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DanielFrazao

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Sobre DanielFrazao

  • Data de Nascimento 22-06-1978

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    Escritor-Tradutor
  1. Oi galera! Agradeço a todos os elogios ao meu texto! De vez em quando vou estar postando minhas pequenas lembranças por aqui. E mais de vez em quando ainda vou estar viajando para ganhar mais pequenas lembranças hehe! Matozo, fique à vontade pra usar a frase! Considere-a como sua já!
  2. Pois é Rafael, mas até que vc acertou. Já fui colunista de jornal por alguns anos, mais ou menos na época que lancei o meu primeiro livro. O nome da coluna era "Notas de um Moleque Desocupado" rsrs, pra variar hehe. Renata, é verdade, impossível evitar as probabilidades. E as probabilidades sempre pendem pro lado negativo rs. Quando jogamos na MegaSena, a nossa chance é de 1 entre milhões, e sentimos que é impossível. Dentro do avião, a chance de algo mórbido tb é de 1 entre milhões, e sentimos que aquele "1" será justamente o nosso rsrs. Thiago, que bom que gostou! Na hora, essas situações parecem trágicas e tensas, mas depois até que ficam engraçadas hehe.
  3. DanielFrazao

    Mendigando em Lausanne

    Lá estava eu, novamente na Suíça, dois anos depois. É gostoso e ao mesmo tempo triste reencontrar algo depois de alguns anos. É como reencontrar uma garota pela qual você foi apaixonado no colégio. É bonito, mas com uma pontinha de melancolia no fundo. Eu tinha tirado aquele dia para vaguear por Lausanne. Gosto de Lausanne. Durante o dia, é uma cidade aconchegante; à noite, é linda. O fato de ser cheia de ladeiras e curvas me agradava. Alguma coisa nela me fazia lembrar de Santa Teresa, no Rio, ou mesmo de Montmartre, em Paris. Mas acho que o que mais me agradava é que não me sentia pressionado a marcar presença nos pontos turísticos. Podia simplesmente vagabundear por aí, sentar numa amurada qualquer e ver os suíços indo e vindo do trabalho e dos restaurantes. Essa é a grande vantagem de ser turista: você pode ser vagabundo sem se sentir mal por isso. O chão ainda estava molhado da chuvinha que caíra mais cedo. Todos sabem que um dia de chuva é o pesadelo de qualquer turista - na mente dele, aparece a imagem de um calendário com o roteiro da sua viagem e um X vermelho marcado em cima de um dia -, mas aquela chuva até que tinha sido agradável. Não me atrapalhou em nada e me fez descobrir o Palais de Justice, um prédio imponente, cheio de estátuas de guerreiros e leões e um jardim bonito pra burro na frente. Foi um dos meus recantos do dia. Sentei lá e simplesmente esperei a chuva e as horas passarem, enquanto olhava a cidade de cima. Até que chegou um momento em que minha bexiga estourava e eu precisava fazer xixi de qualquer maneira. Segurei até não aguentar mais, e finalmente saí vasculhando as cercanias do Palais de Justice em busca de um lugar decente para fazer xixi. Encontrei um cubículo velho e grafitado que chamavam de banheiro, escondido entre a vegetação da praça do Palais. Era o tipo de lugar em que se pode ser assassinado. Um banheiro mais usado por viciados em crack que por sujeitos apertados. Às vezes temos que arriscar a vida e a grana para fazer xixi. Tudo correu bem, saí vivo lá de dentro, me despedi do Palais e desci a ladeira na direção do centro da cidade. Desde que tinha chegado, topei com um punhado de tipos. Eu precisava me virar em meio a eles. De preferência, conhecê-los. Já passava da hora do almoço e meu estômago roncava. Eu procurava algum lugar para comer onde os vendedores falassem inglês. Um McDonalds, pois Big Mac é a linguagem universal. Foi quando vi um sujeito de barba grisalha ao estilo Papai Noel e roupas surradas, com a mão estendida para os transeuntes. Um autêntico mendigo de Lausanne. Resolvi dar uma grana para ele, pois me sentia bastante generoso. Como não estava a par da cotação de esmolas na Suíça, puxei do bolso uma moeda de 5 francos suíços. Melhor esbanjar que parecer mesquinho. - Bonjour, monsieur - disse o mendigo. - Bonjour, monsieur - repeti. - 5 francs - falei, entregando a moeda para ele. Os olhos do mendigo brilharam e captei um sorriso por trás do bigode de morsa. - Merci, merci, monsieur! - ele disse, enfiando a moeda no bolso. - De rien. Em seguida, o mendigo disparou a tagarelar em francês. Eu não entendia o que ele dizia, mas pela expressão e entonação dava para ver que era algo importante, ao menos para ele. - Pardon, je ne parle pas français - eu disse. - Je suis brésilien. - Ohh... Brésil? - Oui. Ele esboçou um olhar de espanto e admiração, me tomando por um milionário ou algo assim. - Anglais? - ele perguntou. - Oui, I speak English - respondi. - I talk English, "one little" - continuou o mendigo. - That's good. - Where your house à Brésil? - Rio - achei melhor não dizer Nova Friburgo, pois teria que explicar muito mais e fiquei com preguiça. - Ohh, Riô! Riô beautiful! - Oui. Very beautiful. And very dangerous too. - Pardon? - Very dangerous. - "Dangerous"? - Oui. - Ah! Oui, oui! Samba! Carnaval! La musique! Very dangerous! Acho que ele entendeu "very dangerous" como "muito alegre" ou "muito musical". Novamente, fiquei com preguiça de explicar e resolvi seguir na dele que, afinal, não estava de todo equivocada, apenas um pouco exagerada e cartunesca. - Oui. It's a pleasure to live in such a dangerous city - eu disse. - You are lucky man! - exclamou o mendigo. - Very lucky. Suspirei, olhei ao redor, para a ladeira que se enroscava na cidade com um sobe-e-desce cheio de gente, e continuei: - But Lausanne is very beautiful too. - Oui, but not so dangerous. - I can see that. - We don't have that luck. - Don't be sad. Someday Lausanne will be very dangerous, like Rio. - Ohh, monsieur... I pray for this toujour... Dei "au revoir" e segui ladeira abaixo, quase me sentindo bem pela minha cidade tão perigosa. Daniel Frazão
  4. Oi Matozo! Pretendo continuar postando os relatos das minhas viagens sim! Sei que a maioria prefere relatos mais informativos, didáticos e tals (até porque eles realmente são mais úteis; eu mesmo os acho de grande valia nas viagens), mas, acho que até pelo fato de eu ser escritor, não posso evitar, meus relatos vão acabar pendendo mais pra esse estilo narrativo mesmo, sem muita função informativa. Mas enfim, espero que gostem tb hehe!
  5. E lá ia eu para Genebra com uma conexão em Madri. Fazia dias que a ideia da conexão me assustava, pois nunca tinha estado em Madri. Paris era moleza, Genebra era moleza, mas para chegar em toda essa moleza eu precisava passar por Madri, e era aí que o bicho pegava. Até mesmo a sonoridade do aeroporto impressionava: Barajas. Soava como uma espécie de leviatã espanhol com a boca aberta para os aviõezinhos entrarem. Não era o papo de imigração e pente-fino em brasileiro que me preocupava, mas o próprio aeroporto (que pela internet parecia bisonhamente confuso e embaralhado). Meu medo era perder a conexão. O que eu faria em Madri? Tocar castanholas? Virar toureiro? Sentei no terminal do Galeão e esperei. Lá pelo fim da tarde (ou já seria noite? ah, não importa) meu voo chegou. Entrei naquele avião espanhol, cheio de comissários espanhois, e me senti um peixe fora d'água. "Eu devia ter ficado com a Air France", pensei. O avião era apertado e escuro; fazia uns barulhos estranhos, e olha que ainda estávamos no chão. "Parece um bocado velho. Espero que isto chegue em Madri", pensei. Olhando pra trás, devia ser puro preconceito meu, mas que era essa a sensação, isso era. E decolamos. Agora lembro, era noite. Lembro de levantar voo e ver o Rio todo iluminado. Milhares de pontos cintilantes ao redor da Baía de Guanabara que também cintilava ao luar. Seria uma cena bonita se eu não estivesse pensando em outras coisas. Menos de meia-hora depois, o cara ao meu lado puxou conversa. - O que vai fazer em Madri? - Não vou pra Madri. Vou fazer conexão para Genebra - respondi. - Qual é o tempo entre um voo e outro? - Duas horas. - Putz, apertadíssimo. Você vai ter que correr. Aquilo era tudo que eu não queria ouvir. Recostei na cadeira e tentei pensar em outra coisa. Não consegui. Em vez disso, fiquei traçando um roteiro para aquelas duas horas. Levantar, pegar a mala, disparar pelo terminal e etc e etc... Tudo cronometrado. Não podia haver atrasos nem hesitações. É, eu estava preocupado pra caramba. Dá uma folga, eu não conhecia Madri. Foi quando chegamos ao oceano propriamente dito. Eu não via nada, mas sabia que ele estava lá embaixo. Era alta madrugada. O avião chacoalhava sem parar e, em cada chacoalhada, acendia uma luz que nos mandava colocar o cinto de segurança. Quando essa luz acende, significa que há uma possibilidade de que você morra. Pode não ser uma grande possibilidade, mas é uma possibilidade. Por que colocar cinto de segurança quando o avião vai cair? Deve ser para ficar mais fácil de achar seus pedaços, sei lá. Aliás, uma coisa que me deixa fulo é essa galera que diz que avião é o meio de transporte mais seguro que há. "Acidentes de avião acontecem uma vez a cada não sei quantos anos... Para cada acidente de avião, há 300 milhões de acidentes de carro. É muito mais provável que você sofra um acidente de carro que um acidente de avião." Sei. Também é muito mais provável que você seja mordido por um poodle que por um tubarão. Isso significa que os poodles são mais perigosos que os tubarões? Não. Só significa que há mais poodles que tubarões no seu caminho. Mas deixa pra lá. Para essa galera, há mais carros se ferrando que aviões, portanto, aviões são mais seguros. Enfim... Eu já tinha esquecido a questão da conexão e me concentrava no avião, que parecia não achar a saída daquelas turbulências. De cinco em cinco minutos, a luz do cinto de segurança acendia. O cara ao meu lado dormia inabalavelmente. Para fazer o tempo passar, comecei a calcular as chances do avião cair e eu morrer. O resultado girava em torno dos 37% para a minha morte. Não parece muito, mas quando se está sobre o oceano Atlântico, acredite, é muito. Agora vem o pior. Lá na frente, umas cinco, seis fileiras à minha frente, uma gorda começou a passar mal, ter um ataque cardíaco, crise de pânico ou algo assim. Na hora, não vi a gorda passando mal; ninguém viu. Só entendi mais tarde. O que vi foi uma porrada de comissários correr, desesperados, pra frente e pra trás. Mas estavam DESESPERADOS mesmo. Os caras suavam frio, não sabiam o que fazer, comunicavam-se com a cabine por uns radiozinhos e de vez em quando aparecia alguém que devia ser o co-piloto. A cena era dantesca. "Agora ferrou mesmo. O avião tá caindo", pensei. O resultado disparou para 99% a favor da minha morte. Uma galera grande morreria junto comigo, mas isso não é propriamente um consolo, embora seja melhor que morrer sozinho. A essa altura, metade do avião já tinha acordado. Todo mundo estava em pânico e ninguém demonstrava. Os comissários se amontoavam lá na frente, discutindo. Sabe aquela postura padrão dos comissários? A do sorriso, da prestatividade e da calma inabalável? Pois é, já tinha sumido completamente. Eram apenas caras que corriam desesperados e estavam pouco se importando para o que os passageiros poderiam pensar, enquanto o avião seguia chacoalhando. "Caramba, olha só pra esses caras! Com certeza, o avião vai cair!" Tudo que eu queria era estar no meu quarto. Não, tudo que eu queria era trocar de lugar com as pessoas que fazem a comparação dos acidentes de carro com os acidentes de avião. Me dê sua batidinha no poste e venha você explodir em mil pedaços sobre o oceano. No carro você pode tentar sobreviver, não precisa esperar passivamente pela morte enquanto assiste uma tripulação de comissários enlouquecer. A situação deve ter durado uns cinco ou seis minutos, mas pareceu mais longa. Quando um sujeito lá da frente passou pela minha cadeira (um daqueles caras que nessas horas se oferecem para ajudar, você conhece o tipo), perguntei o que estava acontecendo, meio que já imaginando. - É uma gorda que está tendo um ataque cardíaco. ÓTIMA NOTÍCIA!!! O avião não ia cair! Recostei na cadeira, abri um baita de um sorriso e aproveitei o momento. Eu estava vivo. Continuaria arriscando minha vida nas estradas, dentro dos carrinhos, continuaria sendo mordido pelos poodles, mas não importa. A partir daí, o voo seguiu às mil maravilhas. E não precisa me xingar nem me achar um tremendo sacana. No fim das contas, a gorda não teve nenhum ataque cardíaco, era só um pânico qualquer. E mesmo que tivesse, é compreensível que eu me sinta bem por ter escapadado de aparecer na CNN no meio de destroços, né? Ah, sim, e tudo correu bem na conexão de Madri. Daniel Frazão
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