamos meio perdidos, novamente em Gizé. Dalí, ficava muito mais longe, uns 100 km ou mais. Esse é o mal de estar por nós mesmos. Como já disse, pode haver imprevistos que nos farão perder tempo, mas no final deu tudo certo... Em parte... Tomamos um táxi para ir a Sakkara. Foi a viagem de carro mais louca da minha vida! Ele corria demais! Costurava os carros, colava na traseira dos outros que nem papel manteiga passava, brecava abruptamente! Em árabe, meu amigo pediu que ele diminuísse, mas nada adiantou! O cara era enlouquecido mesmo. Aliás, taxistas são algo quase como patrimônio. Os carros enfeitados, as músicas árabes nas alturas, é bem engraçado, mas nada profissional também. Eles fumam, falam ao celular, correm, discutem, te sacaneiam... Em uma ocasião, um deles falava em árabe ao telefone; nosso amigo americano, que só revelava o seu domínio da Língua quando e se nos conviesse, me disse baixinho: “Esse aí tá falando mal da mulher e arranjando um encontro com a amante pra mais tarde”. Que meigo... Mas o nosso taxista de Sakkara não chegou a tanto. Ele praticamente quase nos matou, mas manteve seu casamento sagradamente em paz. Essa viagem de táxi demorou mais de uma hora, mas a sensação foi de eternidade. Mas confesso que até achei divertido! Pela dificuldade e demora de chegar a Sakkara, não sei se voltaria. Na verdade, a principal atração é a pirâmide em degraus ou Pirâmide Escalonada do Faraó Djoser, que, francamente, é meio sem graça. Vale mesmo pelo seu valor histórico, já que podemos observar o que foi a primeira grande construção de pedra de que se tem conhecimento, datando de 2.620 a.C.. Depois da pirâmide escalonada, os engenheiros egípcios foram aperfeiçoando suas técnicas de construção; passando pela pirâmide inclinada (que não chegamos a ver, em Dahchur), cujo ângulo da parte superior foi reduzido, a fim de torná-la mais estável, até as perfeitas pirâmides de Gizé. As três grandes pirâmides de Gizé tinham, inclusive, na época de sua construção, uma aparência lisa, dada pela camada de calcário, tornando sua forma mais perfeita ainda; ao longo dos séculos, essa camada foi desaparecendo, pilhada pouco a pouco. Agora, só é possível observar a parte mais lisa no topo de uma das pirâmides. Em Sakkara, a vista do deserto e das outras pirâmides ao longe, em Gizé, é impressionante! A mais de 100 km de distância, é possível enxergá-las! O ponto fraco do nosso passeio da tarde foi chegar ao sítio arqueológico faltando 5 minutos para que ele fechasse! Sakkara fecha às 5 da tarde! Já tínhamos saído muito tarde de Gizé. Quase não acreditei quando, depois daquele esforço, corríamos o risco de não ver nada. Entretanto, como já disse, nada que não tivesse um jeitinho. O taxista, louco, mas solicito, convenceu os guardas a nos deixar entrar em troca de uma molhadinha na mão. Pagamos 70 Pounds para dois homens e entramos, mas ficamos lá por apenas uns 10 minutos. Já deu pra ver. O meu arrependimento nesse dia é que poderíamos ter ido a Memphis, primeira capital do Egito e cidade mais antiga do país, a 30 km de Cairo, perto de Sakkara. Lá teríamos visto a Esfinge de Alabastro e o Colosso de Ramsés II, estátua com mais de 20 m, mas não houve tempo. Assim, aconselho novamente aos que estão fazendo o planejamento agora para fazer Sakkara e Memphis na mesma ocasião. E ir mais cedo! Logo depois do almoço, já arrumem um táxi para ir a Sakkara. Assim, o tempo não é desperdiçado. Como já estava tarde e tudo estaria fechado, não tivemos muita escolha a não ser dar o dia por encerrado. Voltamos ao hotel e saímos para comer. Ainda conseguimos ir passear num shopping popular perto do hotel. Isso foi bem interessante. As vitrines muçulmanas!!! No Cairo, como em todo o Egito, a maioria é de muçulmanos e observar as mulheres já seria por si só um passeio válido. Como me explicaram, assim como em todas as religiões, há pessoas que, mesmo seguindo os mesmos ensinamentos, são mais ou menos tradicionais. As muçulmanas mais jovens e “moderninhas” usam o véu, cobrem as pernas e os braços, como manda a lei. Porém, usam saias modernas, calças jeans, sapato alto, maquiagem (essa é discretinha nas ruas), tudo numa explosão de cores vibrantes! Estampas das mais variadas combinando entre si, numa alegria só! Interessante foi um acessório que notamos ser bastante comum: as mangas avulsas, em várias cores, vendidas como meia-calça. As mulheres mais tradicionais usam a burca; aí, é meio estranho, só aparece o rosto. As radicais mesmo usam a burca preta com o rosto coberto por véu tipo treliça; aí é estranhíssimo! Tudo coberto! Rosto, mãos, tudo! São praticamente fantasmas negros. Mas embaixo da burca, pode tudo! Ilustramos com a foto da discreta loja de lingeries. Que coisa, heim! Abaixo, os meus gastos do dia 5: Dia 5: Museu do Cairo, Pirâmide em degraus de Sakkara • 20,00 Táxi • 30,00 Táxi de Gizé para o museu • 60,00 Entrada Museu Egípcio – Museu do Cairo • 40,00 Almoço • 1,00 Metrô • 120,00 Táxi ida e volta a Sakkara • 70,00 “Entrada” Sakkara (não sei o valor real, provavelmente é mais barato) • 20,00 Pizza Hut • 10,00 Gorjetas (essas nós também dividíamos, cada um pagava uma vez. Assim como as corridas de táxi) • Total do dia: 371,00 EGP Dia 6, levantamos cedo e tomamos um revigorante café. Nesse hotel, o café era muito bom! Fomos de táxi para o Bairro Copta, no Cairo. Copta é como é conhecido o egípcio cristão e o bairro copta é uma região onde estão localizadas as Igrejas Cristãs Egípcias, do período da dominação Romana. Diz a história que a cripta sob a Igreja Abou Serga abrigou Jesus, José e Maria da perseguição do rei Herodes, por alguns anos, na sua passagem pelo Egito. Li também que antes de se tornar majoritariamente muçulmano, o Egito já foi um país de maioria cristã, há mil anos. O mesmo bairro tem a sinagoga de Bem-Ezra, que em certo momento da história, também foi igreja, simples, mas bem bonita! E para quem quiser já se abastecer de souvenires, tem umas lojas bem sortidas. É um lugar muito bom para passear. Do Bairro Copta, fomos de metrô até o centro e passeamos nas ruas novamente. Em seguida, fomos de táxi até a Cidadela, no Cairo Islâmico. Fundada em 1176, pelo líder muçulmano Saladino, a Cidadela é também hoje um famoso ponto turístico, tendo sediado o governo por mais de 700 anos. É uma bela área murada e estrategicamente situada no topo da colina, com vista panorâmica da cidade. A Mesquita de Mohammed Ali, no coração da cidadela, é a mais visitada pelos turistas. De fato, é lindíssima! Essa data do século XIX, em estilo Otomano, e foi construída sobre a antiga edificação mameluca que ali se encontrava, num esforço de apagar símbolos da antiga liderança. Para entrar nessa mesquita, é necessário que as mulheres cubram os cabelos. Assim, é bom ter uma echarpe em mãos. Do contrário, como eu fiz, é possível alugar, por 3 Pounds, um manto branco com capuz, com cheiro de coisa muito usada! Pelo menos, os mantos renderam boas fotos e muitas risadas. O interior da mesquita é muito bonito e não custa nada para entrar, já que o ingresso já é pago na entrada à Cidadela. Como ninguém é de ferro, depois de tanta história, nós fomos, sem medo de ser feliz, passar a tarde em um dos maiores shopping centers do Cairo, o Citystars, situado em uma área nobre da cidade. O shopping é enorme e tem todas as marcas internacionais que já conhecemos, os preços também são internacionais! Só serviu para almoçarmos muito bem, darmos uma descansada no ar-condicionado e nos encontrarmos com outro amigo, um egípcio muito bacana! Confesso que foi ótimo termos carona. No fim da tarde, saímos do shopping e nos encaminhamos ao mercado Khan El Khalili, outra imperdível parada! Esse tradicional mercado, cujas primeiras lojas datam do século XIV, é um paraíso de estreitas ruelas e tendas lotadinhas das mais variadas lembranças, lenços, especiarias, tapetes, narguilês (ou sheesha, como eles chamam no Egito) e toda a sorte de bugigangas. É praticamente uma 25 de março egípcia! Uma delícia! Aqui novamente, só paciência na pechincha. Em primeiro lugar, barganhar já faz parte da cultura árabe e todos os vendedores esperam isso de nós; em segundo lugar, os preços praticados para os turistas são ridiculamente mais altos que o normal. Assim, se não houver a pechincha, nós saímos muito esfolados. Adoramos ter um egípcio conosco, que também calhava ser um ótimo negociador de preços. Entretanto, na falta dele, eu também afloraria meu lado libanês sem problemas ou pudores. Só lamento termos ficado horas para achar um estacionamento perto do mercado, o que limitou muito nosso tempo lá, pois, obviamente, os homens quiseram ir embora cedo! Por mim, teria ficado mais, mesmo porque, o mercado fecha somente às 4 da manhã. Bahah, nosso mais novo amigo, nos deixou no hotel The Horizon. Comemos e fomos dormir. Meus gastos do dia 6: Dia 6: Bairro Copta, Cidadela, shopping, mercado Khan El Khalili • 25,00 Táxi de Gizé para o Bairro Copta • 1,00 Metrô • 20,00 Táxi para Cidadela • 50,00 Entrada Cidadela • 3,00 Véu para entrar na Mesquita • 20,00 Táxi para shopping • 100,00 Almoço carinho! • 144,00 Compras mercado • 20,00 Pizza Hut de novo! • 10,00 Gorjetas (essas nós também dividíamos, cada um pagava uma vez. Assim como as corridas de táxi) • Total do dia: 393,00 EGP Dia 7, nosso quarto dia no Cairo, não teve muita agitação. Na verdade, para quem está construindo um roteiro agora, eu diria que três dias na cidade são suficientes. Menos que isso, acho pouco; fica com cara de excursão pra Europa, na qual se visitam trocentos países em uma semana, ou seja, não se vê nada bem de nenhum. Um dia apenas, só daria para as pirâmides e Cairo tem bem mais do que isso! Se voltasse lá algum dia, ainda gostaria de ir à Torre do Cairo, mais no centro da cidade, e curtir um pouco a noite num dos barcos-boate sobre o rio Nilo. Dizem que a vida noturna do Cairo é fervilhante, apesar das restrições impostas pela religião a boa parte da população. Gostaria mesmo de ainda ter visto e sentido isso, mas dentro dos três dias, é possível encaixar. Nesse quarto dia, levantamos bem tarde, algo do qual me arrependi depois, e fizemos hora no mesmo shopping que já tínhamos visitado anteriormente. Meus amigos não estavam muito propensos a nada e, assim, só matamos tempo. Eu até queria ter voltado às pirâmides, mas eles me demoveram a idéia da cabeça. Passamos a manhã no shopping e, no início da tarde, meu amigo e eu tomamos um táxi para ir até a estação de trem, onde compraríamos o bilhete para Aswan, nosso próximo destino. Não tinha feito reserva pela Internet, pois não achei ser necessário. Conseguimos a passagem, mas o trem estava bem cheio. Dessa forma, acho que demos sorte; de uma próxima vez, reservaria antes. Mesmo porque, nos teria poupado de entrar no lugar onde as passagens são compradas. Mas até que foi divertido. Ao chegarmos à estação, que fica em Gizé, procuramos obviamente pelas bilheterias, mas nelas não havia sequer nenhuma indicação sobre o Sleeping Train – http://www.sleepingtraincom.br – trem que atravessa o Egito de norte a sul. Perguntamos aos atendentes, que nos indicaram um lugar ao lado da estação. Saímos da fila e nos encaminhamos à direção apontada e não havia nada lá, a não ser lixo e uma espécie de trailer caindo aos pedaços, fechado e sem nenhuma placa indicativa. E, além do mais, o lugar era tão nojento, que evidentemente, achamos que o mais provável era nós termos entendido erroneamente a indicação. Voltamos e perguntamos, dessa vez aos guardinhas, que nos apontaram a mesma direção. Fomos e voltamos umas três vezes, andando mais adiante e retornando, na maior dúvida, até que, surpreendentemente, de dentro daquele trailer ou caçamba de caminhão abandonada, sei lá, através de janela cheia de sebo, um homem nos chamou, mostrando um bilhete do Sleeping Train na mão e indicando a porta. Eu ainda estava bem cética e olhei pro meu amigo com cara de interrogação... Entramos mesmo assim. É verdade, aquele pulgueiro era, de fato, onde se compravam as passagens do trem mais procurado pelos turistas no Egito. Mais um exemplo que atenção à decoração de ambientes e capricho ficaram mesmo no passado, com os antigos egípcios. Aquele escritório parecia uma mistura de ferro velho com Casa das Tralhas. As cadeiras com estofado de couro furadas e espuma aparente, o arquivo de gavetas amassadas, o tapete que não devia receber a visita de um aspirador de pó há 2 mil anos, a mesa riscada, o ventilador grosso de poeira, tudo, tudo imundo, seborrento, opaco, asqueroso e com uma permanente nuvem de cigarro no ar. Sentamos e o único atendente, um senhor igualmente ensebado e portador de um Inglês incrivelmente macarrônico, começou a discorrer sobre os tipos de bilhete do Sleeping Train. “My English, no good”, ele repetia, se interrompido. Enfim, compramos as passagens. Como íamos passar a noite no trem, numa viagem de 13 horas, do Cairo a Aswan, escolhemos as cabines com beliche, mais caras, mas dava pra dormir esticado. Na saída da estação e mesmo antes, meu amigo continuou na eterna tarefa de reclamar do meu planejamento: “Eu vou te matar se não houver passagem. Por que você não escolheu ir de avião, era o mesmo preço! Viajar de trem pra que?”. Sim, é verdade, mas o trem foi muito mais autêntico e interessante. Alguém concorda que viajar de avião somente iria me acrescentar tanto quanto ficar trancada por algumas horas em uma sala? Ao passo que ir por terra, não. Tem-se a oportunidade de levantar e ficar observando, da janela da cabine, todas as cidades ao longo dos trilhos. Acho bem mais válido. Pelo mesmo motivo, ao invés de pegar um táxi da estação de trem de volta ao hotel The Horizon, nós resolvemos ir à pé. Na verdade, eu resolvi voltar à pé... Eu adoro andar pelas cidades, à pé, de ônibus, dando mais tempo à arquitetura, às pessoas, ao ritmo da vida do local. Essa caminhada, porém, foi desafiante! De carro, o percurso do hotel à estação parecia perto, nada mais que os 10 Pounds que pagamos; mas andando, por quase duas horas, sob um sol escaldante e de sandálias, criei várias bolhas nos pés. Mesmo assim, aconselho a caminhada pela cidade; pegamos a saída de uma escola de meninas, com seus uniformes azuis e rosas e véus brancos e eu me senti muito popular! Todas me olhavam e falavam comigo. Diga-se de passagem, o assédio dos homens também é pesado, não recomendo shorts curtos ou blusas decotadas para o Egito. Vestir-se com discrição é a melhor opção. Cairo é, de fato, caótica! Na nossa caminhada, observamos também as motos que, eu não sei como, carregam até três, quatro homens adultos; ninguém usa capacete, as muçulmanas se acomodam na garupa, de lado, pois somente assim elas podem andar nas motocicletas, é uma loucura! As vans de passageiros sempre trafegam com as portas abertas e, curiosamente, as portas dos motores abertas também, deve ser por causa do calor. Enfim, voltamos ao hotel, exaustos! Como já tínhamos liberado os quartos, já que o check-out deveria ser feito até o meio-dia (é bem difícil – nós não conseguimos nenhuma vez – fazer o “late check-out” no Egito), não pudemos mais voltar para eles e tomar banho depois da caminhada. Isso foi péssimo! Por alguns Pounds, pelo menos, eles deixaram que guardássemos as malas na recepção, para não ter que ficar andando com elas. Saímos para almoçar e, depois, ficamos o resto da tarde fazendo nada na recepção, até que desse a hora de voltarmos à estação de trem. O trem só sairia às oito da noite. Não gosto de perder tempo, mas, enfim, descansamos. Mais tarde, de volta à estação, discutimos com o taxista, que insistia em nos cobrar 30 Pounds, o triplo que já pagáramos anteriormente, no mesmo dia, pelo mesmo percurso! Pagamos 20 e ele nem nos ajudou a retirar as malas do carro. A essa altura, meu amigo já não agüentava mais discutir preços, em Inglês, Árabe ou no idioma do grito. Ele não queria que eu o fizesse, pois sempre tomava a dianteira, mas não suportava mais a tarefa! Isso foi mesmo estressante! Tentei, por algumas vezes, tomar para mim o árduo trabalho de combinar valores, já que nas suas próprias palavras, ele não era nosso guia... Mas foi difícil! Ele reclamava mesmo assim. O trem, uma velharia de algumas décadas, combinava com todo o resto. Já deveria ter experimentado seus dias de glória, mas agora estava sujo e de aparência decadente. Cada cabine tinha um pequeno sofá que se convertia em cama e mais uma cama em cima, formando um beliche, havia ainda uma pia e uma mesa dobrável para refeições. Não havia vagão restaurante e a comida – jantar e café da manhã – foi servida na própria cabine. Não vou nem comentar sobre a qualidade das refeições, digamos que a fome é o melhor tempero. A viagem transcorreu sem problemas. A cama era, de fato, confortável e eu dormi direto a noite inteira. Disse minha amiga que, em certo momento da madrugada, o trem parou em uma estação e foi cercado por pessoas que catavam lixo das imediações; ela ficou com medo, mas eu não vi nada. Acordei e o trem já estava chegando a Luxor. Vi os balões no céu da cidade, passeio bastante apreciado pelos turistas. Era dia 8 de outubro. Tomamos café; ainda haveria mais umas duas ou três horas para Aswan. Abaixo, os gastos do dia 7. Todas as passagens de trem e dos aviões nos trechos domésticos, assim como os hotéis, eu também detalharei ao final desse relato. Dia 7: só caminhando pela cidade • 10,00 Táxi para a estação de trem • 16,00 Almoço • 20,00 Táxi para estação à noite • 20,00 Gorjetas • Total do dia: 66,00 EGP Dia 8, então, chegamos a Aswan de manhã, umas 9 horas. A cidade é bonita, tranqüila, bem diferente do caos que é o Cairo. Ainda um pouco suja, mas infinitamente melhor. Na verdade, eu somente havia planejado passar por Aswan para quebrar a viagem, caminho de Abu Simbel, onde realmente pretendia ir. Entretanto, Aswan se revelou como uma agradável surpresa. Ao chegar, tomamos um táxi da estação de trem até o hotel, que, no final das contas, era pertíssimo. Assim, os 10 Pounds novamente foram o valor da corrida. A maioria dos hotéis fica nessa mesma avenida, a Corniche El Nile, que margeia o rio Nilo, e é bem perto da estação, uns 20 minutos, a pé. Se soubéssemos e estivéssemos todos de mochilas, poderíamos também ter economizado mais essa quantia. Enfim, o hotel era o Isis Corniche, surpreendentemente barato e muito agradável. Limpo, bonito, bem decorado, com bangalôs de frente para o rio, muito charmosos e confortáveis. Fiquei extremamente feliz e aliviada, menos por mim e muito mais por meu amigo que, pela primeira vez, afirmou que eu tinha dado uma dentro. Na verdade, fiquei contente por mim também, que passei um dia sem ouvir reclamação. É fogo fazer o planejamento sozinha, sem conhecer as regiões e os hotéis, não ter ajuda nenhuma, e ficar escutando o quão ruim minhas escolhas foram... Bem, de qualquer modo, naquele momento, felizes e aliviados, deixamos as bagagens nos quartos, fizemos um lanchinho sentindo a reconfortante brisa do Nilo e partimos para explorar a cidade. Eu já havia visto na internet que o Templo de Philae era um bom passeio para se fazer em Aswan. Entretanto, como mencionei, só planejara parar nessa cidade, como descanso e ponto de partida estratégico para o próximo passeio, em Abu Simbel, no extremo sul do Egito, praticamente já na fronteira com o Sudão. O Sleeping Train, porém, não ia até Abu Simbel, mas só ia diretamente de Cairo a Luxor, ou até Aswan, mais ao sul, mas ainda a cerca de 280 km antes de Abu Simbel. Era, então, necessária a parada em Aswan, cidade no alto Egito, já terra dos Núbios, que acredita-se ser a civilização negra mais antiga da África. Assim, até anotei o nome do Templo de Philae no meu planejamento, mas imaginei que se não o visitasse, não perderia muito, afinal, seria só mais um templo. Porém, decidimos não só descansar durante o dia e ir até ele; e devo confessar que foi um dos melhores lugares da viagem! O Templo de Philae é lindíssimo e deve ser parada obrigatória! O que não foi linda foi nossa ida até lá. Ele fica um pouco distante da cidade, uns 15 km, e nós tivemos a infeliz idéia de ir de charrete. Demorou um século! Eu estava certa de que suava mais que o cavalo que, na verdade, era uma égua, carinhosamente apelidada de Ferrari. O sol, bem nas nossas fuças, me deu dor de cabeça e, assim, apesar de me deleitar com a impagável decoração da charrete e igualmente impagável papo do condutor, iria de táxi com ar condicionado, numa próxima vez! O Templo de Philae, dedicado à deusa Ísis, foi originalmente construído na ilha de Philae, no século IV A.C.. Porém, com o advento da construção da represa de Aswan, na década de 60, ele foi desmontado e remontado, pedra por pedra, com ajuda internacional da UNESCO, na década seguinte, a cerca de 500 metros de sua localização original. Apesar disso, as características de seu novo cenário são iguais às anteriores. Hoje, o templo também ergue-se sobre uma ilha, a de Agilkia. Está em muito bom estado, com suas colunas de belos capitéis, pórticos imponentes e desenhos super detalhados. Reza a história que o faraó Nectabebo, da última dinastia antes da invasão grega, construiu um templo em homenagem a Ísis, esposa de Osíris, que após o assassinato e esquartejamento de seu marido, passou a recolher as partes de seu corpo, espalhadas pelo Nilo, até encontrar seu coração, na ilha de Philae. O templo passou por algumas mudanças durante a invasão romana, quando foi aumentado, mas somente no século V, com os cristãos, o culto a Ísis foi proibido e algumas imagens sofreram desfiguração. Há um espetáculo de luzes à noite, mas nós não ficamos, pois teríamos que levantar de madrugada para o passeio a Abu Simbel. Assim, voltamos com o barquinho pelas calmas águas do Nilo até a nossa Ferrari, que esperava pacientemente na entrada do complexo, devidamente abastecida de capim e água. De volta ao hotel, à tarde, almoçamos e descansamos. O banho foi um dos melhores da minha vida. Vamos lembrar que eu tinha tomado banho no dia anterior, de manhã! Depois disso, caminhei, sob o sol, durante horas, dormi num trem e passeei o dia seguinte inteiro, indo ao Templo, em Aswan! Depois do refrescante banho, algo que é digno de nota foi o casamento típico que aconteceu no hotel. Para não parecer invasiva, me posicionei atrás de uma coluna e assisti a uma cerimônia muito diferente! Apesar de tentar me esconder, não consegui ficar discreta, pois contrastava demais com todas as convidadas de véu e burca e foi o bastante pra ser cercada por todas as crianças da festa. Foi um momento bem peculiar. Enfim, dormimos. Na verdade, esse foi o melhor hotel da nossa viagem, e o menos necessário, pois passaríamos somente algumas horas no quarto. Todos os passeios a Abu Simbel são organizados para partir de Aswan de madrugada, por volta de 3 ou 4 da manhã. Dessa maneira, a chegada aos templos de Abu Simbel é bem cedo, de manhã e já retornamos na hora do almoço. A viagem, cerca de 280 km, é feita de vans ou micro ônibus e sempre vão vários, em comboio, escoltados pela polícia, para segurança. Nós compramos os pacotes na recepção do hotel. Desse não dá para fugir, pois somente agências organizam os passeios a Abu Simbel. Não é possível pegar táxis ou ir com carros particulares. Não tive muita informação sobre isso previamente e, assim, só descobri que os pacotes são de agências lá e, portanto, também tivemos sorte em conseguir comprá-los no dia anterior. Aconselho já adquirirem os pacotes aqui no Brasil. E Abu Simbel vale muito a pena! Os hotéis sempre fornecem o café da manhã, numa sacolinha, e todo o povo vai comendo dentro das vans. Mais uma vez: dispensem o ovo cozido! Gastos do dia: Dia 8: Aswan – Templo de Philae • 10,00 Táxi da estação para o hotel • 120,00 Charrete ida e volta ao templo • 65,00 Barco ida e volta para a ilha • 55,00 Entrada Templo • 20,00 Água • 55,00 Almoço no hotel Total do dia: 325 EGP O percurso a Abu Simbel é pelo deserto, nada além de areia e um lindo nascer de sol. Chegando aos templos, por volta das 8 da manhã, já era possível ver muitos ônibus e a fila na bilheteria, meio bagunçada. À semelhança do que foi feito na ilha de Philae, os templos de Abu Simbel também foram desmontados e totalmente remontados em outro lugar, por causa da construção da represa de Aswan. Originalmente, eles foram construídos na região de Aswan, mas transladados e refeitos, na década de 60, a cerca de 280 km mais ao sul, em Abu Simbel, a fim de não ficarem submersos. Só saber disso já seria o bastante para se embasbacar, já que os templos são colossais e imaginar que eles foram retirados de um lugar e transportados a outro, tendo sido recolocados na mesma posição original, em relação ao sol e às águas do rio Nilo, é, de fato, impressionante! Os templos começaram a ser construídos no século XIII A.C., por ordem do faraó Ramsés II, em homenagem a si próprio e a Nefertari, a mais amada de suas esposas. As quatro enormes estátuas do primeiro templo representam o faraó e as menores, alguns de seus familiares. Os monumentos impressionam pela beleza e conservação, apesar de uma das cabeças ter caído, durante um terremoto. As salas internas também oferecem uma riqueza de cenas e hieróglifos bastante nítidos. O templo seguinte, em honra a Nefertari e dedicado à deusa do amor Hathor, é menor, mas não menos interessante. O passeio é rápido, mas indispensável. Na verdade, quase pulei Abu Simbel da minha lista; olhava o mapa do Egito e travava uma luta interna de indecisão e dúvida, afinal é muito longe do Cairo. A distância entre Cairo e Luxor, até onde eu havia pretendido ir inicialmente, é de 650 km, aproximadamente. De Luxor a Abu Simbel, são mais cerca de 600 km, com a cidade de Aswan no meio do caminho! Assim, pensava e pensava se valeria ou não a pena. Andar mais 1.200 km, até a fronteira do Sudão e voltar, pra ver dois templos, já que é somente isso que há em Abu Simbel. A região não oferece hotéis e mais nada, tanto que temos que parar em Aswan e aumentar o tempo dispensado à viagem em, pelo menos, mais dois dias. Dessa forma, tinha muitas dúvidas. A única coisa que me impelia aos templos do megalomaníaco Ramsés II era a lembrança de uma gravura de um livro de história, dos tempos do colégio. Gostava tanto daquelas aulas de história antiga e me lembro de olhar com tanto fascínio para a fotografia daquelas estátuas, que sentia pena por estar no Egito e não ir visitá-las. Esse fator afetivo, de um tempo que não se ouvia falar em bullying e mesmo a menina menos popular da sala era querida pelos colegas, foi decisivo! Fomos! E foi ótimo! Recomendo! Aswan e Abu Simbel devem estar presentes em qualquer roteiro para o Egito. Aqui em Abu Simbel, também é possível pegar um guia, mas nós não o fizemos. Na saída, há, como sempre, as lojinhas e os vendedores mais que insistentes. Retornamos pela hora do almoço, comemos no hotel, apreciando a recém amizade feita com uma inglesa arqueóloga muito louca e um alemão, Don Juan de guerra, que já tinha morado em Florianópolis, e à tarde, no mesmo dia, já tomamos o trem a caminho de Luxor, nossa próxima parada. Dessa vez, pegamos uma cabine comum, já que a viagem levaria umas três horas apenas. Dia 9: Abu Simbel • 120,00 Van ida e volta para Abu Simbel • 95,00 Entrada nos templos • 200,00 Presentes • 10,00 Água • 25,00 Almoço • 10,00 Táxi para a estação • 10,00 Gorjetas • 80,00 Sleeping Train de Aswan para Luxor (essa, nós pagamos em Libras Egípcias mesmo – individual) • 60,00 Táxi da estação em Luxor para o hotel Total do dia: 610,00 EGP Interessante é que esse roteiro já é tão batido, que em vários momentos da viagem, encontrávamos rostos conhecidos, de outros passeios, fazendo parecer que estávamos sendo seguidos. Assim, penso que essa divisão de itinerário é, de fato, eficiente. Então, chegamos a Luxor à noitinha. Mais uma vez, fomos sumariamente engambelados pelo taxista que ficou girando conosco muito mais do que o percurso exigia. Descobrimos isso, à luz do dia, quando percebemos o quão perto da estação de trem era nosso hotel, na Rua Khaled Ibn El Walid. Dava até pra ir a pé. Porém, atordoados e cansados, na noite anterior, pagamos nada menos do que seis vezes mais o valor real da corrida, claro que depois de alguma discussão. Mais uma vez, vale abrir parênteses para o digníssimo hotel Gaddis, tão lindamente aconchegante na fotinho da Internet, com seus quartinhos de varanda rodeando a piscina, e mais um motivo de briga para mim. A fachada e recepção não inspiravam muito, apesar de não serem de todo horrorosas. Cansada de dar gorjetas e com uma mala pequena, dispensei veementemente o carregador, que fez que não me ouviu e nos orientou ao elevador. Ao fechar das portas, as luzes sinistramente se apagaram e deram lugar à iluminação interna, das paredes do fosso, decoradas com toscos desenhos dos tradicionais egípcios antigos com seus adornos e seus pezinhos de perfil. Os desenhos eram péssimos, mas a reação de surpresa a eles, inevitável. Sorrimos timidamente e o carregador, que vira aquilo provavelmente pela trocentézima vez, permaneceu impassível. No corredor para os quartos, meu amigo, cuja cara já não era das mais felizes, soltou um sonoro “Fuck me!” ao ver a paisagem externa e eu pensei que nunca mais veria aquela expressão tão bem contextualizada. Como estávamos em um andar mais alto, era possível ver a laje dos prédios vizinhos, que evidenciavam um estranho hábito egípcio. Na falta de apartamento na praia, as pessoas colocam tudo o que não presta em cima dos edifícios, na laje. Tem cama velha, cadeira quebrada, entulho, mesa sem pé, e mais toda a sorte de bagulhada possível. A expressão do meu amigo, vendo o prédio bem em frente ao nosso quarto lotado de lixo em cima e ainda o terreno ao lado nas mesmas condições foi fulminante. Me agarrei na esperança do nosso quarto configurar um fator compensatório, equilibrando nossos sentimentos de amor e ódio, mas me resignei completamente, aceitando o triste destino, quando o verde limão da decoração nos acertou em cheio, acompanhado da mobília velha e das toalhas sujas. O carregador de malas saiu prontamente, como se também tivesse ficado constrangido e meu amigo e eu fomos explorar o inevitável. A torneira do banheiro estava solta e o chuveiro jorrava gotas escaldantes e assassinas diretamente nos olhos, e só neles. Fomos dormir e, às 5 da manhã, o muazim de uma mesquita, vizinho ao hotel, nos acordou, chamando os fiéis para a reza. Aliás, havia seis perto do hotel e, assim como no Cairo, quando todos começam a entoar os cânticos, atraindo os muçulmanos, o barulho fica quase insuportável. Mais uma vez, eu sozinha teria achado graça de tudo, mas novamente resignada, segui meu amigo a outro hotel no dia seguinte, dia 10, que, diga-se de passagem, ele pagou. Antes da mudança de hotéis, porém, ali mesmo no Gaddis, fomos, em vão, tentar ver se pelo menos o café da manhã valia a pena e, de fato, ele era deplorável e patético, constituindo-se de sucrilhos empoeirado, leite com mosca e café fraco. Era só isso mesmo, sem exageros. Enfim, saímos do Gaddis e nos dirigimos ao Saint Joseph´s, na mesma rua, a alguns metros. Esse, eu recomendo. O preço era praticamente o mesmo, mas os quartos, ainda que simples, eram bastante limpos; o café da manhã, farto e variado – dentro dos padrões locais – e ainda havia um restaurante muito agradável e acessível no topo do prédio, com a vista do Nilo e das montanhas rochosas. Apesar de não achar necessário, a mudança trouxe alívio a todos. Depois de nos acomodarmos no hotel Saint Joseph´s, fomos almoçar. Atacamos um KFC mesmo, por medo de algo muito diferente, já que eu não estava me sentindo muito bem e minha amiga, que saíra do Brasil em meio a um tratamento de pele, parece que tinha voltado à adolescência só na parte chata, a da cara toda empelotada. Em conversa por telefone com o médico, chegamos à conclusão que poderia ser a água e fomos à busca da pomada dermatológica indicada. Novamente, a semelhança entre Brasil e Egito, no quesito “vamos tirar uma casquinha, levar uma vantagem, passar a perna nuns trouxas” pôde ser lindamente notada. Na primeira farmácia, falando Inglês, o remédio custava 75 Pounds. Na segunda, meu amigo entrou sozinho falando árabe e o mesmo creme saiu por 3. É mesmo inacreditável...e tristemente natural... Aqui, o assédio dos vendedores e condutores de charretes também é bastante irritante. Um deles chegou a nos seguir por quarteirões até o KFC, oferecendo seus serviços. Nós entramos, comemos e saímos e ele ainda estava lá, nos esperando, como se tivéssemos pedido. Enfim, diante de mais uma negativa, ele fez cara do gato do Shrek, mas se desgrudou da gente quando outro casal de turistas, graças a deus, aceitou sua proposta. Até na porta do quarto do hotel, havia um aviso enorme sobre desconfiar sempre de motoristas de táxi, condutores de charretes e vendedores. Nesse dia, depois do almoço, negociamos um passeio basicão na recepção do hotel. Tenho falado aqui sobre nunca aceitar os passeios oferecidos pelo hotel, justamente porque nós erramos nisso e, agora, eu tenho ciência desse fato. Na verdade, o que é negociado é somente o táxi ou a van. Os ingressos não entram no pacote. Assim, vale muito mais mesmo barganhar na rua, diretamente com o taxista, sempre, é claro, acordando o preço antecipadamente e se certificando de que o mesmo inclui tudo: a ida, a volta, as gorjetas e o tempo necessário. Os passeios são sempre os mesmos e, geralmente três dias em Luxor é mais do que suficiente. Assim, contratamos o serviço na recepção para os templos de Luxor e Karnac, para o primeiro dia. Custou 150 Pounds que eu ainda pechinchei, mas, mesmo dividido em três, ficou caro. Confesso, porém, que eu já estava de saco muito cheio de discutir e, então, escolhia os caminhos mais fáceis. Meu amigo ficava naquela dúvida, se saía para a rua para abordar um taxista, se falava com alguém da recepção, se fazia contas, se me xingava, se casava ou comprava uma bicicleta e, assim, eu já estava me antecipando. É difícil mesmo não saber onde se está. A gente se complica, pois, na verdade, não tem idéia de onde são os pontos turísticos, quanto tempo leva para chegar a eles ou se só perderemos tempo fazendo tudo sozinhos, correndo o risco de nos perdermos ou coisa pior e, dessa forma, vez ou outra, cedíamos ao caminho mais fácil. Por isso, se voltasse novamente a Luxor, e essa é minha dica aqui, e se ficasse na mesma área, saberia que o Templo de Luxor é tão perto que dá pra ir a pé e, para o Templo de Karnac, poderíamos atravessar o rio de barco e ir de táxi por, no mínimo, metade do preço. Se desejarem fazer tudo de táxi, tenham a certeza de barganhar com o motorista, pelo menos, a metade do que a recepção estiver cobrando, ou até menos! Há, claro, os passeios guiados, que também são oferecidos, com pessoas aptas a narrar os acontecimentos históricos dos locais visitados, alguns até egiptólogos. Entretanto, geralmente, o que os hotéis oferecem é mesmo só a condução. Enfim, chegamos primeiro ao Templo de Karnac, sob um sol de rachar côco. Esse templo é um complexo arquitetônico que abrange uma área enorme, de cerca de 40 hectares e foi sendo aumentado ao longo de várias dinastias, por quase 2 mil anos! As colunas são grandiosas, extremamente altas e os desenhos incríveis! Logo na entrada, há a chamada “Floresta de Pedras” (Sala Hipostila), destaque do templo, com suas 134 colunas gigantescas, que outrora sustentavam o teto! Em alguns pontos, os desenhos em partes do teto original, que ainda sobraram, estão surpreendentemente nítidos, com cores vivas e fortes. Karnac compreende vários templos e edifícios e está dentro do sítio de Tebas Antiga (Tebas das Mil Portas, que foi capital do Novo Império), tendo sido o principal lugar de adoração aos deuses de Tebas (tríade de Tebas), dentre os quais está Amon-Rá, o deus sol (Luxor é, na verdade, a antiga Tebas). O início da construção de Karnac data de 2.200 A.C. aproximadamente e, através das gerações, foi sendo ao mesmo tempo, desmontado e ampliado, acrescido de outros templos, por diversos faraós, por volta de 30, mais exatamente. Karnac é uma imensidão e, para ver e apreciar tudo, é possível ficar até um dia inteiro. Como nunca temos o tempo suficiente, só fomos andando através das colunas, estátuas e obeliscos, sem muito critério. A certo ponto, como estávamos afastados dos outros turistas e nos encontrávamos a sós em uma parte afastada das salas principais, fomos surpreendidos por um senhor muito magro, de turbante branco e trajes típicos, que nos fez sinal para que o seguíssemos. Como qualquer turista, mochileiro ou viajante que se preza, nós também tomamos a “pílula da coragem e falta de discernimento” ao sairmos de casa e, assim, seguimos o dito cujo. Olhamos um para o outro, concordamos em deixar o juízo de lado e fomos atrás do homem, como os resignados ratos do flautista, hipnotizados com cada olhar furtivo que ele nos lançava, olhando para trás e nos atraindo com o dedinho indicador, como uma criança que fez arte, rumo a algo proibido. Sem nenhuma palavra, atravessamos o templo a uma área fechada para o público, onde os trabalhos de escavação e restauração ainda estavam em curso e, nos deixamos levar por escadas tortuosas e corredores estreitos, onde a túnica cinza claro do guia deixava marcas na areia do chão. Ele abriu cadeados, acendeu luzes e, finalmente, nos encontramos numa área alta do templo, em salas fechadas, repletas de desenhos incrivelmente bem conservados, explodindo em laranjas, vermelhos, marrons, dourados! Imagino que, como esses desenhos e hieróglifos ainda mantêm as cores originais e não estão apagados como no resto do complexo, no qual conseguimos ver somente os relevos, eles não estão abertos ao toque do público que, muito provavelmente, destruiria as cores. Como disse, no resto do templo, somente partes do teto ainda exibe cores. Não tocamos em nada, só olhamos, embasbacados e ouvimos algumas curiosidades, até sobre maquiagem, do nosso guia proibido. Obviamente, demos uma substanciosa gorjeta a ele, pelo passeio fora da lei e seguimos nosso caminho, nos deleitando com a sorte. Por fim, andamos mais um pouco em Karnac e nos dirigimos ao carro que nos esperava na saída, rumo ao próximo destino, o Templo de Luxor. Na antiguidade, os templos de Karnac e Luxor eram conectados, por uma avenida de cerca de 3 km. Essa avenida era ladeada pelas esfinges com cabeça de carneiro, perfeitamente alinhadas, que hoje encontram-se tanto na entrada do Templo de Karnac, quanto nas portas do Templo de Luxor. Karnac ficou por séculos soterrado nas areias do deserto quando, somente no século XVIII, foi finalmente redescoberto por arqueólogos e egiptólogos. Depois disso, a área foi vítima de muito vandalismo e pilhagem. Hoje, por exemplo, as pequenas esfinges, que representam a fertilidade, não ligam mais os dois templos e só existem nos trechos imediatamente em frente a cada um deles. O Templo de Luxor é bem menor e encontra-se, atualmente, no meio da cidade. Somente ele contém traços das épocas faraônica, Greco-Romana, cristã e islâmica. Há até uma mesquita nele, mas claro, à custa da destruição de partes de outras épocas, assim como afrescos católicos sobre antigos hieróglifos. O Templo de Luxor foi iniciado por Amenhotep III e, como todos os outros, posteriormente ampliado e modificado por Tutankhamon, Ramsés II e vários outros faraós, além de líderes cristãos e muçulmanos. Diz-se, inclusive, que um governante árabe, Méhémet Ali, no século XIX, trocou um dos dois obeliscos que compunham a frente do templo por um relógio da França, que hoje encontra-se na Mesquita de Alabastro (Cidadela, no Cairo). Essa troca, a fim de dar um presente ao governo Francês, comprometeu irremediavelmente a simetria da entrada do templo, dando a ele a meiga alcunha de “templo banguela”. Curiosidade: o obelisco gêmeo, trocado pelo relógio Francês, é hoje o marco da Place de La Concorde, no centro de Paris. Fim da tarde, voltamos ao hotel, jantamos e fomos descansar. Dia 10: Templos de Karnac e Luxor • 18,00 Almoço no KFC • 150,00 Carro para os templos • 65,00 Entrada no Templo de Karnac • 50,00 Entrada no Templo de Luxor • 200,00 Gorjetas • 85,00 Jantar • 60,00 Farmácia e águas Total do dia: 628,00 EGP Dia seguinte, pela mesma preguiça e falta de paciência já narradas, pegamos o mesmo carro para os outros passeios em Luxor. Acordamos o valor igual ao dia anterior e meu amigo acabou ouvindo, sem querer, na recepção, a conversa entre o rapaz do hotel e o taxista, que reclamava da comissão abocanhada por eles. O valor dos passeios eram os mesmos 150,00, mas somente 80,00 iriam para o motorista. Só por aí, podemos perceber a economia que um pouquinho de discussão e barganha poderia nos favorecer. Mas, enfim, é o conselho que, só agora, posso dar. Além disso, no dia anterior, o preço provavelmente teria sido até menor, dada a distância do percurso, muito menos do que faríamos hoje. O taxista, que se revelou bastante honesto, nos confirmou todo o esquema, afirmando que até teria preferido que tivéssemos o abordado diretamente na rua, uma vez que ele ganharia até mais do que o hotel lhe repassaria. Fomos, então, nesse dia, depois do café, à parte oeste da cidade de Luxor. Nos tempos antigos, Luxor se comportava assim como o sol. Do lado leste, onde ele nasce, havia os templos erguidos em homenagens aos líderes e adoração aos deuses e do lado oeste, onde o sol se põe, foram construídas as tumbas, templos mortuários e necrópoles (ou cemitérios). Desse lado, à margem direita do Nilo, estão, então, os Vales dos Reis, Vale das Rainhas e o Templo de Hatshepsut, nossos próximos passeios. É uma área mais afastada e um táxi é mesmo a melhor maneira de chegar lá. O Vale dos Reis é um imenso vale árido de enormes montanhas rochosas, deitadas sobre o céu de azul intenso, no qual foram enterrados vários faraós, familiares e nobres do Egito Antigo. Na antiguidade, a morte, no Egito, era, de fato, mais celebrada do que a própria vida. Os faraós, deuses na Terra, se preparavam durante a vida inteira para sua gloriosa vida após a morte. Prova disso foi, por exemplo, a técnica sofisticada e apurada de mumificação desenvolvida pelos egípcios. Eles acreditavam que seu corpo, assim como seus pertences, deveriam ser preservados depois da “passagem”, da melhor forma possível. Dessa maneira, no momento em que morriam, os faraós eram mumificados e seus objetos, assim como todo o seu séquito, representado na forma de pequenas estatuetas, de modo que o faraó pudesse ainda contar com os servos no além, eram enterrados com ele. As pirâmides, por exemplo, também foram testemunhos da importância dada pelos antigos egípcios à morte. Elas nada mais eram que enormes “tumbas” e representavam a grandiosidade dos faraós em vida e a exatidão da magnificência na sua morte. Suas construções tomaram a maior parte da vida e esforços de seus idealizadores e construtores e, assim que “descansavam da vida”, como costumavam eufemisticamente dizer, os faraós eram ali dispostos, dentro de seus sarcófagos imponentes e ao lado de seus preciosos tesouros. O Vale dos Reis teve sua construção iniciada por volta de 1.500 A.C. e foi sendo ampliado ao longo de 500 anos. O primeiro faraó a ter seus restos mortais lá depositados foi Tutmósis I, que substituiu as pirâmides pelas tumbas, para seu descanso eterno. Hoje, há mais de 60 tumbas descobertas no vale e os trabalhos de escavação ainda correm de vento em popa. As tumbas variam em tamanho, dependendo da nobreza e da riqueza do morto; há desde algumas com apenas uma câmara até as maiores, com até 120 salas internas, dividindo-se ao longo de corredores sombrios e passagens estreitas, dignas dos filmes de Indiana Jones. Na verdade, quando entramos no Vale dos Reis, enxergamos somente as montanhas de imediato que, ao primeiro olhar, parecem somente um amontoado gigantesco de areia e pedras; a partir da entrada, tomamos um pequeno trem até a área onde há a maior concentração de tumbas. Nesse momento, não é mais possível tirar fotografias, infelizmente. A princípio, as tumbas se revelam apenas como portas encravadas nas rochas. A partir dessas modestas entradas, desenrolam-se, como comentei anteriormente, criptas complexas, com várias salas internas, algumas até com mais de 100. São menos suntuosas do que as pirâmides, porém não menos interessantes e intrigantes. É incrível e mais uma vez elogiável o trabalho de engenharia desse povo, que era capaz, em tempos tão remotos, sem eletricidade, sistema de ventilação ou segurança, de construir túneis, salas majestosas e verdadeiros labirintos dentro das montanhas. Atualmente, é possível o acesso a várias tumbas, mas ainda a maioria não é aberta à visitação; o ingresso pago na bilheteria nos dá o direito de visita a somente três. Porém, as mais famosas, como a do faraó Tutankhamon ou Ramsés VI, exigem pagamento extra. Precisamente por isso, nós não entramos nelas e nos contentamos com as três oferecidas no pacote. E, na minha opinião, elas já valem o passeio. As tumbas mais famosas são maiores em tamanho e estão bem conservadas, mas nem sei realmente se gostaria de passar mais tempo dentro delas. Assim como na Grande Pirâmide, as tumbas são claustrofóbicas e muito quentes! Na entrada de uma que nós visitamos, um menino prontamente cedia pedaços de papelão, toscamente rasgados, a fim de nos abanarmos, minimizando o calor interno, que, na realidade, não foi em nada refrescado. Abanar aquele “leque de pobre” era puramente psicológico, pois suávamos feito os camelos do deserto. Da entrada, descemos uma escadinha íngreme e sufocante que nos levou a um corredor e dele, à uma grande sala, onde um sarcófago ainda jazia. Ainda havia, nessa tumba, outras salas que hoje encontram-se vazias, mas que guardavam todos os objetos do faraó. As paredes são sempre ricamente decoradas com cenas de rituais funerários, inscrições sobre a vida cotidiana, detalhes e hieróglifos que narram o processo da passagem desse mundo para o próximo e até listas dos objetos internos, enterrados com o soberano. Os desenhos estão em ótimo estado! Em outra tumba, vimos ainda um feto humano, uma “mini-múmia”. No museu do Cairo, como já mencionei, há vários sarcófagos expostos, trazidos do Vale dos Reis, assim como as enormes caixas, onde eram conservados os tesouros dos faraós, desde jóias e adornos, até camas, cadeiras e escovas para higiene diária. Infelizmente, desde o início do século XIX, quando as primeiras tumbas foram sendo redescobertas pelos arqueólogos, o Vale dos Reis vem sofrendo com a pilhagem, destruição e contrabando. Howard Carter (cuja casa ainda existe próxima ao vale), arqueólogo apaixonado pelo Egito e descobridor da Tumba de Tutankhamon e seu notável sacrário de ouro, em 1922, entre outras, trabalhou a vida inteira para defender os tesouros do Vale dos Reis e, provavelmente, se revolveria no caixão ao ouvir o comentário de um guia. Segundo ele, recentemente, o governo egípcio teve que conter as moradias totalmente irregulares que cresciam bem ao redor do vale, sem qualquer critério ou plano diretor. Diz-se que os moradores, a cada escavada no quintal, saiam com algum objeto sagrado para vender no mercado negro, o que horrorizou a comunidade estudiosa, fazendo com que o governo tivesse que tomar uma atitude... Sem comentários pra isso! Enfim, passeio terminado e 20 garrafinhas de água depois, seguimos adiante. Próxima parada foi o Templo da Rainha Hatshespsut. Hatshespsut era filha de Tutmósis I. Era uma mulher porreta! Casou-se com seu meio-irmão, Tutmósis II e, quando esse morreu, engambelou o enteado, deu um chega-pra-lá na filha e tornou-se soberana do Egito, proclamando-se faraó e estendendo seu reinado por duas décadas, de 1479 a 1458 A.C. Hatshespsut, “A Rei”, governou literalmente como um homem e, por isso, foi enterrada no Vale dos Reis e não no das Rainhas. Durante muito tempo, inclusive, sua múmia ficou “perdida”, já que sua tumba foi encontrada com o sarcófago misteriosamente vazio. Ela estava, descobriu-se somente em 2005 e através do exame de DNA de um dente, em outra tumba, despida de adornos reais e sem os mimos da vida. Provavelmente, por ordem de seu enteado, Tutmósis III que, ao atingir a maioridade e reclamar o que era seu, fez um esforço hercúleo para apagar os traços da madrasta de todo o Egito, erradicando qualquer registro de sua passagem pelo poder, destruindo suas imagens e raspando inscrições de templos. Entretanto, Hatshespsut já havia deixado sua marca por todo o império (ainda há seus obeliscos no Templo de Karnac) e a pujança do seu reinado ampliou o domínio do Egito até a fronteira do Sudão. Seu lindíssimo templo de três andares, encravado nas rochas, também é prova cabal de sua importância. Do templo, hoje, já é possível ver Luxor aproximando-se. Finalmente, depois da visita ao templo da Rainha Rei, nos encaminhamos ao Vale das Rainhas, um pouco mais ao sul. Basicamente, é muito parecido com o Vale dos Reis e a atração principal é o túmulo de Nefertari, uma das esposa de Ramsés II (cujo templo está em Abu Simbel). A visitação a essa tumba é restrita a um certo número de visitantes por minuto. Então, é bem legal ficar esperando sob o sol. Lembrem-se da água! Muita água! De volta ao hotel, o táxi passou pelos Colossos de Memnon, duas estátuas não tão impressionantes assim, levantadas para guardar o templo funerário do faraó Amenófis III (ou Amenhotep III). O templo não existe mais, vítima das inundações do Nilo e pilhagem. Hoje, as estátuas, que são a representação do próprio faraó, encontram-se toscamente remontadas, esforço Romano para reconstruí-las após um terremoto em 27 A.C. Terminamos o cansativo dia mais uma vez jantando no hotel e dormindo cedo. Dia 11: Vale dos Reis, Vale das Rainhas, Templo de Hatshespsut e Colossos de Memnon • 80,00 Entrada no Vale dos Reis • 35,00 Entrada no Templo da Rainha • 35,00 Entrada no Vale das Rainhas • 150,00 Carro • 10,00 Gorjetas • 25,00 Jantar • 20,00 Águas Total do dia: 355,00 EGP Nesse dia, ainda tivemos um tempinho de comprar um passeio de balão, oferecido nas muitas agências de viagens locais. Sempre há alguma oferecendo esse tipo de passeio. Barganhamos bastante e fechamos um tour por 80 dólares cada um. Assim, iniciamos o dia 12 ainda de madrugada, a fim de tomar a van, que nos levaria ao campo de balões. Saímos do hotel às 4 horas da manhã. Seguimos de van até o rio e tomamos um barquinho, como uma escuna coberta, todo coloridinho. Na outra margem, pegamos um micro ônibus novamente e, minutos depois, já avistávamos, ainda sob a luz crepuscular, uma área aberta, enorme, com diversos balões sendo armados. As lonas grandes e super coloridas se abriam sobre o chão e se inflavam languidamente, até conquistarem mais força, farfalhando à luz do fogo e levantando-se, poderosas, ao som do burburinho do trabalho lindamente sincronizado dos muitos homens que ali se encontravam. Já no amanhecer, com os balões já completamente cheios de ar, eles nos ajudaram a entrar nas cestas. Dois homens se posicionavam de modo a nos puxar para dentro. As cestas eram muito grandes. Na nossa, havia por volta de 20 pessoas. Eu nunca tinha visto balões tão grandes. Assim, contrariando o pensamento mais pessimista, depois de algumas rápidas instruções do nosso “piloto”, o balão saiu suavemente do chão, deixando cada vez menores os homens que o desamarraram e ficaram nos acenando. O vôo transcorreu tranqüilo e vimos um lindo nascer do sol já do alto, que banhou Luxor e todo o vale de luz e nos agraciou com belíssimas imagens. O contaste é realmente impressionante; de um lado, o Nilo e a cidade, com suas construções e o verde dos campos de milharais e arrozais, irrigados pelo rio; do outro, o deserto e as montanhas completamente nuas e extremamente áridas. Só uma estrada os separa, o verde do bege seco. Das alturas, e em companhia do colorido de mais uns seis ou sete balões, vimos os Vales dos Reis e das Rainhas e o Templo de Hatshespsut, pequeninos e perdidos no meio das montanhas. Mais uma vez, imaginamos em quais dificílimas condições aquelas maravilhas foram construídas. Hoje, a cidade está muito perto e podemos contar com seus confortos e praticidades, como um simples copo de água sempre à mão ou um carro para nos levar de volta ao hotel; mas naquela época! Que região remota, quente, que aridez, que falta de brandura! Quantas vidas, provavelmente, não se perderam, à custa de faraós que desejavam gravar seus nomes na eternidade... O templo de Hatshespsut, encravado nas rochas, apesar da mesma cor da montanha, contrasta suas imponentes formas retas e simétricas com o irregular da natureza, é lindo! Detalhe digno de nota eram as casas sem telhado. Segundo nosso guia, chove no Egito umas duas vezes por ano e rapidinho. Nenhuma construção tem telhado, elas sempre terminam na laje. Fábricas de telhas certamente não vingariam no país. Aliás, nenhuma construção é completamente acabada, no Egito. No interior e, mais precisamente em Luxor, eu confesso que não vi um prédio completamente terminado. As casas estão sempre no reboco, ou ainda no tijolo ou até parcialmente pintadas. É incrível! Mas mais incrível ainda foram as casa sem telhado, nem laje que sobrevoamos de balão. Naquela região afastada do centro, a pobreza impera mais ainda e as casas expõem os seus interiores vazios e imundos. Vimos cabras, galinhas e cachorros caminhando à vontade entre as paredes, nos contornos de salas e quartos, que olhávamos do alto como se fossem plantas baixas. Algumas casas até deixavam as lajes e vigas preparadas para mais um andar, mas a sensação de miséria e de algo incompleto ainda é constante. O vôo durou mais ou menos uma hora e, assim como a decolagem, o pouso foi suave e macio. Em alguns minutos, a lona foi rapidamente, e em perfeita sincronia, dobrada e deitada num pequeno caminhão, por três homens, assim como a cesta e outros equipamentos. Fizemos uma pequena cerimônia com dança e tambores. Nosso piloto foi abarrotado de gordas gorjetas, cortesia dos velhinhos e velhinhas americanos e europeus que nos acompanharam (dispensando a nossa gorjeta, claro) e nós recebemos certificados de vôo, com nossos nomes em árabe. Esperamos pelo nosso micro ônibus, que nos levou de volta ao hotel, e partimos para nosso próximo “dever”. No início da tarde, andamos pelas ruas de Luxor e rumamos em direção à estação de trem. Conforme indicações, o lugar de aquisição de passagens de ônibus ficava ao lado da estação. Nossa intenção era seguir de Luxor para a praia, aproveitando nossos últimos dias de viagem relaxando os pés no Mar Vermelho. Pelo meu planejamento, a melhor maneira – lê-se, maneira mais barata – de ir de Luxor a Dahab, cidade praiana famosa pelo mergulho e belas paisagens, era pegar um busão de Luxor a Hurghada, balneário também famoso, porém notadamente mais caro, e de Hurghada, ir de avião até Sharm El Sheik, outra cidade maior e mais badaladinha. Daí, então e finalmente, pegaríamos outro ônibus até Dahab, um paraíso mais isolado. Lá, seriam mais três dias de relaxamento e curtição. Meu amigo certamente me questionou o porquê dessa “Via Crucis” (Luxor – Hurghada – Sharm El Sheik – Dahab) e se não teria sido melhor termos comprado uma passagem de avião diretamente de Luxor até Sharm El Sheik, já que a “quebra” em Hurghada nos custaria mais um dia de viagem e mais uma diária de hotel. Claro que ele não acreditou, pois já tinha mais de uma vez criticado minhas escolhas, mas eu pesquisei e não teria feito isso se não valesse mesmo a pena. Mesmo a passagem de ônibus, diária em hotel e mais um dia no trajeto, com alimentação e outros gastos, não chegavam nem perto do preço de uma passagem de avião direta de Luxor a Sharm El Sheik. Assim, fomos seguramente comprar as passagens de busão. Compensava muito, financeiramente. À semelhança do que ocorreu na compra do bilhete do Sleeping Train, nós também ficamos muito confusos e não encontrávamos o lugar correto de aquisição da passagem de ônibus, já que, descobrimos depois, o pequenino escritório também não inspirava a menor confiança. Após a procura intensa, finalmente adentramos uma salinha modesta, nojenta e empoeirada. Tudo nela era velho, decadente e sujo; as paredes, enegrecidas com o tempo, apoiavam móveis inchados e quebradiços; os fios de eletricidade aparentes só não eram piores do que os estofados podres nos quais tivemos que sentar. Um senhor oleoso e seborrento saboreava um copo de chá preto e trançava suas unhas negras nos botões de uma túnica encardida, enquanto o outro, sorrindo seu sorriso apodrecido, nos atendeu. Depois de comprados os bilhetes, voltamos ao hotel para pegar as malas e fomos esperar pelo ônibus no mesmo escritório. Uma hora depois, mais ou menos, lá pelas duas da tarde, de uma nuvem de areia e pó, surgiu a bela condução que nos levaria a uma viagem de cerca de 400 km, de Luxor até Hurghada. Eu não tenho, agora, palavras para descrever nosso ônibus. Olhos arregalados e uma expressão de nojo e asco foram as primeiras reações da minha amiga enquanto meu amigo prontamente vendo a oportunidade certa de usar uma das duas palavras em português que ele aprendera, verbalizou um melodioso “caralho”, com aquele sotaque americano característico. Coube a mim dar risada e tentar, novamente, minimizar a negatividade da situação. No fim, todos rimos. Subimos no coletivo, tentando não encostar em nada, somente nossa bunda coberta e protegida sobre os assentos indicados. Nesse momento, só havia nós e um casal de bolivianos no ônibus. Minha amiga sacou de um lencinho umedecido para afastar a cortina da janela, deixando a luz entrar, e nos acomodamos da melhor forma possível. Comemos as bolachas que eu levava na mochila e partimos “alegremente” para a nossa viagem. Nem a travessia de Dante pelo inferno equiparou-se ao nosso sofrimento nessa jornada, quando, só pra sair da cidade, o ônibus levou mais que duas horas. Ele andava por cada quebrada que fazia boca de fumo na favela ficar com cara de hotel 5 estrelas. Em algum tempo e muitas paradas depois, todos os bancos estavam cheios de muçulmanos. Tenho como um dos meus princípios básicos, acreditar que há pessoas boas e ruins em qualquer religião ou grupo e, por isso, rejeito veementemente qualquer manifestação de discriminação ou racismo. Entretanto, quando os auto-falantes começaram a ecoar as passagens do Alcorão, desejei fortemente não estar num ônibus cheio de muçulmanos. Assim, seguimos adiante, numa viagem de quase oito horas, que parecia não terminar nunca, por vielas escuras, casebres disfarçados em rodoviárias, caminhos tortuosos e ao som do Alcorão. Quando finalmente alcançou a estrada, as luzes do ônibus se apagaram, mas a reza continuou, por todas as horas seguintes, com seu canto enjoativo, repetitivo e redundante. Um pequeno intervalo deu-se quando paramos em um posto, com uma pequena lanchonete. O chão de terra batida tinha mais latinhas amassadas e achatadas em formato de bolotas do que estrelas no céu. Desci para esticar as pernas, mas nem tive coragem de entrar no estabelecimento. Era patente que meu amigo até tentava se controlar, de modo a não me esculachar tanto, mas ele simplesmente não conseguia. Tentei agradar de todos os modos, até enveredando pelos caminhos da hipnose: “imagine uma situação maravilhosa, onde você estaria, o que estaria fazendo”... Procurei ser criativa, encorajando a fantasia e me envolvendo pessoalmente naquela sua idéia deleitável, que envolvia algo como ele, a Angelina Jolie e uma praia deserta. Mas nem minha aventura lésbica foi o bastante para distraí-lo por muito tempo, já que ele voltou rapidamente a reclamar. A viagem seguiu noite adentro até que, finalmente, enxergamos as luzes de Hurghada. Hurghada, diferentemente do resto de tudo que tínhamos visto no Egito é uma cidade bonita e aparentemente rica. Até chegar à rodoviária, passamos por prédios lindos, hotéis luxuosos e lojas bem modernas. Como trabalho com material de construção, especificamente com peças de decoração para banheiros, noto instantaneamente os modelos e marcas presentes em qualquer sanitário que eu entro. Vi, em Luxor e no Cairo, lojas horríveis, com breguices que iam desde vasos inteiramente decorados com palmeiras até lavatórios em formato da flor de lótus. Porém, em Hurghada, pude ver lojas modernas e em consonância com o que há de mais atual. De acordo com a minha pesquisa, Hurghada é um balneário que atrai ricos e famosos do Egito e Europa. Assim, só pretendia parar ali para descansar uma noite, já que não tínhamos comprado a passagem de avião de Luxor diretamente a Sharm El Sheik, devido ao preço, como comentei. Sharm El Sheik é parada obrigatória antes de Dahab, nosso destino final. Dessa maneira, encaramos essa viagem de ônibus dos infernos! Hoje, posso dizer que atravessei o Egito com um busão, que nem sei como andava, ouvindo o Alcorão e interagindo com crianças muçulmanas, cuja simpática mãe fazia questão que elas posassem para fotos. Porém, o estresse foi tão grande, tanto em relação à viagem, quando à nossa estada no hotel em Hurghada, que imagino que, se me planejasse agora, gastaria um pouco mais com o avião... Ao chegar à rodoviária, fomos logo à procura de uma condução ao nosso hotel. Para não desagradar mais ao nosso amigo, eu e minha amiga pacientemente o seguimos, enquanto ele saia correndo da estação de ônibus e se dirigia à rua, segundo ele, para escapar do assédio dos taxistas mais careiros. Quando já estávamos arrastando as malas perto de uma rua cheia de bares e lojas, ele percebeu a falta do celular, brinquedinho que ele também manipulara durante toda a viagem, a fim de se distrair e esquecer, como ele próprio disse, o cheiro nauseante que pairava no ar. O impeli de volta ao ônibus, mas já era tarde; certamente alguém já tinha pegado o aparelho e não se manifestou. Pronto! O clima azedou de vez! Encontramos um táxi para nos levar ao hotel e ainda tentamos telefonar para o celular diversas vezes até que ele foi finalmente desligado. Ao chegarmos à recepção do hotel, eu quase fiquei feliz, ou menos estressada, quando vimos um prédio bonito e de decoração elegante. Entretanto, como alegria de pobre dura pouco, logo voltei pra realidade. Enquanto fazíamos o check-in, meu amigo se limitou a estender o passaporte e me olhar com cara feia. Logo em seguida, percebemos que aquele prédio não era o nosso hotel, mas sim o de trás, que dividia a mesma recepção. Saímos do ambiente “chique” e atravessamos uma espécie de praça, onde havia uma piscina, um bar, um restaurante e alguns outros serviços, tudo compartilhado pelos vários prédios que rodeavam esse “núcleo”. Sem o menor humor pra festa, atravessamos uma “balada” disco dos anos 70, de cara fechada. Uma banda tocava animadamente, enquanto senhoras e vovôs, estimulados pela cachaça e em um ambiente de férias, tentavam entusiasticamente reviver os dias de juventude. Nos encaminhamos ao prédio do final, à esquerda, bem mais simples do que aquele no qual entramos. Todos eles tinham muitos andares e centenas de apartamentos. Subimos ao nosso andar e eu não tinha um bom pressentimento ao ver, ao lado de cada porta, vários números de quartos. Olhei pra minha amiga e percebi que ela também estava confusa e, da mesma forma que eu, devia estar se perguntando se erroneamente havíamos feito reserva num tipo de albergue. Não! Aquilo não poderia estar acontecendo... Não depois de tudo que já passáramos! Mas, como torcer não muda o rumo de nada, paramos em frente a uma porta que continha uma plaquinha com três números de quartos. Abrimos e percebemos que os quartos faziam parte do mesmo apartamento e dividiam o mesmo banheiro. Minha amiga e eu nos entreolhamos, intrigadas. Não era pra ser quartos privativos... Pois é... Então, pra quem está reservando hotéis agora, saibam que o Triton Empire, em Hurghada tem duas opções e isso não está claro na internet. Penso que a única sorte que tivemos nesse dia foi ninguém ter ocupado o terceiro quarto. Tomamos banho num Box que alagava e saímos para comer, deixando meu amigo estirado na cama, lamentando a perda do celular, a dor no estômago e a viagem em geral; ele estava mais mal humorado do que nunca. A cidade é bem praiana, muita gente nas ruas, se divertindo e curtindo a noite. Comemos hambúrgueres em um dos muitos bares locais e voltamos para tentar dormir ao som da balada altíssima, bem perto da nossa janela. Dia 12: Balão em Luxor e viagem para Hurghada • 10,00 Táxi do hotel em Luxor para a “estação” de ônibus • 35,00 Ônibus Luxor - Hurghada • 20,00 Táxi para o “hotel boate” • 55,00 Jantar Total do dia: 120,00 EGP De manhã, levantamos cedo e fomos tomar café, no enorme restaurante que servia a todos os prédios do hotel e ficava ao lado da piscina. Devia haver umas 600 pessoas e tinha fila pra tudo, mas a diversidade era boa. Comemos, fizemos check-out e fomos caminhar pela cidade, só pra não dizer que não vimos nada de Hurghada. Entramos num hotel na beira do mar que, na verdade, também fazia parte da rede do Triton Empire, e nos deslumbramos com a beleza do Mar Vermelho. Na verdade, a maior parte da orla em Hurghada é privada e, assim, cada hotel oferece um pedaço da praia. Há mesmo, então, que se ficar em hotéis para aproveitar a “piscina” que é o mar de Hurghada. Voltamos ao hotel e eu chamei um taxi, combinando o valor de 25 Libras Egípcias, com gorjeta, para que ele nos levasse ao aeroporto. Ao chegarmos à área de embarque, eu quase disse a minha amiga para ela dar o valor trocado para o taxista. Mas deixei pra lá. Deveria ser algum tipo de premonição e eu deveria ter dado atenção ao pressentimento e seguido meu instinto, pois ele não quis dar o troco correto para a nota de 50 Libras, exigindo mais gorjeta. Aceitamos forçosamente e nos encaminhamos ao balcão de check-in. Meu amigo, fresco como ele só (aliás, essa foi a outra palavra em Português que ele aprendeu, de tanto eu chamá-lo assim), decidiu ir de primeira classe, num vôo de 40 minutos. Por isso, foi para outra fila. Mas, na realidade, não vi muita diferença entre a primeira classe e o resto do avião e, segundo ele próprio me disse depois, uma coisa muito simples, que eu nem me lembro o que era, foi servida. Assim, mais dinheiro desperdiçado, dele, claro. Imagino que a única vantagem de ter ido na outra parte do avião seria não ter dividido o mesmo espaço com um homem, cujas axilas deveriam estar podres. Já na fila, quando ele passou por nós, deixando um cheiro quente e azedo no ar, me solidarizei com a pessoa que sentaria ao lado dele. Assim, ao descermos em Sharm El Sheik, no momento que a minha amiga falou, com semblante aterrorizado: “Meu! Um cara sentou do meu lado...”, eu já sabia! Rimos muito enquanto ela narrava a posição que teve que ficar, a fim de respirar o mínimo de ar respirável. O vôo foi curto e atravessou o Mar Vermelho. De Hurghada a Sharm El Sheik, há também a possibilidade de se ir de balsa. Porém, ela somente funciona em determinados dias da semana e, naquela ocasião, especificamente, estava quebrada. Bom, em Sharm El Sheik, a intenção era ir até a rodoviária e pegar um ônibus para Dahab. Entretanto, já tínhamos, nesse momento, descoberto que ir a rodoviárias e encontrar ônibus não eram noções tão simples, no Egito. Ninguém, simplesmente ninguém, soube nos informar onde poderíamos pegar um ônibus em Sharm El Sheik. Assim, mudamos de planos na mesma hora e fomos buscar alternativas viáveis. Nos juntamos a um casal de americanos que estava na mesma situação e, coincidentemente, também tinha estado no nosso grupo do passeio a Abu Simbel. Conversando rapidamente com eles, vimos que eles tinham feito exatamente o mesmo trajeto que nós planejamos, e tiveram mais azar, no dia anterior ao da nossa viagem, na rota Luxor – Hurghada, no mesmo busão, ao terem a mochila do marido, com todas as roupas e reservas de hotel, roubada. Se bem que, certamente, meu amigo preferiria ter tido todas as roupas velhas afanadas ao seu celular de 400 dólares. Mas, enfim, com todas as nossas malas, saímos, desconfortáveis e arrastando as ditas cujas, pelo estacionamento do aeroporto, em busca da condução a Dahab. Em baixo daquele sol, eu já estava ficando irritada, de empurrar e levantar a mala nos meio-fios, enquanto os homens tentavam nos incluir nas vans lotadas. Sem alternativas, decidimos rachar dois táxis. Mais uma vez, não pretendo me alongar muito na falta de profissionalismo dos taxistas egípcios, mas não posso omitir certos detalhes, para que entendam em qual estado psicológico chegamos a Dahab. Os dois motoristas, sem exagero, fizeram um “racha” na estrada. Estavam brincando e apostando corrida... Em uma das várias paradas até Dahab, nas quais checavam nossos passaportes, a americana gritou para o marido, que dividia o outro carro, com nosso amigo: “He´s driving like a fucking maniac!”. Minha amiga pediu, mais de uma vez, que ele diminuísse a velocidade, sendo prontamente... ignorada, a americana quase saiu no tapa com o cidadão, ao exigir dele o celular, pois ele tinha as manhas de correr feito um doido e ainda falar ao telefone! Realmente, um talento! “Give me the cellphone now, now!”, ela bradava repetidamente, até arrancar o aparelho das suas mãos. Para ele, estava tudo certo, resistiu um pouco com o celular, continuou correndo, cantou, brincou, fumou, gritou em árabe para o outro motorista e nos proporcionou a viagem de táxi dos infernos. Em cerca de pouco mais que uma hora, chegamos finalmente a Dahab. Levamos mais um tempinho para encontrar o hotel e, na frente dele, oferecemos um lindo espetáculo para algumas pessoas que estavam na recepção, armando um super barraco com os taxistas. A atitude deles na estrada não ajudou nem um pouco, quando eles demandaram por mais gorjetas. O valor combinado, ainda em Sharm El Sheik, era de 350 Libras Egípcias pelos dois carros, com as gorjetas inclusas. Claro que até poderíamos, já que estávamos em cinco pessoas para dividir, arrumar um pouquinho mais de dinheiro, pelo serviço prestado. Porém, depois daquela viagem nem de leve aprazível, não estávamos nada dispostos a dar mais nenhum tostão. Além do mais, não era pouco além que eles exigiam, mas praticamente o dobro! Argumentaram que, nas paradas de checagem, no caminho, tiveram que “molhar” a mão dos guardas para nos liberarem, o que era uma deslavada mentira, já que, em momento algum, eles deram dinheiro a alguém. A discussão tornou-se, de fato, acalorada; falávamos todos ao mesmo tempo e o que dava pra apurar era que, do nosso lado, alegávamos que o valor fora previamente combinado e, de qualquer forma, o serviço prestado, ficara muito aquém do esperado; do lado deles, reclamavam que o número inicialmente pedido havia sido pouco, pois a distância era longa. Rebatíamos, afirmando que quem conhecia o caminho eram eles e não nós; e assim seguimos, em franca polêmica e generosa gritaria até que eu percebi que nossas malas já não estavam mais nos porta-malas, mas na rua. Fiz um sinal para a minha amiga, que entendeu no mesmo instante. A única forma de sair desse tipo de enguiço no Egito é dar as costas e ir embora. Como já estávamos de posse de nossas bagagens, não havia mais nada que os taxistas pudessem fazer. Assim, sem mais delongas, demos a discussão por encerrada, deixando os homens resmungando e reclamando da nossa “falta de educação”. Ao subirmos as escadas de acesso à recepção, uma senhora gorda, loura, de bochechas rosadas e aspecto europeu nos recebeu, com forte sotaque britânico: “I saw you had a difficult time there, with the taxi drivers! Don´t worry now, dears. You are in Bedouin Hotel! Rest and enjoy! Welcome!”. Como já disse, não sou pessoa de discriminar grupos ou raças. Meu lema é “Não julgue um livro pela capa”. Porém, como sou humana e cheia de defeitos, seria muito hipócrita em dizer que, naquele momento, não me deixei levar por pensamentos estereotipados e tão fortemente arraigados nas nossas mentes, que me acalentaram e alegraram muito, ao verificar que a dona do hotel era uma inglesa que, via de regra, traria consigo, para a administração de seu negócio, a organização e charme britânicos. Sim! Aquele hotel seria ótimo! Me renovei com a esperança de uma noiva no altar, por breves instantes. Fizemos o check-in e fomos encaminhados aos quartos. Estávamos tão esgotados que nem vimos que fim levou o casal de americanos. O marido, coincidentemente, havia passado 12 meses no Brasil, em trabalho missionário, uns anos antes e chegou a cumprimentar-nos com um Português tímido. Fiquei, depois, realmente chateada de não ter me despedido ou pego um contato deles. Mas, enfim, iríamos relaxar. Afinal, “estávamos no Bedouin Hotel!”, como a senhora afirmara. Para os bravos leitores mochileiros que agüentaram até aqui, lendo esse nada sucinto relato de viagem, eu convido agora a entrarem na Internet e acessarem o site do Bedouin Moon Hotel, em Dahab. Ele é simplesmente adorável! Lindo, aconchegante, perfeito e que, segundo o próprio site, oferece um agradável ambiente de relaxamento com um toque pessoal. A estrutura do hotel é, de fato, bela. Não saberia afirmar com exatidão sobre o tipo de arquitetura na qual ele é inspirado, mas me lembrava um certo quê daquelas casinhas brancas gregas, no mediterrâneo, com alguns elementos árabes, como uns arcos característicos e lugares cheios de almofadas coloridas, como nas Mil e Uma Noites. O hotel não é tão grande, tem cerca de 30 quartos, mas está confortavelmente disposto em uma vasta área entre as montanhas e o mar. De fato, a belíssima área de lazer que o hotel oferece conta com uma piscina maravilhosa de desenho irregular que confunde o azul de suas águas com as do Mar Vermelho, bem em frente ao hotel. O desenho de sua planta foi estrategicamente pensado, em forma de “U”, de modo que os quartos da frente ficam de frente para o mar e os de trás, para a bonita área interna, com vista do verde das palmeiras e do acesso à piscina. Há ainda oásis e quiosques de relaxamento, onde os hóspedes podem deitar nas almofadas e colchonetes e desfrutar da sombra e calma oferecidas. Enfim, o Bedouin Moon Hotel tem tudo pra ser ótimo mesmo! Ao fazermos as reservas na Internet, minha amiga e eu mal podíamos acreditar na sorte, de ficar em um lugar tão lindo, por um preço promocional! Dessa maneira, imbuída desse espírito otimista, ia caminhando para o quarto, após o check-in. Lembrávamos das fotos do site e íamos reconhecendo os lugares à medida que caminhávamos. Eu estava, por um momento, plena e feliz. Naquele momento, estremecidos com os desgastes da viagem, meu amigo e eu estávamos mais fazendo a política da boa vizinhança do que realmente adorando a companhia um do outro. Na verdade, eu ainda estava muito bem com tudo, estava adorando a viagem, como todas as que eu faço. Os hotéis ruins, a sujeira, o assédio de vendedores, os taxistas loucos, as gorjetas, o celular roubado, e tudo mais, ainda, de certa forma, não tinham sido demais para influenciar a paixão que eu tenho por viajar e conhecer lugares diferentes. A única coisa, porém, que realmente me deixava mal era o estresse do meu companheiro de viagem. Então, quando chegamos ao Bedouin, ainda acreditava que conseguiria reverter a situação ruim e passar bons momentos ao lado dele. Seriam mais três dias para que pudéssemos relaxar e tentar acertar os ponteiros. Eu sentia que, apesar de tudo, ele também estava se esforçando. Em Luxor, eu já o tinha “mandado embora” uma vez. Ele quis ficar, brincou, pediu desculpas pelo estresse de um ano difícil e continuou nos acompanhando. Em Hurghada, a coisa também quase desandou, mas até ele afirmou que Dahab seria legal e um momento propício para termos sossego e nos conhecermos melhor. Enfim, por tudo isso, mal pude crer nos meus olhos quando entramos no quarto do hotel. Mais uma vez, a realidade se chocou contra nós. Lembro bem que, ao fazermos as reservas no Brasil, minha amiga e eu escolhemos os quartos sem ar-condicionado, significativamente mais baratos, já que, como a máxima afirma e nós ingenuamente acreditamos: “no deserto, faz calor de dia, mas friozinho à noite”. Doce ilusão! Aqueles quartos, sem ar-condicionado, eram os de trás, mais perto da piscina; eram bastante simples, havia areia pra todo lado e a limpeza deixava, realmente, a desejar; o teto, com um pé direito alto, dava lugar a abóbadas com certo charme arquitetônico, mas cujas janelinhas altas estavam cheias de teias de aranha, sujeira e pó. O terrível calor no ar fazia tudo parecer ainda mais suado e pegajoso. Porém, nada era igual ao banheiro! Eu não acreditava que aquele banheiro estava no mesmo hotel das fotos da Internet. Ele era o pior, de longe, o pior e mais imundo banheiro de hotel que eu jamais vira! Os azulejos da parede e piso, outrora brancos, exibiam um encardido de séculos; os rejuntes, pretos, asquerosos e quebradiços, denunciavam a falta de asseio e manutenção, assim como o vaso sanitário, que de branco não tinha mais nada; a louça, por dentro e por fora, estava amarelada e imunda por falta de água sanitária e a tampa, nojenta e com ferragens totalmente enferrujadas, não dava vontade de sentar. Havia uma dessas escovinhas de limpar o vaso, velha e repugnante, que ainda tinha pentelhos de outros hóspedes; o mesmo a dizer de uma Gilette usada, que ainda permanecia sobre o lavatório, herança do hóspede anterior; as torneiras da pia e do chuveiro estavam totalmente oxidadas e não abriam direito; a ducha era de plástico, enegrecido pelo limo; não havia Box, mas um eficiente rodo, daqueles da casa da sua avó, que provavelmente bate em idade com você. Eu jamais entraria descalça naquele lugar. Tudo era verdadeiramente sujo e eu, mais uma vez, pensei na senhora inglesa e aprendi, de uma vez por todas, que realmente não devemos confiar em estereótipos. Mas o pior estava por vir! No centro do banheiro, jazia, faraonicamente, a maior barata cascuda que o Egito já vira nascer que, muito provavelmente, se matara de desgosto. Descrever o banheiro demorou, mas entre vê-lo e presenciar o chilique instantâneo e homérico do meu amigo foi rápido. Na verdade, devo até dizer que, ao entrar no quarto, ele ainda conseguiu rir, pois momentos antes, minha amiga havia partilhado conosco seu sonho da noite anterior, praticamente premonitório, de um quarto sem ar-condicionado e com um grande ventilador. Todos nós rimos e comentamos que só faltava mesmo isso, sem lembrar, naquele momento, que havíamos reservados os quartos somente com ventilador, ainda no Brasil. Porém, toda a graça terminou no banheiro. A força que ele estava fazendo para manter a boa convivência social e recente amizade foi por terra e um siricutico de grandes proporções tomou conta do seu corpo. Naquele segundo, ele não se segurou mais e, literalmente, surtou. Enlouquecidamente, começou a travar uma batalha, dando início a um plano infalível para retornar na mesma hora a Sharm El Sheik e dali para o Cairo. Ele afirmava fortemente que não permaneceria ali, de jeito nenhum, voltando eu com ele ou não. Se eu quisesse ficar, que ficasse, pois ele iria embora. Por uns instantes, confesso que fiquei meio sem ação. Também estava completamente decepcionada com o hotel, já tinha me desgastado com toda a situação e estava me cansando de tentar agradar e pedir desculpas pelo que eu, na verdade, não tinha culpa nenhuma; imaginei que seria uma solução viável voltar mesmo para o Cairo. Lamentaria o fracasso da nossa relação e do final da minha viagem, mas ainda ficaria com a minha amiga e poderíamos ainda fazer algo aproveitável na cidade grande até o dia de voltar ao Brasil. Afinal, todo o motivo de ir à praia, no Egito, para mim, era passar momentos relaxantes com meus amigos. Se não estava mais “relaxante”, não havia mais razão para ficar num lugar que no Brasil tem de sobra. Chegamos a essa conclusão e, para que não nos matássemos ali mesmo, ele pegou o telefone da minha amiga emprestado, e principiou à tentativa de volta. Entretanto, tudo foi em vão. Não havia mais lugares nos aviões e não conseguimos alterar as passagens para voltar ao Cairo. Estávamos, por fim, presos num fim de mundo e extremamente mal-humorados. Tentamos arquitetar outros planos, como pelo menos voltar de carro para Sharm El Sheik e ficar ali até dar o dia de voltarmos de avião para o Cairo, já que era uma cidade maior e não teríamos que ficar juntos, olhando um pra cara do outro, mas nada deu certo. Fomos para o quarto suando e, dessa tarde, infelizmente, só vou lembrar que consegui brigar com minha amiga de infância e melhor amiga até hoje e que usei, pela primeira e única vez, a palavra “asshole” num contexto real. No final da tarde, com as cabeças mais frias, pedimos sinceras desculpas um ao outro e concordamos em tentar fazer do final da nossa viagem algo de bom para se lembrar, já que a situação era inevitável. Comemos no hotel e fomos à pé passear no centrinho da cidade. Dia 13: Viagem entre Hurghada, Sharm El Sheik e Dahab • 35,00 Táxi do hotel em Hurghada para o aeroporto • 70,00 Táxi para Dahab (individual) • 40,00 Almoço no Bedouin Moon Hotel • 10,00 Água Total do dia: 155,00 EGP Dia seguinte, apesar da conversa da tarde anterior, o clima ainda pesava um pouco. Tentamos, durante o café, mais uma vez, arrumar modos de sair dali, mas, de novo, não tivemos sucesso. Procuramos, então, ao menos trocar de hotel, pois aquele quarto estava mesmo tão quente e desprovido de qualquer conforto, que eu me sentia na sala de espera do inferno. Nada deu certo. Meus amigos visitaram o hotel ao lado, mas ele era bem mais caro. Ligaram pra vários outros, e a mesma constatação. Estava me sentindo triste e desgostosa. Por fim, a discussão sobre nossa tentativa de trocar de hotéis acabou chegando à recepção, pois até mudar de quarto, para um com ar-condicionado, foi cogitado, a fim de minimizar o problema. A recepção foi consultada para tanto. Minutos depois, a inglesa, porca, mas muito prestativa, veio à nossa mesa, no restaurante, nos oferecer quartos com ar-condicionado, pelo mesmo preço. Assim, não precisaríamos ir embora do seu hotel. Agradecemos e prosseguimos com a mudança. Fomos acomodados, então, nos quartos de frente para o mar. Devo dizer que isso levantou sobremaneira nosso humor, já que esses quartos são infinitamente melhores que os de trás. E, por si só, o ar-condicionado já fazia o simples fato de permanecer descansando dentro do quarto algo possível, e não um castigo. Os rodos nos banheiros ainda estavam lá e a limpeza não era muito melhor, mas o “upgrade” nos deixou levemente mais felizes. Depois de nos instalarmos, voltamos de táxi ao centrinho turístico. O centrinho consiste em uma rua, à beira mar, lotada de lojinhas de souvenires e restaurantes de frutos do mar e comidas típicas. Almoçamos em um bastante agradável. Dali, era possível enxergar, ao longe, as montanhas já na Arábia Saudita. Comemos bem e passeamos; discutimos preços, barganhamos uma camiseta de 75 libras por menos de 10 e tiramos fotos. Meu amigo voltou antes para o hotel, se aliviando em não mais se assustar com a idéia de ficar dentro do quarto. Retornamos mais tarde, depois de algumas comprinhas, e eu até me surpreendi com as frutas que ele me comprara e com o inesperado convite para assistir a um filme. Os quartos não têm televisão; há uma sala coletiva, sem ar, na qual um desconfortável sofá, posicionado de maneira nada estratégica em relação ao aparelho “não convida” os hóspedes a desfrutarem de seu interior. Fomos dormir com torcicolo, mas mais alegres e conformados. Dia 14: Passeando em Dahab • 52,00 Almoço • 35,00 Táxi ida e volta ao centro Total do dia: 87,00 EGP Dia 15, acordamos cedo e tomamos café. O desjejum no Bedouin Hotel é como ele, parece bom, mas é simplezinho e sem graça. Estava fazendo muito calor, o sol ardia e doía a pele ainda pela manhã, não dava nem vontade de ficar fora do ar-condicionado. No entanto, minha amiga e eu estávamos decididas a aproveitar o dia. Chegamos a ver um carro para nos levar ao Blue Hole, depois do almoço, mas acabamos nem indo. O Blue Hole, atração famosa de Dahab, é um buracão no Mar Vermelho, um tipo de caverna, com cerca de 130 metros de profundidade; é um destino obrigatório de mergulhadores do mundo todo, porém notoriamente perigoso para essa prática, sendo até conhecido como o “cemitério de mergulhadores”, devido ao elevado número de acidentes já ocorridos. Só os mais experientes devem se arriscar no azul profundo desse mar, e nós só iríamos observar a beleza dos recifes de corais e nadar um pouco nas calmas águas do Blue Hole, no máximo com um snorkel. Porém, é fácil fazer cursos rápidos nas várias agências locais e arriscar um mergulhinho mais radical, sempre bem acompanhado de um instrutor responsável. Dahab, na verdade, é isso: sossego, natureza e mergulho. O Mar Vermelho não tem ondas e não sou nenhuma expert, mas acredito que isso facilite esse esporte. E ainda, o passeio pode até se tornar mais espiritualizado, uma vez que o Monte Sinai fica a apenas 150 km de Dahab e só é acessível por essa cidade. Há várias opções de excursões para visitar ou mesmo subir o Monte. Entretanto, não tínhamos mesmo pensado em ir até lá, já que não agüentávamos mais táxis enlouquecidos e ônibus estranhos. Mas, o que dizer desse dia... Começamos com a franca intenção de aproveitá-lo e acabamos nos rendendo ao mau-humor e nos deixando levar pela preguiça. Meu amigo não quis nos acompanhar, já que já conhecia o local e minha amiga abateu-se frente à ansiedade da volta iminente e permaneceu conectada ao laptop. Eu também me deixei enfraquecer e esqueci o Blue Hole. Hoje, me arrependo amargamente. Estava no Egito, ao lado de um lugar que muitos sonham em visitar e fui vencida pelo desgosto e frustração... Prometi a mim mesma que nunca mais perderei oportunidades assim. Tudo acaba passando e todos os problemas parecem, depois, que nem existiram... Enfim, o dia passou e nós passamos por ele, sem nada acrescentar e sem nada tirar. Até saímos um pouco à noite, caminhamos, jantamos no mesmo restaurante do dia anterior, vimos mais um filme na TV e fomos deitar. Dia 15: Em Dahab • 30,00 Almoço • 40,00 Jantar • 32,00 Besteiras no mercado • 10,00 Táxi de volta do centro Total do dia: 112,00 EGP No nosso último dia no Egito, eu me mortificava de culpa, por não ter aproveitado o dia anterior, nem fora ou dentro do quarto. Por isso, decidi colocar um maiô discreto e me arriscar no mar, em frente ao hotel. A praia é de cascalhos; dói os pés. Assim, me muni de Havaianas e entrei na água totalmente cristalina. Só havia minha amiga e eu na praia. Na verdade, pelo que eu percebi, o mar de Dahab é mesmo para o mergulho; não há pessoas tomando sol ou curtindo a praia, em biquínis ínfimos, como no Brasil. Mesmo porque, apesar da cidade ser considerada destino turístico, ainda fica no Egito, em meio à sociedade muçulmana. Assim, as piscinas dos hotéis e resorts é que costumam deixar os turistas mais à vontade. Não cheguei a presenciar isso, mas vi na Internet o traje de banho das mulheres muçulmanas, que certamente seria motivo de piada no nosso verão; ele é um conjuntinho de um tipo de legging com uma sainha curta, sapatilhas, um colant com mangas compridas e uma touquinha de natação, tudo na mesma cor, que costuma variar tons berrantes, tipo azul celeste e rosa Pink, um “charme”. Enfim, entrei no mar, com meus chinelos e andei uns bons metros, sem que saísse do mesmo nível. Eu andava e andava, sobre as pedras e cascalhos, e ainda ficava com a água pelos joelhos. Parecia mesmo uma piscina. Confesso que fiquei com medo de, de repente, o mar simplesmente “afundar” e me engolir num infinito desconhecido, pois eu já estava longe da praia, e, incoerentemente, ainda no raso. Acovardada frente ao que não me era familiar, retornei, lutando para manter as Havaianas nos pés. Um cachorro se aproximou de nós, rolou na areia, permitiu que eu o afagasse e nos seguiu de volta até o hotel. Pensamos em aproveitar um pouco da piscina, já que a área de lazer era, de fato, muito linda. Percebemos, no entanto, que aquele cachorro, assim como seus amigos e prováveis familiares, eram tão freqüentadores da piscina do hotel, quanto os próprios hóspedes. Sem pudores, o cão entrou na água até a barriga, se serviu em linguadas generosas e saiu para deitar docemente em uma das muitas espreguiçadeiras do entorno. As fotos da Internet não mentem, a piscina era mesmo aquela, o mar maravilhoso que parece se unir a ela era mesmo aquele, as espreguiçadeiras e guarda-sóis que outrora me fizeram imaginar momentos do mais prazeroso descanso eram exatamente aqueles! Porém, a sujeira vista de perto era simplesmente inimaginável! A água da piscina tinha, além de muita areia, melecas não identificadas, boiando ao sabor do vento; o tecido das espreguiçadeiras estava imundo e, em muitas delas, totalmente rasgado, deixando aparente a espuma interna; o cão, sarnento e, muito provavelmente, pulguento, se refestelava na água e se revezava entre ela e a espreguiçadeira, valendo-se da agradável sombra sob os guarda-sóis; finalmente, nada justificava a quantidade de areia no chão, nem mesmo a proximidade da praia. Olhamos tudo aquilo e decidimos que entrar naquela água estava fora de cogitação. Como eu pego micose só de olhar pra uma praia suja, escolhi ser precavida. Sinceramente, se voltar a Dahab um dia, como ainda pretendo, posso até deliberadamente retornar ao Bedouin Moon Hotel. Porém, só faria isso ficando nos quartos da frente, com ar-condicionado e por um preço bastante promocional, já que saberia de antemão que, do hotel, só aproveita-se mesmo a cama para dormir. Apesar da bela estrutura, não poderia usar a área de lazer ou os charmosos quiosques de descanso, infelizmente. Já estava quase na hora do almoço. Comemos qualquer coisa, colocamos as roupas nas malas, tomamos banho e arrumamos, através da recepção, um táxi para nos levar de volta a Sharm El Sheik. Surpreendentemente, a viagem correu bastante tranqüila. Fomos no fresquinho do ar-condicionado, e não com as janelas abertas e um “lança-chamas” nas fuças, e o motorista foi muito educado. Fomos mudos e calados até o aeroporto. Experimentava um certo sentimento de derrota e resignação, como se não adiantasse fazer mais nada. Entretanto, ao mesmo tempo que lamentava mais uma “desilusão amorosa”, tentava equilibrar minhas emoções com tudo de bom que eu vivenciara e aprendera no Egito. Chegamos ao aeroporto de Sharm El Sheik e ainda era muito cedo para o check-in. Arrumamos um lugar para sentar e esperamos, sem nenhuma agitação. Algo que nos chamou a atenção foi o teto do aeroporto, uma imensa lona branca, como a de um circo, fazendo a entrada parecer uma grande tenda. Era de muito bom gosto e mais uma prova de que a chuva realmente não é levada em consideração nos projetos arquitetônicos. Depois de entrarmos, ainda esperamos umas duas horas, na área de embarque. O avião atrasou e minha amiga e eu ainda ouvimos as derradeiras reclamações. Chegamos ao Cairo somente à noite. Nos despedimos friamente do americano, cujo vôo para Chicago era somente no dia seguinte, e fomos esperar nosso vôo para Paris e, daí, de volta a São Paulo. Como ainda faltavam algumas horas, inventamos o que fazer, carregamos pen-drives de fotos, trocamos o restante de nossas Libras Egípcias por dólares, andamos no duty-free e compramos selos. Ainda no aeroporto, no Cairo, pudemos observar, mais uma vez, nosso contraste de culturas; esperamos pacientemente que o atendente dos correios, ajoelhado sobre um pequeno tapete, terminasse suas orações e viesse nos vender selos egípcios. De fato, os muçulmanos têm sempre seus tapetinhos, mesmo na sua área de trabalho, para que, no horário destinado às rezas, parem o que estiverem fazendo, e se posicionem em direção à Meca, numa disciplina ferrenha. Paramos para comer em um Burger King e lá também estava um casal jovem; o homem, moreno, cabelos pretos e barba cerrada, de calça jeans e camiseta, assistia a um jogo de futebol num telão e eu poderia imaginá-lo assim em qualquer boteco brasileiro. A mulher, no entanto, trajando uma burca fantasmagórica, que a cobria da cabeça aos pés e contava até com uma treliça em frente aos olhos, enfrentava uma luta pessoal contra o hambúrguer, tal era a dificuldade de tentar comer e, ao mesmo tempo, não mostrar o rosto, revelando a estranhos só o que o marido pode ver. Imediatamente, senti uma enorme pena dela e raiva do homem, por subjugar sua companheira daquela maneira e me indaguei como jovens ainda poderiam perpetuar aquele tipo de coisa. Porém, logo em seguida, pensando friamente e de maneira mais diplomática, e porque não dizer mais humilde, compreendi que nossas culturas e modos de enxergar a vida são diferentes e é só isso que elas são: diferentes. Não podemos e nem temos o direito de afirmar que uma cultura é mais correta, em detrimento da outra. Nascemos e somos criados em determinada sociedade e, simplesmente, nos acostumamos a ela. Fiquei observando aquela mulher que, a princípio já julguei reprimida moralmente e dominada fisicamente, e pensei, num relance, que ela poderia ter exatamente a mesmíssima opinião em relação a nós. Quem sabe ela olhasse para nós, para a nossa obsessão pela beleza e perfeição do corpo, nossos distúrbios alimentares e depressão, nossas mulheres abandonadas por homens irresponsáveis, forçadas a jornadas duplas de trabalho, a assumir a família como pai e mãe, mulheres tratadas como objetos sexuais, expostas, desiludidas, perdidas, desrespeitadas e pensasse como somos coitadas e tivesse de nós a mesma pena que eu estava sentindo dela? Quem sabe, dentro de suas expectativas, ela não fosse tão livre quanto gostaria de ser? Quem sabe aquele marido não fosse carinhoso e pai amável? Quem sabe ela não fosse, realmente, feliz? É claro que não apoio os extremistas e suas chicotadas em praça pública, submissão sem sentido ou prisões domiciliares, mas as muçulmanas que vimos no Egito, coloridas e alegres, sempre tinham um sorriso aberto e sincero a nos dar. Aliás, última informação inútil: eu não vi nenhum homem com os dentes bons no Egito e olha que eu procurei! Finalmente, embarcamos. Em Paris, tivemos que esperar mais algumas horas. Estava tão frio no aeroporto que minha amiga e eu tivemos que improvisar para nos aquecer, já que as malas já tinham sido despachadas. Ela, com um lenço sobre a cabeça, mais o capuz do casaco e outra blusa; eu, também vestida em camadas; nós duas, esgotadas sobre as cadeiras, braços cruzados, tremendo, olhares monótonos, lançados sobre o vazio, me fez imaginar duas sem-teto, que só precisavam daqueles latões com fogueira na frente, para esquentar as mãos. O avião partiu à uma da manhã e a última emoção da nossa viagem foi a rabeada que ele deu na pista ao pousar em São Paulo. Dia 16: Em Dahab e a volta • 100,00 Táxi Dahab – Sharm El Sheik (individual) • 50,00 Burger King • 17,00 Besteiras no aeroporto Total do dia: 167,00 EGP Cerca de uma semana depois do nosso retorno, estourou a revolução no Egito, em 2010, que derrubou o governante de 30 anos no poder. As ruas do Cairo e monumentos históricos foram inteiramente tomados por manifestantes, confinando os turistas em seus hotéis ou abreviando suas férias. Lembro da minha amiga me ligando, durante o Jornal nacional. Sem dizer mais nada, ela só soltou: “Você tá vendo o jornal?” E nós tivemos um acesso de riso de alguns minutos da situação. Hoje, quando toda a aporrinhação passada parece minimizada, tenho conversas amigáveis pelo MSN com o americano e, claro, continuo amando minha querida amiga. Apesar de todos os perrengues do Egito, sigo dizendo que, da minha parte, adorei a viagem e a faria de novo, sem nenhuma dúvida, especialmente agora, que já estaria escolada. Assim, espero, que da mesma forma, todos possam ter aproveitado algumas das dicas que dei aqui. Agradeço aos que leram até o final! Escrevi demais, mas o faço por mim também, afinal não há falta de memória que não se renda a uma caneta! Resumindo as contas da viagem de duas semanas ao Egito: Passagem de avião: R$ 2.630,00 Gastos diversos: R$ 1.100,00 (cerca de 3.600,00 Libras Egípcias ou 600 dólares) Hotéis: R$ 826,00 (Isso mesmo. Esse valor foram todas as diárias, mesmo trocando de hotéis e pagando outros, novamente) Dois vôos domésticos no Egito, pela empresa EgyptAir: R$ 255,00 Gastos em dólares: Visto: U$ 15,00 Sleeping Train: U$ 80,00 Vôo de balão: U$ 80,00 TOTAL: Assim, arredondando, gastei cerca de R$ 5.200,00 para duas semanas, no Egito, sendo que a passagem de avião, que corresponde a metade disso, pode ser dividida. Dessa forma, não há desculpas para não ir! Abraços a todos!
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