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vanderdissenha

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Sobre vanderdissenha

  • Data de Nascimento 04-04-1970

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  1. vanderdissenha

    Huayna Potosí

    Samuel!! Muito legal o seu vídeo, vou divulgar o mesmo em meu blog. Sobre seu problema com o guia, passei algo parecido, mas não tão problemático. O que percebi foi que os guias recebem o mesmo pagamento, se os clientes chegarem ao cume ou não, então eles dão uma forçada de barra para ver se o cliente desiste e assim eles podem voltar para o saco de dormir quentinho no abrigo. Na tarde anterior ao ataque ao cume, o guia do meu grupo (eu e dois suíços) me chamou num canto e falou que outro guia chegaria a noite, mas que ele subiria junto comigo. De madrugada, na hora do ataque ao cume ele mandou o outro guia comigo e foi junto com o casal de suíços. Aí percebi a jogada dele, pois a moça era lenta e com certeza logo ia desistir, e no final foi o que aconteceu. Ela e o namorado desistiram após uma hora de caminhada. O meu guia era mal humorado e forçou o ritmo ao máximo, fazendo poucas paradas. Quase chegando ao cume, numa parada para descanso, perguntei quanto tempo ainda faltava até o cume. Ele respondeu que faltavam umas duas horas ainda e perguntou se eu queria desistir dali. Achei estranho a resposta, pois o dia estava quase amanhecendo. Voltamos a caminhar e 20 minutos depois chegamos ao cume. Já na descida eu estava exausto e daí fui fazendo paradas conforme me sentia cansado. Ele ficava puto com isso e teve um momento em que eu estava sentado e ele puxou a corda me arrastando. Levantei bravo e falei que se ele fizesse aquilo de novo eu dava um porrada nele. Daí o cara acalmou e chegamos sem problema ao abrigo. Os guias lá são sempre os mesmos e são cheio de manhas. O jeito é tentar não se estressar, principalmente na subida e não ceder a pressão que fazem discretamente para você desistir. Abraço, Vander www.vanderdissenha.wordpress.com
  2. Abaixo um videofoto da Trilha Salakantay, que percorri em maio de 2012.
  3. vanderdissenha

    Huayna Potosí

    Olá!!! Abaixo segue a narrativa de como foi minha subida até Huayna Potosi, o dia do ataque ao cume. Entre maio e junho últimos passei 26 dias viajando por Peru e Bolívia e em meu blog está todo o diário de viagem e muitas fotos. Basta acessar http://www.vanderdissenha.wordpress.com e no lado esquerdo ir em POSTAGENS ANTERIORES: maio - junho Vander VIAGEM AO PERU E BOLÍVIA (21° DIA) 04/06/2012 Huayana Potosi – 3° dia Era meia noite quando o suíço me chamou, estava na hora de partirmos para o ataque ao cume do Huayna Potosi. Fiquei um minuto criando coragem para levantar, para sair do saco de dormir quentinho e ir enfrentar a noite fria, caminhando na neve. Peguei minha mochila que estava pronta ao lado com algumas coisas que levaria no ataque ao cume. Antes de sair olhei do lado e vi que a Bruna dormia. Peguei meu saco de dormir, o abri igual um cobertor e a cobri. Como ela era friorenta uma coberta a mais lhe faria bem. Desci para a sala de refeições e comecei a colocar a roupa para andar na neve. Levei meia hora para colocar as roupas e equipamentos de segurança. O que deu mais trabalho foi colocar as botas. Minha maior preocupação era com meus pés, pois não queria ter bolhas e também não queria sentir frio neles. Quando meus pés ficam gelados costumo sentir muito frio, então coloquei três meias. Primeiro uma meia de algodão, especial para caminhadas e depois uma de lã, que comprei em Laz Paz. Por último outra meia de caminhada, igual à primeira. E coloquei no nariz um dilatador nasal, que é um adesivo que ajuda a respirar melhor. Foi servido o café, mas não comi nada, preferi tomar somente um chá de coca bem quente. Foi feita mais uma reunião, onde nosso guia Cecilio explicou como seria o ataque ao cume. Tinha chegado outro guia no meio da tarde e ele seguiria junto comigo. O Cecilio seguiria com o casal de suíços e o guia da Bruna ficaria dormindo, já que ela não faria o ataque ao cume. Era uma hora em ponto quando saímos do refúgio. No momento em que pisei do lado de fora tive duas surpresas. A primeira foi o frio e o vento que eram intensos. Já a segunda supresa foi agradável, era a lua cheia que estava bem alta no céu e clareava a noite. A luz da lua era refletida na neve e deixava tudo muito claro. Nunca tinha visto uma noite igual aquela, estava muito linda. Caminhamos cerca de cem metros até chegar num local onde começava a neve mais alta. Ali colocamos os grampões nas botas e o guia deu os últimos avisos. Jhony, o meu guia seguiu na frente e eu alguns metros atrás atado a ele por uma corda amarrada em um equipamento preso em minha cintura, parecido com um cinto. O Cecilio vinha logo atrás, seguindo a frente do casal de suíços e também atado a eles por uma corda. Nos primeiros metros eu e meu guia caminhamos com nossas lanternas de cabeça ligadas, mas logo percebemos que não era necessário gastar pilhas, pois a noite estava tão clara que não precisava de lanterna. Caminhar na neve sendo iluminados pela lua cheia foi uma experiência inédita e inesquecível para mim. Era possível ver dezenas de metros para os lados, e para cima era possível enxergar o perfil da montanha. Teve um trecho de subida onde dava para ver alguns metros abaixo nossas sombras, seguindo em linha indiana. Aquela imagem parecia coisa de filme e só não parei para fotografar ou gravar, por que eu usava duas luvas, sendo que uma delas era muito grossa e seria impossível manusear a câmera utilizando tal luva. E tirá-la e recolocá-la nas mãos era muito trabalhoso. O primeiro quilômetro de caminhada foi tranquilo, pois a subida não era tão ingrime. Seguimos por uma trilha na neve, que atravessava um vale. O frio era abaixo de zero e o vento era cortante. Antes de sair o Cecilio nos deu bataclavas, que é um tipo de capuz onde só os olhos ficam de fora. Meu guia seguiu num passo rápido e eu conseguia acompanhá-lo numa boa, sinal de que estava em boa forma e também aclimatado a altitude. Após meia hora de caminhada fizemos a primeira parada para descanso. O casal de suíços logo parou ao nosso lado. A guria estava mal do estômago desde o início do dia e estava tendo dificuldades para caminhar. Ali vi que eles dificilmente chegariam até o cume e entendi por que o Cecilio tinha ficado com eles, mesmo após ter me dito no meio da tarde que subiria junto comigo. Ele sendo o guia principal podia escolher quem acompanhar e sendo experiente na profissão ele tinha notado que a suíça não ia aguentar subir, que não ia demorar em desistir. Então acompanhando o casal de suíços ele tinha boas chances de logo poder voltar para a cama. Para os guias tanto faz levar o pessoal até o cume ou não, pois eles recebem a mesma coisa. E sempre é mais confortável ficar dormindo no refúgio do que passar a noite caminhando na montanha. E no caso de Cecilio, que trabalha há doze anos como guia, chegar uma vez mais ao cume do Huyama Potosi, não faria diferença alguma. Eu estava suportando bem a caminhada, onde a cada metro percorrido aumentava a altitude e diminuía a quantidade de oxigênio para respirar. A segunda parada foi quando completamos uma hora de caminhada. Nessa parada já não vimos mais o casal de suíços ou o Cecilio. Ou eles estavam caminhando muito lentamente e tinham ficado bem para trás, ou tinham desistido e retornado ao refúgio. Já fazia alguns minutos que estávamos vendo cinco pessoas caminhando próximo a nós, vindo por uma trilha que levava a outro refúgio, pouco acima do nosso. Nessa segunda parada eles nos alcançaram, eram três alemães e dois guias bolivianos. Voltamos a caminhar e seguimos atrás do grupo de alemães no mesmo ritmo que eles. A trilha passou a ficar mais difícil e tivemos que passar por alguns trechos ingrimes, onde a subida exigia bastante esforço. Mesmo assim eu estava curtindo o “passeio” e olhando o céu estrelado, a lua, a montanha branca iluminada pela lua. A terceira parada foi após uma hora e meia de caminhada e foi um pouco mais longa que as paradas anteriores. Se o guia não tivesse parado, acho que eu teria pedido para ele parar, pois estava começando a me cansar. Sentei-me na neve ao lado dos guias e procurei respirar profundamente, pois estava sentindo falta de ar. Ajeitei a bataclava de uma forma que meu nariz e boca ficassem livres, pois não estava conseguindo respirar direito com a boca tapada. Após o descanso voltamos a caminhar e de cara enfrentamos uma subida bastante ingrime e que exigiu muito esforço nosso. Quando chegámos ao alto dessa subida eu estava exausto e comecei a pensar que não conseguiria chegar até o cume. Mais um trecho plano e nova subida, onde gastei o restante do meu preparo físico. No Exército aprendi que quando nosso preparo físico chega ao fim, ainda temos cinquenta por cento de forças para utilizar. Éssa força extra é a famosa força de vontade. Em minha vida muitas vezes utilizei esses cinquenta por cento de força extra, geralmente quando minhas pernas não tinham mais forças. E para a força de vontade funcionar, você precisa ficar falando para você mesmo que vai conseguir, que vai chegar onde quer, que vai ser fácil. E foi o que fiz, fiquei o tempo todo tentando me convencer de que eu conseguiria, de que eu tinha forças para chegar ao cume. Minha preocupação principal passou a ser conseguir seguir em frente, dar o próximo passo, então parei de olhar a paisagem, a lua e as estrelas. Eu precisava me concentrar e arrumar forças para o passo seguinte e foi o que fiz. Eu segurava o piolet com a mão esquerda, pois até ali as únicas vezes que precisei usá-lo, foi com a mão esquerda. O guia avisava quando chegavámos num trecho perigoso e que era preciso utilizar o piolet como apoio, qual era a mão para usá-lo de uma forma que fosse mais seguro. E de tanto ficar com o piolet que era de ferro, numa mesma mão, meus dedos começaram a congelar mesmo utilizando duas luvas grossas. Na parada que fizemos às 3h00min, eu sentia muita dor na mão esquerda, principalmente nos dedos. Isso era sinal de que estavam ficando congelados. Durante a parada para descanso, eu me sentei e coloquei a mão semi congelada no meio de minhas coxas e fiquei apertando-as contra a mão. Após dez minutos as dores cessaram e consegui mover a mão normalmente. Eu trazia água, biscoitos e chocolates na mochila, mas em nenhuma das paradas senti vontade de beber água ou de comer algo. Voltamos a caminhar e dessa vez a trilha era mais estreita e passámos por algumas subidas. Eu já estava quase esgotado e vi que o guia começou a apertar o passo, inclusive ultrapassámos o grupo de alemães. Eu já não estava aguentando mais e cheguei a pensar em desistir. Daí entendi qual era a do guia, que de bobo não tinha nada. Ele viu que eu estava cansado e resolveu apertar o passo para me fazer cansar de vez e desistir, pois dessa forma voltaríamos ao refúgio mais cedo. Não caí na dele e comecei a parar toda vez que me sentia muito cansado. Quando eu via que não aguentava mais, eu dizia a ele que precisava parar e sentava no chão. Ele não estava gostando muito disso, mas não pôde fazer nada quanto a isso. E se bem lembrava (e creio que ele também) era eu que estava pagando, era eu o cliente, então acho que tinha o direito de parar quando achasse melhor. Teve um momento em que eu parei e ele puxou a corda, quase me arrastando. Falei para ele ir com calma, que não precisava fazer aquilo. Depois disso ele ficou calminho e toda vez que eu parava ele parava junto e não falava nada. E assim segui caminhando um pouquinho, descansando um pouquinho. E sou guerreiro, não me entrego facilmente, principalmente depois de todos os problemas que tive em 2010 e 2011. Acabei me tornando mais forte em todos os sentidos e é difícil eu me entregar ou desistir do que eu quero. Continuei arrumando forças não sei onde para seguir em frente. Teve um momento em que até olhei para o céu e falei – “Deus, dá uma ajudinha aí! Estou tão perto!” -. O mais difícil foi ter chegado até ali, a centenas de quilômetros de casa, tinha gastado muita grana, tinha treinado e me preparado muito para estar ali. Então não desistiria tão próximo de alcançar meu objetivo. O que atrapalhou bastante meu preparo físico foi que essa viagem era para ter acontecido quinze dias antes do que aconteceu. Tive que cancelar a passagem e mudar a data de embarque em razão de ter machucado minha coluna durante os treinamentos que estava fazendo para subir Huayna Potosi. Eu treinava pesado durante duas, três horas por noite e acabei me machucando. Com isso perdi boa parte do condicionamento adquirido, após ter ficado doze dias em repouso total, tomando remédios para me curar do problema na coluna. Ali naquele trecho da montanha esse condicionamento fisíco que perdi acabou fazendo falta. Eu estava decidido a não desistir, ia tentar chegar até o cume. Mas não faria igual fiz com relação a algumas coisas meses antes, quando eu seguia na base do “consigo o que quero ou morro tentando”. Já tinha passado dessa fase de fazer loucuras e desafiar a morte de forma idiota. Dessa vez, em Huayana Potossi eu não ia morrer tentando, eu queria era viver tentando e principalmente conseguir o que queria. Minha maior preocupação era ficar esgotado em razão do pouco ar, pois fazer atividade física em alta montanha é muito desgastante. Se eu passasse a sentir tontura ou muita dor de cabeça, aí sim eu teria que analisar minhas condições e decidir se desistia ou não. Mas em nenhum momento tive dor de cabeça ou tontura. O que faltava era um pouco de perna por culpa de meu preparo físico estar se deteriorando. Chegamos num trecho onde a trilha seguia pela lateral da montanha, numa parte com aclive e com a neve muita fofa. Algumas vezes eu pisava e minha perna afundava na neve até quase o joelho. Esse trecho de neve fofa tinha uns quinhentos metros de extensão. Foi terrível passar por esse trecho e quando chegamos ao final dele e fizemos uma parada para descansar, pensei em desistir. Perguntei ao guia quanto tempo faltava e ele disse que mais duas horas de caminhada. Aquilo me desanimou e vi que não aguentaria caminhar mais duas horas. Comecei a sentir cada vez mais frio, em parte por que estava ficando mais frio. E também por que o vento em alguns trechos em que ficavámos afastados da montanha era muito forte. Sentado na neve fiquei pensando no que fazer, se seguia em frente até cair ou se voltava dali. Então me lembrei de algo que o Rodrigo Raniere, que é alpinista e que já chegou ao cume do Everest (montanha com 8.848 metros, que é o ponto culminante do planeta terra) disse. Segundo o Rodrigo chegar ao cume de uma montanha é somente a metade do caminho. E ele tem toda razão, pois você após chegar ao cume de uma montanha, precisa descer e para isso tem que percorrer todo o caminho de volta. Em altas montanhas, e principalmente no Everest a maioria das mortes que ocorrem são justamente na descida. O cara gasta toda sua energia para subir e depois não tem forças para descer e acaba morrendo, pois com o cansaço e o desgaste, o raciocínio fica lento e o cara fica mais sujeito a sofrer acidentes. O guia puxou a corda e eu me desliguei de meus pensamentos. Nos minutos em que fiquei pensando tinha decidido apenas que seguiria em frente até onde aguentasse, ou então que sentisse que estava tão desgastado que ficaria perigoso seguir em frente. Eu já nem sabia mais que horas eram e olhar o relógio dava muito trabalho, pois estava cheio de casacos e luvas que cobriam o relógio. O passo seguinte era passar ao lado de uma enorme rocha e em seguida subir por um caminho estreito e com neve fofa. Quando cheguei ao início desse caminho estreito vi que dos dois lados existiam um precípicio enorme, que em razão da escuridão (mesmo tendo a luz da lua) eu não conseguia enxergar direito. Eu estava tão cansado que achei melhor não me preocupar com isso e principalmente não olhar para os lados. Segui com todo o cuidado olhando no máximo um metro à frente e para o chão. Após atravessar o trecho estreito, subi alguns metros e encontrei os alemães parados e se cumprimentando uns aos outros. Antes que eu entendesse o que estava se passando, o guia falou CHEGÁMOS! Foi então que me dei conta de que tínhamos chegado ao cume do Huyana Potosi e que o guia tinha sido sacana quando um pouco antes me disse que ainda faltavam duas horas para chegar ao cume. E eu quase que desisto de chegar ao cume justamente quando estava muito próximo a ele. O cansaço era tanto que me sentei na neve e fiquei olhando em volta. De um lado dava para ver as luzes de La Paz e do outro lado o sol nascendo. Olhei no relógio e eram 5h32min. Olhei no meu termômetro que estava no fundo da mochila e a temperatura era de exatos 15 graus negativos. E com o vento que soprava lá em cima, a sensação térmica devia ser de uns 20 graus negativos ou mais (ou seria menos?). O sol foi surgindo, tudo foi clareando e a vista lá do alto foi ficando cada vez mais bonita. Comecei a sentir muito frio e estava tão cansado que nem cheguei a sentir algum tipo de emoção diferente. Pôxa! Eu estava realizando um antigo sonho, que era subir uma montanha nevada! Desde muito jovem que eu leio e coleciono livros sobre narrativas de viagens e escaladas. Li muitos livros que falavam sobre as dificuldades de subir montanhas nevadas e essas leituras fizeram nascer em mim à vontade de um dia chegar ao cume de uma alta montanha. E quem sonhou com o Everest, chegou ao Huayana Potosi! E chegar ao Huyana Potosi com seus 6.088 metros era bem mais do que eu tinha imaginado. Uma coisa é sonhar, pois muitas vezes sonhamos coisas impossíveis. E outra coisa é realizar tais sonhos. E como sempre digo: SONHOS NÃO TEM PREÇO! Fiquei alguns minutos sentado olhando a paisagem em volta da montanha. Eu estava à 6.088 metros e tinha quebrado mais uma vez o meu recorde de altitude. Agora quebrar esse novo recorde será muito difícil! Quando comecei a tremer de frio, resolvi me levantar e movimentar um pouco os braços e pernas. Foi então que o meu guia veio me dar parabéns e tirámos uma fotos juntos. Eu tinha levado uma garrafa de Coca-Cola para tomar no topo da montanha, mas de tão cansado que estava nem me lembrei da tal Coca. Tirei algumas fotos, curti um pouco a vista e o guia falou para pegar minhas coisas, pois tinhámos que descer a montanha o quanto antes. Com o sol a neve fica mole, o que dificulta caminhar sobre ela. E outro problema são os buracos e gretas (fissuras) que ficam sob a neve. No frio a neve fica compacta e tais buracos e gretas não são muito perigosos. Já com o sol a neve amolece e o risco de você cair num desses buracos é bem maior. Então o plano era descer a montanha o mais rápido possível. Me aprontei e então o guia falou que para descer era diferente, que eu seguiria na frente e ele atrás segurando a corda. Desde o início da subida eu tinha dúvidas sobre o guia conseguir fazer a ancoragem com a corda no caso de eu cair em um precípicio. Ele era menor que eu, então achei que em caso de eu cair, das duas uma, ou ele caía junto, ou soltava a corda e me deixava cair sozinho. Alteramos a posição da corda e ele disse para eu seguir em frente. Os Alemães ainda estavam tirando fotos no cume e iam demorar um pouco para descer. Comecei a caminhar e quando cheguei ao trecho estreito de neve, levei um susto e parei. Na ida ao passar por ali no escuro e sem ver direito onde estava passando, achei aquele trecho perigoso e agora ver o mesmo trecho com dia claro me causou pânico. Não sou medroso, mas quando vi por onde teria que passar eu senti muito medo e falei para mim mesmo que por ali não passaria. Fiquei parado olhando para a trilha e o guia disse para eu não ter medo, que não tinha perigo. Pedi para ele esperar um pouco e então vi que eu teria que passar por ali de qualquer jeito, pois não existia outra opção. Ou passava por aquele trecho estreito, ou ficava no cume congelando. Na hora lembrei que tinha visto na internet algumas fotos daquele trecho e que nas fotos ele não era tão estreito. Daí me ocorreu que as fotos podiam ser da época de nevascas, onde aquele trecho em razão de cair mais neve ficava mais largo. Meus pensamentos foram interrompidos pelo guia, mais uma vez dizendo para eu não ter medo e seguir em frente. Respirei fundo e dei o primeiro passo. Achei que a trilha estava mais estreita do que na ida e foi então que me dei conta de que na ida, no escuro, eu tinha caminhado por cima de uma espécie de mureta na neve, com uns 40 centímetros de altura. E que essa espécie de mureta ficava justamente na borda da montanha. Ao lado dela era um precípicio que descia pela montanha e parecia um tobogã de neve, o qual não conseguia enxergar o fim. Fiquei me perguntando se no escuro da subida somente eu tinha passado por aquela parte mais perigosa, ou todos passaram por ali? Com dia claro era impossível passar por essa espécie de mureta. Seu eu passase ali com certeza minha labirintite ficaria atacada, eu teria tontura, as pernas tremeriam e eu correria o risco de cair no abismo. O jeito foi seguir caminhando pela faixa estreita de neve ao lado da tal mureta de neve, dando um passo por vez e colocando um pé na frente do outro. E a todo custo evitei olhar para os lados, me concentrava no próximo passo e nada mais. Dei uma rápida olhada para o lado direito e vi que ali o precípicio era menor do que do outro lado. Mas cair ali também significaria morrer. E ali eu tinha certeza que em caso de queda o guia não conseguiria fazer a ancoragem, que ele soltaria a corda e me deixaria cair montanha abaixo. Atravessar a trilha estreita durou poucos minutos, mas para mim pareceu que demorou bem mais. Quando cheguei ao final da trilha e desci até uma rocha que ficava um pouco abaixo e que foi ao lado dela onde fizemos a última parada para descanso, eu sentia o suor escorrer pelas axilas e costas. Num frio de muitos graus negativos eu estava sentindo calor. Fizemos uma curta parada para descansar e começamos a descer a montanha. Atravessámos a parte inclinada ao lado da montanha e que tinha neve fofa. Sofri para atravessar esse trecho e afundei na neve mais vezes do que tinha afundando na subida. E passamos ao lado de alguns buracos enormes que eu não tinha visto durante a subida. Após atravessar esse trecho de neve fofa fizemos nova parada para descanso. Ali tirei o casaco grosso que usava por cima e coloquei óculos de sol, pois o reflexo do sol na neve estava me incomodando. Tenho problema com claridade em excesso, e quando era criança usei durante dois anos óculos com lentes escuras, por culpa de uma insolação que peguei na praia. Estava com sede e ao pegar minha garrafa de água na mochila descobri que ela estava congelada. Minha água tinha virado um cubo de gelo. Lembrei-me da garrafa de Coca-Cola e ao pegá-la vi que também estava congelada. A água do guia também tinha congelado, então o jeito foi ficar com sede. Descer a montanha era bem mais fácil do que subir, mas era bastante cansativo também, principalmente em razão do desgaste que foi subir. Dei algumas olhadas para os lados e vi que a paisagem era muito bonita, mas não deu para curtir muito. Eu me concentrava em olhar para frente e buscar forças não sei onde. Comecei a ficar cada vez mais com sede, a boca ficou seca e senti meus lábios e bochechas ardendo. Foi então que descobri que eles estavam queimados pelo frio. Como não conseguia respirar direito durante a subida, eu afastei a bataclava do rosto e nariz, e o vento gelado causou algumas queimaduras leves. Não me importei muito com isso naquele momento, pois tinha problemas maiores para me preocupar e o maior deles no momento era a forte dor que eu sentia na parte da frente dos meus dedos dos pés. Por estar descendo os dedos eram forçados contra a parte interna do bico das botas e isso estava me causando muita dor. Descemos numa boa velocidade, mas logo fui perdendo forças e comecei a caminhar mais devagar. O guia ficava o tempo todo me mandando ir mais rápido, até que chegou um momento em que me estressei e respondi que não dava para ir mais rápido que aquilo. E depois disso passei a fazer muitas paradas, onde eu me sentava ou deitava na neve e tentava respirar forte. O guia não gostou muito disso, mas não falou nada. Numa dessas paradas, no meio de uma vale, vi que por todo o vale próximo a nós existiam dezenas de pedras de gelo espalhadas. Algumas pedras eram pequenas, outras tinham o tamanho de uma moto. Perguntei ao guia de onde vinham aquelas pedras e ele me mostrou numa parte da montanha atrás de nós uma pequena geleira. Segundo ele quando esquentava algumas pedras se soltavam e desciam pelo vale, numa espécie de avalanche. Na mesma hora levantei e disse a ele para seguirmos em frente, pois aquele local não era bom para descanso. Depois de todo o esforço para subir a motanha, o que menos queria era ser atropelado por um cubo de gelo gigante. A sede foi apertando, comecei a ficar tonto e as pernas não obedeciam direito. Vi que estava ficando desidratado e minha água continuava congelada. Passamos a descer por uma trilha estreita e eu tropecei com a ponta do pé direito no calcanhar do pé esquerdo, caindo literalmente de boca na neve. O guia fez rapidamente a ancoragem esticando a corda e não deixando que eu saísse rolando trilha abaixo. Ali o guia conseguiu fazer a ancoragem, mas continuei achando que se fosse num local mais inclinado e perigoso, ele não conseguiria. Seguimos montanha abaixo, fazendo algumas poucas paradas para descanso e para tirar fotos. Eu que sou de bater muitas fotos, nesse dia não estava com ânimo para ficar a todo instante tirando as luvas e batendo fotos. Os lugares pelos quais estávamos passando dariam boas fotos, mas preferi guardar tais imagens na memória, pois isso dava menos trabalho. Os alemães passaram por nós e desceram rapidamente pela montanha. Depois pegaram uma trilha a direita e sumiram de vista atrás de umas pedras. Mais abaixo já era possível ver o nosso refúgio que parecia estar perto, mas que levou meia hora para chegarmos até ele. Essa meia hora foi uma das mais longas de minha vida, pois eu não me aguentava mais e meus dedos dos pés estavam cada vez mais doloridos. Ao todo levamos quase três horas de descida até chegarmos ao refúgio. Paramos tirar os grampões e para isso sentamos numa pedra. Eu não estava conseguindo tirar os meus e o guia veio me ajudar. Em seguida atravessamos os poucos metros até a entrada do refúgio, onde encontrei o Cecilio, o guia da Bruna e o casal de suíços, todos sentados tomando sol. Perguntaram se eu tinha chegado ao cume e diante de minha resposta vieram me cumprimentar. Os suíços contaram que desistiram da subida após há primeira hora, e colocaram a culpa no problema de estômago da guria. Eu mal conseguia estender a mão para eles e só agradeci rapidamente e entrei no refúgio em busca de água. Depois de beber um litro de água, sentei-me e tirei as roupas para neve e as botas que estavam esmagando meus dedos. Então encontrei a Bruna, que me deu parabéns por ter chegado ao cume. Subi até o dormitório e entrei no saco de dormir, pois estava começando a sentir muito frio. O Cecilio subiu para falar comigo e disse que era para arrumar minhas coisas, pois precisávamos descer até o primeiro refúgio aonde o taxi ia nos buscar. Pedi a ele que me desse meia hora para descansar, pois eu estava exausto e desidratado. A Bruna subiu e se sentou no colchão ao lado do meu. Ficamos conversando, eu contando um pouco de como tinha sido a subida. Logo o guia dela veio chamá-la, pois eles iam embora primeiro. Eu e Bruna nos despedimos e voltei a deitar. Quinze minutos depois o guia veio me chamar e não sei onde encontrei forças para levantar e arrumar minhas coisas. Coloquei minhas botas e elas que sempre achei serem pesadas, agora pareciam leves. A sensação era de estar com um chinelo nos pés. Após tantas horas com as pesadas botas para gelo nos pés, minhas botas de caminhada pareciam plumas. Com dificuldade comecei a descida por entre o gelo e as pedras na trilha abaixo do refúgio. O Cecilio pegou minha mochila menor e colocou nas costas, o que foi uma grande ajuda. Os dois guias e o casal suíço desceram na frente, caminhando num bom ritmo. Eu fui atrás, me arrastando. Fiz algumas paradas para descansar e ao longe vi que os guias paravam de vez em quando e ficavam me olhando. Eles tentavam nunca me perder de vista. Quase no final do trecho cheio de pedras, escorreguei e caí de bunda no chão. Por sorte caí num trecho onde não tinha pedras na trilha, então somente o orgulho ficou machucado. Felizmente ninguém me viu caindo. Antes de chegar ao segundo trecho da trilha, encontrei os dois guias sentados, me esperando. Sentei ao lado deles e ficamos conversando por alguns minutos. Depois voltamos a caminhar, eles na frente e eu cada vez mais atrás. Segui me arrastando e torcendo para chegar logo o final da trilha, pois não tinha mais forças. E numa curva da trilha dei de cara com a Bruna, sentada em umas pedras. Foi bom encontrá-la ali, principalmente por que imaginava que não fosse revê-la tão cedo. Mesmo saindo na frente, ela seguia devagar e fazia paradas para descansar, então acabei a alcançando. Passámos a caminhar juntos e foi à vez dela retribuir o favor do dia anterior e me dar apoio moral para eu seguir em frente. Encontramos os três guias parados num canto da trilha e quando viram que estávamos caminhando juntos, os três se mandaram na frente e só fomos encontrá-los novamente quando chegamos ao refúgio. Nosso taxi, o mesmo da ida já estava lá nos esperando. Arrumei minhas coisas e guardei tudo no taxi. Me despedi novamente da Bruna, que seguiria com o seu guia em outro carro. Também me despedi do pessoal do refúgio e do Jhony, o guia que subiu junto comigo. Ele disse que eu era “forte”. Agradeci a ele pela ajuda e entrei no taxi, no banco de trás junto com os suíços. Eu estava muito cansado e só pensava em chegar ao hostal e dormir. Tentei dormir no carro, mas era apertado, desconfortável e na estrada esburacada chacoalhava muito. Ao passarmos em frente ao velho cemitério que fica ao lado da estrada, me virei para trás e dei uma última olhada na montanha de Huayna Potosi. Ela aparecia majestosa iluminada pelo sol, com o céu azul por trás e com seu manto branco de neve. Olhando para a montanha eu não acreditei que tinha chegado até seu cume. A ficha ainda não tinha caído! E jurei que nunca mais subiria uma montanha nevada novamente. Foi torturante há quase uma hora que levamos para chegar até a casa do Cecilio. Como era descida o taxista parou em frente a casa, na beirada do abismo. O Cecilio descarregou suas coisas, despediu-se de todos e embarcamos no taxi. Dessa vez me sentei no banco do carona e quando olhei para frente e vi o tão próximo que estávamos da beira do abismo, achei melhor não colocar o cinto de segurança e fiquei segurando na fechadura da porta. Vai que o motorista erra a ré, ou acontece algum outro problema? Achei melhor me garantir e ter uma chance de me atirar para fora do carro caso fosse necessário. Felizmente nada de ruim aconteceu e após mais uma hora andando por ruas sem asfaltdo e parte do centro de La Paz, finalmente chegámos ao Hostal. La Paz Fui até a recepção do Hostal El Solário e pedi um quarto e também minha mochila grande que tinha ficado guardada no depósito. Dessa vez me deram um quarto próximo a recepção e com um banheiro ao lado da porta. Fui primeiro ao banheiro e na hora de sair bati a porta com força e escutei um click. Só então li um aviso pregado na porta, escrito em espanhol e inglês e que dizia para não trancar a porta, pois tinham perdido a chave. Olhei para os lados e não vi ninguém que testemunhasse a cagada (não literal) que eu tinha acabado de fazer. Entrei no meu quarto, dei uma olhada rápida nele e vi que era melhor do que o quarto onde tinha ficado anteriormente. Tirei minhas botas, sentei na cama, testei-a para ver se era confortável e vi que a exemplo do quarto, a cama era bem melhor do que a anterior. Depois disso não me lembro de mais anda, pois dormi. Acordei às 15h30min com barulho de vozes no corredor ao lado. Olhei para os lados e demorei um pouco para entender o que estava acontecendo e onde eu estava. Foi então que me lembrei de que eu estava sujo, sem comer nada fazia mais de quinze horas e que tinha chegado ao cume do Hyaina Potosi, realizando o antigo sonho de escalar uma montanha nevada. Finalmente a ficha caiu e senti aquela sensação gostosa de missão cumprida. Sei que parece insano você se arriscar, sofrer e levar horas para chegar ao alto de uma montanha, onde fica poucos minutos e depois desce. Mas isso não é insano, isso para quem gosta não tem preço e para saber como é tal sensação o único jeito é você fazer algo igual. Não é possível explicar como é tal sensação, só é possível sentir e sentimentos não são explicavéis, eles são sentidos, são vividos, são exercitados… Fui tomar banho e fiquei longos minutos debaixo do chuveiro, com a água quente caindo sobre meu corpo. Após ter enfrentado as menores temperaturas de minha vida, um banho quente era uma espécie de prêmio que eu dava a mim mesmo. Fui para o quarto e tirei minhas coisas das mochilas, separei o que era sujo do que era limpo, dei uma organizada em tudo e senti o estômago roncando. Então saí a rua e mais uma vez ao passar pelos muitos salões que existem na vizinhança o pessoal ficou me chamando para entrar e fazer a barba. Eu já estava cansado disso, que acontecia toda vez que saía do hostal e passei a fazer de conta que não os ouvia. Deixei de ser educado e responder a todos dizendo não e passei a olhar para frente e não dar bola para ninguém. Fui ao restaurante da esquina de baixo, onde já tinha comido algumas vezes. Pedi o maior prato de arroz, frango frito e batata fritas que eles tinham e uma Coca-Cola gelada. Almocei lentamente e ao sair do restaurante parei na vendedora de abacaxis que ficava na rua em frente e comi duas enormes fatias de abacaxi. Depois fui caminhar e desci por uma longa avenida que passava ao lado e que atravessava o centro da cidade. Estava com dor nas pernas, mas continuei caminhando lentamente. Minha calça Jens (a única que levei na viagem) ficava caindo, sinal de que eu tinha perdido ainda mais peso do que já tinha perdido desde que saí do Brasil. Fiquei duas horas andando pelas ruas, olhando vitrines, construções e pessoas. Parei tomar um delicioso sorvete de pêssego, com muitos pedaços de pêssego. Antes de voltar ao hostal entrei em uma lan house, onde telefonei para casa e depois fiquei usando a internet. Quando anoiteceu fui para o hostal e descansei um pouco. Mais tarde saí e fui jantar em outro restaurante cujo prato principal também era arroz, frango frito e batata frita. Fiquei olhando o cardápio e para comemorar minha recente façanha pedi o prato mais caro, que era frango parmegiana. O prato mais caro custava $ 26,00 bolivianos (R$ 8,20). O frango parmegiana deles é diferente do frango parmegiana brasileiro. Não tinnha molho de tomate e nem queijo por cima. Na verdade era uma mistura de frango, massa de trigo e ovo, tudo misturado, prensado e assado na chapa. Mas o que me surpreendeu foi o tamanho, era enorme e achei que não conseguiria comer tudo. Mas comi, pois precisava recuperar minhas forças que tinham sido perdidas em Huayna Potosi. Voltei para o hostal de pança cheia e caí na cama pensando qual seria a próxima montanha nevada que eu subiria. A promessa de nunca mais subir novamente uma montanha nevada não tinha durado muitas horas. Apesar so sacríficio tinha gostado da experiência e queria repeti-la um dia. Logo dormi curtindo a cama confortável e quente.
  4. vanderdissenha

    CAMINHO DA FÉ - 13 DIAS (MARÇO/2011)

    Olá!!! A todos que deixaram mensagens aqui nos últimos meses, peço desculpas, mas somente hoje é que fui ler as mensagens. Não entro sempre no site, então não vi que tinha mensagens novas e caso o site tenha enviado alguma mensagem avisando, creio que foram parar na caixa de span e eu não vi. Costumo responder os e-mails e mensagens que recebo, então lamento não ter visto as mensagem e não ter lhe respondido antes. Abraço, Vander www.vanderdissenha.wordpress.com.br
  5. vanderdissenha

    relato TRILHA INCA (janeiro/2011)

    Olá!!! A todos que deixaram mensagens aqui nos últimos meses, peço desculpas, mas somente hoje é que fui ler as mensagens. Não entro sempre no site, então não vi que tinha mensagens novas e caso o site tenha enviado alguma mensagem avisando, creio que foram parar na caixa de span e eu não vi. Costumo responder os e-mails e mensagens que recebo, então lamento não ter visto as mensagem e não ter lhe respondido na época. Abraço, Vander www.vanderdissenha.wordpress.com.br
  6. vanderdissenha

    Huayna Potosí

    Olá!!! Alguém sabe me dizer se em dezembro é possível e seguro "fazer" Huayna Potosi? Tenho umas semanas livres e gostaria de ir agora para a Bolivia. Mas sendo verão, fiquei na dúvida sobre ser possível ou não subir Huayna Potosi. Obrigado, Vander
  7. vanderdissenha

    CAMINHO DA FÉ - 13 DIAS (MARÇO/2011)

    Oi, Faça pois vale a pena. E o segredo é seguir sem pressa, curtindo a paisagem e conversando com os moradores. Gastei R$ 650,00 nos trezes dias, com alimentação, hospedagem e conserto da bike. O hotel mais barato que fiquei paguei R$ 15,00 e o mais caro R$ 38,00. Alimentação foi variável, eu fazia um pequeno lanche no almoço e comia mais na janta. abraço, Vander
  8. Abaixo segue o relato completo dos 13 dias de bike pelo Caminho da Fé, em março último. Caso queria ver mais fotos, acesse meu blog no endereço: http://vanderdissenha.wordpress.com/ As postagens sobre o Caminho da Fé vão do dia 21/03 até 08/04, é só procurar no Blog, onde postei quase 200 fotos da viagem.
  9. vanderdissenha

    relato TRILHA INCA (janeiro/2011)

    Oi David, Que bom que gostou do relato e que ele tenha te motivado. Sua idade (que é um pouco menos que a minha) não é impedimento para se aventurar em trilhas. Basta cuidar da alimentação e treinar um pouco. Boa sorte!! Vander
  10. vanderdissenha

    relato TRILHA INCA (janeiro/2011)

    Anderson, Repondendo suas perguntas; 1) Esfriava muito de noite e logo ao amanhcer. Levantavámos ás 5h00mim e no ultimo dia ás 3h30min e com chuva. Acredito que tenha feito uns 5 graus. Já durante o dia era mais tranquilo, usei no maximo um casaco não muito grosso. 2) Levei quatro casacos para diferentes temperaturas e usei três deles, mas nunca ao mesmo tempo. Trocava conforme a temperatura. Para dormir levei um saco de dormir para 10 graus negativos. O isolante térmico foi cedido pelos guias para todos os membros do grupo. Não passei frio. Levei um par de luvas e não cheguei a usar. 3) Os 12 kg da mochila foi no primeiro dia, pois levei um bom estoque de água. Depois esse peso foi diminuindo. Também levei bastante biscoitos e chocolates e o peso foi ficando reduzido conforme o tempo passava. Devo ter chegado ao final da trilha com a mochila pesando entre 7 e 8 quilos. Abraço, Vander
  11. vanderdissenha

    relato TRILHA INCA (janeiro/2011)

    Oi Lico, Obrigado pelo parabéns. E agradeço pelas muitas dicas que li, tanto suas quanto do restante do pessoal. Essas dicas foram importantes para eu conseguir fazer a trilha. Abraço, Vander
  12. vanderdissenha

    relato TRILHA INCA (janeiro/2011)

    Abaixo segue a narrativa sobre os quatro dias que percorri a Trilha Inca, durante viagem ao Peru em janeiro de 2011. Para saber mais sobre essa viagem e ver várias fotos, acesse meu Blog no endereço http://vanderdissenha.wordpress.com/ Trilha Inca (1º dia) Após passar pelo posto de controle e atravessar a ponte sobre o rio Urubamba, finalmente iniciei a caminhada pela Trilha Inca. Parecia que todos no grupo estavam ansiosos para iniciar logo a trilha. Para mim era a realização de um antigo sonho, justamente após sofrer muito com duas hérnias de disco, ter sido ameaçado de ficar torto, manco e até mesmo ir parar em uma cadeira de rodas. Nada disso aconteceu, consegui me recuperar com fé, dedicação ao tratamento médico, muito esforço e força de vontade. Fisicamente estava bem preparado, tinha treinado muito nas semanas anteriores, algumas vezes até três horas por dia. Ao dar os primeiros passos na Trilha Inca senti uma sensação boa e confesso que até me dei um pequeno beliscão pra ver se não estava sonhando. O beliscão foi algo meio instintivo e ri quando me vi fazendo tal bobeira. Meu maior receio era de sentir dores, de travar a perna e não conseguir terminar a trilha. Preocupava-me o peso da mochila nas costas, não sabia como minhas hérnias de disco iriam reagir a tal peso. Mas independente de tudo, eu daria o meu melhor, ia me esforçar e tentar provar a mim mesmo que estava curado de todos meus males. Pretendia percorrer toda a Trilha Inca e chegar em Machu Picchu, onde deixaria para trás todos os meus problemas, as coisas ruins e as pessoas que me fizeram ficar mal. Para muitas pessoas a Trilha Inca e principalmente Machu Picchu tem um forte valor espiritual, algo místico. Já li e ouvi relatos de pessoas que tiveram nesses locais experiências diversas, que encontraram ao percorrer a Trilha Inca a verdadeira razão de suas vidas, saíram dali mudadas, deram novos rumos ás suas vidas. Eu não sou nada místico, apenas sou uma pessoa que acredita muito em Deus e tem muita fé. E sou muito cético em relação ás coisas, por isso não sabia o que podia acontecer comigo após percorrer a Trilha Inca. Mas por via das dúvidas fiz algo que me ensinaram, peguei duas pedras e coloquei no bolso. Durante os dias na trilha fui conversando com essas pedras, contando a elas sobre minha vida, meus problemas, meus medos, meus sonhos e tudo o que gostaria de mudar em minha vida, ás coisas e pessoas que gostaria de afastar de vez de minha vida, tudo o que eu queria deixar para trás após sair da Trilha Inca. Deixaria uma dessas pedras pelo caminho e a outra em Machu Picchu. O primeiro trecho da Trilha Inca foi difícil, era uma subida e como ainda não estávamos adaptados a caminhar na altitude com o ar rarefeito, foi meio cansativo esse início. Para compensar o cansaço tínhamos a paisagem, que para todos os lados que olhávamos era maravilhosa. Seguimos costeando uma montanha e abaixo de nós seguia o rio Urubamba. Do outro lado do rio mais montanhas e um vale que seguia junto ao rio, tudo muito bonito. No início estranhei ás muitas paradas para descanso, mas logo entendi que o motivo era para o pessoal não se cansar muito, ir se adaptando aos poucos. Comecei caminhando sozinho e depois de pedir para uma argentina tirar uma foto minha, iniciamos uma animada conversa e caminhamos um bom tempo juntos. O nome da argentina era Carolina e acabamos nos tornando bons amigos nos dias seguintes. Meu espanhol estava meio enferrujado, mas foi possível conversar sobre diversos assuntos, ela falando em espanhol e eu misturando espanhol com portunhol. Para quem fala espanhol é um pouco difícil entender o português. Já pra nós brasileiros é mais fácil entender o espanhol e falando em portunhol acabamos nos fazendo entender melhor. Nos dias seguintes alguns argentinos elogiaram meu espanhol. Fiquei na dúvida se estavam sendo sinceros ou caçoando de mim. Como eu era o único que falava português no grupo, tive que me virar no espanhol e a prática acabou ajudando e logo estava me expressando bem em espanhol, me fazendo entender pelos demais. Com minha amiga Carolina caminhei boa parte da tarde e em alguns trechos a esperei, pois ela se cansava facilmente, ficava com falta de ar. Eu não queria forçar muito meu ritmo nesse primeiro dia, queria me poupar para o dia seguinte, que seria o mais difícil de todos. A trilha sempre subia e em alguns trechos era plana. No início víamos algumas casas simples ao lado da trilha e por nós passava vez ou outra algum morador. Comentei com a Carolina sobre ás crianças que vimos pelo caminho, que possivelmente passariam a vida toda naquele lugar, nem sabiam muito sobre o mundo, sobre nossa maneira de viver, nossos valores. Então chegamos á conclusão que não devíamos sentir pena delas por isso, pois possivelmente seriam mais felizes do que nós, não conhecendo muitas das coisas ruins que conhecemos, como violência, estresse, depressão, trânsito ruim e outros males das grandes cidades onde vivemos. Aquelas crianças iam crescer e viver num lugar bonito, com ar puro, no meio da natureza, sem muitas das comodidades que a vida moderna nos oferece, mas também sem muitos dos problemas que essa mesma vida moderna nos trás. No meio da tarde fizemos uma parada mais longa, para o almoço. Eu que sou chato para comida, estava meio temeroso com relação ao que iria encontrar pela frente nas refeições. E fui preparado para o pior. Seguiria a risca o conselho que me foi dado de não visitar nunca a barraca onde eram feitas as refeições. A mesa do almoço foi montada dentro de uma barraca grande e todos os 29 membros do grupo se espremeram dentro dela, sentados em pequenos bancos. Eu preferi ficar numa das pontas. Primeiro foi servida uma sopa de repolho. Os guias traziam os pratos da cozinha e entregavam para quem estava numa das pontas da mesa e esse passava o prato para quem estava ao seu lado, que passava para o outro ao seu lado e assim sucessivamente até chegar ao último da mesa. Logo percebi que tal sistema era prático, mas não muito higiênico, pois muita gente pegava na borda do prato com ás mãos sujas e fatalmente alguma, ou várias bactérias iam parar no alimento. Mas como quem está na chuva é pra se molhar, o jeito era não se preocupar muito com ás coisas e aprender a conviver com ás mínimas condições de conforto e higiene. Se eu quisesse conforto e higiene total, não estaria ali, mas sim em algum outro lugar que me oferecesse tais coisas. Então o jeito era abstrair e levar tudo numa boa. Até me lembrei dos tempos de Exército e das comidas ruins e estragadas que tantas vezes comi. E não morri por isso, até saí de lá mais forte e gordinho. A sopa de repolho não era lá muito saborosa, mas deu pra engolir. Depois veio o prato principal, macarrão, fiapos de omelete e batata. A quantidade de comida nos pratos não era muita, mas ninguém reclamou. Achei que um dos motivos era porque comer muito em alta altitude dificulta a digestão e causa mal estar. Depois um dos guias falou que era esse mesmo o motivo de a comida não ser tão farta. De qualquer forma acho que ninguém passou fome. Na mesa era comum um doar aos que comiam mais, parte da comida que não gostavam ou que não conseguiam comer. Após o almoço foi servido chá de coca bem quente, pra ajudar na digestão e para dar uma força extra para o pessoal. O chá de coca não vicia, não é alucinógeno e não faz mal. Ele apenas ajuda a combater o mal estar causado pelo ar rarefeito. O sabor do chá não agradava muito meu paladar, mas mesmo assim eu tomava sempre e sem açúcar. Também foram distribuídas folhas de coca e guardei algumas no bolso para mascar em momentos que me sentisse muito cansado. A folha de coca, a exemplo do chá também não vicia ou tem efeito alucinógeno. Ela ajuda no combate ao mal estar e da uma força extra. Tanto a folha de coca quanto o chá, são consumidos naquela região a centenas de anos e não causam mal algum. Após o almoço tivemos uma hora de descanso e então voltamos a caminhar pela trilha. Antes de nós partiram os “porteadores”, carregadores que levam nas costas os equipamentos para acampamento e a comida a ser consumida nos três dias de trilha. Pela lei não podem carregar mais de 25 kg cada um, mas mesmo assim o peso que levam requer muito esforço numa altitude tão alta. De qualquer forma é assim que ganham a vida e sustentam suas famílias. Continuei caminhando ao lado da Carolina e muitas vezes parei para tirar fotos da bela paisagem. Teve um trecho curto de subida que foi muito difícil e o ar faltou muitas vezes. O guia falou que aquele trecho era apenas uma pequena amostra do que nos esperava no dia seguinte. Fizemos mais algumas paradas rápidas para descanso e após chegarmos a um local plano no alto de uma montanha, um dos guias falou que teríamos uma surpresa. Dividiram o grupo em dois e cada pequeno grupo seguiu um dos guias. Meu grupo foi até um canto da montanha e lá do alto avistamos embaixo no vale uma antiga vila inca, chamada Llactapata. Essa vila inca com terraços cultiváveis, era um local para cerimoniais e por volta de 1536 foi queimada pelos incas, para evitar que fosse tomada pelos espanhóis. A vista da vila era maravilhosa e sentamos para ouvir o guia Juan Carlos, contar a história do lugar. Eu não consegui ficar sentado muito tempo e ao mesmo tempo que ouvia suas explicações, aproveitava para tirar fotos e caminhar por perto do grupo. Após uma hora prosseguimos em nossa caminhada e passamos ao lado de um antigo forte inca, mas não pudemos parar para visitá-lo. Após tantas subidas, finalmente começamos a descer um pouco. Seguimos em direção a um vale cercado de montanhas por ambos os lados e ao lado da trilha tinha um rio de águas cristalinas. Caminhamos até o final da tarde e pouco antes de escurecer chegamos a Wayllabamba, a última comunidade existente na Trilha Inca e onde já estava armado nosso acampamento. Esse local ficava no fundo de um vale a 3.000 metros de altitude. Na hora de dividir o grupo nas barracas, os dois casais ficaram sozinhos em barracas e o restante do pessoal deveria ficar três em cada barraca. Daí um argentino (Diego) me perguntou se eu gostaria de dividir uma barraca com ele. Falei que sim e por sermos os dois “grandes” o guia autorizou que ficássemos somente em dois numa barraca. Arrumei minhas coisas no lado direito da barraca e fui tomar meu banho de gato. Molhei uma pequena toalha, passei pelo corpo e depois fiz o mesmo com lencinhos umedecidos e perfumados. Coloquei uma camiseta limpa e me senti revigorado, limpinho e cheiroso. As meias, a calça e a cueca permaneceram sendo ás mesmas. Já meu companheiro de barraca apenas trocou a camiseta e o cheiro de suor e chulé vindos do lado dele da barraca não eram nada agradáveis. Arrumei meu saco de dormir, enchi meu travesseiro inflável e tive a grande idéia do dia; coloquei o casaco que comprei no dia anterior em Cuzco e que era grosso e macio, debaixo do saco de dormir na região onde ficaria minhas costas. Testei minha “cama” e aprovei o uso do casaco como colchão por baixo do saco de dormir, pois ficou muito macio. Senti muita falta do colchão de ar que costumo usar para dormir quando vou acampar ou fazer caminhadas. Ele pesa dois quilos e meio quando está vazio, o que tornou inviável levá-lo para a Trilha Inca. Descansei um pouco, comi uns chocolates e fui jantar. O esquema era o mesmo do almoço e de entrada foi servida uma sopa de legumes, com poucos legumes e muita água. Depois teve o prato principal que consistia de arroz, legumes e truta. Não como peixe e doei meu pedaço de truta a um argentino (Jesus) que estava sentado ao meu lado. Nos dias seguintes acabamos ficando bons amigos. Após a janta teve de sobremesa um negócio vermelho feito com milho, que parecia gelatina mole, mas que estava gostoso. Por último foi servido um chá diferente cujo nome não lembro. A temperatura baixou bastante e antes das nove todos se recolheram para suas barracas. Lembrei que era noite de lua cheia e resolvi esperar um pouco pra ver a lua surgir por cima das montanhas. A espera valeu a pena e pouco após ás nove horas a lua deu ás caras. Ela estava muito brilhante e clareou todo o vale onde estávamos e deixou melhor definido o perfil das montanhas em volta. Foi uma das noites de lua cheia mais bonitas que vi na vida. Fui o único que ficou no frio presenciando tal espetáculo da natureza, ninguém mais viu. Pena que é impossível captar tamanha beleza através de uma fotografia ou gravação. Foi o tipo de experiência que ficará gravada na memória para sempre. Pouco antes das dez entrei na barraca e a temperatura despencava. Diego roncava alto no seu lado da barraca. Entrei no saco de dormir e fiquei um tempo pensando na vida, depois adormeci. Acordei três vezes durante a noite, por culpa da inclinação do local onde a barraca foi armada. Durante o sono eu ia escorregando aos poucos e tinha que vez ou outra levantar e puxar o saco de dormir de volta para a parte mais alta da barraca. Fora esse imprevisto a noite foi muito boa, dormi bem e até sonhei. E melhor não contar o sonho aqui… rs!!! Ps1: antes de iniciarmos a trilha foi feita uma apresentação, onde falamos nossos nomes e idades. Eu, com 40 anos era o mais velho do grupo. A maioria do pessoal estava na faixa etária entre 20 e 28 anos. Ps2: durante todo o primeiro dia de trilha me chamaram de “brasileiro”. A única exceção foi minha amiga Carolina que me chamava de Vander ou Vanderlei e também sua amiga Roxana, que me chamava de Vander ou Bander. Um dos guias me chamava de “Brasil”. Trilha Inca (2º dia) Acordamos ás 05h00min, fazia muito frio e o tempo estava bem nublado. Arrumei minhas coisas, guardei tudo na mochila e fui escovar os dentes e usar o banheiro. Estávamos usando o banheiro de uma moradora local e a higiene do mesmo não era das melhores. Tudo bem, no meio do mato não dava pra esperar grande coisa. O mais chato era ficar na fila do banheiro. Nessa manhã fiquei atrás de cinco argentinas, todas descabeladas, com cara de sono e com um rolo de papel higiênico na mão. Era uma cena engraçada, que achei melhor não fotografar, pois elas podiam não gostar. Após utilizar o banheiro fui direto para a barraca das refeições. Não costumo tomar café da manhã, pois não sinto fome antes do meio dia, mas como seria o dia mais puxado na trilha achei melhor comer um pouco. O cardápio foi bom, com direito a um tipo de pão tostado e panquecas. Pra beber café, leite solúvel e chá de coca. Optei pelo chá de coca que no caso era de saquinhos, igual ao chá mate que compramos no supermercado. Descobri outra forma de fazer o chá de coca, que é através de infusão, ou seja, colocar folhas de coca na água quente. Acabei inventado uma nova maneira de fazer o meu chá, colocava um saquinho de chá no caneco com água quente e adicionava algumas folhas de coca também. Ficava bem forte, mas dava pra beber. Junto com o chá de coca tomei uma Sorojchi Pills, para o mal de altitude, um relaxante muscular para aliviar possíveis dores e um Centrun, complexo de vitaminas. Ou seja, estava “turbinado” e pronto pra encarar a difícil subida do vale. Pouco antes das 07h00min os guias reuniram o grupo, deram alguns avisos e começamos a caminhada. Fazia frio e optei por utilizar somente um casaco leve, pois conforme fosse caminhando sabia que sentiria calor. Passamos pelas últimas casas existentes na trilha, onde alguns moradores vendem água, Gatorade e refrigerantes. Algumas pessoas do meu grupo aproveitaram para comprar água e pagaram um preço absurdo, mas justificável, pois dá o maior trabalho levar mercadorias até aquele local e o transporte é feito nas costas ou em lombo de mula. Eu tinha levado um bom estoque de água, para dois dias e um Gatorade para ser usado nesse trecho da trilha. Para o último dia tinha levado uma cartela de pastilhas antibactericida, para colocar na água que encontrasse pelo caminho, fosse em bicas ou rios. O bom da história era que conforme eu caminhava e consumia minha água, o peso da mochila ia diminuindo. Pelos meus cálculos eu chegaria no alto do vale com uns dois quilos a menos de peso nas costas, que seria o peso da água que eu consumiria para percorrer o trecho mais difícil. O trecho era todo de subida e até o corpo aquecer por completo fica complicado caminhar, sem contar que o ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Fizemos algumas curtas paradas pelo caminho e numa delas um cachorro enorme e com cara de poucos amigos veio em minha direção quando eu estava sentado numa pedra e colocou a cabeça na minha coxa, pedindo carinho. Primeiro levei um susto, mas logo estava acariciando a cabeça do cachorro. Continuamos nossa caminhada, sempre subindo. Então fizemos uma parada num posto de controle do governo, onde os guias reuniram todos do nosso grupo e deram mais avisos. A partir dali não precisávamos mais seguir em grupo, cada um poderia seguir no seu ritmo. Informaram que teríamos que parar num local chamado Paqaymayu, onde estariam montados os acampamentos de todas as equipes que estavam na trilha naquele dia. Conforme fôssemos chegando no local deveríamos procurar nosso acampamento, que era o de número nove. Outro aviso do guia foi que ao chegarmos no alto da passo (First Pass) a 4.215 metros, o ponto mais alto da Trilha Inca, não deveríamos ficar mais de 15 minutos lá, pois começaríamos a sentir fortes dores de cabeça em razão da escassez de ar. Ao passar por mim o guia olhou nos meus olhos e disse que somente os fortes chegariam ao alto do passo naquele dia. Quando voltamos a caminhar resolvi seguir sozinho e no ritmo que aguentasse, queria me testar e ver até onde suportaria. Não foi nada fácil, mas conforme ia caminhando e o corpo aquecendo eu me sentia mais disposto a caminhar. Pelo caminho ia ultrapassando pessoas de outros grupos que estavam na trilha e que eu ainda não tinha visto. Eram muitos estrangeiros, se falava muitos idiomas numa verdadeira Babel. Logo comecei a andar junto com dois argentinos do meu grupo e conversamos um pouco. E quando souberam que eu tinha 40 anos e duas hérnias de disco, ficaram impressionados com minha disposição em caminhar. Pelo caminho existiam alguns pontos de parada para descanso e quando passava por esses locais via muita gente deitada, descansando. Então percebi que meu grupo tinha pernoitado num dos últimos acampamentos da trilha e que também tinha sido um dos últimos a iniciar a caminhada naquela manhã. Evitei fazer paradas longas e principalmente me sentar. Fiz uma única parada de dez minutos, onde aproveitei para tirar a mochila das costas e me sentar por alguns instantes. Logo voltei a caminhar e a trilha ia ficando cada vez mais inclinada e dessa vez era toda calçada em pedras e com muitos degraus. O que me ajudou bastante foi o bastão que estava levando, pois além de dar melhor equilíbrio, na hora de subir os degraus ele funcionava como uma terceira perna e preservava um pouco os joelhos, que estavam sendo muito exigidos nesse trecho da trilha. Logo chegamos numa região de mata fechada e a trilha ia fazendo círculos. Ali parei de andar com os argentinos e fiz uma pequena parada. Sentia-me muito tonto e com falta de ar, a vista ficou turva e achei que fosse desmaiar. Nesse momento baixei a cabeça e fiz uma oração, não queria de maneira alguma desistir, queria chegar até o fim, precisava chegar até o fim. Respirei fundo, reuni todas minhas forças e logo me senti melhor para continuar caminhando. Saímos da região de floresta fechada onde estávamos e chegamos a um local aberto. A trilha seguia pela esquerda, circundando uma montanha enorme. Do lado direito um vale aparecia bem lá embaixo e vi uma pequena casinha coberta de palha e ao lado um pasto com Lhamas pastando. Foi interessante vislumbrar tal cena, pois nunca tinha visto Lhamas pastando. Atrás era possível ver as mesmas montanhas que víamos desde o início da trilha. Mesmo elas ficando cada vez mais distantes conforme caminhávamos parecia que ficavam maiores. É que íamos subindo e dessa forma elas ficavam mais visíveis e pareciam ser maiores. Sei lá, acho que é esse o motivo ou então eu estava muito tonto e vendo coisas… rs. Olhar para cima era desanimador, pois não dava pra ver o final da montanha, o ponto mais alto da trilha. Reuni minhas forças e continuei subindo. Por mim passaram muitos porteadores carregados de coisas e vi muitos outros parados, sentados ao lado da trilha. Ali dava pra ver mais claramente a quantidade de pessoas que estavam na trilha naquele dia e o grande número de porteadores dos vários grupos. Eu sabia que no máximo podem entrar na Trilha Inca 500 pessoas por dia, quantidade que é muito bem controlada pelo governo peruano visando a segurança de todos e também a preservação da trilha. O sol começou a castigar e minha camisa estava empapada de suor. Abri meu Gatorade, bebi a metade e segui em frente. Fazia breves paradas de não mais que um minuto e continuava a andar. O ar cada vez faltava mais e dar um novo passo era um esforço tremendo. Se eu que estava bem preparado fisicamente estava sentindo tanta dificuldade para subir em direção ao passo, fiquei imaginando meus amigos do grupo. Será que alguém iria desistir? A mochila parecia ficar cada vez mais pesada, mas em nenhum momento a tirei das costas. As tiras começaram a doer no ombro e preferi deixar como estavam, pois sabia por experiência que após um tempo o ombro fica adormecido e não se sente mais dor, então era melhor não tirar a mochila. Não sei precisar quanto tempo levei para subir esse trecho rumo ao passo, que é o mais difícil da Trilha Inca. Estava com relógio, mas a mente ficava meio atrapalhada e não consigo me lembrar quanto tempo levei caminhando nesse trecho. Fiz algumas paradas rápidas para tirar fotos e numa delas uma alemã que passava por mim pediu para tirar uma foto dela e depois ela tirou uma foto minha. Uns minutos depois ultrapassei essa alemã, que estava sentada na beira da trilha e pelo visto não sairia dali tão cedo. Sei que em certo momento olhei pra cima e consegui visualizar o alto do passo e vi algumas pessoas sentadas lá em cima. Essa visão me deu uma força extra e segui ainda com mais vontade de chegar. Parecia que eu ia conseguir chegar até lá em cima e venceria o maior desafio da Trilha Inca, algo que em alguns momentos cheguei a duvidar de que seria capaz de conseguir. Quando pisei no alto do First Pass, me invadiu uma sensação que não é possível descrever, uma sensação de missão cumprida, de superação. Deixei minha mochila no chão e fui até a borda da montanha e fiquei olhando a paisagem. A beleza era grande, uma das cenas mais belas que vi na vida. Dali também dava pra ter uma visão ampla da Trilha Inca morro abaixo, o trecho por onde eu tinha passado. Dava pra ver dezenas de pessoas subindo aquele trecho, alguns perto do fim e muitos lá embaixo, a mais de uma hora de caminhada de onde eu estava. O sol e o calor que me torturaram na última hora desapareceram e uma nevoa tomou conta do lugar, a temperatura baixou muitos graus em poucos minutos. Vi um pouco acima um marco de madeira e fui até lá tirar fotos. No marco estava escrito a altitude de 4.215 metros, o ponto mais alto da Trilha Inca e também a altitude mais alta onde já cheguei com minhas próprias pernas. Um pouco mais acima visualizei uma pedra enorme. Resolvi subir nessa pedra, um último esforço para atingir o lugar mais alto do First Pass. Lá em cima encontrei centenas de pequenas pedras amontoadas umas sobre as outras. Entendi que ali deveria deixar uma das pedras que trazia no bolso e para a qual tinha contado todos meus dramas, meus problemas, meus sonhos. Esse tipo de amontoado de pedras é uma antiga tradição inca. Os incas costumavam fazer isso em lugares altos ao lado do caminho por onde passavam e acreditavam que quando deixavam folhas de coca mastigadas sobre esses pequenos amontoados de pedra, também deixavam ali o cansaço do caminho e outros males. Segurei firme uma das pedras que tirei do bolso, fiz uma oração e coloquei a pedra em cima de um dos muitos amontoados de pedras ao meu redor. Acreditei de coração no que pedi e no que estava fazendo. O resultado… só o tempo dirá! Fiquei mais algum tempo em cima da rocha olhando para baixo, vendo ás pessoas que chegavam ao alto do passo. Vi alguns conhecidos chegando e fiquei feliz por eles. Então resolvi gravar na máquina fotográfica uma mensagem que acabou se transformando num desabafo. Lembrei de tudo que passei no último ano, de todas as dificuldades, das dores, do sofrimentos. Lembrei da família, dos amigos, de todos que me ajudaram e me deram forças para me curar e estar naquele momento ali, no alto do passo. Lembrei também daqueles que pisaram em mim, me magoaram, me fizeram mal. Na verdade mais do que a força dos amigos, a força que me levou até ali foi o mal que os outros me fizeram. Canalizei tudo o que me fizeram de mal, todas minhas dores e transformei isso em combustível pra me levar até ali. Agora me sinto curado, me sinto bem, me sinto feliz e mais forte do que nunca. Algo aconteceu comigo no alto daquela pedra, não sei explicar ao certo, mas tenho certeza de que lá em cima deixei muitos sentimentos ruins, muita mágoa e muitas pessoas que me fizeram mal nos últimos meses. Posso afirmar que desci daquela rocha mais leve de espírito e livre do passado. Fiquei meia hora no alto do passo tirando fotos, descansando e conversando com algumas pessoas que chegavam. Tinha um inglês do outro grupo que veio conosco, com quem conversei um pouco em inglês. Logo comecei a sentir uma dor estranha na cabeça como se ela estivesse sendo apertada por duas mãos. Então lembrei do que o guia falou sobre não ficar muito tempo lá em cima. Peguei minhas coisas e comecei a descer o First Pass pelo outro lado da montanha. A descida não tinha fim e logo descobri que descer era pior do que subir. Parte do preparo muscular que fiz para enfrentar a Trilha Inca foi visando subidas. Em nenhum momento me preparei para descidas. A maioria dos músculos das pernas que utilizamos pra subir são diferentes do que utilizamos para descer. Loco comecei a sentir fortes dores na parte da frente das coxas. Acredito que eu devia ser um dos poucos na trilha que estava infeliz com a descida. Eu preferia era subir mais e não descer. Outra dificuldade na descida é o peso da mochila nas costas, que te empurra pra baixo. Se não tomar cuidado você acaba caindo, podendo se machucar e dar adeus a trilha. Nessa hora o bastão ajudou ainda mais do que na subida. Ele servia como ponto de equilíbrio e logo eu estava conseguindo descer rápido sem o risco de cair. As dores nas coxas fui suportando. Após meia hora de descida o sol reapareceu e voltei a sentir muito calor. Fiz uma breve parada num local muito bonito, onde tirei o casaco, bebi bastante água e resolvi colocar na cabeça minha bandana com a bandeira do Brasil. Sendo o único brasileiro do meu grupo eu tinha que marcar isso de alguma forma. Continuei descendo a trilha que era toda de pedras, com centenas, milhares de degraus. Voltei a lembrar de tudo o que tinha passado recentemente, de meus problemas físicos e ás vezes não conseguia acreditar que estava ali realizando tal proeza de percorrer a lendária Trilha Inca. Comecei a ficar arrepiado e não demorou para eu chorar feito criança. Isso me fez bem, parece que eliminei de vez tudo o que ainda me incomodava. Coisas da Trilha Inca! Como eu disse em outra postagem, muitas pessoas que passam por esse lugar acabam tendo revelações, acabam se encontrando na vida. A Trilha Inca é meio mágica, mística, difícil de explicar. Para entender vá até lá e tire suas próprias conclusões. Eu ainda tinha lágrimas escorrendo pelo rosto quando uma moça ao passar por mim perguntou se eu era brasileiro. Eu estava tão acostumado a ouvir e falar somente espanhol nos últimos dias que respondi a ela que sim, em espanhol. Ela era brasileira, do litoral de São Paulo e seu nome era Marceli. Era a primeira pessoa do Brasil que eu encontrava na Trilha Inca e fiquei feliz com tal encontro. Disfarcei para enxugar ás lagrimas que restavam em meu rosto e iniciamos uma gostosa e animada conversa. O papo estava tão bom que nem senti mais a dificuldade da meia hora final de trilha até chegar ao acampamento. Na entrada do acampamento, que era enorme, com as diversas equipes espalhadas pelo lugar, tiramos uma foto, nos despedimos e nunca mais nos vimos. Logo encontrei meu acampamento, que era um dos últimos morro abaixo. Eram quase 14h00mim e descobri que tinha sido o sexto a chegar no acampamento e que a caminhada daquele dia estava encerrada, que passaríamos a tarde e a noite ali. Eu achava que teríamos que caminhar mais naquele dia e fiquei extremamente feliz com a notícia. Escolhi uma barraca vazia, arrumei minhas coisas e tomei meu banho de gato. Em comemoração por ter superado o pior trecho da trilha, troquei toda a roupa. Dessa vez coloquei camisa, calça, cueca e meias limpas. Voltou a fazer calor e então tirei as pernas da calça, que virou uma bermuda. Por último troquei a bota pelo velho e confortável chinelo Havaianas. Fiquei deitado por cerca de uma hora descansando, quando então vieram me chamar para o almoço. A maior parte de nosso grupo já tinha chegado. Na barraca do almoço senti falta de minhas amigas Carolina, Roxana e do Diego, meu parceiro de barraca. O almoço foi arroz, frango e legumes. Com a fome que estava a comida desceu muito bem. Então se iniciou na barraca uma conversa sobre as posições que cada um tinha chegado ao acampamento. Eu chegar em sexto acabou sendo considerado um grande feito, ainda mais porque no dia anterior eu sempre era um dos últimos na triha. É que ninguém sabia que eu estava me poupando. E confesso que também fiquei surpreso em ser um dos primeiros a chegar. E olha que demorei mais do que a maioria parado no alto do passo. Sei que daquele momento em diante passei a ser mais respeitado por todos e não me chamaram mais de brasileiro. Passaram a me chamar de Vander. Nos dias seguintes até pessoas com quem eu não havia conversando ainda, me chamavam pelo nome. Naquela tarde algumas pessoas vieram me perguntar se eu tinha feito algum treinamento especial para percorrer a trilha. Outros vieram perguntar se eu tinha mesmo 40 anos, ou então se era verdade que eu tinha duas hérnias de disco. Isso foi algo interessante e me mostrou que a idade não está no RG, mas sim na mente. Posso ser um quarentão, mas de mente e de espírito ainda sou muito jovem e muitas aventuras mais virão pela frente. O tempo mudou novamente, voltou a esfriar e fui para a barraca. Tentei dormir, mas não consegui, possivelmente em razão do chá e das folhas de coca que tinha consumido pela manhã. Então fiquei deitado descansando e pensando na vida. Aproveitei para examinar meus pés detalhadamente. Tenho as unhas dos dedões dos pés pretas, em razão de terem sido machucadas em caminhadas passadas. Para que esse problema não se agravasse na Trilha Inca, resolvi utilizar uma técnica que desenvolvi e que usei na última caminhada que fiz em dezembro, em Rosário do Ivaí. Coloquei algodão nos dedões e nos calcanhares, local onde sempre saem bolhas. E por cima do algodão enchi de micropóro. O resultado foi bom, pois não piorei o estado dos meus dedos e não ganhei nenhuma bolha em toda a Trilha Inca. Fazia quase duas horas e meia que eu tinha chegado, quando apareceu o Diego meu parceiro de barraca. Ele estava com uma cara de cansado e contou que na metade do caminho pagou para um porteador levar sua mochila. Esse estratagema é muito utilizado na trilha, o pessoal paga para alguém levar suas coisas. Depois chegam em suas casas contando aos amigos que percorreram a Trilha Inca, que são fodões, mas omitem essa questão da mochila ter sido carregada por outro. Para mim não importa o que os outros fazem ou deixam de fazer na trilha, o que importa é que carreguei minhas coisas o tempo todo. E não fui fazer a Trilha Inca para mostrar ou provar algo para alguém. Fui fazer a Trilha Inca porque eu queria, porque esse tipo de aventura me atraí e também porque eu precisava mostrar para mim mesmo que eu estava curado dos muitos problemas que tive em 2010, principalmente os físicos. Meu agora amigo Diego pediu emprestado meus lencinhos umidecidos para se limpar. Cedi os lenços a ele de bom grado. Ao menos nessa noite nossa barraca ficaria mais cheirosa e agradável. Ficar a toa na barraca estava sendo chato e resolvi dar uma saída. O tempo fechou de vez, ventava e fazia frio. Andei pelo acampamento, tirei algumas fotos, mas não encontrei ninguém para conversar. Estavam quase todos dentro de suas barracas descansando e fugindo do frio. Ao lado do acampamento corria um rio de águas cristalinas e fui até lá renovar meu estoque de água. Utilizei as pílulas antibacteria para garantir água pura. Depois fiquei na barraca de refeições com alguns argentinos que jogavam baralho. Eles também jogam “truco”, igual no Brasil. Como não gosto e não sei jogar “truco”, fiquei apenas os observando e papeando. No final da tarde o tempo fechou de vez e começou a garoar. Nós estávamos no fundo de um vale, com montanhas por todo lado, um lugar muito bonito. Ao redor muitas nuvens e neblina. Ás 17h00 teve café, onde serviram uns bolinhos muito bons. Descobri que existiam dois banheiros no acampamento, um mais acima e outro abaixo de onde foram montadas nossas barracas. O de baixo era mais próximo e quando escureceu se tornou uma aventura ir até o banheiro. Era escuro a beça, precisava levar lanterna e para chegar até ele precisávamos atravessar uma pequena ponte de madeira. A chuva começou forte e não parou mais, choveu a noite toda. Ás 19h00min teve janta, a comida estranha de sempre que não era ruim, mas também não era boa. Depois da janta serviram outros tipos de chá e não o de coca. Acho que queriam que o pessoal dormisse. Tomei um chá de aniz, de gosto duvidoso. Logo fui para a barraca e quando eram quase 20h00min me deitei. O chá de aniz somado ao esforço físico do dia e o barulho da chuva, deram um resultado magnífico. Dormi como um anjo até o dia seguinte. Só tive sonhos bons e nem me incomodei com os roncos do Diego. Trilha Inca (3º dia) Mais uma vez acordamos ás 05h00mim e ainda estava escuro e chovendo. Dormi nove horas direto, algo que não acontecia fazia vários dias. O Diego acordou reclamando da chuva que tinha molhado a barraca e algumas coisas dele. Fui conferir meu lado da barraca e minhas coisas, mas estava tudo seco. Demos uma olhada geral na barraca e dava pra ver nitidamente que metade da barraca estava molhada e a outra metade não. O Diego ficou olhando aquilo com cara de quem não acreditava e eu fiquei rindo. Entendi que em nossa barraca, que entre nós existia um equilíbrio entre sorte e azar e que todo o azar ia para o lado do Diego e toda a sorte para o meu lado. Coisas da Trilha Inca! Arrumei minhas coisas e fui sob chuva até o banheiro. O banheiro masculino tinha fila e o feminino estava vazio. Como estava apurado não pensei duas vezes e entrei no banheiro feminino. Logo escutei vozes femininas do lado de fora e me preparei para as reclamações quando fosse sair. E não deu outra, quando abri a porta me deparei com umas dez meninas que começaram a reclamar por eu estar usando o banheiro feminino. Respondi que ele estava vazio quando cheguei e saí rindo, o que deixou a mulherada ainda mais brava e ouvi xingamentos em pelo menos quatro idiomas diferentes. Após o café os guias fizeram uma reunião e nos deram uma péssima notícia. O posto de controle do governo peruano que existe no acampamento onde estávamos, tinha sido informado via rádio que em razão da chuva das últimas horas ocorreram deslizamentos na parte final da Trilha Inca, que vai do último acampamento até a entrada de Machu Picchu. Então por razões de segurança a parte final da trilha foi fechada e ficaria assim até meados ou final de março. Em fevereiro a Trilha Inca é fechada para manutenção e por ser época de chuvas, então somente em fevereiro é que tentariam resolver o problema dos desmoronamentos. Foi uma frustração geral em todos de nosso grupo. Tínhamos sofrido tanto, íamos penar mais um dia caminhando pela trilha e perderíamos justamente a melhor parte que era chegar caminhando em Machu Picchu. A alternativa seria desviarmos nossa rota no final do último dia, pernoitar no alto da montanha e de madrugada descer a montanha. Atravessaríamos uma pequena ponte sobre o rio Urubamba e caminharíamos um bom tempo ao lado dos trilhos do trem até chegar à pequena cidade de Aguas Calientes. Lá pegaríamos um dos muitos ônibus que seguem até a entrada de Machu Picchu e que partem a cada 15 minutos. Tudo o que eu nunca desejei foi chegar a Machu Picchu de ônibus, mas não teria outra alternativa. Após assimilar o golpe e a decepção, passei a olhar a situação por outro lado. Eu sabia que janeiro é época de chuvas e aceitei o risco de ir para a Trilha Inca nessa época. Pegamos dois dias de sol na trilha, então não dava pra reclamar da sorte. E entendi o fato de não poder chegar até Machu Picchu caminhando, como um sinal de que devo voltar para o Peru outra vez e fazer a Salcantay, uma outra trilha que leva até Machu Picchu e que é mais longa e mais difícil de percorrer. Acho que estou começando a ficar místico e comecei a sentir certas coisas, receber sinais… sei lá! De qualquer forma eu não ia ficar abatido, pois percorreria 90% da Trilha Inca e isso era bem melhor do que nada. Pouco antes da 07h00mim iniciamos a caminhada pela trilha. Não seria um dia tão difícil como o anterior, mas sob chuva as coisas complicavam um pouco. Sendo o terceiro dia o corpo estava mais adaptado com o ritmo da caminhada e com a altitude. A única coisa chata foi ter que usar capa de chuva, o que limita um pouco os movimentos e esquenta o corpo mais que o normal. Após uns minutos tirei o capuz da capa da chuva, pois com ele minha visão periférica ficava limitada e isso não estava me agradando. Preferi molhar a cabeça na chuva, era bem melhor. De cara já pegamos uma forte subida e com as pedras da trilha molhadas pela chuva, o cuidado para não cair tinha que ser dobrado e em alguns trechos em que caminhávamos ao lado do abismo esse cuidado era triplicado. Para mim sempre o início da caminhada é mais difícil, meu corpo demora para aquecer e pegar ritmo. Após não muito tempo de caminhada chegamos até uma antiga ruína inca chamada Runkuraqay. Estávamos a 3.800 metros e com muita chuva. A ruína ficava ao lado da trilha, mais ou menos na metade de uma montanha. De onde estávamos à vista era bonita, dava pra ver bem no fundo de um vale o acampamento onde tínhamos passado à noite. Ainda eram visíveis algumas barracas montadas, de outros grupos. Observando a geografia em volta, a impressão que dá é que somente pela trilha seria possível transpor as montanhas do lugar, cheia de precipícios e de encostas escarpadas. Runkuraqay foi construída em forma de circulo, dentro de um semicírculo e com apenas uma entrada. Acredita-se que foi construída para ser um posto de vigilância e também de parada para descanso ou de troca, para os mensageiros que seguiam a pé rumo Machu Picchu. Fizemos uma longa parada no local e os guias separaram o grupo para poderem contar mais tranquilamente à história (ou provável história) do lugar. Os incas foram gênios em sua época, mas não tinham uma escrita que possibilitasse que sua história chegasse até os dias de hoje. Então muito do que se fala sobre os incas são suposições e até mesmo os nomes dos locais são outros, já que não se sabe ao certo os verdadeiros nomes. Mesmo adorando historia e sendo formado em história, eu não conseguia ficar muito tempo parado ouvindo o que os guias contavam. Eu preferia andar pelo lugar, tirar fotos, tocar nas rochas, ficar imaginando quem passou por ali, como era aquele local há centenas de anos. Cada um tem um jeito de curtir lugares históricos, o meu jeito é esse. A chuva parou um pouco, mas logo que reiniciamos a subida da montanha ela voltou forte. A trilha era difícil e fui apertando o passo e tomando cuidado para não cair. Com a chuva e a neblina nosso raio de visão ficou limitado a não mais que 400 metros. Então não era possível admirar a vista estupenda que poderíamos ter lá de cima. Esse problema se estendeu por quase todo o dia e sei que acabei deixando de ver muitas paisagens maravilhosas pelo caminho por culpa da chuva e da neblina quase constantes. Após pouco mais de uma hora de difícil subida chegamos ao alto da montanha, um local conhecido por Second Pass (Segundo Passo) e que fica a 3.900 metros de altitude. Nesse local também existiam rochas mais altas ao lado da trilha e em cima delas amontoados de pequenas pedras. Acabei encontrando quatro brasileiros; um casal de Belo Horizonte, uma garota de São Paulo e outra de Santos. Eles estavam num pequeno grupo, junto com alguns chilenos. Conversamos um pouco trocando experiências sobre os últimos dias. Não demorou muito e meu grupo partiu e eu junto. Dessa vez tinham algumas pequenas descidas intercaladas a pequenas subidas. Logo no início passamos por um local onde existia dois lagos muito bonitos logo abaixo da trilha, mas a neblina não permitiu bater boas fotos dos lagos. Depois de uma hora e meia de caminhada chegamos à outra ruína inca. Deixamos nossas mochilas num canto da trilha e um guia ficou tomando conta delas. Subimos por uma escadaria estreita que foi construída de forma estratégica no bico de uma montanha e entramos em Sayaqmarka, uma enorme ruína e a que mais gostei de todas que visitei. O nome do local no idioma quéchua significa “Cidade Inacessível”. As ruínas são enormes e muito bem preservadas e estão em vários níveis ligados por escadas. Existem inúmeros aposentos, canais e pátios. Segundo nosso guia contou, o lugar foi um pequeno centro religioso para aldeias periféricas. Logo que chegamos ao lugar a chuva e a neblina foram embora e o sol surgiu forte. Mais uma vez o grupo foi dividido pelos guias para as devidas explicações sobre o lugar. Depois tivemos meia hora para explorar o local. Preferi caminhar sozinho, observando os detalhes e acabei indo parar num pátio externo onde existia um muro bem ao lado do abismo. Tirei fotos e continuei explorando o lugar. Bem mais abaixo em frente da montanha onde estava visualizei outra construção inca de menor tamanho e vi que a trilha passava bem ao lado. Logo o tempo fechou novamente e começou a chover. Descemos de volta para a trilha e seguimos nosso caminho mais uma vez debaixo de chuva. Quando passei pela construção inca que tinha visto lá do alto em Sayaqmarka, chovia tanto que nem tive vontade de parar. Continuei caminhando e logo cheguei ao local do almoço. Nossos porteadores já tinham chegado ao lugar muito antes e montado a barraca da cozinha e a barraca para o almoço. Ao lado de onde foram montadas as barracas existia uma construção com banheiros masculino e feminino e cuja higiene também não era boa. A chuva aumentou e deixamos as mochilas do lado de fora, uma sobre as outras debaixo de uma pequena lona. Tivemos que nos espremer dentro da barraca das refeições, pois chovia muito e não dava pra deixar as entradas abertas como sempre fazíamos e que era algo que deixava a barraca mais espaçosa. Comi três coisas no almoço que até agora não tenho a mínima idéia do que eram. Tinha um negócio que a princípio pensei ser um bolinho e que ao morder descobri ser uma mistura de batata com mandioca, de sabor estranho. Após o almoço não nos demoramos muito e fomos nos preparar para seguir a caminhada. O sol apareceu novamente, ardido e forte. Mas não durou nem 5 minutos e voltou a chover. Estávamos entrando numa região de floresta tropical e o clima ficou ainda mais estranho. O trecho que fizemos à tarde é considerado o mais bonito da Trilha Inca, mas não deu pra ver muita coisa pois a chuva e a neblina nos acompanharam durante toda a tarde. O sol deu as caras raríssimas vezes e por poucos minutos somente. Já a neblina não foi embora nem mesmo quando o sol aparecia. Foi uma caminhada relativamente tranqüila, principalmente se comparada a dificuldade do dia anterior. A trilha em sua maior parte seguia por um terreno mais plano e praticamente todo o percurso seguia pelo topo de uma cadeia de montanhas. A vegetação ia ficando cada vez mais densa e bonita. Passamos por um túnel inca feito no meio da rocha, ao lado de um precipício. Era uma obra de engenharia impressionante, principalmente se levarmos em consideração a época em que foi construído e as ferramentas que os incas possuíam. Pouco após deixar o túnel passei por uma situação complicada. Comecei a sentir fortes dores na barriga e uma vontade imediata de ir ao banheiro. Mas estávamos numa trilha estreita onde do lado direito existia um paredão de rocha de centenas de metros de altura e do lado esquerdo um precipício sem fim. A frente e atrás caminhavam várias pessoas, muitas sendo mulheres. Então onde é que eu ia resolver meu problema? Onde achar um banheiro ou uma moita num lugar daqueles? Fiquei muito preocupado, me segurei o que pude e já estava começando a ficar desesperado. E pra piorar a chuva aumentando. Caminhei uns 15 minutos na maior tortura e tentando encontrar uma saída para tal situação, até que finalmente numa curva da trilha avistei uma pedra enorme e atrás dela um pequeno carreiro. Fui investigar o lugar e pelas marcas vi que alguém já tinha usado tal lugar pelas mesmas razões que eu. Não pensei duas vezes e entrei no carreiro. Quando dei o segundo passo escorreguei no capim molhado e no barro e saí deslizando morro abaixo. Consegui parar uns três metros depois, me segurando em alguns galhos e no capim alto. Quando olhei e vi que mais um metro pra baixo de onde estava era o precipício, gelei! Mas na situação em que estava não dava pra gelar por muito tempo, pois tinha algo mais imediato para fazer. Analisei a situação e rapidamente decidi como resolver meu problema. Prefiro não entrar em detalhes para preservar a mim e a você caro leitor. Sei que devo ter feito o “serviço” numa das posições mais estranhas da história. E qualquer descuido eu ia parar morro abaixo. A situação era pra chorar, mas eu morria de rir e lembrei de meu irmão que adora parar em moitas na beira da estrada. Depois da emergência resolvida tive que pensar em como sair dali sem correr o risco de escorregar e ir parar no abismo. Lembrei de uma queda que tive ao descer o Pico do Marumbi uns anos antes e que foi bem parecida com essa. Então usei da mesma estratégia da outra vez para rastejar morro acima e com cuidado consegui chegar de volta a trilha. Eu estava com lama da cabeça aos pés, mas ao menos tinha resolvido o problema emergencial. Voltei a caminhar e só então me dei conta do risco que corri. Mais um metro deslizando e eu teria caído num precipício enorme e como ninguém tinha me visto entrar ali, se eu tivesse caído morro abaixo nunca iam saber onde fui parar, como desapareci. Ninguém mais ia saber de mim, nem mesmo minha família. Eu seria declarado desaparecido nas montanhas peruanas. Faltou muito pouco pra isso acontecer, na verdade faltou um metro. Achei melhor não pensar mais nisso e seguir em frente, agora literalmente aliviado. Logo encontrei ao lado da trilha uma pequena mina de água e aproveitei para me lavar e tirar parte do barro das botas, da mochila e da roupa. No meio da tarde paramos em mais uma ruína inca, Phuyupatamarca. Essa ruína fica a 3.680 metros de altitude e segundo nosso guia ela servia ao culto e à morada de nobres e sacerdotes. Pela redondeza existiam também alguns núcleos religiosos de vilas campesinas, mas que por serem construídas com tijolos de adobe, se desmancharam pela ação do tempo. Em Phuyupatamarca foram catalogados três praças, seis banhos litúrgicos, canais de água, quinze quartos e um observatório. Mais uma vez nossos guias contaram a história do local e depois liberaram o grupo para que cada um seguisse no seu ritmo. Também informaram onde deveríamos sair da trilha e seguir rumo ao último acampamento, que seria ao lado de um tipo de bar, onde existia banho quente, cerveja e Coca-Cola. A chuva voltou mais uma vez e a neblina desceu de vez. Percebi que não daria pra ver muita coisa pelo caminho e nem tirar boas fotos, então resolvi seguir num ritmo forte pois a idéia de um banho quente e de uma Coca-Cola gelada era muito atraentes para mim naquela altura dos acontecimentos. O trecho era quase todo de descida e partes planas, com raras subidas. Então fui caminhando forte, o último grande teste para saber se minhas hérnias de disco estavam curadas. Pelo caminho fui passando por integrantes de meu grupo e do outro grupo co-irmão. Fiquei sentido pelo tempo estar ruim, pois sabia que estava perdendo paisagens lindas. Segui por cerca de uma hora e meia num ritmo forte e constante, parando poucas vezes para beber água e bater uma ou outra foto da trilha. Logo alcancei dois argentinos que sempre caminhavam na frente e o meu colega inglês do outro grupo. Então passamos a caminhar os quatro juntos e num ritmo ainda mais forte. Pouco depois chegamos a uma bifurcação na trilha, num local onde existe uma torre metálica de energia elétrica. Ali o guia tinha avisado que era para seguir pela trilha da direita e chegaríamos ao nosso acampamento. Seguindo a esquerda entraríamos no trecho bloqueado da Trilha Inca, que leva até as ruínas de Intipata e depois a Machu Picchu. Bem que deu vontade de seguir pela esquerda! Alguns metros após caminhar pela trilha da direita, surgiu a nossa frente uma vista de tirar o fôlego. Várias montanhas com os topos cercados por nuvens e abaixo delas no fundo de um vale corria o rio Urubamba. Parei uns instantes para admirar tal vista e voltei a caminhar, agora por uma descida íngreme e que seria a última do dia. Não demorou muito e ultrapassei um dos argentinos e logo encostei no outro. Ele não queria ficar pra trás e forçou tanto para se manter a minha frente que logo parou, com dor no joelho. Cheguei no acampamento junto com o inglês do outro grupo e fui o terceiro de meu grupo a chegar. Na minha frente chegaram dois argentinos, os mesmo que tinham sido os primeiros a chegar no dia anterior. Nossas barracas estavam armadas uma ao lado da outra na encosta do morro e logo em frente a elas tinha um enorme barranco. Se o cara não tomasse cuidado ao sair da barraca, corria o risco de ir parar morro abaixo. Em frente a mesma maravilhosa vista que eu tinha visto um pouco mais acima. Escolhi uma barraca, deixei minhas coisas e fui procurar o tal banho quente. No local ao lado do acampamento existe o Wiñaywayna Visitors Center, uma construção grande de alvenaria onde funciona uma lanchonete e existem mesas enormes. O que me chamou a atenção foram algumas placas avisando que aquela construção era segura em caso de terremotos. Ali também tem banheiros limpos, com chuveiro quente ao custo de cinco soles. Acabei sendo o primeiro a tomar banho e foi uma delícia após três dias de trilha poder tomar um banho de verdade. Depois do banho fui na lanchonete comprar uma Coca-Cola, que para minha decepção não é gelada. Aproveitei para repor meu estoque de chocolates e então fui para a barraca descansar. A chuva ficou mais forte e depois de uma hora o Diego chegou, mais uma vez sem mochila. Falei a ele sobre o banho quente mas ele não quis saber. E não foi por falta de dinheiro que ele não quis tomar banho, mas sim por não querer tomar banho. Então como último recurso ofereci a ele meus últimos lenços umedecidos e ele aceitou. Era melhor que meu companheiro de barraca tomasse um banho de gato do que nenhum banho. Após descansar um pouco fui no centro de visitantes. Lá fiquei conversando com o pessoal e depois me sentei do lado de fora, ao lado de uma espécie de mirante e fiquei olhando a vista dali. Era demais, algo muito bonito e uma paisagem que mudava a todo instante por culpa da mudança e da quantidade de nuvens e até de alguns raios de sol. Algo pra se lembrar para sempre. Foi nesse momento que tive o primeiro contato com o “cão inca”, história que contarei numa postagem especifica daqui uns dias. Logo serviram nosso café da tarde dentro do enorme refeitório e depois conversei mais um pouco e tirei fotos. Quando anoiteceu serviram o jantar, mas não comi nada. Os guias vieram perguntar o motivo de eu não querer comer e após contar sobre minha dor de barriga, me mandaram comer um pouquinho de macarrão, que logo depois me levariam um chá especial que curaria meu problema. Comi um pouco da macarronada que estava horrível e quando me entregaram uma caneca de chá tive que ser muito corajoso para beber. A cor e o cheiro não eram nada atrativos e o sabor muito menos. Achei melhor não perguntar do que era o tal chá, mas o resultado foi bom e quase imediato. Em seguida ao jantar todos fomos para o mirante do lado de fora, onde ocorreu a despedida dos porteadores. Todos do grupo se apresentaram aos porteadores e eles a nós, falando suas idades, estado civil e quantidade de filhos. Fiquei impressionado quando soube a idade de alguns. Tinha um de 40 que da pra dizer que é meu pai e outro de 21 que aparenta ter a minha idade. Todos levam uma vida sofrida e a idade pra eles pesa mais do que pra nós. Fizemos uma vaquinha que é tradicional na trilha e o que foi arrecado foi dado de presente aos porteadores. E não é que um dos porteadores vestia uma camisa do Palmeiras! Eu corinthiano que sou nem dei muita bola pra ele. Já para um outro porteador que vestia uma camisa da seleção brasileira, fiz questão de dar um abraço e tirar uma foto com ele. Pena que as fotos desse evento não ficaram boas, pois estávamos no meio da neblina. Acabei encontrando os quatro brasileiros com quem conversei pela manhã na trilha. Reunimos-nos numa mesa e ficamos um bom tempo conversando e bebendo Cuzqueña e Coca-Cola. Aquele local parecia uns daqueles bares de fim de mundo que vemos nos filmes. E foi interessante numa noite de sábado quatro brasileiros se reunirem ao redor de uma mesa para falar da vida, após terem percorrido quase 40 quilômetros de umas das trilhas mais famosas, bonitas e difíceis do mundo. O clima era de missão cumprida. Eram quase onze horas quando resolveram fechar o bar e tive que ir para a barraca. Chovia muito forte e dei carona a minha amiga Carolina até a porta de sua barraca. A carona consistia de iluminar o caminho com minha lanterna. Andar sem lanterna na escuridão do lugar, com chuva e com barrancos, era quase um suicídio. Entrei na barraca, dei boa noite para o Diego e fiquei pensando que o dia seguinte seria o grande dia, o dia de conhecer Machu Picchu e realizar um sonho de quase trinta anos. Dormi ouvindo o barulho da chuva batendo na lona da barraca a poucos centímetros do meu rosto. Trilha Inca (4º dia) Acordamos ás 03h30 e ainda chovia e fazia um pouco de frio. Por ter ido dormir tarde senti muita dificuldade para levantar. Arrumei minhas coisas e fui me reunir ao pessoal dentro do bar. Enquanto todos tomavam café, preferi ficar sentado num canto cochilando. Depois teve a reunião de todas as manhãs explicando a programação das próximas horas. Em seguida começamos a descer a montanha, abandonando de vez a Trilha Inca. Seguimos num ritmo forte e felizmente a chuva logo parou. Íamos clareando a trilha com lanternas, pois a escuridão era total. Mais uma vez encontrei o “cão inca” que parou na minha frente e se deitou na trilha, bem onde eu ia passar. Após pouco mais de uma hora de caminhada e com o dia começando a clarear, chegamos à margem do Rio Urubamba. Aproveitamos para descansar e esperar o restante do pessoal do nosso grupo. Aproveitei para tirar o casaco e percebi que minha camiseta estava toda molhada de suor. Ás 07h00min o grupo estava todo reunido e fomos até um posto de controle em frente a uma pequena ponte que atravessa o rio Urubamba. Tivemos que esperar um pouco até um funcionário abrir um portão que dá acesso a ponte. Atravessamos a pequena ponte que chacoalhava muito e logo estávamos nos trilhos do trem seguindo para Aguas Calientes. Não demorou muito e a chuva recomeçou. Pelo caminho vi pedras enormes que pareciam ter caído da montanha poucas horas antes. Mais tarde ficamos sabendo que na noite anterior tinha acontecido um pequeno tremor de terra na região. Caminhei um bom tempo sozinho e depois com meu amigo Diego. Conforme nos aproximávamos de Aguas Calientes a chuva aumentava. A estrada de ferro segue todo o tempo ao lado do rio. Passamos por algumas poucas casas e por uma represa. Pouco mais de uma hora de caminhada e chegamos a Aguas Calientes sob muita chuva. Paramos debaixo de uma marquise para descansar e esperar o restante do pessoal. Depois fomos até um restaurante cujo dono é argentino e ali deixamos nossas mochilas e fomos comprar ás passagens do ônibus que leva até Machu Picchu. Antes de partir para a Trilha Inca, falei com meu irmão pela internet e ele me contou que estava indo para o Peru a trabalho. Então ele disse que tentaria ir para Machu Picchu no domingo e tentaria me encontrar por lá. Depois não tivemos mais contato e eu não sabia se ele tinha ido mesmo para o Peru. Quando estava na fila para comprar a passagem do ônibus, vejo meu irmão descendo tranquilamente pela rua ao lado. Fui em direção a ele rindo e ele tomou o maior susto ao me ver. Foi um encontro não programado, pois pelo plano original não era pra eu estar em Aguas Calientes naquela manhã. Foi um encontro muito legal, pois nada como encontrar alguém da família após os difíceis dias na Trilha Inca. Apresentei meu irmão a alguns amigos do grupo e a nossos guias. Ele foi bem recebido por todos e a partir dali acabou fazendo parte de nosso grupo e seguiria junto conosco para Machu Picchu. Ali terminava a aventura pela Trilha Inca e iniciaria uma nova aventura rumo a Machu Picchu. Missão cumprida! Essa era a sensação geral e mesmo não tendo percorrido a Trilha Inca por inteiro em razão do desmoronamento e do fechamento da trilha, todos estavam contentes e ansiosos para chegar logo a Machu Picchu que estava bem perto, na montanha pouco acima de onde estávamos.
  13. vanderdissenha

    Agências para a Trilha Inca

    Na segunda noite começou a chover ás seis da tarde e seguiu sem parar até amanhecer o dia. Estavámos no acampamento perto de um posto de controle do governo e vi quando chamaram um de nossos guias para ir no Posto de Cotrole. Logo depois os guias chamaram todos do grupo e informaram que o Posto de Controle ao lado tinha sido avisado por rádio que choveu muito na parte final antes de Machu Picchu e que ocorreram deslizamentos lá, tornando a trilha insegura. Diante disso fomos informados que seguiriamos até o último acampamento no dia seguinte, pernoitariamos lá e na manhã seguinte desceriamos até Águas Calientes para pegar o ônibus até Machu Picchu. Foi uma desolação total, mas logo todos se conformaram e entenderam que era para o nosso bem, para nossa segurança. Tinha chovido muito mesmo e descer a montanha e seguir pelo trilho do trem até Águas Calientes, era mais tempo de caminhada do que percorrer os últimos 8 km de Trilha Inca. Então sabiamos que não estavámos sendo enganados, pois não tinha lógica caminhar mais se não fosse pela nossa segurança. E pra piorar choveu praticamente o dia todo no último dia de Trilha e a última noite também. Na manhã seguinte levantamos ás 3h30min pra descer a montanha e seguimos depois caminhando ao lado dos trilhos do trem. Voltou a chover muito e dava pra ver pelo caminho ao lado dos trilhos, pedras que tinham caído do morro naquela noite. Chegando em Águas Calientes encontrei por acaso, no meio da rua, o meu irmão. Ele tinha ido ao Peru depois de mim e como não gosta de caminhar, foi direto até Águas Calientes para pegar o ônibus. Meu irmão contou que ali tinha chovido a noite toda e que tinha ocorrido até um pequeno tremor de terra. Diante de tudo isso fiquei conformado em não ter feito toda a Trilha Inca. Fiz 90% da trilha, peguei dois dias de sol, então não dava pra reclamar, principalmente pq eu sabia que janeiro é época de chuvas por lá. Subimos até Machu Picchu e depois de uma hora e meia lá, começou a chover e não parou mais. Mesmo assim foi muito bom tudo o que vi, fiz e ás muitas pessoas que conheci. Voltando para Cuzco perguntei em duas agências de turismo que vendem pacotes pra Trilha Inca, sobre o estado da Trilha. Informaram que está tudo bem, que ela está toda aberta. Mas desconfio de tal informação, pois o pessoal das agências não vai dizer que parte da Trilha está fechada, pois podem perder vendas. Ainda na trilha conversei com duas pessoas do governo peruano, que fazem o controle da trilha e me disseram que a mesma ficará fechada em sua parte final até meados ou final de março, para manutenção. Então não sei em quem acreditar, se no pessoal do governo ou no pessoal das agências. Acredito mais no pessoal do governo, pois eles não tem motivos pra mentir. Já o pessoal das agências tem, para não perder vendas. Pra eles é melhor dizer que está tudo bem, vender o pacote para a trilha e lá em cima a pessoa que comprou descobrir que a parte final está bloqueada, do que dizerem que a parte final está fechada e o comprador desistir da compra por esse motivo. abraço, Vander
  14. vanderdissenha

    Agências para a Trilha Inca

    Amigos, Acabo de chegar do Peru. Fiz a Trilha Inca de 4 dias e três noites. Fechei a trilha com a agência Brasil de Mochila (http://www.brasildemochila.com ) cujo endereço encontrei aqui no Mochileiros. Paguei metade do valor aqui no Brasil através de depósito bancário, fazendo contato via email. A outra metade paguei em Cuzco, onde entrei em contato com o Sr. Rimber, que é de uma agencia local e o mesmo mandou uma funcionário no meu hotel pra receber o restante do pagamento. E isso aconteceu na véspera da saída para a trilha. Paguei U$ 300,00 o que foi um preço justo pelo que pesquisei. Com relação ao pacote contratado não tenho nenhuma reclamação, correu tudo muito bem. Os guias foram muito atenciosos e não faltou nada. Pra ser sincero achei o valor de U$ 300,00 barato diante da estrutura, comida, transporte e ingresso para Machu Picchu. Pretendo voltar em breve, pra fazer a Salkantay. A única frustração não foi por culpa da agência ou de alguém, mas sim por culpa do tempo. Na penúltima noite choveu muito e teve desmoronamento no trecho final de 8 km de trilha antes de chegar a Machu Picchu. A parte final da trilha está fechada até meados ou final de março, segundo informações de pessoas do governo que encontramos em plena trilha. Depois na última noite na trilha, também com muita chuva, tivemos que descer a montanha e caminhar ao lado do trilho do trem até chegar em Águas Calientes e lá pegar o ônibus até Machu Picchu. Foi frustrante chegar tão perto e ter que descer para depois ir pra Machu Picchu de ônibus. Mas mesmo assim foi inesquecível, pegamos dois dias de sol na trilha e uma noite de lua cheia, muito linda. Depois começou a chover e não parou mais, mas mesmo assim foi muito bom. Nos próximos dias estarei contando sobre a viagem no meu Blog e postarei fotos. Depois informo aqui o endereço do blog para quem tiver curiosidade em saber como foi. Caso alguém queira alguma informação, favor entrar em contato por aqui ou via MP. abraço a todos, Vander Mais fotos da trilha você encontra em meu Orkut, onde diponibilizei um álbum sem restrições de acesso, onde qualquer um pode entrar. O endereço do álbum é: http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=5422026805973870032&aid=1295828248
  15. vanderdissenha

    Transporte Terrestre no Peru - Perguntas e Respostas

    Olá, Estou indo para o Peru no próximo dia 17. Pretendo ir de ônibus de Lima até Cuzco. Pesquisei o preço de passagens áereas e achei meio caras. E nessa pesquisa descobri que o trecho entre Lima e Cuzco, que custa U$ 50,00 para um cidadão peruano, custa U$ 280,00 para um cidadão brasileiro. Os caras protegem os cidadães locais e ferram os turistas. Não achei isso legal, no Brasil não é assim, o preço é o mesmo indenpendente de onde o cara é. E nao adianta tentar bancar o esperto e emitir a passagem com o preço menor, pois na hora do embarque vão descobrir que você não é um cidadão local e te cobram a diferença de tarifa. Alguem saberia me dizer qual da paridade de valores entre 1 sole e 1 dólar? Obrigado, Vander
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